Notas iniciais
olá! bem vindos a mais um cap! espero q se divirtam e gostem! ♥ :3 obrigada a todos q leem essa história enorme. tipo, sério. mto obrigada. tô bem triste esses ultimos dias e, ter alguém ainda lendo aqui me deixa um tiquinho mais feliz as vezes

Mas a garota se agarrou a ele.

Ela jurou pelos deuses, dizendo:

“Pelo nome do Sol, Hórus, (se eu for impedida) de mantê-lo comigo, não comerei nem beberei.”

Ela ia a ponto de morrer.

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

Contentando-se com a metade de informação que Anúbis deu, Hatshepsut seguiu o seu dia. Eventualmente, a tempestade de areia abaixou e, com isso, os núbios conseguiram continuar sua viagem até Tebas. Eles seguiam tensos. Qualquer vilarejo por onde eles passavam lhes dava a sensação de que algo ruim iria acontecer. Afinal de contas, ali era tecnicamente território inimigo e o exército egípcio naquela época era um dos maiores, se não o maior das redondezas.

A tensão dos Núbios ficava ainda maior quando eles passavam pelos fortes construídos às margens do Nilo justamente para impedir avanços de mercenários e soldados núbios. Mas, daquela vez, a pequena comitiva núbia era convidada da rainha e assim, os guardas carrancudos, alguns deles inclusive descendentes de núbios, deixaram eles passarem sem grandes problemas.

Apesar das descrenças no convite, os núbios chegaram em Tebas para falar não com o faraó, mas com a rainha, o que, apesar de tudo, alguns dos núbios achavam estranho. Fofocas corriam entre eles sobre como não era Tutmósis II quem realmente liderava as coisas no Egito, mas na verdade sua esposa, e eles ainda não sabiam como lidar com isso. Era normal as rainhas liderarem o Egito como rainha regente quando o faraó estava longe, na guerra, ou quando o faraó era o filho novo demais para subir ao trono, mas o caso não era nenhuma das duas situações.

Mesmo com as estranhezas, os núbios conversaram formalmente com Hatshepsut e ouviram a proposta da rainha. A ideia da rainha era ainda mais absurda que seu convite. Era como se ela quisesse esquecer séculos de inimizades e substituí-las por um mero acordo.

— As terras Núbias são nossas por direito agora. — dizia Hatshepsut — Posso lhes oferecer um pouco dos lucros e benefícios da extração do ouro, mas mais que isso, serem tratados como verdadeiros cidadãos egípcios.

— Não queremos ser um de vocês. — reclamou o líder da comitiva, um núbio alto e forte, de pele negra, cabelo curto e cacheado, com grandes brincos e pulseiras e roupas feitas de pele, um contraste enorme com a pequena rainha de pele levemente parda, longos cabelos ondulados e levemente acima do peso.

— Não precisam se considerar egípcios. — disse ela suspirando e negando com a cabeça — O que ofereci é usufruírem do mesmo tratamento e direitos que os egípcios usufruem. Imagino que não gostam de serem subjugados, saqueados e aprisionados com frequência.

— Irá nos forçar então a adorar e seguir o faraó e seus deuses? — perguntou o homem.

— Não não. — disse Hatshepsut suspirando — Claro que isso é o que se espera quando assimilamos estrangeiros no Egito mas, não, podem continuar sua organização, religião e costumes.

— Imagino que não vai incluir devolver meu filho que está a anos já aqui vivendo entre vocês. — disse o homem depois de alguns segundos de silêncio.

— Não. Desculpe. — disse Hatshepsut firmemente — Mas posso pensar nisso depois. Mas ele está bem, garanto. Pode visitar ele depois daqui. Acompanhado, claro.

— E o que exatamente quer oferecendo tudo isso? — perguntou o homem.

— Paz e ouro. — respondeu Hatshepsut dando de ombros como se fossem duas coisas extremamente simples — Parem de se rebelar e complicar a extração e transporte do ouro e poderão ter uma vida tranquila e justa. Confusões do tipo geralmente resultam em vidas perdidas para ambos os lados.

— Mas viveremos sob o controle do inimigo ainda assim. — criticou o homem com a expressão séria.

— Você que escolhe nos ver como inimigos. Para mim, são ex-vizinhos que agora fazem parte de meu povo. — respondeu Hatshepsut mantendo com tranquilidade a troca de olhar dura enquanto tranquilamente só cruzava as pernas elegantemente. Ela manteve esse olhar e pose pelos vários segundos de silêncio que se seguiram antes do homem responder qualquer coisa.

— Você…. é uma mulher esperta e sagaz. — disse o homem com uma única grossa risada meio incrédula — Seu marido deveria ter mais cuidado com você.

— Obrigada. — respondeu ela com um sorriso desafiador — Então, temos um acordo?

— Temos. — respondeu ele — Mas, desde que você de fato consiga manter sua parte do acordo. Também queremos os benefícios. Mas tenha um aviso de boa fé, no momento em que o Egito parecer fraco, não ficaremos quietos.

— Nunca achei que ficariam.

Aquela reunião toda acontecera num cômodo onde, de companhia extra, havia apenas dois guardas para cada líder. Contudo, os pelos da nuca de Hatshepsut diziam-lhe que havia mais alguém ouvindo a conversa atentamente embora seus olhos não vissem ninguém. Mas ali, logo na diagonal da rainha, encostado na parede de braços cruzados, estava Hórus. De braços cruzados e olhar sério, Hórus havia ouvido a reunião toda e, vendo agora ela acabar e partindo para assuntos bem mais triviais, o deus decidiu que não havia nada de interessante mais, e então foi embora.

O próximo destino do deus falcão foi o submundo. Especificamente a sala onde Anúbis calmamente executava as mumificações. Ao ver, com o canto do olho, Hórus entrando ali, Anúbis mal desviou o olhar do corpo a sua frente, no qual estava com a mão enfiada por um buraco na base do abdômen cuidadosamente retirando os órgãos.

— Que foi? — perguntou Anúbis depois de, com muito custo, conseguir retirar um pulmão completamente.

— Curto seco e grosso agora é? — perguntou Hórus olhando por um mero segundo pro pulmão sangrento recém retirado e então rapidamente desviando o olhar.

Enquanto colocava o pulmão para secar no natrão, Anúbis parou um pouco para pensar antes de olhar para Hórus finalmente.

— Alguma vez fui diferente com você? — perguntou Anúbis.

— Cala a boca. — resmungou Hórus cruzando os braços logo ao lado de Anúbis — Você, dizem Bes e Tawaret que é amigo da rainha.

— Talvez… — respondeu Anúbis limpando as mãos magicamente antes de apoiar-se em uma das mesas de pedra vazia.

— Ela… ela é esperta. Muito. — disse Hórus.

— Descobriu agora? — perguntou Anúbis — Demorou para notar porque estava concentrado em se preocupar por ela não ser homem?

— Estou tentando elogiar ela, para de dificultar isso pra mim! — reclamou Hórus.

Anúbis suspirou e revirou os olhos, mas não falou mais nada por uns segundos. Ficou apenas esperando Hórus se achar nas palavras.

— Ela sabe que meio que é filha de Amon-Rá? — perguntou Hórus.

— Ainda não. — respondeu Anúbis — Mas… o que exatamente você veio fazer aqui? Não veio até aqui só para falar bem dela. Não é do seu feitio.

— Vim ao confirmar que é ela quem lidera o Império e que daria um líder melhor que o irmão. — explicou Hórus.

— Também acho. — concordou Anúbis, sério — Está pensando num golpe pelo trono, por acaso?

— Não. Não. — respondeu Hórus — Nem sei se ela tem intenção de uma coisa dessas também. Quero observá-la mais quanto a isso. Mas… acha que Tutmósis II vai… viver muito?

— Não. — respondeu Anúbis suspirando — Está doente e sempre foi meio fraco. Mais uns 10 ou 15 anos e estaremos julgando a alma dele. Era isso que queria? A expectativa de vida dele?

— Sim. E dela também. — disse Hórus olhando para o primo esperando pela resposta.

— Lembre que a expectativa de vida não é certeira e fica alterando constantemente, a não ser que seja muito pequena. Quando está quase na hora é bem exata, ao menos em questões de saúde. Mas… bem… Ela ainda tem bastante tempo. — respondeu Anúbis — Uns 50 ou 60 anos talvez.

Satisfeito com aquela informação, Hórus afirmou com a cabeça brevemente e se pôs a pensar. Trocas forçadas de trono geralmente envolviam sangue, e sede de sangue era algo que realmente não dava para se ver em Hatshepsut, ainda mais contra o irmão que, apesar de tudo, ela parecia gostar. Talvez não gostar o suficiente para voltar a dormir com ele novamente, mas pelo menos o suficiente para não considerar assassinato, o que já era bastante.

Determinado a entender Hatshepsut melhor, Hórus passou a observá-la mais e, notando que ela parecia olhar constantemente para os lugares que ele se escondia, chegou a conclusão que ela sabia onde ele estava e passou a observá-la de longe ou indiretamente. Dessa forma, os meses se passaram e o jeito mais óbvio de ver o peso da passagem dos meses era na pequena Neferure. A garotinha havia crescido de um bebê que mal conseguia ficar sentado direito, para um bebê sapeca que corria desajeitadamente pelo palácio e encarava suas escadas como um desafio de escalada, embora não fosse um desafio frequentemente encarado já que poucos deixavam a princesa fazer tão perigosa aventura.

Certo dia, quando Neferure já juntava 2 anos de vida, Senenmut se sentia o homem mais sortudo do mundo. O sol estava ainda preguiçoso, afinal estava bem cedo, e Senenmut pensava na sua vida. Havia vindo de uma família humilde e camponesa, tivera a sorte de conseguir aprender a ler, escrever e receber uma educação melhor que o esperado para sua classe social. Considerando a relativamente rígida pirâmide social egípcia, só isso já era um milagre. Mas, como se só aquilo, e o cargo de arquiteto, já não fosse incrível o suficiente, lá estava Senenmut acordando numa bela manhã, numa elegante cama, com a rainha desnuda ao seu lado, assim como ele também estava desnudo.

Sob o olhar carinhoso, e surpreso com a própria sorte, de Senenmut, Hatshepsut se remexeu sonolentamente. Infelizmente, ele não poderia ficar muito tempo mais ali. Podia ser o amante da rainha, a fofoca podia estar se espalhando pelo palácio também, mas tinha que manter um mínimo de discrição, sem falar que apesar de passar várias horas no palácio, não vivia ali. Logo, o mais lento e silenciosamente que conseguia, Senenmut tentou se levantar da cama sem acordar Hatshepsut. Mas quando a mão dela lhe segurou o pulso, viu que tinha falhado.

— Já vai? — perguntou ela com voz sonolenta.

— É melhor. — respondeu ele suspirando e olhando para ela com um sorriso triste — Daqui a pouco Neferure vai acordar e também, estarei aqui mais tarde para a festa, de toda forma.

— Maldita festa. — reclamou ela sentando-se.

— É por causa dela que tem estado tão quieta nos últimos dias? — perguntou ele.

— Ficou óbvio assim? — questionou ela rindo e então deixando um suspiro escapar pelos lábios — Não por ela em si mas… pelo casamento de meu irmão. Já me irrita o suficiente ele poder se casar com Iset enquanto eu não posso casar com você. Mas… não sei… estou com um mal pressentimento.

— Mal pressentimento do casamento? — perguntou ele chegando perto dela e acariciando-lhe a bochecha — O que acha que vai acontecer?

— Iset já não gosta de mim, tenho essa sensação. — respondeu ela fechando os olhos e segurando docemente a mão que ele lhe acariciava a bochecha — Mas… não sei. Não é uma sensação quanto a hoje nem de toda a celebração do casamento em si. Mas do que essa união possa trazer.

— Você é a rainha. — lembrou Senenmut — É extremamente inteligente e todos conseguem ver isso. Apostaria dizer que já notaram que é mais capaz e influente que seu irmão e que muita coisa é planejamento seu e não dele. É amiga de deuses e sua voz perto deles tem mais impacto do que a de meros plebeus como eu. Se tem alguém que pode lidar com qualquer problema que uma segunda esposa possa criar, é você.

— Obrigada. — respondeu ela com um pequeno sorriso e presenteando o arquiteto com um breve selinho.

Tal como havia falado, Senenmut logo foi embora para a sua própria casa, onde os três irmãos e duas irmãs ainda mal acreditavam que o irmão era amante da rainha. Rainha essa que, apesar de tudo, também tinha seus afazeres, mesmo que fosse o dia do casamento do irmão… e marido. Depois de comer, se arrumar e passar um tempo com Neferure, a rainha deixou o palácio para trás e foi direto para o templo de Karnak.

O templo de Karnak já havia mudado e sido reformado, a beleza e o tamanho dele só aumentavam. As cores das paredes gritavam fortes e belas no fundo branco ajudando a sentir a energia sagrada e impactante do lugar conforme a rainha, acompanhada de guardas, entrava cada vez mais profundamente no templo. Hatshepsut sentia o cheiro doce dos incensos quando cruzou o último portal para a parte onde os guardas não poderiam lhe acompanhar.

Uma música doce e bela que tomava conta do corpo da rainha como se fosse celestial, podia ser ouvida por de trás da parede quando a rainha parou diante da estatueta de ouro puro de Amon-Rá. A estatueta, apoiada sobre um bloco de pedra, estava rodeada das mais coloridas flores e de incenso. Poucos, como os sacerdotes e o faraó, podiam ir tão profundamente no templo. E bem, ela era uma sumo-sacerdotisa também.

Diante da estatueta de Amon-Rá ela se ajoelhou, se curvou, e erguendo as mãos levemente, ela silenciosamente rezou por respostas para suas suspeitas e perguntas, e também por proteção, tal como havia feito todo mês naquele exato lugar. E assim como todo mês, ela sentiu que suas preces estavam sendo ouvidas, pois sentia uma energia enorme. Se fosse chutar, diria que Amon-Rá estava ali. Mas, assim como todas as outras vezes, ele nada respondeu e, decepcionada, a rainha voltou para o palácio. Mas assim como a rainha, Amon-Rá também deixou Karnak para trás.

O destino de Amon-Rá era um pequeno oásis no meio da imensidão do deserto. Nesse oásis, encostada contra o tronco de uma alta tamareira, estava Anput. Em seus braços, estava um alaúde rústico mas delicadamente feito, o qual seus dedos dedilhavam as cordas criando uma doce melodia que era acompanhada por sua voz. Era uma música tranquila e tão relaxante que, ao lado dela, deitado aproveitando a sombra de uma segunda tamareira, estava Anúbis.

Era claramente um momento para apenas relaxar e apreciar aquela brisa que tocava seus rostos levemente e parecia pedir por mais música. Fazer “nada” também era bem vindo, mesmo quando você tinha apenas alguns minutos livres antes de ter que trabalhar novamente, que era o caso de Anúbis, que agora abria os olhos e admirava Anput, completamente relaxado, enquanto ela cantava.

Anúbis suspirou profundamente e virou-se de lado, para Anput, usando um braço de travesseiro enquanto apoiava a mão oposta sobre a coxa de Anput, acabando por gerar um sorriso doce no rosto dela. Com a música continuando, eles se olharam por um segundo antes de um clarão aparecer repentinamente atrás deles atrapalhando o momento. Anúbis sentou-se de uma vez e Anput interrompeu sua música sem pensar duas vezes. Então, quando eles olharam para trás para ver quem era, viram Amon-Rá.

— Desculpe interromper o momento de relaxamemento. — disse Amon-Rá.

— Aconteceu alguma coisa, Senhor Amon-Rá? — perguntou Anúbis preocupado ficando de pé, assim como Anput, estranhando a aparição de Amon-Rá, que dificilmente falava com eles, ou com a maioria dos outros deuses.

— Ah não… está tudo bem. — disse Amon-Rá olhando pro horizonte por tempo o suficiente para Anúbis e Anput se entreolharem, estranharem o longo silêncio repentino e se perguntarem silenciosamente se deveriam perguntar algo, mas eventualmente Amon-Rá continuou — Bem, de certa forma sim. Mas nada de muito preocupante, mas ainda algo que gostaria de falar com vocês.

— Claro… — disse Anput um pouco tensa por estar falando logo com Amon-Rá — O que quiser, Senhor Amon-Rá.

— Hatshepsut. — disse Amon-Rá prontamente — Pelo o que entendi, vocês falam com ela, certo?

— Mais ele do que eu… — disse Anput olhando para Anúbis.

— Aconteceu algo com Hatshepsut? — perguntou Anúbis.

— Ela vai todo mês à Karnak, às vezes duas vezes por mês, pedir por respostas sobre quem é. — explicou Amon-Rá, com um sorriso, arqueando uma sobrancelha para Anúbis como se soubesse que ele tinha falado demais, mas ao menos não o suficiente para deixá-lo irritado — Entendo que é difícil ficar ansiando por respostas sobre si mesmo, mas ainda não é a melhor hora.

— Quando seria a melhor hora então? — perguntou Anúbis ganhando um aperto de mão de Anput alertando-o para ser um pouco mais educado e menos direto.

— Esse recado que gostaria que passassem para ela. — respondeu Amon-Rá — A melhor hora, será quando uma grande tristeza a assolar e esta for seguida por uma sensação de injustiça. Quando essa hora chegar, peça para que volte à Karnak e falarei diretamente com ela.

— Quando uma grande tristeza a assolar e esta for seguida por uma sensação de injustiça? — repetiu Anúbis pensando naquela frase e também em como todos os deuses tinham uma mania de fazer tudo em charadas — Nekhbet fez uma profecia especificamente sobre Hatshepsut? Isso foi muito específico.

— É melhor que menos deuses saibam a resposta dessa pergunta. Então não a responderei. — respondeu Amon-Rá — Quer eu diga que sim, quer eu diga que não, problemas podem surgir. Então… apenas entregue a mensagem para ela por favor, sim? Não quero que ela sinta que não estou ouvindo, mas também não quero perder uma aparição triunfal na hora certa.

Dando uma piscadela bem humorada, Amon-Rá desapareceu do mesmo jeito impactante que tinha aparecido. Os dois fecharam por instinto os olhos e, quando abriram novamente, estavam sozinhos com o pequeno oásis.

— Ele ainda vai deixar todo mundo cego… — reclamou Anput esfregando o olho direito — Quer já ir para Hatshepsut?

— Hoje Tutmósis II se casa com a segunda esposa… — disse Anúbis.

— Melhor ainda. — respondeu Anput — Ela vai precisar de algo mais interessante no que pensar.

Juntos, os dois foram até o palácio num passe de mágica. Nos jardins do palácio, aproveitando as últimas horas de calmaria enquanto os serviçais faziam o trabalho pesado, estava Tutmósis II. Em seu colo, estava Neferure, crescida e inteligente como uma criança de 2 anos e com o cabelo preso num tufinho de cabelo ondulado na lateral da cabeça. Ela esticava o pequeno braço tentando alcançar as tâmaras no alto de uma tamareira, igualmente incansável ao pai.

— Pega! Tâmala! — pedia Neferure — Lá no alto, pa!

— Neferure… — disse Tutmósis II suspirando olhando para o topo da enorme tamareira — É muito alto pro papai também. Para qualquer um na verdade.

— Muito alto? — repetiu a garota.

— Sim. — respondeu ele — Que tal… uma melancia? Posso pedir uma deliciosa fatia de melancia. Pode ser?

— Pode. Me.. Melanocia pode. — respondeu Neferure.

Ouvindo passos atrás de si, Tutmósis II olhou para trás e viu a irmã chegando. Neferure também viu e prontamente tentou sair do colo do pai, que não teve outra opção a não ser colocá-la no chão. A garotinha então saiu correndo alegre em direção aos braços da mãe mostrando que tinha sim uma favorita.

— MAMÃAAAAAA — gritou Neferure até ser recebida pelos braços de Hatshepsut.

— Oi meu amor. -disse Hatshepsut rindo e levantando-se com a menina no colo — Estava se divertindo com o papai?

— Papai pedir me..me.. melanocia. — explicou Neferure — Tamala muito alto.

— Ah sim, as tâmaras ficam mesmo muito altas. — disse Hatshepsut — Mas a mamãe acha melancia mais gostosa mesmo.

— Vou pedir melancia para ela e então ver como estão os preparativos, e Iset. — disse Tutmósis II.

— Veja. — disse Hatshepsut — Afinal se qualquer coisa estiver errada ela pode acabar botando a culpa em mim.

— Irmã… — resmungou Tutmósis soltando um pesado suspiro — É coisa da sua cabeça essa de Iset não gostar de você. E eu já expliquei para ela que nosso casamento é apenas por aparência e para herdeiros.

— Se você acha. — disse Hatshepsut revirando o olhar — Ela não gosta de mim e nem confia em mim e, por mim, ainda bem que temos quartos separados e distantes. Ainda bem que o palácio é enorme.

— Pa! Melanocia! — insistiu Neferure.

— Tá.Tá. — apressou-se em dizer o faraó virando as costas para as duas — Vou pedir para trazerem.

Com a garota no colo e sozinha no jardim, Hatshepsut foi até um arbusto de flores. Achando as pequenas flores muito belas, a rainha deixou a pequena princesa de pé no chão e se agachou ao seu lado antes de arrancar uma pequena flor. Com delicadeza, ela prendeu a flor no tufinho de cabelo amarrado delicadamente e sorriu com a imagem.

— Neferure, você gosta da Iset? — perguntou Hatshepsut gentilmente enquanto sentia que não estava mais sozinha, e que sua nova companhia não era mortal — Ela é legal com você?

— Chata. — respondeu Neferure negando com a cabeça enquanto uma mão tentava tocar a flor posta em seu cabelo.

— Viu? Não é só impressão minha. — disse Hatshepsut olhando para trás, para os recém chegados e, tal como esperava, encontrou Anúbis e Anput ali.

— Nunca disse que era. — respondeu Anúbis.

— Os outros dizem. — resmungou Hatshepsut suspirando pesadamente e então se levantando enquanto Neferure corria para os dois recém chegados — Principalmente meu irmão.

— Óia! Óia! — falava a menina olhando para Anúbis com a mão no tufinho de cabelo — Fô! Fô da Nefelule.

— É. Estou vendo. — respondeu Anúbis — É uma flor muito bonita.

— Você gosta de flores, Neferure? — perguntou Anput se abaixando na altura da criança, que respondeu afirmando com a cabeça e um doce sorriso.

— Vieram para a festa? — perguntou a rainha — Está um pouco cedo ainda.

— Não. — respondeu Anúbis — Vou ter que passar a noite inteira no submundo julgando os mortos. Não teria como. Viemos passar uma mensagem de Amon-Rá.

Hatshepsut ficou subitamente atenta. A conversa leviana agora parecia pesada e ela já sentia seu coração ficando empolgado pela ansiedade de talvez finalmente ter a resposta para suas perguntas.

— Ele pediu para dizer que a hora certa é “Quando uma grande tristeza a assolar e esta for seguida por uma sensação de injustiça”. — disse Anúbis dando de ombros.

A rainha olhou para ele estática por alguns segundos enquanto aceitava as palavras dentro de si, e então ficou séria e talvez até um pouco irritada.

— Isso não é exatamente uma resposta. — reclamou ela — Que grande tristeza vai ser essa? E essa sensação de injustiça?

— Eu sei, são irritantes essas dicas como enigma. — disse Anúbis suspirando — Mas seus chutes são tão bons quanto os meus, provavelmente.

— Tenho certeza que quando essas coisas acontecerem, você vai notar. — disse Anput — E quando essa hora chegar, vá até Karnak novamente.

— Vou lembrar disso. — garantiu a rainha.

Notas finais
**** REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Estrangeiros no Egito - https://www.ucl.ac.uk/museums-static/digitalegypt/foreignrelations/pictures.html Estrangeiros no Egito 2 - https://trace.tennessee.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://www.google.com/&httpsredir=1&article=1013&context=utk_interstp4 Instrumentos musicais - https://www.worldhistory.org/article/1075/music--dance-in-ancient-egypt/#:~:text=There%20were%20percussion%20instruments%20(drums,%2C%20oboe%2C%20and%20trumpet). Instrumentos Musicais - https://rawi-magazine.com/articles/ancientmusic/ *************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Não quero que entendam a cena da Hat com os Núbios como ela ou os egípcios sendo racistas. Os egípcios, assim como quase todas (ou todas kkk) as civilizações antigas, eram extremamente xenófobos. Na maior parte delas (falando maior parte pra n generalizar, pq na real eu ainda n vi nenhuma q não fosse assim) estrangeiros são vistos como seres inferiores e muitas vezes nem mesmo como pessoas. Até onde se sabe, não se tem tanta distinção quanto a cor de pele no Egito. Tipo, ATÉ ONDE EU CONSEGUI LER E ATÉ ONDE SABE-SE, óbvio que viam as diferenças de cor de pele e tal, mas era tão irrelevante quanto a cor do cabelo ou dos olhos de alguém. Tanto que tem pouquíssimos textos falando sobre cor de pele. Racismo chegando no Egito, ATÉ ONDE EU VI ATÉ AGORA, tem um pouco do dedo dos Gregos (Europeu fazendo merda como sempre). Nada a ver mas, alguém já parou pra pensar no tanto de anatomia que o Anúbis sabe? kkk