A Morte Das Areias do Saara
53 Os 7 portões pro submundo
Notas iniciais

Descobri meu rosto e descobri que era uma cobra que estava por vir. Tinha trinta côvados de comprimento. A barba tinha mais de dois côvados. Seu corpo estava coberto com ouro. Suas sobrancelhas eram lápis-lazúli reais. Ele estava curvado na frente. Ele abriu a boca para mim enquanto eu estava de barriga na presença dele. Ele me disse: "Quem te trouxe? Quem te trouxe, plebeu, quem te trouxe? Se você não me disser quem te trouxe a esta ilha, farei com que você se conheça, sendo você uma cinza que se tornou como alguém que é não visto."
~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”
O cômodo vazio de Imhotep parecia indicar que ali começava um problema que com certeza viria seguido de dores de cabeça. Os três deuses egípcios pensavam tentando ao máximo manter a calma enquanto Gilgamesh, Enkidu e Shullat os olhavam atrás de alguma informação ou sinal do que fazer. A mão do sacerdote Shullat estaria tremendo mais se não fosse o fato de ele estar escondendo esse mero detalhe ao forçar fechar sua mão como um punho. Afinal, ele tinha que mostrar eficiência diante de seu rei que já rangia os dentes de raiva ao seu lado.
Enquanto isso, nem Anúbis nem Seshat haviam dito em voz alta o que eles pensavam. Os três deuses se entreolharam e uma olhada rápida para Anput fez com que Anúbis e Seshat chegassem a conclusão que eram os únicos a suspeitar que aquilo estaria ligado de alguma forma à algum deus Sumério pelo menos. Afinal, por mais inteligente e capaz que Imhotep fosse, ali haviam detalhes que não seriam possíveis para um humano qualquer.
— Diz que ele estava em reunião com você e sumiu? — perguntava Anput olhando para Gilgamesh.
— Sim. Tive que sair e quando voltei ele não estava mais na sala. — confirmou Gilgamesh — Já perguntei para todos os serviçais que encontrei pelo caminho.
— Seria estranho considerar que ele possa simplesmente ter saído para passear pela cidade ou algo do tipo achando que a reunião tivesse acabado? — questionou Shullat — Geralmente reuniões começam e terminam sem interrupções do tipo, não?
— Além de isso não ser do feitio dele, também tem a questão de que…. Bem… — disse Anúbis suspirando pesadamente e cruzando os braços — Quase tudo nesse quarto dá a impressão de que ele está aqui.
— Diz "quase" porque ele não está de fato aqui? — perguntou Seshat — Ou tem algo que mais?
— Com todo o respeito, — disse Shullat — se parece que ele está aqui, ele pode estar em algum lugar que não esteja em nossa vista?
— Tipo… se escondendo? — perguntou Enkidu revirando os olhos com a ideia que achava ridícula.
— Não é tão simples. — disse Anubis — A sensação de longe é que a alma dele está aqui. Mais precisamente naquela cadeira…. Mas quando se chega perto…. Não há simplesmente nada e essa sensação se torna mais fraca, mais falsa. E além de aqui, a alma dele não parece estar em nenhum lugar, ao menos nenhum lugar do mundo dos vivos. E eu teria notado se ele tivesse morrido. E também….
Pensando melhor, Anúbis parou de dizer o que pensava e deixou a frase incompleta no ar pois achou melhor guardar a outra parte dela só para si. Anput olhou para ele curiosa sem entender a interrupção da fala e por isso perguntou:
— O que?
— Nada. — respondeu Anúbis desviando do assunto e Anput bem notou isso e por isso não questionou mais.
— Trabalhamos então com o cenário que ele foi sequestrado. — disse Seshat ficando já estressada e pressionando as têmporas com as mãos.
— Isso… isso é ruim… — disse Shullat atestando o óbvio esfregando uma mão na outra.
— Sequestrado em meu palácio. — disse Gilgamesh rangendo os dentes e então, com raiva, dando um soco na parede que foi tão forte que se moldou a forma da mão dele servindo como um sinal que não deveria-se esquecer que Gilgamesh era um semideus.
— Que bosta em, Gilgamesh? É assim que se fica com uma fama ruim. — disse Enkidu.
— Questionarei a todos. Mandarei todos os serviçais em busca de Imhotep. E quando achar, farei questão de degolar o culpado. — falou Gilgamesh com raiva batendo os pés com força no chão ao sair do cômodo seguido de Enkidu.
Com pequenos passinhos apressados e uma expressão de preocupação, Shullat seguiu os dois homens mas não sem antes dar uma breve reverência para os três deuses. Cada passo que os três humanos davam para fora do cômodo era friamente observado por Seshat que pensava sobre toda a situação. Apesar eventualmente os três humanos já longe, Seshat ainda achou uma boa ideia usar uma pequena mágica para impedir de qualquer som da conversa que teria com Anúbis e Anput sair daquele recinto.
— Acha que eles estão envolvidos de alguma forma também? — perguntou Seshat trocando para o idioma egípcio ao julgar o cômodo seguro para conversas perigosas.
— Os humanos? — perguntou Anput — Já estão suspeitando deles?
— Quanto a eles eu não sei... — disse Anúbis — Mas não duvido nada de algum dos deuses ter feito isso. Aqui tem magia que não parece ser possível humanos fazerem. Não a ponto de nos enganar pelo menos.
— Isso sem dúvida é estranho mas… o que era que você ia falar antes? — perguntou Anput olhando para Anúbis — Aquela hora que você parou de falar na metade.
— Seja lá o que aconteceu com Imhotep, tentaram fazer parecer que ele ainda está aqui mas… — disse Anúbis — além de ele óbviamente não estar aqui, também não tem o cheiro dele nem nada. Foi uma tentativa um tanto feita pela metade de fazer parecer que ele está aqui.
— E se parece que ele não está no mundo dos vivos… estava pensando… — disse Seshat — O que acham de deixar Gilgamesh e os outros procurando por aqui e nós vamos até Nippur? Podemos procurar por lá e perguntar pra Enlil e os outros. Existe a chance de ele estar em Nippur certo?
— Se é que eles vão de fato responder se estiverem envolvidos nisso. — disse Anúbis — Mas podemos ao menos procurar por lá.
— Mas tem certeza que eles estão no meio disso? — perguntou Anput — Utu disse quando nos recebeu aquele dia de que eles não planejavam nenhuma traição ou coisas do tipo. E Utu não pode mentir.
— Nenhuma que ele saiba ao menos provavelmente. — disse Anúbis.
Com muita facilidade os três deuses deixaram a cidade de Uruk para trás e foram para Nippur, onde os deuses sumérios moravam. Apesar da grande preocupação que já crescia no coração dos três deuses, Nippur parecia estar calma e tranquila. O leve burburinho e o clima mais frio da noite deixavam o lugar com uma leveza quase palpável que se espalhava pelas flores, cheias de cor, que rodeavam a cidade divina. Para os deuses sumérios parecia apenas mais um dia e nenhum parecia saber ainda do aparente sequestro de Imhotep.
Os três egípcios entraram com passos apressados no palácio principal onde Enlil morava mal registrando por quais deuses haviam passado pelo caminho até lá. O palácio de Enlil, chamado de Ekur, ficava bem no centro da cidade de Nippur e, acredita-se, havia sido construído pelo próprio Enlil. Ele era mais do que a casa do deus também, era onde os deuses costumavam se reunir quando tinham que discutir alguma coisa e, não menos importante, onde as leis dos deuses eram definidas pelo seu principal morador. Assim, não era de se surpreender que Ekur fosse uma grande estrutura composta de vários templos, salas e armazéns. Era sem dúvida a construção mais exagerada de Nippur inteira.
Quanto ao deus Enlil, ele tranquilamente revirava meia dúzia de placas com coisas escritas lendo-as, murmurando e pensando sob o olhar atento de Inanna.
— Oh. Anúbis, Anput. — disse Enlil se levantando de sua cadeira — Não achei que os veria ainda hoje. Nem que veria Seshat novamente hoje por mais tarde que seja. Fiquei sabendo que foram conhecer a cidade de Ur.
— Desculpe cortar formalidades, mas por acaso viu Imhotep? — perguntou Seshat enquanto Anúbis deixa o olhar vagar pelos arredores como se tentasse sentir ou ver se o arquiteto estava por ali.
— Imhotep? — perguntou Enlil sem entender — Achei que ele estivesse em Uruk em negociações com Gilgamesh, não? Bem… está tarde, pode ser que esteja jantando, se preparando para dormir ou aproveitando a cidade.
Descartando as sugestões de Enlil e usando palavras apressadas, Seshat e Anput prontamente explicaram a situação preocupante que havia surgido. Enquanto, quieto e pensativo, Anúbis já decidia qual era o próximo lugar que iriam procurar por Imhotep.
— Isso é inadmissível! — reclamou Enlil aparentemente revoltado com a situação mostrando seriedade no olhar mas sem ficar raivoso e explosivo como Gilgamesh ficou — São nossos convidados e deveriam ser tratados como tal.
— Não acham que Gilgamesh está envolvido? — perguntou Inanna — Ele sempre esteve bem interessado no que Imhotep era capaz de fazer.
— Pode até ser que esteja envolvido, mas teria como se for sozinho. Não sei o quão bom de magia Gilgamesh é, ou se sequer sabe magia, mas o que vimos nos aposentos destinados a Imhotep indicam…. — disse Anput parando por alguns segundos para medir suas palavras. Não lhe pareceu sábio acabar acusando tão diretamente os deuses sumérios — ...alguém extremamente conhecedor de mágica.
— Irei pessoalmente atrás da solução desse problema e questionarei demais deuses, inclusive os humanos que sei que sabem uma magia ou outra. — disse Enlil — Não devemos deixar essa situação se tornar um problema entre nossos dois impérios. Ambos lucraremos mais com uma união do que com uma guerra.
— Continuarão a procurar por aí? — perguntou Inanna.
— Sim. — confirmou Anúbis — Tem lugares que eu gostaria de checar.
— Posso acompanhá-los se aceitarem a oferta. — disse Inanna — Tanto para ajudar como para talvez guiá-los por lugares que não conheçam.
— Será um prazer. — disse Seshat.
— Você está com cara de que já sabe para onde ir agora. — disse Anput olhando para Anúbis enquanto Enlil já começava a discutir o problema com a esposa Ninlil e dando várias ordens para ela ir atrás de vários deuses diferentes — Em que está pensando?
— Se Imhotep não parece estar no mundo dos vivos, — disse Anúbis — vamos checar o mundo dos mortos. Estava pensando em irmos para o Kur novamente.
— Irei procurar mais por aqui… Eu… Não gosto muito da ideia de ir até lá dentro. Só o pouquinho que esperei vocês do lado de fora já deu pra sentir como aquele lugar dá arrepios. — disse Seshat se tremendo levemente e esfregando o braço arrepiada — Ele parece ser pior do que o Duat. Ou talvez eu só esteja já mais acostumada com o Duat.
Assim, deixando Seshat para trás para que ela pudesse continuar procurando por Nippur e o resto do mundo dos vivos provavelmente junto com Enlil, Anúbis, Anput e Inanna foram para o Kur. Praticamente com um piscar de olhos os três deuses chegaram diante da caverna que levava ao submundo sumério. O horizonte estava completamente diferente do que quando eles haviam o visitado mais cedo. A noite já tinha caído e isso tornava não só o ambiente mais frio, como também mudava a paisagem que podiam ver ali tão alto. Se não fosse a situação tão preocupante, os dois deuses egípcios com certeza iriam gostar de aproveitar para ficar alguns minutos assim tão perto das estrelas como eles estavam.
Os três deuses entraram na caverna poeirenta e que parecia mais escura e tenebrosa do que qualquer outra caverna nas redondezas. A cada passo dado eles desciam cada vez mais profundamente até que, assim como na primeira visita deles, eles chegaram no primeiro dos portões do Kur. Dessa vez, ao contrário da primeira, esse portão estava fechado mas, mais uma vez, estava o guardião do portão diante desse, o deus Neti.
— Inanna? — perguntou Neti perdido olhando para a deusa e para os dois egípcios.
— Neti, — disse Anúbis — pode nos deixar passar?
— Ahm… desculpe senhor Anúbis mas… só posso deixar passar se tiverem permissão da senhora Ereshkigal. — disse Neti.
— Estivemos aqui mais cedo. — disse Anput.
— Sim. Com Ereshkigal. — explicou Neti — Qualquer um que não pertence ao Kur deve ter a permissão dela sempre para entrar e sair. Preferencialmente acompanhado dela inclusive. Caso contrário, terei que remover uma parcela de poder ou proteção da pessoa a cada portal atravessado. É o preço que se paga a cada portão.
— Uma parcela de poder ou proteção por portão? — repetiu Anúbis enquanto pesava as palavras — São sete portões, certo?
— Sim. — confirmou Neti — Poderão ter cada uma dessas coisas de volta se saírem do Kur vivos.
— "Vivos"? — disse Anubis achando estranho aquela sugestão e começando a suspeitar de Ereshkigal — Ereshkigal nos atacaria por acaso?
— Não sei…. — disse Neti dando de ombros — Às vezes ela fica de mal humor e ataca quem entra no Kur sem ela saber.
— Somos imortais… — lembrou Anput — Vai ficar tudo bem.
— Será que foi ela quem sequestrou o Imhotep? — perguntou Inanna.
— Se quiserem apostar nas chances de entrar e sair…. — disse Neti dando de ombros — Eu não apostaria. Mas também, eu sou só eu. Um mero deus menor. E é bem de conhecimento geral que por mais imortais que sejamos, é possível matar um deus.
— Por que não simplesmente pergunta pra ela se podemos entrar? — questionou Anúbis — Assim não será forçado a pegar tanto a cada portão.
— P-Porque…. Porque… Eu…. — gaguejou Neti aparentando estar um tanto inseguro quanto a o que dizer — eu tenho medo dela. Não quero a interromper nem nada. Dou valor ao meu pescoço. Eu sou um mero deus menor. Um dia ruim pra ela é tudo que ela precisa pra perder a paciência e me fazer morrer de vez.
— Eu diria que é um argumento plausível. — disse Inanna suspirando — Ereshkigal pode ser bem sem misericórdia. Mas tem certeza que querem entrar mesmo tendo que pagar esse preço todo a cada portão?
— E tem outro jeito? — perguntou Anput.
Os deuses pararam e consideraram as opções. Era um fato que tinham que checar o Kur. Inanna até sugeriu que talvez devessem esperar Ereshkigal sair para pedir para ela diretamente, mas Anúbis e Anput temiam o que podia acontecer com Imhotep se demorassem demais.
—É tanto assim que se retira a cada portão?- perguntou Anput.
— Não tanto assim se considerar o todo. — explicou Neti — Mas como são 7 portões…
— Damos um jeito lá. — disse Anúbis.
— Estamos em três. Mas vou torcer para ela não ter nada a ver com isso e não termos que nos preocupar com esses pagamentos a cada portão mesmo já lá dentro. — disse Anput.
— Vocês tem certeza? — perguntou Inanna com uma expressão de preocupação.
Como resposta, Anúbis afirmou com a cabeça e Neti abriu o portão magicamente com um mero gesto de sua mão. Mas só por o portão estar aberto, não queria dizer que eles estam totalmente bem-vindos. Anúbis foi o primeiro a dar os poucos passos que o separava do outro lado do portão e, ao atravessá-lo, ele pode sentir como se algo fosse sugado de si. Nem de longe podia dizer que era 1/7 de seu poder, mas ainda era alguma coisa.
— Como se sente? — perguntou Anput.
— Estranho. — respondeu Anúbis — Mas não foi muita coisa ao menos. Espero conseguir falar isso depois de passar por todos os sete portões.
— Vocês são doidos! — disse Inanna — Deveriam esperar Ereshkigal ou outro deus saírem daí.
— Não sabemos se temos tempo para isso. — enfatizou Anput passando também pelo portal.
A mesma sensação passou por Anput quando ela atravessou o portal. Ao senti-la, ela olhou para as mãos instintivamente e sem nenhuma razão muito profunda. Meio absorta em sua leve surpresa pela sensação, ela não notou o olhar de preocupação que Anúbis lhe lançava. Felizmente, ele não teve que se preocupar por muito tempo, pois logo ela levantou o olhar ceia de determinação. Tal olhar foi correspondido por um pequeno sorriso de Anúbis.
Os dois deuses olharam então para Inanna que havia cruzado os braços e, com uma expressão de dúvida, trocava o peso do corpo de um lado para o outro. A deusa suméria estava claramente ainda pensando no que fazer.
— Não vai junto? Está tudo bem se não quiser. — avisou Anúbis.
— E-Eu não sei. Vou pensar. — disse Inanna soltando um pesado suspiro — Podem ir sem mim. Estarei atrás de vocês se decidir entrar também.
Aceitando aquela resposta como sendo o suficiente, Anúbis e Anput seguiram a descida até o Kur. Agora sem a presença de Ereshkigal os acompanhando, aquela descida parecia ainda mais tenebrosa. Não só a cada portão que o casal atravessava eles sentiam mais uma parcela de seus poderes indo embora, como também sentiam o frio arrepiar até mesmo a alma.
Depois de passar pelo penúltimo portão, Anúbis subitamente parou. Ao notar, Anput também parou e olhou para ele curiosa quanto a o que levou-o a fazer isso. Anput não queria mostrar, mas uma preocupação maior ardia dentro de si. Depois de passar por tantos portões, ela não se sentia mais tão confiante como se sentiu depois do primeiro. Ela sentia como se não tivesse mais tanto poder assim restando para si. Contudo, essa era uma preocupação que não era partilhada por Anúbis, por mais que ele sentisse a diferença.
— O que foi? — perguntou ela.
— Está meio longe a sensação mas… — disse Anúbis — acho que Imhotep está aqui mesmo.
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