Notas iniciais
CAPÍTULO 100!! SOCORRO! QUE ORGULHO!! OBRIGADA A TODOS QUE SEGUEM ACOMPANHANDO! Aproveitem o cap, tal como os outros, foi feito com mto carinho ♥

Ele foi e ... todos os tipos de armas ... para servi-lo. O homem conduziu-o para o Oriente. Ele disse-lhe: "Vá agora para onde quiser." Ele saiu e o cachorro com ele. Ele subiu para o campo de acordo com sua vontade, ele viveu do melhor de todos os animais do campo

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

O clima havia ficado repentinamente tenso graças à Anúbis e Qebui. Os outros já mal ousavam respirar, quem dirá falar algo. Eles apenas observavam, tensos, Anúbis e Qebui se encararem intensamente só esperando para ver quem seria o primeiro a acrescentar mais palavras ao que era indiscutivelmente o começo de uma discussão.

Era evidente que as palavras queriam sair da boca de Qebui, pois ele remexia os lábios e a língua, irritado, como se estivesse com alguma balinha azeda dentro da boca. Todavia, ele não falava nada. Apenas encarava de volta o olhar sério e frio que Anúbis direcionava à ele, não tão pacientemente assim, esperando para ouvir quais as palavras que estavam coçando na ponta da língua do deus do vento do norte.

— E então? — incentivou Anúbis — Desaprendeu a falar? Está a séculos me tratando assim e não quer ao menos explicar o que eu lhe fiz?

— É irritante… — resmungou Qebui bufando mas logo aumentando a voz novamente — É irritante! Você é irritante! Toda essa situação é irritante!

— O que tanto eu lhe fiz para você ficar tão irritado com tudo? — questionou Anúbis.

— Eu, você e Anput começamos juntos na mesma merda. Tá que você é filho de Set e Néftis... mas o Nefertem é filho de Ptah e Sekhmet e a Seshat do Thoth! — exclamou Qebui — Não tínhamos grandes importâncias, mas estávamos juntos nessa. Mas você tinha que ficar importante...

— Eu não simplesmente escolhi que queria ser deus da morte! — defendeu-se Anúbis interrompendo Qebui.

— Mas escolheu se achar importante demais para andar com a gente! — continuou Qebui.

Por alguns segundos, Anúbis encarou Qebui como se estivesse louco. Não fazia ideia de onde ele havia tirado que Anúbis se achava importante demais para andar com eles. Com medo de acabarem sendo puxados para aquela discussão, Nefertem e Sopdet desviam o olhar, temerosos, e Seshat abaixava os olhos fitando o próprio colo.

— De onde você tirou uma coisa tão ridícula quanto essa? — quis saber Anúbis.

— Talvez de você claramente parando de passar um tempo com a gente? — perguntou Qebui retoricamente.

— Pode ter passado despercebido para você, mas todos os mortais morrem e tem algum parente ou amigo que morreu. — rebateu Anúbis — Dezenas morrem todos os dias! Tenho que vigiar sacerdotes, preparar corpos, julgar almas…Eu não tenho tanto tempo quanto você acredita que tenho! A culpa não é minha se “o vento do norte” praticamente só é importante para os comerciantes que usam o Nilo!

Nesse ponto, a raiva que cresceu dentro do coração de Qebui se tornou cada vez mais palpável. Uma boa prova disso foi a mão de Qebui que se fechava num punho tão apertado que os nós das mãos saltavam por debaixo da pele negra-castanha. O aperto das mãos acompanhava a aparição de uma brisa leve mas claramente não natural, pois surgiu do nada percorrendo o pequeno grupo em círculos perfeitos balançando o cabelo dos deuses, inocente, mas tensa.

A brisa mágica deixou todos, menos Anúbis, mais preocupados com a possibilidade de aquilo virar uma luta, mesmo que por acidente. Vendo a força com a qual Qebui apertava a própria mão, isso não seria surpreendente. Parecia uma questão de tempo para Qebui lançar uma forte rajada de vento contra Anúbis ou simplesmente lhe dar um soco. Anúbis, no entanto, não parecia minimamente preocupado com nenhuma das possibilidades embora enxergasse ambas.

— Qebui… — disse Nefertem gentilmente tocando na mão do namorado — calma…

— Não, calma não! — reclamou Qebui afastando a mão de Nefertem e gesticulando amplamente — Acha que não notamos nas festas quando você se afasta, achando que não vai ser notado? O que é isso então ? Tem vergonha de nós? Ai coitado dele, ele é ocupado. Quer que eu fique com dó de você por você ser bem popular dentre os mortais e não ter que ficar aproximando quantas preces recebeu e quantos fiéis têm a cada ano com medo de ser esquecido?

— Eu não tenho vergonha de vocês. — defendeu-se Anúbis.

— Ah não? — exclamou Qebui já não mais sentado no chão, mas sim de joelhos, como se quisesse ganhar mais alguns centímetros de altura para se sobrepor — Passa o dia inteiro só falando com Osíris, Isis, Thoth… cuida sozinho de todo o Aaru, que inclusive você mesmo criou. Uma dimensão infinita inteira feita num estalar de dedos! Qualquer coisa que Osíris precise e não possa estar presente, você vai no lugar… é praticamente o vice-dono do submundo!

— Ah, agora a culpa é minha porque você tem uma inveja do tamanho do Saara? — questionou Anúbis.

— Tá! Posso ser invejoso sim! — disse Qebui dando de ombros — Mas você não ficaria também se visse esse abismo que se formou? Você não é mais como nós! Não é mais um de nós!

— Qebui! Não diga isso! — suplicou Anput.

— Vai dizer que não fica se sentindo estranha, Anput? — perguntou Qebui — Bem, talvez você não, já que é casada com ele e tudo mais, mas é estranho! Alguém discorda disso por acaso? Como posso conversar normalmente com alguém enquanto lembro dos níveis totalmente diferentes? Minha auto-estima não aguenta lembrar que estávamos no mesmo nível e agora tem um abismo de distância! Se eu parar de trabalhar, fica mais difícil navegar pelo Nilo, já que teriam que usar remos no lugar de velas… se ele parar de trabalhar vamos estar num mar de corpos e almas! Tumbas serão pilhadas aos montes! Os mortais não terão o pós-vida que tanto querem e que os faraós tanto insistem em ter fazendo tumbas tão caras e sabe-se lá qual caos extra uma bagunça dessas no submundo pode gerar! Eu só posso fazer um barco mercante demorar mais pra chegar!

— Não fale assim… — pediu Nefertem — O vento do norte também traz chuva para o Egito, e chuva é muito importante. É um deserto afinal de contas.

— Não tão importante quanto a cheia do Nilo. — rebateu Qebui — Sem falar que é Tefnut, a bisavó dele, que é responsável pela chuva! Eu só dou um sopro quando ela quer ter um tempo para namorar com Shu, que é só TODO o vento! Parece que é até por dó da gente que você veio até aqui hoje, Anúbis! Se é por dó ou piedade de nós, pequenos deuses sem importância, não precisa mais se forçar a ficar aqui! Estamos melhor sem você, obrigado.

Ouvindo as palavras de Qebui, Anúbis deixou um suspiro escapar pelos seus lábios e imediatamente ficou cabisbaixo. Diante da discussão, o pobre nascer do sol, que iluminava belamente as águas, as montanhas arenosas e a caravana árabe mais além, passava a ser ignorado. Era cruel pensar que uma cena linda de tirar o fôlego estava sendo pintada pela natureza no mesmo lugar que palavras tão cruéis tinham sido proferidas.

Qebui, ainda de joelhos e punhos cerrados, estava claramente pronto para transformar aquilo numa briga física e era justamente com medo de isso acontecer que Seshat e Sopdet pouco interferiam e se encolheram em seu lugar. Qebui era esquentado demais e elas sabiam que se aquilo se tornasse físico, os resultados seriam mais desastrosos do que já estavam. Todavia, agora elas viam que muito dificilmente algo do tipo iria acontecer. Isso porque, ao invés de um olhar irritado pronto para comprar a briga que Qebui queria vender, Anúbis estava cabisbaixo e claramente magoado.

— Eu disse que não ia dar certo, Anput. — disse Anúbis triste e brevemente antes de sumir.

— Espera! — exclamou Anput tentando impedir que ele fosse embora, mas foi tarde demais.

Anúbis não estava mais lá e ninguém mais ali estava com clima para ver nascer do sol algum. O silêncio de cada um aí podia ser interpretado de várias formas, mas havia uma sensação de que ao menos com algumas das palavras de Qebui os outros concordavam, mesmo que fossem com as mais educadas delas. Surpreendentemente, a primeira a quebrar aquele silêncio desconfortável que surgiu, foi Sopdet.

— Eu concordo que é uma sensação estranha de como ter algo que não se encaixa e… toda essa diferença mas… — disse ela suspirando — Não precisava dizer isso desse jeito e nem jogar nele culpas que não são dele. Nem ser tão grosso e ignorante.

Emburrado, Qebui sentou-se e cruzou os braços fingindo estar, de cara amarrada, admirando o nascer do sol. Entretanto, toda sua encenação foi interrompida quando, sem que ele pudesse se preparar para nada do tipo, Anput repentinamente deu um tapa na cara dele.

— Se tem alguém que não se encaixa aqui é você. — declarou Anput séria apesar dos olhos ameaçando o começo de um choro.

Todos olharam surpresos para Anput quando ela se levantou, sem perder a pose, respirou fundo e sumiu provavelmente indo procurar Anúbis. Isso, contudo, não era fácil. Afinal, ao contrário de outras vezes, agora Anúbis queria de fato ficar sozinho. Anput não conseguia sentir onde ele estava e dificilmente iria lembrar da existência do lugar onde agora Anúbis estava sentado sozinho no chão em meio a completa escuridão.

Nenhuma luz entrava ali e por isso Anúbis não conseguia ver as pinturas que meticulosamente enfeitavam as paredes e a mesa de pedra na qual apoiava as costas. Mas ali, sentado abraçando as próprias pernas, ele sabia que a escuridão escondia não só tais detalhes das paredes, como também os olhos depressivos que ardiam e a múmia de Neby sobre a mesa de pedra. Ele não sabia bem porquê escolheu a tumba de Neby para ter uns momentos à sós, mas lhe pareceu a escolha mais óbvia.

Anúbis ficou sozinho na escuridão por escolha própria enquanto Anput procurava por ele nos lugares que lhe viam a mente. A sala das múmias, o Salão do Julgamento, o Oásis de Siwa, o Oásis de Faiyum, a Esfinge, as Pirâmides, o Vale dos Reis, pontos aleatórios no meio do deserto, o palácio do faraó e nada. Há mais de mil anos que Anúbis não ia até a tumba de Neby, não era um lugar muito óbvio de se lembrar.

Não só Anput ficou com raiva de Qebui, os demais também. Eles até ajudaram um pouco Anput na procura de Anúbis apesar de se sentirem culpados pelos acontecimentos. Contudo, eles eventualmente desistiram quando se contentaram que Anúbis aparentemente não queria ser achado naquele momento, mas Anput continuou mesmo assim.

Chegando à conclusão de que ele devia estar no Aaru, onde apenas ele podia entrar, Anput ficou esperando preocupada diante do portal do Aaru torcendo para ele voltar logo. A espera de Anput foi acompanhada do olhar curioso de Osíris, que ainda não sabia o que tinha acontecido, mas já estava muito curioso e intrigado.

A fofoca do que havia acontecido já tinha se espalhado pelos outros deuses tanto em parte, como completa ou com alterações, o que chateou em muito Anput e também Osíris que recebeu a versão mais completa que Anput poderia dar. Infelizmente, o que também irritou Anput, foi que alguns dos deuses pareciam mais preocupados quando Anúbis voltaria para que os julgamentos pudessem continuar.

Por um bom tempo, Anúbis ficou na escuridão da tumba de Neby pensando e organizando os pensamentos e sentimentos. O sol tímido recém-desperto da manhã já estava mais alto no céu quando Anúbis voltou para o Salão do Julgamento enfim. Ele não parecia irritado nem tão magoado quanto ficou, mas sua expressão transparecia uma calma deprimente nada normal.

Assim que Anput notou que ele estava ali, ela correu na direção dele e jogou-se sobre Anúbis envolvendo-o ao redor do pescoço num abraço. Ele demorou um pouco para corresponder o abraço, como se suas reações e emoções estivessem amortecidas e apáticas. Mesmo que Anúbis tivesse correspondido o abraço à tempo, ele, todavia, não durou muito, pois logo ela se afastou e segurou gentilmente o rosto dele entre suas mãos.

— Não dê ouvidos para Qebui. — disse ela — Ninguém concorda com aquelas coisas.

— Concordam sim. — respondeu Anúbis colocando uma das mãos sobre a mão direita dela — Ao menos em parte, aposto. Afinal, ele está certo quanto à uma, é de fato estranho quando se pára e pensa muito. Mas tudo bem, você tentou me incluir e Qebui finalmente falou o que pensa. Não precisa mais forçar me incluir no grupo… Não quero deixar os outros desconfortáveis também.

— Mas… — disse Anput triste e preocupada — … eu não posso deixar você sozinho.

— Não se preocupe comigo. — pediu Anúbis — Eu vou dar um jeito. Estou mesmo conseguindo fazer amizade com Hatshepsut.

— O que eu acho muito bom mas… mortais morrem. — lembrou-lhe Anput.

— Não esqueci isso. — garantiu Anúbis — Não se preocupe comigo, nem se prive de sair com eles por minha causa.

— Meio difícil eu querer ficar com o Qebui por perto depois de hoje. — admitiu Anput soltando o rosto dele.

— Bem, de toda forma, ainda tem Nefertem, Seshat e Sopdet. — disse Anúbis se afastando dela e indo até a balança como se quisesse dar uma indireta silenciosa de que queria que os julgamentos recomeçassem.

Anput apenas acompanhou-o, preocupada, com o olhar. Ela conseguia ver que ele parecia tentar mostrar que estava tudo bem, mas o olhar dele dedurava de que não estava. Ela queria perguntar onde ele havia se escondido, mas notou que não teria chance de fazer isso no momento quando Osíris se aproximou de Anúbis.

— Fugir dos sentimentos e dos problemas ao se ocupar dos julgamentos não é uma tática que funcionará sempre. — alertou Osíris — Creio que não precise lhe avisar isso.

— Não… — concordou Anúbis passando o indicador aleatoriamente por um dos pratos da balança.

— Amizades são mais complicadas do que muitos fazem parecer. — explicou Osíris — Admito que as condições são bem desfavoráveis e que sempre foi algo um tanto difícil para você, mas assim como encontrou Hatshepsut como uma amiga inesperada, vai encontrar outros também. Abra-se mais, tente falar com outros deuses ou até mortais mesmo. Não dependa só de Anput para ocupar seu tempo livre.

A frase final de Osíris fez com que Anúbis olhasse rapidamente para Anput, que o fitava preocupada ouvindo cada palavra. Eles nada disseram quanto as dicas de Osíris, apenas as acomodaram no coração e logo, tanto por dever, como por distração, os julgamentos recomeçaram.

Os julgamentos passavam uma sensação de normalidade apesar da tristeza das condições de algumas almas. A cada julgamento que passava, menos a mente de Anúbis ficava remoendo a conversa. Anput bem tinha coisas para resolver também, mas preferiu ficar ali, de olho no marido, no caso de algo acontecer. Entretanto, ela podia ver no olhar dele que ele ia voltando ao normal conforme as horas passavam, mas a sementinha criada pela conversa permaneceu ali presente.

A semente criada por Qebui estava ali quando, já no cair do dia, Seshat, Sopdet e Nefertem foram falar com Anúbis tentando diferenciar os próprios pensamentos dos de Qebui. Apesar dos rumos mais civilizados da conversa, Anúbis continuou com a mesma conclusão. Não tentar andar com eles era menos estressante.

Graças à briga, ninguém teve vontade também de continuar a viagem pelas terras minóicas e micênicas ao norte, que havia sido interrompida. Não havia humor para isso e até Nefertem estava brigado com Qebui. Mas o tempo cura muitas coisas. Assim, com o passar dos dias, as coisas foram lentamente caminhando para um novo normal. A arrogância de Qebui havia sido um golpe muito forte para o relacionamento dele com Nefertem e assim os dois resolveram dar um tempo, tornando Qebui o solitário do grupo.

Anput, Nefertem, Seshat e Sopdet viajavam por civilizações cada vez mais longe e às vezes Qebui tentava se juntar ao grupo novamente ou ao menos resolver o clima estranho que ficou com Nefertem. Mais que uma vez Anput, Nefertem, Seshat e Sopdet convidaram Anúbis para ir também, mas este recusava todos os convites mesmo quando estava desocupado, já que considerava a ideia desconfortável demais até mesmo para ele já.

Apesar dos efeitos do tempo, a conversa com Qebui criou uma tensão e receio em tocar em assuntos delicados. Assim, Anúbis chegou a conclusão que era melhor esperar as coisas parecerem mais normais para perguntar o que queria para Anput. Não queria tocar numa ferida emocional que a deixaria triste e deprimida, mas se preocupava em saber o quão realmente satisfeita ela estava considerando que nem tanto tempo atrás assim ela havia rebatido uma fala dele com "Porque não somos tão grandes ou importantes quanto vocês”. Pelo menos eles não estavam mais mal conseguindo falar entre si e se estranhando. A conversa que Anúbis e Anput tiveram na sala das múmias teve efeitos positivos bem melhores do que a com Qebui.

E assim, com vários outros assuntos importantes ou corriqueiros ocupando a mente, 3 anos inteiros se passaram. O conselho de Osíris para que Anúbis encontrasse outras pessoas com quem gastar o tempo livre para não depender tanto de Anput foi escutado apenas parcialmente. Uma arrasadora maioria do pouco tempo livre de Anúbis era de fato gasto com Anput, e nenhum dos dois se arrependia disso, mas por duas vezes nos 3 anos ele acabou gastando algumas horas conversando no meio do deserto ao lado de uma caravana Berber com Bes e duas outras vezes foi jogar e conversar com Hatshepsut.

Era véspera de ano novo e tanto Anúbis como Hatshepsut estavam bem ocupados para jogar conversa fora ou jogar algo casualmente. Enquanto Anúbis julgava almas no submundo, Hatshepsut estava junto com o irmão e mais alguns oficiais e conselheiros conversando ao redor de uma mesa com vários papiros dispostos sobre. Dentre eles, o mais chamativo, e aparentemente importante, era um mapa rudemente desenhado.

As expressões sérias, os soldados impedindo que alguém mais entrasse naquele cômodo, e as armas penduradas nas cinturas e nas costas dos oficiais, denunciavam que o assunto da conversa era guerra. Um assunto sangrento e que trazia mortes, algo bem diferente do motivo que levava Hatshepsut, agora com 18 anos, a ser a única sentada.

O plano de Hatshepsut de postergar deitar-se com seu irmão sempre teve uma data de validade. Não poderiam enrolar tanto os oficiais, conselheiros, sacerdotes e nobres que tanto ansiavam e exigiam um herdeiro. Assim, em meio às conversas de guerra, que deveriam na verdade serem lideradas pelo irmão, Hatshepsut ouvia e opinava exibindo uma enorme barriga de 7 meses de gravidez.

— A situação na Núbia está suficientemente estável. — dizia um dos oficiais — Nenhum rebelde ousa questionar a soberania do Egito desde que mandamos mais de nossos homens para lá e executamos os homens. Ter o filho do líder morando aqui conosco foi uma ótima estratégia, meu faraó.

— Estratégia esta que foi de minha irmã. — lembrou Tutmósis II com um sorriso torto — Dê os parabéns para ela, não para mim.

— Acha que o filho do líder já está mais seguindo nossos costumes do que o do próprio povo? — perguntou Hatshepsut — Se quiser tirar os soldados da Núbia e mandar para o norte, para ocupar mais territórios da Palestina e dos Arameus, teremos que ter o garoto lá na Núbia como um líder fantoche nosso.

— Acha mesmo? — questionou Tutmósis II claramente ansioso com a opinião da irmã.

— Sim, acho. — respondeu Hatshepsut — Particularmente não gosto da ideia de arrumar ainda mais briga, mas se quer tanto fazer isso, ao menos assegure-se de que estaremos fora de perigos vindo de outros lados. A Núbia sempre vai ser um problema e não podemos desistir dela e agora temos muitas fronteiras para cuidar. A situação na Núbia não é suficientemente estável para tirar os soldados de lá. Se quer tanto fazer isso agora, ao menos coloque um líder que os agrade mas que obedeça a nós e siga nossos costumes. Essa foi parte da intenção desde do começo de trazer o filho do líder de lá para viver entre nós, mas acho que apenas dois anos morando em Tebas é pouquíssimo tempo para considerar que seus ideais estão alinhados com os nossos. Talvez seja melhor esperar mais.

— Concordo com a rainha, meu faraó. — disse o oficial afirmando com a cabeça e se debruçando sobre os mapas já bem acostumado com aquele governo que estava bem claro quem tomava as decisões mais importantes ou tinha as melhores ideias apesar de cada vez mais fora das convenções.

Silenciosamente, aqueles de importância no governo além do faraó e da rainha esperavam que a passagem pela puberdade desse à Tutmósis II o corpo de um faraó guerreiro tal como o pai foi. Contudo, já com 17 anos, esse sonho parecia cada vez mais distante. Tutmósis II podia até ter o rosto muito parecido com o do pai, mas era magro, física e emocionalmente fraco. Mas, além disso, diminutas manchas começaram a aparecer em sua pele até mesmo impedindo que o cabelo crescesse em algumas partes. Por isso ele constantemente passava óleos aromáticos e medicinais numa constante tentativa de cuidar da pele que tentava esconder as imperfeições.

Era uma visão completamente oposta à da irmã. Ousada e astuta, mesmo desconsiderando a gravidez, não dava para dizer que Hatshepsut era magra como o irmão. Mesmo com seus meros 153 cm, ela conseguia se impor muito bem até mesmo ali, sentada e grávida. Apesar de nem todos gostarem de seguir as ordens de uma mulher, a cada ano do reinado de Tutmósis II que se passava, mais oficiais, sacerdotes e nobres viam que ali havia uma líder nata. E assim, mesmo que sutilmente, pois ainda era o irmão que dava a palavra final, Hatshepsut tentava dar preferência para soluções menos violentas e sangrentas que poupavam a vida dos egípcios e geravam comércio.

— Faz mesmo tanta questão de ocupar mais terras, Tut? — perguntou Hatshepsut olhando para o irmão.

— O pai faria… — disse Tutmósis II suspirando brevemente.

— Você não é ele apesar de carregarem o mesmo nome. — lembrou-lhe Hatshepsut.

— Independente, não podemos deixar de enviar alguma quantidade de homens para o norte eventualmente. — disse um dos conselheiros — Existem boatos de descontentamento dentre os beduínos na Palestina.

— São apenas boatos… — reclamou o oficial.

— Boatos facilmente levam para revoluções. — disse Hatshepsut — Não podemos encarar uma revolução do nível que aconteceu na Núbia bem no outro extremo do Império enquanto ainda tentamos assegurar a situação na Núbia e todas as outras fronteiras. É anti-logístico demais.

— Conseguimos levar uma força pequena para lá então? — questionou Tutmósis II olhando a distância que separava o ponto mais ao sul do Egito do ponto mais ao norte — É um longo caminho, afinal, é melhor estarmos preparados.

— Uma quantidade de homens suficiente apenas para conter os beduínos deve ser possível. — disse um oficial — Não passam de nômades…

— Cuide disso por favor então, general Rahotep. — pediu Tutmósis II — Informe-me sobre a quantidade de homens quando puder também. Quanto for locomover os homens, tente não deixar os núbios perceberem que sequer um deles foi embora. Por favor, não hesite em atrapalhar minhas comemorações de ano novo amanhã caso deseje tratar disso.

— Sim senhor. — respondeu Rahotep.

Com um mero gesto de mão, Tutmósis II anunciou que a reunião estava acabada. Todos saíram logo em seguida até que apenas ele e Hatshepsut estavam no cômodo. Ele até ofereceu a mão para ajudar a irmã à se levantar da cadeira, mas ela educadamente recusou.

— Então… — disse ela já de pé e passando a mão carinhosamente pela barriga — Tem planos para o ano-novo?

— Na verdade… — disse Tutmósis II — Tem uma garota…

— Isso é um sim. — disse Hatshepsut rindo.

— E você? — perguntou ele.

— Não…. nada… nenhum garoto. — admitiu ela.

— Boa sorte para você então. Vai que surge algum amanhã? — perguntou ele.

— Por mais carnal que seja uma festa de ano novo, acho difícil encontrar alguém disposto a olhar para a esposa grávida do faraó duas vezes. — disse Hatshepsut dando de ombros — Mas obrigada.

Naquele mesmo dia, mas já com o cair da noite, Anput se esgueirava para a sala das múmias onde Anúbis estava concentrado na mumificação do corpo de uma jovem. Ele já havia notado ela se aproximando, mas deixou ela chegar perto o suficiente para abraçá-lo por trás e sussurrar em seu ouvido.

— Amanhã é ano novo… — disse ela.

— Notei. — respondeu ele deixando uma leve risada escapar entendendo bem onde ela queria chegar.

— Acho que a situação do Egito está boa o suficiente para de fato comemorarmos o ano novo do jeito que se deve, não? — perguntou ela.

— Hum… de fato. E o jeito que você quer comemorar está bem óbvio também. — disse Anúbis tirando as mãos do cadáver e magicamente as limpando — Mas tem escrito em algum lugar que temos que esperar até amanhã?

— Não. — disse Anput dando de ombros — E também não tem escrito em lugar nenhum que não podem ser dois logo e ainda aproveitar a festa toda lá dentre os mortais.

— Pontos válidos… — disse ele se virando lentamente e abraçando-a ao redor da cintura bem apertado — Mas não aqui.

— Óbvio. — respondeu ela tomando-lhe os lábios num beijo e, no segundo seguinte, eles não estavam mais no submundo.

Notas finais
ps: Ano Novo lá era quase o Carnaval kkk não se assustem ok? kkkk **** REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Neferure - https://en.wikipedia.org/wiki/Neferure Tutmósis II - https://www.britannica.com/biography/Thutmose-II Tutmósis II - https://www.ancient-egypt-online.com/thutmose-II.html#:~:text=Thutmose%20II%20died%20in%20his,he%20was%20a%20weak%20man. Hatshepsut - https://www.ancient-egypt-online.com/hatshepsut.html por hoje é só! até próximo capítulo! ♥