A Morte Das Areias do Saara
76 Palavras sinceras e do coração
Notas iniciais

Então ele pensou em Ahura esperando por ele em Koptos e lançou um feitiço sobre os homens que ele havia feito, dizendo: "Operários, operários! Trabalhem para mim! E me levem de volta ao lugar de onde vim." Eles trabalharam dia e noite até chegarem a Koptos, e lá estava Ahura sentado à beira do rio, sem comer e beber nada desde que Nefer-ka-ptah foi embora. Pois ela estava sentada esperando e observando a tristeza que viria sobre eles.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Anúbis via com o olhar pesado como Ahura tremia como se estivesse morrendo de frio. A ideia de frio extremo não era tão estranha assim, por mais quente que fosse o deserto. Afinal, assim como o dia conseguia ser extremamente quente, as noites conseguem ser congelantes. Contudo, o que fazia Ahura se encolher sentada no chão abraçando o próprio corpo e tremer tão fortemente não era o frio e o rosto de puro assombro dela provava isso.
Ela não parecia notar que não estava mais no mundo dos vivos e que o submundo a rodeava. Assim como não notou Osíris se aproximando com olhar preocupado.
— Minkhaf fez de novo... — disse Osíris.
— Sim. — confirmou Anúbis embora não tivesse sido uma pergunta — Ao menos Merab foi enterrado sem problemas.
Ao ouvir o som do nome do filho, Ahura finalmente mostrou alguma reação. Ela saiu de seu assombro e choque, e levantou o olhar, trêmula, para os dois deuses.
— M-Merab… — gaguejou Ahura com a voz fraca — M-Merab… onde está meu filho? Por favor, ao menos isso. Façam o que quiserem comigo, mas me mostrem que meu filho está bem.
Gentilmente, Osíris se aproximou de Ahura e, com um sorriso simpático, estendeu-lhe a mão para ajudá-la a se levantar. A mão foi extremamente necessária, pois os joelhos de Ahura tremiam sem confiança de conseguir sustentar o próprio peso. A única coisa que dava forças para a mulher no momento era a esperança de ver que seu filho estava bem. Sabendo bem disso, Osíris simplesmente afirmou com a cabeça para Anúbis e aquilo foi o suficiente para que Anúbis soubesse o que fazer.
Entendendo bem o que Osíris queria, Anúbis afirmou de volta com a cabeça e simplesmente sumiu dali num piscar de olhos reaparecendo na sala onde Thoth acumulava seus vários registros das centenas e centenas de julgamentos que faziam já à centenas de anos. Sentado no chão debruçado sobre uma prancheta de madeira rabiscando em um papiro, estava o pequeno Merab e, ao seu lado, vendo carinhosamente a obra de arte que a criança criava, estava Ísis.
Ao ver a entrada de Anúbis, Ísis se virou para ele com um sorriso gentil e Merab não desviou sua atenção do desenho que parecia roubar toda sua atenção.
— Chegou a hora de julgar a alma dele? — perguntou Ísis.
— Ainda não. — respondeu Anúbis chegando perto e com isso, Merab finalmente se deu conta de sua presença.
— Tio ‘Nubis! — exclamou Merab erguendo seu desenho para que Anúbis pudesse ver também — Olha! Eu fiz um desenho!
— Seus desenhos estão ficando cada vez melhores, Merab. — respondeu Anúbis olhando para o desenho e, embora ele não estivesse se referindo as habilidades artísticas de Merab, estava sim se referindo ao fato de que os desenhos haviam ficado cada vez menos tenebrosos e assustadores.
Ainda conseguia se lembrar do aperto que sentiu no coração com o primeiro desenho que Merab fez desde que ele praticamente virou um hóspede do Salão do Julgamento. Por mais que diversas cores ejá estivessem disponíveis, principalmente para os deuses, o primeiro desenho só usava preto. Merab ainda era muito pequeno, assim, era difícil entender os sentidos dos desenhos ainda, mas o sufoco e o temor que aquele primeiro desenho havia passado era quase palpável. Seja porque ele havia levado quase uma hora para conseguir registrar qualquer coisa no papel, ou porque o pouco que eles entendiam do desenho indicava que aquilo era o momento da morte do menino.
Mas agora, os desenhos estavam alegres. Ainda usava o preto, mas também usava o vermelho, o amarelo, o verde e o branco. A sensação mais gostosa, era notar que o raríssimo azul estava em grande parte do desenho e o que a tinta índigo que Anput havia adquirido no dia anterior já havia sido inaugurado mesmo que tenha sido necessário um pequeno truque mágico para ele, uma mera alma, conseguir segurar o pincel.
— É o Wepet Renpet — disse Merab se referindo ao Ano Novo.
As cores que ele usava eram variadas e a alegria da cena era perceptível embora entender o desenho fosse bem difícil. Ao menos em cores lembrava bem o Wepet Renpet com suas músicas, danças, comilança e rituais em homenagem à Osíris que facilmente duravam por dias para celebrar não só a chegada de um novo ano, como também a chegada de mais uma cheia do Nilo. A alegria daquela data era tanta que se espalhava por todo o império e, por mais inocente que fosse as memórias de Merab dos poucos Wepet Renpet que havia presenciado, a alegria era tanta que os egípcios não só se embebedavam até cair, como também se entregavam aos braços de seus amados.
— Você gosta do Wepet Renpet? — perguntou Anúbis e o menino afirmou com a cabeça.
— Gosto muito. É divetido, a comida é gotosa e o papai e a mamãe ficam vários dias comigo. — respondeu a criança — Papai tá sempre ocupado. Mas não no Wepet Renpet.
— Você está com saudades da sua mamãe? — perguntou Anúbis e o menino afirmou tristemente com a cabeça.
— Tia Ísis diz que eu não posso ir vê-los…- respondeu Merab.
— Me desculpe Merab. — disse Ísis com dor no coração.
— É… sair daqui é perigoso mas… — disse Anúbis — É por isso que sua mãe veio te ver.
— Sério?! A mamãe tá aqui?! — perguntou a criança subitamente radiante de felicidade.
Era tão bom ver um sorriso no rosto de Merab que tanto Ísis como Anúbis sorriram diante da alegria. Ísis mesmo ficou com uma expressão de surpresa ao pensar que Ahura estava ali. Contudo, uma parte dela se apertou em tristeza. Sabia bem que ela não havia simplesmente “ido até ali para ver o filho”.
— Cadê?! Cadê a mamãe? Vamos lá ver ela! — pediu o menino largando a prancheta de lado e se erguendo ansioso começando a puxar o braço de Anúbis embora não tivesse a mínima ideia de onde a mãe estava — Quero ver a mamãe!
— Sim. Sim. Vamos. — disse Anúbis calmamente deixando Merab puxá-lo pela mão até a porta mas então tendo que guiar o caminho pelos corredores do submundo até chegar ao Salão do Julgamento. Tinha medo de submeter o menino ao seu jeito tão simples de desaparecer e reaparecer em outro lugar e acabar por assustar o menino novamente, pois bem sabia que podia ser assustador simplesmente se jogar na escuridão.
Ao entrar no Salão do Julgamento, a primeira coisa que a pequena criança viu foi sua mãe e imediatamente Merab correu para os braços dela gritando a palavra tão doce que é “mãe”.
— MAMÃAAAAAAAAAAAAAAAAAE! — exclamou Merab em plenos pulmões enquanto gritava.
— MERAB! — gritou a mãe de volta.
Ahura se jogou no chão novamente para poder ficar na altura do filho e então tomou-o nos braços apertando-o calorosamente enquanto ambos deixavam as lágrimas vencê-los e escorrerem pelo rosto. Ahura soluçava e Merab fungava no meio daquele reencontro que os deuses presentes apenas olhavam. Alguns segundos depois, Ísis se juntou a cena e sorriu aliviada ao ver os dois tão felizes se abraçando.
— Isso é um tratamento especial ou Minkhaf tentou trazer ela de volta também? — perguntou Ísis para Anúbis, impedindo magicamente que os dois mortais presentes escutassem a conversa que começava ali.
— Minkhaf. — respondeu Anúbis — E o corpo de Merab foi sepultado. Podemos julgá-lo quando quisermos agora.
— Não podemos deixar eles aproveitarem a presença um do outro por um tempo? — perguntou Ísis.
— Isso já conta como tratamento especial. — respondeu Osíris com um sorriso triste — Alguns minutos podemos permitir, mas a alma de Merab deve ser julgada.
— Como é típico de crianças assim, ele deve provavelmente ir para o Aaru. — disse Anúbis para os outros dois — Mas Ahura… foi cúmplice do marido, por mais que não tenha gostado da ideia desde o começo.
Por alguns vários minutos eles deixaram mãe e filho aproveitarem a presença um do outro. Os deuses acompanharam enquanto Ahura passava as mãos carinhosamente nas bochechas do filho, limpando as lágrimas que haviam escorrido, enquanto parecia querer memorizar em seu coração o inocente rostinho.
— Não podemos ficar aqui parados esperando eles matarem as saudades. — disse Osíris — Deixe-os na Sala de Thoth por enquanto. Julgaremos algumas almas e quando chegar a vez de Merab, chamamos ele.
Anúbis afirmou com a cabeça e foi até a mãe e o filho pedindo calmamente para eles esperarem na sala de papiros de Thoth enquanto os julgamentos recomeçavam. Ahura pegou o filho nos braços e deixou que Anúbis os levassem até lá. Ao chegarem na sala, Merab pediu para descer dos braços da mãe e, quando ela o botou no chão, ele segurou sua mão e a puxou até onde estavam amontoados seus desenhos.
— Mamãe! Olha os desenhos que eu fiz! — disse Merab exibindo os desenhos com um inocente sorriso.
Permitindo-se admirar a tranquilidade da cena por alguns momentos, Anúbis não pode deixar de sentir um turbilhão de emoções. Sentiu uma sementinha de inveja daquela normalidade, daquele carinho entre as duas almas, daquele momento mãe e filho. Mas, ao mesmo tempo também sentiu-se triste. Não demoraria muito para que tivessem que julgar a alma de Merab e o destino de Ahura ainda era incerto. Anúbis bem sabia que por mais que o Aaru fosse um lugar o mais belo e ideal possível, não era possível fugir de um problema comum com as almas das crianças ali. Nem sempre algum dos pais tinha levado uma vida boa e justa o suficiente para merecer aquele pós-vida. Claro, sempre dava um jeito de não deixar as crianças sozinhas à própria sorte, mas não deixava de ser uma situação muito complicada e triste.
Talvez Anúbis tivesse passado mais tempo do que esperava ali pensando, pois foi bruscamente trago de volta à realidade quando Anput chegou por trás dele e tocou-lhe o ombro. Ele virou para ela e a primeira coisa que viu foi um sorriso doce e calmo que ele não resistiu a retribuir.
— Lady Ísis pediu para eu ficar aqui olhando os dois. Os julgamentos já devem começar. — explicou Anput mas parou ao olhar fundo nos olhos de Anúbis e entender que a mente dele não estava ali segundos antes — Está tudo bem?
— Sim… só… — disse Anúbis dividido entre tentar achar as palavras certas para explicar ou simplesmente desviar do assunto — … enfim… nada importante… vou indo lá antes que Thoth saia pra algum lugar.
Antes de sair, ele deu um rápido beijo na bochecha de Anput que até conseguiu fazer um sorriso no rosto dela, mas não conseguiu apagar as preocupações em sua mente. Mas, quando a deusa olhou a cena de Ahura e Merab também, ela percebeu que talvez soubesse o que se passava na cabeça do marido.
Com os brevíssimos minutos que Anúbis havia passado com Ahura e Merab, o Salão do Julgamento já estava completamente diferente quando ele voltou. Estava tudo praticamente pronto para recomeçar os julgamentos dos mortais.
— Você não vai gostar do que Thoth acabou de me informar. — disse Osíris que se aproximou de Anúbis assim que ele entrou no lugar.
— O que? — perguntou Anúbis preocupado e estranhando a declaração.
Osíris respirou fundo e botou ambas as mãos para trás do corpo com a postura ereta como se fosse um homem de negócios e então respirou fundo.
—Aparentemente, enquanto lidávamos com Ahura e Merab, Rá foi falar com Hórus. — começou a explicar Osíris — Ele pediu para que Kawab morra na semana que vem.
— Semana que vem?! — repetiu ele surpreso — Mas Kawab ainda tem praticamente um mês de vida. Por mais que tenham jogado uma doença nele, ele sempre teve um corpo saudável e forte então era de se esperar que ele fosse demorar mais para morrer.
— Sim. — concordou Osíris — Imaginei que não fosse gostar, já que Kawab é seu oficial e vai ter que procurar outro mais rápido do que planejava.
— Na verdade, com toda essa confusão de ressusreições, achei melhor ficar sem oficial por enquanto. — admitiu Anúbis — Mas qual a justificativa de pedir para Kawab morrer mais cedo? Já falaram para Sekhmet disso? Ela jogou a doença, não foi?
— A questão é que, seguindo nesse ritmo, Kawab vai morrer praticamente ao mesmo tempo em que acontece o enterro de Ahura. — explicou Osíris e Anúbis afirmou com a cabeça depois de rapidamente contar os dias mentalmente — Afinal o processo de mumificação demorará. E Rá prefere que Kawab se vá antes que Minkhaf tenha que se preocupar com o corpo da esposa.
— Porquê? — perguntou Anúbis.
— Eu não questionaria Rá mas… — disse Osíris soltando uma leve risada — Já que perguntou… acredito que ele queira a família de Khufu toda reunida em Mênfis.
— Hum… — resmungou Anúbis — E Minkhaf teria que ir até Koptus para terminar os ritos finais da esposa e provavelmente levaria algum parente próximo junto, como é típico de fazerem. Provavelmente algum dos irmãos. Tal como fez agora com o sepultamento de Merab.
— Exato. — concordou Osíris — Creio que ele queira toda a família sentindo o primeiro impacto ao mesmo tempo.
— Como se tudo que Minkhaf já está lidando não fosse ruim o suficiente para ele. — disse Ísis se juntando bruscamente a conversa.
— Concordo. — disse Osíris — Mas não podemos esquecer que Khufu fechou os templos e eles seguem fechados. O problema com Minkhaf logo chegará ao fim e poderemos focar mais em Khufu. Mas não podemos deixar Khufu pensar que esquecemos dele. Mas, por enquanto, vamos nos focar em julgar as almas que nada têm a ver com essa confusão toda. Talvez até consigamos julgar Merab ainda hoje.
— Por isso prefiro as famílias menos problemáticas… se é que existe alguma assim. — disse Ísis suspirando profundamente — Djoser, por exemplo. Ele não teria feito algo estúpido como Minkhaf ou como Khufu. Ele sabia bem nos adorar e respeitar.
— Algum faraó antigo perto de Djoser… — disse Osíris parando para pensar — Quem será que faria alguma estupidez como essas que estamos lidando?
— Khasekhemwy. — disse Anúbis dando de ombros — Era um bom faraó mas tinha umas ideias estranhas às vezes.
— Ah sim! — disse Osíris abrindo um sorriso mas logo ficando sério e negando com a cabeça — Lembro que quando ele tentou juntar Hórus e Set em seu serekeh... Nenhum dos dois gostou nada … Toda vez que Hórus via o serekeh de Khasekhemwy escrito com o símbolo dele e de Set, ele fazia uma expressão horrível.
— Me perguntou quanto tempo Hórus levou para tirar a parte de Set de todos os serekeh de Khasekhemwy. — ponderou Ísis.
— Mas bem, chega de relembrar o passado. — disse Osíris suspirando, se virando, e se dirigindo até seu trono — Semana que vem Kawab morrerá, em aproximadamente um mês a alma de Ahura poderá ser julgada, e talvez hoje consigamos julgar a alma de Merab se conseguirmos chegar na vez dele já que acumulamos bastante almas. Temos muito o que fazer, então vamos começar os julgamentos.
E os julgamentos foram feitos. Um por um. Até chegar a vez de Merab. Quando chegou a vez dele, Anúbis foi até mãe e filho e não precisava que ele dissesse nada, o olhar que trocou com Ahura foi o suficiente. Mesmo assim, ele disse:
— Está na hora.
Ahura respirou fundo e segurou o choro bravamente quando olhou para o filho pelo o que poderia ser a última vez. Ela não queria deixar ele com medo, assim, ela abriu um sorriso quando segurou o doce rostinho de seu filho entre suas mãos.
— Meu pequeno Merab… — disse Ahura agaixada na frente do filho — Chegou a hora de você ir para o seu julgamento. Lembra que mamãe explicou?
— Lembo… — disse o menino afirmando com a cabeça um tanto triste — Você vai vir também mamãe?
— N-Não… — disse Ahura com a voz quase falhando mas logo dando-lhe dois segundos para recuperar a força — Você vai com Anúbis e ele te guiará.
O menino nem olhou para Anúbis, apenas fungou quando as lágrimas começarama a aparecer em seus olhos.
— Eu quelo a mamãe também. — pediu Merab choroso e imediatamente Ahura o abraçou.
— Não posso meu pequeno. — disse Ahura já não conseguindo segurar as lágrimas — Queria, mas não posso. Esse tempo que tivemos aqui já foi muita sorte. Mas mamãe vai fazer de tudo para te encontrar lá no Aaru.
— Pomete? — perguntou Merab depois de uma fungada.
— P-Prometo. — respondeu Ahura deixando as lágrimas rolarem pelo seu rosto — Agora… lembre do que a mamãe f-falou… não minta… não tenha medo… confie em seu coração.
Ahura o soltou, segurou seus ombros para que olhasse para ele e talvez tenha sido a vez que Merab tenha visto sua mãe com um rosto tão sujo de lágrimas e tão marcado pea tristeza.
— Lembra do rito que ensaiamos? — perguntou Ahura e Merab afirmou com a cabeça.
— “M-Meu colação, m-minha… mãe… meu colação, minha mãe.” — disse Merab parando para dar uma profunda fungada no nariz e então limpar o nariz com o braço esquerdo — “Meu colação, pelo qual vim a existir. Que nada se levante pala… pala…”
— “Para se opor.” — ajudou Ahura preocupada.
— “Pala se opor a mim em julgamento.” — continuou Merab — “que não haja… opo… opo… “
— “Oposição.” — ajudou novamente Ahura.
— “Mamãe… é muito gande. Eu não consigo sozinho.” — disse Merab triste começando imediatamente a chorar.
Ahura abaixou a cabeça sabendo que era algo difícil que estava pedindo para um menino tão novo. Se ele ao menos pudesse ler, podia talvez ler de algum lugar. Mas, notando isso, Anúbis se aproximou e se agaichou também ao lado de Merab.
Enquanto Merab apenas olhou para ele mantendo seu rosto choroso, Ahura se afastou em medo e reverência soltando rapidamente o filho para que pudesse tocar o chão com as mãos e a testa se curvando completamente ao deus que, por sua vez, fingiu que não viu o desespero da mulher em se curvar tanto para si.
— Está tudo bem Merab. — disse Anúbis gentilmente tentando acalmar e ajudar o menino — Fale com as palavras que quiser e que sejam sinceras e do coração. Não precisa usar palavras complicadas e textos decorados.
— Não? — perguntou Merab.
— Não. — respondeu Anúbis estendendo-lhe a mão — Vamos?
Merab pensou por uns dois segundos e afirmou com a cabeça mas, antes de pegar na mão do deus, ele se virou para a mãe que a essa altura já tinha arriscado levantar ao menos a cabeça. Notando que ali era a última chance de dizer adeus, Ahura deixou de lado toda a reverência e medo dos deuses que tinha se enraizado o mais profundamente dentro de si desde que o marido resolveu os desafiar, e deu um forte abraço e vários beijos no filho.
Os dois poderiam ficar ali toda a eternidade se abraçando que não seria o suficiente para os dois. O futuro incerto apertava o coração de Ahura de um jeito que Merab ainda não conseguia entender. Mas, sabendo que era hora de deixar Merab ir, Ahura eventualmente o soltou enquanto as lágrimas ainda escorriam dos rostos de ambos.
Com sua mãozinha pequena e gordinha, Merab pegou na mão de Anúbis que logo se levantou e foi andando para a porta lentamente. Ainda chorando enquanto andava, Merab continuou olhando para trás sem saber se aquela era ou não a última vez que veria sua mãe.
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