A Morte Das Areias do Saara
10 Os pesadelos alcançam
Notas iniciais

Eu entrei na casa de Astes. Eu fiz súplica aos deuses Khati e a Sekhmet no templo da Net, ou aos antigos. Eu entrei em Ra-stau. Eu me tornei invisível. Eu encontrei a fronteira.
~Trecho do Livro dos Mortos
A cor sumiu do rosto de Ísis no curto fragmento de segundo. Tal fragmento foi suficiente para que o linho da roupa de Anúbis se manchasse com o seu sangue. Não vermelho, pois o sangue dos deuses não é vermelho, mas sim num tom prateado como se fosse prata líquida ou mercúrio. Neby se levantou e num pulo correu para uma das pernas de Sekhmet enquanto as pequenas mãos de Anúbis tentavam, trêmulas, abrir a mandíbula da leoa. Tudo isso, no entanto, aconteceu rapidamente pois Ísis já apontava a palma da mão na direção do conflito e gritou o feitiço.
— FAH!
A palavra divina fez com que Sekhmet abrisse forçadamente a boca fazendo ecoar levemente o barulho de algo se estralando conforme o fez. Com um baque seco, Anúbis caiu no chão e Ísis o puxou para perto de si deixando uma trilha de sangue pelo caminho. A criança segurava a barriga, por onde o sangue saia. Segurando o queixo, como se a magia tivesse de fato machucado, Sekhmet olhou com o canto do olho para Ísis e rugiu. As duas deusas começaram a travar uma batalha entre si. Sekhmet com garras e dentes, Ísis com magia.
No canto do quarto, Anúbis sentava-se no chão encolhido com as mãos sobre a barriga ferida sob o linho ensanguentado. Seus olhos, trêmulos e cheios de lágrimas, olharam para a roupa suja com seu sangue prateado e então seguiram para onde o leão que Osíris matara jazia morto. Do cadáver do leão escorria o sangue avermelhado que sujava o pé da criança. Ciente da clara diferença, seus dedos entraram pelo maior rasgão da roupa e a dor ficou estampada no seu rosto no processo quando ele rasgou mais um pouco a roupa e viu, diante dos seus olhos, os machucados feios e profundos causados pela mordida de Sekhmet lentamente se fecharem até que nada parecia ter acontecido ignorando-se que ainda estava sujo de sangue.
Neby olhava para Anúbis, suas patinhas apoiadas no ombro do amigo conforme lambia seu rosto aparentemente feliz por ele estar bem. Anúbis, olhou para ele com um doce sorriso mas então olhou para Ísis e a preocupação percorreu seu olhar. Ísis era boa com magia, de fato, mas não era boa em luta corpo a corpo, uma especialidade de Sekhmet que a deusa leoa estava conseguindo tirar vantagem.
— Neby... – disse Anúbis pegando apressadamente o pequeno chacal e botando ele num cantinho do quarto meio escondido devido à um baú dourado – fique aqui, certo? Eu não posso deixar ela machucar mais ninguém!
Para Anúbis, aquilo foi apenas um pedido que fizera a Neby. Um pedido de um amigo que não queria ver o outro se machucando. A criança ainda não notara o controle que sua voz exercia sobre caninos. Para Anúbis, foi um pedido. Para Neby, foi uma ordem.
Não sabia lutar, todas as tentativas de magia foram acidentais, mas mesmo assim, Anúbis não pensou duas vezes ao se transformar num chacal e pular na garganta de Sekhmet mordendo a com o mesmo afinco que ela mordera ele. O garoto rosnava nem passando pela sua cabeça que havia conseguido chegar até o pescoço de Sekhmet apenas por que ela estava distraída com a luta contra Ísis.
Sekhmet se sacudia tentando se livrar da mordida, puxava a pata negra de Anúbis enquanto tentava se defender dos ataques de Ísis que agora ficavam mais insistentes, mas, pelo olhar dela, podia-se notar a preocupação em não acertar o garoto. Sangue prateado jorrava pela jugular de Sekhmet quando a mordida de Anúbis se soltou e o garoto caiu com as quatro patas perfeitamente no chão. Sekhmet tentou acerta-lo mais uma vez, mas Ísis a prendeu usando outra magia que segurou Sekhmet firmemente usando cordas feitas de luz mágica. O corpo da deusa leoa se encolhia no aperto causado pelas cordas. Ela tentava se soltar, mas era em vão. Anúbis rosnava, pronto para atacar de novo se necessário e Ísis sofria com o esforço de segurar Sekhmet comas cordas. Conforme o ferimento no pescoço de Sekhmet se curava, mais sua força reaparecia. Ísis não queria ter que pedir ajuda para Anúbis de novo, mas ele notou o que acontecia e começou a morder ou tentar morder Sekhmet. Amarrada, as defesas dela ficaram limitadas e, embora nem sempre conseguisse morder ou ficar mordendo por muito tempo, era o suficiente para distrai-la.
As cordas se fechavam cada vez mais em torno do corpo da deusa leoa e, quando Ísis achava que estava tudo bem, que as cordas iam prender Sekhmet e então poderiam, quem sabe, interroga-la, uma voz surgiu do buraco por onde Osíris tinha desaparecido com Naunet.
— Desculpe interromper – disse Khonsu que estava parado de pé na frente do buraco na parede. Ele nada disse além dessas palavras e também nada fez. Quando Ísis, Anúbis e Neby olharam para ele, ele apontou a palma da mão para Sekhmet e a deusa leoa desapareceu. No segundo seguinte, ele também desapareceu.
Os três levaram alguns segundos para processar a informação até que Ísis se virou desesperada e preocupada para Anúbis.
— Anúbis! Você está bem? – perguntou ela olhando para o chacal negro.
Comparar Neby com Anúbis em sua forma de chacal seria semelhante a comparar um gatinho com um tigre. Neby era pequenino, realmente do tamanho de muitos gatinhos domiciliares, sua pelagem era de cor arenosa com uma mancha negra nas costas e no rabo. Anúbis, por outro lado, além de ter o pelo completa e inteiramente negro, já tinha quase o tamanho de um chacal adulto embora a aparência do rosto e a robustez do corpo ainda fosse de um chacal filhote.
— Estou bem – disse o chacal negro enquanto lentamente trocava de volta para a forma de um menino novamente.
A deusa se aproximou, pegou uma ponta de sua roupa de dormir que estava o mais limpa possível e limpou o sangue de Sekhmet que sujava a boca do garoto que mantinha os olhos meio abaixados como se pensamentos demais passassem pela mente dele.
E de fato passavam. Agora mais calmo, Anúbis juntava e repassava todos os acontecimentos dos últimos minutos. Seus olhos cansados checaram Neby e então Ísis que agora se continha em o olhar preocupada. Ele deu dois passos para longe de Ísis ao se ajoelhar no chão e abrir os braços para Neby que entendeu a mensagem e correu para os braços do amigo que o recebeu com um abraço.
— O que aconteceu com ela, com Sekhmet? – perguntou Anúbis.
Ísis o olhou por uns segundos, meio perdida, como se tivesse entrado em um transe ao encarar preocupada a criança.
— Não sei – respondeu a deusa com sinceridade soltando um suspiro – Não sei para onde ela e Khonsu foram. Venha, vamos atrás de Osíris. Estou preocupada.
A deusa se levantou e estendeu a mão para a criança que olhou em dúvida da mão para Neby em seus braços. Não conseguiria pegar a mão de Ísis e segurar Neby ao mesmo tempo. Vendo a indecisão nos olhos do garoto, Ísis simplesmente sorriu.
— Tudo bem. Vamos indo então – disse ela passando as mãos pelos cabelos bagunçados deles.
Ísis olhou rapidamente pelo buraco que se formou na parede, mas nada pode ver com relação à Osíris e Naunet. Sendo assim, os dois saíram do quarto cautelosamente e o mais alerta que conseguiram e foram cruzando os vários corredores, escadas e salões até a saída do palácio.
A expressão de preocupação também estava presente no olhar de Anúbis quando ele olhou para Ísis e perguntou-lhe:
— É possível que ele perca?
Ísis não teve coragem de responder. Ainda não achava que era hora de ter aquela conversa com ele. Falar sobre imortalidade e imortalidade. Sobre as formas de matar um deus. Era muito novo. Os dois mal tinham saído do palácio quando encontraram Osíris caminhando na direção deles. Ísis saiu correndo em direção ao marido e irmão e o abraçou fortemente. Os braços azulados de Osíris envolveram a mulher, mas logo um dos braços se abriu ao notar Anúbis quietinho ali onde Ísis até antes estava. O deus adulto então estendeu a mão para o menor como um convite para que se juntasse ao abraço.
Os três, juntos, rumaram então de volta para o palácio onde, apesar da escuridão da noite, muita coisa precisava ser feita. Anúbis tomou um banho gelado. O que não foi muito agradável considerando o frio que já fazia devido à escuridão da noite. Entretanto, não havia tempo para esquentar a água pois, em um piscar de olhos, o palácio estava mais uma vez cheio de outros deuses que discutiam em altas vozes ou ajudavam a arrumar a bagunça. Anúbis, no entanto, não prestou atenção nas conversas que se desenrolavam ali. No começo ele tentou. Sentou-se em um dos sofás e tentou prestar atenção, seguir a conversa iniciada por Osíris, juntar o pedaço de informação que entendia que era ressaltado por Thoth, a preocupação pelos humanos salientada por Wadjet, a tática de guerrilha proposta por Bastet. Mas logo ele e Neby caíram no sono naquele mesmo confortável sofá de tecido vinho e madeira negra. Anúbis deixou uma marca de baba quando os braços carinhosos de Ísis o pegaram delicadamente e o levaram para a sua cama e, minutos depois, deixou o adormecido Neby ao seu lado.
Os sonhos, no entanto, foram turbulentos. No sonho, a escuridão cercava o garoto. Estava sozinho.
— Olá? – perguntou Anúbis em meio ao seu sonho.
Não recebeu nenhuma resposta. Mas, ao coçar um dos olhos, viu que sangue, sangue vermelho que trocara para prateado num piscar de olhos, manchava suas mãos. Ele abaixou os olhos arregalados olhando para suas mãos ensanguentadas e, quando seu olhar subiu novamente, estava o adolescente que maltratou Neby. Assustado com a aparição repentina, Anúbis deu um passo para trás e o adolescente deu estendeu a mão com o rosto marcado por um silencioso pedido de ajuda quando seu corpo começou a se desintegrar, descascar feito papel. A pele, os músculos, órgãos e ossos se desfizeram em pedaços como papel que foram carregados pelo vento. Anúbis correu para o lado contrário enquanto os pequenos pedacinhos de o que outrora eram o adolescente voavam sendo carregados pelo vendo. Tais pedacinhos se juntaram formando uma faixa de linho que ameaçou prender o menino. Quando ela estava quase o prendendo, o guerreiro esquelético que outrora invocara puxou o seu pé. Foi como se o chão tivesse desaparecido. Anúbis caia sem resistência com o esqueleto preso em seu pé quando, da escuridão do abismo, a enorme boca de um leão surgiu pronta para engolir os dois.
Anúbis acordou de uma vez. Sentou-se na cama ofegante, o corpo coberto de suor enquanto, alheio aos pesadelos da criança, o sol forte entrava pelo portal da varanda anunciando o começo de um novo dia e, ao seu lado em cima da cama, Neby dormia calmamente.
Por mais um tempo Anúbis ficou em sua cama. Enrolou-se em seus lençóis e abraçou Neby gentilmente. O pequeno chacal suspirou completamente relaxado. Sem conseguir voltar a dormir, Anúbis deixou a cama o mais silenciosamente que pode. Não queria acordar o pequeno animal que já havia tido uma noite agitada demais.
— Eu não quero essa confusão chegando até Mênfis! Já disse! – dizia uma voz feminina quando Anúbis foi se aproximando do salão principal. O sol já tinha raiado e os deuses ainda discutiam.
— Cedo ou tarde chegará, Wadjet – respondeu Bastet de volta – Se é que não já chegou. A quanto tempo os humanos do Alto e Baixo Egito já brigam entre si?
— E sendo que conseguiram entrar aqui tão fácil... – dizia Ísis deixando a frase no ar.
Anúbis percorreu os olhos e encontrou, sentada ali no canto no mesmo sofá onde ele tinha caído no sono, Anput. Olhando para os deuses que ainda discutiam com o canto do olho, o garoto rumou até a amiga que lhe ofereceu um pedaço de pão que comia.
— Quer? – perguntou ela estendendo o pão.
Sem nada falar, Anúbis pegou o pão e sentou no sofá ao lado da amiga enquanto os dois encaravam a discussão.
— Vamos para a casa do Chenzira? – perguntou Anput e Anúbis olhou para ela como se estivesse doida.
— Não vê que eles estão com raiva e preocupados? – perguntou o garoto.
— Vi sim. Mas ninguém vai botar a gente na conversa também – disse a garota dando de ombros – Vamos ficar aqui até um deles expulsar a gente.
— Não sei...
— Vamos – disse ela pulando do sofá — A senhorita Hathor disse que deveríamos ir. Ela adorou a ideia.
— Você contou pra ela? – perguntou Anúbis enquanto Anput já ia o puxando para fora do palácio com uma mão e a outra enfiava o que restava do pão na boca.
— Guando ela gishe gue ia bi aqui – disse Anput com a boca cheia com pão demais fazendo Anúbis rir de leve.
— Não entendi nada.
— Quando ela disse que ia vir aqui – disse a garota depois de engolir o pão – Ela gostou da ideia. Disse que seria uma boa ideia começar a ter mais ‘interação’ entre os dois lados. Mas não sei o que é ‘interação’.
— Perguntamos para Thoth depois.
— Sim.
Os dois correram em direção à casa de Chenzira. Uma corrida leve e despreocupada. Conversavam, pararam aqui e ali para pegar uvas e figos que cresciam pelo caminho ou para beber um pouco de água do Nilo. Depois de um tempo, os dois deuses viram diante de si a cidade de Mênfis.
As cidades de tijolo batido rodeavam as plantações que ficavam à margem do Nilo recebendo a água resultante de sua natural inundação. As palmeiras cresciam e o solo era verde em boa parte da cidade que tinha apenas uma construção maior de pedra em seu centro. Devido à cheia do Nilo, muitas vias da cidade eram inundadas mas ninguém parecia ligar muito visto que não passava da altura do joelho.
Os dois seguiram as instruções de Chenriza, a terceira a casa a direita do curtidor de couro mais próximo da entrada norte da cidade. Eles identificaram que era a casa de Chenzira pois viram o amigo ali fora que brincava com a irmã mais nova, aparentemente de dois anos que era a casa dele, gordinha só que exibia uma cabeleira castanho claro enquanto Chenzira era careca.
— Hey! Vocês vieram! – exclamou Chenzira feliz.
— Quem veio, querido? – perguntou uma voz feminina que logo apareceu na porta. A mãe de Chenriza. Levemente grávida, a barriga ainda era quase imperceptível no corpo da mulher de cabelos negros e olhos carinhosos que adotaram um tom de curiosidade ao olhar para as duas crianças divinas – Quem são?
— Anúbis e Anput. Eu, Ahmen, Iset e Shadya conhecemos eles no oásis ontem.
— Nunu e Anan – disse a irmã de Chenzira rindo – É... é nome legal.
— Qual é o seu nome? Vai querer brincar também? – perguntou Anput.
— Isso! Vão brincar. Vou fazer o bolo e, até lá, os outros devem chegar né? – disse a mãe de Chenriza dando uma piscadela e voltando para dentro da casa.
— Eu... é... eu Neta! Eu Neta. – disse ela apontando para si e então para Chenriza — Mão Senlila. E mamãe – terminou apontando para dentro da casa.
— Traduzindo... – disse Chenriza – O nome dela é Nebetta. Bem, já sabem o meu nome. E aquela é nossa mãe.
— Senlila? Gostei do nome – disse Ahmen chegando com uma bola na mão – Vi vocês chegando na cidade, e vim correndo. Onde vocês moram?
— Longe. – disse Anúbis prontamente.
— Humm... vamos chamar Iset e Shadya? – perguntou Ahmen olhando pros dois – E cadê aquele outro menino?
— Qebui? – chutou Anput – Ele não vem... não acho que queira.
— Não mesmo.
— Podem ir chamar as duas, eu tenho que ficar de olho na Nebetta. – disse Chenzira.
— Ahm, Nunu e Anan samar Ise e Shaya? – perguntou Nebetta.
— Sim. Vamos chamar Iset e Shadya – disse Ahmen.
— Ah... quer sabe? Podem ir vocês dois. Eu quero ficar aqui brincando com a Nebetta – disse Anput abraçando Nebetta e esmagando levemente a bochecha dela com a sua.
— Tudo bem – disse Anúbis dando de ombros.
— Vem, é por aqui que elas moram – disse Ahmen apontando o caminho.
Os dois foram se distanciando da casa de Chenzira enquanto a mãe dele, pela janela, olhava para Anúbis e Anput. Ela não sabia dizer o que era, não sabia dar nome ao que sentia ou porque as duas crianças atraiam o seu olhar. Ela só sabia que algo se remexeu dentro dela, algo dentro dela dizia que aquelas duas crianças que viraram novos amigos de seus filhos tinham algo de diferente. No entanto, estranhamente, ela não estava preocupada. E ela estranhava essa falta de preocupação.
Fale com o autor