A Morte Das Areias do Saara
128 O Deus do Disco Solar
Notas iniciais

Os peixes do rio saltam diante de seu rosto quando suas raias estão no mar.
Tu que colocaste semente na mulher e fizeste o esperma em homem, que alimenta o filho no ventre de sua mãe, que o acalma com algo para parar seu choro; você é a enfermeira no útero, dando fôlego para nutrir tudo o que foi gerado.
~ Fragmento de “Hino a Aten”
No frio da escuridão da noite, Anput e Qebehsenuef surgiram no meio do deserto carregando Akhenaton com eles. O faraó, com olhos pesados, amarrado e o corpo mole devido a bebedeira, quase caiu de joelhos na areia, mas os dois deuses o seguraram.
Os três, contudo, não estavam sozinhos ali, assim como não eram apenas dunas, pedra e areia que os rodeavam. Ali havia um pequeno oásis, tão pequeno que havia espelhos d’água no Egito maiores do que aquilo. Provavelmente era um oásis em seus anos finais de vida, mesmo que apenas uma solitária tamareira se erguesse, ela ainda assim era magra e sem frutos. Logo ao lado da fraca árvore, havia uma tenda levantada e, dentro dela, estavam Ísis, Serqet e Amon-Rá.
Anput e Qebehsenuef ouviam as vozes abafadas da conversa entre os três deuses mas, antes de irem até lá, desamarram as faixas de linho que prendiam Akhenaton. Mesmo bêbado, o faraó ainda tinha consciência o suficiente para estranhar a ação dos dois deuses e, ao ver a boca livre, perguntar:
— Já estão me soltando?
— Bem, sim… — disse Anput — Deve ser desconfortável ficar aí preso sem conseguir se mexer direito.
— Não têm medo de eu fugir? — perguntou Akhenaton.
— Aten não tem como encontrá-lo aqui. — disse Qebehsenuef.
— Mas fique a vontade para tentar sair daqui por conta própria. — ofereceu Anput — Quando terminar tudo isso, se ficar aqui, te levaremos de volta ao palácio.
Uma gota de esperança surgiu no coração de Akhenaton, mas essa pequena gota logo secou-se ao olhar ao redor e ver apenas a imensidão do deserto. Não tinha a mínima ideia de onde estava. Sair dali podia facilmente significar ficar vagando pelo deserto até morrer de fome ou sede, ou, se desse sorte, pela picada de algum animal peçonhento. Derrotado e cansado, Akhenaton jogou-se na areia enquanto Anput e Qebehsenuef iam até a tenda.
— Temos que ir, senhor Amon-Rá. — dizia Ísis tranquilamente quando Anput e Qebehsenuef entraram, atraindo a atenção das duas deusas para os dois.
Amon-Rá estava sentado na tenda em uma confortável cadeira. Como um jovem curioso com uma nova leitura, estava debruçado sobre um papiro, apoiado sobre uma mesa. A mesa, a cadeira, o tecido da tenda, tudo era extremamente elegante e de alta qualidade. Era muito parecida com uma tenda de guerra de um faraó, a única coisa que não encaixava num cenário comum de uma tenda de guerra de um faraó, era um incenso de odor leve e relaxante que queimava por perto.
Nesse ambiente, esquecido no meio do deserto, o dedo do deus passava pelos hieróglifos no papiro conforme lia mas, a velocidade diminuía lentamente, até parar, com a entrada de Anput e Qebehsenuef.
— Olá… — disse Amon-Rá, olhando para os recém-chegados.
— Ele tentou ir até Akhenaton então… — deduziu Serqet ao ver os dois deuses ali.
— Sim. — respondeu Anput — Isso é um bom sinal, certo? Um sinal de que ele precisa do faraó para se manter.
— Sim… — concordou Serqet — Onde está Hapi?
— Bem… — disse Anput meio insegura em dizer para Serqet o que havia acontecido com seu filho — Quando Aten tentou salvar Akhenaton, Hapi acabou explodindo numa das explosões dele mas… acho que ele estava, como quase sempre, como água então…
— Então ele deve estar bem. — concluiu Serqet parcialmente aliviada.
— Ainda não conseguiram convencer Amon-Rá a ir se juntar na luta? — perguntou Qebehsenuef.
— Não está sendo tão fácil… — admitiu Ísis com um pesado suspiro — Achei que deixá-lo aqui, sem distrações, se concentrando, num lugar seguro, faria ele lembrar que tem algo pendente para fazer mas…
— Ele nem lembra que tem algo pendente para fazer? — perguntou Qebehsenuef, completamente chocado.
— Bem… mais ou menos… — disse Serqet — Às vezes lembra, às vezes nem tanto…
— Não fale assim, Serqet. — disse Amon-Rá — Não estou ficando caduco. Lembro-me bem que tenho uma luta para ajudá-los.
— Oh, lembrou então? — perguntou Serqet para Amon-Rá — Com quem é a luta?
— Bem… — disse Amon-Rá suspirando pesadamente e desviando os olhos para o papiro mais uma vez.
Os quatro deuses ficaram esperando o resto da frase por alguns segundos, mas ela não veio. Amon-Rá apenas ficou cabisbaixo, triste e envergonhado, sem coragem alguma de admitir em voz alta que não, não lembrava.
— Tem certeza que é uma boa ideia colocar ele pra lutar nesse estado? — cochichou Anput para Ísis.
— Ele conseguiu lutar bem com Hórus ontem, treinando… — disse Ísis que, apesar da fala, estava com o olhar preocupado para o deus do sol.
— Ele é o equivalente a Aten… — disse Serqet, cruzando os braços — É o que, com toda a certeza do mundo, aguenta essas explosões idiotas e com certeza é forte o suficiente para lidar com Aten.
— Mesmo nesse estado? — perguntou Qebehsenuef.
— Não falem assim… eu estou bem… — disse Amon-Rá suspirando pesadamente, não convencendo nem a si mesmo de que estava bem.
— Não é de hoje que ele não parece tão bem. — comentou Anput — O que Thoth disse sobre isso?
— Ele parece cada vez pior. — acrescentou Qebehsenuef.
— Está de fato cada vez pior. — disse Ísis — E essa situação com Aten piorou bastante. Thoth acha que é como se ele estivesse envelhecendo.
— Nós não envelhecemos… — resmungou Amon-Rá meio cabisbaixo enquanto fechava o papiro diante de si — Eu consigo… Eu consigo só… me dê uns segundos.
Em silêncio, os quatro deuses ficaram fitando Amon-Rá ou trocando olhares preocupados entre si. Claramente bem concentrado , Amon-Rá cruzou os dedos diante de si com os cotovelos sobre a mesa e apoiou o rosto sobre as mãos. Ele inspirou profundamente, deixando o cheiro do incenso chegar até si e tentou repetir as memórias que lembrava. Contudo, preocupantemente, notava os buracos nelas. Isso fez ele passar por elas novamente, e de novo, e de novo. A cada vez que ele passava, parte de uma memória surgia.
Repentinamente, Amon-Rá se levantou, altivo, íntegro, um poderoso líder nato, pronto para o confronto de corpo e alma. Era visível no olhar que Amon-Rá estava cheio de determinação.
— Estamos lutando contra Aten, o deus que Akhenaton acabou criando… Os dois são péssimas notícias para nós pois querem substituir a todos. Temos que nos preservar e preservar o poder do Egito. — disse Amon-Rá, querendo provar que estava bem — Precisam de mim para terminar de vez a luta já que ele é meu equivalente então eu aguento melhor os golpes e acrescento ainda para irmos logo, não é sábio demorarmos muito.
— Certeza que aguenta uma luta? — perguntou Ísis.
— Não me subestime assim. — pediu Amon-Rá — Onde eles estão?
— No Grande Mar de Areia do Saara — respondeu Ísis, isso também era uma informação que ele deveria saber, a parte do Saara em que eles estavam — Eu o levarei no lugar exato.
— Ficarei aqui com Akhenaton. — disse Serqet — Já temos mesmo a quase confirmação de que Aten precisa dele. É mais seguro assim.
Dar o nome da parte do Saara em que a luta acontecia não era suficiente. A área do “Grande Mar de Areia” era chamada de “Grande” por um bom motivo. Assim, com Ísis de guia, o grupo deixou aquele solitário e triste oásis para trás e foi para onde a luta acontecia.
Não precisou de muito tempo até Ísis, Anput e Qebehsenuef notarem que muito havia mudado desde quando deixaram os outros deuses lidando com Aten. Para começar, eles mal conseguiram ver nada ao seu redor, já que tudo estava completamente envolvido numa tempestade de areia. Contudo, era óbvio que estavam no lugar certo pois, no meio das rajadas fortes de vento e areia, eles conseguiam ver com dificuldade a forma do avatar de três deuses enquanto também ouviam os inconfundíveis sons de uma batalha.
As rajadas de vento com areia eram tão fortes que era possível sentir uma pressão na pele dificultando qualquer movimentação. Os deuses recém chegados ficaram com olhos entreabertos imediatamente e tentaram proteger o rosto com as mãos. Ninguém precisou perguntar, todos sentiam que aquela não era uma tempestade normal, era obra de Set.
— Fiquem aí… — disse Ísis, falando alto para que sua voz fosse ouvida em meio ao vento forte — Vou me aproximar com Amon-Rá.
No segundo seguinte, Ísis sumiu junto com o poderoso deus, deixando Anput e Qebehsenuef para trás, sozinhos num lugar onde era quase impossível ver ou ouvir qualquer coisa.
— Meio ruim ser constantemente deixado de lado das lutas porque não somos tão importantes, não acha? — perguntou Qebehsenuef falando alto devido a tempestade.
— Pelo menos você é quem protege os jarros canópicos e ainda é filho de Hórus… — comentou Anput, quase engolindo areia no processo.
— Vai por mim, não é tão legal ser filho do meu pai e não ser tão importante e forte quanto Hapi pelo menos. — acrescentou ele — Pelo menos a dor de cabeça de virar faraó se meu pai morrer ou abdicar vai ser de Hapi, isso é… se o resto do pessoal aceitar. O que eu acho difícil.
— Vamos torcer pra Hórus continuar então… — comentou Anput.
Com tal combinação perigosa de vento e areia bagunçando seus cabelos e impedindo que abrisse os olhos plenamente, Anput avançou lentamente alguns poucos passos, tentando entender o que acontecia ali. Não era tão fácil, sentia a pressão tentando a empurrar de volta para o ponto inicial. Quase abriu a boca para gritar pelos nomes de alguns dos deuses, mas temeu que isso a transformasse num alvo para Aten. Afinal, ele teria dificuldade em ver que ela não estava mais com Akhenaton.
— Não vá muito longe… — disse Qebehsenuef logo atrás de si.
— Não vou. — garantiu Anput.
— HAPI! — gritou Khnum no meio da confusão após o barulho de uma explosão, mas Qebehsenuef e Anput não viam onde Hapi e Khnum estavam.
Qebehsenuef e Anput tentavam entender o que acontecia, mas não era fácil decifrar os sons mascarados pela areia e o vento e juntá-los com a pouca visibilidade que tinham, então, seguiram lentamente avançando enquanto a tempestade tentava os empurrar para longe.
No seu pouco avanço, Anput repentinamente pisou em algo cuja textura e som ao toque de seu pé lhe pareceu um pouco diferente de areia. Era como se ainda tivesse a consistência de areia, mas era mais firme e, quando ela pisou sem querer, quebrou-se. Ela olhou para baixo e seu coração despencou ao ver a areia negra cuja forma lhe lembrou muito de quando Anúbis e Hathor morreram quando Aten surgiu a primeira vez.
— Isso é o que eu acho que é? — perguntou Qebehsenuef completamente assustado enquanto Anput dava um passo apressado para trás, sentindo-se culpada de pisar no que parecia um deus morto.
Ao dar um passo para trás, Anput esbarrou levemente em Qebehsenuef, que estava parado logo atrás de si. Com a respiração mais pesada e o peito doendo de tristeza, os dois tentaram desesperadamente identificar quem era que havia morrido. Quanto mais olhavam, mais notavam como a areia negra parecia o corpo de alguém apesar de rapidamente ir se despedaçando ao ser carregada junto com a tempestade de areia.
— Parece um homem… — disse Qebehsenuef, com voz assombrada, logo atrás de Anput — E pela luta não ter terminado ainda, dificilmente é Aten.
Essa percepção de Qebehsenuef era tudo que Anput não queria ouvir, ainda mais com a tempestade carregando para longe os restos do deus morto aos seus pés logo em seguida, impedindo qualquer investigação extra. Deixando de lado qualquer preocupação de Aten perceber onde ela estava, e também qualquer receio de engolir areia, Anput gritou a plenos pulmões:
— ANÚBIS! ANÚBIS! — gritou Anput enquanto os olhos percorriam desesperadamente o pouco que conseguia ver da batalha.
Ela parou para tossir e cuspir ao sentir a areia entrando em sua garganta, mas tentou ainda enxergar em meio a tempestade. Ela viu um chicote de fogo lançando alguém para longe e conseguiu identificar o grande avatar de Sekhmet e de Hórus. Ambos estavam intensamente machucados, lutando intensamente contra o avatar de Aten numa sincronia perfeita e admirável. Anput notou então que não estavam tão longe assim da luta. O combate de Hórus e Sekhmet foi então brevemente interrompido quando o grande e luminoso avatar de Amon-Rá surgiu e deu um poderoso soco no rosto de Aten.
O soco foi tão forte que derrubou o deus inimigo e uma onda de fogo, aparentemente que Aten juntava dentro de si para explodir contra seus inimigos, acabou explodindo de qualquer jeito. Amon-Rá tentou sugar parte desse fogo, mas ele ainda se espalhou perigosamente atingindo principalmente os que estavam mais perto e, dentre estes, derrubando Hórus ao chão.
— CUIDADO! — gritou Qebehsenuef quando restos dessa explosão foram na direção deles.
No último segundo, Qebehsenuef criou um pequeno escudo de proteção para os dois, fazendo com que eles passassem ilesos pelas chamas. Ainda assim, Hórus e Sekhmet, tão perto de Amon-Rá, foram os mais afetados. Hórus estava ao chão e as queimaduras de ambos se somavam. Em meio a dor, o avatar de Hórus piscou diversas vezes até se apagar. Com seu pequeno escudo, Qebehsenuef notou que a areia também não passava, então deixou o escudo erguido, numa esperança de conseguir evitar as complicações da tempestade de areia.
Mesmo tendo sido derrubado, Aten ainda estava muito acordado e pronto para a luta. Fogo queimava ao seu redor como se ele inteiro fosse uma enorme e poderosa tocha, mesmo que tivesse sido derrubado momentâneamente por Amon-Rá. Do chão mesmo, Aten apoiou suas mãos na areia e chutou Amon-Rá. O alvo era o queixo do deus, mas só conseguiu alcançar o estômago, pois uma forte e nada natural rajada de areia, com a forma de uma lâmina, passou atingindo seus pulsos, acabando com seu suporte.
Apesar de Amon-Rá quase ter caído com o chute de Aten, Sekhmet o segurou no último segundo enquanto a areia em lâmina, claramente criada por Set, seja lá onde estivesse o deus naquela tempestade, foi tão forte que cortou a pele de Aten. Sangue divino espirrou na areia, feridas horrendas marcavam os pulsos de Aten. Mais três ou quatro cortes daquele e Set conseguiria arrancar as mãos do adversário. Notando isso, irado, Aten invocou sua forte luz cegante de novo, por mais cansativo que fosse fazer isso e por mais que a areia dificultasse suas tentativas de cegar os outros deuses.
De tudo que acontecia, não era muito o que Anput e Qebehsenuef conseguiam ver, especialmente agora com a luz intensa de Aten lhes incomodando os olhos. Qebehsenuef fechou os olhos, mas Anput continuou tentando ver algo, mesmo que com o braço no meio do caminho. Afinal, estava extremamente preocupada e não queria que Anúbis morresse de novo. Mas então ela viu, naquela bagunça de luz e areia, uma névoa negra surgindo e envolvendo onde Aten estava.
— NÃO SE PREOCUPE COM A GENTE! — gritava Sekhmet no meu da confusão — APROXIME MAIS A NÉVOA DELE!
Anput suspirou aliviada ao identificar a névoa de Anúbis, enquanto Qebehsenuef arriscava tentar ver o que acontecia também, fazendo seu escudo mágico acompanhar os dois. O barulho de explosões e espadas se batendo voltou a inundar o pouco silêncio que a tempestade deixava passar, mas a primeira coisa que não fosse Amon-Rá e Sekhmet lutando contra Aten, que chegou até os olhos de Anput e Qebehsenuef foi a silhueta de alguém carregando uma outra pessoa, andando na direção deles.
Considerando que a luz ainda irradiava por trás da névoa e da areia, era muito difícil ser Aten quem se aproximava, já que era impossível não notar onde ele estava com a luz acompanhada de fogo, cujo calor Anput sentia aquecer desconfortavelmente em sua pele. Os dois confirmaram que não era Aten, quando identificaram Khnum se aproximando carregando Hórus desacordado, todo sujo de sangue que pingava pelo caminho, além de cheio de queimaduras espalhadas pelo corpo e um braço faltando e uma perna em estado deplorável.
Khnum não estava muito melhor. Estava com um rastro de sangue descendo por sua têmpora e seus braços estavam extremamente marcados por queimaduras horríveis e que com certeza doíam muito, mas o deus não deixava isso transparecer em seu rosto.
— O que aconteceu? — perguntou Qebehsenuef extremamente preocupado.
— A situação está tão ruim assim? — perguntou Anput preocupada — Está terrível para conseguir acompanhar daqui.
— Ele já apanhou muito. Uma das explosões foi aparentemente a gota d’água por enquanto. Sekhmet também parece estar nas últimas, mesmo resistindo mais que o resto. — respondeu Khnum deitando Hórus ao lado dos dois — Já estava achando incrível os dois aguentarem até agora. Não sabia que os dois lutavam tão bem juntos também.
— Eles treinam bastante juntos. — declarou Qebehsenuef enquanto ajustava o escudo para envolver os quatro.
— Khnum, quem morreu? — perguntou Anput — Vimos o que parecia ser os restos de alguém.
— Deve ter sido de Sobek ou Neith ou Tefnut. Hapi sei que não era… Estava tentando salvar o garoto a pouco… Mas… — disse Khnum com a voz cansada e deixando escapar um pesado suspiro — Seria legal não perder mais ninguém, especialmente se tiver parte dois disso tudo.
— E os outros? — perguntou Anput.
— Estão bem. Ao menos na medida do possível… — respondeu Khnum suspirando pesadamente — Se bem que, com essa areia idiota, é difícil ver. Anúbis estava bem até a última vez que eu vi, se é o que quer saber.
— Eu… ainda consigo… — resmungou Hórus acordando e ameaçando levantar.
— Pai… — disse Qebehsenuef se ajoelhando ao lado de Hórus, deixando ainda mais evidente o quanto eram tão parecidos, as maiores diferenças eram o rosto mais suave e gentil e os olhos de cores iguais de Qebehsenuef — Voltamos com Amon-Rá e Lady Ísis. Vai ficar tudo bem agora.
— E vai ser suficiente? — perguntou Hórus, com cara de dor, começando a se sentar com extrema dificuldade, mas logo se arrependendo da ideia e voltando a deitar — Ninguém quer falar em voz alta, mas todos já notaram que Amon-Rá está caducando.
— Ao menos Aten não parece conseguir manter o avatar e essa luz idiota ao mesmo tempo. — comentou Khnum.
Eles ergueram o olhar novamente para luta e de fato viram que Aten estava lentamente diminuindo de tamanho e só conseguiram ver isso pois viam Amon-Rá sugando a luz emanada pelo adversário. A luz com Amon-Rá ficava emoldurando o seu corpo musculoso e, com a névoa negra de Anúbis cada vez mais engolindo Aten, pior ficava de acompanhar a luta, mas, com concentração, era possível ver que Amon-Rá e Sekhmet não desfaziam seus avatares e continuavam numa luta voraz contra Aten com espadas e socos.
Revoltado, Aten tentou trocar a luz pelo fogo, tentou soltar explosões, mas pouco era possível ver disso uma vez que Amon-Rá sugava uma boa parte. Assim, como se numa tentativa de encher seu peito de determinação para usar de combustível para o fogo, Aten gritava tentando ignorar a dor e a ardência do toque da névoa negra em sua pele sem sentir que estava não só acumulando vários machucados, como também que seu corpo já tinha se acinzentado um pouco e perdido volume.
Aten secava e pingava sangue. Ele queria fugir, mas não conseguia. Estava preso naquele exato ponto por magias feitas por deuses escondidos no meio da tempestade de areia. Cada passo para alguns metros de onde estava já era custoso. Não poderia fugir de uma luta que estava sendo claramente feita com intenção de matar. Exatamente por isso que Aten usava a força total de seu pulmão para gritar e então acordar e convencer cada célula de seu ser a usar o máximo de poder em cada golpe. Foi essa mesma determinação que fez ele conseguir dar uma espadada na omoplata de Amon-Rá.
— Onde está a Lady Ísis? — perguntou Anput, preocupada.
— Ela, Thoth, Heka e Wadjet estão concentrados em feitiços para dificultar que Aten fuja daqui. — explicou Khnum, ansioso ao ver o desenrolar da luta — O maldito já está com medo de morrer. Thoth, Heka e Wadjet conseguiram segurar enquanto vocês estavam fora, mas a ajuda de Ísis é muito bem vinda. Os três devem estar exaustos. É um feitiço muito custoso, afinal de contas.
— Daqui não dá pra ver direito… — concluiu Qebehsenuef com um suspiro ainda ao lado de Hórus que, deitado, parecia combater a vontade de desmaiar.
— Eu vou voltar para lá. Não deixem esse teimoso ir também enquanto pelo menos não estiver com o braço inteiro de novo. Seria complicado demais se ele também morresse. — disse Khnum apontando para Hórus e logo saindo do escudo de proteção de Qebehsenuef, indo então de volta para a luta.
Sekhmet usava sua própria espada, se botando entre Aten e Amon-Rá, para tentar salvar seu parceiro de luta. Amon-Rá se livrou da espada de Aten, Khnum corria para se juntar à luta, Aten sorria ao queimar vibrantemente e então, explodiu mais uma vez. Dessa vez, Amon-Rá não sugou nada da explosão, então o dano foi total.
No último segundo, Khnum tentou criar uma barreira de água para proteger principalmente aqueles que impediam Aten de fugir mesmo sem ter noção exata de onde eles estavam. Ísis, Thoth, Wadjet e Heka formavam um círculo, era tudo que ele precisava saber para erguer sua parede de água usando onde Aten estava como centro e o local onde viu pela última vez um dos quatro como referência do tamanho do círculo.
Os deuses perto demais de Amon-Rá e fora da área de proteção parcial de Khnum foram empurrados para trás. Chamas queimaram Sekhmet, Anúbis e Set, que ficaram fora do círculo de Khnum. A explosão os jogou para trás, contra a parede d’água de Khnum, que apagou as chamas que lhe tomavam os corpos. Infelizmente, também era esperar demais que Khnum, às cegas, acertasse onde erguer sua proteção. Heka acabou sendo atingido pela explosão também e também foi empurrado contra a parede d’água de Khnum.
As chamas passaram inofensivas por Amon-Rá, que ficou parado em seu lugar vendo tudo se desenrolar como um espetáculo. Ferido e com a cabeça girando, Heka se levantou e voltou ao feitiço. Podiam se machucar e morrer, mas não podiam deixar Aten fugir.
— ACHA QUE EU NÃO SABIA QUAL ERA A SITUAÇÃO DE AMON-RÁ? — gritou Aten mostrando, no tom de voz, que qualquer controle e calma já tinham ido embora — DÁ PRA VER NOS OLHOS DELE!
— TEM ALGO ERRADO COM AMON-RÁ! — gritou Sekhmet ao olhar para o deus ignorando a extrema dor que vinha do braço decepado na última explosão.
— SET! O TESTE FUNCIONOU? — gritou Ísis repentinamente deixando o feitiço para os demais.
— FUNCIONOU! — gritou Set de volta — VAI QUERER FAZER AGORA?
— SIM! — gritou Ísis.
— TEM CERTEZA? — gritou ele em resposta, aparentemente entendendo o que aquele grito significava, claramente eles tinham planejado todos os detalhes e planos possíveis — COM AMON-RÁ COMO ESTÁ NÃO DÁ!
— CONFIA EM MIM! — gritou Ísis de volta — Vou resolver isso.
— ÍSIS! — gritou Khnum — HÓRUS NÃO VAI CONSEGUIR!
— O que estão planejando agora? — resmungou Aten.
— Como se fossemos contar para você. — respondeu Sekhmet, rasgando com os dentes uma faixa da barra de seu vestido e usando-a para prender a mão não dominante à espada.
Sekhmet estava exausta, sua mão não tinha nem mais força para segurar na arma, sangue escorria do lado direito do rosto queimado na última explosão que levou seu braço direito junto, sua visão estava muito embaçada e escurecida, mas o sangue de leoa queimava em suas veias. Lutaria até o fim, seja ele qual fosse, e foi exatamente isso que ela fez. Sekhmet partiu para cima de Aten, atacando-o sem dó nem piedade, usando cada vibra de sua força e lutando contra a dor ardente das chamas do adversário e da névoa negra que acabava por atingir sem querer repetidas vezes.
— Hórus… — disse Anput repentinamente — Posso…?
A pergunta de Anput morreu no ar, pois Hórus, quase desacordado, invocou uma lança ao seu lado.
— Eu já ia pedir pra você mesmo. — disse ele.
— Obrigada. — respondeu Anput antes de declarar para todos que pudessem ouvir — FAREI A PARTE DE HÓRUS.
— Pois bem… — resmungou Set antes de mudar completamente a tempestade de areia.
Foi como se milhares de grãos de areia se juntassem formando navalhas no ar que flutuavam todas ao redor do ponto onde Aten estava. As navalhas formadas eram tão numerosas e densas que a tempestade de areia perdeu grande parte de sua força e foi aí que todos finalmente conseguiram ter uma noção clara do campo de batalha.
Como puro fogo, Aten, em seu avatar, lutava intensamente contra Sekhmet. Amon-Rá, parecendo muito confuso, estava logo ao lado, diminuindo de tamanho voltando a sua forma normal enquanto Ísis corria em sua direção. Exaustos, machucados, com olhos pesados e pingando de suor, Thoth, Wadjet e Heka proferiram, em uníssono, palavras mágicas perfeitamente calculadas no feitiço, constantemente repetido, que não deixava Aten fugir. Khnum seguia mantendo sua parede de água, mas reajustou-a para incluir Heka, que havia ficado de fora e agora tinha os ferimentos para confirmar isso.
Anúbis e Set estavam bem no limite do círculo criado por Khnum, tanto que sentiam a parede de água engolir em seus calcanhares e respingar em suas costas. A areia do campo de batalha estava repleta de sangue salpicado e misturado na areia. Qualquer sinal do guerreiro de pedra que Anúbis tinha invocado antes de Anput sumir com Akhenaton, claramente já tinha sido carregado para longe pela tempestade de areia, tal como os restos de Hapi, Sobek, Neith e Tefnut.
Num tempo perfeitamente calculado, sem dar para Aten nenhum segundo para processar onde e como cada um estava, Set usou toda sua força para controlar uma daquelas navalhas de areia na direção do pescoço do avatar de Aten. Um pequeno corte no pescoço foi feito pelo ataque, que se refletiu no corpo verdadeiro do deus, envolvido por este. Com visibilidade melhor, Anúbis usou sua névoa para envolver o corpo de Amon-Rá o mais rente possível ao deus e mais uma lâmina de areia de Set atingiu o pescoço, no mesmo ponto da primeira.
Aten gritou de dor e seu avatar diminuiu de tamanho quando entendeu que eles queriam arrancar-lhe a cabeça na marra. Ísis segurava Amon-Rá pelos ombros e olhou-o intensamente com olhos calmos e tranquilos, que não condiziam com a situação.
— Precisamos de você. — dizia Ísis para Amon-Rá — Hórus pode até ser o faraó, mas é o maior entre nós.
— Eu… não… — disse Amon-Rá logo suspirando frustrado enquanto mais uma das lâminas de areia de Set atingia o alvo — Certeza que ele merece isso? Não lembro o que ele fez… mas vocês vivem brigando entre si.
— Ele não é um de nós. — lembrou Ísis ao som da quarta lâmina de areia, o pescoço de Aten já estava quase pela metade — Ele quer nos substituir e ser o único deus. Fez diversas atrocidades já. Não vê como estamos lutando juntos? Set, Hórus, Khnum, eu e os demais… Acha mesmo que conseguiríamos deixar nossas diferenças de lado se não fosse extremamente necessário para nossa própria sobrevivência?
Aten decidiu ignorar Sekhmet e correr na direção de Set, mas a deusa leoa agarrou-o pelas costas com seu musculoso braço, ignorando qualquer queimadura. Khnum, mesmo com a atenção já dividida pela parede d’água, invocou seu avatar e correu para fazer o mesmo que Sekhmet.
— Não. — admitiu Amon-Rá enquanto Aten explodia, matando Sekhmet e ferindo os demais, que lutaram para permanecer no mesmo lugar, apesar de tudo — Mas o que eu tenho que fazer? Só brigar?
— Lembra do que nós conversamos quando eu disse que tinha um deus novo que queria te imitar? — perguntou Ísis — Lembra do que me disse?
A parede d’água de Khnum caiu após a explosão pois ele recebeu muito dano, já que abraçava Aten, impedindo-o de avançar contra Set. Os outros, por outro lado, usaram tudo de si para lidar com as feridas. Aten gritou fracamente, sentia a consciência lhe deixar enquanto sua visão ficava turva e embaçada, mas neste momento que Anúbis aproveitou para forçar a névoa a entrar pela garganta do deus, corrompendo o que estivesse no caminho.
A névoa entrou rasgando e corroendo tudo no caminho. Aten fez um barulho de engasgo e logo parou de gritar, pois era muito dolorido continuar. Seus olhos rolaram para cima, suas mãos se ergueram até sua garganta e, inconscientemente, começaram a arranhar a pele profundamente, como se isso fosse fazer a névoa sair. Sangue rolava pelo pescoço de Aten, saindo das feridas criadas pelo próprio ou por Set, e rolava pelo seu corpo até pingar em Khnum, ainda o segurando apesar da intensa dor e menor insistência de Aten em avançar.
Os deuses podiam estar fervendo de ódio de Amon-Rá e com muita vontade de matá-lo, mas tinham que ter cuidado. Não queriam que ele fosse para o Duat, ou sabe-se lá para onde, e voltasse para os perturbar novamente. A intenção era enfraquecê-lo e sela-lo, a primeira parte não tinha dado muito certo, então foram para o plano mais sangrento que necessitava de Amon-Rá para fazer a parte final.
— Acho que não… — disse Amon-Rá lentamente enquanto mais uma navalha cortava mais do pescoço de Aten — Calma… lembro… lembro sim. O boneco de lama.
— O boneco de lama. — confirmou Ìsis com a doce voz sendo ouvida poucos segundos antes do som de outra navalha de areia de Set.
Os joelhos de Aten perdiam a força, suas mãos seguravam a própria cabeça, os olhos perdiam o foco. Ele já não gritava, nem se mexia, nem queimava, nem brilhava. O último fio de consciência parecia consistir em manter sua cabeça no lugar, com medo do que a próxima navalha de areia pudesse fazer enquanto torcia para se curar.
— É a próxima. — declarou Set enquanto juntava toda a areia restante numa única e poderosa navalha, de longe a maior de todas.
Anput segurou a lança mais firmemente em sua mão, Hórus invocou outra e olhou para Qebehsenuef, que pegou-a, pronto para substituir o que ele sabia ser trabalho de Sekhmet. Então, ao mesmo tempo, sob o som do feitiço proferido por Thoth, Heka e Wadjet, Anput, Qebehsenuef e Set atacaram ao mesmo tempo. As lanças de Anput e Qebehsenuef perfuraram o corpo de Aten e a navalha final de Set conseguiu decapitar o deus.
O corpo de Aten caiu no chão quando Khnum o soltou. Aten estava sem avatar, sem fogo, sem explosões, sem vida. Sua cabeça rolou pela areia e, ofegantes, os deuses ficaram preocupados com o que aconteceria a seguir, mas Amon-Rá simplesmente andou até a cabeça de Aten e pegou-a. Amon-Rá colocou a cabeça de Aten sobre o corpo decapitado, que começava a trocar de cor, se transformando num leve amarelo emoldurado pelo branco.
Como se estivesse lentamente se transformando em lava, Aten derretia lentamente mas, mesmo sem fogo, ele ainda era intensamente quente. Mesmo de longe, era fácil sentir o calor intenso, mas Amon-Rá ignorou tudo isso, afinal ele não sentia nada. O fogo era seu amigo. Para si, o corpo de Aten era como uma massinha que ele pacientemente começou a moldar no formato de um disco enquanto Ísis se juntava à magia feita pelos demais, que agora mudava de figura.
Todos os deuses aptos para tal, se juntaram na recitação do feitiço enquanto Amon-Rá moldava o corpo de Aten no formato de um disco antes que este desaparecesse por completo devido à morte. Era isso que o deus do disco solar merecia. Hieroglifos negros flutuavam no ar, criando um círculo ao redor de Amon-Rá e Aten, e rapidamente mergulhavam em direção ao corpo de Aten, impedindo que o corpo sumisse e pudesse ser selado naquela forma, morta e frágil.
Tudo foi feito para impedir que Aten voltasse, afinal Akhenaton estava vivo ainda e sabe-se lá quão forte a fé em Aten queimava nos parentes do faraó e em alguns dos seus súditos. Juntos, selariam Aten naquela forma, um mero disco, uma imitação barata do sol, que era exatamente o que ele era.
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