A Morte Das Areias do Saara

129 A Imagem Viva de Amon


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap yeey na imagem de hoje, temos um gatinho fofo! iti malia! ele tá num templo com paredes brancas com vários hieróglifos e pinturas coloridas. tem folhas de palmeira e flores no chão também.

Quando ele desce do útero para respirar no dia em que nasce, você abre sua boca completamente e supre suas necessidades.

Quando o filhote no ovo fala na casca, você lhe dá ar dentro dela para sustentá-lo.

Quando você lhe concede o tempo designado para sair do ovo, ele sai do ovo para gritar em seu cumprimento, e ele vai sobre as pernas quando sai dele.

~ Fragmento de “Hino a Aten”

O leve vento que batia naquela parte do deserto era fraco, mas conseguia suavemente levantar um pouco de areia, criando uma camada de poeira que chegava aproximadamente na altura da cintura dos deuses ali presentes. Exaustos, um a um eles foram se largando na areia, caso já não estivessem assim, como era o caso de Hórus, ainda deitado ao lado de Qebehsenuef.

Com passos pesados, Ísis ia até Hórus, cujo sangue ainda jorrava, manchando a areia de um tom de prata que seria extremamente belo se não fosse a origem violenta deste. Com tanto cansaço e ferimentos juntos no mesmo lugar, ninguém tinha energia para se quer lembrar do pobre Akhenaton, sozinho no meio do deserto com Serqet.

Outros que insistiram em usar as energias finais, foram Anúbis e Anput. A diferença de energia entre os dois, contudo, foi óbvia já que Anput correu até o amado, já que ela tinha participado bem pouco da luta. Anput quase se jogou no abraço, mas parou quando viu as queimaduras que estavam por todo o corpo de Anúbis. Felizmente, era visível que elas estavam se curando.

— Belo lançamento de lança. — disse Anúbis.

— Você está bem? — perguntou Anput ignorando o elogio.

— Estou… na medida do possível ao menos. — disse Anúbis lentamente sentando-se no chão mas se arrependendo disso ao sentir o toque nada gentil da areia nos ferimentos — Só preciso de um momento. É muito cansativo tentar fazer a névoa ir contra o vento da tempestade de areia e ainda mais todo o resto…

— Fiquei com medo de você ter morrido de novo, quando não vi você por causa da tempestade de areia. — disse Anput, preocupada, sentando-se na frente de Anúbis.

— Fiquei com medo de ter acontecido algo com você, quando você gritou que Aten estava perto de você, Akhenaton, Hapi e Qebehsenuef e logo depois ele explodiu. — admitiu Anúbis.

— Esqueceu que já tínhamos combinado de fugir dali se ele chegasse muito perto de Akhenaton? — perguntou Anput.

— Não… — respondeu Anúbis — Só temi pelo pior mesmo.

No centro de deuses largados no chão descansando e se recuperando, ainda estava Amon-Rá, segurando o disco incandescente que era Aten. O disco incandescente vibrava na mão do deus e o calor era sentido por todos ao redor, mas aparentemente estava tudo bem. O detalhe final era que eles não poderiam simplesmente deixar aquele disco largado no meio do deserto. Ou seja, eles ainda tinham coisas pendentes.

Com Hórus suficientemente curado apesar de ainda estar com o braço faltando, Ísis insistiu para que suas pernas andassem até Amon-Rá e torceu para que sua pele não reclamasse do calor exalado por Aten. Ela se ajoelhou na areia, diante de Amon-Rá, que também estava ajoelhado e falou:

— Temos que ficar de olho nele. — disse Ísis.

— Não é bom deixá-lo no Duat. — opinou Hórus, sentando-se com dor com ajuda de Qebehsenuef — Sabe-se lá o que pode aprontar assim.

— O que faremos então? — perguntou Amon-Rá.

— Lembra que falamos de Khnum e Ptah lhe ajudarem a escondê-lo embaixo do mar? — perguntou Ísis para Amon-Rá — Assim ele deve ficar mais frágil e a água pode esfria-lo ao menos um pouco.

— Qual mar? — perguntou Amon-Rá.

— O Vermelho deve ser mais seguro. — disse Hórus.

— Eu e Ptah vamos acompanhá-lo para o melhor lugar. — disse Khnum educadamente — Profundo o suficiente para os mortais não acharem por engano, perto o suficiente do Egito para conseguirmos ficar de olho sem problemas. Construiremos, bem profundamente no oceano, algo para comportar o disco. Constantemente iremos lá checar e vamos torcer para ele desaparecer depois que Akhenaton e sua família morrer.

Amon-Rá se ergueu, segurando o disco que era Aten firmemente nas mãos, e foi até Khnum. Juntos, os dois partiram em busca de Ptah. Os demais deuses simplesmente ficaram acompanhando a cena com os olhos, pois estavam cansados demais para fazer algo mais além disso.

— Falando em Akhenaton.. tenho que devolvê-lo para o palácio… — comentou Anput.

— Eu vou com você… — disse Anúbis.

— Não. — respondeu Anput — Vá descansar. Está com uma aparência horrível. Nos encontramos depois no Salão do Julgamento.

Antes que Anúbis pudesse dar algum contra-argumento ou segui-la, Anput rapidamente depositou um leve selinho nos lábios dele e então partiu, rumo ao oásis onde havia largado o faraó. Sem Anput por ali e com todos lentamente indo para algum lugar mais convidativo para descansar, Anúbis fez o mesmo e foi direto para o Salão do Julgamento.

A aparição de Anúbis imediatamente chamou a atenção de Osíris que, até então, estava andando de um lado para o outro, preocupado com os resultados da batalha. Osíris deixou escapar um suspiro de alívio ao ver Anúbis e foi caminhando até ele junto com Ammit enquanto Anúbis deslizava até o chão na parede mais próxima.

— E então? — perguntou Osíris.

— Tivemos que incluir Amon-Rá na luta mas, deu certo. — respondeu Anúbis escondendo a dor que sentiu quando Ammit deitou em suas pernas, ainda feridas pela explosão de Aten que o empurrou para trás — E Aten realmente tentou resgatar Akhenaton.

— Não deve confiar tanto assim em Nefertiti e nos demais mortais para manterem seu culto… — disse Osíris — Isso é bom. Mais 5 anos e a expectativa de vida de Akhenaton terá terminado.

— Uhum. — resmungou Anúbis apoiando a cabeça na parede, fechando os olhos e acariciando atrás da orelha de Ammit.

— Está bem? — perguntou Osíris sentando-se ao lado de Anúbis percorrendo demoradamente os olhos pelas queimaduras espalhadas pelo corpo do jovem que pareciam dolorosas, mesmo que fosse visível que estava se curando.

— Cansado. — respondeu Anúbis — Ao menos as queimaduras estão melhorando.

— Sinal que foi mesmo uma boa batalha. — disse Osíris — Nos cansarmos costuma ser tão difícil.

— O cansativo mesmo foi controlar a névoa enquanto Set ainda fazia uma tempestade de areia. — disse Anúbis — O vento da tempestade é forte demais.

— E com Set estando no habitat dele, estranharia se não fosse forte demais. — disse Osíris — Como estão os outros?

— Hórus estava bem mal, mas vivo e Ísis o curou suficientemente. — disse Anúbis sem abrir os olhos para ver o traço de preocupação e tristeza que cruzou o rosto de Osíris — Hapi, Sekhmet, Sobek, Neith e Tefnut morreram.

— Quão mal estava Hórus? — perguntou Osíris.

— Perdeu um braço, estava bem queimado e a perna estava terrível. — explicou Anúbis — Ao menos já tinha parado de sangrar quando eu saí de lá. Até o sol nascer deve estar bem de novo.

— Bem, vou deixá-lo descansar. — disse Osíris ao ver Thoth, igualmente exausto, chegando no Salão do Julgamento.

Enquanto Osíris continuava tentando matar sua curiosidade com Thoth, no meio do deserto, Anput e Serqet olhavam, de braços cruzados para Akhenaton. O faraó estava dormindo ao lado do oásis, enrolado em si mesmo como uma bola e fedendo fortemente à álcool. A cena fez a deusa escorpião soltar uma pequena risada. Como podia alguém que lhes trouxera tantos problemas estar num estado tão deplorável?

— Vendo assim, nem parece que foi ele quem começou todo esse problema. — disse Serqet.

— Realmente não. — respondeu Anput — Mas ele não parecia tão deplorável assim antes.

— Imagino que a morte de tantos parentes próximos no mesmo ano tenha o derrubado bastante. — disse Serqet.

— E também o único herdeiro ter nascido aleijado. Talvez perder Aten seja um golpe final agora na força mental de Akhenaton. — completou Anput — Acha que Tutânkhaten irá virar faraó quando Akhenaton morrer? Não falta tanto assim…

— Não sei. — respondeu Serqet — A real pergunta é qual panteão Tutânkhaten ou qualquer faraó que vier irá escolher. O de Aten, ou o nosso.

— Ou um terceiro… — sugeriu Anput.

— Nem sugira isso. — resmungou Serqet chegando a ranger os dentes.

Mesmo com o faraó desacordado, Anput pegou-o e juntos, partiram para o palácio, onde Akhenaton poderia dormir e se render a bebida em segurança. Não queria deixar Akhenaton no próprio quarto já que Nefertiti também poderia estar lá. Além disso, verdade seja dita, por mais que a rixa deles tinha sido principalmente com Aten, Akhenaton estava longe de ser bem quisto por qualquer um dos deuses, incluindo Anput. Assim, o máximo de trabalho que ela se deu foi deixar o faraó deitado num banco de pedra no jardim do palácio.

Anput até ouviu as vozes preocupadas dos guardas procurando o faraó em todo lugar e questionando onde ele teria ido parar. Seria engraçado ver o choque deles ao ver o faraó simplesmente dormindo no jardim, onde eles provavelmente já tinham conferido antes. Contudo, não tinha tanto interesse em continuar ali para ver a cena, ela foi logo para o Salão do Julgamento, fazer companhia para Anúbis.

Mesmo considerando o cansaço e os ferimentos dos deuses, até mesmo Hórus, o mais machucado mas ainda vivo dentre eles, todos estavam bem como se nada tivesse acontecido quando o sol nasceu. O disco que restou de Aten estava também bem escondido nas profundezas do Mar Vermelho, dentro de uma espécie de caixa de pedra, bem pesada, construída pelos deuses.

Quase dois anos se passaram até todos os deuses que foram mortos por Aten conseguissem voltar. Nesses dois anos, constantemente algum deus ia checar como estava Aten e comemoravam cada checagem em que nada mudava. Era bom que Aten ficasse assim até a morte de Akhenaton, quando, na melhor das hipóteses, começaria a desaparecer. Mesmo assim, os deuses ainda estavam tensos. Akhenaton podia não ter mais o fervor que tinha antes nem estava conseguindo gerar mais algum filho, mas ainda estava vivo.

A boa notícia era que, com informações dadas pelos deuses, os sacerdotes contrários à Akhenaton começaram a espalhar para quem quer que fosse, que o deus falso do faraó tinha recebido o que merecia. O fato de que uma praga havia se espalhado pelo Egito, ceifando vidas também por todo o Oriente Médio era uma prova de que os deuses estavam extremamente insatisfeitos com Akhenaton.

Com Akhenaton fraco e desmotivado, coube a Nefertiti começar a assumir os deveres do marido. Primeiro a rainha atuava em poucos detalhes, mas cada vez mais ia se tornando mais presente e importante, até, com o passar dos anos, reinar com importância em igualdade com Akhenaton. A cada ano de reinado de Akhenaton, os deuses temiam que ele fizesse algo, mas o faraó pareceu ter aceitado a sua derrota, embora não tivesse aceitado os antigos deuses egípcios para si. Eventualmente, para tristeza de Nerfertiti e alegria dos deuses, Akhenaton ficou enfermo, acabando confinado em sua cama.

— Nefertiti, meu amor… — disse Akhenaton fracamente um dia em que Nefertiti lhe fazia companhia apertando gentilmente sua mão e acariciando seu rosto.

— Diga… — disse a rainha gentilmente.

— Poderia ouvir o meu último pedido? — perguntou Akhenaton.

— Não seja tolo. — disse a rainha — Irá melhorar e voltará a governar forte e poderoso.

— Tolo seria acreditar nisso… — disse Akhenaton, lutando para dizer cada palavra — Não tenho mais o poderoso Aten ao meu lado, os deuses o mataram. Nenhum deus está por mim. Sinto olhos me observando todo dia… esperando eu fazer algo condenável ou definhar para a morte.

Dessa vez, Akhenaton não sentia, mas desde que ficou confinado à cama, sempre algum deus estava ali, olhando, praticamente numa contagem regressiva esperando pela a morte do faraó. Apesar de as conversas entre o povo indicarem cada vez mais uma guerra no Levante, agora que os hititas praticamente engoliram o Império Mitanni para si e não pareciam interessados em parar por aí, os deuses preferiam Akhenaton morto mesmo que isso significasse um faraó criança em seguida.

— M-Mas… ainda é jovem… — disse Nefertiti quase se deixando render às lágrimas, mas aguentando firmemente.

— Nossas filhas e minha irmã também eram. — lembrou Akhenaton — Não lembra mais delas?

— Acha mesmo que eu vou esquecer de nossas filhas assim? — perguntou Nefertiti sentindo-se ofendida, mas, controlando-se, já que ele estava muito fraco — Sempre que olho para Meritaten e Ankhesenpaaten eu lembro das irmãs dela… Preciso de muito para não começar a chorar.

— Cuide delas, e de Tutânkhaten também. — pediu Akhenaton — Esse é meu pedido.

— Não precisava nem pedir. Não sabia disso? — perguntou Nefertiti.

Akhenaton abriu um sorriso fraquíssimo, que partiu o coração da rainha. Algumas poucas semanas depois desse momento entre os dois, Akhenaton morreu. Ele foi sepultado em Amarna e, em seu túmulo, provando que ele permaneceu acreditando e seguindo Aten até o final de sua vida, a seguinte frase foi gravada: “Que um túmulo seja feito para mim na montanha oriental de Amarna. Que meu sepultamento seja feito nele, nos milhões de jubileus que Aten, meu pai, decretou para mim.”

Akhenaton faleceu sem saber onde iria parar. Que pós-vida receberia considerando que o deus que seguia estava morto, ao menos até onde ele sabia? Akhenaton não tinha a resposta para isso. Assim, deixou a escuridão o envolver mantendo o coração extremamente desapontado e triste, mas pronto para o que quer que fosse. Contudo, ele não esperava que, diante dele, iria ver o Salão do Julgamento dos deuses para os quais tinha dado as costas.

Diante dos deuses, do trono de Osíris e da balança do julgamento, Akhenaton deu passos receosos para trás enquanto negava com a cabeça. Sentia o medo engolir seu coração ao sentir o peso do olhar dos deuses.

— Não… não… — resmungava Akhenaton andando cada vez mais para trás até bater com as costas numa parede. Ao olhar para trás, Akhenaton viu que a porta pela qual entrara tinha desaparecido.

— De fato nosso assunto principal era com seu deus, mas não podíamos deixar você passar assim… — disse Osíris suspirando pesadamente — O julgamento final sempre tem que vir.

— Acha que não sei o que vão fazer comigo? — perguntou Akhenaton — Vão me jogar direto para Ammit.

— Quem disse? — perguntou Anúbis se aproximando de Akhenaton, que a cada passo do deus, mais se prensava contra a parede — Podemos ser mais criativos do que isso.

— Vão me dar um julgamento injusto ainda assim. — disse Akhenaton.

— Aqui, somos imparciais. — disse Osíris.

Anúbis parou diante de Akhenaton completamente sério e imperturbável enquanto o ex-faraó tentava se sobrepor, estufando o peito e deixando a coluna ereta. Os dois se encararam por alguns segundos até que Anúbis falou:

— Imagino que não saiba os feitiços que as almas costumam gostar de dizer quando chegam até aqui.

— N-Não… — resmungou Akhenaton.

Sem avisar e sem esperar, Anúbis bruscamente arrancou o coração de dentro do peito de Akhenaton que gritou de dor e caiu de joelhos no chão.

— A-Achei q-que seriam justos comigo… — disse Akhenaton.

— Dissemos “imparciais”, não “gentis”. — respondeu Anúbis — Não foi gentil com aquelas crianças que construíram Amarna para você mesmo. Porquê eu deveria ser com você?

— Porquê eu sou… era… um faraó! — resmungou Akhenaton tentando se erguer, mas suas pernas estavam bambas.

— E? — perguntou Anúbis parando ao lado da balança com o coração de Akhenaton na mão.

— Coloque-se no seu lugar. — disse Hórus que, até então, tinha ficado quietinho em seu lugar, acompanhando a cena tal como vários estavam — Pode estar acima de todos no Egito. Mas aqui, está abaixo de todos.

Claramente fazendo de mal gosto e por pura obrigação, sem qualquer cerimônia, Anúbis colocou a pena da verdade de Maat de um lado de balança e o coração de Akhenaton do outro. Akhenaton era um bom pai e um bom marido no final das contas, isso com certeza fazia um certo peso na decisão da balança, mas, olhando no geral, logo a balança deixou de lado qualquer indecisão e mostrou que o coração de Akhenaton era mais pesado que a pena da verdade.

Akhenaton ficou cabisbaixo e passou a fitar o chão, nem um pouco surpreso. Aliás, ninguém ali parecia minimamente surpreso, nem mesmo Ammit que, apesar do resultado, nem se levantou para devorar Akhenaton. Continuava simplesmente parada ao lado da balança, fingindo ser ameaçadora. Todos tinham uma ideia de que a punição de Akhenaton não viria pelo estômago de Ammit, por isso tantos haviam se reunido para presenciar aquele momento raro.

Com um breve olhar para Osíris, Anúbis confirmou que os planos não haviam mudado, já que Osíris afirmou brevemente com a cabeça, aprovando o passo seguinte.

— Akhenaton… — disse Anúbis — Negou os deuses do Egito, forçou o povo a seguir seu deus. Na pressa de construir sua nova capital, forçou crianças ao trabalho forçado e exagerado, levando-as à morte. A inexistência que ser devorado por Ammit causa é uma punição leve demais para seus erros. Con-

— E vocês amaldiçoaram minha família… — disse Akhenaton, fechando os punhos com força, interrompendo Anúbis completamente — Minhas filhas morreram! Minha mãe morreu! Minha irmã morreu! Meu filho nasceu aleijado e não consegui gerar mais herdeiros! Se o julgamento final sempre vem, quem julgará vocês?

— Como ousa? — perguntou Hórus enquanto Osíris e Anúbis erguiam levemente as sobrancelhas, surpresos.

— ACABE COM ELE LOGO! — gritou Khonsu ao mesmo tempo.

— É! MATEM ELE LOGO! — gritou Sobek.

— Ele já tá morto… — respondeu Nekhbet.

— Você sabe o que eu quis dizer… — respondeu Sobek.

— Esses mortais estão cada vez mais rebeldes… — comentou levianamente Serqet ao mesmo tempo.

A mera fala de Akhenaton criou um pequeno caos entre os deuses. Eles começaram a falar e gritar ao mesmo tempo, revoltados com o falecido faraó. Um dos deuses chegou até mesmo a ponto de lançar um figo contra o faraó que, sendo apenas uma alma, não foi atingido já que o figo passou direto.

Tentando juntar paciência, Anúbis bufou e revirou os olhos antes de voltar a falar e, dessa vez, com um tom de voz mais alto, na esperança de que o resto dos deuses ficassem quietos.

— CONDENO-TE A sentir um pouco do mal que causou. — disse Anúbis gradualmente abaixando a voz até voltar ao normal — Por toda a eternidade, carregará pedras mais pesadas que você, mais pesadas do que consegue aguentar, para construir uma cidade que nunca ficará pronta.

— PERA! — gritou Akhenaton numa última tentativa de se livrar mas, quando Anúbis bateu com o cetro no chão, o Salão do Julgamento sumiu.

O faraó se viu no meio do nada, estava só ele no deserto que ele tinha certeza que não era um deserto normal, pois a areia era cinza, não branca nem amarelada, e no céu negro não havia uma única luz ou estrela mas, ainda assim, ele conseguia ver tudo claramente. De repente, uma enorme pedra, com o dobro da grossura de seu tronco, surgiu na sua frente. A gravidade logo ameaçou puxar a pedra para o chão mas, magicamente, os braços de Akhenaton se moveram e ele segurou a pedra com enorme dificuldade.

No esforço para não deixar a pedra cair, esta bateu em suas pernas, causando uma enorme dor. Akhenaton mal podia respirar dado o peso da pedra e sentia os nós dos dedos gritarem em puro desespero, sofrendo pelo peso, mas eles pareciam grudados no bloco.

Seu sangue subia para a cabeça em meio ao esforço intenso para aguentar aquele peso completamente desproporcional para o que conseguia de fato carregar. Então, sem qualquer controle sobre o corpo, sua perna se moveu dando um pequeno e doloroso passo. Tal passo havia sido tão difícil que mal conseguiu erguer o pé, apenas deixou ele deslizar pela areia e, quando o pé completou sua difícil trajetória, Akhenaton conseguiu puxar um pouco de ar antes que o outro pé fizesse o mesmo.

O processo se repetiu sem qualquer controle de Akhenaton. Passo, respiração, passo, respiração, passo, respiração, passo, respiração. O controle sob o próprio corpo podia ser nulo, mas a dor causada pelo peso era toda sua, assim como as lágrimas que rolaram pelo seu rosto provavam. Suas costas protestavam, sentia como se elas fossem quebrar, mas ele seguiu andando mesmo assim até um outro bloco de pedra surgir no horizonte, já largado sobre o chão.

Queria jogar-se no chão, largar tudo e fazer nada, mas seu corpo não obedecia. Akhenaton andou até ficar diante do segundo bloco de pedra e, mal tendo consciência o suficiente para algo mais, conseguiu largar o bloco de pedra que carregava sobre o segundo. Era uma operação que devia ser feita com algum cuidado, ou o bloco que caía podia ficar torto e cair no pé dele. Aliviado por não ter mais peso para carregar, Akhenaton se deu o direito de respirar um pouco mas, enquanto pensava em se jogar sobre a areia para deitar ali mesmo, outro bloco de pedra surgiu no ar diante dele.

Os dois blocos de pedra à sua frente, pousados no chão, sumiram, um único bloco solitário apareceu no horizonte, o bloco de pedra no ar caiu. Os braços do faraó se moveram sozinhos para segurar o bloco de pedra corpulento e mais uma vez, seus pés começaram a andar sozinhos ignorando qualquer dor ou cansaço que Akhenaton pudesse ter. Akhenaton chorou com o pouco de liberdade que tinha. Estava preso num ciclo de tentar empilhar blocos de pedra maciços que desapareciam e reapareciam, sem deixar ele sequer conseguir colocar três um em cima do outro.

Numa energia completamente oposta a Akhenaton, os deuses no Salão do Julgamento, em sua maioria, logo desataram a comemorar. Eles riam a plenos pulmões e logo conseguiram arranjar um bom vinho para degustar. Sem participar das comemorações, Anúbis, Osíris, Hórus, Ísis, Hathor e Anput se reuniram no centro do Salão do Julgamento, ainda preocupados.

— Parece que não vamos ter como continuar os julgamentos por algum tempo… — disse Osíris olhando para a festa que os deuses começavam.

— É muito cedo para comemorar. — lembrou Hórus.

— Sei disso. — respondeu Osíris.

— Ainda nenhuma novidade de Khnum? — perguntou Anput.

— Ainda nada. — respondeu Ísis — Mas ele deve vir logo.

— Ou melhor… — disse Hathor — Não é como se não tivesse nenhuma novidade, é só que a informação que ele tem para dar ainda é a mesma. Aten não desapareceu ainda.

— Acha que vamos ter que esperar mais quantos anos? — perguntou Anúbis — Talvez até os filhos dele e os nobres mais próximos morrerem?

— Talvez… — disse Osíris dando de ombros — Sua religião já perdeu muito prestígio entre o povo. O pouco que já tinha, na verdade. Não acho que vamos ter que esperar mais muito.

— Só quando Aten sumir poderemos de fato ficar mais tranquilos. — disse Ísis.

— Acham que alguém pode fazer ressurgir o culto a ele? — perguntou Hathor.

— Não tem como saber… Isso é o pior. — disse Osíris suspirando pesadamente — Tudo pode acontecer.

— E ainda temos que nos preocupar sobre uma provável guerra com os hititas… — disse Hórus — Eles não param de avançar suas fronteiras, e logo chegarão no Egito.

— Com Tutânkhaten faraó, isso não será tão bom. — comentou Hathor.

— Falando nos hititas… — disse Anúbis, olhando para Hórus — Você ouviu falar também, certo? Sobre os estrangeiros de Amarna.

— Amarna é cheia deles… — disse Osíris enquanto Hórus afirmava com a cabeça — Mas o que aconteceu com eles?

— Agora que Akhenaton morreu, eles estão lentamente voltando para suas casas. — explicou Anúbis — Hititas, mitanni, assírios e uns babilônicos. A maioria vem do noroeste, e pra lá estão voltando contando para todos sobre Akhenaton e Aten.

— Estão espalhando pelo oriente essa história de “deus único”. — resmungou Hórus — Não se surpreendam se algum Akhenaton 2 surgir para esses lados…

— Não vai ser problema nosso mas podem vir nos acusar… o que vai acabar sendo problema nosso. — disse Ísis, pensativa.

— Acho que.. talvez seja melhor nos preocuparmos com uma coisa de cada vez, não? — disse Anput — Por enquanto, não acham melhor vermos como vai ser o começo do reinado de Tutânkhaten?

— Concordo. — disse Anúbis e Hórus confirmou com a cabeça.

— Uma coisa de cada vez. — disse Hórus.

Nesse momento, Khnum entra no Salão do Julgamento atraindo a atenção da maioria dos deuses. A pergunta não dita era clara. "Aten sumiu agora que Akhenaton estava morto?". Em resposta, Khnum negou com a cabeça e a festa dos deuses logo perdeu grande parte da força. Só não perdeu toda pois eles acreditavam que, com certeza, logo chegaria a vez de Aten.

Podiam até se preocupar com “uma coisa de cada vez”, mas todo estavam preocupados com o reinado de Tutânkhaten. Numa época em que a guerra se aproximava, um faraó criança e ainda por cima com deficiência estava longe de ser uma ideia que muitos, deuses ou mortais, se sentiam confortáveis com. Além disso, o nome do menino era uma constante lembrança dos problemas que seu pai havia causado.

Quando Tutânkhaten, com meros 7 anos, completava os ritos de coroação, uma esperança de alguma mudança se espalhou pelos deuses quando a criança se dirigiu para o templo de Karnak, em Tebas, assim como o medo de mais um problema. Foi ao fazer a mesma coisa que Akhenaton havia trocado de nome e dado poder para Aten. Assim, a pequena sala, onde Aten havia surgido anos antes, estava abarrotada de deuses que magicamente se escondiam.

Enquanto Akhenaton entrou naquela sala, uma única vez, altivo, alto e orgulhoso, o pequeno Tutânkhaten entrava tímida e fracamente. Já em seus 7 anos, apoiava-se numa bengala e andava com extrema dificuldade sem conseguir colocar o pé por completo no chão, parecendo que cada passo lhe causava dor. Tinha até mesmo que usar sandálias adaptadas.

— E esse é o faraó… — comentou Khonsu com um suspiro de decepção que felizmente a criança não pode escutar, assim como não escutou a fala do deus e nem o viu.

Para Tutânkhaten, ele estava sozinho, mas sentia aquela energia tão natural e arrepiante que um lugar tão poderoso, importante e enigmático conseguia carregar e passar para quem quer que entrasse nele. Foi por meio dessa energia que Tutânkhaten torceu para que os deuses estivessem ali.

Também num grande contraste do pai, que não se ajoelhou ao entrar ali, mesmo com dificuldade, Tutânkhaten se ajoelhou. Seus pequenos joelhos magros tocaram a pedra fria e ele deixou sua bengala cuidadosamente ao seu lado. Ao mesmo tempo, os deuses sorriam em silêncio por ele ter se ajoelhado. Era um bom sinal, afinal de contas.

— Tutânkhaten… — disse Hórus, compartilhando do alívio por aparentemente o filho ser diferente do pai — Rei do Alto e Baixo Egito, detentor do trono das duas terras…

— E-Eu... — respondeu o novo faraó, respirando fundo e tentando não se mostrar tão assustado e intimidado, como realmente estava, ao ouvir a voz vinda aparentemente do nada.

— A qual deus consagrará a si e seu reinado? — perguntou Hórus — E, se desejar, poderá escolher um nome régio para si.

— Ahm… — murmurou Tutânkhaten — Eu sei que meu pai teve muitos problemas e desagradou aos deuses mas, ninguém dentre os deuses ficará com raiva de mim se eu escolher um dos deuses originais do Egito ao invés do deus do meu pai?

— Não. — respondeu Hórus encarando os outros deuses como uma ameaça silenciosa para que eles não dissessem o contrário e, logo em seguida, apareceu para o garoto e se abaixou até ficar na altura dele, para que pudesse falar de um jeito mais gentil — O que está feito, está feito. Mas pode marcar a transição de volta para como as coisas eram antes.

O garoto, surpreso com a súbita aparição, ficou boquiaberto por uns segundos, mas logo respirou fundo e se recompôs.

— Eu quero fazer isso. Então… — respondeu Tutânkhaten logo seguindo falando o que parecia ter sido uma frase decorada — … Queria então escolher Amon-Rá para consagrar o meu reinado.

— Pois bem. — respondeu Hórus, teria que avaliar depois se Amon-Rá estava de fato apto para ainda usar mortais como hospedeiros, mas por enquanto era uma ótima notícia — Irá querer escolher um nome régio para si?

— Esse nome régio… é tipo um nome novo? — perguntou a criança — Todo mundo fala que meu nome é problema.

— Sim. — respondeu Hórus — É como um novo nome e provavelmente dizem isso sobre seu nome por ele conter “Aten” e significar “A imagem viva de Aten”.

— Então eu posso trocar por outro tipo… — começou o menino meio inseguro.

— Tipo…? — incentivou Hórus.

— Tutancâmon… é bom esse nome? — perguntou o garoto.

— É bom sim. — respondeu Hórus com um pequeno sorriso — “A imagem viva de Amon”.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** Depois da aventura monoteista de Akhenaton, os estrangeiros que viviam em Amarna espalharam pelo Oriente Médio essa história de “deus único”. Tutancâmon, filho de Akhenaton e sua irmã, primeiro se chamou Tutankhaten, depois trocou de nome para um nome em homenagem a Amon-Rá. Foram tantos incestos antes de Tutancâmon, que o coitado nasceu com vários problemas. Dentre eles, de fato tinha dificuldade pra andar, provavelmente o fazia com muita dor, precisava de bengala e sandálias especiais. Tem teorias que talvez, entre Akhenaton ter morrido e Tutancâmon subir ao poder, que talvez Nefertiti ou um irmão de Akhenaton tenha reinado. Mas é difícil ter certeza pq a raiva pelo período de Akhenaton que o Egito teve foi tanta, que apagaram o máximo possível dos registros dessa época. Quem é We don’t talk about Bruno quando se tem We don’t talk about Akhenaton? XD **** REFERÊNCIAS **** Hino à Aten - https://uh.edu/honors/human-situation/survival-kit/study-aids/Hymn%20to%20the%20Aten.pdf Akhenaton - https://en.wikipedia.org/wiki/Akhenaten#Coregency_with_Smenkhkare_or_Nefertiti Frutas - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_cuisine#:~:text=The%20most%20common%20fruit%20were,high%20in%20sugar%20and%20protein.