A Morte Das Areias do Saara
75 O segundo à pagar
Notas iniciais

Ele abriu o Livro e leu uma página, e imediatamente encantou o céu, a terra, o abismo, as montanhas e o mar, e compreendeu a linguagem dos pássaros, peixes e animais. Ele leu a segunda página e viu o sol brilhando no céu, com a lua cheia e as estrelas, e viu as grandes formas dos próprios deuses; e tão forte era a magia que os peixes surgiram das profundezas mais escuras do mar. Então ele sabia que o que o sacerdote havia lhe contado era verdade.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Desde da morte de Merab, alguns dias se passaram. Dias o suficiente para Ahura e Minkhaf voltarem para Mênfis em busca do carinho e suporte que poderiam encontrar nos braços dos familiares. Contudo, ao chegarem na capital do império, encontraram um verdadeiro caos de sentimentos. A família já estava em luto pela perda da mãe de Khufu e, para completar a situação, Kawab, o primogênito de Khufu, havia caído doente de repente.
Era como se uma sombra de medo, ódio e pesar estivesse preenchendo cada pequeno pedaço do palácio real. Esse ódio ardia mais no coração de Khufu que culpava os deuses pelos infortúnios ao seu redor e, por mais que Khufu fosse o que mais reclamava a plenos pulmões disso, seu filho Khafre concordava com as reclamações do pai.
No meio de todos esses problemas, a que mais parecia sofrer era Ahura. Desolada e com um olhar sem esperança ou alegria, a esposa de Minkhaf se sentava do lado do espelho d’água que havia no jardim real e fitava a água desolada pensando no seu filho perdido. Nem uma só palavra havia sido dita pela mulher desde do dia em que deixaram o corpo do pequeno para trás para que fosse feita a mumificação e, em seu próprio pesar, Minkah se preocupava com a esposa. Assim, não demorou muito para que Minkhaf começasse a compartilhar do ódio que Khufu sentia pelos deuses.
— Esse livro que tanto queria… — disse Khufu um dia, em privado, para Minkhaf depois do café da manhã que quase ninguém conseguiu fazer passar pela garganta — Disse que tinha magias poderosas e os soldados que foram com você disseram que chegou a fazer Merab voltar à vida.
— Sim… — respondeu Minkhaf — Mas acho que não está perfeito. Senão Merab estaria entre nós.
— Não acha que o feitiço funcionou e na verdade Anúbis simplesmente pegou a alma do menino de volta porque quis? — perguntou Khufu.
— Acho que não, meu pai. — respondeu Minkhaf — Merab ficou estranho antes mesmo de ele aparecer. Parecia sofrer enormemente.
— E porque ele precisaria ter aparecido? — perguntou Khufu — Ele poderia ter feito algo antes mesmo de chegar. Afinal, o poder dos deuses estão além de nossa compreensão.
— Sim, mas… — disse Minkhaf soltando um pesado suspiro — prefiro estudar mais sobre para tentar evitar o sofrimento que vi nos olhos de Merab. Estava pensando em me pedir para usar o feitiço com a alma de nossa avó, certo?
— Sim. — admitiu Khufu sem vergonha alguma — O funeral dela está chegando…
— Sim… — comentou Minkhaf — Perdão, meu pai, mas não acho que eu termine de entender os detalhes de uma ressurreição até lá. Nem mesmo esse ano. O sofrimento que vi nos olhos de Merab… prefiro não ver os mesmos nos olhos de minha querida avó também.
A fala de Minkhaf caiu como um baque de péssimo gosto para Khufu, mas o faraó disfarçou isso com habilidade. Contudo, não pode disfarçar o quão séria ficou sua expressão. Sem dizer mais nada, Khufu deu as costas para Minkhaf e foi embora. Depois desse dia Khufu não quis mais falar com o filho. Se havia alguma chance de Minkhaf ultrapassar os irmãos na briga pelo trono quando Khufu morresse, ainda mais agora que Kawab parecia cada vez pior de saúde, Minkhaf poderia muito bem ter acabado de jogá-la no lixo.
Com o passar dos dias, o corpo da mãe de Khufu foi sepultado e então, no dia seguinte, quando Ahura estava, como sempre virou costume dela, fitando depressivamente o espelho d’água, Minkhaf se aproximou cuidadosamente. Ela deve ter percebido a aproximação dele, mas não fez nenhuma reação quando o marido sentou-se ao seu lado.
Por alguns segundos Minkhaf também ficou encarando a água cristalina diante de si que refletia o sol com tanta beleza que fez o coração dele arder em ódio. Era injusto que no meio de tanta tristeza existisse um dia tão belo. Para Minkhaf, era como se os deuses estivessem debochando do infortúnio da família. Pensando em como começar a dizer o que precisava, Minkhaf respirou profundamente escolhendo as palavras certas.
— Um mensageiro chegou de Koptus. — disse Minkah notando como o corpo de Ahura ficou rígido ao ouvir o nome da cidade onde tudo havia acontecido — Está pronto.
Sem desviar o olhar da água, Ahura assentiu com a cabeça e, ao gesto, a resposta de Minkhaf foi passar o braço ao redor dos ombros da esposa tentando confortá-la em sua dor. Era impossível, sabia disso. O corpo de Merab estava pronto para ser sepultado. Só faltavam os tiros funerais. Perceber isso assustou Ahura. Como podiam os dias terem passado tão devagar? Cada segundo sem seu bebê no colo parecia-lhe séculos. Séculos de uma vida vazia e sem sentido.
A dor de Ahura era tanta que suas lágrimas já haviam se secado àquela hora, mas todo dia ela acordava com os olhos pesados e inchados. O peito de Minkhaf também doía, mas a resposta dele ao luto era se debruçar diariamente sobre o livro de Thoth tentando achar o feitiço ideal.
Assim, naquele mesmo dia, os dois pegaram a barca real mais uma vez e junto com alguns familiares, como o caçula de Khufu, Baufra, e os pais de Ahura, os dois voltaram para Koptus para realizar os ritos finais pela alma de Merab. Durante toda a viagem, Ahura pouco fazia além de fitar o sol refletido nas águas do Nilo. Por mais que tentassem conversar com ela, ela nada fazia. E foi com raiva que a mãe de Ahura notou que a filha havia perdido muito peso. Mesmo assim, não importa o quanto tentavam fazer ela comer, ela nada comia.
Ao chegar em Koptus, o pequeno Merab teve um enterro digno do filho de um príncipe e, consequentemente, neto do faraó. Dinheiro não foi economizado na procissão que, de tão chamativa, atraiu o povo de Koptus de espectador. Todos tinham ouvido as fofocas do neto do faraó que havia se afogado no rio pelo poder dos deuses e que o pai da criança, estúpida e imprudentemente, havia desafiado a ordem e o poder dos deuses e tentado trazer o filho de volta à vida. Contudo, dentre os vários espectadores, havia cinco que ninguém ali podia ver.
— Tudo deve ficar bem agora…certo? — perguntou Hathor que agora não mais estava grávida e nem com criança alguma no colo.
— Só confio que vai estar tudo certo quando fecharem a tumba. — respondeu Anúbis que fitava atento e desconfiado do príncipe Minkhaf que, assim como os outros parentes, estava posicionado em uma das extremidades do caixão que era puxado por bois.
Hathor estava ali depois de uma pequena briga com Hórus que na verdade queria estar ali no lugar da esposa. Mas Hathor acabou conseguindo convencê-lo de ser o responsável do dia pelos serviços de babá com o filho recém-nascido que, por mais imortal e divino que fosse, ainda era um bebê. Assim, ela concordou em estar ali no lugar dele, pois era muito importante que tivessem certeza que aquele enterro iria até o fim.
Outros que estavam presentes eram Min, que, como patrono da região, nada mais válido do que se certificar de que nenhuma confusão acontecia em seu território; Anput, que estava ali mais para acompanhar Anúbis e saber o destino final de Merab; e também Thoth, por óbvios motivos.
Seja lá fosse pela presença dos deuses ou não, Ahura sentia um peso no coração, um medo de que alguma coisa ainda ia acontecer. Ela tentava aliviar essa sensação enquanto chorava pela alma do filho, mas a sensação perceguiu-a durante toda a procissão até a beira do Nilo. Era irônico de um jeito cruel que o corpo de Merab tivesse que cruzar uma última vez o rio que havia lhe matado para que pudesse ter o seu descanso final.
Cruzando o Nilo e indo eventualmente até diante do túmulo que guardaria o corpo de Merab, a procissão continuou acompanhada dos deuses que estavam invisíveis para todos. Diante do túmulo, a múmia do pequeno Merab foi levantada e a elaborada cerimônia da Abertura da Boca foi feita pelo sacerdote de Anúbis que, apesar da invisibilidade de seu deus, parecia sentir com os pelos da nuca que não estava sozinho. Feitas todas as cerimônias, purificações, unções, recitações de orações e feitiços e oferendas, a múmia foi colocada na câmara mortuária e a tumba foi selada.
— Acabou… — disse Min.
— Acabou. — concordou Anput.
Sem esperar pelos demais, Thoth se transformou num pássaro e saiu voando pelo céu enquanto os demais o seguiam com o olhar.
— Acham que ele vai fazer a parte 2 hoje? — perguntou Anput.
— Acho. — respondeu Anúbis — Já fazem vários dias que Merab morreu e Kawab, pagando pelos erros de Khufu, não vai passar de amanhã. Minkhaf ainda não devolveu o livro, então isso não acabou ainda.
—Uma punição bem pesada. — opinou Hathor — Tanto para Minkhaf, como para Khufu. Ver os entes queridos morrerem assim.
—No ritmo que vai, se eles não arrumarem logo seus erros, eles logo serão os próximos. — disse Anúbis — O próprio Minkhaf não tem muitas chances sobrando.
E mais alguém sabia que aquilo não tinha acabado ainda. Pois, por mais que um alívio fúnebre e triste tivesse tomado conta do coração de Minkhaf, o coração de Ahura não conseguia ficar quieto. Alguma coisa ia acontecer. Ela inexplicavelmente sentia isso.
— Não quero estar aqui para ver. — disse Hathor com um suspiro pesado — Não concordo muito com esse jeito de lidar com as coisas.
— Nem eu. — concordou Anput olhando de Hathor para Anúbis — Vamos voltar para o Salão do Julgamento.
— Tenho que ficar aqui. — disse Anúbis — Ficarei de olho em Minkhaf até Thoth terminar e mais um pouco.
— Certo… — disse Anput se aproximando brevemente e dando nele um beijo na bochecha com toque de consolação — Só tenta não matar o Minkhaf caso ele… você sabe…
— Não. — respondeu Anúbis pegando na mão dela levemente tentando passar-lhe uma tranquilidade que não sentia no peito — Mas só porquê Rá quer dar uma chance para ele. Mas, se eu fosse o Minkhaf, não ia querer morrer. No ritmo que as coisas vão, sua morte será bem pior que sua vida.
Com o fim das cerimônias fúnebres, a barcaça real navegou rio abaixo em direção às terras do norte. Ahura não queria ficar mais um minuto ali então, assim que os barcos foram preparados, eles foram embora novamente. Uma jornada alegre não era mais, pois Merab estava morto, e o coração de Ahura estava pesado por causa da tristeza que ainda estava por vir, pois a vingança de Thoth ainda não havia sido cumprida, e ela sentia isso. Seguindo o mesmo caminho que tinham tentado seguir quando Merab morreu, eles eventualmente chegaram no ponto do rio onde Merab havia caído na água.
Foi nesse ponto, quando um grande pássaro cruzou os céus fazendo sua sombra se projetar sobre o barco, que Ahura sentiu uma tentadora força lhe atraindo. Todos estavam em seu pesar ou distraídos com outro afazer. Assim, ninguém notou quando ela saiu da sombra do toldo e, como num transe, se inclinou sobre a lateral da barcaça fitando o reflexo do sol no rio. Assim como ninguém notou que de pé na lateral do rio que ela se inclinou, estava Anúbis que magicamente escondeu sua presença.
Uma triste comoção que mais parecia um deja-vu começou, pois, magicamente, Ahura foi puxada para a água. Contudo, por mais fundo que uma magia invisível a puxasse tentando claramente afogar-lhe, Ahura nada fazia. Sem ver mais sentido na própria vida, a mulher não tentou lutar contra a vingança de Thoth e o poder de Rá.
Na barcaça real, mais uma vez tarde demais, os gritos começaram e as tentativas de resgate também. Entretanto, quando um soldado mal tinha pulado na água, Minkhaf, em todo o seu desespero de tentar salvar a sua esposa, saiu mais rápido da cabine e lançou um feitiço sobre a água. Por alguns segundos, Minkhaf participou de um cabo de guerra mágico. Seu feitiço tentava puxar o corpo de Ahura para a superfície enquanto o poder de Rá puxava ela para mais fundo. Era uma competição extremamente injusta para Minkhaf. Sua interferência era praticamente inexistente para o poder de Rá que, sem qualquer dificuldades, deixou Ahura presa no fundo do rio até que a água tomou completamente seus pulmões e ceifou sua vida sem dificuldades.
Anúbis sentiu a vida de Ahura se esvaindo e o poder de Rá enfraquecendo agora que o serviço estava feito. Foi só aí que o fetiço de Minkhaf trouxe algum resultado conseguindo puxar magicamente o corpo da esposa para bordo da barcaça real. Minkhaf, pálido, tremia, seus olhos estavam saltados e seus pensamentos embaralhados. Sem pensar duas vezes, Minkhaf procurou com pressa e desespero o mesmo feitiço que havia lançado para ressuscitar Merab e mais uma vez o invocou, só que com algumas modificações.
Anúbis bufou e revirou os olhos diante de tamanha estupidez. Não pôde nem mesmo evitar colocar a mão direita sobre a testa e os olhos. Não entendia como alguém podia ser tão inteligente e burro ao mesmo tempo. Enquanto isso, Minkhaf sentia o mesmo gosto amargo na boca enquanto a magia vermelha surgia em suas mãos. Dessa vez, no entanto, um peso enorme se fixava em seu peito como se houvesse algo pesado sobre. Não querendo partir a alma de Ahura entre dois planos e também querendo de fato ouvir o feitiço inteiro, Anúbis só esperou embora seu rosto mostrasse o quão irritado estava. Sabia que não daria certo. Não precisava saber muito sobre o feitiço que Minkhaf havia inventado.
Assim como havia feito com Merab, Minkhaf botou as mãos brilhando em vermelhos sobre a testa e o coração de Ahura e, poucos segundos depois, ela estava de volta cuspindo água. Assustada, ela olhou para o marido enquanto ele, chorando, pálido e tremendo, chamava seu nome.
— Ahura! Oh minha Ahura! — exclamou Minkhaf abraçando a esposa apressadamente vê-la ela de volta.
— Minkhaf… oh Minkhaf… — disse Ahura com a voz repleta de tristeza e pesar — Não deveria ter feito isso, meu amor. Deveria ter me deixado ir.
— Nunca lhe deixaria ir! — exclamou Minkhaf — Vamos juntos conseguir trazer nosso filho de volta e não ficarei sozinho. Posso não ter conseguido até o funeral, mas acharei um feitiço que funcione direito. Alterei um pouco o de ressurreição e...
— Minkhaf, ouça… — interrompeu Ahura começando a ficar com a respiração dificultada e os olhos arregalados em completo assombro — Thoth ainda busca vingança e Rá concedeu-lhe seu desejo sobre o ladrão de seu livro.
— Daremos um jeito… daremos um jeito. — garantiu ele segurando o rosto da esposa amavelmente.
Mas Ahura não devolvia o toque carinhoso. Estava ocupada demais tentando respirar mas a cada segundo que passava, menos ar parecia vir. Com o canto do olho, notou o rio cintilando como se zombasse do casal. Notar isso fez ela começar a tremer e sentir que estava afogando novamente. As memórias de sua morte começaram a voltar até si mas, antes que qualquer estrago fosse feito, Anúbis apareceu.
Numa facilidade semelhante à como foi com Merab, ele simplesmente apontou o cajado para Ahura e puxou a alma dela do corpo levando-a para morte mais uma vez. Foi tão rápido que nem deu tempo de Minkhaf notar a presença dele ali. Foi só quando o corpo inerte de Ahura caiu em seus braços que Minkhaf, assombrado, olhou ao redor e notou Anúbis ao lado da forma opaca e transparente de Ahura abaixada sem forças aos seus pés tentando recuperar a respiração.
—NÃO! NÃO! DE NOVO NÃO! — gritou Minkhaf se levantando furioso — EU NÃO VOU DEIXAR!!!
Mostrando que claramente não era o melhor em tomar decisões, Minkhaf decidiu usar outro feitiço do livro de Thoth. Um que sabia de cor, sem necessidade de ler no livro. Afinal, havia aprendido muito com aquele livro. Assim, na palma de sua mão, Minkhaf invocou, um tanto uma bola de fogo que logo jogou contra a cabeça de Anúbis.
Sem muita prática de combate, Minkhaf parou por aí e torceu ingenuamente para ter dado certo, mas quando a fumaça resultante abaixou, ele notou que o ataque aparentemente não havia sequer chegado em seu alvo que nem precisou se mexer para o anular completamente.
A pouca cor que ainda restava no rosto de Minkhaf se perdeu e, nos poucos segundos que lhe restavam, ele tentou invocar um outro feitiço, um mais complicado de preferência. Mas as palavras necessárias mal saíram de sua boca e logo Minkhaf estava sendo erguido um palmo no ar pela mão de Anúbis que lhe segurava pela garganta como se ele pesasse o mesmo tanto que uma pena.
—Eu avisei para não ressuscitar os mortos. — disse Anúbis sério e frio — Não importa o quanto tente, o resultado será o mesmo. Estou poupando eles de mais dor.
—Não… ng.. — resmungou incompreensívelmente Minkhaf.
—Repare o que ainda pode reparar enquanto tem tempo. — aconselhou Anúbis — Seu destino já está selado e não tem para onde fugir. Irá se arrepender.
—M… Mate-me. — pediu Minkhaf e nessa hora Anúbis o soltou deixando ele cair de qualquer jeito no chão.
—Na sua situação, eu lhe matar só seria um doce favor que não merece. — disse Anúbis — A sua situação não poderia ser pior.
Assim, sem mais nada dizer. Anúbis, irritado, foi embora levando a alma se Ahura consigo pensando em como talvez esse problema não estivesse tão longe assim de terminar.
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