Notas iniciais
desculpa a demora! muita coisa aconteceu esses ultimos dias e esse cap n foi fácil. de toda forma, aqui está ele e feliz natal! na imagem de hoje, o templo de Abu Simbel, descrito no cap passado.

Em seguida, a infantaria e a carruagem de Sua Majestade foram derrotadas diante deles, mas Sua Majestade permaneceu firme ao norte da cidade de Cades e ao lado ocidental do `r-n-t'. Então eles vieram contar isso a Sua Majestade. Então Sua Majestade apareceu em glória como seu pai Mont, ele assumiu os apetrechos de batalha e cingiu-se com seu corpete, ele era como Ba'al em sua hora, o grande cavalo que carregava Sua Majestade sendo a Vitória em Tebas do grande estábulo de Usimare`re`-setpenre`, amado de Amon.

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Nas margens do Nilo, no templo de Abu Simbel, Kebechet se sentava no topo de uma das grandes estátuas de Ramsés II admirando a bela vista que se tinha das águas cristalinas do Nilo e do deserto dali. Do alto da coroa de pedra da estátua do faraó, que marcava a entrada do templo que delimitava a fronteira sul tanto do Egito antigo como do atual, Kebechet conseguia ver até alguns pedaços de terra da Núbia, que um dia se chamaria Sudão.

Contudo, refrescando os pés no Nilo, estavam Anúbis e Anput, simplesmente conversando enquanto a filha claramente se divertia. Eles andavam de um lado para o outro lentamente, aproveitando o frescor da água, e ignorando o crocodilo que nadava mais além. Para não molhar o longo vestido, Anput o segurava, elevando-o um pouco enquanto caminhava pela água.

— Como eu disse…. — disse Anput — Ramsés II está bem. Seja lá qual for esse mal pressentimento que tem, não deve ser por aqui.

— Núbios ainda podem repentinamente atacar aqui… — respondeu Anúbis, olhando por alguns instantes para Ramsés II, que vistoriava a construção do enorme templo e então para o horizonte, em direção às terras núbias — Mas concordo que o problema não deve ser aqui. Tem alguma notícia de Amon-Rá?

— Nenhuma… — disse Anput suspirando pesadamente — Segue aos cuidados de Tawaret sem nenhuma melhora.

— O que por si só, já é preocupante. — disse Anúbis.

— Vamos ficar de olho nas coisas. — disse Anput entrelaçando os dedos com os dele e lhe dando um beijo na bochecha — Vamos perguntar para os outros se sabem de alguma coisa que possa estar acontecendo de preocupante.

— Será que tem a ver com a previsão que Lelwani contou? — perguntou Anúbis, desviando os olhos para Anput — Alguma mudança grande vindo…

— Sei tanto quanto você… — lembrou Anput dando de ombros e suspirando.

Enquanto isso, os primeiros passos para o desastre começavam a ser dados nas tumbas escondidas nas areias de Mênfis. O coração de Setne batia com força de tanta preocupação e ansiedade. Ele olhou para a sombra feita pelo sol numa pedra próxima e estimou que hora do dia deveria ser considerando o que a natureza lhe dizia. Meio-dia em ponto.

Em seguida, Setne escondeu-se dentro de sua capa com capuz e acendeu um pequeno punhado de incenso dentro de um pratinho, numa tentativa de disfarçar o próprio cheiro, e então encarou o lacre simples que prendia as maçanetas da porta. O lacre era claramente feito pelo povo depois que aquela tumba foi selada pela primeira vez, e sem grandes dificuldades, quebrou o lacre de argila com a base da espada e cortou a corda escondida por dentro.

— Abram a porta. — ordenou Setne imediatamente vendo que não queria gastar uma gota de suor com as portas de pedra.

O par de brutamontes que ele contratou, se entreolhou mas, não vendo outra alternativa para conseguirem o pagamento prometido, abriram as pesadas portas da tumba que lhes arrepiava cada pêlo do corpo. Com as portas abertas, a luz entrou na tumba e Setne entrou logo atrás, com pressa, apesar da cautela ter sido recomendada. Cada passo que o príncipe dava era apressado, como se quisesse resolver aquilo o mais rápido possível. Atrás dele, os dois homens musculosos o seguiam com uma coragem menor do que a do príncipe segurando tochas para iluminar o caminho.

Todos os três, apesar de com diferentes níveis de coragem, ignoraram o ouro que se espalhava pela tumba e olhavam de olhos arregalados e rosto pálido para a figura que flutuava em cima do sarcófago de pedra. Era uma alma, com os contornos difusos devido ao tanto de tempo que estava ali, presa e perdida na escuridão. Flutuava de cabeça pra baixo, meio inclinada, e só flutuava levemente sem qualquer controle, como se estivesse flutuando no mar.

Foi só quando Setne se aproximou o suficiente do fantasma, foi que ele conseguiu identificar um rosto. Um rosto com olhos esbugalhados em pleno terror e que olharam de volta para Setne de uma maneira tão intensa que o príncipe sentiu os arrepios passarem por sua nuca.

— Minkhaf? — perguntou Setne, com evidente pressa — Minkhaf… filho de Khufu…

O fantasma não lhe respondeu, mas sua expressão mudou levemente. Seu lábio inferior tremia, como se estivesse prestes a chorar.

— Você é Minkhaf, não é? — tentou Setne novamente, notando que o estado daquela pessoa, se é que ainda poderia ser chamada de pessoa, não era dos melhores — O que conseguiu o Livro de Thoth.

A boca do fantasma começou a tremer ainda mais, e palavras começaram a sair. Primeiramente baixas, como num breve sussurro, mas logo em berros cada vez mais rápidos que tomaram conta de toda a tumba.

— Não… não… não…. não… NÃO… NÃO… NÃONÃONÃO NÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃONÃO! — gritou o fantasma — ESSE NOME NÃO! NÃO! NÃO! ESSE NOME NÃO! ESSE NOME NÃO! ESSE NOME NÃO!

— Q-Qual? — tentou Setne, inutilmente tentando raciocinar com o fantasma — “Minkhaf” ou “Thoth”?

— NÃO NÃO NÃO! — continuou o fantasma a gritar — EU PAGUEI! EU PAGUEI! EU APRENDI! NÃO VOU MAIS! NÃO VOU!

— Você sabe quem sou? — perguntou Setne, ficando nervoso pela falta de resposta mais concreta.

— EU PAGUEI! EU PAGUEI! EU APRENDI! NÃO VOU MAIS! NÃO VOU! — continuou a gritar o fantasma.

— E-Ele está louco… — disse um dos homens que Setne levou com ele.

— Acho que deveríamos sair daqui. — completou o segundo.

— Não. — respondeu Setne firmemente — Não irei pagar vocês se saírem assim, como covardes. Nem deixarei saírem com o que encontrarem aqui. Sabem bem que sei magia.

Os dois homens se entreolharam, inseguros enquanto se perguntavam se o pagamento valia a pena. Enquanto isso, Setne deu as costas para os dois, apesar de ter ficado atento à qualquer passo que eles pudessem dar, mesmo que os gritos constantes do fantasma estivessem doendo em seus ouvidos. Ele se aproximou do sarcófago de pedra e ao reconhecer os hieróglifos de ‘Minkhaf, filho de Khufu’ escrito em sua tampa, um sorriso gélido tomou conta do rosto de Setne.

— Abram. — disse Setne, olhando para os dois homens, que se entreolharam de novo — Não me digam que estão ficando com medo agora? Avisei no começo que arrombaríamos uma tumba.

— Já saquemos outras tumbas… nenhuma tinha uma alma gritando dentro. — respondeu o primeiro homem, apontando para Minkhaf.

— Não se preocupem. — disse Setne — Não irá acontecer nada. Ele não parece em condições de fazer nada. Se apressem! Ou então, aí sim teremos problemas.

Meio a contragosto, os dois homens se aproximavam e, com um enorme esforço, empurraram a pesada pedra que servia de tampa para o sarcófago. Ela caiu com um poderoso baque, mas outras tampas, de madeira, separavam-os da múmia de Mikhaf. Uma após uma, as tampas foram removidas e largadas de lago sem qualquer cerimônia ou cuidado que um dia um arqueólogo teria ao desenterrar tumbas cheias de segredos como aquela.

Eventualmente, eles conseguiram revelar a múmia. Os homens então logo se afastaram para deixar Setne passar, pois bem sabiam que o que ele queria era o papiro brilhante que estava sobre o tórax da múmia. Confirmar que era o que queria encheu o peito de Setne de felicidade.

— NÃO! — gritou intensamente o fantasma de Minkhaf, indo repentinamente até diante de Setne, atravessando o próprio cadáver para que seu rosto pudesse ficar a centímetros do de Setne — NÃO! NÃO! NÃO! OS DEUSES! VOCÊ… SUA FAMÍLIA… TODOS PAGARÃO!

— Eu tenho um plano. — respondeu Setne, nervoso com o tempo perdido.

— VOCÊ PAGARÁ! ELES PAGARÃO! — gritou Minkhaf, já começando a ficar com a voz chorosa — MORTE! E ESCURIDÃO! MORTE E ESCURIDÃO! ETERNA ESCURIDÃO! O VAZIO! EU APRENDI! EU JURO QUE APRENDI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH

Uma alma intocável era pouca resistência física, apesar de que os homens que Setne levaram consigo apresentarem rostos que provaram que a resistência mental deles não era páreo para os berros estridentes e a loucura mostrada por Minkhaf. Com muita facilidade, Setne esticou as mãos e, sem cerimônia, fingiu que pegou o papiro brilhante protegido pela múmia e guardou-o em sua bolsa junto com suas coisas.

— Agora podemos ir né? — perguntou o primeiro homem, já virando de costas enquanto tentava ignorar os gritos que continuavam.

— Podemos. — concordou Setne, se virando para a porta junto com os outros dois mas, repentinamente, jogando uma magia no homem que estava mais perto de si.

Uma explosão atingiu o homem, que caiu no chão, ainda vivo, mas com as costas em carne viva e pingando de sangue e uma dor de cabeça extrema acompanhada de ferimentos profundos na cabeça. O segundo homem, mais a frente, se virou ao ouvir o que aconteceu. Totalmente desprevenido e pego de surpresa, ele não estava pronto para um segundo ataque, idêntico ao primeiro, atingindo-lhe o rosto com dolorosa precisão.

— Como disse… eu tenho um plano… — disse Setne ignorando o grito dos homens se somando aos gritos do príncipe falecido à séculos atrás.

— O… q-que… — gaguejou fracamente o primeiro homem atingido, enquanto tentava manter a consciência e achar forças para se levantar. O segundo, atingido no rosto, não tinha mais forças para nada além de lutar pela vida.

— Sei que vocês são bem burros mas… chegaram a ser instruídos quanto a vida após a morte? — perguntou Setne, mexendo apressadamente na bolsa que levava consigo e tirando de lá uma garrafa de cerveja que, ironicamente, havia dividido com aqueles mesmos homens horas antes — Nós, egípcios, mumificamos nossos mortos pois é importante se ter o corpo inteiro, para manter a alma inteira até ela chegar diante dos deuses…

Ele falava com calma, mas fazia tudo com evidente pressa enquanto ignorava o desespero e a dor que os dois homens sentiam no chão. Também ignorava a loucura e os berros estridentes de Minkhaf, que parecia perdido nos próprios pesadelos e já ignorava a situação. Com a garrafa de cerveja na mão, ele colocou as espadas na mão dos homens e colocou na mão deles, na mão oposta as tochas que estavam já praticamente apagadas. Claramente montando um cenário de uma luta que terminou ruim.

A falsa cena de luta se completou com peças de ouro colocadas perto dos homens, tentando criar a justificativa para a briga.

— Sendo assim… é de conhecimento para qualquer um com o cérebro maior que o de uma galinha… o que não deve ser o caso de vocês, que existe algo muito ruim de se acontecer com o seu corpo. — explicou Setne apressadamente, abrindo a garrafa da cerveja — Algo que te impedirá de chegar diante dos deuses e.. por exemplo… contar o que aconteceu aqui…

Sem cerimônias, Setne chutou o primeiro homem, que havia se colocado de joelhos, complicando suas tentativas de se levantar, e em seguida, jogou todo o líquido alcoólico da garrafa de cerâmica, e da segunda garrafa que tinha em suas coisas sobre os dois homens caídos. O líquido escorreu tranquilamente enquanto os homens já entendiam do que aquilo se tratava.

— Mas acho que vocês sabiam né? — perguntou Setne, fazendo magicamente uma pequena chama aparecer em sua mão — Que morrer incinerado até nada mais seu ficar para trás, é uma das piores coisas que pode ser feito à um corpo em nossa religião. Lamento… mas juro que não é nada pessoal.

Numa simplicidade aterrorizante, Setne jogou aquela pequena bolinha de fogo no primeiro homem e então produziu mais uma para o segundo. Os dois, molhados de álcool, rapidamente viraram uma enorme fogueira humana. Ele deixou os dois queimando enquanto roubava as coisas mais valiosas que a tumba tinha para oferecer. Um roubo mais para despistar quem tentasse descobrir quem esteve ali do que necessariamente por querer todo aquele ouro. Os gritos loucos de Minkhaf pareciam até música para seus ouvidos. Afinal, finalmente tinha encontrado o que estava procurando há um bom tempo depois de muitos anos de planejamento. E até agora, as coisas estavam dando certo.

Com a bolsa cheia, ele jogou mais fogo nos dois homens, para se certificar que seria o suficiente para transformar os dois em nada mais do que cinzas, pegou de fato o papiro brilhante e saiu rapidamente da tumba, pronto para apagar ainda mais rastros que pudesse ter deixado para trás agora que tinha o que queria nas mãos, o Livro de Thoth.

Enquanto isso, no Salão do Julgamento, Anúbis, Anput e Kebechet voltavam de seu breve passeio para Abu Simbel, e encontraram lá Thoth roendo as unhas ao conversar com Hórus e Osíris. Quando os três chegaram, Thoth, Osíris e Hórus olharam para eles imediatamente.

— Também estão com uma sensação esquisita? — perguntou Thoth.

— Eu estou. — respondeu Anúbis.

— Pedi pra minha mãe confirmar com Nekhbet e Hathor se elas também sabem de algo. — informou Hórus.

Foi nesse exato momento que Anúbis sentiu com mais certeza duas coisas acontecendo praticamente ao mesmo tempo. Duas tumbas sendo invadidas praticamente ao mesmo tempo, o que por si só, não era tão raro assim, considerando o tanto de ouro que as tumbas prometiam ter, o problema, era que essas tumbas foram justamente as de Minkhaf e a de Hatshepsut.

A de Hatshepsut não tinha mais nada à um bom tempo além de seus restos mortais e da mulher nobre que lhe fazia companhia, e a de Minkhaf, Anúbis já estava acostumado com o próprio Minkhaf assustar qualquer saqueador em potencial. Assim, vendo-se diante do cenário de ter que escolher uma das duas para lidar com, sem dar explicações para os demais deuses, Anúbis foi imediatamente para a tumba de Hatshepsut.

Quando chegou na pequena caverna, foi recebido por um par de gritos de susto diante de sua repentina aparição. E logo identificou um par de ladrões sobre cavalos, que haviam amarrado o sarcófago de Hatshepsut num cavalo e um saco com os vasos canópicos com os órgãos mumificados dela em outro.

— VAI VAI VAI! — gritou um dos ladrões desesperadamente, apressando os cavalos e a si mesmos.

Os dois saíram cavalgando desesperadamente com os restos da grande faraó sendo arrastados atrás de si amarrados na corda… o que obviamente deixou Anúbis com muita raiva. Os ladrões desesperadamente resmungavam orações, que com certeza seriam inúteis considerando quem os perseguia, mas não havia muito mais que eles podiam fazer.

Anúbis poderia os alcançar facilmente, mas perdeu um pequeno segundo ao sentir mais algo estranho acontecendo na cidade de Mênfis, tão perto dali. Havia algo errado com o touro sagrado Apis, uma representação mortal de Ptah ou Osíris, e que era considerado filho de Hathor, um intermediário entre os deuses e os mortais. O animal parecia repentinamente estar numa batalha contra a morte. Seria coincidência demais?

Decidindo lidar com o problema do Apis depois, num piscar de olhos e com quase esforço algum, Anúbis já estava de pé sobre o cavalo, logo atrás do ladrão que levava o sarcófago de sua melhor amiga. O ladrão gritou e, ao virar o rosto por instinto para ver Anúbis, também molhou as calças ao ver a expressão de mais puro ódio no rosto do deus.

— DESCULPA! DESCULPA! — gritou o ladrão quando viu a névoa se acumular ao redor de Anúbis e a mão do deus ir em direção a sua garganta — FOMOS PAGOS PARA ISSO.

A declaração fez Anúbis parar por um segundo, por achar ela curiosa. Quem pagaria pelo corpo de Hatshepsut? Resolveria isso depois, tinha que parar os cavalos primeiro. O sarcófago sacolejava atrás de si e ao passar por cima de uma pedra mediada, a corda amarrada ao sarcófago escapuliu, deixando-o para trás depois do baque. Ele rolou um pouco e se abriu de lado, derrubando o corpo de Hatshepsut no meio do caminho. O corpo saiu rolando até parar no meio da areia, perto do próprio sarcófago escancarado. Isso causou mais uma pontada de raiva em Anúbis, que sem cerimônias, chutou o ladrão na alto do braço, perto do ombro, com força suficiente para ouvir o braço do homem se quebrando segundos antes de derrubá-lo do cavalo.

O homem caiu dolorosamente no chão, e o segundo cavalo já tinha ido o mais longe que conseguiu para a direção oposta. Anúbis soltou a corda que até segundos antes prendia o sarcófago ao cavalo e deixou o animal correr para onde quisesse. Não queria que a corda ficasse presa em algo e impedisse a corrida do animal rumo à liberdade. Em seguida, surgiu de pé atrás do segundo ladrão, novamente sobre o cavalo. O homem gritou e logo começou a proferir as mesmas palavras.

— DESCULPA! — gritou o ladrão até ter sido interrompido pelo mesmo chute que derrubou seu companheiro. — DESCU-

O segundo homem caiu da mesma forma dolorosa que o primeiro, e também com alguns ossos quebrados. Anúbis soltou a corda que prendia um saco com os vasos canópicos de Hatshepsut ao cavalo, e também deixou esse cavalo seguir livre seu caminho, pulando de suas costas com facilidade. Contudo, mesmo em meio a dor, os dois ladrões já tinham se levantado para sair correndo, cada um em uma direção diferente.

Anúbis então invocou um par de chacais de névoa, que imediatamente correram atrás dos ladrões, atacando-os e derrubando-os no chão com extrema facilidade, enquanto o deus se preocupava com, o mais respeitosamente possível, juntar as partes da amiga e seu sarcófago novamente. Com evidente tristeza no rosto, ele pegou o saco com os vasos canópicos de Hatshepsut e então foi até onde a múmia dela ficou largada, entre os pedaços do sarcófago espalhado.

Andando calmamente até o sarcófago, ele sentiu a alma do Apis se juntando a dos mortos. Não era todos os mortos que prestava atenção, ficaria louco se registrasse mentalmente cada mortal que morria. Mas como símbolo importante e religioso, o touro Apis merecia um pouco de sua atenção. Tinha que reportar isso para Hathor, Osíris e Ptah, se é que eles já não sabiam do ocorrido de momento tão estranho de se acontecer.

Com muito cuidado, ele deixou o saco com os vasos no chão, e então arrumou a múmia sobre a areia, com medo de quebrar qualquer parte do fragélimo corpo. Enquanto isso, os ladrões gritavam em dor com as mordidas dos chacais que não pareciam querer os matar, só causar bastante dor e não deixá-los fugir. Com um pesado suspiro, e o mais delicadamente possível, utilizando-se até de magia, Anúbis colocou o corpo da amiga dentro do sarcófago novamente. Aproveitou e conferiu por alguns instantes o tanto de estragos que o corpo mumificado colecionou, inclusive reparou um pouco com magia o estado que o corpo estava. Refez algumas faixas de linho e arrumou umas partes que ficaram tortas. Quando se deu por satisfeito, olhou triste para a amiga mais uma vez, já extremamente diferente de como ele se lembrava dela, sorrindo entrando no Aaru e então fechou o sarcófago com facilidade.

No exato segundo que as metades de madeira do sarcófago se encontraram, os chacais pararam de atacar os ladrões, que a essa altura estavam encharcados de sangue, repletos de mordidas e cortes de cores e aparências horrendas, e encolhidos chorando em posição fetal.

— Quem pagou vocês e o que querem com o corpo de Hatshepsut? — perguntou Anúbis, indo em direção aos homens.

— Por favor… — choramingou um dos homens, encolhidos na areia ensanguentada.

— Quem pagou vocês e o que querem com o corpo de Hatshepsut? — repetiu Anúbis ao alcançar os dois e então escolher o único que teve coragem de pedir “por favor” para lhe agarrar pelo pescoço e forçar que olhasse para ele.

— P-Por favor… tenha piedade… — choramingou o homem com odor de urina vindo de seu saiote.

— Quem pagou vocês e o que querem com o corpo de Hatshepsut? — perguntou Anúbis mais uma vez, apertando firme a garganta do homem, que logo engasgou e fechou o rosto de dor.

— E-Eu n-não sei… — gaguejou o homem — E-Eu juro.

— Como não sabe? — perguntou Anúbis — Com quem vocês falaram? Como a pessoa se parecia? Ao menos isso devem saber!

— Só sabemos que era um homem. — disse o segundo homem, à beira das lágrimas — Ele ficou coberto o tempo todo. Nem vimos o rosto! Nos deu bastante ouro antes e disse que daria depois mais se conseguíssemos despistar quem nos atrapalhasse.

— N-Não sabíamos… q-quem… a-apareceria… — gaguejou o homem que Anúbis apertava a garganta com força.

— Ele não falou o que queria com o corpo? — perguntou Anúbis, estranhando cada vez mais a história — Nem pra onde levar o corpo?

— S-Só falou para… levarmos para o mais longe… possível… — gaguejou o homem em suas mãos cujo olhar implorava por perdão e piedade — E separar partes nos cavalos… para que… c-conseguissemos nos… separar…

— E pra entrar na tumba só exatamente no momento que o sol estivesse no ponto mais alto! — completou o outro homem.

— Só queria me enrolar… — concluiu Anúbis.

— S-Sim… p-provavelmente… — choramingou o segundo homem — N-Não sabemos mais nada então… p-por favor…

O homem parou de conseguir falar quando Anúbis apertou mais a sua garganta. A cor sumiu do rosto do homem, seus olhos ficaram esbugalhados em mais completo horror enquanto o aperto aumentava cada vez mais, impedindo-o de puxar ar e doendo terrivelmente. A mão do deus foi envolta num brilho dourado por um segundo e então, com um seco e doloroso “crack” o pescoço se rompeu com tamanha a força usada, tanta que a mão de Anúbis estava completamente fechada e ensopada de sangue no buraco entre a cabeça e o corpo do ladrão, onde um dia esteve um pescoço.

— Por favor não me mata! — já choramingava o outro — E-Eu posso ajudá-lo a achar o homem.

— Como? — perguntou Anúbis o encarando enquanto ignorava a própria mão ensanguentada — Nem viu o rosto dele.

— V-Verdade… — concordou o homem, desesperado pela própria vida — Mas eu vi as mãos de quando ele nos passou o pagamento.

— As mãos? — perguntou Anúbis — O que tem as mãos dele? Alguma marca chamativa?

— B-Bem … N-Não…. — gaguejou o homem — Mas eram mãos bem cuidadas. Não de alguém que as usa nas plantações ou em construções.

— Isso já era meio esperado considerando que, pelo o que disseram, o pagamento foi alto. — respondeu Anúbis — O que exatamente era o pagamento?

— V-Várias pulseiras e colares de ouro e prata. — respondeu o homem, torcendo para não molhar as calças tal como seu falecido amigo anteriormente — E duas garrafas de vinho. Para cada. Isso só na primeira metade. Ele prometeu mais.

— Algum nome estava gravado nessas jóias? — perguntou Anúbis — Se souber ler …

— S-Sei sim…. E não. Não tinha. — respondeu o homem.

— Só estou perdendo tempo aqui então. — concluiu Anúbis — Tal como esse cara misterioso queria.

Ele deu as costas para o último ladrão, que por um segundo achou que teria se safado de perder a vida, mas no segundo seguinte os chacais de névoa pularam em cima dele, mais mortíferos do que antes. Ignorando os gritos do ladrão, ele sumiu dali junto com o sarcófago de Hatshepsut e seus vasos canópicos, e então os notou novamente no mesmo lugar onde estavam antes. Pensando em como claramente tinham pesquisado bastante sobre ele, para saber que ele iria se preocupar mais com Hatshepsut, ele sumiu dali e ressurgiu na tumba de Minkhaf, torcendo para que lá fosse o foco real dos problemas, não onde o touro Apis morava.

Quando Anúbis finalmente surgiu na tumba de Minkhaf, encontrou Thoth, Hathor e Hórus já lá em aparente completo desespero enquanto Minkhaf gritava coisas sem sentido.

— Não tem como calar q boca dele?? Eu não consigo pensar assim!!! — reclamava Hórus, andando de um lado para o outro.

— ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI! — gritava Minkhaf.

— O que aconteceu? — perguntou Anúbis.

— Roubaram meu livro…. — disse Thoth com um sorriso torto.

— Onde esteve?!? — questionou Hórus em tom grosso, até que viu a mão suja de sangue do primo.

— ME PERDOA! — gritou Minkhaf derrepente voando até Anúbis tão rápido que passou direto, mas depois fez a curva — EU APRENDI! EU APRENDI! ME TIRA DAQUI! ME TIRA DAQUI!

— Argh… — resmungou Anúbis colocando as mãos nos ouvidos.

— Não tem como fazer ele parar!? — questionou Hórus, elevando a voz em meio à confusão — Não consigo nem ouvir meus pensamentos!

— Um segundo. — disse Thoth, estalando os dedos ao fazer uma magia que os blindou dos gritos de Minkhaf.

— Te respondendo… Alguém mandou roubarem os restos de Hatshepsut. — explicou Anúbis, vendo Minkhaf continuar a gritar, só que sem som — Puxavam ela amarrada em cavalos …

— Te enrolaram também então… — concluiu Thoth — Por isso saiu aquela hora…

— Como assim “também”? — perguntou Anúbis.

— Um pequeno instante que você sumiu lá no Salão do Julgamento, recebi preces desesperadas de que um templo meu estava pegando fogo. — justificou Thoth.

— E alguns dos filhos mais velhos de Ramsés II oraram, desesperados, pois estavam sendo perseguidos por um assassino de aluguel. — respondeu Hórus — Não deu em nada, mas me separou de Thoth.

— E o incêndio me ocupou mesmo quando senti que pegaram o livro. — admitiu Thoth suspirando pesadamente.

— Não temos tempo pra conversar então, estão tentando nos enrolar. — disse Anúbis olhando ao redor, passando rapidamente pelos dois homens incinerados no meio da tumba.

— Parece encenado isso daí né? — perguntou Thoth.

— Vamos lá fora ver se encontramos alguém fugindo da tumba. — sugeriu Anúbis.

— Já fui. — respondeu Hórus — Não há ninguém.

— Sente algum cheiro familiar por aqui? — perguntou Hathor, olhando esperançosa para Anúbis.

— Incenso… mas nada que me lembre alguém. — respondeu ele — Quanto tempo desde que sentiu que pegaram o livro?

— Bastante. — respondeu Thoth — Ficaram insistindo, implorando na verdade, lá no meu templo que eu não podia ir embora até achar um papiro específico no meio do fogo. Um que Ramsés II pediu para os sacerdotes e os mataria se não encontrassem.

— O que não é exatamente algo que já ouvi ele ameaçar de fazer…. — respondeu Hórus — Ao menos não sem ser um inimigo.

— Seja lá quem pegou o Livro de Thoth, é extremamente inteligente e veio claramente preparado. — disse Hathor — Os mortos incinerados não podemos questionar nem no submundo e seja lá quem for a pessoa, ou pessoas, fez questão que estivéssemos ocupados.

— Pode ser mais de uma pessoa também. — sugeriu Hórus — Para ter tantas artimanhas para nos atrasar. Afinal Hatshepsut está enterrada perto de Tebas, aqui estamos perto de Mênfis… Qual foi o seu templo afetado, Thoth?

— O em Quemum… — explicou Thoth.

— Três cidades em pontos totalmente diferentes do Nilo. — concluiu Hathor.

— Algo mais sumiu da tumba? — perguntou Hórus enquanto Anúbis percorria o olhar pela tumba.

— Ouro parece ter sumido também. — disse ele olhando para um dos montes de tesouros amontoados — Ao menos aquele monte ali parece menor.

— Não me surpreenderia se outros além de nós tiverem passado por urgências parecias exatamente ao mesmo tempo. — disse Hathor.

— Aconteceu algo com você também? — perguntou Hórus.

— O touro sagrado Apis foi mordido por uma cobra venenosa. — disse Hathor com um olhar de pesar.

— Achei coincidência demais para ser normal quando senti ele enfraquecer. — disse Anúbis olhando desconfortável para Minkhaf, que agora se encolhia em posição fetal no meio do ar, com os olhos extremamente arregalados, e gritando ainda sem som.

— Vamos fazer mais uma varredura pelo deserto, agora que está com nós. — sugeriu Hórus — Depois conversamos mais. Não tem como o responsável ter ido longe demais com o papiro. Thoth, atualize minha mãe do que aconteceu e traga-a aqui. Vamos tentar entender melhor tudo.

Já longe dali, chegando nas margens do Nilo, estava Setne. Ele suava aparentemente sem limites enquanto descia do cavalo, tão ofegante quanto ele. Sabia que havia usado de toda sua sorte ao usar do feitiço de invisibilidade com seu manto de linho negro, do qual a magia parecia precisar, e cavalo da cor da areia. Achou que seria seu fim quando viu um falcão sobrevoando, mas conseguiu chegar nas margens do Nilo.

Rapidamente o príncipe deixou o cavalo para trás e foi até o pequeno barco à vela que já o esperava, solitário, amarrado a uma tamareira e escondido entre altas plantas de papiro com uma segunda bolsa. Largando o cavalo para trás, ele usou toda a sua força para fazer o barco se movimentar, ainda usando em si a magia de se esconder. Foi só quando o barco começou a seguir a correnteza, que ele desfez a magia, agarrou uma pedra que lhe esperava sobre o barco, amarrou-a ao manto que usava e jogou o manto no mar. Apressadamente também, se molhou com a água do Nilo, na esperança de confundir o cheiro e refrescar o corpo.

Seu coração estava a mil e o fato de ter que fazer tudo apressadamente não ajudava em nada. De sua segunda bolsa, pegou um manto igual ao primeiro mas jogou bastante perfume de um frasco que havia deixado esperando por ele com a balsa. Com esse novo manto, ele refez a magia, escondendo-o novamente de qualquer olhar. Não passaria de um barco a vela navegando sem rumo. O que era estranho, mas não tinha outro jeito de cruzar o Nilo saindo da necrópole de Mênfis à oeste até a cidade à leste.

Quando finalmente alcançou a outra borda, ele saiu correndo novamente. Abraçava firmemente a bolsa com o precioso LIvro de Thoth escondido enquanto ia em direção à mansão que seria sua nova casa em Mênfis. Invisível como estava, os guardas não viram ele entrar com facilidade nos terrenos da mansão. Assim como não viram ele jogar uma magia sobre o papiro, disfarçando-o como um papiro comum e colocando-o numa estante junto com dezenas de outros papiros.

Ofegante e já nos últimos suspiros de sua energia física e mágica, ele correu até outro cômodo da mansão, largou a roupa dentro de um armário e, fingindo que nada tinha acontecido, andou calmamente até a mulher que estava no meio do cômodo. Ela estava parada ao lado de uma mesa com frascos em cima e cercada de um jardim interno e vários espelhos d’água. A mulher parecia entediada, mas logo corou quando Setne a agarrou por trás.

— Espero que não tenha desistido de minha massagem. — disse Setne.

— A-Achei que não viria mais… — admitiu a mulher, corada por inteiro.

— Eu disse que demoraria, não disse? — perguntou Setne, escondendo sua pressa ao deitar na mesa, indicando dessa forma que ela deveria começar a massagem — Ninguém sabe que dei uma escapadela, certo? Sabe como os serviçais aqui querem tanto me agradar… mas tenho coisas do meu pai para resolver.

— Sei disso, não tem problema. — disse a mulher, abrindo o primeiro frasco, com um óleo extremamente cheiroso — Não contarei para ninguém que estava trabalhando quando deveria estar relaxando.

Setne sorriu quando a massagem começou. Não só pela massagem em si, bem que precisava depois de tanto estresse, mas sim por seu plano ter dado certo até aquele ponto e ter conseguido manipular a massageadora de Tebas completamente. A coitada realmente achava que ele estava a cortejando… Setne teve que segurar a risada ao pensar nisso e na pilha de conhecimento que estava escondida na biblioteca.

Não havia sido fácil deixar Tebas com o pai, receber a notícia que esperava e correr tão desesperadamente até Mênfis, usando todos os contatos possíveis, para arquitetar aquele plano. Tinha pontas soltas para amarrar. Mas agora a maior ponta solta à amarrar era confirmar seu álibi.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** O templo de Abu Simbel, batizado assim pq foi descoberto por um menino chamado Abu Simbel, é um patrimônio mundial da UNESCO construído por Ramsés II, na fronteira do Egito, para intimidar os núbios. Ele é composto de dois templos, um do Ramsés II e outro para Nefertari, sua esposa favorita. Em 1968, o Egito construiu uma grande barragem para criação de um reservatório de água. Essa barragem criou um lago, chamado de Lago Nasser, que ameaçou submergir o templo de Abu Simbel e outros templos também, como o templo de Philae (que ainda não apareceu na fic pq n foi construído ainda). Assim, o templo de Abu Simbel, o de Philae, e outros, foram então realocados para um ponto mais alto para que não fossem submergidos. Alguns até foram exportados para outros países como “pagamento” pela ajuda em evitar que os demais fossem submersos. Como por exemplo, o templo de Debod que agora está em Madrid, o de Dendur que está em Nova Iorque, o de Taffeh em Leiden, na Holanda, o de Ellesyia em Turin, na Itália e o portão de Kalabsha, que está em Berlim. Infelizmente, outras construções não tiveram tanta sorte (egípcias ou núbias). Hoje em dia o Egito evita aceitar ajuda dos Europeus e Americanos pq eles ficam pedindo coisa como pagamento. Hj em dia eles dão preferência aos japoneses, que tão ajudando a construir um puta museu que tá quase pronto. É do Lago Nasser que o Egito atual tira a arrasadora maioria de sua produção de energia. A água também é usada para agricultura. Uma grande represa sendo construída na Etiópia criou fortes tensões entre os dois países e o Sudão, pois ela tem o poder de diminuir o fluxo de água do Nilo e potenclamente impedir que o Lago Nasser encha. Isso deixaria o Egito e o Sudão (que dependem extremamente do Nilo) numa situação bem complicada. **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 Abu Simbel - https://pt.wikipedia.org/wiki/Abul-Simbel