A Morte Das Areias do Saara
106 As visitas na Tempestade de Areia
Notas iniciais

O príncipe da Mesopotâmia ficou extremamente zangado. Ele disse,
"Como posso entregar minha filha a um fugitivo do Egito. Que ele volte de novo." Eles foram e disseram ao jovem: "Volte para o lugar de onde vens".
Mas a garota se agarrou a ele.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Num piscar de olhos, a época do ano destinada para construções chegou ao fim. Com o solo devidamente irrigado com a cheia do Nilo, os fazendeiros começaram a plantar principalmente trigo e cevada, que formavam a base da alimentação egípcia. Contudo, algumas fazendas, campos, jardins e pomares, focavam em cultivos levemente mais complicados como feijão, lentilha, grão-de-bico, fava, cebola, alho, rabanete e até mesmo alface ou salsa. Todavia, nenhuma plantação era tão difícil de manter num deserto como as frutíferas. Ainda assim, alguns se empenham no cultivo de frutas como uva e melancia, ou nas grandes novidades do século, azeitona, maçã e romã.
Apesar da determinação que os fazendeiros tinham em começar um novo ciclo de plantações, naquele dia, elas teriam que esperar um pouco mais. Na cidade de Tebas, pessoas corriam apressadas para dentro de casa e fechavam suas janelas do jeito que fosse possível e mercadores guardavam e prendiam seus barcos desesperadamente, pois vindo do grande e poderoso deserto do lado oeste do Nilo, vinha uma tempestade de areia. A nuvem marrom-clara se aproximava, engolindo tudo que havia pelo caminho com grande facilidade cobrindo todo o espaço entre o chão e o céu.
A nuvem de areia cobriu o Vale dos Reis e logo avançou para a cidade. Tudo o que ela tocava imediatamente sumia e dentro dela a visibilidade, mesmo se fosse fácil manter os olhos abertos, era praticamente nula. Conforme a tempestade de areia entrava em Tebas, o vento soprava forte balançando as árvores e ameaçando carregar os panos que eram usados como teto de tendas por alguns cidadãos.
Com a chegada da tempestade de areia, algumas pessoas que estavam fora de casa se viram momentâneamente presas em lugares como bares, casas de vizinhos ou, no caso de Senenmut, no palácio real. Era a primeira vez que eles iam até o palácio depois do final da temporada de construções, era certamente muito azar, ou muita sorte, a tempestade de areia passar logo naquele dia. Tendo terminado a época de construções, Senenmut e o mestre, o arquiteto Ineni, discutiam com Tutmósis II os planos para a próxima temporada de construções e, mais importante ainda, os requisitos de Tutmósis II sobre a própria tumba. A conversa, no entanto, acabou no meio da tempestade de areia.
— Bem… — disse Tutmósis II suspirando ao fim da reunião — com a tempestade de areia, claramente não está um cenário muito bom para que vocês saiam.
— Ah não se preocupe conosco, majestade. — disse Ineni — Ficaremos esperando a tempestade passar na companhia um do outro e talvez de algum guarda simpático que possa compartilhar uma boa conversa.
— Se é assim, fiquem à vontade. — disse Tutmósis II — Sei bem que conhece esse palácio provavelmente melhor que eu, Ineni.
Despreocupado, Tutmósis II deu as costas indo para seu próximo assunto do dia, passar pelo corpo os óleos que o médico real havia receitado na tentativa de combater as manchas e cistos que se espalhavam pelo corpo do faraó. Os óleos receitados estavam de fato conseguindo fazer as manchas sumirem, mas nada conseguia disfarçar o fato que Tutmósis II emagrecia mais a cada ano que se passava.
Com o faraó longe, o velho arquiteto olhou para seu aprendiz com uma das orelhas arqueadas e um olhar de seriedade e alerta.
— Vai me fazer companhia enquanto a tempestade não passa ou… — disse Ineni deixando a frase no ar por uns segundos antes de continuar — Vai arriscar seu pescoço por aí?
— Não tem nada a de arriscar o pescoço. — defendeu-se Senenmut — E como o faraó disse, você conhece o palácio muito bem. Com certeza conhece muita gente para conversar e lhe fazer companhia.
Senenmut, tal como o faraó alguns minutos antes, deixou aquele cômodo para trás. Contudo, seu destino não era muito certeiro. Ele teve que perguntar onde estava o que ele queria para os guardas e serviçais com os quais ele se encontrava no caminho. Foi quando ele cruzou com a serviçal que era a babá de Neferure, foi que ele viu que estava chegando ao seu destino.
— Senenmut, não sabia que vinha aqui hoje. — disse a serviçal, Nebsenet.
— Foi meio repentino. — respondeu ele olhando rapidamente para a porta de onde ela tinha acabado de sair, detalhe que a serviçal notou muito bem.
— Ela está lá com Neferure. — respondeu Nebsenet — Acabou de pedir para que eu saísse para descansar. Acho que quer ficar um pouco a sós. Está com a cabeça cheia. Mas acho que ela não se importaria com sua presença.
— Obrigado, Nebsenet. — disse Senenmut.
Senenmut passou por Nebsenet e entrou no cômodo que, do pouco que ele sabia do palácio, pelo o que lembrava era uma mera sala de descanso sem nada muito importante além de sofás, almofadas, tapetes e enormes vasos de plantas. Lembrava de ter visto o cômodo uma vez quando tinha acabado de ser contratado como assistente e ajudante de Ineni.
Apesar do cômodo não ser uma novidade tão grande assim, havia algo nele que era. Não algo, na verdade, mas alguém. Senenmut esperava encontrar Hatshepsut sozinha com Neferure mas, embora as duas estivessem de fato ali, também havia um rapaz, branco, de cabelos pretos e que aparentava ser talvez 1 ano mais novo que Hatshepsut. Claro, era Anúbis, mas Senenmut não o conhecia e consequentemente pensou demais do olhar de surpresa que Hatshepsut usou para olhar para Senenmut.
— Perdão. — disse Senenmut extremamente formal e se virando para ir embora — Vejo que estou atrapalhando vossa majestade, irei me retirar.
— Não! — exclamou Hatshepsut correndo na direção dele — Espera!
Ele esperou e a rainha prontamente lhe alcançou segurando-lhe o pulso firmemente. Assim de pertinho, ele notava como ela era baixa e como ela realmente estar preocupada com muitas coisas, afinal podia notar os olhos cansados dela. Antes de ela dizer qualquer coisa, no entanto, ela olhou para o rapaz que ainda era estranho para Senenmut. Anúbis afirmou com a cabeça para Hatshepsut como se tivesse respondido uma pergunta que não foi dita mas havia sido prontamente entendida.
— Senenmut… — disse Hatshepsut voltando a olhar para o arquiteto — Esse é Anúbis. O deus Anúbis. Ele é meu amigo.
— Anúbis… — repetiu Senenmut tentando entender como deveria processar aquela informação.
Senenmut olhou para o rapaz sentado no tapete sobre o qual Neferure também estava deitada. Já com quase 3 meses de vida, a pequena Neferure já tinha crescido bastante. Ganhado bochechas fofas muito apertáveis e conseguia ficar de bruços com a cabeça erguida encarando Senenmut curiosa. Apesar de os olhos de Senenmut insistirem em admirar um pouco mais como Neferure já havia crescido desde da última vez que ele havia visto a, não mais do que duas semanas atrás na última reunião da temporada com Tutmósis II e Hatshepsut, ele tentava conceber aquele rapaz diante dele como sendo Anúbis.
Olhando visualmente rápido, não havia nada demais. Mas quanto mais Senenmut olhava, mas os pelos da nuca dele se arrepiaram de um jeito desconcertante que acabou por fazer o arquiteto desviar o olhar do deus e olhar para a rainha novamente.
— Por isso que aquela vez, — disse Senenmut — quase uns 3 meses atrás, quando sugeri um templo em…
— Sim! — disse Hatshepsut cortando ele imediatamente e olhando-o intensamente com olhos que diziam ‘não conte sobre a ideia do templo para ele’ — Por isso parecia que eu conhecia ele. Bem, eu conheço. Realmente conheço e não meras conversas enigmáticas em preces e dentro de templos.
Eles haviam concordado em não fazer o templo para Anúbis ainda, então talvez Hatshepsut não tinha desistido da ideia, se queria deixá-la ainda sem segredo, uma surpresa pelo visto. Considerando as memórias daquele dia, e aquela sensação estranha e intensa que sentia vindo do rapaz que agora havia perdido interesse nos dois e apertava levemente as duas bochechas de Neferure fazendo ela soltar uma risada gostosa, Senenmut achou que o óbvio era acreditar em Hatshepsut. Afinal, acima de tudo, fazia total sentido a rainha e também o faraó terem acesso especial aos deuses.
Todavia, depois de ele aceitar que aquele era mesmo Anúbis, no exato segundo seguinte Senenmut se tocou que era um mero plebeu e consequentemente não tinha direito de olhar tão displicente e diretamente assim para um deus. Notando isso, Senenmut imediatamente se jogou no chão, deu um leve susto em Hatshepsut devido ao movimento repentino. Estava pronto para abaixar a cabeça quase tocando o chão quando foi interrompido.
— Não precisa de tudo isso. — disse Anúbis revirando os olhos.
Senenmut parou levemente chocado e sem saber o que fazer, mas mesmo assim não ergueu os olhos, ficou fitando o chão até o momento que Hatshepsut se agachou ao seu lado e segurou sua mão.
— Levanta, Sen. — sussurrou ela — Não faça essa cena toda. Fala como se estivesse falando comigo e pronto.
— Qual versão de falando com você? — questionou ele olhando para ela — A versão em público?
— Bem, não dá pra chamar ele de Vossa Majestade. — sussurrou Hatshepsut — Mas também não vá chamar ele de Vossa Divindade ou algo do tipo. Você acha um jeito. Não se desespere tanto assim.
Apesar dos sussurros, Anúbis tinha ouvido tudo, mas fingiu que não havia ouvido nada. Ficou apenas dando atenção para a pequena Neferure que parecia bem mais interessante no momento. E mais do que interessante, claramente precisava de mais atenção do que os dois, especialmente quando, para desespero de Anúbis, ela começou a ficar visivelmente irritada de passar tanto tempo deitada de bruços. Como Hatshepsut ainda estava tentando convencer Senenmut de que ele não ia pegar fogo ali mesmo e ficar cego ou potencialmente morto se olhasse para Anúbis ou falasse sem formalidades com ele, sobrou para Anúbis pegar cuidadosamente a pequena garota e deixá-la sentada ao seu lado.
Neferure ainda não era muito profissional na arte de sentar. Parecia que a qualquer momento ela ia cair para algum lado ou para trás, mas ela não parecia ligar muito para isso ou para as mãos de Anúbis prontas para segurarem ela quando ela ameaçava cair. Depois de Neferure realmente quase cair para trás e Anúbis segurar ela, causando várias risadas na garota, que fizeram Anúbis sorrir levemente ao pensar que ela parecia gostar de ser uma gangorra humana, Hatshepsut e Senenmut se aproximaram. Contudo, apenas Hatshepsut sentou-se no tapete logo ao lado da filha, tomando para si o trabalho de manter Neferure sentada.
— Anúbis, esse é Senenmut. — disse ela enquanto se perguntava mentalmente se havia alguma necessidade de apresentar ele para qualquer mortal que fosse — Ele trabalha como arquiteto real.
— Aquele que você falou sobre mês passado… — disse Anúbis e, seja lá o que Hatshepsut falou sobre Senenmut, a memória disso fez a rainha corar fortemente.
— Ele... — respondeu Hatshepsut envergonhada — Vem, Senenmut, não fique de pé aí. É estranho. Estamos no chão por causa de Neferure apenas. Ela gosta de ficar aqui brincando.
Senenmut olhou para a boneca de pano e os animais de madeira espalhados ao redor de Neferure e, tenso, sentou-se também, mas levemente atrás de Hatshepsut, longe de Anúbis. Não era aquela cena que imaginava quando foi atrás da rainha, afinal como imaginar que ela estaria com a visita de um deus? Provavelmente Hatshepsut sabia disso, pois colocou uma mão sobre o joelho dele, carinhosamente movimentando o polegar em círculos.
— Então… — disse Hatshepsut impedindo que Neferure colocasse um gato de madeira na boca embora nenhum brinquedo fosse pequeno o suficiente para ser engolido — Não era bem assim que imaginava ter uma conversa importante dessas…
— Eu posso ir e voltar outro dia. — sugeriu Senenmut.
— Não… — respondeu Hatshepsut com um suspiro cansado — Você aqui me deixa mais calma. Mas… teria problema ele estar aqui, Anúbis?
— Não sei. Porquê me chamou? Não disse ainda… — respondeu ele parecendo genuinamente preocupado com ela, que parecia cansada — Parecia preocupada…
— Estou. — admitiu ela — Talvez até ansiosa também. Não consigo dormir já tem alguns dias. Minha cabeça está muito cheia de coisa e agora com os Núbios chegando…
— Calma… Núbios chegando? Aqui? — perguntou Senenmut chocado.
— É… — admitiu Hatshepsut com um suspiro — Quando Neferure estava nascendo, eu enviei uma carta em meu nome, não de meu irmão, para os núbios. Convidei eles para vir até Tebas o mais breve que fosse possível para discutirmos. Não fiz nenhuma promessa. Nem de segurança para eles, ou de conversas amigáveis, nada. Um convite seco e direto que seria loucura enviar para um povo que temos inimizades e conflitos sanguinários à séculos como os Núbios.
— E eles aceitaram? — perguntou Anúbis surpreso.
— Sim. — respondeu Hatshepsut — Enviaram um mensageiro na frente para informar que estão já a caminho. A tempestade de areia deve atrasá-los um pouco mas, creio que devem chegar nos próximos dias.
— Porquê chamou eles até aqui sob condições tão ruins? — perguntou Anúbis.
— Era pra provar uma teoria minha. — respondeu Hatshepsut — Não o jeito ideal mas, o melhor que achei. Mas também era uma teoria complicada de se provar. Uma teoria sobre… aquilo. Que você diz que não é a hora certa de falar sobre.
— É… realmente é melhor que Senenmut não esteja ouvindo então. — respondeu Anúbis.
— Tudo bem. — disse Senenmut falando pela primeira vez e prontamente aliviado de ter encontrando a oportunidade de respirar e processar direito os últimos acontecimentos — Posso levar a Neferure para me fazer companhia enquanto isso?
— Claro. Ela gosta de você. — respondeu Hatshepsut com um doce sorriso.
Levemente tenso, pois Neferure estava bem ao lado de Anúbis, Senenmut pegou a bebê nos braços e saiu do cômodo a passos apressados. Hatshepsut e Anúbis esperaram o arquiteto sair do cômodo e então Hatshepsut deixou um suspiro escapar por seus lábios antes de começar a falar.
— Eu sinceramente achava que não ia funcionar. Mas claro, apesar de eu não contar que eles viriam, será também bem útil poder negociar e conversar com os Núbios. Quero deixar nossa situação com eles mais estável considerando que fazem parte do Império. — disse Hatshepsut — Mas o que motivou tudo isso foi só uma sensação. Eu sentir quando algum deus está por perto é algo bem mais óbvio. Mas eu também estava suspeitando de algo mais quanto mais eu ajudava Tutmósis II com a parte diplomática e comercial do Império, e também pensando no trato que fiz com Tut quando casamos.
— O quê? — perguntou ele.
— Pode ser só eu pensando demais também mas… o teste com os Núbios torna isso pouco provável. — explicou Hatshepsut — Mas a sensação que eu tenho é de que parece muito fácil convencer os outros mesmo quando tem pouco para eles ganharem no acordo. Como no acordo com o Tut ou no convite para os Núbios. Esses são os dois exemplos mais extremos mas, considerando que meu pai liderou uma campanha militar muito forte, também tem certo peso conseguir uma certa paz com alguns outros povos vizinhos ou dominados. Claro, tenho que botar o peso do tamanho do nosso exército em comparação ao deles… ou a falta do deles geralmente… mas quando contam das guerras e faraós passados, não parecia tão fácil assim fazer os passos necessários para a paz. Não consigo parar de pensar sobre isso e sobre eu sentir os deuses por perto.
— Eu não sei dizer a lista completa do que você pode ou não fazer. Isso eu posso dizer. — comentou Anúbis — Mas admito que é estranho você ter conseguido convidar os Núbios tão facilmente até Tebas. O caminho até aqui para eles não é fácil por causa das cataratas e, como você disse, o exército egípcio está muito grande. Se você tivesse qualquer má intenção seria muito fácil matar todos eles em qualquer parte do caminho. Eles já estão bem conquistados, então já viram dias melhores. Precisamos da região deles para trazer a maior parte do ouro, e eles sabem disso.
— E também nunca foi do feitio deles só abaixar a cabeça pro Egito e pronto. — disse Hatshepsut.
— Se fosse assim, essa briga eterna já teria acabado há muito tempo. — comentou Anúbis — Acho que eles não vão se acalmar enquanto não conquistarem o Egito ou enquanto não sumirem de vez.
— Muitos povos somem? — perguntou ela curiosa.
— Às vezes… — respondeu ele dando de ombros — Talvez sumir não seja a melhor palavra, mas acho que o mais comum é que são conquistados por outro e se misturam tanto com o povo conquistador com o passar das gerações que acabam se tornando um.
— Como alguns dos estrangeiros que tentam ser egípcios. — comentou ela pensando nas famílias de outros povos que começavam a seguir a cultura, língua e religião egípcia. Depois de algumas gerações, ninguém falaria que a família não era egípcia.
— Mas, se for mesmo algum poder novo, é um muito bom. — disse Anúbis — Seja lá se ele for convencer os outros ou fazer paz…
— Você provavelmente já deve ter ouvido falar, ou melhor, se lembra de, Imhotep, certo? — perguntou Hatshepsut olhando para ele.
Ouvir o nome de Imhotep deixou Anúbis tenso, e Hatshepsut notou. Imhotep foi o arquiteto que projetou a pirâmide de Djoser, a primeira das pirâmides e primeira construção com pedras cortadas da história da humanidade, tantos séculos atrás, que era por acaso filho de Ptah e que tinha sido adorado a ponto de virar um deus. O manto da divindade fez Imhotep ser automaticamente expulso do Aaru e então ser abençoado, ou amaldiçoado dependendo do ponto de vista, com a imortalidade. A imortalidade de Imhotep começou instável, mas agora estava mais firme. Anúbis não duvidava nada que talvez Senenmut orasse para Imhotep nas obras mais difíceis.
Imhotep era mais do que só um arquiteto, não para menos que virou deus da arquitetura, matemática, medicina e patrono dos escribas. Eram várias atribuições com certeza. Mas como ele tinha um passado como mortal, ele não tinha um posto tão importante entre as rodinhas de conversa dos deuses apesar de com certeza ter um dia bem ocupado, mesmo que geralmente ajudando Thoth. Contudo, o que fez Anúbis ficar tenso, foi o detalhe de Imhotep ser filho de uma mortal e Ptah.
— Sim… lembro dele. — disse Anúbis pensando em quando havia sido a última vez que tinha visto Imhotep, não mais do que um ou dois anos com certeza. O que era bem pouco considerando o quão pouco Anúbis interagia com outros deuses.
— Você ficou tenso. — comentou ela com um sorriso — Eu estou chegando perto né?
— Por favor, não faça perguntas que eu não deveria responder. — disse Anúbis suspirando pesadamente — Não quero mentir pra você.
— Sabe que pode simplesmente ir embora sem responder nada né? Eu não tenho nem como te impedir se quiser ir embora — perguntou ela com um sorriso pensando que talvez, lá no fundo, ele queria contar toda a verdade pra ela. — Mas se quiser, é super bem vindo para continuar aqui e me responder se por acaso eu sou uma semideusa.
— Acho que eu vou de fato usar sua sugestão de ir embora. — respondeu Anúbis — Só vou vir visitar a Neferure agora.
— Não faça isso, por favor. — disse Hatshepsut rindo — Eu gosto de conversar com você e jogar algum jogo.
— Bem, conversar concordo, mas a parte dos jogos já estou reconsiderando. — respondeu ele — Estou torcendo pra Neferure crescer logo para ela me ajudar a ganhar.
— 2 contra 1 é injusto.
— Contra você? — perguntou Anúbis — Não. Contra você é deixar o jogo justo. Mas de fato vou embora antes que eu fale demais. Até porque seu amante está lá fora ansioso pra namorar, com certeza. E falando nisso, provavelmente minha esposa também estará lá no submundo.
— Uma dica então? — pediu ela — Ao menos para eu conseguir dormir tranquila a noite sem ficar pensando nisso sem parar. Sou semideusa ou não?
— Mais ou menos. E você não ouviu nada de mim. — disse Anúbis desaparecendo logo em seguida.
— “Mais ou menos” não vai melhorar minhas noites, muito pelo contrário. — resmungou Hatshepsut suspirando pesadamente mesmo sabendo que ele não estava mais lá para ouvir — O que quer dizer com “mais ou menos”?
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