A Morte Das Areias do Saara
165 No Esquentar do Vulcão
Notas iniciais
Fumaça escapava pelos cantos do sorriso grotesco de Tifão enquanto o gigante encarava Zeus, caído na praia.Claramente Tifão já sentia a vitória em suas mãos monstruosas junto com o poderoso trovão que preparava, enquanto Zeus encarava, raivoso, o seu próprio raio-mestre nas mãos do inimigo.
— O que foi, pai dos deuses? — zombou, sua voz ressoando como uma avalanche. — Com saudade do seu trovão?
— Você é um covarde! — gritou Zeus, se erguendo lentamente em meio às ondas do mar — Ao invés de lutar comigo como és, rouba o poder dos outros!
— EU NÃO SOU COVARDE! — gritou Tifão, não gostando nem um pouco da palavra.
Inquieto, o raio-mestre reluzia em sua mão, pulsando como se estivesse ansioso para obliterar aquele que um dia o manejou com soberania. A eletricidade crepitava, iluminando as nuvens tempestuosas acima. O momento se estendeu por um segundo sufocante, e então Tifão ergueu o raio-mestre, seu brilho atingindo o auge. Com um rugido de fúria e glória, ele lançou a energia destrutiva contra Zeus.
O trovão que explodiu do raio-mestre alvejou Zeus ameaçadoramente, iluminando a praia em clarões intensos e cegantes. Mas Zeus foi rápido o suficiente para desviar do ataque, que explodiu nas águas do Mediterrâneo, jogando água e areia para o ar como uma bomba. Contudo, Zeus não contava com a física. A energia do trovão se espalhou pela água e o choque forte atingiu Zeus, fazendo o deus dos relâmpagos sofrer com o próprio elemento.
O poderoso deus sentiu o corpo parar de lhe obedecer enquanto tremia e se endurecia pelo poder da energia elétrica intensa que o raio-mestre havia criado. Seus músculos se contraíram involuntariamente, e por um momento, seu coração pareceu vacilar, como se o ritmo divino que sempre o mantivera forte fosse interrompido à força. Seu sangue fervia em suas veias, os nervos disparando sinais confusos enquanto sua visão piscava entre luzes brancas e escuridão absoluta. Um rugido de dor escapou de seus lábios enquanto ele sentia cada centímetro do seu ser sendo queimado de dentro para fora, um tormento que nenhum mortal sobreviveria.
Sua pele crepitava, seu corpo sacudido por espasmos incontroláveis. Cada fibra de seus músculos estava endurecida, paralisada por segundos que pareciam eternos. A ponta de seus dedos das mãos e dos pés latejavam horrivelmente. O cheiro de ozônio e carne queimada misturava-se ao ar salgado da praia. Mesmo um deus poderia sucumbir sob tamanho poder. O chão abaixo dele afundou ligeiramente com o impacto do choque, e por um instante, Zeus sentiu o gosto amargo da derrota.
Tão súbita quanto veio, a energia foi embora e deixou Zeus caído, sem forças e tremendo, nas águas do Mediterrâneo. Tifão ergueu o braço composto por dezenas de cobras sabendo muito bem que o próximo ataque era o último que precisava para finalmente derrotar o rei do Olimpo. O que o gigante não contava era o ataque vindo de suas costas como um golpe invisível de espada que magicamente se propagava pelo ar, cortando e moldando a realidade, até atingir o braço de Tifão.
Com um grito ruidoso, Tifão sentiu a dor se espalhar a partir de seu braço quando aquela lâmina invisível cortou fora quase todas as serpentes que formavam seu braço, terminando o corte que Seth tinha começado a fazer algum tempo atrás. Uma única serpente guerreira, ferida, desesperadamente se agarrava ao raio mestre com extrema dificuldade enquanto suas irmãs caíam mortas no chão numa poça de sangue que se misturava com areia de água do mar. Tifão se virou para trás, a tempo de ver Hórus se preparando para mais um ataque.
— NÃO! — gritou Tifão, encolhendo a única serpente que lhe sobrou na mão e protegendo-a com a mão ilesa antes de sair correndo em direção ao mar.
Trocando o trovão para a sua mão não dominante, Tifão olhou rapidamente para Zeus, torcendo para em meio a seu desespero, ter um tempo para dar o golpe final no deus. Contudo, só o viu por um mero segundo quando Hathor sumiu de lá com o rei do Olimpo. Mais além, ele também viu Apolo, preparando uma flecha dourada para atirar contra o seu olho. O olho que Apolo havia atingido anteriormente ainda ardia e a sua visão ainda estava embaçada, a cura não estava tão rápida quanto Tifão gostaria, então, sem querer perder uma parte tão importante de sua visão, Tifão se jogou no mar, sentindo o vento criado pela flecha lhe tocar a nuca.
— Pai… — disse fracamente a voz de Hapi escondido como uma poça sob os arbustos.
Hórus, que até então fitava Tifão fugindo com o olhar sério, suavizou o olhar e procurou pela origem da voz do filho. Quando encontrou-o, lentamente tomando forma sob os arbustos, não pensou duas vezes antes de ir até lá.
— Você está bem? — perguntou Hórus, notando o estado de Hapi — Aquele maldito fez isso com você?
— Vou sobreviver… Mas pai! — disse Hapi, preocupado, agarrando o ombro de Hórus com urgência — Tifão está trabalhando com Gaia.
— Sabemos disso. — tranquilizou Hórus — Anput conseguiu essa informação e também esse lugar. E mais, temos um plano.
— E ele… e o plano inclui deixar Tifão fugir? — perguntou Hapi, preocupado.
— Não estamos deixando ele fugir. — explicou Hórus, tendo dificuldade em conter o sorriso — Estamos ganhando tempo. E Seth e Artemis estão seguindo ele pelo ar. Apolo!
— Eu! — exclamou o deus ao ouvir seu nome sendo chamado e rapidamente foi até onde Hórus estava.
— Leve Hapi de volta para o Egito. — disse Hórus, usando o tom de ordem mesmo que Apolo obedecesse a Zeus, e não a ele — Chega por hoje para ele.
— Pode deixar. — garantiu Apolo.
Apolo esperou Hapi terminar de obter uma forma mais fácil de ser carregada, em comparação à uma poça de água que tornava o estado debilitado do deus ainda mais obvio, e logo o levou de volta para o Salão do Julgamento enquanto Hórus se transformou num falcão, e saiu voando para se juntar à perseguição de TIfão. Não muito longe dali, a segunda parte do plano dos deuses egípcios ia tomando forma.
Graças às informações obtidas por Anput, e o tempo passar mais devagar no Salão do Julgamento, os deuses tiveram um tempo confortável para planejar algo e era por isso que, ao lado de um vilarejo marinho bem no norte da Península do Sinai, Anúbis juntou todo o fôlego que possuía e assobiou bem alto. Com nada além do vento batendo em seu rosto acompanhado de alguns solitários grãos de areia que grudavam em seu cabelo negro, o deus esperou até que um pequeno grupo de quatro cachorros se aproximou. Eram cachorros sem donos, que viviam nas ruas e em meio à natureza, mas que pareciam se virar muito bem já que não precisavam viver de lixo como seus descendentes da modernidade.
Um sorriso discreto escapou no rosto do deus, enquanto, em contrapartida, os cachorros eram só alegria. Era a primeira vez que eles se viam, mas para os cachorros, já era como encontrar um velho grande amigo que estava pronto para brincar com eles pelo resto do dia. Os cachorros, sem donos, chegaram com as línguas para fora, pulando para todos os lados, balançando o rabo com alegria e tentando lambero rosto de Anúbis de todas as formas possíveis.
— Sim… sim… eu sei… é bom ver vocês também… Sim… prazer em conhecer… Não.. não posso ficar muito tempo — disse Anúbis com um sorriso, respondendo as perguntas que só ele entendia e tentando apaziguar um pouco a alegria dos cachorros enquanto, no horizonte, mais cinco cachorros se aproximavam — Eu tenho um pedido para vocês.
Aquelas palavras pareciam ser tudo que os cachorros queriam ouvir. Rapidamente eles sentaram na areia, como soldados prontos para receber ordens, mas com os rabos abanando alegremente, como se fazer seja lá quais ordens fosse a coisa mais divertida do mundo que poderia acontecer com eles. Enquanto eles se tranquilazavam, Anúbis puxava do duat um martelo de ferreiro.
— Espalhem para todos e procurem bem… Temos que achar o dono desse martelo — disse Anúbis, mostrando para os cachorros o martelo, e os cachorros logo se aglomeraram, cheirando o martelo enquanto mais cachorros se aproximavam no horizonte — Afrodite pegou isso a pouco na oficina de Hefesto… Hefesto fugiu do Olimpo e precisamos encontrá-lo. O mais rápido possível.
Cada cachorro que cheirava e se sentia satisfeito com o cheiro, logo saía em busca do dono do cheiro. Em menos de cinco minutos, mais de quinze cachorros já saiam pela Península do Sinai em busca de Hefesto. Achando a quantidade boa, e considerando o tempo que tinha, Anúbis deixou a península para trás e reapareceu ao lado de outra vila, tão pequena e singela que quase parecia ser engolida pelo estreito de bósforo, que ficava ao lado ao lado. Parecia absurdo pensar que um dia ela se tornaria Istambul mas, com questionamentos longe demais de como a vila iria crescer no passar dos séculos, Anúbis repetiu a cena e espalhou pelas dezenas de cachorros da região, a busca por Hefesto.
A cena se repetiu com crescente grau de pressa em várias ilhas micênicas, em vilarejos primitivos e povos nômades ao longo do rio Danúbio, e por terras banhadas pelo mar, que deixava essas mesmas terras com o formato de uma elegante bota. Um verdadeiro exército canino estava atrás do deus ferreiro mas, ainda assim, nada de Hefesto. Ao lado de um vilarejo perto do salto daquela bota, sem nem imaginar o tanto de problema e impactos que aquela solitária bota traria nos séculos futuros, Anúbis só torcia para que Thoth estivesse tendo mais sorte que ele. Até porque, no horizonte do mar Jônico, ele via Ártemis e Seth no céu, meros pontos do tamanho de uma formiga, enquanto seguiam uma ilha que parecia se aproximar de onde Anúbis estava.
Ele forçou a visão, achando ter visto Ártemis e Seth atacando Tifão dos céus, moldando o caminho que queriam que o gigante percorresse e tentando pegar o raio-mestre de volta. O tempo acabava, mas foi nesse momento que Anúbis sentiu um dos cachorros da Península do Sinai lhe chamando. Anúbis imediatamente deixou o lugar que estava para trás e foi de volta para a península, no exato local em que sentia um de seus farejadores lhe chamando.
Anúbis apareceu logo ao lado de um lago, a oeste de onde havia chamado os cachorros inicialmente. O lago era azulado e, julgando pelos locais onde a borda dele era formada de pedra branca e brilhante, era claro que era um lago com sal, embora talvez nem tanto. Lago este que um dia seria cortado, juntando-o com outros lados e com o oceano, até virar o Canal de Suez. Ainda assim, na pouca terra fértil que o rodeava, havia verde e, diante de Anúbis, no meio do verde, estava um dos cachorros, com a língua pra fora e feliz pela sua conquista. Conquista essa que aparentemente era um solitário boi que olhava o tempo passar na grama mais à frente.
Podia ser estranho, só ver um boi por ali e considerar que a missão do cachorro estava cumprida, mas na leve brisa que batia e carregava o cheiro do boi, Anúbis logo reconheceu, com um sorriso no rosto, que aquele não era um boi comum.
— Obrigado. — disse Anúbis — Pode avisar os outros que está resolvido?
O cachorro latiu alegremente, mas logo ficou mais alegre quando Anúbis puxou do Duat um belo e suculento pedaço de carne e deu para o feliz cachorro, que saiu correndo com seu prêmio deixando pequenas gotas de sangue pela areia branquinha. Tal como o cachorro saiu correndo, o boi lentamente tentava se afastar também, como se estivesse cruzando dedos imaginários para não ser descoberto ali.
— Não adianta… — disse Anúbis andando até o boi — Eu sei que é você Hefesto.
— Aff… — resmungou o boi enquanto lentamente se transformava em Hefesto, um homem grande de sobrancelhas e barba espessas e ombros desnivelados — Por favor, não entrei no território egípcio com más intenções.
— Sei disso…. estava fugindo de Tifão… — disse Anúbis — Achávamos vários dos outros deuses, mas tenho que te levar para o Salão do Julgamento para explicar tudo. Lá é melhor.
— Sem represálias? — perguntou Hefesto.
— Sem represálias, mas muita pressa… — apressou Anúbis antes de arrastar Hefesto para o Salão do Julgamento.
Quando abriu os olhos no Salão do Julgamento, Hefesto mal teve tempo de processar o lugar e Anúbis já sumiu de novo. Afinal, tinha que avisar todos os cachorros que a busca pelo deus estava encerrada. Ao invés de Anúbis, quem recepcionou Hefesto foram Osíris, Kebechet e Afrodite. Nenhum sinal de Hipnos, que a essa altura era dor de cabeça de Anput, Hades e Perséfone, nas tentativas de não atraírem a ira de Nyx para eles.
— Amor! Você está bem! — exclamou Afrodite num alívio um tanto falso.
— Onde estão todos os outros? — perguntou Hefesto, olhando ao redor, digerindo o submundo egípcio.
— Em diferentes partes do nosso plano para impedir Tifão. — explicou Osíris,que estava de pé esperando Hefesto enquanto Kebechet sentava em seu trono balançando as pernas — O tempo aqui passa muito mais devagar do que no mundo mortal, então temos um pouco mais de tempo para explicar nosso plano para você.
— Espero que seja um bom plano… — disse Hefesto — Tifão é um problema antigo… só matar ele dificilmente vai resolver. Primeiro que matar ele nem seria algo fácil, segundo que ele voltaria logo.
— Por isso que o plano é prender ele. — explicou Osíris — E para nos certificarmos mais de que ele está realmente preso, nos perguntamos o quão rápido você conseguiria fazer correntes como as que usou em Prometeu.
— As correntes de Prometeu? — questionou Hefesto, parando para pensar um pouco — Demoraria muito mas felizmente ainda tenho algumas sobrando. Mas elas não são suficientes para prender TIfão. Tifão é imortal. Elas até são eternas e tal, mas Tifão ainda é forte.
— As correntes não vão ser a única coisa prendendo ele. — disse Afrodite, dando uma piscadela — Vamos pegar onde colocou as correntes e encontrar os demais no ponto de encontro.
— A batalha já deve estar concentrada por lá… — disse Osíris, pensando em voz alta.
— “Lá”, onde? — perguntou Hefesto.
— Um vulcão bem grande! — respondeu Kebechet, que claramente queria ver o desdobrar ao vivo mas ficou sob responsabilidade de Osíris.
Vulcão esse, que descansava na Ilha da Sicília, agora via um combate chegando até si pelo mar. Tifão já tinha perdido muito de sua altura, mas ainda assim um terremoto sacudiu a região quando flechas de Ártemis e a espada de Hórus derrubaram Tifão sobre a ilha. Árvores quebraram, mas por sorte ele ao menos não esmagou o singelo vilarejo ao sul, que agora sofria com as consequências de um intenso terremoto. No peito do monstro, esmagado pelo próprio corpo, ele protegia o raio-mestre, com medo de perdê-lo como quase aconteceu ao perder boa parte de sua mão.
Tifão rugiu e, como se sentisse a aproximação de Seth e Hórus, virou-se no momento perfeito para cuspir fogo nos deuses. Os dois tentaram desviar, mas as labaredas ainda pegaram eles parcialmente. O rosto de Hórus se contraiu quando parte do seu braço esquerdo e sua perna esquerda quase inteira foram envolvidos pelas chamas. Seth conseguiu sair mais ileso pois adicionalmente usou areia criada por ele mesmo como escudo. Ainda assim, ganhou algumas queimaduras nas pernas e no topo de sua cabeça.
Ártemis, que estava longe demais do trajeto do fogo, aproveitou a oportunidade para lançar contra Tifão poderosos raios feitos da mais pura luz lunar. Os raios queimaram Tifão tal como o próprio ataque do gigante e, meio de lado como estava para atacar Hórus e Seth às suas costas, os raios de Ártemis, ao baterem no ombro dele, o empurrou para trás. Tifão caiu de costas na terra siciliana, causando mais um terremoto e revelando para os deuses as mãos que protegiam o raio-mestre.
— Acabou, Tifão. — disse Ártemis.
— Vocês ainda não viram nada! — exclamou Tifão.
— Você que ainda não viu nada. — corrigiu Hórus.
Como se estivesse esperando por algum sinal escondido na fala de Hórus, Ares, acompanhados de Hathor transformada em Sekhmet, repentinamente surgiram e avançaram contra as mãos serpentinas de Tifão. A mão esquerda poderosa do gigante, e o que restava da direita, protegiam o raio-mestre, mas, com uma combinação de golpes poderosos, os dois deuses abriram caminho entre as mãos como exploradores abrindo uma densa mata.
Tifão gritou, e o raio-mestre, sob seu comando, explodiu em trovões ansiosos para acabar com os deuses. Contudo, tão repentinamente quando Sekhmet e Ares apareceram, Ísis também apareceu e com uma poderosa magia, criou um escudo mágico que impediu os trovões de Tifão de atingirem qualquer um dos ali presentes.
— Eu disse que você ainda não viu nada. — disse Hórus.
Por um segundo, surpresa ficou estampada no rosto de Tifão, e foi esse segundo de hesitação que permitiu com que Hórus sumisse de onde estava antes, re-aparecesse logo ao lado de Tifão e com um ataque combinado com Ares e Sekhmet, atingisse as mãos de Tifão.
— NÃO! — gritou Tifão quando o raio-mestre caiu de suas mãos inúteis.
Do jeito torto e largado como estava no chão, até se esticou para, com seus tocos de mão, tentar pegar o raio-mestre, mas não contava com Apolo subitamente aparecendo ao lado do poderoso raio, pegando-o, e sumindo novamente.
— NÃO! — gritou Tifão novamente, só que dessa vez com muito desespero escondido em sua voz.
— Vai depender de um graveto assim? Levante-se e enfrente-nos direito, com seus próprios poderes…- ameaçou Sekhmet — Não caído, se debruçando sobre a terra desse jeito, e contando com armas de terceiros.
— Vão se arrepender de tudo que estão falando e fazendo! — rangeu Tifão entre-dentes, com fumaça escapando de sua boca e veneno de seus dedos enquanto se erguia.
De pé diante do enorme vulcão que aguardava ansioso pela conclusão do conflito, levemente mais alto que o vulcão, Tifão mal encarou as mãos decepadas largadas no chão, apenas encarou seus adversários com tanto ódio que fumaça e chamas saíam de sua boca e olhos. Irado, ele se preparou para cuspir fogo contra os deuses, mas nesse exato momento Zeus junto com Apolo dentre os demais e com o raio-mestre na mão. Sem pensar duas vezes, Zeus preparou um rápido mas poderoso trovão, que jogou contra TIfão. Fazendo sua parte, Ártemis lançou outro raio de luz da lua, assim como Sekhmet se transformou em Hathor e, junto com Ísis, lançaram suas magias contra Tifão também. As magias bateram contra Tifão, se resmungou de dor e se desequilibrava para trás, batendo no vulcão que observava tudo.
Antes tarde do que nunca, ao lado do vulcão, com a maior estatura que seu poder podia fornecer, Hefesto apareceu carregando pesadas correntes. Junto com ele, apareceram também Thoth e Anúbis, que em suas formas de avatares, ficaram do lado oposto do vulcão segurando a outra ponta da corrente.
— Lancem bem alto! — gritou Hefesto coordenado a ação balançando levemente a corrente — Três… dois… um… AGORA!
No sinal de Hefesto, os três giraram a corrente no ar, como uma perigosa brincadeira de pular corda. O topo da corrente voou, passando por cima do vulcão e da cabeça de Tifão até bater no peito do gigante. E foi nessa hora que, tal como o combinado e treinado, os três deuses deram um alto pulo e puxaram a corrente com força. A corrente deslizou ameaçadoramente para cima, engasgando Tifão e batendo dolorosamente em sua glote e depois o puxou para baixo, forçando com que se pendesse cada vez mais na boca do vulcão.
O vulcão, dormente, mais parecia uma boa tentando engolir a cabeça de Tifão quanto Hathor e Ísis pararam os seus ataques para entoar uma poderosa magia. Mais uma vez naquele dia, a terra tremeu. Mas, dessa vez, era porque a magia das duas deusas alargava a boca do vulcão que magicamente começava a sugar a cabeça do gigante. Fogo começava a arder na boca do vulcão, que parecia ofendido por toda aquela movimentação.
Cheiro de enxofre chegava na narina de Tifão, que tentava escapar dos ataques e da corrente lhe apertando o pescoço. Contudo, Zeus avançou rapidamente na direção do gigante, com trovões explodindo para todos os lados e, com toda a força que tinha, fez o ataque que providenciou a força final que a magia necessária. Atingindo o monstro com força na cabeça e o puxando pelo pescoço, Zeus empurrou Tifão para dentro do vulcão, por mais que o tamanho do monstro não fizesse sentido diante da montanha.
O vulcão engoliu Zeus, Tifão e as correntes, que logo escaparam das mãos de Hefesto, Anúbis e Thoth. Dando prosseguimento ao plano que foi instruído no submundo egípcio, Hefesto correu até o vulcão e se jogou nele. O vulcão cuspiu fumaça como em resposta, seu topo já estava vermelho e com lava ardente. Tudo tremia. Os mortais da vila ao lado já estavam descobrindo novos níveis de desespero diante daquele terrível dia. Diante de tantos terremotos e agora ameaças de erupções, não eram só os deuses ali presentes que sabiam que nas lavas e pedras internas daquele vulcão, Zeus e Hefesto faziam o que esperavam ser o combate final com Tifão.
Cada tremor de terra, cada labareda que voava do vulcão, cada fumaça cuspida pela montanha, aumentava o nível de tensão dos deuses ali. Os sons da revolta impetuosa da montanha eram não só o único som ali, mas uma importante dica de o que acontecia ali dentro. O vulcão gritava chamas ardentes cujo calor era sentido de longe e então, tão inexplicavelmente quanto as grandes figuras dos deuses serem engolidas pelas montanhas, a erupção foi sugada rapidamente para dentro do vulcão novamente, que encerrou tudo com uma pequena tosse de uma pequena nuvem cinzenta.
Os deuses do lado de fora se entreolharam, se perguntando o que aquilo queria dizer, mas logo disseram uma resposta quando, em formas diminutas de tamanho normal, Zeus e Hefesto apareceram na boca do vulcão. Cansados, cheios de fuligem e com as barbas e os cabelos queimados.
— QUE ESSE FIQUE LEMBRADO COMO O DIA EM QUE EU, ZEUS, PRENDI TIFÃO SOB O MONTE ETNA! — gritou Zeus.
— Impressão minha ou lá vai ele pegar o crédito por tudo?… — resmungou Thoth ao lado de Anúbis.
— Não parece impressão. — sussurrou Anúbis de volta.
— Foi trabalho em equipe! — reclamou Hórus, indo até a boca do vulcão.
— Foram meramente meus ajudantes! Claramente não teriam conseguido sem mim! — respondeu Zeus.
— VOCÊ? — exclamou Sekhmet, se transformando diante do tanto de ofensa — Nós pensamos no plano e você ainda conseguiu ser tolo o suficiente para cair nos encantos de Hipnos DE NOVO!
— Vai deixar esse problema diplomático em potencial acontecer? — perguntou Anúbis para Thoth.
— Não mesmo! — exclamou Thoth, deixando seu lugar para trás e indo até onde a discussão acontecia.
Aqueles que não se interessavam em quem levaria os créditos por tal intensa batalha, logo foram deixando o local para trás. Afinal, depois de tantos terremotos, havia muito mais a se resolver. Contudo, ninguém imaginava o que Seth estava indo fazer em seus secretos aposentos no qual havia deixado um fantasma para trás.
Quando Seth voltou a ficar diante de Setne, estava bem mais calmo do que antes e mais disposto a acertar os termos de seu acordo com o trapaceiro mago que, a essa altura, ao menos havia aprendido a sentar-se sobre a cadeira apesar de sua forma etérea, mas ainda estava tendo problemas para conseguir tocar nos papiros.
— Como raios você quer que eu descubra o feitiço que quer sem eu conseguir tocar nos papiros?! — reclamou Setne.
— Tenho certeza que vai dar um jeito nisso tal como deu um jeito com a cadeira. — disse Seth.
— E outra, pode elaborar mais aí quanto a esse “tempo” que diz que vou ganhar. — reclamou Setne — Quanto tempo é isso?
— Se descobrirem sobre você e te jogarem para sua punição novamente, não farei nada. — prometeu Seth — Mas… se conseguir ser discreto, pode ficar perambulando pelo mundo mortal o tanto quiser.
— Mas não voltarei a vida. — disse Setne.
— Não. — respondeu Seth — Continuará como uma mera alma como está agora. Sem prazos por enquanto, mas se torrar minha paciência, um surgirá.
— Melhor do que nada. — disse Setne, bufando levemente — Isso é tudo que vou ter pra pesquisar?
— Vou ver o que consigo achar sem levantar suspeitas. Se tiver algum assunto que queira. Pode me passar uma lista também. — ofereceu Seth, tamanho era o desespero para se livrar da forçada serventia ao irmão.
— Ótimo. — comemorou Setne, que já tinha uma lista pronta na memória, mas tinha que ao menos conseguir ver o que havia ali já disponível.
Sem conseguir tocar nos papiros aglomerados da sala, era praticamente impossível saber todo o conhecimento que ela tinha. Mas de uma coisa era certa, não era apenas sobre o problema que afligia Seth que Setne queria pesquisar. E era exatamente por isso que era tão difícil esconder o sorriso arteiro que queria escapar por seus lábios.
Sem saber dos problemas que ainda iriam se desdobrar, o próximo destino de Anúbis e Kebechet foi um pequeno cantinho de descanso que recentemente eles haviam montado no Templo de Hatshepsut, já um tanto esquecido pelo povo. O tapete colorido acompanhado de dezenas de almofadas era cercado por um templo que precisava de mais atenção, mas que ao menos providenciava uma vista exuberante do Nilo e do deserto mais além e onde o pouco, mas muito bem vindo vento, conseguia criar uma brisa para afastar o calor.
Foi com a exaustão de um longo dia que Anúbis chegou lá e se jogou nas almofadas de cara, extravasando seu cansaço num resmungo. Kebechet havia ido com ele também, mas se jogou nas almofadas apenas pelo aconchego e diversão do momento.
— Acha que mamãe vai chegar logo? — perguntou Kebechet.
— Acho que sim. Temos que confiar nela. — disse Anúbis, com a voz abafada pela cara estar espremida nas almofadas.
— Por isso que não fomos buscá-la? — perguntou Kebechet mais uma vez.
— Sim... e também porquê não deve dar certo chegar assim na casa de Nyx de surpresa sem ser convidado. — respondeu Anúbis, tentando parecer mais calmo do que realmente estava. A ideia de Anput estar lidando com Nyx naquele exato momento o aterrorizava, mas era verdade o que havia dito, tinha que confiar em Anput — Ela é esperta e não está sozinha. Vocês fizeram o acordo com Hipnos direitinho né?
— Sim. — garantiu Kebechet — Todo mundo pareceu gostar. Ele não vai colocar a culpa na gente também. Nem contar do sequestro ou do interrogatório. Acho que assustamos ele.
— Ou Rá assustou ele. — corrigiu Anúbis.
— Cheguei! — exclamou Anput aparecendo ali, exausta e se jogando nas almofadas também — Que dia…
— Parece que foi um mês. — disse Anúbis.
— E nem acabou… só nos livramos de Tifão. — lembrou Anput — Ainda temos Gaia envolvida e como ela prometeu uma erupção para Nyx, ao menos uma erupção temos na nossa lista também.
— Certeza que não dá problema se o vulcão que for explodir for o que jogamos Tifão né? — perguntou Kebechet.
— Certeza. — respondeu Anput, apertando as bochechas da filha — Mas não me surpreenderia se Gaia tivesse outros planos.
— Os exércitos mortais atacando com armas que não fazem sentido para o histórico deles… será que ela tem algo a ver? — perguntou-se Anúbis — Eram armas muito boas pra um monte de camponês refugiado.
— Se for, é como se o objetivo final fosse criar um caos o maior possível. — disse Anput.
— E tentar pegar o Olimpo… — disse Anúbis — Ela bem que tentou agora com Tifão. E isso tudo porque ela ainda está só dormindo, né? Ela precisaria de ajudantes.
— Ainda bem que está só dormindo… — respondeu Anput, aliviada — Bem que Geb podia ajudar a gente…
— Ele aposentou faz muito tempo. — comentou Anúbis, segurando uma risada e escondendo dentro de si, uma certa inveja do avô.
Parecia muito interessante abrir mão de todos esses problemas e simplesmente viver nas estrelas ou sabe-se lá onde junto com a sua amada. Mas os problemas sempre apareciam, e não poderia deixar eles continuarem a acontecer sem controle enquanto pudesse ajudar.

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