Notas iniciais
desculpa a demora pra postar!! aproveitem o cap

E ela disse: "O que é isso, ó pai divino? O que é isso? Uma serpente atirou seu veneno em ti? Uma coisa que tu criaste levantou sua cabeça contra ti? Em verdade, ela será derrubada por palavras benéficas de poder, e eu a farei recuar à vista de teus raios." O deus santo abriu sua boca, [dizendo], eu estava indo pela estrada e passando pelas duas terras do meu país, pois meu coração desejava olhar para o que eu tinha feito, quando fui mordido por uma serpente que eu não vi; eis que é fogo? Eis que é água? Eu sou mais frio que a água, eu sou mais quente que o fogo, todos os meus membros suam, eu mesmo tremo, meu olho está instável.~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Misturado à água do Mediterrâneo, Hapi seguia Tifão, sentindo o peso do medo o puxando para as profundezas, mas ele resistia. Se o Egito perdesse a cheia do Nilo agora, no meio de tantos problemas já assolando a terra dos faraós, o caos seria inevitável. Mas não era como se fosse fácil notar Hapi ali, já que pouca diferença havia entre ele e a água. Se é que existia alguma. Todavia, ainda assim, a nuca de Hapi se arrepiava, mesmo que sua nuca no momento não passasse de água pela qual peixes passavam, tentando ganhar distância do enorme gigante que nadava em direção às ilhas micênicas, deslocando enormes quantidades de água a cada movimento. No meio daquela imensidão azul, Hapi sentia que havia outro de grande poder além dele e de Tifão ali.

Os peixes fugiram em todas as direções, aterrorizados pela presença do monstro tal como o deus egípcio que o seguia. A diferença era Hapi continuava indo em frente, na direção de Tifão, até que Tifão começou a sair numa praia em terras micênicas. Cauteloso, Hapi colocou a cabeça para fora d’água, junto com algumas ondas, mas não viu nada demais enquanto Tifão seguia entrando cada vez mais naquelas terras. Hapi xingou mentalmente quando notou que teria que deixar a segurança do mar se quisesse continuar a seguir Tifão. Cada gota de si gritava contra a ideia de se expor naquela terra estrangeira. Ainda assim, se forçou a avançar, se infiltrando em córregos e riachos, tornando-se parte do fluxo natural da paisagem, e por uns minutos tendo que se passar por uma estranha poça d’água, que se movia em direções que não faziam sentido para o relevo do lugar.

Ainda assim, podia sentir seu coração tentando sair pela boca de quão preocupado estava. Hapi quase podia ouvir seu coração batendo alto a ponto de todos ouvirem, mas sabia que não era o caso, era só a preocupação que tomava conta de si. Especialmente quando vi que Tifão estava falando com alguém.

— Queria me vingar… — resmungava Tifão como uma criança mimada gigantesca, no pouco que Hapi ouvia.

— Seguir o plano é mais importante. — uma voz feminina o respondia.

Poucas teorias surgiam na mente de Hapi sobre com quem Tifão estava falando, e não gostava de nenhuma delas. Contudo, quando se rastejava mais parecendo uma poça de água que se movia anormalmente sem seguir a gravidade, Hapi teve que conter sua necessidade de soltar uma exclamação de surpresa. Na direção para onde Tifão ia, Zeus dormia largado no chão de qualquer jeito. O coração de Hapi pulou de alegria diante de uma promessa de ir embora dali, tudo o que precisava era acordar Zeus.

— Onde está Hipnos? — perguntou a voz feminina misteriosa cuja dona Hapi não via.

— Ele ajudou… — respondeu Tifão, com sua voz fazendo tremer as árvores.

— Mas já era para ter voltado. — continuou a voz — Temos que manter Zeus dormindo ou tem que acabar logo com ele .

— Ah… os egípcios pegaram ele… lembrei agora… — disse Tifão.

— Como assim “lembrou agora”? — perguntou a voz, claramente irritada — Eu deixo de ficar de olho em você por um minuto…

Com cuidado, Hapi tentou se aproximar mais de Zeus. Tifão havia parado de andar e parecia estar discutindo com o chão. Se não fosse o fato de que estava parcialmente transformado em água, Hapi teria ficado mais pálido quando entendeu o que deveria significar o fato de Tifão estar discutindo com o chão.

Enquanto isso, no Salão do Julgamento, os deuses continuavam a encarar Hipnos, que dormia tranquilamente amarrado em faixas de linho como se sua situação estivesse muito confortável.

— Hipnos não é muito corajoso… e é muito preguiçoso... — dizia Ártemis — Acho que se usarmos as ameaças certas, podemos fazer ele falar algo mais.

— Claro, tirando o fato de que realmente tirar a faixa da boca dele é perigoso. — lembrou Thoth.

— Ele está seguindo ordens de Nyx, tenho certeza. — disse Ares.

— Pode até ser, mas porquê? — perguntou Ártemis — Nyx é poderosa demais já. Porque atacar o Olimpo assim com Tifão do nada? Não acho muito do feitio dela.

— Ela é vingativa. — sugeriu Apolo enquanto Hipnos roncava de forma abafada por baixo do linho que lhe tapava a boca e Kebechet lhe cutucava até Hipnos cair no chão, ainda dormindo.

— Mas ela geralmente não se envolve nas coisas por aqui… só quando vão até lá. — lembrou Ártemis, tal como os demais, ignorando a queda de Hipnos no chão — Ela é velha demais..

— Não deixe ela te ouvir falando assim. — lembrou Apolo.

— Meu ponto é… — continuou Artemis, revirando o olhar — Se ela quisesse acabar com a gente, tinha jeitos muito mais práticos e teve muito mais tempo para fazer isso.

— E tem coisas demais acontecendo que parecem estar interligadas. — disse Thoth — Os exércitos… se é que podemos chamar assim… de refugiados chegando nos atacando com armas mais avançadas do que faria sentido.

— Ah, temos esses também. — disse Ares.

— E eles estão trazendo doenças. — disse Apolo.

— Não só aqui, mas com os hititas as coisas também estão estranhas demais. — disse Anúbis — É muita coisa pra ser só Nyx e Hipnos nisso.

— Tem como tentarmos falar com ela sem… sem deixar claro que estamos com o filho dela de refém? — perguntou Hórus.

— Se ela já não souber… — resmungou Afrodite.

— Caso ela já não saiba, ela vai saber no meio da conversa. — disse Ares.

— Bem… nenhum de nós conseguiria… mas talvez o vizinho dela? — perguntou Apolo, timidamente.

— É ISSO! — exclamou Ares repentinamente, se tivesse algo socável por perto, certamente teria socado — Hades não deu as caras até agora e é vizinho de Nyx e de toda podridão mais que se esconde no Tártaro. Com certeza está envolvido.

— Isso não faz nem sentido! — exclamou Anúbis — O que poderia ter nisso para ele? Mais morte é só mais trabalho pra gente! E eu estava lá pouco antes dos terremotos começarem! Apolo esteve lá também.

O olhar dos deuses micênicos se concentraram todos em Apolo, enquanto Anput revirava o olhar diante às acusações à Hades. Contudo, diante dos olhares questionadores dos parentes sobre si, Apolo rapidamente negou com a cabeça.

— Foi muito rápido. — justificou Apolo, rapidamente querendo se tirar do meio da confusão — Só queria saber mais sobre os mortos por doença… Parece que estamos entrando numa praga ou numa epidemia. Esses refugiados estão trazendo doenças consigo… complicando ainda mais nossa situação. Como se guerra civil já não fosse suficiente.

— Pode ser uma tentativa de Hades de fazer um álibi. — acusou Ares, o que só fez Anúbis revirar o olhar com muita força.

— Como uma tentativa de HADES de fazer um álibi se foi APOLO que foi até lá? — questionou Anúbis.

— Com todo o respeito, mas você não conhece Hades como a gente… — comentou Ares, fazendo pouco caso.

— Apolo foi o primeiro que eu vi indo até lá… — rebateu Anúbis.

— Ele pode estar querendo um posto longe daquele… lugar… — disse Afrodite com certo desgosto, cortando a fala de Anúbis — Algo no Olimpo.

— Isso não faz nem sentido mas, se é assim eu vou lá e vamos interrogar Nyx com alguém que seria o mais neutra possível. — disse Anúbis.

— Apesar de achar exagerada a ideia de Hades estar envolvido… — disse Osíris, parando um momento para suspirar — Gosto da ideia de ir investigar sobre Nyx. Mas precisamos que fique aqui, Anúbis, certificando que Hipnos não romperá as amarras.

— Eu posso ir no lugar. — disse Anput, prontamente.

— Tem certeza? — perguntou Anúbis, preocupado, deixando Hades pra longe de suas preocupações e focando em Anput. Afinal a fama de Nyx era grande e tenebrosa — Nyx não é bem… Você sabe…

— Eu consigo me virar. Relaxa. — disse Anput, decidida — Só não deixe Kebechet vir também.

— Ei! — exclamou a garota, que já estava pensando em escapulir.

— Claro que não. — respondeu Anúbis, colocando a mão sobre o cabelo de Kebechet e lhe bagunçando levemente.

— Tome cuidado ainda assim. — disse Hathor antes de Anput deixar o Salão do Julgamento para trás após dar um rápido beijo na bochecha de Anúbis.

Chegar diante da mansão que Hades chamava de casa já não era tão difícil dado o tanto de vezes que Anput já esteve lá, e a visita dela também não era mais tão rara assim comparando com quando o submundo micênico apenas engatinhava. Mesmo que, na comparação com o egípcio, sempre pareceria que ele apenas engatinhava. Anput olhou para a casa de Hades do ponto em que havia aparecido diante da casa, a uma distância respeitosa, e não demorou muito para um olhar discreto de Hades aparecer de uma das janelas, e não se surpreender muito ao ver Anput ali.

— Perséfone está cuidando dos jardins dos fundos. — disse Hades.

— Na verdade queria falar com você. — disse Anput, fazendo uma leve expressão de surpresa se estampar no rosto de Hades enquanto um olhar de estranhamento passava nos olhos dela — As coisas estão… calmas por aqui?

— Porquê não estariam? — perguntou Hades, confuso, sumindo de sua janela e ressurgindo diante de Anput — Não tem muito tempo que seu marido saiu daqui. Sei que tem tido uns terremotos lá em cima mas… súbitas ondas de morte não são tão novidade. Aconteceu algo?

— Oh… então não sabe o que está acontecendo? — disse Anput — Porquê tem gente até colocando a culpa… ou ao menos parte dela… em você…

— COMO É? — exclamou Hades, tomado de raiva — Toda hora isso! Não se pode ser nem anti-social em paz! Deixa eu adivinhar… estão falando que eu quero ir pro Olimpo? Roubar o lugar de Zeus?

— Isso estava dentre as acusações, sim. — afirmou Anput enquanto notava Perséfone lentamente chegando dos fundos da casa, suja de terra, provavelmente atraída pelo grito do marido.

— Eles tem cabeça de melão ao algo assim? — reclamava Hades — Eu ESCOLHI ficar no submundo!

— Oi… — disse Perséfone timidamente, se juntando na conversa — Porque os gritos?

— Nenhuma novidade… aqueles idiotas do Olimpo me acusando de coisas de novo! — resmungou Hades — Não conseguem entender que estou muito bem aqui.

— Mas o que aconteceu para estarem te acusando agora? — perguntou Perséfone, olhando para Anput e para Hades, em busca de uma resposta.

— Então… Zeus sumiu, Tifão acordou e foi até o Egito atacar, seguindo alguns dos deuses micênicos que acharam uma boa ideia fugir pro Egito… — disse Anput.

— Como? — perguntaram Perséfone e Hades ao mesmo tempo.

— Estamos com Hipnos de refém… ele estava envolvido também, tentando ajudar Tifão… — continuou Anput.

Por alguns segundos, Hades e Perséfone apenas alternavam o olhar entre Anput e eles mesmos. Saber que Tifão estava por aí, fazendo um caos, era muito preocupante. Conheciam bem a fama dele. Anput explicou mais alguns detalhes, que Anúbis estava de olho em Hipnos, que achavam que tudo podia estar ligado com as outras coisas acontecendo pelo mundo e que Hapi seguia Tifão naquele momento. Mas, a verdade é que, no final das contas, algo ainda parecia errado. Hipnos estar na confusão já era algo difícil de aceitar.

— Hipnos? — questionou Perséfone — Ele… ahm… com todo respeito… ele é o…

— Ele é o mais preguiçoso de todos. — completou Hades, cruzando os braços, sem papas na língua — Não é tão fácil convencer ele a fazer algo que envolva sair da cama. Mas ele é perigoso ainda assim. Ele já fez Zeus dormir uma vez e não duvidaria se estivesse fazendo isso novamente. Se acharem Zeus, que deve estar por aí, devem conseguir acordá-lo… se não, é só questão de tempo até ele acordar. Da outra vez, Zeus ficou muito irritado. Só não acertou as contas com Hipnos por causa da mãe dele.

— Nyx. — disse Anput — Está na lista de suspeitas.

— Espero que tenha vindo aqui para validar isso e não para checar meu álibi. — comentou Hades.

— Primeira opção. — respondeu Anput — Achei que uma companhia que conhecesse melhor ela seria uma boa ideia. Sem falar que não é de bom tom sair invadindo seu submundo assim, sem você saber.

— Fez bem. — respondeu Hades, gostando da resposta — Ainda assim… Nyx estar no meio disso também não faz muito sentido. O que ela teria para ganhar? Imagino que já tenha tudo que possa querer. Ir lá na casa dela perguntar é loucura, mas não deixa de ser uma opção bem tentadora.

— Vão até a casa de Nyx? — perguntou Perséfone, preocupada — Tem certeza que é uma boa ideia. Vocês não estão com o filho dela de refém? Vou também.

— Não mesmo. — rebateu Hades — Sabe como Nyx é.

— Vou também. — afirmou Perséfone novamente, cruzando os braços e encarando Hades seriamente.

Anput apenas olhou de um para o outro, enquanto o casal se encarou numa discussão silenciosa que terminou com Hades suspirando e revirando o olhar, silenciosamente declarando a derrota. No instante seguinte, as sombras sob os pés dos três ficaram mais escuras e começaram a os engolir. A casa de Hades e Perséfone ficou para trás e o ar pesado daquela parte do submundo foi substituído por um ar muito pior, ácido, ameaçador e feito do puro caos, o ar do Tártaro.

A casa de Nyx era arrepiante, um pesadelo vivo, pulsante e inquieto, feita de milhares de insetos, de todos os tipos possíveis, que andavam, se contorciam e voavam, mantendo a forma daquela casa repugnante. Baratas gordurosas rastejavam sobre besouros de carapaça brilhante, enquanto centopeias se entrelaçavam como veias pulsantes na estrutura retorcida. As asas translúcidas de mariposas e mosquitos batiam em um zumbido incessante, um coro enlouquecedor que enchia o ar com uma vibração doentia.

Os pelos na nuca de Anput se arrepiaram e a bile subiu em sua garganta. Sua vontade de fugir explodiu dentro de seu peito, primitiva e avassaladora, mas suas pernas pareciam cravadas no chão, paralisadas por um misto desconfortável de pavor e determinação. Seus olhos queriam desviar o olhar enquanto a casa parecia sussurrar-lhe promessas de pesadelos tragos à tona.

— E agora…? — perguntou Anput, cada palavra custando a sair de sua boca.

— Esperamos ser convidados… — disse Hades, tenso, mas calmo, diante daquela que não era sua primeira visita.

Os três esperaram pacientemente, mas com muita tensão nos corações. Nyx não era alguém que eles queriam irritar. E esperar serem convidados estava na lista de coisas simples a fazer para não irritá-la. Ou melhor, parecia simples, mas a energia pesada e ameaçadora da casa fazia isso ser muito difícil. Contudo, para alívio de Anput, a porta lentamente se abriu. Esse alívio não durou muito, pois logo ela notou que estar diante de Nyx era mais desconfortável ainda.

— Que visita peculiar. — foi a primeira coisa que saiu dos lábios da deusa da noite.

Nyx era uma visão de pesadelo, uma beleza ameaçadora que parecia tecer a própria escuridão ao seu redor. Seu corpo não era apenas noite, era um turbilhão de sombras vivas, cinzas inquietas e fumaça que se retorcia como serpentes famintas. Era difícil ver suas feições, veladas pela penumbra, mas seus olhos queimavam como duas luas gélidas, penetrantes e impiedosas. Quando pousaram sobre Anput, a deusa egípcia sentiu algo ancestral e predatório naquilo, e não gostou. O medo queimava no peito de Anput. Ela não sabia se visitas de Hades e Perséfone eram comuns ali, mas a sua não era e o olhar da deusa a analisando era tremendamente incômodo.

— A que devo essa visita? — perguntou Nyx.

— Aparentemente certas agitações estão acontecendo lá em cima e… bem… — disse Hades, fingindo que era só uma conversa comum — Nos perguntamos se você saberia se ela seria interessante o suficiente para conseguir tirar Hipnos na cama, pois ele foi visto por lá… participando dos agitos, por assim dizer.

Nyx encarou Hades longamente enquanto Anput notava que Hades disse especificamente que Hipnos foi só “visto”. Se tudo desse certo, talvez Nyx nem suspeitaria que o filho na verdade estava sendo feito de refém naquele exato momento.

— E? — perguntou Nyx depois daquela tensa pausa — Acha que só porque sou a mãe dele eu devo saber onde ele está?

— Ah não não… — disse Perséfone apressadamente — É só que… como não é muito do feitio de Hipnos se… aventurar… tanto assim.. ficamos preocupados com ele, sabe? Lembra como da outra vez ele foi meio que manipulado por Hera para fazer Zeus dormir?

— Claro que lembro. Tudo por causa daquele mortal filho de Zeus… — resmungou Nyx, com puro desgosto na voz — Hércules, não era? Zeus tem tantos filhos com outras mulheres que não sei porquê Hera ainda se importa. Mas não se preocupe, meu filho não está sendo manipulado. E isso ainda não explica porquê essa estranha está aqui.

— Ah… porque ficamos preocupados. — disse Hades — Da outra vez, Zeus ficou com bastante raiva.

— Mas não ousou fazer nada, pois EU estou aqui pelo meu filho. — disse Nyx, com uma leve raiva, apontando para o próprio peito — Sou mais mãe do que Hera se acha ser!

— Como mãe, devo concordar. — disse Perséfone, pensando como mãe e não mais no objetivo daquela missão — Jogar assim um filho do Olimpo não é bem o ideal de maternidade.

— Também tenho que concordar nesse ponto. — disse Anput.

— Exato! — exclamou Nyx, silenciosamente feliz por estarem concordando com ela e dizendo o que ela também pensava — E ainda assim, eu que levo a fama de má e cruel.

— Sei bem como é… — resmungou Hades — Mas… voltando para Hipnos… Sabe bem que não é do feitio dele e ele pode se meter em perigo.

— Zeus não é um perigo. Assim como ninguém do Olimpo. — disse Nyx, orgulhosa, erguendo o nariz — Todos tem à mim!

— Mas… o perigo que Hipnos pode estar agora pode ser mais “internacional”. — disse Anput, cautelosa — Afinal, ele foi visto no Egito.

— Acha que tenho alguma coisa a temer do Egito? — disse Nyx lentamente, passo a passo, se aproximando de Anput enquanto a olhava de cima a baixo.

Anput, Hades e Perséfone seguraram a vontade de dar alguns passos para trás, principalmente Anput, para quem Nyx andou até estarem cara a cara se encarando. O coração de Anput batia acelerado, e ela torcia para que Nyx não notasse isso ou que o próprio medo não transparecesse em seu rosto.

— Minha reputação vai além do Mar Mediterrâneo, como tenho certeza que sabe. — disse Nyx.

— Assim como a de Rá. — rebateu Anput, com mais coragem do que realmente sentia — E acho que a noite não deve ser muito fã do sol. E pelo o que sei de Apolo, Rá é um sol mais intimidador.

— Não sou tola. — disse Nyx, fechando a cara embora parecendo ter fraquejado por um milésimo de segundo — Sei muito bem que Rá agora não passa de um velho senil.

— Não é tola, sei muito bem disso. Mas me parece um pouco desinformada. — continuou Anput com uma ousadia que deixava Hades e Perséfone sem palavras — O brilhante reinado de Ramsés II trouxe muita força e vitalidade para Rá, e a pouco tempo atrás, Rá, sozinho, expulsou Tifão do Egito com um único golpe.

Torcendo para Nyx não notar que no meio de uma verdade, estava também uma mentira, Anput tentou manter a calma. Era fato que Rá expulsou Tifão com um golpe, a dificuldade de fazê-lo realizar tal ataque em meio a mente que se esvazia era a mentira escondida em sua fala. O reinado de Ramsés II não tinha melhorado a situação de Rá. Anput tinha uma péssima sensação sobre tudo aquilo mas, acima de tudo, era muito importante que Nyx não soubesse que Hipnos estava sendo refém no submundo egipcio e tanto o sequestro dele, como o soco que levara, tinha os créditos sob o nome de Anúbis.

— Resolvemos nossos problemas em nossas terras sem jogá-los para vocês… — continuou Anput — Não aceitamos que jogue os de vocês para nós. Por isso, queremos saber no que Hipnos está metido para até Tifão estar envolvido.

Nyx encarou Anput longamente. Seu olhar perfurando a deusa egípcia como uma flecha da mais pura escuridão. Sentindo um suor frio escorrendo por sua nuca e por suas costas, Anput tentou se manter firme. Tudo dentro dela gritava para ela sair correndo dali, até suas lágrimas coçavam em seus olhos, mas ela tinha que saber mais do que acontecia e se Nyx era a fonte de informação que eles tinham no momento, paciência. Teria que ganhar aquela batalha de coragem e palavras espertas.

— Está mentindo. — disse Nyx por fim, apesar de não ter se mexido nem alterado a voz.

— Tem certeza? — perguntou Anput — Vai mesmo arriscar? Lembre-se que já temos certeza que Hipnos está envolvido.

A boca de Nyx se contraiu de raiva, e com a mesma raiva, ela encarou todos os presentes ali como se calculasse quais chances teria de acabar com qualquer testemunha de que aquela conversa aconteceu e ainda por cima salvar Hipnos. A conta não pareceu fechar muito bem em sua cabeça, pois logo ela falou:

— O plano nunca foi chegar até o Egito… embora eu não saiba inteiramente dos planos. Só sei que a ajuda de Hipnos foi pedida para fazer Zeus dormir e, em troca disso, eu ganharia uma noite que mudaria o mundo.

— Como assim uma noite que mudaria o mundo? — perguntou Perséfone.

— E quem prometeu isso? — perguntou Hades.

— Gaia. — respondeu prontamente Nyx — Disse que faria um vulcão entrar em erupção pra mim em troca. Forte o suficiente para o dia parecer noite por tempo o suficiente para os impactos para os mortais serem irreversíveis.

Era informação demais para os três deuses. O nome de Gaia já havia sido um choque o suficiente, e por isso a preocupação imediatamente tomou conta do coração deles.

— O que ela está tramando? Onde está Zeus? — perguntou Hades, tão rápido que quase se enrolava na própria língua.

— Não sei onde Zeus pode estar no momento, mas, até a ultima atualização que tive, o centro de tudo ia ser ao sul do monte Profitis Ilias. Mais do que isso, eu não sei. E se virem Hipnos de novo, mande ele voltar. E é bom que não façam nada com ele. — disse Nyx, rapidamente dando as costas para eles e voltando para sua casa.

Anput logo percebia que tinha que levar aquela informação para o Salão do Julgamento o mais rápido possível. A vida de Hapi poderia estar em risco, e não podiam se dar ao luxo de deixar ele morrer e ficar morto nem por um ano sequer. Enquanto isso, tremendo justamente o mesmo fim, nas terras ao sul desse mesmo monte, Hapi tentava distraidamente chegar mais perto de Zeus enquanto Tifão discutia com Gaia.

— Você não pode botar tudo a perder. — dizia Gaia — Temos que acabar com Zeus primeiro… ou o que der pra fazer já que ele, tal como todos nós, não morre.

— Ele não vai acordar.. — respondia Tifão.

— SEM HIPNOS ELE VAI! — esbravejou Gaia — E onde está Hipnos? Você o perdeu no Egito! O que podemos fazer é torcer para eles serem tolos ou terem medo de Nyx e Hipnos ter colocado todos para dormir. Nesse caso seria só questão de esperar ele voltar. Mas visto que ele não apareceu até agora, não acho que podemos contar com isso. Tudo porque você tinha que seguir os outros!

— Como vamos tomar o Olimpo sem acabar com os demais? — perguntou Tifão — Só Atena e Poseidon não valem de nada.

— Mas é melhor acabar com Zeus PRIMEIRO! — rebatia Gaia.

Ouvir essas palavras foi o suficiente para Hapi se apressar. Ele via Zeus, desacordado, no sono profundo, dormindo sobre uma rocha e perto de uns arbustos. Com sua pressa, tinha certeza de que não estava mais tão discreto, pois logo ouviu um grito atrás de si.

— TEM ALGUÉM SE APROXIMANDO DE ZEUS! — gritou Gaia.

Tifão rugiu atrás de si. Hapi nem se deu tempo de analisar se estavam ou não percebendo que o invasor não passava de uma poça d’água ambulante, simplesmente pulou na direção de Zeus. E ainda bem que o fez, pois logo o ponto onde estava explodiu quando Tifão atirou trovões usando o raio mestre. Hapi sentiu a ponta de seus dedos queimando pelo calor, mas continuou indo o mais rápido que podia na direção de Zeus, num misto confuso de força física completa e simplesmente feito de água.

Hapi corria desesperadamente, mas com sua forma gigante e o raio mestre na mão, Tifão não precisava correr, tudo que precisava era um golpe bem dado, e foi o que aconteceu quando Hapi já estava a mero um metro de Zeus. O raio mestre acertou Hapi, que explodiu como um balão cheio d’água estourando. Água jorrou para todos os lados, trêmula, fraca, com medo de sua existência ali se esvair e comprometer a cheia do Nilo. Contudo, parte da água também caiu sobre Zeus, e poucas coisas são melhores do que água na cara para acordar alguém.

Zeus acordou letárgico, pouco entendendo o que tinha acontecido, mas não precisava de muitas explicações quando viu Tifão com seu raio-mestre na mão. Não chegou a ver Gaia e nem veria, pois ela sumiu assim que os olhos do deus se abriram. Zeus gritou com raiva, Tifão rugiu de volta atirando com o raio-mestre contra seu dono original. Tifão soltou o raio mais poderoso que conseguia, apesar de certa presa, mas Zeus desviou quando o raio caiu no chão, abrindo uma cratera tal como a que momentos antes se abriu onde Hapi estava. O impacto foi brutal, fazendo o deus do Olimpo quase cair, os pés afundando na terra encharcada pela forma dispersa de Hapi. Tifão riu, um som profundo e ressonante como a erupção de um vulcão, e ergueu o raio-mestre novamente nos milésimos de segundos que Zeus aumentava seu tamanho.

A água de Hapi se contorcia, reunindo-se lentamente ao redor dos pés de Zeus, que não teve tempo de ficar do tamanho de Tifão, mas ao menos diminuiu a diferença. Mais preocupado com si mesmo do que com a luta, Hapi não podia se reformar rapidamente. Sentia a eletricidade lhe arrepiando cada centímetro de seu corpo, que tremia mesmo em sua forma aquática. Em sua mente, Hapi repetia insistentemente que não podia morrer, a situação do Egito já estava ruim o suficiente sem acrescentar um desastre nas colheitas.

Sem sequer notar que a poça aos seus pés não era uma poça normal, Zeus ergueu as mãos para os céus e invocou uma tempestade, a qual Tifão não lhe deu tempo de terminar. Com um rugido ensurdecedor, o monstro disparou outro feixe de eletricidade, forçando Zeus a erguer um escudo de ventos e nuvens para se proteger. O choque de energias gerou um estrondo que sacudiu as montanhas próximas. Zeus tentou absorver a energia do raio-mestre que escapava do escudo, mas foi intensa e pura demais até mesmo para ele. Seu corpo tremia, e implorava para ele parar com essa ideia.

Contudo, Zeus tinha um plano. Canalizou essa mesma energia que chegou até si do raio, juntou com a própria, e com um berro, mandou-a de volta para Tifão. O monstro berrou ao ser atingido, suas serpentes contorcendo-se em espasmos de dor. O golpe não foi suficiente para derrubá-lo, mas Zeus não precisava de uma vitória completa – precisava de uma abertura. Ele avançou, o corpo envolto por trovões e ventos furiosos, pronto para retomar o raio-mestre e virar o jogo, mas tudo que Tifão precisou fazer foi dar um poderoso soco em Zeus, que não havia tido tempo até então de ficar da mesma altura de Tifão.

Zeus saiu voando para longe com a força do soco, batendo em árvores e, por fim, caindo nas águas do Mar Mediterranêo, que formava, ali perto, uma bela praia que não merecia ver uma luta como aquelas. Tifão riu, se levantou, e preparou outro raio, ansioso por usar a água na qual Zeus estava para intensificar o choque que o deus receberia.

Com músculos rígidos, Zeus tentou se levantar, o choque anterior ainda pulsava em suas veias, fazendo seu corpo se recusar a obedecer da maneira que seu mestre lhe comandava. O som do trovão de Tifão crepitava no céu acima dele, e ele soube que não teria tempo de escapar. A água salgada ao seu redor se agitava, cada gota uma promessa de dor. O clarão do raio iluminou o céu, e Zeus soube, por um breve instante, que desta vez, talvez, ele não fosse o vencedor. O raio-mestre acrescentava uma vantagem injusta para TIfão, que já era, por si só, uma adversário forte. Além disso, Zeus estava sozinho.