A Morte Das Areias do Saara
105 Indiretas Diretas
Notas iniciais

Alguém foi dar os parabéns ao pai dela e disse-lhe: "Um homem escalou a janela da tua filha".
O príncipe indagou sobre ele, dizendo "O filho de qual dos príncipes é?" Eles disseram para ele: "É o filho de um cavaleiro, que fugiu da terra do Egito, de uma madrasta."
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
A noite tranquila tinha tomado conta do palácio real para alegria de todos. Afinal, muitos estavam preocupados com o parto da rainha ou pelo menos desconcertados com seus gritos de dor. A pequena Neferure estava acordada, mas tranquila. Seus olhos castanhos estavam entreabertos e sonolentos enquanto olhavam para Anúbis, que a segurava claramente tenso em machucar tão frágil e pequena criatura.
Hatshepsut, Bes e Anúbis admiravam a calmaria de Neferure e o milagre que era sua vida. Suas mãos, tão pequenininhas, se moviam lenta e gentilmente como se quisesse aproveitar o espaço que não tinha na barriga da mãe.
— É uma bela garotinha. Será uma bela princesa sem dúvida. — disse Bes.
— Sei que não sou imparcial, mas tenho que concordar. — disse Hatshepsut.
Nesse momento, surgindo acanhadamente no quarto, estava Anput. Ela avaliou se estava tudo bem se aproximar, já que Hatshepsut poderia muito bem estar dormindo tendo seu merecido descanso, e notando que estavam todos admirando Neferure, Anput se juntou ao pequeno grupo.
— Hathor me contou que tinha dado tudo certo no parto… — disse Anput.
— Olá, Anput. — disse Hatshepsut com um dose e cansado sorriso — Sim. Finalmente acabou.
— Sim. Venha ver a nova princesa. — disse Bes chamando Anput com a mão enquanto Anúbis nem ousava se mexer, já se sentia rebelde demais no momento por apenas respirar.
A única cadeira do cômodo estava ocupada por Anúbis e não parecia certo sentar na beirada da cama de Hatshepsut, assim Anput apenas se aproximou e curvou o corpo levemente para poder admirar a pequena recém-nascida mais de perto. Provavelmente atraída pela fofura da criança, Anput esticou o dedo indicador até a pequena mãozinha aberta da recém-nascida que, ao sentir o toque do dedo, por puro reflexo, fechou a mão ao redor do dedo que parecia tão absurdamente grande perto dela.
Os olhos de Anúbis focaram na delicada mão segurando fracamente o dedo de Anput e tentou não deixar sua imaginação ir muito além, o que era meio difícil. Então, tentou focar-se no momento. Afinal, podia até estar tenso e temeroso de sem querer machucar a pequena princesa, mas não podia negar que estava gostando de segurá-la também. E o pequeno sorriso que nasceu no rosto de Anput mostrava que ela notava isso.
— Quer segurá-la? — perguntou Anúbis olhando para Anput, que ficou levemente surpresa com a oferta.
— Claro… — respondeu a deusa.
Com muito cuidado, eles trocaram o bebê de um para o outro sob os olhos atentos e calmos da mãe. Neferure nada fez além de remexer as mãos e os lábios enquanto estava no meio do percurso. Antes que desse tempo da garotinha ficar emburrada por perturbarem a tranquilidade dela, ela já estava confortavelmente no colo de Anput.
— Qual o nome dela? — perguntou Anput.
— Neferure. — respondeu Hatshepsut.
— É um bom nome. — disse Bes já que, ao pé da letra, o nome significava “A beleza de Rá” — Amon-Rá com certeza gostará da homenagem.
— Achei que ficaria bonito e especial. — admitiu Hatshepsut — Eu realmente tenho que arranjar mais tempo para ir devidamente à um dos templos de Amon-Rá com mais calma novamente, e não com tanta pressa. Tem sido uma loucura desde que Tutmósis virou faraó. As fronteiras são muito grandes e consequentemente dão muito trabalho.
— Ah é…. Você é a sumo-sacerdotisa de Amon-Rá... — comentou Anput levianamente tentando conter qualquer expressão facial que dedurasse a ironia daquilo
— Quase toda rainha desde Ahmose-Nefertari é. — disse Hatshepsut dando de ombros — É praticamente algo hereditário.
— Será que Amon-Rá já sabe da escolha do nome da nova princesa? — perguntou Anúbis trocando um olhar com Bes que escondia uma pergunta maior, “será que ele já sabe que meio que tem uma nova neta?”
— Eu não sei. — respondeu Bes dando de ombros — Mas é altamente provável.
— Não sei ele parece meio distante… — comentou Anúbis lembrando de como Amon-Rá estava quando foi falar com ele no Templo de Karnak.
— Ele sempre foi meio distante. — disse Bes.
— Mas está diferente… — insistiu Anúbis ainda no assunto sobre Amon-Rá apesar dos olhos estarem na princesa — Bem, pode ser apenas a diferença entre Amon-Rá e Rá.
Com nenhum dos três sem saber muito o que acrescentar e assim a conversa morreu com Hatshepsut sentindo-se estranha e privilegiada por ter escutado tal conversa, se bem que se fosse segredo para ela, eles não teriam conversado sobre Amon-Rá, ela tinha certeza disso. Mas logo todos voltaram a olhar para Neferure que atraia a atenção de todos como um imã. Era muito difícil não se apaixonar pela inocente graça da princesa Neferure, mesmo que ela não fizesse muito mais do que apenas mexer as mãos e os braços. Contudo, o momento doce foi interrompido quando vozes começaram a entrar no quarto vindas do corredor e, dentre elas, foi fácil identificar a voz de Tutmósis II.
— Agora tudo que eu quero é dormir… — dizia Tutmósis II falando com alguém — A ama de leite está avisada que podemos acabar chamando-a no meio da noite, certo?
— Sim, majestade. — respondeu a pessoa com quem ele falava.
— Bem, acho que isso é uma boa prova que temos que ir. — disse Bes — Já está muito tarde e tenho certeza que a rainha está ansiosa por uma boa noite de sono depois de passar tanto tempo em trabalho de parto.
— De fato estou. — respondeu Hatshepsut enquanto Anput passava a recém-nascida de volta para ela — Mas também estou tão ansiosa e preocupada com a possibilidade de algo acontecer no meio da noite que não sei se vou conseguir dormir tão fácil assim.
— Muitas novas mães fazem preces para mim preocupadas com isso. — disse Bes — Você vai conseguir lidar com isso, tenho certeza. Até porque tem muitos para ajudar a cuidar de Neferure.
Os três deuses olharam para a tranquilidade, e cansaço, estampados no rosto da mãe de primeira viagem que deitava sua recém-nascida sobre seu coração. Certeza que a princesa acabaria dormindo em poucos minutos. A questão era se ela dormiria completamente o que restava da noite ou não, mas isso era com certeza mais fácil de fazer quando se tinha criadas e amas de leite para ajudar a cuidar do bebê.
Deixando tudo sob controle no quarto de Hatshepsut, os três deuses facilmente sumiram de lá antes que Tutmósis II entrasse no cômodo da irmã. Bes seguiu seu caminho indo passar a noite no meio das dunas do deserto perto de uma caravana nômade berber que havia pedido sua proteção. Anúbis e Anput, como de costume, foram para o Salão do Julgamento.
— Espero que Hatshepsut consiga dormir o resto da noite. — disse Anput — Ela parecia muito cansada.
— Acho que o maior problema vai ser ela conseguir ficar descansando amanhã também. — respondeu Anúbis.
— Ah! — exclamou Anput repentinamente — Mais cedo eu estava falando com Seshat. Ela me explicou melhor onde é a tal caverna incrivelmente bonita que ela encontrou. Disse que fica no Mar Vermelho, mas que é obviamente muito melhor ir de dia. Acha que consegue ficar livre para ir amanhã, quando o sol estiver o mais alto possível? Eu chamei ela para ir também.
— Hum… acho que sim. — respondeu Anúbis parando para pensar um pouco em quais eram os afazeres que o separavam do meio dia do dia seguinte — Essa é a sua primeira tentativa de fazer eu conversar com os demais, imagino.
— Acertou. — declarou Anput — Se bem que você até parece conversar um pouco com Bes, se não tiver sido impressão minha.
— Sei lá… ele é… legal. Acho. — disse Anúbis dando de ombros.
Um pequeno sorriso de orgulho tomou conta de Anput e ela não se conteve em beijar Anúbis rapidamente na bochecha. Gesto esse que, apesar de obviamente ter gostado, ele achou um tanto inesperado e por isso olhou para ela com a cabeça levemente inclinada tentando deduzir o que ela pensava. Ele com certeza conseguia deduzir a parte de ela estar orgulhosa de ele estar se comunicando com alguém, mas nem imaginava a parte na qual ela pensava em como ele só interagir com mortos podia não ser muito saudável.
— Eu tenho que proteger meu Nomo. — declarou Anput com uma expressão e tom que já denunciavam que aquilo era um pedido de desculpas — As noites podem ser perigosas com bandidos e afins. Não vai ter julgamento nenhum agora… você vai ficar bem aqui sozinho? Você… pode vir comigo se quiser.
— Eu tenho que ir ver o meu também. — disse ele passando delicadamente a mão no rosto dela levando uma de suas várias trancinhas para atrás da orelha — Para aproveitar que ao menos essa noite estou mais livre.
Ela apoiou gentilmente a mão na bochecha dele enquanto o olhava profundamente nos olhos por alguns segundos em busca de alguma emoção escondida que pudesse a deixar preocupada. Não encontrando nada, um leve sorriso tomou conta de seu rosto.
— Até amanhã então? — perguntou ela.
— Até amanhã.
Anput foi a primeira a sumir e deixar o Salão do Julgamento para trás em direção ao Nomo que, até onde Hórus sabia, ela cuidava junto com Anúbis, mas na verdade toda a preocupação e responsabilidade estava sobre os ombros dela. Em seguida, depois de coçar as costas da orelha de Ammit e trocar umas breves palavras com Osíris sobre os próximos julgamentos, Anúbis foi cuidar de seu Nomo também.
Era um pouco estranho que Anput fosse a única responsável pelo Nomo que carregava o nome de Anúbis, mas ao mesmo tempo fazia muito mais sentido que Anúbis, se fosse para cuidar de um único Nomo, que esse fosse o Nomo de Atef-Khent. Pois a capital de Atef-Khent, que surgiu logo à frente de Anúbis quando ele apareceu lá, era Zawty, o centro de seus adoradores.
Zawty não era muito diferente de várias cidades egípcias. Fazendeiros aproveitavam a longa faixa de terra lamacenta e cheia de verde ao longo do Nilo onde palmeiras e tamareiras cresciam ao lado das plantas de papiro. As primeiras casas eram rodeadas por um chão igualmente lamacento, algumas até em corredores levemente tomados pela água da cheia do Nilo que conseguia chegar nas canelas dos habitantes por vários metros ficando cada vez mais rasa quanto mais entrava-se na cidade até desaparecer por completo nas partes mais elevadas e distantes do Nilo. Felizmente ali, a faixa verde ao redor do Nilo era larga o suficiente para proteger toda a cidade do deserto cruel e impiedoso que jogava insistentemente areia para qualquer direção que se fosse. Era também nesse deserto, em suas montanhas rochosas, que o povo estava fazendo tumbas para seus queridos animais de estimação caninos.
Como tudo parecia sob controle em Zawty, Anúbis andou de um canto a outro de seu Nomo no decorrer da noite obviamente sumindo e surgindo em lugares aleatórios. Como a maior preocupação costumava ser grupos de bandidos invadindo cidades na calada da noite, as fronteiras foram as mais visitadas. Quer fosse as fronteiras que separavam a parte egípcia do deserto do Saara de todo o resto das dunas de areia cruéis e sem donos além de alguns povos nômades, ou as fronteiras traçadas no curso do Nilo separando um Nomo do outro, elas foram devidamente checadas.
Só quando o sol ameaçou voltar a nascer, Anúbis voltou para o Salão do Julgamento para cuidar das múmias que tinha para fazer ou quem sabe tratar de um ou outro julgamento que precisasse ser feito. Ainda bem que não precisava mais dormir desde que tinha ficado mais forte, se não teria sido muito cansativo começar um novo dia sem ter tido um pingo de sono. Na verdade, Anúbis não dormia a mais de 1000 anos. O sono havia ficado para trás junto com a infância. Sono parecia ser de uma outra realidade. Uma realidade quando o Egito ainda estava se unificando e de fato nascendo como uma nação, não sendo mais um monte de nômades que por acaso resolveram tentar agricultura nas margens de um solitário rio que cortava o deserto.
Durante a noite, os deuses tratavam de seus deveres e Hatshepsut dormia depois de um longo parto que havia tomado-lhe parte de seu descanso noturno. As horas se passaram e o sol nasceu no horizonte trazendo o calor de volta para o Egito. No palácio real, depois da noite agitada, foi unânime que a rainha merecia dormir mais. Assim, Hatshepsut dormiu enquanto a notícia de que o Egito havia ganhado uma princesa se espalhava por Tebas.
O sol já estava quase em seu ponto mais alto quando Senenmut entrou acanhado no palácio real. Não era como se ele tivesse um telefone para mandar perguntar para a rainha se o compromisso deles do dia ainda estava de pé depois de ela ter dado a luz nas horas finais do dia anterior. Também não era de bom tom faltar, sem avisos, uma reunião com a rainha. Logo, abraçado aos papiros com os resultados de sua análise quanto às reformas necessárias no templo de Mut, Senenmut percorreu os olhos pela entrada do palácio em busca de alguém que pudesse responder suas preocupações.
— Com licença… — disse ele se aproximando de um homem com aparência importante e que se Senenmut pudesse chutar, era um dos conselheiros ou generais do faraó — Eu havia marcado com a rainha para lhe mostrar alguns documentos hoje mas… ouvi dizer que ela deu a luz na noite de ontem.
— Ah sim, Senenmut, certo? — perguntou o homem — O aprendiz do arquiteto real. A rainha já deixou avisado que lhe receberia hoje mesmo considerando o parto. Pedirei para alguém levá-lo até ela.
Uma expressão de surpresa tomou conta do rosto de Senenmut enquanto o homem chamava um soldado aleatório para guiar Senenmut pelo palácio. Claro que Senenmut sabia o caminho do cômodo para o qual estava sendo guiado para, mas não se surpreendeu em não deixarem ele andar sozinho pelo palácio. Era uma cena que se repetia em algumas de suas visitas.
Em alguns poucos passos, Senenmut estava no mesmo cômodo que conversou com Hatshepsut no dia anterior. Com o cômodo vazio, ele esperou de pé sob o olhar atento do soldado que o guiara até ali. Os dois se encararam desconfortavelmente por alguns segundos antes de Senenmut soltar um suspiro e desviar o olhar para as belas paredes ricamente detalhadas do cômodo. E então, alguns minutos depois, Hatshepsut entrou no cômodo.
Ao mesmo tempo, o soldado e Senenmut colocaram a mão fechada sobre o coração e se curvaram levemente abaixando a cabeça na direção da rainha, mas o soldado não compartilhou do sorriso leve que espontaneamente surgiu no rosto de Senenmut, que apressadamente escondeu sua reação. Pega desprevenida pelo sorriso do arquiteto, a rainha não conseguiu evitar exibir seu próprio sorriso. Entretanto, Hatshepsut também logo o escondeu, voltando para uma expressão neutra, mas carinhosa ao se virar para o soldado.
— Pode ir para seus outros afazeres. — disse a rainha — Obrigada por trazê-lo até aqui.
O soldado repetiu o gesto de antes e deixou o cômodo para a rainha e o arquiteto. Sozinhos novamente, os sorrisos voltaram a surgir no rosto dos dois enquanto Hatshepsut andava e sentava-se no mesmo sofá com encosto em apenas uma das laterais no qual ela havia sentado no dia anterior. Todavia, apesar de ela parecer bem, eram notáveis os indícios de que ela não havia tido uma noite fácil. Seus olhos estavam cansados, seus vestidos e cabelos, embora ainda elegantemente arrumados, usavam um visual bem mais simples e ela claramente andava e sentava-se com cuidado e uma leve lentidão.
— Parece surpreso em me ver. — disse Hatshepsut encostando-se lateralmente no encosto e colocando o braço sobre este.
— Bem, acho que toda Tebas já sabe que deu à luz, na noite de ontem, para uma menina. — admitiu ele — Não esperava vê-la já que imaginei que aproveitaria o dia para descansar.
— De fato é minha inteção. — admitiu Hatshepsut — Mas você é exceção.
A fala pegou Senenmut de surpresa fazendo-o engasgar por um segundo com a própria saliva e, depois de uma tosse um tanto falsa, trocar de assunto para algo mais seguro.
— Sobre as reformas necessárias no Templo de Mut aqui em Tebas… — disse Senenmut — As reformas são obviamente possíveis e, apesar de ser necessário contratar algumas dezenas de homens para as executá-las, provavelmente não teríamos problemas piores. Os trabalhadores que já cortam as pedras para as obras em Karnak podem aumentar a produção para incluir a fabricação dos materiais necessários para o Templo de Mut. Claro que isso deixaria as obras em Karnak mais lentas mas, se necessário, podemos contratar mais mineradores.
— Calculou quais os gastos em salário dos construtores e dos mineradores? — perguntou Hatshepsut — Não deve ser difícil conseguir pessoas para trabalhar considerando que os fazendeiros estão parados no momento.
— Sim, majestade. — disse ele procurando um dos papiros nas mãos e estendendo para Hatshepsut, que prontamente abriu-o — Calculei os custos com a compra de cerveja, comida e grãos para os trabalhadores. Verá no final o custo total se quiser contratar apenas construtores ou se desejar aumentar o número de mineradores também.
— E esse escrito em vermelho?
— Isso é caso ache necessário contratar um construtor mais experiente. Profissional. — explicou ele — Considerando que ficarão concentrados no Templo de Mut e, se quiser que eu organize uma construção ou reforma em Zawty, como falamos ontem, alguém experiente pode ser interessante para quando eu não estiver presente.
— Inteligente. — disse ela com um sorriso aprovador — Mas diga-me qual a situação do templo e o que sugere fazer por lá para justificar esses gastos.
Por vários minutos eles conversaram sobre qual era o estado atual do templo, o que Senenmut sugeria de reforma para ele e quais as implicações de cada detalhe. Senenmut empolgadamente abria os papiros para Hatshepsut ver os detalhes ali escritos pois a mesa estava longe e sem dúvida ali era mais confortável para ela do que as cadeiras duras que rodeavam a mesa.
Quando já estavam com quase tudo decidido, as conversas foram interrompidas pela aproximação de um choro de bebê que prontamente atraiu a atenção da rainha. Hatshepsut levantou-se mesmo notando que o som parecia se aproximar cada vez mais de onde estavam. Assim, Hatshepsut e uma criada carregando a chorosa Neferure chegaram praticamente ao mesmo tempo diante do portal de entrada do cômodo.
— Com licença, majestade. — disse a criada — Mas pediu para trazer a princesa caso ela quisesse mamar.
A criada nem precisava explicar mais. Hatshepsut já tinha tomado Neferure nos braços no meio da frase e prontamente se aconchegava novamente no sofá e começava a dar de mamar para Neferure. Poderia com certeza deixar o serviço para uma ama de leite, tal como ela mesma teve quando nasceu, mas seus seios estavam tão cheios de leite que lhe incomodavam, e afinal de contas, amamentar era algo belo e sagrado.
Neferure prontamente parou de chorar quando o precioso leite chegou até ela. Logo, com um pequeno sorriso, Hatshepsut limpou uma pequena lágrima que escorreu pela bochecha da agora tranquila e voraz garotinha. Esse mesmo sorriso tranquilo que se mostrou no rosto de Hatshepsut também se mostrou no rosto da criada que estava cuidando da princesa até então.
— Vá descansar, Nebsenet. — disse Hatshepsut olhando para a criada — Deve estar precisando de um descanso tanto quanto eu. Pode deixar que fico com ela agora.
Imitando o soldado ao levar a mão fechada até o coração, a criada foi embora deixando o pobre Senenmut deslocado no meio da sala sem saber como reagir com toda aquela cena.
— Aposto que cenas assim não acontecem quando se discutem reformas com os faraós. — disse Hatshepsut olhando para a filha.
— Com certeza não. — concordou Senenmut rindo levemente — Mas fico feliz em ver que a princesa é forte e saudável.
— Fico feliz em ver que ela tem o apetite voraz, tendo nascido tão pequena. — falou a rainha — Espero que consiga passar dos 5 anos, o que parece ser a dificuldade para a maior parte das crianças. Assim eu e Tutmósis podemos ter mais tranquilidade, embora acho que posso dizer que nosso acordo acabou ontem.
— Me permite perguntar qual acordo seria esse, majestade? — perguntou Senenmut movido pela curiosidade fazendo Hatshepsut sorrir e olhar para ele por ele ter mordido a isca.
— Eu e Tutmósis não nos amamos como um casal. — respondeu ela — Tão pouco queríamos nos casar também. Mas não tínhamos muita escolha. Éramos novos e temos que gerar um herdeiro para que parem de nos incomodar e também diminuir o tanto de problemas. Então fizemos um acordo simples. Esperamos um tempo antes de… de fato tentar ter um bebê. Até porque não estávamos prontos para isso. E então, enquanto não tivéssemos um herdeiro, ficaríamos comportados, o casal modelo. Tendo um herdeiro então, Tutmósis fica livre para ir atrás de qualquer rabo de saia que queira e até se casar e gerar outros filhos que eu não irei reclamar até mesmo se a outra mulher estiver na condição de amante ao invés de segunda esposa. Ao mesmo tempo, ele também não reclamará se eu achar um amante. Infelizmente não posso casar com dois homens mas… a liberdade de um amante já é alguma coisa.
— E… — disse Senenmut parando por um segundo antes de continuar enquanto olhava para a rainha completamente chocado — Ele… realmente segue isso?
— Até onde eu sei ao menos, sim. — respondeu ela — Não tenho como ter total certeza que ele não já deitou com alguma mulher por aí mas, quanto ao fato de eu arranjar um amante, ele com certeza não irá ligar.
— Então… — continuou Senenmut com um leve toque de esperança na voz — Ele não irá mandar executar nem punirá nenhum homem que corteje Vossa Majestade?
— Nem mesmo se esse homem parar em minha cama. — disse Hatshepsut sugestivamente olhando lentamente para o arquiteto embora sentisse as maçãs do rosto queimando.
— Esse homem seria de fato muito sortudo. — comentou Senenmut tentando conter o sorriso que insistia em tentar aparecer em seu rosto.
— Acha? Não estou me sentindo muito sensual no momento, toda dolorida, inchada e cheirando a leite. — perguntou ela rindo — Mas bem, claramente no momento não daria já que acabei de dar a luz. Seria mais prudente esperar um pouco. Mas não pretendo engravidar de novo, ao menos não se conseguir evitar. Uma vez já foi cansativo e doloroso o suficiente.
— É uma pergunta com certeza extremamente ousada e talvez até insolente, majestade, mas, me pergunto se apenas membros da realeza e da nobreza teriam uma chance com Vossa Majestade.
— Hum… — resmungou Hatshepsut claramente fingindo pensar — Bem, talvez posso abrir uma exceção para arquitetos…
Um sorriso nada disfarçado surgiu no rosto de Senenmut enquanto, em sua mente, ele comemorava a indireta muito direta da rainha. E, caso ainda tivesse alguma dúvida, Hatshepsut deu dois leves tapinhas no pedaço do sofá que restava para sentar chamando-o para sentar-se ao seu lado.
Enquanto os dois conversavam e Neferure terminava de mamar, o sol chegava no seu ponto mais alto do dia dando início a um pequeno passeio de Anúbis, Anput e Seshat. Os três surgiram num lugar com uma beleza simplesmente incrível. Ali, as areias brancas do deserto deixavam de se amontoar em dunas e se tornavam cada vez mais planas até formarem uma praia que tocava o mar.
O mar que os grãos de areia tocavam era o Mar Vermelho, mas ali de vermelho ele não tinha nada. O Mar Vermelho era de um tom de azul tão belo, claro, perfeito e cristalino que era capaz de competir em beleza com o mar no longínquo e ainda desconhecido Caribe. Ali tanto parecia um paraíso que, embora no momento não houvesse mais nada além de areia na orla da praia, em alguns poucos milhares de anos ali se tornaria a cidade de Hurghada. A cidade seria pequena, mas seria repleta de turistas chegando de todas as partes por seu aeroporto. Muitos ficariam hospedados em hotéis de alto padrão ou aproveitariam a beleza do lugar e as instalações do hotel para fazerem casamentos ou movimentar a vida mantida nas redes sociais por meio de fotos belas.
— Vocês vão adorar. — dizia Seshat colocando o primeiro pé não dentro da água, mas sobre ela — Temos que ir até mais para o meio antes. Mas até visto por cima é interessante. Vale a pena a caminhada.
Anput e Seshat trocaram um olhar significativo que indicava que aquela caminhada até o meio possuía um segundo motivo, mas Anúbis não percebeu pois estava focado em admirar a vista e o cheio de água salgada enquanto o vento bagunçava seus cabelos. Então, em silêncio eles seguiram andando sobre a água do mar enquanto Seshat lambia os lábios nervosa tentando achar as primeiras palavras para começar a conversa que tinha em mente.
— Er… Anúbis… — disse Seshat sem parar de olhar para o chão vendo a areia ficar cada vez mais escondida pela água do mar.
— Hum? — resmungou ele.
— Eu… não quero tocar num assunto que talvez não goste de lembrar mas.. — continuou ela — também acho que não posso ficar sem falar disso. É sobre aquele dia, ou melhor, noite, que brigou com Qebui.
— O que sobre aquele dia? — perguntou Anúbis já fechando a cara.
— Eu queria pedir desculpas. — respondeu ela — Aquelas coisas que o Qebui disse não foram legais e nem o jeito que ele disse.
— Foi Qebui quem as disse. Não precisa pedir desculpas. — disse ele.
— Preciso sim! — insistiu Seshat — Pois não te defendi… eu… ainda me arrependo disso. Nenhum de nós te defendeu direito ou parou o Qebui direito e acho que porque ele tocou num ponto sensível nosso. No calor do momento é fácil, e perigoso, não pensar direito. Você não tem culpa dos humanos de adorarem mais ou de ter deveres mais relevantes e importantes. E sei… ou imagino… que muitas das coisas que Qebui disse não são verdade, sobre como você parece nos evitar. Eu sei como é difícil conseguir… conversar, participar, falar e essas coisas em algum grupo. Sempre sinto isso quando tenho que substituir Thoth em alguma coisa com Lorde Osíris ou Hórus. Não é exatamente confortável. Então… acho que eu posso dizer que te entendo ao menos por algum lado. Sei que não conversamos tanto assim mas quero que saiba que eu não concordo com Qebui e te considero um amigo.
— Obrigado, Seshat. — respondeu ele com um sorriso e olhando para ela sentindo um alívio nas costas — Eu precisava ouvir isso.
— E eu precisava dizer isso. — comentou ela rindo.
Anput suspirou aliviada com um sorriso no rosto que não passou despercebido para ninguém.
— Feliz que seu plano funcionou? — perguntou Seshat rindo.
— Seshat! É ali já?! — perguntou repentinamente Anput apontando para uma parte diferente do mar.
Eles já haviam andado tanto que o tom de azul do mar havia ficado já bem mais forte em razão da profundidade. No entanto, repentinamente, diante deles, estava uma parte visivelmente bem mais rasa e não feita de areia, um recife de corais.
— Sim, é ali mesmo. — respondeu Seshat.
Os três rapidamente percorreram a distância restante e então olharam para baixo. Era fácil ver os corais multicoloridos a menos de um palmo abaixo do nível do mar com dezenas de peixes de diversos tamanhos e cores, mas principalmente amarelos, nadando entre os corais.
— Prontos para um mergulho? — perguntou Seshat.
Tomando cuidado de não estarem em cima do coral, os três deixaram a água do mar engoli-los. Os peixes se assustaram com a repentina aparição de três pessoas, mas eles terem ido para longe por um tempo criou tempo o suficiente para eles admirarem o jeito incrível que o azul os rodeava com raios de sol mudando a cor da água, da areia não muito abaixo deles e dos corais. A areia ganhava um tom de azul claro, a água sobre a cabeça deles era de um azul levemente mais escuro e a água no meio era a mais escura de todas, se perdendo engolindo lentamente as coisas quanto mais longe do campo de visão deles estas estavam.
Curiosos, os peixes voltaram saídos de seu esconderijo, um conjunto de destroços de um barco de madeira amontoado perto do coral. Alguns peixes se aproximaram curiosos tocando-lhes os pés e as pernas ou aproximando-se perto o suficiente das mãos e do rosto para que eles pudessem olhá-los mais de perto. Rapidamente eles estavam tão rodeados dos mais diversos peixes de aparência inofensiva, que era difícil ver qualquer outra coisa. Mas com certeza viram quando uma tartaruga passou nadando afugentando uma pequena parte dos peixes. A tal caverna que Seshat mencionara ainda nem tinha sido visitada, e a experiência já era bela e rara.
Eles não precisavam respirar, poderiam explorar tudo ali com calma. Mas, mesmo assim, Seshat chamou-os com a mão, pois engolir água não era agradável para ninguém, e começaram a nadar em direção a tal caverna. Parte dos peixes se afastaram com o movimento repentino e outra parte também parecia interessada na tal caverna. A caverna, era uma fenda aberta no coral formando uma passagem de corais, pedras e areia indo para baixo.
Quanto mais eles entravam, mais eles tinham que depender dos raios de sol que conseguiam chegar até ali. Felizmente, eles chegavam até ali fazendo um espetáculo, dando cores aos corais e aos pequenos peixes serelepes que nadavam entre os dedos curiosos de Anput. Mas não havia nada de pequeno e serelepe no peixe que surgiu repentinamente saído de um canto mais escuro do coral fazendo os três quase abrirem a boca de susto engolindo muita água no processo. Cinzento, magro, longo e fino, o peixe parecia uma espécie pequena de tubarão.
A reação de Anúbis e Anput fez Seshat rir, mas o susto dos dois não chegou nem perto do susto dos pequenos e coloridos peixes que ao verem o predador nadaram para longe o mais rápido possível deixando os três deuses sozinhos com a criatura, que não parecia interessada neles. Ali, sozinhos no fundo da caverna, eles se viram rodeados de outros tipos de corais e peixes que preferiam mais o escuro e a solidão. Incluindo até um enorme peixe vermelho que parecia um coral e não um ser vivo.
Curiosos, os três deuses se aproximavam dos corais de aparência mais diferente que pareciam frutos da imaginação e os admiravam com olhos brilhantes. Não achavam que a enguia que se escondia em um buraco do coral estava muito afim de apresentações, então se entreteram com os pequenos peixe-palhaço que se escondiam nas anêmonas.
Depois de um tempo, Seshat chamou-os novamente e eles seguiram em outra direção da caverna que, ao invés de descer, parecia subir novamente. Aparentemente a caverna não era profunda o suficiente para ficar totalmente envolta pela escuridão e, consequentemente, os três saíram do outro lado do coral apesar de terem que se espremer numa fresta menor do que a primeira. Do outro lado do coral, foram recebidos por um enorme peixe-leão, listrado com 11 longuíssimos espinhos e barbatanas como asas, que estava escondido por perto e não gostou de ser incomodado.
O peixe-leão tentou se vingar pela perturbação de sua soneca tentando ferroar os três com um de seus vários espinhos, mas foi inútil. Nada que o peixe pudesse fazer causava qualquer mísero dano. Todavia, como não era a intenção deles perturbar o pobre peixe, eles se afastaram para admirar outras partes dos belos segredos multicoloridos escondidos sob as águas do Mar Vermelho.
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