A Morte Das Areias do Saara
142 O Grande
Notas iniciais

Descansando pela majestade deste grande deus nesta caverna. Ele dá ordem aos deuses que estão nela. O nome do portão desta cidade por onde o grande deus entra é “o local de descanso daqueles em Duat”. O nome desse lugar é “boca da caverna que examina os cadáveres”. O nome desta hora da noite que guia este deus é “a dona estrelada da barca”. (Quem) repele o inimigo (quando) ele sai.
~ Fragmento de “O livro do Amduat”
Pela grande área do palácio real em Tebas, Kebechet e Ihy andavam em busca do novo amigo. Era a hora do dia e o dia da semana que os três costumavam brincar, mas os dois deuses não encontravam o amigo em lugar algum. Os mortais não viam os dois jovens deuses explorando cada centímetro do palácio, e eles só se revelaram para olhos mortais quando encontraram quem procuravam.
Sentado no canto mais escondido do jardim real, com quase 14 anos no rosto no emoldurado pelos cabelos ruivos que brilhavam no sol, um par de orelhas furadas com pequenos brincos de argola que tradicionalmente o denunciavam como o primeiro filho homem da família e uma espada de verdade na mão, estava o filho que Seti concebeu com Amon-Rá em seu corpo, Ramsés II.
Kebechet e Ihy ainda estavam envoltos pela magia que os escondia dos demais quando o jovem Ramsés II levantou a cabeça, sentindo que não estava mais sozinho.Foi nesse momento que Kebechet e Ihy se revelaram para Ramsés II. Os dois deuses olharam para o rosto do jovem e então para a espada em sua mão, uma arma tão perigosa nas mãos de alguém tão jovem era prova dos tempos turbulentos que o Egito estava, em guerra tanto com os hititas, como com os núbios, e perdendo território para ambos.
— Está tudo bem? — perguntou Ihy.
— Estou só pensando em amanhã… — admitiu Ramsés II — Não esperava que meu avô fosse ficar tão pouco tempo no poder e aí já me colocar assim, tão já na fila de próximo faraó com a coroação do meu pai amanhã.
— Não deu nem dois anos com o Ramsés I no poder antes de… bem… — disse Kebechet timidamente, abaixando a cabeça pensando no falecido faraó, e avô do amigo.
— Não vou conseguir brincar… ou melhor, treinar, hoje. — admitiu Ramsés II — Apesar de que eu deveria. Sei que nós brincarmos de luta me treina para o combate de verdade, e meu pai quer me levar para o campo de batalha de novo.
— Certeza? — perguntou Ihy — Quando você voltou da guerra disse que queria treinar bastante já que queria ser mais útil quando seu pai lhe levasse novamente. Afinal, só foi uma vez até agora para a guerra.
Ramsés olhou para os dois, e então para a sua arma, claramente em dúvida. Trocou então a espada de uma mão para a outra duas vezes e então ergueu o olhar de novo.
— Talvez seja uma boa ideia para extravasar um pouco? — sugeriu o jovem príncipe, em dúvida de qual decisão tomar.
Ramsés II se levantou, já bem mais alto que ambos os deuses que aparentavam ser mais novos do que ele. O príncipe estava pronto, com sua espada na mão e Ihy invocou sua própria espada enquanto olhava para Kebechet.
— Vai participar hoje? — perguntou Ihy para Kebechet.
— É útil saber lutar, né? — disse Kebechet soltando um suspiro enquanto Ihy invocava uma espada para ela e lhe dava — Mas eu não gosto de brincar disso… Mesmo considerando que ele não consegue machucar a gente.
— Ao menos pra me ajudar. — sussurrou Ihy no ouvido da garota — Sabe que Ramsés II é complicado demais só pra mim.
Kebechet riu e revirou os olhos.
— Espero que o tio Hórus não saiba disso. — disse Kebechet sussurrando de volta, provocando Ihy.
— Se meu pai descobrir eu peço pra ele tentar lutar contra o Ramsés II pra ver do que estou falando. — sussurrou Ihy.
— Vão ficar aí só cochichando? — perguntou Ramsés II, já de pé e pronto.
Ihy lançou um último olhar pidão para Kebechet antes de partir para cima de Ramsés II, iniciando assim o combate no qual Ramsés II atacava de verdade, mas Ihy tomava cuidado. Kebechet bufou levemente, sem ver muita escolha além de participar. Assim, depois de resmungar levemente “meninos…” ao revirar os olhos, ela acabou se juntando também.
Acabou que os três ficaram horas ali nos jardins do palácio, lutando, brincando, rindo e conversando, até que estavam os três deitados olhando o céu, que começava a ganhar um tom de laranja. Exausto e cheio de suor, Ramsés II se despediu dos amigos com um sorriso no rosto, já bem menos tenso para o que o dia seguinte prometia, a coroação de Seti.
Contudo, com tantas coroações já tendo sido presenciadas pelos deuses, obviamente nem todos se sentiam tão interessados em acompanhar se não fosse a obrigação deles o fazer. Anúbis, Anput e Kebechet foram três dos que não se preocuparam em acompanhar as etapas finais da subida de Seti I ao poder como faraó. Ao invés disso, resolveram ir para o submundo micênico conhecer alguém.
Na mansão que servia de residência para Hades e sua família, Perséfone estava sentada sobre um banco repleto de almofadas e, em seu colo, estava a recém nascida Melinoe. A nova filha de Hades e Perséfone pousava tranquilamente no colo da mãe, os olhos inteiramente pretos olhavam os visitantes com pouco interesse, já que achava ficar de olho no peito da mãe em busca de indícios de que ganharia mais leite muito mais digno. O lado esquerdo de seu corpo era preto enquanto o lado direito era branco como calcário, incluindo o cabelo.
— Oi Melinoe… — disse Kebechet gentilmente colocando seu dedo dentro da pequena e delicada mão de Melinoe, que logo se fechou.
— Ela parece tão calma… — comentou Anput, sentada ao lado de Perséfone.
Macária entrou no cômodo e deixou uma bandeira com uma ânfora com vinho, alguns copos e pão sobre a mesa de centro e então sentou-se do outro lado de Perséfone, aproveitando também a oportunidade para admirar a nova irmã.
— Não se preocupem, não foi feito aqui no submundo. — disse Macária, já sendo bem sabido a essa altura que a comida do submundo trazia consigo consequências — Peguei ambos em Tirinto.
— Ah, faz tempo que não vou para Tirinto. — disse Anput — O mar lá é lindo, mas o das ilhas do Mediterrâneo e as do Mar Vermelho é mais bonito.
Atrás do banco onde as moças estavam sentadas, estava Hades, de braços cruzados e encostado contra uma parede, como uma águia protetora que estava de olho em sua família. Não era muito diferente da energia que o próprio Anúbis exalava ao pegar um dos copos, encher de vinho e ficar fitando o copo por um tempo, cheirando-o e sentindo-o, como se esperasse sentir alguma coisa fora do comum.
— Ela já disse que não é daqui. — disse Hades repentinamente — Acha que eu iria arriscar um conflito internacional?
— Nunca se sabe. — disse Anúbis — Especialmente na situação atual.
— Por “situação atual”, quer dizer os hititas espalhando caos por todo o lado deixando todos a um triz de começar uma guerra com alguém que não está em guerra no momento? Os hititas são um saco… — resmungou Hades, revirando os olhos — Estão irritando todo mundo.
— Ainda naquela confusão por causa de Tróia? — perguntou Anput.
— Mais ou menos. — respondeu Hades — Aquele tal de Odisseu tá viajando tentando voltar para casa até agora. Já fazem quase dois anos! Mas ele vai mais pro lado errado do que pro certo.
— Ouvi falar que até bem mais a oeste do Egito, bem além no deserto dos berberes, ele foi parar… — falou Anúbis.
— Sim. Ele passou direto de Micenas e foi parar num lugar com viciados em Lótus. Não sei se ele é idiota ou só azarado mesmo. — comentou Hades enquanto se aproximava para pegar um copo de vinho também.
Hades tomou um gole de vinho e então parou, como se tivesse percebido algo do lado de fora. Ele pousou o copo de delicada argila num móvel perto da parede na qual estava encostado, e resmungou:
— Acho que Ereshkigal chegou.
Ele então sumiu dali para receber a deusa enquanto o resto dos deuses ali presentes continuavam conversando e admirando a pequena Melinoe. Anput estava com vontade de segurar a pequena garota, mas não queria irritá-la demais. Afinal sabia que bebês não eram muito fãs de ficarem trocando constantemente de colo com tantas visitas interessadas em os ver, principalmente se nenhum desses colos era o da mãe.
— Pode segurar. — disse Perséfone rindo, olhando para Anput — Está na cara que quer.
— Obrigada. — respondeu Anput rindo enquanto Perséfone passava a pequena Melinoe para o colo da amiga — Me fez ficar com saudade de quando Kebechet era pequenininha assim.
— Não querem ter mais um? — perguntou Marcária.
— Só a Kebechet já está suficiente. — disse Anput rindo de leve enquanto admirava Melinoe, tão tranquila no seu colo mas lhe encarando de um jeito levemente arrepiante com seus olhos intensamente negros.
— E você concorda? — perguntou Perséfone.
Perséfone olhou para Anúbis que, ao invés de responder, simplesmente desviou o olhar de forma enigmática enquanto Anput nem ousou levantar o olhar de Melinoe, pois sabia bem o que Anúbis tinha a dizer.
— … Entendi… acho… — disse Perséfone eventualmente de forma pensativa.
— Então? Onde está? — eles ouviram a voz de Ereshkigal de aproximando do lado de fora do cômodo que estavam — É outra menina né?
— Está com Perséfone — disse Hades abrindo a porta e notando que Melinoe estava com Anput agora — Ou melhor…. Agora está com Anput.
Ereshkigal entrou no cômodo e aproximou o seu rosto do da bebê, que simplesmente lhe encarou de volta mesmo quando Ereshkigal abriu um sorriso enigmático e nada gentil. Ereshkigal se ergueu de novo e olhou para Perséfone enquanto falava:
— Já fiquei curiosa para como ela vai ser quando crescer.
— Também. — admitiu Macária, olhando para a irmã.
— Você não convidou Lelwani não né? — perguntou Ereshkigal, olhando para Hades.
— Avisei que vocês poderiam não gostar ou a situação podia ficar desconfortável. — respondeu Perséfone — Então achamos melhor serem duas visitas separadas. Será que não conseguem ficar na paz? São os mortais que estão brigando… não nós…
— Quando tiver que dividir fronteira com os hititas vai entender a complicação. — disse Anúbis — Só Tróia não é nada.
— Tenho que concordar. — respondeu Ereshkigal, bufando e revirando os olhos — O território deles não para de crescer e agora até conseguiram incluir a ilha de Chipre. Temos que tomar cuidado.
— Isso é com os mortais… — disse Anput — Não podemos interferir.
— Infelizmente… — reclamou Ereshkigal — Algum dos mortais de vocês já conseguiu reproduzir aquela maldita arma hitita com aquele metal pesado?
— Quase… — respondeu Anúbis — Espero…
— Não é tão fácil pelo o que parece… — disse Anput — Nem temos tanto até onde sabemos.
— Por aqui estão bem longe de “Quase”… — admitiu Hades revirando os olhos — Vocês estão com bem mais contato com os hititas em comparação a nós. Ainda temos muita terra e água nos separando.
— Felizmente. — completou Perséfone.
Eles ficaram ali algumas horas mais e então Anúbis, Anput e Kebechet voltaram para o Salão do Julgamento. Contudo, a forma que eles encontraram o salão, não foi exatamente como eles estavam planejando. Era claro que havia alguma fofoca nova correndo por ali e, considerando que a cerimônia final para a coroação de Seti I havia acontecido, provavelmente tinha alguma relação.
Eles percorreram o olhar pelos presentes no Salão do Julgamento e notaram que no ponto onde a maior parte dos deuses estavam reunidos, estava ninguém menos do que Amon-Rá. Curiosos para saber o que acontecia, os três se aproximaram do centro das fofocas, perto não só de Amon-Rá, como também de Osíris, Ìsis, Hórus, Thoth e Hathor.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Anúbis.
— Seti I não escolheu Amon-Rá para ficar com ele? — perguntou Anput.
— Não… — resmungou Hórus, logo soltando um suspiro.
— Ele é um bom garoto… — disse Amon-Rá.
— Ele tem 33 anos… — sussurrou Thoth pra si mesmo — Não conta mais como garoto para os padrões mortais.
— Quem ele escolheu para estarem assim tão agitados? — perguntou Anput enquanto Anúbis percorria os olhos pelos deuses ali presentes.
Claro que nem todos os deuses egípcios possíveis estavam ali, muitos podiam estar simplesmente cuidando de seus afazeres em vários lugares do Egito. Além disso, apesar da quantidade enorme de deuses, os deuses que os faraós escolhiam para governar ao seu lado não costumavam variar tanto assim. Mas considerando que Amon-Rá estava ali, havia um deus que logo Anúbis sentiu falta.
— Não me diga que ele escolheu quem eu acho que ele escolheu… — disse Anúbis preocupado, olhando para os demais em busca de respostas.
— Depende de quem você está achando… — resmungou Hórus, mas aparentemente sentindo que Anúbis pensava no deus certo.
— Acho que está imaginando certo… — disse Ísis — Seti I escolheu reinar ao lado de Seth.
— De quem estamos falando mesmo? — perguntou Amon-Rá.
— De Seti I.. lembra? — perguntou Ísis gentilmente, preocupada com o estado de Amon-Rá — O rapaz que você ficou possuindo até hoje mais cedo.
— Ah sim.. lembrei… ele é um bom garoto. — disse Amon-Rá.
— Seti de fato é um bom rapaz, — disse Osíris — O que será que acontecerá com Seth ao seu lado? Apesar de que também é bem possível que Seth tenha algumas boas intenções.
— Seth, com boas intenções? — perguntou Hórus.
— Eu disse algumas. — lembrou Osíris — Afinal, ele segue Amon-Rá lealmente.
— E Amon-Rá está aqui… — lembrou Hathor.
— Seth demonstrava muito potencial quando ainda era príncipe. — lembrou Thoth — Ou até como soldado. Acham que devemos botar um pouco mais de confiança nele?
— O problema aqui acho que não é Seti I… — lembrou Hórus — Mas sim Seth. Ele é um deus afinal de contas. Terá Seti I força para contrariar Seth quando ele decidir fazer algo que não seria bom?
— Já estou toda confusa com tanto “Seti” e “Seth” na conversa… — resmungou Kebechet.
Aparentemente já ignorando a conversa por completo, Amon-Rá começou a lentamente se afastar dela. Os deuses, preocupados com a situação de Seth, demoraram a perceber que Amon-Rá se afastava. Foi quando Kebechet cutucou Anput, mostrando que o poderoso deus estava se afastando, que os demais perceberam. A conversa imediatamente foi interrompida e todos se viraram para Amon-Rá.
— Para onde vai? — perguntou Ísis gentilmente.
— Ahm… — resmungou Amon-Rá lentamente — Acho que esqueci.
— Passou bastante tempo com Seti, não deveria descansar? — perguntou Hathor enquanto Ísis colocava a mão no ombro de Amon-Rá, pronta para levá-lo para algum lugar para descansar.
— Seti! É isso! — disse Amon-Rá, lembrando-se repentinamente.
— Não pode ir para Seti, ele está com Seth agora. — lembrou Hórus, que, assim como os demais, olhava com um misto de preocupação e pena para o estado de Amon-Rá.
— Não ele… seu filho. — disse Amon-Rá — Ramsés II.
— Ramsés II já herdou seu poder, quer ainda lhe dar mais? — perguntou Thoth incrédulo.
— Isso é seguro? — sussurrou Anúbis para Osíris, que deu de ombros — Hatshepsut com herança de Amon-Rá e Hathor no corpo era incrível já mas… Amon-Rá duas vezes?
— É praticamente certo que Ramsés II aguenta Amon-Rá mas… — sussurrou Osíris de volta — Vai ficar bem discrepante com o resto dos mortais.
— Ramsés II já é um guerreiro acima da média pelo o que ouvi falar. — disse Hórus enquanto Kebechet fazia uma anotação mental para passar para Ihy o fato de que Hórus já tinha notado isso.
— Vamos, vou com o senhor até Ramsés II… — disse Ísis.
Ao ouvir isso, Kebechet correu os poucos metros que a separaram de Ísis e Amon-Rá, olhou para a elegante deusa e falou:
— Posso ir também?
— Claro. — disse Ísis — Vai ser bom ter um rosto que Ramsés II reconhece.
Com Kebechet acompanhando Ísis e Ísis de olho em Amon-Rá, não soltando o seu ombro para que pudesse evitar ele se revelando acidentalmente para os mortais, os três foram em direção ao palácio real. Já tendo passado a parte mais religiosa da coroação, o palácio real estava tomado por uma festa que marcava o verdadeiro início do reinado de Seti I, embora ele já estivesse atuando como governante nos meses que separaram aquele dia da morte de Ramsés I.
A música tocava, pessoas riam e conversavam enquanto Seti I estava ocupado falando com todos que queriam lhe bajular, mesmo que poucos notassem que o faraó parecia um pouco irritado e incomodado.
Ramsés II estava ao lado da mãe, da irmã mais velha e da mais nova. Tuya, cuidadosamente, passava as mãos pelos cabelos dos dois filhos mais novos, o que incluía Ramsés II, arrumando-os.
— Tá bom mãe… — resmungava Ramsés II.
— É um dia importante, meu filho. — explicava Tuya — Tem que estar bem apresentável. Ninguém mandou sair pra brincar de luta com os filhos dos outros nobres no meio da festa. Não pense que não vi.
— Eu sei que é um dia importante... — respondeu Ramsés II enquanto a mãe finalmente parava de mexer em seus cabelos para, a agora rainha, poder conversar com alguns nobres que também queriam lhe bajular.
Ramsés II suspirou aliviado, mas enquanto percorria o olhar pelos nobres, não deixando de passar um olhar para o pai, que queria ter ao seu lado no momento, mas estava claramente ocupado, seu olhar foi imediatamente atraído para uma moça de mais ou menos a sua idade. Com longos cabelos negros, olhos doces emoldurados pela pintura negra do kajal posta sobre a pele parda que parecia reluzir, para Ramsés II era como se a garota andasse sobre as nuvens de tão elegante e bela que era. Não era sem motivo que seu nome era Nefertari, a mais bela de todas.
Ao notar que era encarada pelo príncipe, Nefertari corou e timidamente abaixou o olhar para o chão. Perceber que foi descoberto fez Ramsés II desviar o olhar também, mas logo ele não conseguiu resistir e olhou novamente para ela, que também notou o movimento e deixou um sorriso escapar de seus lábios, embora não tenha tido coragem de retribuir o olhar.
— Sabe… — disse repentinamente Tia, a irmã mais velha de Ramsés, sussurrando para o irmão — Você devia ir lá falar com ela ao invés de ficarem se encarando de longe toda vez que estão no mesmo cômodo.
— Não sei do que está falando… — respondeu Ramsés II, dando as costas para Nefertari e para Tia.
— Mas você não se encontrou escondido com ela na cidade? — perguntou Henutmire, a irmã caçula e, consequentemente, inocente quanto à situação e porquê o seu comentário deixou o irmão vermelho.
— Oh, isso aconteceu? — perguntou Tia — O que fizeram?
— Só conversamos! Não é crime até onde sei. — defendeu-se Ramsés II.
Lentamente, Ramsés II foi se afastando da família em direção a mesa com diversos comes e bebes. O avanço era lento pois ele também tinha pessoas que já queriam começar a bajulação daquele que, se as suspeitas fossem certas, logo seria nomeado o herdeiro de Seti I. Distraidamente, já ao lado da mesa farta, ele pegou um punhado de uvas com uma mão e ficou comendo-as uma a uma enquanto olhava as dançarinas no centro do cômodo, por onde a luz das estrelas enfeitava a festa, dançando aquela forma mais antiga, acrobática e com menos roupas da dança do ventre.
Então, enquanto ele terminava o seu punhadinho de uvas e se virava para pegar mais alguma coisa da mesa, alguém agarrou o seu pulso. Ao olhar para quem havia agarrado o seu pulso e começava a puxa-lo para longe da mesa, Ramsés II se surpreendeu ao ver Kebechet.
— Kebechet? O que está fazendo aqui? — perguntou Ramsés II, olhando ao redor com medo de alguém ter notado a intrusa, enquanto a garota o puxava para longe não só da comida, como também da festa em si.
— Você vai ver. — prometeu Kebechet.
Ramsés II não entendia o que acontecia, mas seguiu Kebechet mesmo assim. A garota o levou para longe da festa, direto para o canto escondido do jardim onde ele mesmo havia se escondido no dia anterior. Contudo, dessa vez, aquele canto ignorado não estava vazio como estava quando ele se escondeu ali, lá havia um homem e uma mulher.
Foi impossível não olhar para o homem e a mulher com admiração. Mesmo se o arrepio que percorreu o corpo de Ramsés II não fosse indicativo suficiente de que eles não eram meros mortais, sem dúvida o brilho dourado leve que envolvia o corpo do homem e a extrema semelhança da mulher com as pinturas feitas de Ísis eram os indicativos finais.
Diante de Ísis e Amon-Rá, Kebechet soltou a mão do príncipe, que ao ver a mão livre, logo se ajoelhou diante dos deuses com a mão fechada sobre o coração.
— Vejo que já sabe na presença de quem se encontra. — disse Isis — Levante-se, Ramsés II, precisamos conversar.
— Será uma honra. — disse Ramsés II, se erguendo lentamente mas demorando a ter coração de olhar para os deuses novamente — O que precisam de mim?
— Sabe que Amon-Rá apareceu para seu pai também anos atrás? — perguntou Isis.
— Apareci? — perguntou Amon-Rá, e Ísis pousou gentilmente a mão em seu ombro enquanto Ramsés II notava o estranho comportamento do deus.
— Meu pai e meu avô contam como Amon-Rá mandou meu avô de volta para Tebas quando estava no campo de batalha. — disse Ramsés II — E isso fez o faraó da época, Horemheb, nomeá-lo herdeiro.
— É mais do que isso. — disse Isis — Essa é a versão que Seti I pode contar. A verdade é que ele estava alojando Amon-Rá dentro de seu corpo desde antes de conceber a você.
— O-oh…. Mesmo?! — perguntou Ramsés II, um tanto surpreso.
— Mesmo. — respondeu Isis — E assim ele ficou até hoje mais cedo, quando escolheu governar ao lado de Seth.
— Hmmm… — resmungou Ramsés II enquanto refletia sobre o que toda aquela quantidade de tempo significava.
— O que significa que você também é filho de Amon-Rá. — disse Isis calmamente.
Ramsés II ficou algum tempo em silêncio enquanto diferia aquela informação. Ele respirou fundo, controlando qualquer emoção extra na frente dos deuses, e então perguntou:
— Com todo o respeito, não vieram até aqui só para falar isso, vieram? — perguntou ele em dúvida.
— Não. — admitiu Isis com um sorriso no rosto — Viemos pois é sua vez de ficar com Amon-Rá em seu corpo para que, quando chegar sua vez de ser faraó, seja o faraó poderoso que o Egito precisa.
— O maior de todos… — disse Kebechet como se fosse simples.
— Eu? — perguntou Ramsés II, um tanto surpreso.
— Você. — confirmou Ísis.
— Sem pressão … — resmungou Ramsés II.
Lentamente, o olhar do príncipe foi para Amon-Rá, e notou como a postura do deus estava diferente. Antes ele parecia meio perdido, agora ele olhava para Ramsés II com o peito estufado de orgulho. O braço poderoso de Amon-Rá se moveu, estendendo a mão para Ramsés II. O príncipe sentiu como se aquele fosse o aperto de mão mais importante da sua vida.
Ele respirou fundo, sentia-se arrepiar enquanto olhava para a mão de Amon-Rá e ao ouvir Isis falar:
— Fizemos o mesmo com Hatshepsut e, se seus estudos estiverem em dia e sem as influências dos Tutmosis que vieram depois dela, sabe que grande faraó ela foi. A única diferença foi que ela só teve algum deus com ela quando virou faraó, e no caso foi Hathor.
— Apesar de dizerem que ela foi uma usurpadora. — disse Ramsés II cautelosamente, apertando a mão ao lado de seu corpo, juntando a coragem para apertar na mão de Amon-Rá.
— Usurpadora ou não, trouxe paz e prosperidade para o Egito. — disse Isis.
— Ela era amiga do meu pai. — completou Kebechet.
— Sério? Do senhor Anúbis? — perguntou Ramsés II levemente surpreso. — Acho que isso explica a capela pra ele.
— O que falta para deixar seu nome na história do Egito está logo à sua frente. — disse Isis — E salvar o Egito dos hititas e dos núbios.
A menção dos hititas e dos núbios encheu o peito de Ramsés II de coragem. Mesmo ainda estando na contagem regressiva para os 14 anos, o garoto já tinha visto a guerra bem de perto, mais especificamente da própria linha de frente. Assim, o príncipe nem pensou duas vezes ao finalmente apertar a mão de Amon-Rá. O aperto de mãos era mais uma formalidade e pose do que realmente uma etapa necessária, mas no segundo seguinte Amon-Rá desaparecia na frente dos olhos de Ramsés II.
Ele não sabia se era por causa da brisa repentina e fria que bateu ou da magia que tinha acabado de acontecer, mas um arrepio percorreu todo o corpo de Ramsés II e sua cabeça estava pesada e tinha uma sensação incômoda de como se não estivesse sozinho.
— Não estranhe se começar a ouvir a voz dele em sua mente. — alertou Ísis.
— Você logo se acostuma… — disse Amon-Rá, fazendo o coração de Ramsés II dar um pulo.
— N-Não tenho tanta certeza… — disse o príncipe.
— Você não precisa falar, só de pensar já consigo te escutar. — explicou Amon-Rá.
— Vamos deixar vocês dois se acostumando. — disse Isis — Não conte para ninguém. Embora talvez seu pai vá notar, considerando que está com Seth.
— Tchau. — disse Kebechet acenando para Ramsés II enquanto sumia dali junto com Isis.
— Tchau… — respondeu ele ainda meio mexido com os últimos acontecimentos, os quais tentava entender — Então…
— Se tiver alguma pergunta, é a sua chance. — disse Amon-Rá.
— Acho que nem sei formular perguntas para as dúvidas que tenho… — admitiu Ramsés II, sentando-se em um dos bancos de pedra que havia por ali.
Ramsés II respirou profundamente, se dando um tempo para organizar a cabeça, e por vários minutos ficou ali, primeiro em silêncio, mas logo conversando com Amon-Rá para lentamente entender melhor a situação. Ao mesmo tempo, ele se preocupada com como Amon-Rá parecia estranho quando o encontrou. Parecia meio esquecido. Não sabia se isso era o normal dele ou não, não sabia também se Amon-Rá estava conseguindo ouvir esse pensamento dele também. Basicamente, eram muitas as coisas que ele não sabia.
O barulho da festa continuava mesmo com o passar do tempo enquanto Ramsés II conversava com Amon-Rá e tentava se acostumar com a companhia. Foi nesse momento também que Seti I saiu da festa, respirou profundamente aproveitando a brisa fresca e o silêncio e, ao andar pelo jardim, acabou se encontrando com Ramsés II.
— Filho? Está tudo bem? — perguntou Seti I, parando por uns segundos e então exibindo um olhar de surpresa — Oh… mas já? Nem deixaram eu subir ao trono direito…
— Como? — perguntou Ramsés II enquanto Seti I ia até o banco que estava para se sentar também.
— O Grande Amon-Rá está na sua cabeça, certo? — perguntou Seti I.
— Seth te contou? — perguntou Ramsés II, olhando o pai de perto e notando que ele não parecia estar tão bem assim, parecia, no mínimo, cansado.
— Vejo que está bem informado. — disse Seti I.
— Lady Ísis e o Senhor Amon-Rá me explicaram. — disse Ramsés II, olhando preocupado para o pai — Você está bem?
— Um pouco de dor de cabeça e cansaço já da festa. — admitiu Seti I — Seth não é uma companhia fácil, mas estou lidando bem.
— Vai conseguir… — disse Ramsés II de forma simples.
— Estou orgulhoso de você. — disse Seti I repentinamente.
— Mas eu não fiz nada.. — respondeu Ramsés II, depois de alguns segundos de silêncio nos quais ele se perguntava exatamente o que havia feito para deixar Seti I orgulhoso.
— Cresceu bem… se tornou um bom homem… um bom guerreiro… — explicou Seti I — Tenho certeza que irá responder às expectativas dos deuses.
— Que são grandes demais. — disse Ramsés II suspirando pesadamente.
— Mas tenho certeza que estão ao seu alcance. — disse Seti I.
Como se para ter certeza em como Seti I confiava em Ramsés II, alguns meses depois, quando Ramsés II já tinha finalmente completado 14 anos, ele foi declarado como o herdeiro oficial de Seti I. Diante disso, ele se viu diante de um problema. Solteiro, seria facilmente uma mera questão de tempo até casarem ele com uma de suas irmãs.
Assim, no dia seguinte ao anúncio de sua nomeação como herdeiro ter chegado aos ouvidos de todos os nobres, sumo-sacerdotes e generais mais importantes, Ramsés II se viu nos fundos da elegante casa que Nefertari morava. Escondido sob um pano enrolado no corpo como uma capa, que lhe fornecia um precioso capuz, Ramsés II tentava disfarçadamente olhar a casa de Nefertari por fora, tentando encontrar a garota.
Foi assim que ele viu Nefertari casualmente saindo para o quintal da casa com um rolo de papiro na mão, provavelmente indo em direção a um banco protegido por um par de arbustos floridos.
— Nefertari… — chamou Ramsés, achando melhor chamar ela primeiro ao invés de só pular o muro do quintal e consequentemente assustar a garota.
Nefertari parou o que fazia, e procurou de onde vinha o seu nome. Como o jardim dela estava longe de ser tão grande, florido e verde como o do palácio, não tinha tantos lugares para Ramsés II ficar e quase nenhuma árvore que podia o esconder. Ela rapidamente o achou, abriu um sorriso quando o viu e rapidamente foi até ele.
— Podia ter avisado que viria. — disse ela apoiando-se no muro que os separava.
— Decidi em cima da hora vir. — respondeu ele.
— Parabéns por ter sido nomeado herdeiro. — disse Nefertari — Mas não era novidade que isso iria acontecer cedo ou tarde.
— Sobre isso… — disse Ramsés II, ficando repentinamente inseguro e bem corado, enquanto juntava a coragem, até Amon-Rá ficou quieto, para deixar o rapaz mais calmo — Q-Quer casar comigo?
— C-Casar? — perguntou Nefertari, ficando extremamente corada e envergonhada.
— É só uma questão de tempo até falarem de me casar com alguma das minhas irmãs… ou com qualquer uma que seja, para que eu tenha uma futura rainha. — disse Ramsés II, mal tendo coragem de olhar nos olhos de Nefertari — Mas eu quero que você seja a minha Grande Esposa Real.
— Grande Esposa Real… — repetiu Nefertari, sentindo o peso daquelas palavras.
— E-Então? — perguntou Ramsés II, olhando preocupado para ela, com medo de sua resposta.
Nefertari, mesmo morrendo de vergonha, colocou a mão delicadamente na bochecha de Ramsés II, que ainda estava tenso esperando a sua resposta, mas logo ficava mais perdido no olhar dela do que tenso. Ela se aproximou lentamente, os dois fecharam os olhos devagar, e ela beijou-o nos lábios. Não era o primeiro beijo dos dois, mas era o segundo.
Quando ela se separou dele, deixou a testa roçando na dele, com os narizes quase se tocando. Nefertari então disse:
— Eu caso com você.
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