A Morte Das Areias do Saara

14 O que acha que somos?


Notas iniciais
olá!! a empolgação (e a preguiça pra estudar) estavam em alta hj então tá saindo o capítulo logo XD yeey alerta: esse cap contém violência. esse cap contém sangue. esse cap contém palavrões em egípcio antigo kkk divirtam-se e não fiquem com raiva de mim XD

Peço-te, não me deixe cair na podridão, como tu permitir todo deus, e toda deusa, e todo animal, e todo réptil, ver corrupção, quando a alma saiu deles, após a sua morte.

~Fragmento Livro dos Mortos

As águas turvas do Nilo o cercavam para qualquer direção que Anúbis olhava. Completamente submerso, notava como as águas estavam agitadas e algo o puxava pela perna esquerda. Ele olhou para baixo e viu o crocodilo preso tentando o morder e arrancar sua perna. Contudo, o olhar calmo do jovem deus mostrava que o crocodilo não conseguiria fazer isso. As presas, mortais, do crocodilo nada podiam fazer contra a pele imortal. As tentativas do crocodilo de conseguir uma entrada para seu almoço foram logo para os ares quando Anúbis rapidamente focou seu poder na perna na qual o crocodilo se agarrava e, no instante seguinte, o crocodilo não passava de pequenos restos de ossos e carne.

Outro crocodilo se aproximava visando seus outros membros mas outra coisa preocupava Anúbis, a movimentação frenética e a cor avermelhada da água à sua direita. Ahmen. Sem perder mais tempo, Anúbis nadou cobrindo a pequena distância que separava ele de Ahmen. Sempre que alcançava algum crocodilo, rapidamente o desintegrava com um toque. As braçadas e pernadas até o amigo foram frenéticas e não se preocupou com discrição quando alcançou Ahmen, que se debatia e gritava mesmo embaixo d’água acabando por engolir água, e junto com ele sumiu se transformando em fumaça. Nunca tinha se transportado, ou melhor, viajado pelo duat, carregando um humano antes, mas ali não tinha tempo para erros ou acertos. Felizmente, em um minuto estavam na água e no outro caíam com um leve baque na areia à alguns metros das bordas da água.

A dupla foi recebida pelo grito de Shadya resultante da aparição repentina dos dois. Qebui parecia ter levado tanto ela como Neby para a areia. Aparentemente, a pequena construção de onde tinham começado a competição tinha sido lentamente tomada por mais crocodilos. Neby latia e Qebui estava ocupado usando magia para afastar os vários crocodilos que se aproximavam arrastando as barrigas pela areia. Ocupado tentando afastar eles, devido a quantidade, Qebui mal podia acertar um golpe neles para de fato matar os animais.

Contudo, todos esses detalhes de Qebui foram completamente ignorados por Anúbis ao ver o sangramento na lateral direita do corpo de Ahmen. O sangramento do braço que agora lhe faltava.

— Ahmen! — gritou Shadya chorosa ao lado de Anúbis.

Frenético, sem tempo para pensar muito, Anúbis só pensava nos outros e em como tinha que parar o sangramento de Ahmen. Não precisava se preocupar com Anput, sabia que ela estava bem, mas se preocupava com Chenzira e Iset. Quando o olhar do jovem deus passou por Shadya, notou que ela segurava fortemente as camisas que eles haviam deixado para trás antes de entrar na água. Ele pegou uma qualquer e tento parar o sangramento. Nunca amaldiçoou tanto o fato de não conseguir realizar qualquer magia de cura. Ahmen se debatia e gritava parecendo cada vez mais pálido enquanto o sangue jorrava de onde uma vez esteve seu braço e das feridas feias mas bem menos preocupantes que ficaram inconcluídas quando Anúbis se transportou junto com o amigo.

Nek! — reclamou ele com as mãos cheias de sangue do amigo — Shadya! Shadya! Segure aqui!

— M-Mas… — gaguejou a garota insegura.

Com a mão ensanguentada, ele puxou Shadya pelo pulso.

— Sei que não é nada agradável mas, por favor, segure aqui com firmeza. Tenho que checar Anput, Chenzira e Iset.

— Não precisa se preocupar com as garotas — disse Qebui enquanto Shadya finalmente fazia o que Anúbis pediu.

Assim como Anúbis tinha aparecido do nada carregando Ahmen, Anput apareceu do nada carregando Iset. Anput estava tão intacta quanto Anúbis, mas Iset tinha marcas de mordida que foram interrompidas antes de realmente fazerem algum estrago considerável.

— Eu cuido dele! — disse rapidamente Anput ao ver que a situação de Ahmen era bem pior que de Iset — Vá salvar Chenzira!

Não havia necessidade de mais palavras serem ditas. Anúbis imediatamente desapareceu e reapareceu onde Chenzira estava. A água se mexia, revoltada. Ali era onde aparentemente estava a maior concentração de crocodilos. Talvez, apenas talvez, Shadya tenha saído mais ilesa porque os crocodilos acharam que Chenzira parecia mais apetitoso.

Sem tempo para pensar em mais nada, Anúbis se aproximou do amigo com o coração apertado vendo os crocodilos se debaterem freneticamente mas nenhum movimento voluntário de um corpo humano. Desintegrava os crocodilos quando podia. Não podia desintegrar Chenzira por acidente no meio da confusão. Em um dado momento, pode ver a mão de Chenzira. Desesperado, tocou-a e seu coração se apertou mais quando a mão flutuou seguindo o fluxo do rio sem nada para a conectar no cotovelo. Algo tocou seu pé. Achou ser outro crocodilo mas viu que era um outro pé. Um grito mudo pelo nome do amigo ecoou na água. A expressão de desespero foi substituída por uma de surpresa e dor quando desintegrou crocodilos suficientes para ver diante de si o corpo desmembrado e o olhar sem vida do amigo. Um enorme pedaço do ombro direito lhe faltava, assim como qualquer membro e também sua cintura esquerda.

Os crocodilos que tentavam inutilmente devorar o deus não era mais importante. A estranheza da situação ainda não era importante. Ainda não. Mas mesmo assim, foi com ódio e rancor que Anúbis desintegrou qualquer crocodilo que tocava seu corpo. O que importava agora era que não podia deixar o corpo do amigo ali. Anúbis tocou no corpo de Chenzira, ou da maior parte do que restava dele, e mais uma vez se transportou. Na areia, deixou que o corpo de Chenriza caísse lentamente e o jovem deus se ajoelhou deixando que a névoa negra e tenebrosa escondesse dos olhos dos amigos os horrores que tinham acontecido com o amigo.

— Anúbis? — perguntou Shadya olhando para ele com uma expressão indecifrável.

Anúbis lentavou o olhar para ela e viu, no meio do caminho de seu olhar, Anput curando Ahmen que lutava bravamente para manter a consciência enquanto Iset também não parecia muito bem mas era capaz de tentar, com uma das camisas deles, segurar o sangue que escorria de um de seus ferimentos.

— E… Chenzira? — perguntou Shadya olhando para ele e para a estranha névoa que não se dissipava tentando entender o que estava ali.

Mais além, Anúbis viu Qebui se livrar do último crocodilo que tentava se aproximar. A estranha imagem dos outros crocodilos se distanciando foi acompanhada da imagem de Sobek à distância. Quase na margem oposta do Nilo, o deus crocodilo olhou para o grupo. Raiva estava em seu olhar, mas também um sorriso de triunfo, quando ele desapareceu deixando o grupo sozinho para resolver a problemática sangrenta.

— Anúbis? E Chenzira? — perguntou Anput dessa vez.

A garota havia terminado a cura de Ahmen que agora, deitado sobre a areia, olhava com estranheza e grande fraqueza a estranha névoa negra que se movimentava ao redor de Anúbis e principalmente à sua frente escondendo o corpo de Chenzira. Anput ia agora para Iset que, graças aos ferimentos feios, mas mais leves que Ahmen, teria uma cura mais rápida e menos cansativa.

A resposta de Anúbis para a pergunta da jovem deusa foi apenas um olhar cabisbaixo e uma negação com a cabeça.

— N-Não… — gaguejou Ahmen.

— N-Não pode ser… diz que não é verdade… — disse Shadya com as pernas bambas caindo no chão deixando as lágrimas encherem seu olhar e rolarem pelo seu rosto.

Diante da revelação, o grupo ficou em silêncio. O único barulho que pode ser ouvido foi de Neby que, à sua própria maneira, fazia barulhos de choro e se sentava ao lado de Anúbis.

— O que você tem aí é o que eu acho que é? — perguntou Qebui quebrando o silêncio depois de algum tempo.

Anúbis afirmou com a cabeça antes de responder verbalmente.

— Eu não podia deixar ele lá daquele jeito — explicou ele.

Anput afirmou brevemente com a cabeça e abaixou os braços junto ao corpo ao terminar a cura de Iset que ainda não parecia acreditar no que tinha acontecido. Qebui tomou uns segundos para olhar para o lugar onde Sobek estava antes e então olhar para Anúbis. O mero trocar de olhares era o suficiente para que os dois vissem que ambos tinham visto Sobek. Contudo, Anput, que tinha se ocupado com a cura, não tinha visto nada e foi um olhar interrogatório que ela lançou aos rapazes. Todavia, essa conversa que o trio queria ter poderia esperar um pouco.

— E-Então… essa fumaça… n-negra… — disse Ahmen fracamente tentando se levantar mas Shadya logo se aproximou e impediu que ele fizesse isso.

— Não levante! Está muito fraco! — ralhou ela.

Anúbis olhou para a fumaça negra diante de si e suspirou antes de dizer:

— A fumaça esconde Chenzira — explicou Anúbis.

— Mostre — demandou Iset atraindo o olhar de Anúbis.

— Tem certeza? Não é uma visão muito agradável. — alertou ele

— Ele é meu amigo também! — disse Iset com os olhos enchendo-se de lágrimas e logo escorrendo pelo seu rosto.

Quando a fumaça começou à se dispersar, Shadya fechou os olhos e botou a mão na frente sem querer encarar a dura realidade. Ao ver o corpo mutilado, destroçado e sem vida de Chenzira, o grupo começou a chorar ainda mais até que Shadya foi vencida por sua curiosidade e, ao abrir os olhos, foi recebida pela horrenda visão que fez com que ela vomitasse imediatamente sobre a areia levemente amarelada enquanto Iset e Ahmen seguravam os vômitos com sucesso. Até mesmo Qebui sentia as lágrimas enchendo seus olhos mas tentava as manter ali mesmo.

— P-Po-Porque raios isso tinha… que… acontecer? — perguntou Ahmen com dificuldade — E-Esse lugar…. n-nunca… teve… c-crocodilos.

— Sobek — disse Qebui sem hesitar.

— E-Era por isso que vocês estavam se e-entreolhando? Como têm tanta certeza? — perguntou Anput soluçando chorosa.

— P-Pera… o deus S-Sobek? — perguntou Iset com expressão de surpresa e favor no rosto.

— Nós irritamos os deuses? — perguntou Shadya preocupada.

— Vimos-o… — disse Anúbis lentamente ainda cabisbaixo mais para Anput do que para Iset — Quase da outra margem do rio.

— Não acham que estamos falando demais? — perguntou Qebui virando o rosto para disfarçar que limpava uma lágrima que, rebelde, escapou de um de seus olhos e rolou por sua bochecha.

— Como se desse pra esconder muito depois de tudo isso — disse Anúbis que não fazia questão de esconder as lágrimas que rolavam pelo seu rosto.

— V-Vocês realmente tem muito para explicar — disse Iset pegando em sua camisa largada ao seu lado para fungar o nariz mas quase desistindo ao notar que estava manchada de sangue. Na falta de alternativas, teve que se contentar com isso.

Enquanto isso, Ahmen, com o braço que lhe restava, passava a mão nas costas de Shadya tentando aliviar tudo que era resultante do recente vômito da garota. Com um sorriso fraco e triste de agradecimento, ela enterrou o vômito na areia tentando arranjar algo para fazer para que pudesse evitar olhar para o corpo de Chenzira.

— Por hora… acho que temos que deixar ele em casa — disse Anúbis com a voz repleta de pesar.

Embora a voz de Anúbis estivesse repleta de pesar, ao olhar para o corpo do amigo, outros pensamentos vinham até ele automáticamente, perguntas que ele já havia se perguntado antes mas nunca tinha dado à devida importância. “Para onde Chenzira iria agora?” era uma delas e Anúbis sabia por algum motivo que a alma, que o ka, de Chenzira iria para algum lugar. Provavelmente se perderia no Duat sem nada que a guiasse. Mas… deveria o corpo se preparar para o que viria no além? Deveria a alma ser guiada e ter um destino final definido para si?

Anúbis sacodiu levemente a cabeça querendo deixar essas perguntas irem para longe e focar agora no amigo.Tinham uma terrível notícia para dar e não sabiam como contá-la para a mãe de Chenzira e para a sua irmã mais nova que já havia sofrido muito alguns anos antes quando Petiese, irmão de Iset e Shadya, morreu. O jovem deus se levantou. Seu coração estava tomado pela preocupação, como se algo ruim tivesse acontecido ou estivesse acontecer. E isso não envolvia o braço de Ahmen e a vida de Chenzira. Ele olhou para a outra margem do rio, para onde Sobek estava de pé até então. Sobek trabalhava para Set. Estava do lado de seu pai. Sabia disso. Aquele ataque foi um ataque proposital. Mas, pela expressão de surpresa que brevemente viu no rosto do deus crocodilo, imaginava que, embora o ataque fosse proposital, a presença dos três deuses ali era uma coincidência ou uma novidade.

— Vamos levar Chenzira para casa e deixar todos num lugar seguro — disse Anúbis sério olhando para Anput e então para Qebui — Depois vamos atrás daquele neket iadet do Sobek.

— V-Vão atrás de... u-um deus? — perguntou fracamente Ahmen surpreso — Estão... doidos?

— Vão se vingar? Vão acabar atraindo à ira dos deuses! — alertou Shadya preocupada. Qebui bufou revirando os olhos embora, no fundo, estivesse um tanto receoso pois Sobek era provavelmente mais forte. Tentaria dialogar a ideia com Anúbis depois.

— “Atrair à ira dos deuses” — repetiu Qebui cruzando os braços e olhando para Shadya — O que acha que somos, mortal?

Notas finais
############## REFERÊNCIAS ############### Livro dos Mortos:https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Sobek: https://en.wikipedia.org/wiki/Sobek ################################ e... é isso por hoje... desculpa a carnificina :v mereço ao menos comentários?