A Morte Das Areias do Saara
28 Retorno
Notas iniciais

Siga seu coração e sua felicidade.
Faça suas coisas na Terra como seu coração manda!
Quando chega a você aquele dia de luto,
o Cansado {Osiris} não ouve seu luto,
lamentando não salva nenhum homem da cova!
Fazer férias,
não se canse disso!
Lo, nenhum é permitido levar seus bens com ele!
Lo, ninguém que se afasta volta novamente!
~ Canção do túmulo de Intef, Império Médio.
Naquela dimensão vazia onde apenas o vento e as plantas existiam, o mais completo silêncio reinava. O único ruído era o barulho do vento mexendo nas folhas das plantas enquanto Anúbis admirava o Aaru. Eventualmente, ele deu as costas ao paraíso, vez o cetro em sua mão desaparecer e seguiu o mesmo caminho que tomou dentre as tochas para voltar ao salão, ainda sem nome, no qual havia deixado os outros deuses.
Quando ele atravessou o portal que levava de volta para o salão, a primeira a notar seu retorno foi Anput que abriu um sorriso que imediatamente trocou para uma expressão de leve surpresa.
— Você parece… diferente… de alguma forma. — disse Anput.
— Diferente? — perguntou Anúbis.
— É. Não é como se sua aparência estivesse diferente… é mais como… sei lá… não sei bem explicar — disse ela dando de ombros.
Pensativo, a mão de Anúbis foi para o singelo colar de ouro que agora estava em seu pescoço. Os olhos curiosos de Anput foram até a brilhosa peça antes de falar:
— Depois você vai ter que me contar tudo que aconteceu lá dentro. Eu tentei ir atrás de você, mas não consegui passar pelo portal.
Anúbis achou a informação de que ela tentou passar e não conseguiu levemente peculiar, mas sua atenção foi logo desviada para a discussão que acontecia entre Osíris e Ísis. Alheios com a volta de Anúbis, o casal discutia sobre algo enquanto Bastet já estava de braços cruzados aparentemente cansada da discussão embora um rápido desvio de olhar fez com que Anúbis notasse que ela tinha percebido que ele estava de volta. Alheio à tudo que acontecia, Thoth parecia bem empolgado com o ambiente que o cercava. Embaixo de seu braço, já estavam meia dúzia de rolos de papiro, outro aberto na mão direita, um pincel na mão esquerda, enquanto ele corria de um lado para o outro se jogando no chão anotando sabe se lá o que enquanto analisava cada centímetro do lugar.
— Entenda, meu amor, você não pode…. — dizia Osíris.
— O que me impede de ficar aqui?! Eim?! Sem você, não vejo porquê tenho que me contentar com o mundo terreno. — disse Ísis.
— Esse não é um lugar propício para a criação e o nascimento de uma criança. — disse Osíris tocando sobre o ventre de Ísis — Esse é um lugar de morte, não de vida.
Chorosa, Ísis abraçou seu marido e irmão. Carinhoso, Osíris passou a sua mão sobre a cabeça dela e ali depositou um doce beijo.
— E também, ainda tem o problema de Set… — disse Osíris.
— Não podemos deixar ele continuar com as loucuras dele — disse Bastet se encostando na parede ainda de braços cruzados.
— Segundo Anúbis, aparentemente ele está no palácio, possuindo o faraó Narmer — disse Thoth sem tirar os olhos de seu papiro.
Diante da informação, Osíris olhou para Thoth e então para Anúbis com os olhos arregalados de surpresa. Osíris então cruzou os braços e ficou com uma expressão pensativa no rosto.
— Sem dúvida um plano interessante. Seja lá qual for o plano final dele — disse Osíris.
— Se é que ele tem algum plano final. — disse Anput — Desculpe por dizer mas… com o senhor aqui, é provável que ele se considere já vitorioso.
— Dessa forma, nossa maior chance está nesse pequenino. — disse Ísis botando a mão sobre o ventre — Torçamos para que seja menino.
Anúbis afirmou brevemente. Ele provavelmente era o que tinha mais motivos ali para torcer para esse bebê que crescia na barriga de Ísis ser um menino. Anput olhou então para Anúbis com o canto do olho, outra que se preocupava muito mais do que Ísis com o sexo do bebê.
— Creio então que todos temos muito com o que nos preocupar, e muito para planejar — disse Osíris.
— O que vai fazer agora que está preso aqui? — perguntou Ísis — Quer dizer… já mencionou que vai tentar cuidar das almas mas… como pretende fazer isso?
— Ainda estou pensando nos detalhes. Dê-me alguns dias, querida irmã. — disse Osíris se afastando lentamente dela e indo em direção à Anúbis — Mas, adoraria poder contar com alguma ajuda depois que os pormenores estiverem decididos. Anúbis, gostaria de cuidar da alma dos mortos ao meu lado? Sinto que, o que quer que tenha acontecido do outro lado daquele portal, tenha te dado um norte que talvez alinhe com esse lugar.
A boca de Anúbis se abriu para responder, mas então ele parou e o olhar dele fugiu de Osíris e foi parar nos olhos de Anput que sorria docemente mas com uma sombra de tristeza que a garota tentava esconder com muito esforço. Notando isso, Osíris deu dois leves tapinhas no ombro de Anúbis e segurou o mesmo ombro com a mão firme.
— Está tudo bem. — disse Osíris — Não precisa responder agora. Também não vejo porquê não possa trazer alguém mais para cá. Caso seja do interesse desta pessoa. O caso de Ísis é mais complicado, ainda tem deveres a cumprir fora daqui e vidas para criar, mas, se a situação de sua ilustre convidada não for complicada… bem… darei-lhes tempo para discutirem isso.
O sorriso aumentou no rosto de Anput, que já estava ficando pensativa, enquanto Anúbis simplesmente afirmou com a cabeça ao pensar e pensar sobre o assunto. Osíris então se virou e olhou para Thoth rapidamente começando uma conversa com o deus da sabedoria enquanto fazia outro convite para outro deus vir morar com ele naquele lugar tão profundo.
Independente de quem ficaria lá com Osíris ou não e de como Osíris pretendia cuidar das almas dos mortos, eles ainda tinham que lidar com o problema que era Seth. Assim, depois de algum tempo mais conversando entre si, os deuses saíram do Duat com uma Ísis cabisbaixa por estar deixando Osíris para trás.
Depois de todo fazer todo o trajeto de volta para onde deixaram os outros deuses, não foi difícil encontrar os outros que estavam exatamente no mesmo lugar onde eles os deixaram. De braços cruzados sobre a entrada da caverna, Ptah abriu uma leve expressão de surpresa ao ver o grupo se aproximando. O mesmo olhar de surpresa foi exibido por Nefertem que, sentado de pernas cruzadas, fazia carinho na cabeça de Neby que logo levantou a cabeça ao ver a aproximação de seus melhores amigos. Neby se levantou e Anúbis se ajoelhou para receber o chacal que logo começava suas lambidas. Ansiosa e com a mão sobre o coração, Néftis se aproximou do grupo que chegava.
— O que aconteceu? — perguntou Néftis — Tiveram problemas para ir?
— Não… — disse Anúbis levemente perdido — Está tudo bem. Só que Osíris teve que ficar lá.
— Já foram e já voltaram? — perguntou Bes com um olhar de suspeita — Vocês acabaram de ir!
— Não… — disse Anput lentamente — Tenho quase certeza que demoramos um pouco mais…
Um olhar de surpresa passou pelo rosto de Anput ao notar que o sol estava praticamente no mesmo lugar no qual estava quando eles partiram. Enquanto o olhar de estranhamento surgia no rosto de Ísis, Anúbis, Anput e Bastet, a expressão de Thoth era a da mais pura empolgação. Quase era posível ver seu cérebro trabalhando o meticuloso processo de juntar as peças do quebra cabeça do Duat.
— Pelo tanto que ficamos lá, era de se imaginar que o sol tivesse se movimentado mais. — disse Thoth — Mas não.. tudo aqui está praticamente do jeito que deixamos. Será que… Será que o tempo passa mais rapidamente aqui do que no Duat? Ou será que o tempo no Duat simplesmente para? Tenho que pensar em alguma maneira mais precisa de medir isso…
— Acho que Thoth está prestes a ficar incomunicável — disse Hathor com um leve sorriso ao notar a empolgação por novo saber que crescia em Thoth.
— Ora, não diga isso! — ralhou Thoth — Eu permaneci totalmente presente ao lado de Osíris mesmo enquanto inventava o papiro. Isso também me lembra que tenho que averiguar sobre aqueles esqueletos enormes e estranhos no deserto que mencionou antes, Anúbis.
— Realmente achei que tinha ignorado isso — disse Anúbis fazendo cafuné levemente na cabeça de Neby.
— Ah não, estou extremamente interessado. — disse Thoth.
— Talvez uma vez que as coisas fiquem mais tranquilas você possa se concentrar mais nisso, Thoth. — disse Bastet.
— Ah, com certeza! — disse Thoth.
— Então, expliquem direito o que aconteceu com Osíris — disse Bes.
Uma explicação foi dada para aqueles que não puderam ir até o Duat. Não demorou muito para que Ísis e Néftis resolvessem passar um tempo sentadas juntas com os olhos lacrimejando. A explicação dada incluiu os planos de Osíris e parte de o que aconteceu depois do misterioso portal pelo qual apenas Anúbis conseguiu passar. Apenas uma pequena parte do que aconteceu com Anúbis foi explicada aos outros, a versão completa apenas Anput recebeu enquanto os dois e Neby se sentavam em uma das pedras que rodeavam a grande Depressão de Qattara.
— Então… deus da morte? — disse Anput com um doce sorriso enquanto Anúbis olhava para o horizonte.
— Bem que eu já imaginava que não seria de algo menos… complicado… como perfumes, agricultura e tal — disse Anúbis embora soubesse que ‘complicado’ não era a palavra certa que procurava enquanto Anput dava uma breve risada.
— É com certeza melhor que nada. — disse ela.
— Sei que não tenho muito direito de pedir que vá para um lugar tão deprimente como o Duat mas… — disse Anúbis.
— Eu vou. — disse Anput interrompendo-o — Sinto que é a coisa certa a fazer.
— Pode me chamar de tolo, mas eu não imaginava que iria decidir tão rápido.
— Eu também não achava que iria decidir rápido assim. — disse Anput deitando a cabeça no ombro dele soltando um pesado suspiro — Mas… é… parece a coisa certa a se fazer. Quero dividir um pouco o trabalho com você. Tantas almas, tantos mortais morrem a cada dia, com certeza não é uma tarefa fácil e que dá muito tempo para férias. Por isso, quero estar lá com você. Para você não ter que fazer tudo sozinho.
Um singelo sorriso nasceu no rosto de Anúbis e ele aproveitou o momento para dar um leve beijo no topo da cabeça de Anput. Os dois ficaram admirando o céu com Neby deitado ao lado deles. Uma sensação de tranquilidade que certamente não duraria muito tempo, pois logo tinham mais coisa para resolver.
O próximo passo traçado pelos deuses era até bem simples embora guardasse possíveis grandes preocupações, fazer o bebê que crescia dentro de Ísis nascer, crescer e ficar pronto para ser um faraó. Tudo isso enquanto torciam para que ele nascesse menino e enquanto tentavam reforçar a oposição contra Seth.
Embora certamente a educação do garoto ou garota fosse incluir muitas coisas que pudessem ajudar a derrotar Seth, foi unânime a decisão de averiguar mais sobre o que Seth estava planejando. Assim, mantendo uma distância segura para que Seth nem seus lacaios percebessem, Anúbis, Anput, Bastet e Nefertem decidiram ir até Mênfis ao cair da noite. O sol ainda descia lentamente por trás deles enquanto os quatro deuses olhavam, sentados no alto de uma duna, para a cidade que se preparava para dormir e para o grandioso rio que marcava seus limites. Daquela distância, ainda não tinham notado nada de extraordinário ou preocupante, mas ainda consideravam a distância importante para o caso de alguém estar fazendo rondas ao redor da cidade.
A preocupação com a possibilidade de encontrar Khonsu, Naunet, Sekhmet, Sobek e Seth, ou outros, fazia com que os quatro prestassem o dobro de atenção para qualquer sinal desses deuses. Contudo, foi com surpresa, e com uma feliz surpresa, que Anúbis notou um cheiro diferente que não era dele, nem de Anput, nem de Bastet, nem de Nefertem (por mais difícil que fosse identificar o cheio de Nefertem, que parecia trocar de perfume pelo menos uma vez por dia). Anúbis olhou na direção do cheiro familiar que sentia e um sorriso abriu ao ver um carneiro, o mesmo sorriso apareceu no rosto de Anput quando ela olhou para onde Anúbis olhava.
— Olha só, e não é que ele voltou mesmo — disse Anput.
— Vocês são muito difíceis de encontrar. Estive procurando nos arredores de Mênfis e outros lugares por dias! — reclamou o carneiro que se transformou em uma forma mais humanóide. Um rapaz. Qebui.
— Trocamos muito de lugar desde que você saiu correndo — explicou Anúbis.
— A coragem de repente voltou para você, garoto? — disse Bastet dando uma leve risada olhando para Qebui.
— Acho que mais o peso na consciência do que a coragem… — respondeu Qebui coçando a nuca.
— Independente do motivo, voltou. — disse Nefertem com um leve aceno de cabeça.
— Sim, voltei — disse Qebui se sentando com os outros — Tentei achar vocês procurando por Shadya ou Iset ou Ahmen… mas… não encontrei eles em Mênfis.
— Foram embora. — explicou Anput — Estão morando em um lugar mais seguro.
— Onde você se escondeu exatamente? — perguntou Nefertem.
— E por tantos meses.. — perguntou Anput.
— Não chamaria bem de esconder… — disse Qebui — Segui indo para o sul. Muito, muito para o sul. Muito além das cataratas do Nilo. Encontrei alguns mortais no meio do caminho, nada de muito extraordinário além da língua estranha que eles falavam.
— Tenho certeza de que Thoth iria achar isso bem interessante — disse Bastet.
— Isso se ele já não tiver ido tão longe assim alguns anos atrás — disse Nefertem.
— De toda forma, a coisa mais estranha que encontrei foi depois que o Nilo se dividiu em dois rios e, ao seguir um deles, encontrei enormes montanhas feitas de grama e pedra. — disse Qebui — Mas, no alto delas, estava a areia mais branca que eu já tinha visto. O mais puro branco que vocês conseguirem imaginar! Só que, quando eu tocava essa areia, ela era extremamente fria. E como se isso não bastasse, ela eventualmente se desfazia. Virava água.
Anúbis e Anput olhavam para Qebui como se ele estivesse louco, mas essa expressão não foi compartilhada por Nefertem nem por Bastet.
— Ah! — exclamou Nefertem — Acho que sei o que é.Já vi por aqui. Eu ainda era uma criança… foi talvez uns 50 anos atrás.
— Sim, lembro. — disse Bastet — Algo bem parecido com isso apareceu só que caindo do céu. Thoth chamou de talgu.
— Talgu? — repetiu Anput
— Mas… — disse Qebui — Podemos falar disso depois. O que eu quero saber é, o que um quarteto tão estranho está fazendo aqui?
— Diga-me, pequeno Qebui, — disse Bastet com um sorriso desafiador — Quer se juntar a nós em nossa perigosa missão?
— Mais perigosa ainda por estarmos com a Bastet E o Anúbis — disse Nefertem — Tenho certeza que eles ainda vão se matar antes de a gente entrar em Mênfis.
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