A Morte Das Areias do Saara

150 O Começo de um Problema Futuro


Notas iniciais
olá olá! bem vindos a mais um cap! cap 150.. nossa... isso significa q eu estou oficialmente preocupada de atingir o máximo de caps q se pode postar em alguma plataforma kkk sei q no wattpad é 200 kk na imagem de hoje, o Nilo, com bastante verde ao fundo e nas laterais e, numa das laterais, a entrada imponente de um templo com um porto próprio no rio com várias estátuas e jardins para receber as visitas ilustres que chegam pelo rio

Mas o miserável Chefe de Khatti permaneceu no meio do exército que estava com ele e não saiu para lutar por medo de Sua Majestade. Mas ele havia enviado homens e cavalos em grande número e multidões como a areia, e eles eram três homens em uma carruagem e estavam equipados com todas as armas de guerra. Eles foram obrigados a ficar escondidos atrás da cidade de Kadesh, e agora vieram do lado sul de Kadesh e invadiram o exército de Ptah no meio dele enquanto marchavam e não sabiam nem estavam preparados para lutar.

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Tempo demais já havia se passado desde a Batalha de Kadesh, mas isso não significava que a questão estava resolvida. A tensão entre egípcios e hititas estava constantemente no ar nesses 15 anos que se passaram desde a batalha de Kadesh. O jovem e poderoso Ramsés II, se viu obrigado a tirar o adjetivo de ‘jovem’, já que os 45 anos de idade já batiam em sua porta apesar de seu corpo se recusar a escutar a idade passando. Continuava tão saudável e forte quanto quando era mais novo.

O faraó estava numa estranha reunião que acontecia no ourives real. Não só o faraó estava presente ali, como também um soldado, o escriba do faraó, um emissário hitita e um soldado hitita. Todos prestavam atenção no trabalho do ourives, que com muita concentração, escrevia numa placa de prata um texto em egípcio logo abaixo de um texto na língua hitita. Ambos os textos tinham exatamente o mesmo conteúdo. Palavra atrás de palavra, nascia o primeiro tratado de paz da história.

Promessas de paz, aliança e irmandade, de parar de brigar por partes do território Sírio, de aliança militar em ataques internacionais ou rebeliões e insurgências internas. Não estava no texto, mas Ramsés II sabia que era só uma questão de tempo até adicionar uma esposa hitita na sua lista de esposas, que lhe davam uma lista cada vez maior de filhos também.

Um dos gatos do faraó, depois de repentinamente entrar no recinto, se enroscou em suas pernas e Ramsés II o pegou no colo, protegendo-o dos perigos de utensílios afiados e quentes que estavam presentes na oficina do ourives.

— Você seguiu a gente até aqui? — perguntou Ramsés II, surpreso de ver o gato sem ser no palácio.

— Bem que achei ter visto alguma coisa em cima da liteira mais cedo… — disse o escriba — Achei ter sido impressão minha.

— Esse aqui é malandro… — disse Ramsés II, olhando para o gato em seus braços.

A pelagem amarelada do bichano era uma breve memória do falecido Antam-Nekt, que viu sua vida chegando ao fim devido a triste baixa expectativa de vida de leões em comparação à humanos. Pensando no poderoso felino que já dormia mumificado sob as areias do Saara, Ramsés II acariciou o pequeno gato, que ronronou em seu colo, mas desviou sua atenção para continuar lendo, com atenção, cada palavra escrita no importante texto.

O gato era um lembrete das preocupações que vinham de sua família no momento, e que fazia questão de não pensar sobre. Afinal, tinha um país para governar e era extremamente importante que aquele documento que se preparava para assinar estivesse perfeito. Logo, fechou seu coração para os pesares que queriam tomar conta de si.

— Aqui está, senhor. — disse o ourives saindo do caminho que separava o faraó e as placas de prata.

— Conferiu tudo? — perguntou Ramsés II para seu escriba, preocupado em se ter uma dupla checagem tanto para a parte em hitita, como para em egípcio.

— Sim, senhor. — respondeu o escriba.

— Você também? — perguntou o faraó para o mensageiro hitita.

— Sim. — respondeu o mensageiro — Para mim a tradução parece de acordo. Está igual a versão em papiro.

Ramsés II entregou o gato para o escriba, não que o gato tivesse gostado muito dessa ideia, e tirou o anel que usava. Era um anel corpulento que servia mais do que simplesmente um anel. Ele possuía uma superfície mais plana onde o nome do faraó estava registrado em alto relevo. Era seu selo, sua assinatura. Temendo se queimar na placa de prata ainda quente, ele segurou o anel nas pontas dos dedos e, percorrendo o texto rapidamente uma última vez, pressionou o anel na base da placa de prata, marcando sua assinatura ali, logo ao lado de onde já estava a de Hattusili III, que só esperava o texto em egípcio. Ele então afastou o anel, satisfeito com o trabalho cumprido, e olhou para o mensageiro hitita.

— Tudo de acordo. — disse o mensageiro hitita — Que nossos povos gozem de paz e prosperidade, juntos.

— Sim… — respondeu Ramsés II.

O Faraó fitou o começo do texto por um segundo “Ramsés, Amado de Amon, Grande Rei, Faraó do Egito, herói, concluiu em uma tábua de prata com Hattusili, Grande Rei, Rei de Hatti, seu irmão…” não gostava muito de irmão… mas fazer o quê? Gostava mais do final do texto, “diante mil deuses, deuses masculinos e deuses femininos das terras do Egito e Hatti, testemunhados pelas montanhas e rios das terras do Egito; o céu; a Terra; o grande mar; o vento; as nuvens. Se o tratado fosse violado, o violador do juramento será amaldiçoado pelos deuses que destruirão sua casa, sua terra e seus servos. E aquele que cumprir sua palavra será recompensado pelos deuses, que farão com que ele tenha saúde e longa vida".

— Aahotepre, quando a prata estiver fria o suficiente, entregue a cópia dela para o mensageiro hitita. — disse Ramsés II — E entregue a nossa até meus aposentos. Vou levá-la para Karnak para que seja levada para ser transcrita em seus muros. Passarei lá nos próximos dias.

— Sim, senhor. — respondeu o escriba, Aahotepre, desistindo de segurar o gato que pulou dos seus braços e foi embora irritado — Ainda acompanharei o mensageiro até Hattusili III amanhã?

— Sim. — respondeu Ramsés II, colocando o anel de volta no dedo e então se agachando.

O faraó estendeu a mão gentilmente para o gato, que encarava dele para objetos na oficina que atraiam sua curiosidade e necessidade de aprontar. Mas, no fim das contas, ele foi até o faraó, que o pegou no colo e começou a sair da sala.

— Tenha certeza de descansarem por hoje. — acrescentou Ramsés II para Aahotepre — É uma viagem longa.

— Sim, senhor. — respondeu Aahotepre.

Ao sair da sala, Ramsés II ouviu passinhos correndo para longe e se escondendo atrás de um grande e gordo vaso. Achando ter reconhecido os vultos que se esconderam atrás do vaso, o faraó foi até o esconderijo com um sorriso no rosto e não se surpreendeu ao encontrar ali um de seus filhos, Meriatum, seu 16º filho homem e Mut-Tuya, sua 13ª menina, que junto com os irmãos, apesar de alguns poucos já terem falecido, totalizavam 49 crianças com o sangue de Ramsés II.

— O que estão fazendo aqui? — perguntou ele tranquilamente com o gato firme em um dos braços.

— A gente queria ver se iam conseguir assinar esse tal tratado finalmente. — respondeu Mut-Tuya, de 8 anos, 1 ano mais velha que o irmão.

— Conseguimos sim… — garantiu ele, suspirando aliviado — Foi fácil escapar dos guardas e babás para chegar até aqui?

— N-Não… — respondeu Meriatum com cara de culpado — Foi bem difícil.

— Vai deixar a gente de castigo? — perguntou Mut-Tuya.

— Não… — garantiu o faraó, cansado, sentindo que não conseguiria se manter firme diante do pesar que trancava em seu coração por muito tempo mais — Vamos voltar para o palácio que devem estar desesperados atrás de vocês. Vamos.

Os dois meninos correram para a liteira, ansiosos para conversar mais com o pai e voltar para casa.

— Foi muito difícil assinar? — perguntou Mut-Tuya enquanto se aconchegava na liteira.

— Surpreendentemente fácil considerando o tanto de tempo que levou para chegarmos até esse dia. — respondeu Ramsés II, sentando entre os dois filhos e deixando o gato no seu colo, logo deixando sua preocupação escapar um pouco em sua fala — Como está Nefertari?

— Mamãe ainda não saiu da cama… — admitiu Meriatum, com o rosto triste e cabisbaixo enquanto a liteira começava a andar para o palácio.

— Imaginei… — disse o faraó, triste, soltando um suspiro e passando a mão na cabeça do filho enquanto sentia que o autocontrole estava perto de escapar por seus dedos — Não é fácil perder um bebê e certamente esses últimos anos foram bem difíceis para ela por causa disso.

— Ainda assim vai para Núbia depois de amanhã? — perguntou Mut-Tuya, começando a brincar com o gatinho, provocando-o com o dedo e logo afastando o dedo quando o gato ameaçava pegá-lo.

— Não até a Núbia. Mas quase até lá… bem na fronteira. — disse Ramsés II — Tenho que ver como as obras do templo estão indo. Mas hoje e amanhã ficarei por aqui. Depois de amanhã partirei e passarei em Karnak e Tebas no caminho, para ver como estão as obras lá e também seus irmãos. Mas até lá, ficarei com vocês e Nefertari sem fazer mais nada até ter que viajar.

O caminho que separava o ourives do palácio não era muito grande. Logo os três estavam descendo da liteira. Notando a apatia do pequeno Meriatum, provavelmente decorrente do estado da mãe, com o braço livre, já que o outro segurava o gato, Ramsés II puxou o menino mais pra perto, até andar com a mão no ombro dele do lado oposto que estava, enquanto Mut-Tuya saia correndo sem preocupações.

— Sua mãe vai ficar bem. — disse Ramsés II.

— Tem certeza? — perguntou o menino.

— Ela é forte. — respondeu o faraó — Só dê uns dias para ela… Quer ir comigo ver como ela está?

— Uhum… — afirmou o menino.

Ramsés II colocou o gato no chão, que logo saiu correndo pelos terrenos do palácio, até do nada tropeçar em absolutamente nada e dar uma cambalhota. Ignorando o bichano que logo se distraia com um escaravelho, Ramsés II e Meriatum foram até os aposentos de Nefertari. No caminho, passaram por uma das filhas mais velhas do faraó, que se revezavam em checar como estava Nefertari, e então entraram no quarto da Grande Esposa Real.

Nefertari estava deitada, enrolada como uma bola sobre a cama, com um gato listrado deitado na cama logo à seus pés. Como ela estava de costas para a porta, ela não viu quando os dois entraram, apenas deduziu que devia ser alguma das filhas de novo.

— Meritamon… por favor… — resmungou Nefertari fracamente — Agora não…

— Não é Meritamon. — respondeu Ramsés II.

Ao reconhecer a voz do marido, Nefertari se sentou levemente e olhou para os dois. Seus olhos estavam tristes e cansados, com olheiras marcando a falta de uma noite bem dormida. Os dois se aproximaram da rainha, e enquanto Meriatum já foi abraçando a mãe, deitando em seu colo, Ramsés II simplesmente sentou-se na beirada da cama.

— Como estão as crianças? Conseguiu assinar o acordo? — perguntou ela.

— Pare de se preocupar com as coisas quando deveria estar descansando. — respondeu o faraó, acariciando o rosto dela gentilmente.

— Tenho que pensar em outra coisa, se não vou ficar chorando o resto do dia. — admitiu Nefertari, com os olhos se enchendo de lágrimas, que também começaram a tomar conta dos olhos do faraó — E então?

— As crianças estão bem e o acordo também. — disse Ramsés II.

— Que bom… — disse Nefertari suspirando, aliviada — Só uma questão de tempo agora para uma das filhas de Muthalli III chegar para entrar na sua lista de esposas né?

— Provavelmente. Mas… Quer viajar comigo então depois de amanhã? — perguntou Ramsés II, tocando sua testa com a dela — Será um ótimo jeito de se distrair.

— E as crianças? — perguntou Nefertari.

— Não estão agora com as babás, os mais velhos e as outras esposas? — perguntou Ramsés II.

— Melhor não, meu amor. — disse Nefertari com um sorriso fraco — Mas prometo ir quando o templo estiver pronto. Afinal, quero ver esse seu meu presente para mim.

— Tem certeza? — perguntou Ramsés II gentilmente.

— Tenho sim… não estou com energia para uma viagem dessas. — explicou Nefertari.

— Tudo bem. — disse Ramsés II dando um leve beijo nos lábios dela.

— Vocês estão me esmagando! — reclamou Meriatum, lá no meio do abraço.

— Certo certo, saia daí então. — disse Ramsés II abrindo espaço para o menino — Vamos deixar sua mãe dormir.

— Mas Ramsés … — disse Nefertari enquanto os dois começavam a sair de sua cama — Leve algumas das crianças… sabe como é difícil para elas terem um tempo com você.

— Posso ir? — perguntou Meriatum repentinamente.

— É uma viagem longa e cansativa. — respondeu Ramsés II — Certeza que aguenta?

— Aguento sim!… — respondeu Meriatum, determinado.

— Vamos, vou jogar Senet com você e seus irmãos. — disse Ramsés II.

— Pode jogar bola também? — perguntou Meriatum.

— Posso. — respondeu o faraó.

Ramsés II gastou muito bem o tempo que tinha disponível no palácio e, quando chegou o dia da viagem, o faraó estava pronto no porto de Pi-Ramsés. Tal como prometeu para Nefertari, levou alguns dos filhos. Os que aceitaram o convite, ou se convidaram para a aventura, foram Henuttawy, Meriatum, Meritptah e Setne.

— Tudo bem mesmo eu ficar em Tebas? — perguntou Setne, claramente não interessado em ficar até o final da viagem.

— Claro. — respondeu Ramsés II, olhando para o filho, não mais a pequena criança que foi para Kadesh, mas um homem de 21 anos — Quer ficar lá até voltarmos? Ou quer que eu deixe alguém pra te ajudar a voltar para Pi-Ramsés?

— Eu consigo voltar sozinho. — garantiu Setne.

— Só não deixe saberem quem você é… — disse a jovem Henuttawy, de 18 anos — Pode ficar perigoso se souberem assim que você é um príncipe.

— A gente também pode ficar? — perguntou Meritptah, uma jovem garota de 8 anos, olhando para Meriatum rapidamente, empolgada com a aventura.

— Não mesmo. — respondeu Ramsés II — Vocês dois são muito pequenos.

— Que tanta falta de fé em mim, irmã… — disse Setne num falso drama, olhando para Henuttawy.

— Vai achando que não vai ter ao menos um soldado para impedir que morra por aí. — respondeu Ramsés II, ajudando os menores a entrar no barco.

— Eu não sou mais um bebê. — reclamou Setne e Ramsés II deu de ombros.

— Então tá… — respondeu o faraó — Não venha depois implorar por mais ouro para continuar seus estudos. Era menos exigente quando era mais novo... entrando nas tumbas como se fosse normal, só pra ler as coisas nas paredes.

— Consegui registrar bastante sobre os faraós do passado... e ainda entro nas tumbas. E também, no próximo ano estarei como governante de Mênfis. Lembra? — perguntou Setne provavelmente achando que Ramsés II não o ouviria — Acho que consigo andar por Tebas sozinho se espera que eu cuide de Mênfis.

— Como vou esquecer? Fui eu quem te contratou… Então tá… — respondeu Ramsés II — Faça a prova. Mas não conte pra sua mãe. E lembre-se de não roubar nada das tumbas.

— Eu sei. Eu nunca faria isso. — disse Setne devidamente horrorizado com a ideia — Que falta de fé em mim vocês dois tem.

E assim, acompanhado da importantíssima placa com o acordo de paz egípcio-hitita, e alguns soldados, arquitetos e escribas, os três partiram para a longa viagem até a fronteira do Egito com a Núbia. Eles paravam em alguns lugares para descansar no decorrer dos dias, mas a primeira parada importante, seria só na cidade de Tebas, bem mais ao sul que Pi-Ramsés.

Enquanto a família viajava, seguindo o curso do Nilo com dificuldade, contra a fraca correnteza, na sala das múmias no submundo, Anúbis e Kebechet se concentravam nas mumificações, cada um cuidando de um corpo. Kebechet carregava um vaso com água do Nilo, que usava para purificar o corpo de um rapaz extremamente magro, enquanto Anúbis colocava o corpo de um senhor no natrão para secar. Foi nesse momento que Thoth entrou no recinto, exasperado, com um sorriso no rosto e um monte de papiros nos braços.

— O que foi? — perguntou Anúbis quando viu a forma com que o deus entrou.

— Eu disse! — disse Thoth indo até uma mesa livre e largando os papiros que levava sobre ela — Eu disse que Setne não estava fazendo nada de errado nas tumbas.

— O filho do Ramsés II? — perguntou Kebechet.

— E esses papiros… imagino que sejam de Setne ou algo do tipo? — perguntou Anúbis.

— São do Setne. — explicou Thoth, abrindo o primeiro deles — Ele acabou de sair pra viajar com Ramsés II e uns irmãos.

Um atrás do outro, Thoth abriu os papiros sobre a mesa e gesticulou com a mão para Anúbis e Kebechet chegarem mais perto para ler. Eles fizeram isso e percorreram os olhos pelos textos.

— Pra onde eles foram? — perguntou Kebechet.

— Ele sai pra viajar e você acha uma ótima oportunidade roubar os papiros dele? — perguntou Anúbis.

— Eu devolvo depois. — respondeu Thoth, fazendo pouco caso — Acho que Ramsés II foi checar como estão as obras em Tebas e na fronteira… principalmente a da fronteira.

— Essa está ficando bem grande e chamativa, pelo o que ouvi falar… — comentou Anúbis seguindo com o olhar Thoth abrindo os vários papiros até cobrir cada centímetro da mesa da pedra.

— Tá vendo? — perguntou Thoth, apontando para os papiros — Você entrou em provavelmente toda tumba de faraó, vai dizer que isso não é um trabalho incrível que ele fez? Ele passou a limpo todo texto que tinha dentro, mapeou cada tumba para um faraó… até as que os mortais hoje em dia não tem tanta certeza de quem era. Claro que não foi nem metade de todos os faraós do Egito… mas é um trabalho incrível.

— Era por isso então que ele entrava nas tumbas… — concluiu Kebechet.

— Nem todos ele achou ainda… — concluiu Anúbis, pensando em voz alta — Tem vários faraós, rainhas, príncipes e princesas sem uma tumba listada no seu nome de acordo com a lista desse papiro…

— Não espere que ele já tenha mapeado tudo, espero. — disse Thoth — É gente demais.

— E esse? — perguntou Kebechet olhando então para um papiro que Thoth ainda protegia em seus braços

— A-Ah… esse… — disse Thoth já meio sem graça antes de abrir o papiro sobre os demais — Esse não é sobre as tumbas, ia mostrar para Ísis… Ele está estudando magia também. Está bem avançado, aparentemente.

— Não me lembro dele fazer parte da Casa da Vida… — disse Anúbis.

— Acho que não oficialmente… mas estuda bastante com eles. — disse Thoth, embora ainda meio desconfortável com essas perguntas.

— Não deposite suas confianças demais nesse daí… — alertou Anúbis — Vejo que ele fez um trabalho muito bom, mas mantenho meu ponto de ontem que algumas coisas sumiram de algumas tumbas mais esquecidas.

— Pode ter sido qualquer outro saqueador! — respondeu Thoth — Com o tanto de ouro que os faraós colocam lá dentro, sabe bem que os saqueadores adoram entrar lá. Não tem nenhuma novidade nisso. Setne tem todo o dinheiro que Ramsés II aceitar o dar, e Ramsés II tem todo o ouro do Egito, o que ele iria querer nessas tumbas? Ele está fazendo um serviço para a história! Isso sim.

— Se você diz… — disse Anúbis suspirando brevemente, voltando os olhos para os papiros, em especial para o nome de uma das pessoas cuja tumba ainda não havia sido identificada, e que Anúbis torcia para que continuasse assim.

— É sério. Ele é muito inteligente… — insistia Thoth — Só queria mostrar que tá tudo bem… Sei que pareceu estranho ele sair entrando assim nas tumbas. Até o pai dele achou estranho… muito estranho… mas ele está recuperando conhecimento que ficou selado lá dentro. Só isso…

— Aham… — respondeu Anúbis sem muita convicção, mas já cansado da conversa de Thoth, afinal estava ocupado.

Notando a falta de interesse e confiança de Anúbis, Thoth tentou mudar de assunto um pouco.

— Vai… começar os julgamentos no final do dia? — perguntou Thoth, fingindo que não sabia, o que não fazia sentido, considerando que ele mesmo participava.

— Sim. — respondeu Anúbis, percebendo o que ele fazia — Mas só por um tempo. Tenho que ir resolver umas coisas com Hades, e então com Lelwani… agora que Ramsés II assinou o acordo de paz.

— Posso ir também? — perguntou Kebechet.

— Pode… — respondeu Anúbis.

— Então… vou deixar vocês terminarem o que tem para fazer. Não podem perder tempo certo? — disse Thoth, escapulindo dali.

Kebechet e Anúbis se entreolharam e trocaram uma breve risada.

— Ele ficou sem graça porque esperava uma reação diferente nossa por causa dos papiros, né? — perguntou Kebechet.

— Ficou. — afirmou Anúbis.

— Acha que Setne está mesmo fazendo algo que não pode? — quis saber Kebechet.

— Até o momento… não sei… — admitiu Anúbis — Realmente parece que ele conseguiu juntar uma quantidade boa de conhecimento, e devolveu o nome para algumas tumbas… O que é bom… Mas ainda não consigo ficar calmo. Você e Ihy escutaram algo dos irmãos dele enquanto brincam?

— Não… — respondeu Kebechet, meio cabisbaixa — É muita gente naquele palácio. Não parece que os filhos do Ramsés II se conhecem tão bem assim… especialmente quando troca quem é a mãe… mas eu posso tentar perguntar.

— Só cuidado para não ficar estranho… — pediu Anúbis, apertando a bochecha dela, fazendo ela abrir um sorriso.

— Podemos ir ver os templos que o Ramsés II está construindo na fronteira? — perguntou Kebechet — Qualquer dia. Disse que estão bem grandes né?

— Pode ser. Vamos perguntar pra sua mãe. — respondeu Anúbis — Ela também vai querer.

Com o passar dos dias, o faraó e seus filhos eventualmente chegaram em Tebas. Lá, foram resolver as coisas na cidade e no templo de Karnak, logo ao lado. O primeiro destino do faraó foi o enorme complexo de templos de Karnak.

Depois de fazer os preparativos necessários para que o texto do tratado de paz fosse registrado nos muros de Karnak, Ramsés II e seus filhos foram até o templo central de Tebas. Assim como Karnak, e boa parte do Egito, na verdade, obras aconteciam no templo de Tebas. Afinal, Ramsés II queria mais do que ultrapassar o recorde de construções que ainda era Hatshepsut, queria ter certeza que seu nome ficaria para a história com ainda mais garantia do que ela, que teve muito do seu nome nas construções danificados.

Enquanto Ramsés II conversava com o arquiteto das obras em Karnak, cansados de tanta conversa, Meriatum e Meritptah corriam para cima e para baixo no templo, brincando, enquanto Setne parecia mais interessado em todas as inscrições que se acumulavam nos muros mais internos e antigos do templo. Assim, só Henuttawy estava acompanhando o pai, ouvindo cada palavra do arquiteto.

— Como pode ver, senhor… — disse o arquiteto enquanto Ramsés II e os filhos estavam na até então entrada do templo, onde Ramsés II estava construindo uma nova entrada, transformando a antiga num pátio interno — Não conseguimos continuar a linha perfeita desde dentro do santuário do templo até uma nova saída que ligará este templo com Karnak.

— Essa capela fica no meio do caminho. — disse Ramsés II, explicando o que via, olhando da porta do templo, para a capela logo a frente.

— Sim. Se quisermos fazer uma nova porta, teríamos que derrubar a capela para que ela continue alinhada à original. — explicou o arquiteto — O lado bom é que podemos reaproveitar o material da capela…

Sem nada responder, Ramsés II foi até a capela em questão. Não era muito grande e enquanto o faraó olhava, sua filha a seguiu. Henuttawy prestou atenção não só na capela, mas também em qualquer emoção que seu pai mostrava no rosto.

— É a capela da Hatshepsut né? — perguntou Henuttawy.

— Sim… — disse Ramsés II antes de virar-se para o arquiteto — E se levarmos a porta um pouco para o lado, para que possamos envolver a capela dentro dessa nossa extensão que vamos construir?

— M-Mas.. — disse o arquiteto, inseguro — Todos os templos egípcios tem uma linha perfeita entre a entrada do templo até o interior mais sagrado dos templos. Se mudarmos a posição da porta, vamos perder esse alinhamento.

— Esse vai ser uma exceção. — disse Ramsés II — Essa capela é de Hatshepsut, certo?

— Sim. Uma usurpadora. — disse o arquiteto — Podemos demoli-la sem dificuldade.

— Não vão demolir. — insistiu Ramsés II — Vão contorná-la e envolvê-la dentro da expansão do templo, deixando a entrada ligeiramente torta. Não vou derrubar a obra que outro grande faraó fez para os deuses.

— S-Sim senhor… — respondeu o arquiteto, se encolhendo levemente diante a ordem que não poderia discordar.

Depois de checar tudo que precisava no templo de Tebas, foi ali que o faraó se separou de Setne. Junto com os três filhos, o faraó foi descansar para continuar a viagem no dia seguinte. Já Setne, deixou-se envolver pela calada da noite de Tebas. Escondendo qualquer coisa que o fizesse parecer um nobre de status tão alto como o filho do faraó, conseguindo no máximo para a categoria “rico”, Setne caminhou tranquilamente até Karnak com uma bolsa velha nos braços escondendo suas coisas.

O templo central de Tebas e o templo de Karnak eram conectados com uma longa avenida com esfinges de carneiros nas laterais. Contudo, ainda faltavam várias esfinges para completar toda a avenida, e continuariam faltando por alguns séculos mais. Quando ele estava quase no fim da avenida, ele saiu dela, pegando um caminho diagonal, entrando mais na cidade de Tebas, onde ele parou num beco escondido e colocou uma capa com capuz, escondendo seu rosto melhor. De lá, seguiu o caminho em diagonal para que pudesse ir até os fundos de Karnak.

Quando chegou na porta dos fundos, encontrou um soldado e um sacerdote, que pareceram aliviados ao vê-lo.

— Finalmente! — reclamou o sacerdote.

— Não foi fácil me livrar do meu pai. — reclamou Setne — E quem deixou falar assim com toda essa familiaridade comigo?

— Desculpe… — resmungou o sacerdote, cabisbaixo.

— O outro guarda deve estar chegando… — disse o soldado, que teoricamente era para estar guardando a porta junto com mais um.

— Obrigado pela discrição. — disse Setne, enfiando a mão na sua bolsa e tirando de lá uma pulseira de ouro, que prontamente deu para o soldado antes de sair correndo dali junto com o sacerdote, para dentro da área de Karnak.

O soldado acenou com a cabeça e então Setne e o sacerdote entraram nos terrenos de Karnak. Ali, pelos fundos, eles não iam parar em nenhum templo ou capela do enorme complexo de templos, mas sim nas várias casas que os sacerdotes usavam para morar. Com passos apressados e pequenos, os dois foram até uma das casas. Um sacerdote estava do lado de fora, fingindo que não estava fazendo nada de importante, apenas admirando as últimas cores que o sol deixava no céu.

Dentro da casa, outros cinco sacerdotes, de idades diferentes, estavam presentes. Todos prestavam uma breve reverência para Setne, colocando a mão sobre o coração. Ele deixou um sorriso nada gentil escapar pelos lábios enquanto tirava o capuz da cabeça.

— Então… como estão os preparativos por aqui para controlarem a Casa da Vida daqui? — perguntou Setne.

— Conseguimos subir alguns níveis hierárquicos mas… — disse o sacerdote mais velho, de cerca de 40 anos.

— O velhote… — concluiu Setne.

— Sim. — respondeu o homem — Ele não parece nem um pouco interessado em se aposentar e nem temos garantia que irá indicar algum de nós como seu sucessor.

— Uma hora ele vai morrer. Está velho. — disse Setne — Quanto ao sucessor que for escolhido… temos que manipular o velhote para que seja um de vocês. Assim conseguirão todo o poder e riqueza que almejam e com eu governando Mênfis, é só uma questão de tempo para podermos controlar a Casa da Vida de lá também. E com isso… quem sabe assim meu pai não me nomeará herdeiro? Ele certamente faz uma lista grande de candidatos ao trono… Mas… Vamos voltar a esse assunto mais tarde… Por hora, conseguiram os papiros que perguntei?

— Sim, senhor. — respondeu um sacerdote mais novo.

Tremendo, o jovem sacerdote colocou um punhado de papiros na mesa. Setne olhou dos papiros para o garoto, e ficou esperando enquanto o garoto abria o máximo de papiros que a mesa aguentava, e então apontava para a parte do texto que parecia mais importante.

— Sobre a tumba, ela é provavelmente mencionada brevemente aqui… — disse o jovem sacerdote — Pode ser uma pista falsa já que não menciona de quem é a tumba, mas fala que é uma tumba amaldiçoada, que nenhum saqueador tem coragem de entrar pois ela promete que todos os seus entes queridos vão morrer.

— Eles realmente a evitam? — perguntou Setne — Ou é só rumor?

— Ouvimos dizer que sim, eles a evitam. — respondeu outro sacerdote.

— O que sem dúvida chama atenção. Não acho que tenha visto já uma tumba que eles de fato evitem mesmo com os deuses com essa promessa idiota de quem saqueia em tumbas vai ter que pagar por isso eventualmente. — concluiu Setne, percorrendo os olhos pelo texto enquanto os sacerdotes se entreolhavam, achando perigoso ele julgar algo que os deuses faziam como ‘idiota’ — Passarei no caminho para Mênfis essa tumba…

No sentido oposto de Mênfis, alguns dias depois, Ramsés II e seus filhos chegavam na fronteira sul do Egito. O Nilo brilhava lindamente e enormes paredões de pedra o separaram do deserto. Em dois desses paredões, duas obras aconteciam a todo vapor. Dois templos bem parecidos, que escavavam a pedra criando um belo portal por fora e bastante espaço por dentro.

Em um deles, o menor, era um templo para Hathor e Nefertari, a esposa favorita do faraó. Na entrada dele, eram construídas seis estátuas de 10 metros de altura do rei e da rainha, um dos poucos exemplos de arte egípcia que as representações do faraó e da rainha são do mesmo tamanho. Aos pés das estátuas, bem menores, estavam marcados na pedra os lugares para construir as estátuas dos filhos do casal.

Mas para onde Ramsés II foi primeiro, foi o maior dos templos. Uma construção enorme com quatro estátuas colossais de 20 metros de altura do faraó sentado. Ou melhor, seriam quatro estátuas, pois ainda estavam na construção de metade da terceira estátua. O templo dedicado a Rá, Amon e Ptah era enorme e enquanto desembarcava do barco, Ramsés II nem imaginava que Anúbis, Anput e Kebechet estavam ali dentro, vendo as figuras pintadas na parede.

— É bem… — disse Anput tentando achar uma palavra mais educada — Ahm… poderoso…

— É…Acho que isso é uma palavra… que… dá pra ser usada. — respondeu Anúbis, os três estavam invisíveis para os vários mortais que trabalhavam na construção do templo sem parar — Se ignorarmos algumas coisas, é certamente bonito.

As paredes do templo, que um dia seria chamado de Abu Simbel, tinham um tema constante. Guerra. Havia várias cenas de Ramsés II na batalha de Kadesh ou lutando com vários inimigos de várias nações diferentes e mostrando que ele era o vitorioso. A temática, a localização e o tamanho do templo não eram acidentais. Tudo junto formava uma mensagem bem clara e com um destinatário bem claro. Ramsés II queria mostrar para os Núbios com quem eles iriam lidar se tentassem atacar o Egito, e qual seria o destino deles.

— Talvez o de Nefertari seja mais simpático? — perguntou Anput — Assim… é bonito, mas… é intimidador também.

— Afinal é essa a intenção. — respondeu Anúbis.

— Tem alguém vindo. — disse Kebechet calmamente, da porta — Parece ser o Ramsés II.

— Bom ver que ele chegou… — disse Anúbis enquanto os três saíam do templo pela enorme porta e iam até a entrada, cujas estátuas de Ramsés II eram tão absurdamente gigantes, que os três deuses no máximo alcançariam o tornozelo do faraó, se os pés as estatuas estivessem na altura do chão do templo ao invés de elevados por um grande bloco de pedra.

— Viu? Eu disse que ele ia chegar bem. — respondeu Anput — Deve ser só impressão sua essa sensação que você tá tendo… Simplesmente nada.

— Ainda assim… tenho um péssimo pressentimento… — admitiu Anúbis.

Os três saíram do templo, fitaram por alguns segundos Ramsés II e seus filhos analisando o grande templo, tal como eles fizeram um pouco antes, e então seguiram para o templo dedicado à Nefertari. Longe dali, em Mênfis, aconteciam coisas que provavam que o mal pressentimento de Anúbis não era injustificado.

Setne estava de pé, diante de uma tumba selada porcamente com uma corda e um selo de argila que tinha escrito “Não entre, para seu próprio bem.”. O príncipe parecia nervoso enquanto encarava o selo. Tão nervoso que sentia o suor escorrer por sua testa e o coração palpitar no seu peito. Se bem que o suor podia ser só devido ao sol escaldante do deserto, já que ali era tão longe do Nilo. Sentia também a magia ali, pulsando, provocando-o, de bem fundo dentro da tumba que as portas escondiam.

Já estava ali a uma hora, só fitando o selo, perguntando-se se iria mesmo o romper. Nunca tivera tanto receio com as demais tumbas que entrou. Mas aquela parecia diferente, intimidadora, perigosa. Não duvidava que qualquer um pudesse sentir o perigo que aquele lugar exalava.

Atrás de Setne, estavam dois homens que haviam servido simplesmente como um par de músculos para ajudar o príncipe a chegar até ali. Afinal, não era novidade ter que levantar algumas pedras para chegar até as tumbas. No momento, eles montavam guarda, de costas para o príncipe e a tumba, mas lançando olhares curiosos com o canto do olho de vez em quando e visivelmente desconfortáveis, provando que não era só Setne quem sentia que havia algo de mortal naquela tumba.

— Por favor.. seja sua tumba… Minkhaf… — resmungou Setne para si mesmo, encarando a tumba.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Que pau bom, puta merda kkk quem aí quer ser pai de 49? kkk e ainda tem mais filho do Ramsés II vindo eim? kkkk há teorias que, apesar de tudo, Nefertari tinha um pouco de dificuldade em ter bebê…. ao menos considerando a média de coelho de filhos por esposa do Ramsés II kkk enfim kkk o tratado de paz entre os egípcios e os hititas é o mais antigo tratado de paz que se tem qualquer registro. ele foi assinado aproximadamente 15 anos depois da batalha de Kadesh em duas placas de prata para cada governante (Que nunca foram encontradas mas são mencionadas nas cópias que cada um deles fez em pedra). Ramsés II fez a cópia do tratado em Karnak, onde pode ser vista até hoje, e Hattusili numa placa hoje com parte dela em exposição no Museu de Arqueologia de Istambul e outra parte nos Museus Estaduais de Berlim. Uma cópia do tratado está em exposição na sede da ONU de Nova York. O templo de Tebas (Luxor) torto -> https://discoveringegypt.com/wp-content/uploads/2014/07/luxorTempleAir.jpg não se tem 100% de certeza se a capela era da Hatshepsut ou do Tutmosis III. Eu ouvi do guia no Egito q era da Hat. **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 Ninhada do Ramsés II - https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_children_of_Ramesses_II Abu Simbel - https://pt.wikipedia.org/wiki/Abul-Simbel tratado de paz egípcio-hitita - https://en.wikipedia.org/wiki/Egyptian%E2%80%93Hittite_peace_treaty Avenida das Esfinges - https://en.wikipedia.org/wiki/Avenue_of_Sphinxes#:~:text=Avenue%20of%20Sphinxes%20or%20The,lined%20up%20on%20both%20flanks.