Notas iniciais
na imagem de hoje, o delta do Nilo, onde o Nilo se ramifica em tantos rios menores q mais parece um pântano.

Então o grande deus firmou seu coração (isto é, tomou coragem) e ele clamou para aqueles que estavam em seu seguimento:--"Vinde a mim, ó vós que viestes a ser de meus membros, 1 ó deuses que procedestes de mim, pois eu quero fazer-vos saber o que aconteceu. Fui ferido por alguma coisa mortal, da qual meu coração não tem conhecimento, e que eu não vi com meus olhos nem fiz com minha mão; e eu não tenho conhecimento algum de quem fez isso comigo. Eu nunca antes senti nenhuma dor como essa, e nenhuma dor pode ser pior do que esta [é].

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

O silêncio no submundo hitita era sepulcral. A Terra Negra estava silenciosa, o que não era anormal, mas também estava tensa, ansiosa, amedrontada. Anput e Anúbis se entreolharam ao sentir aquele sentimento que o próprio local exalava, lhes arrepiando os pelos. Não havia jeito mais óbvio de notar que algo não estava normal. Até falar parecia ser ousado. Como se o silêncio não quisesse ser pertubado em meio ao seu próprio medo de sabe-se lá o quê.

A névoa que flutuava rente ao chão no meio da total escuridão e vazio do submundo parecia tímida e acuada, como uma criança assustada. Anúbis e Anput até se sentiram pisando em ovos ao se aproximarem lentamente da enorme porta de madeira que flutuava sozinha no meio do vazio. Se perguntando como estavam as coisas do outro lado da porta, Anput bateu nela três vezes. Antes, a motivação era ir até ali para checar se Lelwani sabia mais informações sobre o que acontecia em sua parte do mundo, agora estavam tendo que acrescentar na lista preocupações com a própria Lelwani e seu submundo.

Eles esperaram um pouco com apenas o silêncio desconfortável lhes fazendo companhia e então, repentinamente, Lelwani abriu as enormes portas com um estrondo. Ela claramente já tinha visto dias melhores. Estava completamente descabelada, com olhos saltados denunciando que o emocional dela estava terrível, talvez num misto de pavor e raiva.

— T-Tudo bem? — gaguejou Anput.

— PARECE ESTAR TUDO BEM? — gritou Lelwani.

— N-Não… — gaguejou Anúbis em resposta.

Lelwani revirou os olhos e bufou ao se virar de volta para o interior de seu cantinho no submundo e entrar, batendo os pés fortemente no chão por onde andou. Anput e Anúbis se entreolharam mais uma vez e entraram, tímidos, na moradia de Lelwani se perguntando o que poderia estar deixando ela daquele jeito.

A porta se fechou sozinha atrás dos dois egípcios, que continuaram seguindo Lelwani pelos cômodos e corredores, até ela chegar em um com o teto e parte das paredes completamente abertos para a imensidão do vazio do submundo hitita. Um cantinho secreto, invisível para qualquer outro que não entrou em sua casa, onde Lelwani podia descansar nos tapetes e almofadas espalhados pelo chão. E foi justamente nessas almofadas que Lelwani se jogou, escondendo seu rosto das visitas.

— O que aconteceu? — perguntou Anput gentilmente ao se sentar perto de onde Lelwani havia tão despretensiosamente se jogado.

Por vários minutos, Lelwani não falou nada. Continuou lá parada, escondida dentre as almofadas. Foi o tempo necessário para Anúbis resolver se sentar também perto das duas. Ele e Anput se entreolharam mais uma vez, e foi justamente enquanto eles faziam isso que Lelwani finalmente disse alguma coisa.

— Eu estou exausta. — admitiu Lelwani — E não estou gostando do rumo das coisas.

— Que “coisas” exatamente? — perguntou Anput.

— Vocês deram sorte com Ramsés II… — disse Lelwani lentamente, se sentando nas almofadas e mostrando que, apesar de tudo, não estava chorando, só estava com cara de completa exaustão — Mesmo todo idosinho e caindo aos pedaços ele ainda conseguia manter boa parte dos problemas longe do Egito. As coisas não estão boas!

— Já tem 5 anos que Ramsés II morreu… e ele morreu com 90 anos… 90 anos dificilmente impõe tão poder assim. — lembrou Anput — Sei que ainda estão tentando entender se o novo faraó é bom ou não mas…

— 90 anos de qualquer outra pessoa não impõe respeito e medo! — disse Lelwani, socando uma almofada — Estamos falando de Ramsés II! Ele podia ser um velho caquético, demente e cego que todos ainda teriam medo dele!

— Tudo bem, certo… — disse Anúbis, tentando apaziguar os ânimos de Lelwani — Então que “coisas” está falando?

— Lembra do que eu falei na batalha de Kadesh? — perguntou Lelwani — Que o nosso fim, como civilização, podia estar perto.

— Lembro. — respondeu Anúbis.

— Eu sinceramente acho que chegou a hora. — admitiu Lelwani, suspirando pesadamente — Já tem um tempo que a seca está complicada pelo Império. Não sei o que raios passa pela cabeça de Tarhunna para resolver que tá na hora de fazer uma seca suprema! Sinceramente, acho que tem alguém fazendo a cabeça dele, porque isso não faz o menor sentido! Como fazer uma seca no nosso povo vai impedir que a gente suma?

— Faria mais sentido se o objetivo fosse o efeito oposto… — opinou Anúbis.

— EXATO! — exclamou Lelwani, deixando evidente toda a sua revolta — Vocês sabem melhor que ninguém as consequências de uma seca! Não tem água suficiente, a comida não cresce o suficiente… DUAS coisas importantes pros mortais, subitamente em falta! Muita gente está morrendo e muitos estão começando a se mudar e ir para outras cidades… e essa parte também não costuma ser tão pacífica! Tróia foi destruída sei lá como também! E refugiados saem da Cilícia também e se juntam ao caos das outras cidades que já têm que lidar com outros refugiados.

— Vai dar tudo certo. — disse Anput, colocando a mão no ombro de Lelwani, querendo acalmá-la — Não é a primeira vez que desastres naturais acontecem.

— Eu sei que não, assim como sei que está só querendo me acalmar. — respondeu Lelwani — Escute o que eu digo, esse está diferente. Enquanto nós conversamos, um grupo cada vez maior de refugiados caminha para todos os lados.

— Você falou antes que acha que alguém está fazendo a cabeça de Tarhunna… — disse Anúbis — Acha isso por algum motivo além de criar uma seca não fazer tanto sentido? Tem alguém em mente?

— Não tenho ninguém em mente. — admitiu Lelwani — Mas não é estranho tudo isso? Não sou tão social a ponto de notar quando Tarhunna está por aí, resolvendo alguma coisa, não sou nem social o suficiente pra ter muito deus pra me passar fofoca… Mas Telipinu apareceu aqui um dia. Ele está muito triste. Afinal é deus da agricultura e a agricultura precisa da água das chuvas e dos rios. Ele me disse que Tarhunna está estranho… ausente… irritado… mas ao mesmo tempo esperançoso de um jeito meio cego, falando que vai dar tudo certo e que o Império Hitita vai ser grande!

— Deixando seu povo morrer? — perguntou Anput incrédula.

— Eu sei! Idiota, né? — disse Lelwani — E tem mais… aparentemente Tarhunna não só disse que o Império Hitita vai ser grande, mas que vai ser o maior de todos e vai derrubar o Egito e a Assíria… Sem ofensas, mas vocês dois são incômodos nossos à séculos demais. Eternas dores de cabeça.

— Problemas normais de vizinhos. — disse Anúbis.

— Guerra e morte? — perguntou Lelwani, incrédula — Isso é “problema normal de vizinho”?

— Infelizmente sim. — afirmou Anúbis — Os mortais não precisam de muito para começarem a se desentender. Basta querer um pedaço de terra porque tem algum recurso como ouro e prata, ou querem uma saída para o mar estratégica, ou uma rota de comércio, ou simplesmente porque querem ser mais poderosos ou ricos… e começa a carnificina. Só muda a cara da batalha. Antes era tudo a pé, então veio os cavalos, e então as bigas… agora dão jeito até de batalhar em barcos e na praia com arqueiros para acertar os barcos. Mais de mil e quinhentos anos se passaram desde a unificação do Egito, a guerra mudou nesse tempo todo, mas os motivos são sempre os mesmos.

— Pensando bem… tem razão… — admitiu Lelwani, com um suspiro pesado — Única diferença é quando o próprio povo se revolta por algum motivo, como acontece agora com aqueles que fogem da seca no Império Hitita e também com os micênicos se revoltando contra os palácios.

— Ouviu falar então? — perguntou Anput.

— Quem não ouviu? — perguntou Lelwani — Os deuses micênicos tentam parecer que está tudo bem, mas estamos vendo que não está. Cidades foram destruídas, e bem sei disso. Sinceramente acho que parte dos refugiados que vejo passando pelas nossas terras são na verdade micênicos… ao menos posso dizer que alguns deles vieram do mar.

— Hapi mencionou que as coisas ao norte de Micenas também não vão tão bem. — lembrou Anput.

— Sim…. Ouvi falar disso também. — afirmou Lelwani — Ouviram falar dos Dórios e dos Trácios?

— Os Dórios não são o povo não tão grande que vive nas montanhas ao norte de Micenas? — perguntou Anput.

— Eles mesmos. — afirmou Lelwani — E os Trácios um pouco mais ao norte e pro leste. Eles estão saindo aos montes de suas terras também. A teoria que temos é que estão se misturando com os Micênicos. Uns ficando por lá mesmo… outros seguindo em frente para o Império Hitita por terra e por barco, mas principalmente por barco… sabem que não é um pedaço de terra muito grande que nos conecta com esse lado das terras do Mediterrâneo.

Lelwani suspirou quase como se conseguisse imaginar tantos povos se aglomerando pelo pequeno filete de terra que conectava os continentes europeu e asiático na Turquia, lugar onde uma pequena vila um dia se ergueria como a grande Istambul. Um futuro longe demais para qualquer um dos deuses ali adivinharem que surgiria. No momento, estavam preocupados com povos vindos de territórios que um dia seriam o Norte da Grécia, a Macedônia, a Romênia, Bulgária e a Moldávia.

— O fato é… essa galera toda tá se juntando, e se juntando com quem acharem no caminho… — explicou Lelwani — Estamos chamando de Povos do Mar… porque a maioria vem pelo mar… não é um nome muito criativo, mas foi o que arranjamos no momento.

— Ondas migratórias não são tão incomuns assim… Mas… — disse Anúbis, deixando o resto da frase no ar.

— Sim… “Mas”, é justamente o problema. — opinou Anput — Lembra dos Hicsos?

— Como esquecer? — perguntou Anúbis — O Egito quase caiu. Se não fosse Ahmose I para derrotá-los..

— Ainda demos sorte de Ahmose I ter sido seguido justamente por Amenhotep I e Hatshepsut. — lembrou Anput — Um faraó fraco e decepcionante teria muita dificuldade em ressuscitar o Egito.

— E o tal do velho Merenptah está preparado para os problemas que vão chegar na porta de vocês quando o medo de Ramsés II e seu legado se extinguir? — perguntou Lelwani, os encarando firmemente.

Anúbis e Anput ficaram em silêncio por um momento. Merenptah estava longe de chegar aos pés do pai… O que também era uma comparação bem exagerada e complicada de se fazer com 90% dos faraós que o Egito já teve, mas esperavam que ele tivesse boa parte da sabedoria e ensinamentos do pai.

— Esperamos que sim… — respondeu Anput, sem saber algo melhor para dizer.

— Fiquei sabendo da reunião que teve ontem… — disse Lelwani — Vão parar com as chuvas também?

— Não é como se tivéssemos mais do que duas ou três chuvas por ano em áreas específicas para considerar pensar em parar as chuvas. — explicou Anput — A questão é a cheia do Nilo.

— Não sei bem o que vão decidir por final. — disse Anúbis — Até ontem era fazer alguma seca fraca, simples… nada que afetasse muito… Hoje de manhã já queriam só fingir que fizeram qualquer seca. Sei lá como já devem estar as decisões por hoje.

— De toda forma, não envolve só a gente qualquer coisa com o Nilo. — lembrou Anput — Ele vai até muito mais ao sul então temos nossas próprias discussões também.

— Os mistérios de além do deserto… — brincou Lelwani com um sorriso nos rosto.

— Eles mesmos… — concordou Anput.

— Bem, “mistérios” para os mortais… pra gente não é tão difícil simplesmente explorar o que tem depois do deserto. — completou Lelwani, dando de ombros.

— Se achar que as coisas estão ficando muito ruins para você, nos avise. — pediu Anúbis.

— Porquê? Vão interferir na história? — perguntou Lelwani — Sabe que só podemos nos envolver em assuntos mágicos.

— Não é isso… — disse Anput, respondendo no lugar de Anúbis — Só queremos lhe fazer companhia se estiver precisando de algo assim.

— Não vou precisar de nada assim. — respondeu Lelwani, cruzando os braços embora seu rosto estivesse muito melhor do que quando abriu a porta.

Sem ter mais o que falar com Lelwani, Anúbis e Anput deixaram o submundo hitita para trás depois de umas poucas, e falhas, tentativas de falar de algum assunto mais animador. Em silêncio, mas com as mentes barulhentas, pensando nas mais diversas coisas, os dois deuses voltaram para o Salão do Julgamento.

Quando eles chegaram no Salão do Julgamento, Ísis estava lá, sentada na coxa de Osíris enquanto os dois sussurravam, um para o outro, palavras doces que com certeza não queriam ninguém mais ouvindo. Ao ver que não estavam mais sozinhos, Ísis rapidamente se levantou da coxa do marido e caminhou em direção à Anúbis e Anput.

— Descobriram algo de Lelwani? — perguntou ela.

— Bastante… — respondeu Anúbis antes de ele e Anput resumirem tudo que ouviram de Lelwani.

— Pelo visto nossos estresses estão só começando… — disse Osíris, se juntando à conversa após toda a explicação.

— Hórus decidiu sobre o que vai fazer quanto a seca? — perguntou Anúbis.

— Enrolar. — disse Ísis, dando de ombros — Mas me preocupa mais a possibilidade de alguém estar convencendo Tarhunna… E não descartaria a possibilidade de outros deuses também.

— Não temos nem certeza que isso de fato está acontecendo. — lembrou Anúbis.

— Sei disso. — respondeu Ísis — Ainda assim, acho bom investigar mais e ter cuidado.

— E torcer para Merenptah conseguir lidar com os problemas que chegarem até ele. — concluiu Osíris.

A ordem de tentar descobrir algo mais foi passada para alguns deuses, uns meses se passaram e outros deuses mais receberam a ordem. Ainda assim, nada novo foi descoberto e nada de muito diferente aconteceu em terras egípcias. Enquanto isso, nos vizinhos do Egito, o caos continuava e aumentava. Adicionalmente, os deuses egípcios sabiam que Merenptah não conseguiria se aproveitar para sempre da fama do falecido pai, que deixava atacantes com medo de encarar o Egito.

Contudo, a poucos dias de Merenptah começar o seu sexto ano de reinado, um grupo de povo refugiados atacou o Egito pelas praias a oeste. Curioso com quem estaria atacando, Anúbis foi até a cidade que recebia o ataque. A cidade fronteiriça ficava no delta do Nilo, esbanjando de um solo quase pantanoso ao invés do típico deserto. Contudo, era do deserto líbio mais além que os invasores vinham.

Anúbis resolveu andar no meio da batalha sem que nenhum mortal o visse. Completamente invisível. Passou por soldados egípcios sujos de lama lutando com ferocidade aos mandos de seu comandante. Passou o olhar pelos adversários e só isso lhe deu bastante ideia do desfecho daquela batalha. Os egípcios não lutavam contra soldados inimigos. Embora os adversários estivessem armados com modernas armas de ferro, uma análise mais calma deixava óbvio que não passavam de camponeses.

O corpo não preparado para a guerra, a falta de habilidade com armas, a falta de armadura, o medo virgem de sangue de batalha estampado nos olhos de alguns e o medo de matar tão grande quanto de morrer eram sinais claros. A maior parte ali não era guerreira. Ele não precisava continuar vendo o sangue jorrando na lama e nas águas do Nilo antes de seguir para o Mediterrâneo, ainda assim, continuou a andar.

Entretanto, no meio de sua observação da batalha, Anúbis parou e olhou uma luta de dois homens com mais atenção e então desviou o olhar para um corpo mais além. Tal como tinha notado anteriormente, as armas eram de ferro. A cor prateada da espada era bem evidente. Desde quando ferro era tão acessível assim para meros camponeses? Ainda mais em grande quantidade? O trabalho em ferro ainda era novidade e, ainda assim, o normal era os camponeses lutarem com ferramentas agrícolas. Contudo, levando a cena toda em consideração, era bem óbvio que não eram soldados ali.

Como se ainda fosse possível ainda ficar em dúvida, quando Anúbis andou o suficiente para deixar o centro da batalha para trás, ele viu que na última linha de defesa dos camponeses estavam mulheres e crianças. Mulheres e crianças que carregavam todos os pertences que ainda tinham nas costas ou no lombo de mulas. Ainda assim, elas seguravam armas firmemente, mostrando que eram também a última linha de defesa.

Adicionalmente, Anúbis também viu que não era o único encarando as mulheres e crianças, Hórus e Hathor também estavam lá. Os dois olharam para ele brevemente, reconhecendo que não estavam sozinhos, e voltaram a olhar para a última linha de defesa daqueles que tão despreparadamente e estupidamente, decidiram atacar o Egito daquela forma.

— Estamos chamando de Povos do Mar também… — disse Hórus, repentinamente quando Anúbis se juntou — Tal como Lelwani falou que estão chamando os refugiados que estão atacando aquelas bandas.

— São povos pequenos e variados demais e misturados demais… — explicou Hathor, já imaginando que Anúbis iria perguntar sobre o nome — Simplesmente colocar todos sob a mesma denominação parece mais fácil. Até porque são os mesmos problemas que estão causando.

— Acha que ao menos as mulheres e crianças vão conseguir fugir? — perguntou Anúbis, com uma pequena esperança na qual não queria se agarrar, pois sabia que ela era uma possibilidade fraca.

— Só se elas começarem a correr agora.. o que não parece que vão fazer… — disse Hórus, olhando para trás, onde o caos da batalha continuava — Tem um limite que números e perseverança fazem diferença numa batalha… E um monte de camponês que nunca tocou numa arma contra um exército bem armado e treinado é um limite bem claro.

— Espero que elas percebam isso também… — disse Anúbis, suspirando.

— Mesmo que notem… — disse Hathor, com tristeza na voz — Isso também significa deixar os maridos, mortos, para trás.

— Falando nos maridos… — falou Anúbis, trocando um pouco de assunto — Acharam estranho também eles estarem com armas de ferro?

— Estava pensando o mesmo. — admitiu Hórus — Se fosse só uma parte eu até entenderia, mas todos eles?

— Desastres, confusões, guerra, refugiados… nada disso é necessariamente novo… — lembrou Hathor — Mas tudo aparentemente ao mesmo tempo, e alguns detalhes estranhos aqui e ali… Não me tira da cabeça que tem algo, alguém ou vários “alguéns” por trás…

— E tentando fazer de um jeito que a gente não note que algo está estranho… — opinou Hórus — Colocar armas de ferro mas não melhorar as táticas de batalha nem as armaduras é um detalhe sutil… teríamos que ter vindo até aqui e ainda por cima prestar atenção para notar isso.

— E não é como se esse ataque fosse grande o suficiente pra gente ter vindo até aqui… — disse Anúbis, olhando para a confusão — Em algumas horas deve acabar.

— Sim. — concordou Hórus — Só viemos até aqui por causa de todas as fofocas desses Povos do Mar e invasões para todos os lados. Mesmo com Ramsés II já morto, podemos dizer que o exército ainda esbanja do alto investimento que ele fez… e os generais e o próprio Merenptah devem ter aprendido uma coisa ou outra com ele.

— Em resumo… foi um ataque tolo. — concluiu Hathor.

— Exato. — concordou Hórus.

Anúbis suspirou ao sentir, e ouvir, os gritos e dilacerações das mortes que aconteciam atrás de você. Mas o que mais doía, era ver as crianças, desde tão novas a ponto de serem recém-nascidas, que se agarravam às mães, torcendo para a improvável vitória dos pais.

— Me avisem então se tiver alguma coisa relevante mais aqui… — disse Anúbis antes de ir embora.

Com mais coisas para fazer, e lugares melhores para estar, Anúbis foi embora tendo bastante certeza de qual seria o resultado daquele confronto. Seis horas depois que começou, o resultado da batalha foi exatamente o esperado pelos deuses. Assim, a imagem de Ramsés II se manteve mais um pouco na forma de Merenptah, que conseguiu ganhar mais alguns meses ou anos de moral com os vizinhos, que eram constantemente atacados pelos tais “Povos do Mar”, que na verdade eram uma mistura de diversos povos dos mais diversos locais que fugiam de suas casas originais.

Condições climáticas adversas, e um terremoto, com dedo de Poseidon, que se seguiu nos meses seguintes, só pioraram a situação de refugiados.Como se uma onda de refugiados não fosse suficiente, inimigos clássicos entravam em atrito. No geral, os deuses não estavam com os ânimos ou os otimismo muito altos. Exatamente por isso que, já no décimo ano de reinado de Merenptah, quando ele estava claramente no leito de morte, alguns deuses se reuniram no submundo micênico.

Anúbis, Hades e Ereshkigal se sentavam ao redor de uma mesa na entrada da casa de Hades no submundo, como se o ambiente do submundo fosse um cenário extremamente relaxante. No centro da mesa, estava um jogo assírio antigo com nome esquecido mas posteriormente chamado de Jogo Real de Ur. O jogo, adaptado para três jogadores, estava um tanto esquecido já que os deuses estavam mais concentrados na conversa e no vinho.

— É um caos… — dizia Ereshkigal — Estão nos atacando de todos os lados, principalmente do sul. Conheço bem esses sinais! Me lembram muito de quando a Suméria caiu!

— Acha que a Assíria está com os anos contados então? — perguntou Anúbis.

— Infelizmente, acho! — reclamou Ereshkigal — E espero que seja lá o que vier depois, eu também seja adorada.

— As coisas não estão boas em Micenas também. — disse Hades, fitando o vinho em sua taça — Não bastasse o conflito interno, ainda tem as doenças e as ondas de refugiados vindos de todos os lados… Como se a gente tivesse alguma coisa a oferecer pra começo de conversa.

— Dá a sensação de que ao invés de se juntarem, querem expulsar as pessoas da terra e pronto. — opinou Anúbis.

— EXATO! — reclamou Hades, esmurrando a mesa — Já perdi a conta de quantas cidades foram destruídas. Se viessem só pra morar e pronto, pra que destruir as cidades.

— Está esquecendo que parte dessa destruição foi seu próprio povo que fez… — rebateu Ereshkigal — Destronando os governadores palacianos.

— Usou a palavra certa. “Parte”. — retrucou Hades — Atena, toda dramática, já está chamando de Era das Trevas.

— Parece-me mais sabedoria do que drama. — opinou Ereshkigal, dando de ombros.

— Ele também acha que é sabedoria… — disse Perséfone saindo de dentro da casa aparentemente apenas para re-encher seu copo de vinho — Só não quer admitir.

— Thoth fala parecido. — disse Anúbis — Não vai tão longe a ponto de chamar de Era das Trevas…

— Claro, a parte do problema que chegou até vocês ainda é pouca. — interrompeu Hades — Seria exagero já sair chamando de “Era das Trevas”.

— MAS… — continuou Anúbis, não deixando Hades o interromper por completo — Ele fala do fim de uma Era. E outra, podemos não estar tendo tantos problemas com os Povos do Mar ainda, já que Merenptah conseguiu repelir todos os ataques até então, mas desse ano Merenptah não passa e os Núbios ao sul estão bem inquietos.

— Os Núbios, o eterno problema egípcio. — comentou Ereshkigal.

— Falando em eterno problema… — começou Anúbis — Conseguiram falar mais do que duas palavras com Lelwani esse ano?

— Não mesmo. — respondeu Ereshkigal — Desde o ano retrasado só convencê-la a abrir a porta ou parar por um instante de processar seus mortos já é um milagre.

— Podemos levar alguma coisa para ela… tentar animá-la… — sugeriu Perséfone que, apesar de ter ido ali apenas para pegar mais vinho, acabou sendo atraída pela conversa.

— Não acho que isso funcionará. — disse Ereshkigal

— O que isso tem a ver com “eterno problema”? — perguntou Hades, perdido.

— Lelwani diz que o Egito é a Assíria são eternos problemas dos hititas. — respondeu Anúbis.

— Embora ela tenha razão da parte dela, somos velhos demais pra conseguir dizer o mesmo sobre os hititas. — comentou Ereshkigal.

Os quatro interromperam a conversa quando viram Cérbero vindo correndo na direção deles. O cachorro gigante de três cabeças corria feliz, com cada uma das línguas esticadas para fora e balançando ao vento. Sentadas nas costas dele, claramente brincando e usando o enorme cachorro como montaria, estavam Kebechet e Melinoe. Quando Cérbero parou ao lado dos quatro deuses, as duas meninas escalaram levemente a cabeça do animal, para que os quatro pudessem as ver melhor.

— Senhor Hades, — disse Kebechet — Encontramos um moço que disse que queria vir falar com você.

— ”Queria” não, “precisava”. — corrigiu Melinoe.

— Melinoe, sabe que mortais não podem sair entrando assim no submundo. — disse Hades.

— Não é um mortal. — disse Melinoe — É Apolo.

Uma expressão de completo estranhamento tomou conta do rosto de Hades, deixando óbvio que aquilo não era nenhum pouco esperado. Ao mesmo tempo, Perséfone ficou surpresa, mas também ficou um pouco preocupada. Não achava que o humor do marido estava no ponto certo para esses tipos de visita.

— Não é comum virem até aqui… — resmungou ele.

— Ele disse que era importante. — explicou Melinoe.

— Pois bem… — disse Hades — Deixaram ele para trás foi?

— Foi. — respondeu Melinoe.

— Podem trazer ele até aqui. — pediu Hades.

— Podemos ir embora para que você resolva esse assunto… — disse Anúbis e Kebechet acenou com a cabeça de cima do Cérbero.

— Não precisa… — disse Hades, gesticulando com a mão fazendo pouco caso — Podem ir, Melinoe e Kebechet.

— Certo. — respondeu Melinoe sem alterar seu tom de voz enquanto Kebechet sorria diante de sua nova missão de guiar Apolo até Hades.

— Tem certeza? — perguntou Ereshkigal — Pode resolver seus assuntos com calma e sem nós.

— Vocês aqui aumentam um pouco mais a intimidação daqui. Não gosto da ideia dos outros deuses do Olimpo se sentirem confortáveis o suficiente de virem aqui, socializar... — justificou ele com nojo na voz da ideia de “socializar” — Como se fossem tão bem vindos assim aqui.

— Só discordo desse “um pouco”... Não sou “um pouco” intimidadora. — disse Ereshkigal, erguendo o nariz e fechando a cara — Mas vou deixar passar.

— Claramente temos que fazer uma competição de quem é mais anti-social… — resmungou Anúbis.

— Sendo assim, vou ficar lá dentro para não quebrar sua imagem de intimidador. — disse Perséfone, dando um breve beijo na testa de Hades, ainda sentado na cadeira tal como no começo — Boa sorte. Respire.

Perséfone entrou na casa novamente, tranquila, embora também curiosa quanto ao motivo que levava Apolo até o submundo. Logo Apolo, tão o oposto de toda a atmosfera dali. Para acalmar sua curiosidade, Perséfone decidiu se distrair com seus papiros que ganhara de presente de Anput, sobre as mais belas e persistentes flores e plantas desérticas. Tinha desenhos lindos e coloridos, tal como os egípcios eram os melhores na época em fazer com uma quantidade tão grande de cores.

Depois de alguns minutos conversando sobre a situação e Apolo, os três deuses viram as meninas voltando. Elas ainda sobre Cérbero, e Apolo logo ao lado, tentando não deixar óbvio que estava encolhido no meio de toda aquela escuridão, mas falhando miseravelmente nisso. Hades teve que segurar um sorriso quando viu o rosto de Apolo de perto. Ele já tinha visto o jovem deus algumas vezes, tão mais jovem até que Hades, imagina dos outros dois ali presentes, mas Hades tinha certeza que Apolo estava mais pálido do que o normal ali.

Normalmente Apolo exibia um cabelo loiro que mais parecia dourado, com um brilho que Hades achava particularmente lustroso e irritante, tal como a personalidade egocêntrica e exacerbada do próprio deus. Contudo, pouco disso estava ali no momento. O movimento e a expressão de Apolo deixavam claro que ele sabia que estava entrando num lugar onde não era muito bem vindo.

— O que veio fazer aqui? — perguntou Hades, sem rodeios.

— Eu gostaria de averiguar uma suspeita importante que tive. — disse Apolo, tentando se mostrar bravo e destemido, mas sua voz estava levemente mais aguda que o normal embora tenha se dado uns segundos para olhar para os convidados de Hades.

— E o que essa suspeita tem a ver comigo? — perguntou Hades.

— Gostaria de averiguar a quantidade de mortos recentemente de doença. — pediu Apolo — Uma doença em específico, de preferência.

— A quantidade de mortos de qualquer tipo está maior do que o normal. — disse Hades, fazendo surgir em suas mãos um um papiro de folhas negras que ele mesmo percorreu os olhos ao invés de entregar para Apolo.

— Sei que a situação está ruim… — admitiu Apolo — Mas tenho a suspeita de que, além de todos os problemas, ainda estamos ficando diante do começo de uma epidemia de Peste Bubônica vinda com os refugiados.

— Peste bubônica? — perguntou Hades, enquanto Anúbis, Ereshkigal, Kebechet e Melinoe só olhavam de um para o outro.

— Uma doença que vem de pulgas… mais comumente pulgas de rato. — explicou Apolo — Pode levar à morte o infectado em pouquíssimos dias. E por “epidemia”, quero dizer que temos o perigo de muita gente morrer e a situação sair do controle.

— Já tiveram epidemias antes? — perguntou Hades, olhando para Anúbis e Ereshkigal.

— Malária. — disse Anúbis, afirmando com a cabeça.

— Malária mata mais lentamente e a Peste Bubônica é mais contagiosa. — disse Apolo.

— Te perguntei algo? — rebateu Hades.

— N-Não… — gaguejou Apolo, se encolhendo.

— Comentou dessa sua preocupação com Zeus? — perguntou Hades, enquanto percorria os olhos pelo papiro, olhando os dados de cada morto de doença dos últimos dias.

— S-Sim mas… — disse Apolo, ficando meio incerto de como continuar — Ele ficou meio irritado de tanto problema e foi namorar.

— Ele foi o quê?! — perguntou Hades, incrédulo, desviando os olhos do papiro e focando novamente em Apolo enquanto Anúbis e Ereshkigal seguravam a risada.

— Esses últimos dias… anos… estão sendo muito estressantes para todos então… — disse Apolo, deixando o resto da frase no ar.

— Então Zeus achou que seria interessante desestressar indo atrás de um rabo de saia. — concluiu Hades.

— Exatamente. — afirmou Apolo, suspirando pesadamente — Mas ele disse que depois poderia conversar disso comigo, mas… até lá… resolvi vir até aqui, para ter certeza de minhas suspeitas.

Hades bufou irritado e continuou a olhar em silêncio para o papiro por mais alguns minutos. Olhando nome atrás de nome e então checando com Apolo algumas informações da doença para que pudesse confirmar a causa da morte das pessoas. Por fim, ele chegou a uma conclusão.

— Realmente muitos morreram dessa sua tal Peste Bubônica e o número vem só aumentando. — disse Hades.

— Era o que eu temia… — disse Apolo — Acha que posso ter os números?

Hades revirou os olhos, mas tratou de separar num outro papiro a informação que Apolo queria. Anúbis e Ereshkigal ficaram silenciosamente só observando, bebericando no vinho sob o olhar apavorado de Apolo.

— Podem beber o vinho daqui? — perguntou Apolo repentinamente e logo tampando a boca com a mão ao ver que ninguém tinha lhe perguntado nada.

Falar que o vinho que Apolo via tinha vindo do Egito e da Assíria, não do perigoso jardim do submundo que poderia deixar algum desavisado preso ali, iria cortar muito do mistério e silenciosa ameaça que aquele grupo representava. Então, ninguém explicou a situação para Apolo. Deixaram ele em seu assombro e confusão mesmo quando Hades lhe entregou um papiro com a informação que Apolo tanto precisava, e o deus logo se foi, com certeza com muita pressa de sair dali.

Quando Apolo já estava longe dali, todos encararam Hades com evidente preocupação diante de mais um problema adicionado à lista dele. Claramente exausto, Hades suspirou ao se jogar na cadeira novamente.

— Vamos deixá-lo descansar. — disse Ereshkigal imediatamente se levantando e logo Anúbis a imitando.

— Não quero saber de mais nada que acontece lá fora por pelo menos 5 anos… — resmungou Hades — Embora admita que saiba que isso vai ser pedir demais.

— Pelo menos eles não são tanto de vir até aqui… — lembrou Anúbis — Talvez pelo menos 1 ano consiga ficar sem ninguém vir atrás de você.

— Torcerei por isso. — resmungou Hades antes de Anúbis, Kebechet e Ereshkigal irem embora dali, deixando Hades sozinho com Melinoe e seus estresses e cansaços.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Como eu dizia, muitas coisas aconteceram que levaram ao final da Era do Bronze. Além das descritas antes, — Quase toda a região banhada pelo Mediterrâneo estava com problemas com os chamados “Povos do Mar”, uma combinação de meio mundo de povos pequenos que a gente nunca ouviu falar, que saiu invadindo todo mundo. — Os Micênicos se viram no meio de uma praga de Peste Bubônica trazida pelos Povos do Mar. — Assíria começa a apanhar feio pra guerra mesmo. — Alguns terremotos grandes aconteceram entre 1225 e 1175 BC. Mas conflitos, doenças, mudanças climáticas e desastres naturais não eram tão novidades para essa galera. Então os historiadores não sabem se o problema foi pq rolou tudo ao mesmo tempo ou se tem alguma outra coisa que aconteceu e não foi descoberta ainda. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Merneptah - https://en.wikipedia.org/wiki/Merneptah Povos do Mar - https://en.wikipedia.org/wiki/Sea_Peoples Fim da Era do Bronze - https://en.wikipedia.org/wiki/Late_Bronze_Age_collapse Fim da Era do Bronze - https://www.worldhistory.org/Bronze_Age_Collapse/ Fim da Era do Bronze - https://medium.com/view-from-space/civilizations-end-2e817cc3159d Tifão - https://www.worldhistory.org/Typhon/ Tifão 2 - https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0162%3Abook%3DP.