A Morte Das Areias do Saara
104 Os Gritos e Lágrimas do Parto
Notas iniciais

Ora, aconteceu que algum tempo depois disso, o jovem foi escalar com os filhos dos príncipes; ele subiu e alcançou a janela da filha do Príncipe da Mesopotâmia.
Ela o beijou, ela o abraçou em todos os seus membros.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Por mais que o passeio na praia não tenha sido bem o que Anput esperava que fosse, ela e Anúbis voltaram para o Salão do Julgamento sentindo-se mais relaxados para voltar ao trabalho. Havia almas para julgar e pelo menos mais dois corpos para mumificar, o que certamente deixaria Anúbis ocupado por mais algum tempo ali embaixo. Contudo, quando eles chegaram no Salão do Julgamento, notaram que parecia haver certa comoção.
Hórus estava de braços cruzados com uma expressão séria no rosto, parecendo quase uma criança emburrada diante de Hathor, Ísis e Tawaret. Osíris, por outro lado, deixava um suspiro escapar pelos lábios e revirava os olhos aparentemente já cansado de seja lá qual era o motivo de discussão. Mais distantes da discussão, apenas acompanhando-a com o olhar, estavam Thoth, Seshat e Bes.
— As fronteiras não aumentam desde que Tutmósis I morreu! — reclamava Hórus.
— Mas também não diminuem. — argumentava Ísis calmamente sem perder a pose e a calma, o mesmo não poderia ser dito de Hórus.
Curiosos com os detalhes da discussão, Anúbis e Anput se aproximaram dos três silenciosos espectadores. Com vozes baixas, eles tentaram se atualizar com Thoth, Seshat e Bes sobre qual era o motivo daquela nova pequena confusão.
— O que está acontecendo? — sussurrou Anput para Seshat.
— Hatshepsut entrou em trabalho de parto. — explicou Seshat em vozes baixas também, mas o suficiente para Anúbis ouvir e olhar para ela surpreso — Hórus estava teorizando que talvez a criança dela seja a criança da profecia.
— Pera.... — sussurrou Anúbis surpreso e preocupado com a informação — Não tá um pouco cedo para ela entrar em trabalho de parto?
— Não sei. Talvez, né? — disse Bes suspirando pesadamente.
— Eu não vou nem me meter. — reclamou Thoth — Já cansei. Não adianta falar com quem não quer escutar. Não faz sentido ser o filho de Hatshepsut. Ou ela é a criança da profecia de Nekhbet, ou é outro faraó que ainda virá.
— Mas se fosse só isso o problema, Hórus não estaria tão irritado assim. — continuou Seshat — O que aumenta o problema é que o herdeiro de Hatshepsut e Tutmósis II é outra menina e ele descobriu isso só agora.
— Ah, isso explica a cara irritada de Hórus… — disse Anúbis suspirando.
— Esconderam de novo o sexo do bebê dele? — perguntou Anput sem conseguir segurar uma risada.
— Aposto que até Hatshepsut morrer ele para com isso. — disse Bes — Como anda a expectativa de vida dela, Anúbis?
— Melhor que a do irmão… — respondeu Anúbis dando de ombros.
— Acho difícil Hórus largar disso, assim, vou entrar na aposta. Quer apostar o quê? — perguntou Thoth.
Não muito interessado em apostas e afins, Anúbis se separou daquele grupo de conversas e foi para o centro da discussão. Ele ia na direção de Tawaret que, apesar de estar no meio da confusão, não participava tanto dela até porque era uma deusa bem carinhosa, doce e pacífica. Tais discussões realmente não combinavam muito com o perfil de Tawaret. Os outros participantes da discussão, primeiramente, mal notaram Anúbis se aproximando, e ele também tentou ser bem discreto ao cochichar para Tawaret.
— Podemos conversar bem rápido? — sussurrou Anúbis para apenas Tawaret ouvir.
— Por favor, me tire daqui. — respondeu ela com a voz tão baixa quanto rapidamente puxando ele pelo braço para longe.
Um pouco mais distante da discussão, Anúbis virou-se para a deusa hipopótamo e não deixou de notar o suspiro de cansaço que ela soltou enquanto olhava na direção de Hórus. A deusa hipopótama era gentil e carinhosa, apesar do animal que ela representava não ser tão famoso por nenhuma dessas características. Não era pra menos que o hipopótamo estava junto do leão e do crocodilo como os animais mais temidos do Egito, motivo pelo qual Ammit era a mistura dos três.
Inclusive, Ammit não dava nenhuma atenção para a discussão em questão. Talvez já estivesse tão de saco cheio de todas as discussões daquela complicada família imortal, que nem se dava mais ao trabalho de ouvir ou ficar suspirando esperando acabar. Assim, a demônio devoradora de corações estava tranquilamente enrolada como uma bola dormindo ao lado do trono de Osíris.
— Tawaret, Hatshepsut e a bebê vão ficar bem? — perguntou Anúbis preocupado — Ela não completou 9 meses ainda acho...
— Ainda não… Mas faltava só uns 3 dias pelo menos. — respondeu Tawaret suspirando preocupada — Mas a expectativa de vida dela vai bem, não é?
— Não é bem assim que funciona. — respondeu ele — Ela muda constantemente e não considera acidentes e demais situações inesperadas. De saúde ela aparentemente está bem até apesar de que provavelmente dava pra melhorar um pouco, o que é totalmente normal.
— Ela pode não estar com 9 meses ainda mas já estava quase lá. — disse Tawaret dando de ombros — Não garanto que vá ser um parto fácil ou que ela possa se arriscar a ter outro bebê no futuro, mas creio que tudo vai ficar bem, mas também depende deles, principalmente quanto a criança. Eu, Hathor e Bes vamos em breve até ela para acompanhar o parto.
— Pode me avisar caso algo de errado aconteça? — pediu Anúbis.
— Claro, mas… — disse Tawaret olhando para ele longamente — Porque tal interesse? Nunca se importou com os herdeiros ou membros da família real.
— Hatshepsut tem se tornado uma... boa amiga. — admitiu ele desviando brevemente o olhar constrangido estranhando a rara palavra ‘amiga’ na própria boca — Não queria que tivesse que morrer antes da hora ou sofrer a perda de um bebê.
Tawaret foi pega levemente desprevenida por tais palavras e sua expressão indicava bem isso. Contudo, logo um sorriso doce e feliz tomou conta de seu rosto quando aquelas palavras aqueceram-lhe o coração.
— Será o primeiro a saber qualquer boa ou má notícia. — prometeu ela — Garanto.
— Obrigado. — disse ele.
— Anúbis… — disse repentinamente Osíris se aproximando dos dois — Acho que por enquanto não vamos seguir com os julgamentos. Precisamos de todos focados e tranquilos num julgamento e Hórus claramente não o está.
— Tudo bem. — respondeu ele — Vou mumificar os dois corpos que encontrei entre nossas terras e o território Mitanni. Tenho também outras múmias que não faltam muito para devolver à família.
— Certo. — respondeu Osíris acenando com a cabeça e um pequeno sorriso, provavelmente resultado da responsabilidade do sobrinho.
Deixando para trás a confusão, Anúbis foi fazer exatamente o que disse que faria. A discussão, contudo, não durou muito tempo depois disso. Sem nada que pudesse fazer, Hórus eventualmente foi cuidar de seus afazeres, apesar de ainda irritado e pensativo, enquanto Hathor e Tawaret foram acompanhar o parto de Hatshepsut.
Enquanto todos voltaram à seus afazeres, e Anput e Seshat conversavam sobre qual afinal de contas era a localização da tal caverna aquática bela e incrível que Seshat havia mencionado e Anúbis começava a mumificação do primeiro dos corpos praticamente no automático. Geralmente ele gostava de fazer as mumificações com calma notando cada história que cada cicatriz, mancha, sinal de má nutrição ou farta alimentação e condicionamento físico contava sobre a vida da pessoa, mas sua mente não parava de ficar preocupada com Hatshepsut. O que, considerando a taxa de mortalidade de partos da época, era uma preocupação muito válida.
Ao enviar um longo gancho pelo nariz do morto para puxar partes do cérebro, Anúbis não pensava em como aquele primeiro soldado tinha praticamente escrito a própria morte ao se afastar dos demais para tentar salvar o segundo, a quem amava profundamente. Também não notava como os ferimentos mostravam que havia sido uma morte bem lenta por hemorragia. Também não procurou na mente a história daquele morto para ver como ele carregou o corpo do amado para longe do perigo mesmo sendo tarde demais. Não. A mente de Anúbis só pedia constantemente para que a amiga ficasse bem. Com certeza tais pedidos estariam chegando até Hathor e Tawaret. Não era porque era um deus que não podia pedir uma forcinha para os demais.
Mas o tempo passava mais devagar ali no submundo, então ele teve tempo suficiente para retirar completamente o cérebro daquele corpo, fazer um corte no lado esquerdo do corpo perto da barriga, tirar todos órgãos internos e os deixar para secar no natrão. Também deu bastante tempo para o processo, considerado extremamente nojento para os demais, de enxaguar o interior do corpo com vinho e demais líquidos e então deitar ele também coberto de natrão para secar. Inclusive, conseguiu passar por tais etapas do processo também pelo outro corpo recém chegado.
Aproveitando o tempo mais lento do submundo, ele conseguiu desviar sua mente do parto de Hatshepsut por tempo suficiente para terminar também o processo de enrolar uma outra múmia quase pronta nas faixas de linho e então foi levá-la para sua família junto com outras já prontas enquanto os dois corpos recém-chegados e seus órgãos secavam por alguns dias.
O tempo que se passou, foi também o necessário para uma serviçal encontrar Hatshepsut no corredor e acompanhá-la até um lugar melhor para o parto, o próprio quarto. A dor no começo não era maior do que o medo de Hatshepsut de encarar o seu primeiro parto, especialmente considerando que a conta de 9 meses não batia. Como a dor ainda não era tão grande, e os intervalos entre as contrações eram razoavelmente confortáveis, ela conseguiu caminhar até o quarto só tendo que parar uma vez logo diante da porta dele sentindo o líquido amniótico escorrendo por suas pernas.
Contudo, o tempo além disso foi também suficiente para a dor ficar mais forte, mas e felizmente foi possível que parteira e Tutmósis II chegassem no quarto. O vento entrava livremente pelo grande portal que levava para a varanda conseguindo aliviar o calor de um dia normal e tocar gentilmente o rosto de Hatshepsut que se fechava de dor ao sentir as contrações.
A forma como ela estava era prova de como as coisas tinham melhorado desde quando Shadya havia dado à luz mais de um milênio atrás. Hatshepsut estava agachada de cócoras, mas apoiada no que seria melhor descrito como uma cadeira de nascimento, pois esta não possuía assento, apesar de possuir apoio para os braços e as costas. A parteira também ficava logo à frente da rainha enquanto duas serviçais seguravam-lhe cada uma das mãos e Tutmósis II olhava a cena de longe.
A dor ia e vinha a cada contração cada vez mais frequente e intensa. A parteira pedia pelas bênçãos de todos os deuses possíveis e capazes de ajudar, como Hathor, Bes, Tawaret, Meskhenet, Khnum, Thoth e Amon-Rá, afinal aquela era a rainha, o bebê era o herdeiro do faraó e os 9 meses não estavam completos ainda. Assim, a parteira pedia ajuda aos deuses a cada vez que Hatshepsut parava entre uma contração e outra para respirar, sem saber que Hathor e Tawaret já estavam bem ali. Entretanto, um arrepio na nuca da parteira deixava-a com a suspeita de que ao menos algum dos deuses para quais orava estava presente.
O penteado que havia sido feito em Hatshepsut após o banho horas antes já tinha sido deixado para trás e substituído por um bagunçado, baixo e arrepiado rabo de cavalo apressadamente feito. Aflito, Tutmósis II apenas olhava para a irmã em total pavor e sentindo-se completamente inútil. Cada vez mais chocado o faraó ficava, conforme as horas foram se passando, e o dia virou noite, quando os gritos e lágrimas da rainha preencheram o palácio.
Com a noite, vinha também o frio. Mas considerando toda a dor e o fato de a parteira já começar a ver o começo da cabeça do bebê, este era o de menor preocupação de todos. Até mesmo do apreensivo Tutmósis II que não conseguia encontrar nada de mais útil para fazer do que tentar passar força e motivação para a irmã suada, cansada, chorosa e descabelada. Tutmósis II podia não saber bem o que fazer nem o que esperar, mas de uma coisa tinha certeza, se todos pudessem ver um parto, ninguém ia falar que mulheres eram fracas. A irmã podia até nem ser uma guerreira que empunhava a espada com vigor em meio a um confronto sanguinário contra inimigos por todos os lados, mas era justamente o que ela parecia agora.
— Só mais um pouco, majestade. — dizia a parteira — Está quase lá. Empurre!
— Vamos, irmã. Você consegue. — motivou Tutmósis II.
Chorando em meio a dor, Hatshepsut tentou juntar toda a força que lhe restava mesmo que não conseguisse sequer relaxar o suficiente para inspirar por mais de dois segundos. E deu certo. O bebê pousou delicadamente nas mãos da parteira prontamente, inaugurando os pulmões e chorando ruidosamente.
— Uma bela garotinha. — declarou a parteira a segurando a menina carinhosamente nas mãos abertas e entregando para a mãe que, com o rosto manchado de lágrimas de felicidade, apoiou a criança chorosa sobre o peito desajeitadamente já que o cordão umbilical ainda estava ali.
Exaustos mas com uma sensação de vitória e alívio, todos olhavam para o pequeno recém-nascido que lentamente se aconchegava no peito da mãe. Contudo, apesar do grande alívio do bebê ter nascido, por um segundo passou pela cabeça de Tutmósis II o questionamento de como ficaria o acordo entre ele e Hatshepsut agora. Esperar por um herdeiro antes de aproveitar os braços de outra mulher contava quando vinha uma menina? Mas deixaria essa preocupação para depois. No momento tinha que se preocupar com a irmã e a filha recém-nascida já que muitas coisas podiam acontecer ainda por mais que o pior tivesse passado. Tinha que aproveitar o momento também, tanto que lágrimas rolavam pelo seu rosto suavemente.
Sorrindo de orelha à orelha, Hatshepsut olhou para Tutmósis II triunfante e os dois trocaram uma risada. Não se amavam como casais normais costumam se amar, mas pelo menos o bebê estava bem, e isso era uma vitória. Claro, ainda tinham que cortar o cordão umbilical e arrumar a bagunça, mas por enquanto estava tudo bem.
Naquele mesmo cômodo, enquanto as duas serviçais preparavam tudo para cortar o cordão umbilical, três deuses estavam invisíveis para todos. Hathor, Tawaret e Bes sorriram aliviados olhando um para o outro.
— Vão ficar aqui mais um pouco? — perguntou Hathor.
— Tenho uma promessa para cumprir e outros partos para estar, infelizmente. — disse Tawaret.
— Eu vou. — respondeu Bes cruzando os braços — É melhor ter certeza de que essa bebê vai ficar bem mesmo já que nasceu um pouco antes da hora.
— Também tenho outros partos para ir e outros afazeres. — disse Hathor — Qualquer coisa que acontecer, nos informe por favor, Bes.
Deixando apenas Bes para trás, Hathor seguiu seu caminho e Tawaret foi cumprir sua promessa indo direto para o Salão do Julgamento. Graças às horas que haviam se passado, os julgamentos já tinham recomeçado, e por isso Tawaret esperou no cantinho enquanto terminavam de julgar um homem de meia idade. Anúbis e alguns dos outros deuses logo notaram a presença inesperada da deusa ali, mas não puderam fazer nada para matar a curiosidade enquanto a alma do homem morto não fosse devidamente julgada e então seguisse para seu destino, dessa vez, o Aaru.
Quando a alma do homem entrou no Aaru, durante o pequeno intervalo entre uma alma e outra, Anúbis foi até Tawaret ansioso por respostas e sentindo o olhar de Hórus sobre si se aproximando curioso pelos mesmos motivos.
— E então? — perguntou Anúbis.
— O bebê está bem e Hatshepsut também. — disse Tawaret olhando para Anúbis, mas ciente que Hórus já estava perto o suficiente para ouvir então poderia matar a curiosidade dele também — É de fato uma menina. Até quando saí ainda não tinha nome. É um pouco pequena, claro, mas deve ficar bem se conseguirem cuidar dela e ela amamentar o suficiente.
Como essa era toda a informação que Hórus queria, ele logo se afastou. Mas Anúbis ainda queria saber mais e estava com certa pressa pois logo a próxima alma entraria.
— Hathor e Bes ficaram por lá? — perguntou ele.
— Só Bes. — explicou Tawaret — Já que ele tem o poder de afastar quaisquer coisas ruins, ele achou melhor ficar lá mais um tempo, considerando que o bebê nasceu um pouco cedo e tudo mais. Hathor foi cuidar de seus afazeres e logo terei que fazer o mesmo.
— Obrigado, Tawaret. — agradeceu ele — Assim que acabar aqui irei para lá também.
A deusa sorriu e acenou com a cabeça momentaneamente antes de ir embora cuidar dos próprios afazeres. Claro que Anúbis queria ir logo ver como estava Hatshepsut, mas tinha que julgar os mortos e já havia gastado tempo livre demais mais cedo com Anput. Então ele teve que lutar com sua curiosidade e continuar a julgar os mortos um a um até que, momentâneamente por enquanto, os julgamentos fossem encerrados. E, quando foram, ele foi imediatamente para o palácio real.
Anúbis surgiu logo ao lado de Bes que não levou um susto sequer com o outro aparecendo de repente, afinal estava mais do que acostumado considerando a quantidade de deuses que tinham mania de fazer isso. Ninguém podia ver nenhum dos dois, mas Anúbis sabia que Hatshepsut já tinha percebido que desde do começo da parte mais intensa do trabalho de parto havia algum deus ali com ela.
Hatshepsut, no entanto, não olhava na direção dos dois deuses, mesmo que provavelmente soubesse que eles estavam ali. A rainha, agora já limpa e sentada em sua cama encostada contra a cabeceira de ouro e devidamente coberta com lençóis caros, dava total atenção para o pequeno ser em seus braços, embrulhado em um lençol enquanto mamava. Hatshepsut parecia cansada, um pouco pálida e estava muito descabelada também, mas estava evidentemente feliz, assim como o irmão logo ao seu lado.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou Anúbis para Bes, mas olhando para Hatshepsut, aliviado.
— Sim… — disse Bes estranhando a presença dele erguendo o olhar curioso para Anúbis — Ahm… e o que você está fazendo aqui mesmo?
— Visitando uma amiga. — respondeu ele sem detalhar mais e Bes aceitou a resposta simplesmente dando de ombros.
— Deve estar cansada. Já vai dormir? — perguntou Tutmósis II.
— Estou exausta mesmo, mas não acho que consiga dormir agora. — admitiu Hatshepsut — Mesmo se esperar ela terminar de mamar.
— Então, quanto ao nome… — disse Tutmósis II — Vamos escolher Neferure mesmo?
— Sim. É um bom nome. — disse Hatshepsut olhando para a filha, Neferure, que vorazmente mamava.
— Irei avisar os conselheiros reais e demais para que o povo seja informado então da chegada da nova princesa assim que o sol raiar. — disse Tutmósis II levantando-se e deixando o quarto por mais que algumas questões ainda permanecessem em sua mente.
Tutmósis II sabia que não era a hora certa para sanar suas perguntas por mais que estivessem constantemente em sua mente. Estava feliz pela irmã e a filha estarem bem, mas queria saber, precisava saber, se poderia sanar em breve o desejo de tocar cada centímetro do corpo de Iset, a mulher com quem passou o Ano Novo.
Após a saída do pai, saciada, a pequena Neferure logo não queria mais mamar. Então Hatshepsut fez a pequena arrotar, arrumou a própria roupa e deixou a pequena descansar em seus braços enquanto admirava o que lhe parecia a mais bela das obras de arte. Aquele pequeno nariz tão parecido com o próprio, aquela boca delicada que se fechava num biquinho e aquelas mãos tão pequenas e meigas e aquele corpo que parecia-lhe mais frágil do que qualquer coisa que já tivesse visto antes.
— Creio que devo agradecer pela ajuda divina no parto. — disse ela virando o olhar para onde Anúbis e Bes estavam.
— Ela tá vendo a gente! — surtou Bes.
— Não exatamente vendo… — respondeu Anúbis rapidamente para Bes.
Deixando esconderijos mágicos de lado, Anúbis apareceu para a rainha e logo Bes imitou-o.
— Eu não estava aqui no parto mas… — disse Anúbis — certeza que Bes vai ficar feliz de receber o agradecimento e passá-lo adiante para Hathor e Tawaret.
— Com certeza estou mas… como notou que estavamos a…? — começou Bes a perguntar mas a pergunta morreu no ar ao lembrar de toda a complicação envolvendo Amon-Rá que ela não poderia saber ainda.
— Prazer em conhecê-lo, Bes. — disse ela registrando a fala cortada e a compreensão que passou pelos olhos de Bes — E… eu realmente não consigo lhe explicar como sei. Também é difícil saber quantos são e quem são. Mas que de fato tinha alguém ali eu conseguia sentir. Tento formar minhas teorias, mas não é fácil. Ajudaria muito se pudessem me informar melhor das coisas.
— Admito que queria, mas isso está além da minha opinião. — admitiu Anúbis sentando-se no mesmo banquinho de madeira que segundos antes Tutmósis II estava.
— Quer segurá-la? — perguntou Hatshepsut.
— Não. — respondeu prontamente Anúbis claramente com a ideia fazendo Hatshepsut revirar o olhar.
— Vamos, já notei aquele dia no Ano Novo que você quer ter um filho mas Anput não. — disse Hatshepsut lentamente estendendo a criança para ele — Aproveite a chance.
Vendo-se sem alternativa, já que Neferure já estava indo em sua direção, Anúbis recebeu-a nos braços, claramente tenso e estático. Sentia que um espirro que desse ia matar a menina. A tensão e medo de Anúbis, no entanto, não combinavam com o olhar doce e feliz que Bes, que havia se aproximado, lançava para a recém-nascida.
— Relaxa, garoto… — sugeriu Bes.
Por mais difícil que o conselho fosse, Anúbis tentou segui-lo fazendo o que deve ter sido a inspiração mais tensa e rígida de toda sua centenária vida.
Fale com o autor