A Morte Das Areias do Saara
101 Wepet Renpet
Notas iniciais

Ele chegou ao país do príncipe da Mesopotâmia (Naharanna). Agora não havia filho do príncipe da Mesopotâmia, exceto uma filha. Ele havia construído uma casa para ela, cuja sombra ficava a côvados distantes do solo. Ele mandou chamar todos os filhos de todos os príncipes da terra da Síria (Chara), e disse-lhes: "Qualquer que escalar a janela de minha filha, ela será sua esposa."
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Quando um novo dia nasceu recebendo o Ano Novo de braços abertos, a alegria se espalhou rapidamente por várias partes do Egito. Afinal, o Nilo tinha inundado na quantidade certa e a estrela Sírius havia aparecido ao lado do nascer do sol, ambos eram indícios de que aquele ano seria bom. Logo, o império explodiu em festa de norte a sul. As cidades e vilas às margens do Nilo podiam ser as mais alegres com a chegada da cheia dele, mas as comemorações do Ano Novo, o Wepet Renpet, se espalharam até para os vilarejos que dependiam de enormes oásis para não serem engolidos pelo poderoso deserto.
Pessoas começavam festas tímidas dentro de suas residências humildes, ou mansões ricamente decoradas, com comida especial e um forte abraço em pessoas queridas. Sacerdotes e sacerdotisas que serviam os mais diversos deuses agradeciam por tudo de bom que o começo do ano já tinha trago, faziam oferendas e rituais que espalharam o doce aroma de incenso pelos templos. No palácio, o dia começava agitado, pois cada vez mais serviçais corriam de um lado para o outro preparando uma festa de fazer inveja para todos.
Com o sol em seu ponto mais alto no céu, as comemorações domiciliares começaram a tomar conta da rua também. As ruas foram lentamente tomadas por risos, música, comida e até mesmo flores com suas pétalas espalhadas pelo chão. Tabernas e prostíbulos começavam a receber seus primeiros clientes apesar de nem todos precisarem deles para comemorar da mesma maneira.
Não só os mortais comemoravam a chegada de um novo ano, os deuses também. Ihy, o filho mais novo de Hórus, brincava pelas ruas de uma aldeia às margens do Nilo com as crianças mortais. Ihy já tinha alguns séculos de vida, mas havia congelado como uma eterna criança de 8 anos.
— Eu trouxe uma bola para a gente brincar! — exclamava Ihy orgulhoso erguendo a bola triunfantemente.
— Wah! Faz tempo que eu não brinco de bola! — disse um menino de aparentemente a mesma idade olhando para a bola empolgando — Tenho sempre que ficar ajudando meus pais! Não sobra tempo para brincar.
— Eu também… — resmungou uma menina — Vamos aproveitar hoje para brincar então!
— É! — concordou uma segunda menina de uns 6 anos.
— Vem! Vamos ali que tem mais espaço! — sugeriu Ihy apontando para os limites da aldeia e imediatamente todos correram juntos naquela direção.
Enquanto isso, em Siwa, tão longe do Nilo e cercada por dunas e por um majestoso oásis, um grupo travesso de crianças tinha corrido para longe do centro da cidade e se divertia ao, com ajuda de panos com alguns buracos, descer pelas dunas de areia como se elas fossem escorregadores. Era também ali que, no centro da cidade, rodeados de música, dança, comida, bebida, alegria e pessoas, Nefertem estava diante de Qebui.
— Sinceramente não achei que fosse insistir para comemorar o Wepet Renpet comigo… — disse Qebui visivelmente magoado — Afinal não estamos mais namorando.
— Eu amo você, Qebui, muito. — admitiu Nefertem segurando as mãos do outro firmemente — Apesar das vezes que você se comporta de forma tão egoísta e ranzinza. É com essas atitudes suas que eu não consigo concordar e que eu fico desconfortável, afinal gera também situações desconfortáveis.
— Sim. Sim. — reclamou Qebui desviando o olhar parecendo estar segurando as lágrimas — Eu te irrito e tenho uma péssima personalidade. Uma conversa parecida antes.
— Não exagere minhas palavras… — pediu Nefertem preocupado colocando a mão sobre a bochecha de Qebui forçando-o a olhar para si — É Wepet Renpet. Vamos abrir uma exceção. Passe o Wepet Renpet comigo.
— E depois? — questionou Qebui — Voltamos a como estávamos antes? Sem nos vermos e fingindo que o outro não existe?
— Não. Não mesmo. Isso dói muito. — disse Nefertem — Vamos… tentando. Preservar o que dá para ser preservado, ajustar o que precisa de ajuste. Devagar. Podemos pensar nisso depois mas, por hoje, vamos apenas ficar juntos.
Qebui olhou para Nefertem por alguns segundos enquanto pensava na proposta do outro, mas eventualmente afirmou com a cabeça mesmo que de forma ainda melancólica. Nefertem, por outro lado, abriu um enorme sorriso e, colocando o rosto do amado entre as mãos, beijou-o sem medos. Nefertem acreditava que os dois ainda dariam certo, e isso era tudo que precisava para beijar Qebui no meio de tantas pessoas. Até porque, para todos que viram aquele beijo, não havia nada demais ali. Não havia lugar melhor em todo o Egito para criar relações homoafetivas do que Siwa, onde, a cada século que passava, elas se tornavam mais presentes.
No momento em que o céu começou a ficar alaranjado, as celebrações já tomavam conta de todos os lugares numa intensidade tão grande que tornava a capital, Tebas, um verdadeiro caos de alegria. As crianças que não haviam se cansado e caído no sono depois de um dia inteiro de brincadeira correndo para todos os lados, começavam a ficar mais quietas ao brincar. O anúncio de chegada da beleza exótica da escuridão noturna era tudo que as comemorações do Wepet Renpet precisavam para virar uma festa desenfreada… e íntima.
Claro que a variedade de comida, bebida e a música eram maior nas áreas mais ricas da cidade, mas a alegria era igual mesmo que alguns tivessem que dividir trabalho com festança. Contudo, era a variedade de cores, sabores e sons que atraía algumas visitas diferentes nas festas que tomavam as ruas. Uma dessas visitas diferentes, era Anput, que dançava e rodopiava no ritmo da música alegre que também fazia o povo dançar nas ruas da parte nobre de Tebas.
Anput movimentava com maestria os quadris e o tronco totalmente camuflada no meio de várias outras mulheres, todas mortais, que juntas exibiam suas habilidades na bisavó da dança do ventre sob o olhar sedento e apaixonado dos maridos e interesses românticos.
O vestido de Anput era formado por dezenas de pequenas peças de ouro puro, moldadas tal como pétalas delicadas, que se sobrepunham ao vestido caro de linho branco formando uma espécie de corpete que continuava descendo seguindo as curvas de seu corpo até formar uma espécie de saia curta. Essa saia de ouro era mais longa atrás e a frente formava um V invertido bem aberto e com as pontas levemente encurvadas. Todo o conjunto invocava uma imagem extremamente elegante e, com a música, as delicadas peças de ouro balançavam criando um brilho ritmado e hipnotizante.
Não negando as próprias preferências, Anúbis olhava para a esposa com um olhar vidrado e levemente arregalado que vinha acompanhado de bochechas coradas que arrancavam risos de Anput. A alegria e a celebração da vida era tão forte dentre os mortais, que ninguém parava para notar Anúbis ali entre eles com um pequeno punhado de uvas na mão hipnotizado sem conseguir tirar os olhos de Anput enquanto comia uma uva de cada vez.
Sem parar de dançar, Anput se afastou lentamente das outras mulheres dançando e foi até Anúbis lentamente. Os olhos de Anúbis nem piscavam, mas um sorriso que escondia segundas intenções nasceu no rosto dele quando ela chegou bem perto. Mas, em defesa dele, o olhar sensual que Anput usou também deixava claro que ela também tinha segundas intenções. Especialmente quando ela passou um dos braços ao redor do pescoço dele, só então parando de dançar. Em seguida, ela pegou e comeu lentamente uma das uvas que estavam esquecidas na mão de Anúbis.
— E você não queria vir… — disse ela depois de comer a uva.
— Ainda bem que você é bem convincente. Mas não é que eu não queria vir... — disse ele respondendo à provocação fazendo as uvas em sua mão sumirem discretamente numa névoa negra e então puxando-a mais para perto pela cintura dela — Eu não tenho nada contra vir numa festa dessas se eu puder simplesmente ignorar todo mundo além de você.
— E todo mundo também te ignorar, imagino. — sugeriu ela acertando em cheio.
— Isso também.
Eles ficaram tão perto que seus nariz se tocaram e logo não demorou muito para eles começaram a se beijar amorosamente. O beijo no meio da rua não chamou a atenção de ninguém ali. Afinal, não era muito diferente do que outros casais também estavam fazendo ali.
Graças à urgência de aproveitar aquele Ano Novo, como num acordo silencioso, Anúbis repentinamente começou a puxá-la pela cintura para que pudessem achar um lugar mais privativo. Como estavam muito expostos no meio da rua, não queriam chamar a atenção sumindo magicamente num piscar de olhos. Assim, o foco de Anúbis era levá-la até os fundos de uma das casas do lado oposto da rua na qual estavam, para então sumirem para um lugar melhor. No entanto, Anput repentinamente segurou-o pelo pulso e puxou-o para que fossem se esconder atrás de uma casa mais perto, do mesmo lado da rua.
— Não, aí não! — alertou Anúbis apressadamente aos sussurros enquanto desviavam de um bêbado no meio do caminho.
Não deu tempo de Anput perguntar o motivo pelo qual ali não era um lugar bom para usarem ou sumirem, ela parou imediatamente quando conseguiu ver que, no muro do fundo daquela casa, outro casal estava já bem ocupado e usando a parede muito bem.
— Oh…. Bem… — sussurrou Anput bem baixo — Ainda dá para sairmos daqui. Eles não viram a gente. Mas se bem que eu preferiria não ter visto tanto...
Aproveitando a deixa que ainda estavam bem perto um do outro e que de fato o casal num emaranhado de gemidos, beijos e arranhões não tinha notado a presença deles, Anúbis e Anput sumiram dali. Eles reapareceram alguns quilômetros além, rodeados pelas estrelas. Ali, sobre o teto do palácio real do faraó, ninguém os veria e eles ainda tinham bela vista da cidade de Tebas que seguia comemorando o Wepet Renpet.
— O palácio?! — questionou Anput rindo voltando a abraçar o pescoço dele levemente e deixar seu rosto perto do dele.
— Você que ficou dizendo lá no submundo que queria ver a cidade e as estrelas. — respondeu ele com um simples movimento da mão fazendo toda a roupa deles sumir num passe de mágica — Que lugar em toda a Tebas tem melhor vista para os dois?
— Ponto válido. — respondeu ela lenta e sedutoramente desfazendo o abraço no pescoço dele e então descendo as próprias mãos pelos ombros dele em direção às mãos dele — Também duvido que encontremos algum outro lugar desocupado em pleno Wepet Renpet por Tebas sem ser no meio do deserto… que não é muito confortável.
Com um sorriso leve e doce, mas travesso, no rosto, Anput entrelaçou seus dedos aos dele e puxou-o lentamente para deitar-se ali no chão mesmo. Ele não só se deixou ser puxado, como também mostrou que tinha um pouco mais de urgência do que ela, já que mal tinham tocado o chão e ele já lhe roubava os lábios num ardente beijo enquanto uma das mãos dele ameaçava, com um leve toque, uma provocação na parte interna da coxa dela.
Qualquer frio que a noite pudesse trazer estava cada vez mais longe. O calor do contato apaixonante dos corpos era o suficiente para esquentá-los e corar as bochechas. Sozinhos com as estrelas e, tal como vários outros casais naquele começo de noite de Wepet Renpet, eles se amaram ardentemente sem hesitações. Para eles, a música que vinha de longe de uma festa de Ano Novo no palácio real era uma mera música de fundo que mal se podia escutar entre os gemidos e afetos. O teto do palácio real era ridiculamente alto e isso os protegia dos ouvidos alheios também. Isso, e a música distante que ainda era bem-vinda para tornar aquele momento mais belo.
Enquanto Anúbis e Anput trocavam todos os toques e paixões possíveis, vários metros abaixo deles, a festa de Ano Novo do faraó acontecia normalmente sem nenhum convidado ter a menor ideia do que acontecia sobre o teto deles. A música tocada habilidosamente conseguia esconder qualquer ruído do telhado reto de arenito, mesmo considerando que a maior parte da festa acontecia num enorme cômodo que, apesar de enormes colunas ricamente pintadas que seguravam o teto, tinha o centro aberto para o céu.
O chão na parte de teto aberto era pintado minuciosamente de azul num padrão que fazia parecer que lá havia uma pequena piscina com algumas flores de lótus boiando, mas era apenas chão. A maior prova disso era que dançarinas seminuas entretinham os convidados dançando no ritmo da música. Era impossível equiparar a dança delas com a que Anput havia participado. Se a que Anput dançou era uma mera versão anterior da dança do ventre, a das dançarinas era uma versão bem mais complicada que envolvia até mesmo movimentos dignos de acrobatas, o que justificava a parcial falta de roupas.
Dentre os vários convidados da festa real, estavam sumo-sacerdotes, generais de altíssima patente e os mais nobres e influentes não só de Tebas, mas de todo o Egito. Mas, dentre tantas pessoas abastadas e poderosas, não havia como confundir quem estava acima de todos ali.
Tutmósis II e Hatshepsut tinham as roupas mais chamativas e cheias de ouro dentre todos os presentes. Cheios de adereços e vestindo roupas do mais caro e puro linho branco, os dois chamavam atenção dos presentes, ansiosos para cair nas graças do casal real, ou afastavam aqueles intimidados a ponto de temerem uma troca de olhar ou repentina aproximação.
— Uma excelente festa, meu faraó. — dizia um sumo-sacerdote para Tutmósis II se curvando levemente em respeito.
— Obrigado. — respondeu Tutmósis II com um aceno de cabeça breve e modesto não só por próprio costume, como também por medo que a barba falsa de ouro e lápis-lazuli amarrada em seu queijo, o símbolo do faraó, acabasse saindo do lugar — Uma boa festa é um ótimo jeito de receber a chegada do novo ano.
— E que os deuses nos abençoem e guiem nesse novo ano. — pedia o sumo-sacerdote olhando, por um segundo, suplicante para o céu — E que finalmente nos dêem o herdeiro real que a tanto pedimos.
— Estou trabalhando nisso. — respondeu Hatshepsut.
Exibindo um sorriso satisfeito, o sumo-sacerdote se afastou e os dois irmãos viram ali uma oportunidade de se afastarem um pouco da festa e tentarem ter uma breve conversa a sós.
— Não se importa se eu lhe deixar sozinha um pouco? Certeza? — perguntava Tutmósis II.
— Certeza. — garantiu Hatshepsut — Não aguento mais andar cumprimentando as pessoas! Meus pés estão inchados e o bebê está pesado.
— Vá para o trono… — sugeriu Tutmósis II — Vou para lá depois para que não fique sozinha.
— Não se preocupe. — pediu ela — Vá atrás de sua garota. Disse que ia passar com ela hoje, não? Qual o nome dela?
— Iset. — respondeu ele um tanto sem graça.
— Vá ficar com Iset… Só... não… — disse ela soltando um suspiro — Só não faça besteira antes de nosso filho nascer. Não vai ser bom se algo der errado no nascimento e você acabar engravidando ela.
— Eu sei. Um herdeiro foi minha parte do nosso acordo também.
Os dois então se separaram indo para direções opostas. Enquanto Tutmósis II foi em direção á uma jovem que lançava constantes olhares para ele, Hatshepsut foi para a sala do trono onde, sem aberturas no teto alto para o céu, uma outra parte dos convidados permanecia conversando, comendo os mais diversos quitutes e bebericando vinhos caros de uva e romã.
Na parte mais funda da sala do trono, em uma plataforma um pouco mais elevada que o resto do piso, estava um par de cadeiras folheadas a ouro adornadas com desenhos que remetiam às únicas duas pessoas que podiam sentar-se nelas. Hatshepsut sentou-se aliviada em seu trono e não demorou nem um minuto para um serviçal surgir apressadamente com um pequeno apoio almofadado para os pés da rainha e uma outra serviçal com um grande prato de ouro com as mais variadas frutas e pães exclusivos para Hatshepsut.
Ela colocou os pés inchados sobre a almofada e, com olhos curiosos, pegou um pão bem redondo e fofo, partiu um pedaço com as suas mãos e comeu o pequeno pedaço. Enquanto saboreava o pão, que se desmanchava suavemente em sua boca, a rainha olhou para o teto da sala do trono com um olhar intrigado no rosto. Aquela mesma sensação que teve no sepultamento de seu pai estava ali de novo, mas um pouco diferente. A essa altura ela já havia chegado a uma conclusão de o que era aquela sensação que sentia, afinal conseguiu ligar as semelhanças com a mesma sensação de quando Anúbis aparecia. Era apenas um pouco diferente porque, dessa vez, não incluía a sensação de estar sendo observada, até porque ela não estava no campo de visão de Anúbis, mas, dessa vez, também parecia que ele não estava sozinho. Mas ela ainda não conseguia ligar que, a sensação diferente se devia também à ele estar acompanhado.
Apesar das conclusões e dúvidas que tinha, a questão que mais deixava a rainha curiosa era o que raios Anúbis estaria fazendo no teto do palácio. Como não tinha como ir para o teto do palácio, pois não era fisicamente possível, Hatshepsut se contentou em descansar os pés e desfrutar dos comes e bebes que chegavam até ela sem nenhum esforço.
Por alguns minutos Hatshepsut ficou lá, um pouco entediada, apenas vendo o movimento das pessoas e aproveitando a música, quando notou um rapaz olhando para ela. Não era nada tão surpreendente assim, considerando que ela era a rainha. Mas o jeito que ele desviou o olhar foi diferente.
— Nebsenet… — disse Hatshepsut chamando a sua serviçal que segurava o prato de comida exclusivo para ela.
— Sim, majestade? — disse Nebsenet aproximando-se de cabeça e olhos baixos.
— Sabe dizer quem é aquele homem? — perguntou Hatshepsut sem deixar de olhar para o rapaz que agora parecia evitar olhar na direção da rainha — O de pé, bebendo algo, ao lado do vaso de plantas grande, perto da porta, conversando com mais dois homens.
— Hum…. — disse Nebsenet procurando com o olhar aquele que se encaixava na descrição da rainha — Posso estar enganada, majestade, mas creio ser Senenmut, o novo aprendiz do arquiteto real.
— Ele de fato parece nervoso o suficiente para ser a primeira festa dele aqui. — comentou Hatshepsut e Nebsenet quase deixou escapar uma risada.
— De fato. — concordou a criada — Não deve ser nada acostumado à situações assim, se me permite dizer. A conversa entre as outras garotas é que aparentemente ele é de uma família de plebeus do interior. Provavelmente fazendeiros.
— Uma família de plebeus?! E chegou à ajudante do arquiteto real? — exclamou Hatshepsut surpresa olhando finalmente para Nebsenet.
— Surpreendente, na minha opinião. — comentou Nebsenet — Ele deve ser de fato muito inteligente.
— Com certeza. — concordou Hatshepsut voltando à olhar para o homem.
Hatshepsut estudava Senenmut até desviar o olhar ao notar que ele estava ficando desconfortável. Afinal, era impossível não notar os milésimos de segundos das vezes que ele ousava olhar para ela com o canto do olho e, ao notar o olhar dela sobre si, desviava o olhar rapidamente mais uma vez.
Eventualmente, as agitações que aconteciam no teto do palácio, sem que ninguém percebesse, acabaram. Ambos ainda estavam sem roupa, mas devidamente limpos com magia, enquanto Anput estava deitada admirando as estrelas. Anúbis, por outro lado, estava sentado logo ao lado dela tentando ver alguma coisa que sentia lhe incomodando em sua omoplata.
— Desculpe, a culpa é minha… acabei lhe arranhando. — disse Anput ao notar o que ele fazia e então se levantando um pouco para tocar docemente na pequena parte arranhada perto do ombro esquerdo dele — Tem um pouco do outro lado também, mas menor.
— Tudo bem. Já está desaparecendo. — respondeu ele deitando-se ao lado dela enquanto ela parava uns segundos para analisar o quão grande estava as próprias unhas para conseguir ter feito aquele diminuto estrago.
— Esse deve ter sido o melhor ano novo que a gente teve em mais de mil anos. — declarou Anput rindo.
— Nossa… — disse ele um tanto surpreso rindo de leve — Mas aquela vez uns… quatrocentos e trinta anos atrás mais ou menos...
— Ah mas dessa vez teve a festa mais cedo e ainda completamos com fazer sexo num lugar tão diferente e ousado e com uma vista tão linda… — disse Anput sonhadora olhando para as estrelas que enfeitavam o céu como numa obra de arte — Foi uma adição bem legal e… maluca…
— Provavelmente ninguém da festa no palácio escutou nada. — disse Anúbis — E os outros estão quase todos ocupados em outras festas também.
— Sim. — concordou Anput se virando para ele apoiando a cabeça com o braço — Aposto que as coisas estão tão malucas quanto aqui lá no Salão do Julgamento.
— Só que com o diferencial de que aqui ninguém conhece a gente. — acrescentou Anúbis — Estão tão envolvidos em festejar o ano novo que nem notam.
— Se bem que teve uma velhinha lá mais cedo na rua que pareceu te reconhecer. — revelou ela pensativa relembrando o momento — Não tenho muita certeza. Ela pareceu chocada por um segundo mas depois ficou calma… Ouviu alguma prece ou algo do tipo dela?
— Talvez… Admito que não estava prestando tanta atenção naquele momento. Estava um pouco difícil. — admitiu Anúbis corando de leve sabendo bem que era Anput que tinha o distraído de prestar muita atenção nisso.
— Bem, a mesma sorte não vai acontecer se entrar nessa festa aqui. Mas depois disso tudo, estou querendo tomar um vinho. Vou lá pegar uns copos para nós. Espera aqui?
— Claro.
Ela lhe deu um rápido selinho e então levantou-se. O elegante vestido surgiu novamente num passe de mágica segundos antes de Anput sumir dando início à sua missão de entrar de penetra na festa do faraó e pegar dois copos de vinho. Algo extremamente fácil quando se pode surgir onde quiser.
Entretanto, sabendo ainda que a chance de ela se distrair para admirar alguma coisa na festa era razoavelmente grande, Anúbis se levantou e, também fazendo sua roupa surgir magicamente, decidiu que queria ver, ao menos de longe, o que acontecia na festa.
Andando pelo teto, ele foi até a parte levemente mais baixa do que onde estava e que também era a parte por onde a música tocava mais forte. A música era mais forte ali pois era ali que o teto era aberto para o céu e também onde os músicos tocavam e as dançarinas dançavam.
Ele sentou-se na beirada, alto e longe demais para que qualquer um ali notasse, e observou a festa do faraó. Faraó esse que inclusive estava num canto conversando com uma garota que parecia interessada no homem mais poderoso do Egito. Era claro também, no entanto, que, por mais que a festa de rua onde Anput havia dançado mais cedo fosse em uma das partes mais ricas da cidade, a festa do palácio era bem mais abastada.
Ao mesmo tempo, na sala do trono, Hatshepsut sentiu que, por algum motivo, Anúbis tinha saído andando do ponto do teto onde estava até então e caminhado até o teto do cômodo aberto para o céu como um pátio. Como estava entediada mesmo, ela se levantou do trono e andou até o mesmo cômodo.
Olhando para cima, a rainha viu Anubis sentado na beirada com as pernas balançando no ar. Por alguns segundos, ele não pareceu ter visto ela, mas não demorou muito para notar a rainha ali com uma expressão de leve surpresa. Não havia como Hatshepsut gritar para ele qualquer mensagem que fosse, não só a música iria atrapalhar, como também ficava estranho as pessoas ao seu redor notarem. Assim, discretamente através de pequenas mímicas e ao formar silenciosamente as palavras que queria com a boca, Hatshepsut convidou-o para descer para a festa com ela provavelmente achando que ele estava sozinho.
Ao entender a mensagem, como não era o caso de ele estar sozinho, ele respondeu da mesma forma silenciosa que não tinha como descer no momento. Foi também nesse momento que Anput se aproximou andando com dois belíssimos copos de faiança verde-azulada que pareciam uma flor de lótus fechada parcialmente como uma taça. A faiança egípcia era um material vítreo cuja produção os egípcios importaram da Mesopotâmia antes de aprimorá-lo a ponto de ele parecer porcelana.
— Eu trouxe vinho. — disse Anput entregando um dos copos para ele e então notando que ele parecia estar conversando com Hatshepsut.
— Obrigado. — respondeu ele já tomando um gole do vinho.
— Essa é Hatshepsut? — disse ela sentando-se ao seu lado apoiando a mão livre, sem perceber, sobre a perna dele.
— Sim. — confirmou ele — Não tinha a visto ainda?
— Não. — disse ela erguendo levemente o copo de vinho em suas mãos cumprimentando a rainha que, sem um copo para fazer o mesmo, apenas acenou brevemente com a cabeça — Ela parece bem esperta mesmo. Achava que tinha sido exagero quando os outros falavam isso mas, realmente dá para notar só pelo olhar. O que estavam conversando assim de longe?
— Ela estava chamando para descer até lá. — respondeu ele enquanto ela dava breves goles no vinho.
— Eu queria conhecer ela direito mas… Não chamaria muita atenção? — perguntou Anput — O pessoal da cidade não te conhece e com toda essa festa ninguém iria te notar mesmo, mas no palácio é diferente. Sempre tem que ficar indo para checar algo das tumbas reais… Muitos já sabem quem é você e você não gosta de toda essa comoção que eu sei.
— O jardim está mais vazio… — sugeriu ele meio inseguro rodando o vinho como um redemoinho ao mexer o copo.
— Pode ser. — respondeu Anput imediatamente tentando atrair a atenção de Hatshepsut e então apontando na direção do jardim.
Não demorou muito para a rainha entender o recado. Anúbis e Anput foram os primeiros a chegar no jardim e constatar que, felizmente, ele estava vazio. Aparentemente ninguém ousava fazer nada muito escandaloso tão perto do faraó. Terminando de bebericar o vinho, eles esperaram um pouco e logo depois Hatshepsut chegou no jardim também.
— Os guardas vão sem dúvida ficar desesperados se soubessem que alguém entrou sem convite na festa. — disse ela.
— Ou simplesmente iam fingir que não viram nada. — sugeriu Anúbis.
— O que, infelizmente, eu tenho que concordar, é mais provável considerando quem foram os intrusos. — disse a rainha desviando o olhar de Anúbis para Anput — Imagino que seja Anput, desculpe se estiver errada. É um prazer conhecê-la.
— Sim… — confirmou Anput levemente surpresa e olhando rapidamente por um segundo para Anúbis para compartilhar a surpresa e ele simplesmente deu de ombros já acostumado com a esperteza da raiva — Como soube?
— Bem… é sabido que o deus Anúbis é casado com a deusa Anput. — explicou Hatshepsut — E o jeito que estavam lá em cima não parecia de meros amigos. Mas admito que ainda teve uma pequena quantidade de chute de minha parte.
— O jeito que estávamos? — perguntou Anput — Nem nos beijamos nem nada.
— Coisas bem menores podem deixar sentimentos óbvios se perceber bem. — explicou Hatshepsut.
— Tipo estar entediada com uma festa e ansiosa para fugir dela? — perguntou Anúbis.
— Estou tão óbvia assim? — perguntou Hatshepsut.
— Ah não, acho que é só porque ele é profissional em sentir-se querendo fugir de uma festa. — explicou Anput fazendo Hatshepsut rir um pouco.
— A festa está boa. É só que já estou cansada. — explicou Hatshepsut — Não consegui dormir bem por causa do bebê. Ficou me chutando a noite inteira então…
— Posso sentir? — perguntou Anput levemente curiosa.
— Tudo bem…
Com um olhar que pouco disfarçava um minúsculo brilho da curiosidade, Anput tocou na barriga de Hatshepsut e logo sentiu o suave movimento do bebê. Anúbis apenas observava a cena torcendo para, silenciosamente, o momento fazer Anput querer ter uma filha.
— Conheço esse olhar… — disse Anput notando o que se passava pela cabeça de Anúbis — Mas agora não.
Anúbis deixou um suspiro escapar enquanto Hatshepsut apenas olhou de um para o outro terminando de preencher as lacunas de informação que ela precisava para completar o sentido da conversa dos dois. Já satisfeita, Anput também abaixou a mão e, vendo ali uma oportunidade, Hatshepsut decidiu que era hora de saciar sua curiosidade também.
— Aliás… O que estavam fazendo em cima do palácio?
Diante da pergunta tão inesperada, Anúbis e Anput imediatamente ficaram vermelhos e de olhos arregalados. A reação deles fez a rainha deixar escapar uma leve risada.
— A vista lá de cima deve ser muito bonita, não? — perguntou ela — Já acho a vista dos quartos incríveis, imagina lá tão mais alto.
— É linda mesmo… — admitiu Anput um tanto sem graça.
— Como percebeu que estávamos lá em cima? — perguntou Anúbis.
— Eu… senti… — admitiu Hatshepsut dando de ombros — Que nem no dia do sepultamento de meu pai. Você estava lá também, certo? Porquê eu percebo essas coisas? Isso não me parece normal.
— Vai saber… — disse Anput levianamente enquanto Anúbis nem sequer ousava responder. A atitude dos dois, no entanto, foi bem notada por Hatshepsut.
— Tem um motivo, pelo visto. — concluiu ela — Porquê não me contar?
— Não é a hora certa… acho… — admitiu Anúbis desviando o olhar.
Hatshepsut parou por uns segundos olhando os dois e pensando nas palavras deles. Obviamente estava curiosa por mais informações, mas estava claro que eles não queriam, nem deveriam, dar mais informações no momento. Escolhendo então confiar nos dois, ela deixou um suspiro escapar.
— Chegará a hora certa eventualmente? — questionou.
— É provável. — disse Anput, sem ter completa certeza, olhando para Anúbis como se esperasse a opinião dele também.
— Bem, se não chegar…Me conte ao menos quando eu chegar diante da balança. — pediu Hatshepsut.
— Creio que muito antes disso terá chegado a hora certa ou terá descoberto sozinha. — disse Anúbis.
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