Eles são assim: São aqueles que fazem um castigo sangrento entre os inimigos de Osíris em Duat. “Aquele sobre suas chaleiras” é o guardião da caverna. Eles vivem na voz de seus inimigos. No grito dos ba-almas e sombras, que eles jogam em seus poços.

~ Fragmento de “O livro do Amduat”

A cidade de Tróia se erguia nas margens do Mar Mediterrâneo dentro do atual território da Turquia. A cidade era uma vassala do império hitita, que mostrava seu poder para todos com quem era vizinho.

Num cantinho escondido das matas ao redor de Tróia, estava Paris, o príncipe de Tróia, com cabelos curtos encaracolados castanhos que segurava em suas mãos, protetoramente, uma maçã dourada. Ele havia recebido do próprio Zeus a responsabilidade de dar a maçã para a deusa mais bela e, desde então, Hera, Afrodite e Atena estavam disputando por sua atenção, cada uma oferecendo algo diferente em troca do prêmio que carregava consigo o título de mais bela.

Em situações normais, sem envolver deuses, talvez Paris já tivesse decidido quem era a mais bela entre as três. Afinal, diante de si, estava a mulher mais bela que ele já havia visto. A beleza da mulher a sua frente não era infundada, ela era a própria Afrodite, que aparecia para ele como o ideal dele de mulher, com cabelos encaracolados arrumados em elegantes cachos levemente mais escuros que mel que caíam em seus ombros e um corpo esbelto escondido pelos panos que caíam em seu corpo como um vestido.

— Tem certeza? — perguntava Afrodite apontando graciosamente para uma imagem que se formava num lago ao lado.

Paris olhou para a imagem, era a de uma mulher que, nesse momento, era extremamente parecida com a deusa a sua frente. Afrodite já havia explicado quem era a mulher cuja imagem era refletida no lago, era Helena, a mulher mortal mais bela do mundo, ou assim Afrodite dizia, e o prêmio de Paris se considerasse Afrodite a mais bela entre as três deusas.

— Tenho. — respondeu Paris depois de uns segundos, estendendo a maçã para Afrodite.

A deusa sorriu, pegando a maça para si sentindo-se triunfante.

— Ela está em Esparta… — explicou Afrodite — É a esposa do Rei Menelau. Boa sorte.

E assim, a deusa sumiu e Paris teve certeza, que ele tinha uma missão muito difícil a sua frente para ter ao seu lado a mulher que ele queria para si.

Enquanto isso, completamente inafetado pelas reviravoltas entre os deuses e realezas do norte do Mediterraneo, o cavalo de Paramessu levantava poeira pelas estradas próximas à Tebas. A ansiedade da proximidade havia deixado o general com pressa, e aqueles que andavam distraidamente perto dele acabavam reclamando silenciosamente pela poeira levantada em seus rostos. Nas costas do general, a lança hitita de ferro balançava acompanhando o movimento do cavalo. O general temia pela situação no fronte de batalha, mas tinha que confiar nas capacidades do filho e cumprir essa missão dada por Amon-Rá para si através de seu filho.

A situação muito o surpreendia. Os deuses não eram muito conhecidos por se comunicarem diretamente com aqueles que não eram da família real ou sumo-sacerdotes, exatamente por isso que a situação era mais extraordinária. Ao chegar em Tebas, por mais que seu coração lhe chamasse para o próprio lar, Paramessu sabia que, mesmo cansado e suado, seu primeiro destino tinha que ser o palácio real.

Quando lá chegou, imediatamente foi deixado entrar nas terras da residência real. Afinal, era muito conhecido por ali. Todos sabiam que não havia ninguém em quem o faraó confiasse mais do que Paramessu. No começo, quando Paramessu ainda era jovem e o faraó Horemheb nem faraó era, alguns achavam essa fé má depositada, uma vez que os cabelos ruivos do rapaz eram um mau agouro. No entanto, tantos anos depois, isso agora não passava de uma fofoca dita em vozes bem baixas.

— Onde está o faraó? — perguntou Paramessu para a primeira pessoa que viu dentro do palácio.

— No jardim. — respondeu a pessoa.

Com passos apressados, Paramessu seguiu para o jardim enquanto pensava que a escolha do lugar era óbvia. Estava muito quente e as árvores e o espelho d'água lá deixavam tudo mais fresco.

Ao chegar na entrada do jardim, Paramessu parou por uns segundos e respirou fundo enquanto olhava o faraó mais além. Horemheb estava sentado num banco embaixo da sombra de uma tamareira enquanto duas garotas esbeltas abanavam o faraó com longos leques para refrescá-lo. Mesmo de longe, está bem claro o peso que a idade, somada à guerra, fazia nos ombros do faraó. Ele parecia cansado e cada vez mais frágil. Ambos eram motivos de todos se preocuparem tanto com os dias que a temperatura decidia subir nas alturas.

Quando já estava mais calmo, Paramessu começou a se aproximar. Ao ver seu general de mais alto cargo, Horemheb não deixou de demonstrar um olhar de surpresa. Humildemente, Paramessu parou diante do faraó e abaixou a cabeça, se ajoelhou e levou a mão até o coração.

— Porquê não está no fronte de batalha? — perguntou Horemheb, pulando qualquer boas vindas.

— Sei que era meu lugar, mas algo urgente aconteceu. O grande Amon-Rá veio até meu filho e disse que eu deveria vir para Tebas. — explicou Paramessu enquanto tirava a lança hitita das costas — E também, achei que deveria ver isso.

— Amon-Rá pediu para vir até aqui? — perguntou Horemheb surpreso e se levantando de seu banco depois de pensar por uns segundos — Isso é grande… e o que seria essa lança que carrega?

— É uma arma hitita. — explicou Paramessu passando a arma para a mão do faraó — É pesada, mas forte. Conseguiu acabar com as nossas khopeshs de bronze.

— Isso realmente não parece bronze…e é realmente pesada. — disse Horemheb, sendo ele mesmo um guerreiro, reconhecia o bronze muito bem. — Devem perder agilidade assim, não?

— De fato. — concordou Paramessu — Se não fosse isso, o último combate provavelmente teria sido muito pior. Isso e o fato de nem todos terem uma dessa. Mas, apesar do peso, elas conseguem quebrar nossas armas então…

— Então são de fato muito preocupantes. Vou analisar a situação e talvez pedir para algum ferreiro tentar entender essa arma mas… — disse Horemheb suspirando pesadamente — De toda forma… Já vi que temos muito o que conversar. Venha comigo, Paramessu.

Horemheb dispensou as meninas que lhe abanavam e andou com Paramessu lentamente até o interior do palácio. A idade pesava em cada passo que o faraó dava. No caminho todo até uma espécie de escritório ou biblioteca, apesar de tudo, Horemheb não falou nenhuma palavra. Ele parecia perdido em pensamentos mesmo quando suspirou profundamente ao fechar a porta.

Paramessu olhou, tenso, para cada ação do faraó. Olhou enquanto Paramessu apoiou a lança de ferro sobre a mesa de madeira no centro do cômodo e, com pensamentos aparentemente longe dali, sentava-se em uma das cadeiras de madeira que estavam ao redor dessa mesma mesa.

— Já passou em sua casa? — perguntou o faraó repentinamente, surpreendendo até Paramessu, que via a tensão do faraó mas não esperava uma pergunta tão simples.

— Não. Vim direto para cá. — respondeu Paramessu.

— Passe lá então. — sugeriu Horemheb com um pequeno sorriso — Ouvi dizer que seu neto nasceu. Vá o conhecer, tome um banho, coma alguma coisa, e então volte para conversarmos apropriadamente sobre coisas importantes.

— C-Certeza? — perguntou Paramessu meio surpreso.

— Sim. — disse Horemheb — Vá conhecer seu neto, ver se está bem, e então podemos conversar.

— Mesmo? — perguntou Paramessu ainda não entendendo o faraó — Eu posso ir depois que conversarmos.

— Não, eu insisto. — disse Horemheb calmamente — Vá conhecer seu neto e ver se é saudável. Depois conversamos.

Sem entender totalmente o que acontecia, mas agradecido pela chance de passar em casa, Paramessu se ergueu e, assim como pediu o faraó, foi indo tranquilamente para a sua casa. Estava de fato exausto da longa viagem e, na pior das hipóteses, pelo menos um bom banho seria bem-vindo.

Enquanto Paramessu tentava entender tudo o que estava acontecendo e o faraó pensava sobre sua próxima decisão, as coisas seguiam rotineiramente no submundo egípcio. Num dos cômodos que não serviam nem para mumificar, nem para julgar almas, mas sim para um mero momento de descanso, Kebechet gentilmente deixava a boneca que a acompanhou durante todo o crescimento casualmente sentada em uma estante cheia dos mais diversos objetos.

Ela passou os dedos carinhosamente pelos cabelos da boneca de pano quando Anput surgiu na porta de entrada.

— Lelwani chegou, você não queria ver as conversas? — perguntou Anput.

— Quero! — disse Kebechet deixado a boneca de lado e indo a passos rápidos para o lado da mãe.

— Mas fique quietinha, certo? A situação com os hititas já está complicada o suficiente. — alertou Anput — Não queremos deixá-la ainda pior.

— Entendi. — prometeu Kebechet — Mas deve ficar tudo bem né? São só os mortais que estão brigando.

— Nunca sabemos quando os deuses podem se doer pela briga que os mortais travam. — lembrou Anput.

As duas seguiram pelos corredores do submundo que levavam até o Salão do Julgamento e lá, tal como esperavam, encontraram Lelwani acompanhada de duas garotas aparentemente gêmeas, a única diferença era o comprimento do cabelo. Uma tinha o cabelo bem longo e outra tinha o cabelo curto. Sobre os cabelos negros e levemente ondulados, elas usavam um chapéu cilindrico vermelho do qual caia um pano branco que cobra a parte de trás e as laterais da cabeça de ambas e continuava caindo quase até as coxas. Ambas estavam de vermelho e apesar da intensidade da cor, só de olhar para elas era possível sentir arrepios.

Anput, assim como Osíris e Anúbis, que estavam de pé logo na frente das três convidadas, sabiam que as gêmeas eram Istustaya e Papaya, as deusas hititas do destino. Só o fato de Lelwani ter trazido elas até ali já era uma prova de que ela estava tão receosa para aquela reunião acabar em algum conflito devido a guerra travada pelos mortais quanto os egípcios também estavam.

Quando Anput e Kebechet entraram no Salão do Julgamento, Anúbis olhou rapidamente para elas e sorriu levemente. Anput sorriu de volta não só como reação, mas também porque levou isso como uma prova que, apesar de tudo, aquela reunião não estava tão tensa a ponto de Anúbis não ousar tirar os olhos de Lelwani e das duas deusas do destino.

— Nós temos alguns que morreram em fronteiras opostas, graças à guerra… — dizia Lelwani, suspirando pesadamente de forma cansada — Posso confirmar então que cada um vai pegar as almas dos próprios mortos independente de que lado da fronteira eles estão?

— Sim. — respondeu Osíris — Sigamos nesse quesito como sempre.

— Certo… — disse Lelwani lentamente olhando com o canto do olho para Papaya.

Com a resposta de Osíris e a confirmação de Lelwani, Papaya e Anúbis anotaram em seus respectivos papiros a decisão. Enquanto isso, Anúbis pensava em quão sortudo ele era por aquela reunião estava acontecendo no submundo egípcio, pois assim, Osíris faria a maior parte da socialização. E sinceramente, depois de Hades e Ereshkigal, Anúbis estava já sem saco de ter que socializar com Lelwani também.

— Qual o próximo? — perguntou Osíris para Anúbis.

— Anniwiyanni. — leu Anúbis.

— Não é a garota egípcia que foi sequestrada bem nova quando atacaram a vila dela e acabou trocando de nome e sendo convertida? — perguntou Lelwani.

— Ela mesma. — disse Osíris — Seu nome original era Taash-sen.

— E ela se converteu mesmo? — perguntou Lelwani, duvidando da jovem.

— Nem ela tem total certeza… — disse Osíris suspirando pesadamente — Particularmente acho que seria melhor ficarmos com ela… Acho que ela se sentiria feliz em voltar finalmente para sua terra natal.

— Pode ser assim então. — disse Lelwani suspirando novamente — Odeio como as coisas ficam complicadas quando guerras acontecem. Isso sem falar no tanto de almas extras.

— Tenho que concordar… — disse Osíris olhando rapidamente para Anúbis, que só confirmou com a cabeça.

— Achei que o último conflito ia mudar a balança da guerra e fazer ela caminhar para o fim… — opinou Lelwani — Mas tinham que usar Hórus para motivar os soldados só porque conseguimos fazer armas melhores que as de vocês…

Ninguém falou nada em voz alta por alguns segundos e ninguém ali iria admitir, mas a fala de Lelwani começou a deixar a reunião um pouco mais tensa.

— Ora, mas motivação não é tão difícil de se dar e até vocês dão para os seus às vezes. — lembrou Osíris.

— Verdade, mas os nossos mortais não são que nem os seus que só de ver qualquer animal por aí, já acham que é um deus e ficam motivados. — retrucou Lelwani.

— Os animais são livres para ir e vir. — disse Osíris.

— Mas um pássaro grande qualquer voando logo vira Hórus dando força para os guerreiros. — reclamou Lelwani — Um chacal pegando carniça no campo de batalha logo é Anúbis certificando-se que os mortos terão uma morte digna mesmo tão longe do centro do Egito. Uma leoa se escondendo nos arbustos logo é Sekhmet se certificando que os guerreiros terão coragem para enfrentar o combate. Um sol mais forte brilhando no céu logo é Amon-Rá dando força e determinação.

— Os hititas também adoram o sol… — lembrou Anúbis, finalmente dizendo algo — Provavelmente todos adoram o sol de alguma forma…

— Outro pássaro grande qualquer logo é Thoth lembrando aos generais de serem sábios em suas estratégias… — continuou Lelwani, ignorando Anúbis, que logo revirou os olhos.

— Não é nossa culpa se os mortais nos relacionam com animais… — reclamou Anúbis.

— Onde quer chegar, Lelwani? — perguntou Osíris.

Enquanto isso, no canto da reunião, Anput e Kebechet se entreolharam preocupadas. Ambas haviam notado que aquela reunião não estava indo para os rumos desejados.

— Que se ficarem ajudando na guerra, nós também vamos. — avisou Lelwani.

— Recado devidamente dado, mas não podemos e nem vamos controlar os animais que livremente seguem suas vidas. — disse Osíris — Podemos continuar?

Todavia, o clima sem dúvida não era tenso na casa de Paramessu. Apesar da curiosidade e preocupação que ele sentia apertando seu coração, ele estava muito mais feliz em segurar seu pequeno neto recém-nascido nos braços. O pequeno bebê abria e fechava a boca lentamente, como se lambesse o beiço depois de se deliciar no leite da mãe. O cabelo ralo e ruivo do recém nascido cobria sua cabeça enquanto o avô o admirava.

— É um garoto saudável… — disse Paramessu.

— Sim… — respondeu Tuya tranquilamente com um sorriso no rosto — Mal dá trabalho também. É um menino forte claramente também.

— Muito bom… — disse Paramessu, ainda olhando para o pequeno bebê.

— Não vai tomar banho? — ralhou levemente Sitre, com as mãos na cintura, encarando o marido — Só porque o faraó falou para você vir aqui, relaxar e conhecer seu neto, não é por isso que você tem que ficar aqui até amanhã.

— Mal cheguei da guerra… não quer que eu fique mais por aqui? — perguntou Paramessu.

— Claro que quero… — disse Sitre — Mas com Amon-Rá te mandando Tebas, como você diz, e o faraó te falando para vir respirar um pouco antes de ir conversar com ele, não acho que você está em posição de ficar tranquilo relaxando enquanto não entende o motivo de tudo isso.

— Tem razão… obviamente… — disse Paramessu delicadamente devolvendo o recém-nascido para o colo da mãe.

Paramessu então foi direto tomar um bom banho. Se livrar da sujeira acumulada da viagem foi muito agradável e bem imaginava que o pequeno neto logo seria o próximo a tomar banho já que acabaram abrindo a exceção de deixá-lo segurar o bebê apesar do tanto de poeira e suor que tinha consigo.

Ele sentia suas costas gritando aliviadas por terem um momento de sossego quando ele se espreguiçou após o banho. E após vestido, se empanturrou de pão e algumas frutas acompanhadas de um pouco de cerveja, e após brincar um pouco com os dois netos, voltou para o palácio real.

Lá, encontrou o faraó Horemheb no mesmo cômodo no qual ele havia o deixado, claramente absorto em pensamentos enquanto encarava a preocupante lança hitita sobre a mesa. O faraó estava sério quando pediu para Paramessu fechar a porta e sentar-se diante de si.

— Como está seu neto? — perguntou Horemheb, observando cada expressão que passava pelo rosto de Paramessu.

— Está bem… — respondeu Paramessu — É um garoto forte e saudável.

— Bom.. bom… — disse Horemheb, parecendo colocar mais peso que o comum naquela informação depois de analisar Paramessu respondendo atentamente, como se tentasse detectar uma mentira — E seu filho? Ele vai bem no campo de batalha até onde eu sei…

— Sim. — respondeu Paramessu — Sei que não sou o melhor para falar, por ser seu pai, mas Seti realmente aprende rápido e é um bom guerreiro. Se saiu muito bem no combate que teve antes de eu vir para cá, ainda mais considerando a nova arma que os hititas arranjaram.

— E é exatamente disso que o Egito precisa. — disse Horemheb — Dada a situação com os hititas e ainda mais considerando que eles estão trazendo novos perigos para a guerra… precisamos de um exército forte e de líderes fortes para esse exército.

— Sim. Com certeza. — disse Paramessu — Estou dando meu melhor para preparar Seti para quando tiver que me substituir.

— Não esperava menos de você. — disse Horemheb — Sempre foi também um ótimo guerreiro e também aprendiz. E muito dedicado também.

— Obrigado… — disse Paramessu, realmente feliz com o elogio.

— É importante passar nosso conhecimento adiante e preparar não só nosso exército e família, como também o Egito, para o que vem pela frente e é o que vem pela frente que me preocupa. — continuou Horemheb — Os anos de instabilidade entre Akhenaton e eu não foram fáceis. Especialmente considerando a problemática de se achar um herdeiro preparado que todos os faraós desde que Akhenaton tiveram. Graças aos deuses consegui deixar o Egito mais estável. Claro que Ay tentou preparar um herdeiro mas… ele não estava vendo a real necessidade de um exército diante do perigo hitita em nossas fronteiras.

— A situação na Núbia também pode parecer calma, mas sinto que está começando a ficar mais agitada… — opinou Paramessu.

— Exato! — disse Horemheb, claramente feliz por Paramessu ter notado — Só prestando-se atenção é possível notar que logo o Egito terá problemas tanto ao norte, como ao sul. Graças aos deuses somos protegidos a leste e a oeste pelos desertos. Por isso, precisamos de uma liderança forte e também precisamos de estabilidade na família real.

— Faz sentido… — disse Paramessu.

— Por isso… — disse Horemheb lentamente — Estou considerando nomeá-lo meu herdeiro.

Paramessu abriu a boca para dizer algo, antes de realmente processar as palavras, mas logo parou quando começou a entender as palavras ditas pelo faraó. Com a boca entreaberta, ele ficou encarando o faraó por alguns segundos, claramente achando que tinha ouvido errado. Até que disse:

— C-como? — gaguejou Paramessu — S-Seu o quê?

— Meu herdeiro. — repetiu Horemheb silenciosamente começando a achar graça da reação de Paramessu.

— Eu… — disse Paramessu ainda processando a informação.

— Sim. — afirmou Horemheb — É uma ótima escolha. Você foi meu aprendiz desde antes de eu ser faraó. Tanto você como seu filho são ótimos guerreiros. Já tem até neto, o que assegura três gerações de faraós e mesmo que seu neto não passe dos difíceis cinco anos de idade, Seti ainda é novo e já provou que não tem dificuldades em ter filhos.

— É… é uma lógica que faz sentido… — disse Paramessu ainda tentando processar a oferta.

— Eu estou velho… — lembrou Horemheb — Já tenho sorte de chegar até tão longe. Não acho que reste muito tempo para mim nesse mundo. Quero entregar o Egito para alguém de minha confiança que sei que terá pessoas de confiança para entregá-lo quando morrer. Por isso, você é minha escolha, Paramessu. Meu maior general e vizir. Aceita a oferta de ser meu herdeiro e, quando eu partir, se tornar faraó?

Paramessu olhou para Horemheb e respirou profundamente. Aquilo estava realmente acontecendo, era bem claro. A força preencheu o coração de Paramessu quando ele olhou nos olhos do faraó, e respondeu:

— Será uma honra.

Horemheb abriu um sorriso e lentamente se ergueu da cadeira onde sentava. Seu coração estava mais tranquilo e seus ombros mais leves. Um grande peso havia saído de seus ombros e sentia que podia dividir o Egito com alguém agora.

— Não vamos deixar isso aqui nessa sala… — disse Horemheb — Vamos fazer o anúncio para que não aconteça como tantos outros faraós que morreram antes de anunciarem seu herdeiro publicamente. Vamos anunciar aos nobres, oficiais e sacerdotes que estão pelo palácio e pode ir no final do dia contar as novidades para a sua família. Imagino que vá querer voltar para o fronte de batalha para contar para Seti. Por favor, tentem não morrer por lá.

— Claro. — respondeu Paramessu, rindo, ainda sentindo que estava num sonho.

Com o faraó andando lentamente, a ponto de Paramessu oferecer a ele a ideia de pedir para pegarem uma bengala, eles comunicaram a todos que importavam no palácio que Paramessu era o herdeiro de Horemheb. Provavelmente fariam uma cerimônia mais formal e oficial para comunicar isso, mas os primeiros passos já estavam sendo dados.

Embora tentasse mostrar-se sério e respeitoso, o coração de Paramessu estava pulando loucamente de alegria. Foi só quando, no pôr do sol daquele mesmo dia, Paramessu voltou para a casa, foi que ele pode extravasar toda a alegria que pulava em seu peito. Ele correu até a sua esposa, que estava tão concentrada em dobrar a roupa recém tirada do varal, e logo pegou-a nos braços e começou a beijá-la repetidamente no pescoço, bochecha e lábios, fazendo ela começar a rir.

— O q-que foi? Porque isso do nada? — perguntou Sitre, mal conseguindo falar entre as risadas.

— O que aconteceu? — perguntou Tuya, com o pequeno recém nascido adormecido amarrado em panos junto ao seu corpo enquanto segurava a mão de sua filha mais velha, que ia aos trôpegos até o avô com um sorriso no rosto.

— Tia! — exclamou Paramessu soltando a esposa e agarrando a neta, Tia, logo enchendo-a de beijos fortes na bochecha, fazendo a pequena rir também.

— Será que pode explicar o que ocasionou tão bom humor? — perguntou Sitre, com um sorriso no rosto.

— Vocês não vão acreditar… — disse Paramessu com Tia no colo — O faraó Horemheb acabou de me nomear seu herdeiro.

— Não! — exclamou Sitre com os olhos arregalados.

— Sério?! — perguntou Tuya chocada.

— Sério! — exclamou Paramessu, praticamente pulando de felicidade — Ele disse que vai me preparar no tempo que lhe resta neste mundo e… e como já tenho até neto… o trono estaria mais estável pelas próximas gerações.

— Meu amor, isso é incrível! — exclamou Sitre com os olhos enchendo de lágrimas — Parece até bom demais para ser verdade!

Com tanto barulho, o pequeno recém-nascido logo começou a chorar. Tuya o tranquilizou rapidamente enquanto o peito pulava de alegria, só imaginando o dia em que o pequenino conseguiria subir no trono do Egito como faraó, com nenhum mortal em todo o Egito mais importante e poderoso que ele.

Naquela noite, a casa de Paramessu teve a própria pequena festa preparada às pressas com apenas a sua querida família. Ele queria que Seti estivesse ali também, ao invés de tão longe, rodeado pelas tensões da proximidade com os hititas e com certeza preenchido pela curiosidade de o que estaria acontecendo em Tebas, mas Seti estava no lugar que precisava estar.

Paramessu fez o lembrete mental de que, no dia seguinte, enviaria um mensageiro para Seti, para informá-lo das novidades e que demoraria alguns dias mais para voltar e, quando o fizesse, Seti poderia ir para Tebas conhecer o filho. Mas agora, era hora de comemorar a brusca subida na tão rígida pirâmide social egípcia e amanhã seria dia de se preparar para um dia ter o cargo mais importante que se poderia ter em todo o Egito.

Com o passar dos dias, os planos de Paramessu e Horemheb seguiram exatamente o fluxo esperado. A previsão de Horemheb de que lhe faltava pouco tempo de vida estava, contudo, um pouco errada. Demorou alguns anos mas, eventualmente, o faraó Horemheb morreu deixando para trás um Egito mais estável mas muito ameaçado de perigos.

A mera distração do ataque grego que começou e se demorava na cidade de Tróia, vassala dos hititas, pouco ajudava a situação do Egito contra esses mesmos hititas. A guerra entre os soldados micênicos e os troianos em Tróia já tinha durado 10 anos e tudo havia começado por causa de uma mulher, ou assim se dizia. A guerra já durava tantos anos, pois as defesas de Tróia eram muito fortes até para os mais fortes guerreiros dos micênicos, Aquiles e Odisseu, e desentendimentos dentro do exército micênico não ajudavam em nada.

A noite caía sobre o mundo na véspera da cerimônia final de coroação de Paramessu, enquanto guerreiros surgiam de dentro do cavalo de madeira presenteado aos troianos pelos micênicos como ideia de Odisseu. Com berros clamando pela força dos deuses emprestada, os micênicos devastavam e saqueavam a cidade de Tróia, matando qualquer pessoa que os atrapalhasse.

Pouco perto do portão de entrada de Tróia, escancarado, o grande cavalo de madeira estava esquecido. Por pouco ele era menor que o portão de entrada da cidade, mas os micênicos foram sortudos e os gritos de desespero dos troianos eram prova disso. Ignorando os gritos e os incêndios que começavam pela cidade, ao lado do cavalo, estavam Anúbis, Hades e Hórus. Anúbis colocou a cabeça para dentro do cavalo, ficando surpreso pelos soldados conseguirem se espremer naquele espaço.

— Tenho que admitir… é uma ideia… erm… diferente… — disse Anúbis.

— Príamo deve ser só idiota mesmo pra aceitar esse cavalo como presente de seus inimigos e não suspeitar de nada. — disse Hades.

— Não acredito que 10 anos de tensão por Tróia não cair vão acabar por causa de um cavalo de madeira recheado com soldados… — disse Hórus.

— Também não. Por isso eu quis vir ver. — respondeu Hades.

— Achei que você não ia vir… — disse Anúbis olhando para Hórus — Não tem que se preparar para a cerimônia final de Paramessu amanhã?

— Não tem mais muito para fazer. — disse Hórus, dando de ombros.

— PARIS! — gritou uma voz no meio da confusão de Tróia.

Os três deuses se viraram para olhar e notaram um rapaz, segurando outro, bem forte e loiro, nos braços, que parecia morto apesar do único ferimento que viam ser uma flecha em seu calcanhar. Mais além, estava Paris, segurando um arco e flecha.

— Esse segurando o cara é Odisseu. — disse Hades — A ideia do cavalo é dele.

— O cara morto nos braços dele… — disse Anúbis lentamente — ele parece… estranho… morto, mas estranho. Ele é o tal Aquiles que mencionou? Que entrou no Estige.

— Ele mesmo… — disse Hades — Sinceramente, estou um tanto surpreso por ver que Paris conseguiu o matar e acertar bem no seu ponto fraco. Me pergunto se alguém lhe contou que era o calcanhar.

— Você deveria deixar a entrada do submundo mais protegida… — opinou Anúbis — Já tem gente nadando no Estige até.

— Alguém mais sabia do calcanhar? — perguntou Hórus enquanto os três acompanhavam Odisseu ir atrás de vingança.

— Então é verdade a porcaria do cavalo… — disse uma quarta voz atrás deles.

Os três deuses se viraram e viram um homem grande com uma barba volumosa que na hora reconheceram como sendo Zababa, o deus hitita da guerra. Exatamente por isso, os três deuses estavam ao menos levemente tensos devido a situação que o império hitita estava com todos os vizinhos.

— Assim parece… — disse Hórus cautelosamente.

— E o que estão fazendo aqui? — perguntou Zababa — Última vez que chequei, aqui era bem longe da fronteira egípcia.

— Viemos ver o cavalo… — disse Anúbis.

— A fofoca já andou tanto assim? — perguntou Zababa.

— Claramente nunca viu Apolo quando ele acha alguma coisa interessante. — respondeu Hades — Provavelmente todos os deuses dos povos do Mediterrâneo já sabem.

— Entendi… — disse Zababa lentamente.

— E o que você veio fazer aqui? — perguntou Hórus.

— Não posso, como deus da guerra, ver o desfecho de uma guerra e um cerco de mais de anos em uma cidade vassala de meu povo? — perguntou Zababa.

— Pode… — disse Hórus — Considerando que foi esse mesmo o motivo, é claro.

— Que outro seria? — perguntou Zababa — Me certificar de que outros deuses não estavam querendo afetar assuntos mortais de guerra?

— Isso te faria parecer um tanto desconfiado e paranóico. — disse Anúbis dando de ombros — Se qualquer deus tivesse vindo mexer a balança desse cerco, ele não teria durado 10 anos.

— Tem razão… não tem sentido no caso de vocês que provavelmente estão gostando de a gente estar um pouco distraído com as coisas nessa parte do mapa. — disse Zababa — Mas os micênicos podem muito bem ter se cans..

— Nos deixe fora dessa baboseira… — resmungou Hades revirando os olhos cortando Zababa.

Claramente já cansados da irritação de Zababa, Hades foi o primeiro a sumir dali, logo seguido por Anúbis e Hórus. Cada qual foram para seus respectivos cantos e deixaram os troianos serem mortos e escravizados pelo exército de Agamenon, irmão de Menelau e cunhado de Helena, a causa do começo da complicação toda.

Na manhã seguinte, em Tebas, depois de tantos ritos de sepultamento e de coroação, Paramessu se via, já com cabelos brancos salpicando sua cabeça e dor nas costas, entrando no templo de Karnak para fazer seu último ato antes de ser considerado totalmente faraó. Ele não via, mas a sala na qual entrava, a mesma sala que vários faraós antes dele também entraram, estava repleta de deuses escondidos, ansiosos para ver aquele momento de troca de dinastia.

— Já vai ser nossa 19ª dinastia… se meus cálculos estiverem corretos. — sussurrava Thoth para Seth.

— Até agora, acho que vai ser a minha favorita… — admitiu Seth.

— Só porque ele é um sacerdote seu também e tem cabelo vermelho? — perguntou Thoth.

— Quietos, já vai começar. — lembrou Hórus.

Lentamente, Paramessu ajoelhou-se no centro da sala com o coração pulsando de ansiedade, mas mal se sobressaltou quando a voz de Hórus preencheu o cômodo.

— Paramessu… — disse Hórus tranquilamente e de forma já rotineira para as coroações — Rei do Alto e Baixo Egito, detentor do trono das duas terras…

— Estou aqui humildemente diante dos deuses. — disse Paramessu.

— A qual deus consagrará a si e seu reinado? — perguntou Hórus — E, se desejar, poderá escolher um nome régio para si.

— Reconheço a influência de Amon-Rá no meu caminho até o trono e a força de Seth na história de minha família subindo a cada geração. — disse Paramessu — Contudo, tendo o direito de escolher apenas um, escolho Amon-Rá e sua força.

— Pois bem… — disse Hórus sabendo que Amon-Rá estava ainda habitando Seti, então não tinha como ir para Paramessu imediatamente.

— Vai pedir para Amon-Rá sair do garoto? — sussurrou Sobek para Hórus.

— Seti não é mais um garoto. — lembrou Hathor.

— Vejo isso depois… — disse Hórus sussurrando para os deuses, mesmo que pudesse impedir Paramessu de ouvir essa parte, e logo voltando sua atenção para o novo faraó — Irá escolher um nome régio para si?

— Escolho então Menpehtyre Ramsés. — disse Paramessu — “Estabelecido pela força de Rá”. “Rá o deu à luz”.

— Seja bem-vindo então, Ramsés I. — disse Hórus com um sorriso.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** SEJAM TODOS BEM VINDOS A DINASTIA RAMESIDA! Meio mundo de Ramsés vos esperam. Menpehtyre significa Estabelecido pela força de Ra Ramsés significa Rá o deu à luz. Paramessu, de uma família de provável origem dos hicsos do delta do Nilo, era um general e vizir de grande confiança do faraó Horemheb que, sem filhos, acabou nomeando-o como seu herdeiro já que ele, além de ter sua confiança, tinha já até neto (e até seu neto tinha cabeleira ruiva tá? N vem me acusar de whitewashing n). Quando Horemheb morreu, Paramessu se tornou faraó, sendo conhecido como Ramsés I. **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 A guerra de troia - https://mitologiagrega.net.br/a-guerra-de-troia/ A guerra de troia 2 - https://querobolsa.com.br/enem/historia-geral/guerra-de-troia A guerra de troia 3 - https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-guerra-troia.htm Tróia - https://en.wikipedia.org/wiki/Troy