A Morte Das Areias do Saara

169 Nascer e Pôr do Sol


Em verdade, o nome foi tirado do grande deus. Que Rá viva, e que o veneno morra; e se o veneno viver, então Rá morrerá. E da mesma forma, um certo homem, filho de um certo homem, viverá e o veneno morrerá. Estas foram as palavras que proferiu Ísis, a grande dama, a senhora dos deuses, e ela tinha conhecimento de Rá em seu próprio nome. As palavras acima serão ditas sobre uma imagem de Temu e uma imagem de Heru-Hekennu, e sobre uma imagem de Ísis e uma imagem de Hórus.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Diante de Ísis, Rá dormia tranquilamente. Frágil, magro, o deus não passava de uma sombra do que um dia foi. A tranquilidade de Rá não combinava com a inquietude da mente de Ísis, que no meio de tudo, ainda estava muito ciente que não tinha muito tempo ali. Havia passado por Tawaret, que guardava essa área de descanso de Rá, sem que a deusa hipopótamo notasse. Se fosse seguir com seu plano, ninguém poderia lhe ver.

Duvidava que simplesmente pedir para Rá fazer algo fosse fácil. Quando Tifão atacou, havia sido um sacrifício convencer Rá a ajudar. E mesmo se convencesse, Rá não passava mais tanta autoridade assim e nem estava com a mente sã. Não podia confiar nas chances de ele não revelar que ela havia tramado tudo. Não. Tinha que ter um plano bem bolado, um plano que os outros deuses acreditassem na inocência dela e que um momento de lucidez havia iluminado a mente confusa e esquecida de Rá. Ainda assim, sua farsa tinha falhas, pois ela mesma dependia de um momento de lucidez parcial de Rá. Um estado mental muito específico. Nem perfeitamente lúcido, nem totalmente confuso. Um estado que até algumas drogas ou venenos eram capazes de deixar os mortais.

Os estados de lucidez eram raros em Rá ultimamente, mas existiam, e ela tinha certeza que ele odiaria o plano dela se estivesse são o suficiente para concordar. Contudo, para ter o que ela queria, Ísis gesticulou delicadamente sobre o singelo filete de baba que escorria da boca de Rá. O filete se moveu, criando vida própria e se afastando do seu dono enquanto adquiria uma cor arenosa.

A saliva se mexia e se retorcia, criando vida própria e mudando de forma, cor e textura, se transformando numa pequena cobra. A cobra parecia normal, mas não havia nada de normal em seus dentes, criados pela poderosa magia de Ísis.

A pequena cobra se aproximou de Rá e mordeu-o na mão. O deus se escolheu tal como o coração de Ísis que, em meio à culpa de ter que fazer o que fazia, temeu que ele acordasse. Contudo, ele não acordou e a cobra, com o serviço terminado, desapareceu, virando baba novamente.

Cautelosa, Ísis se aproximou. O mais leve toque de seus dedos desfez o pequeno ferimento que a cobra havia deixado para trás com uma gota de sangue prateado escorrendo. Em seguida, ela colocou a mão na testa de Rá, tal como as mães mortais cuidando dos filhos, e esperou, com o coração quase pulando da boca, qualquer indicativo de febre, o primeiro sinal do veneno que havia colocado na cobra mágica. Cada segundo era um martírio, cada movimento de Rá era um susto, cada ruído vindo do lado de fora era uma tensão.

Com medo de se demorar mais ali, ao primeiro sinal de uma temperatura um pouco maior na testa de Rá, Ísis sumiu dali. Foi para qualquer lugar. O primeiro que pensou foi um de seus vários templos espalhados pelo Egito. Tentou distrair a cabeça por alguns minutos enquanto falava com algumas das sacerdotisas, e só quando tinha certeza de que os sintomas que esperava de Rá já estavam bem visíveis, foi que ela voltou para o cantinho escondido nas dobras da realidade onde Tawaret cuidava de Rá. Mas, dessa vez, ela apareceu na entrada, tal como fazia todas as vezes que ia normalmente visitar Rá e Tawaret.

Tal como todas as outras vezes que chegou pelo elegante, mas pequeno, hall de entrada, ela encontrou Tawaret sentada em uma cadeira no canto, passando os olhos por vários papiros.

— Olá. Como vão as coisas por aqui hoje? — perguntou Ísis, amigavelmente.

— Olá! Quando passei lá ele estava dormindo. — respondeu Tawaret — Fico meio desconfortável de estar lá quando ele dorme… Sabe como é…

— Ainda é Rá, afinal de contas… — disse Ísis suspirando.

— Sim… Não parece certo ficar assim, encarando ele, num momento tão íntimo e vulnerável. — explicou Tawaret.

— Ah sim, entendo.. nas vezes que revezei com você eu senti o mesmo. — explicou Ísis.

— E alguma novidade lá de cima? — perguntou Tawaret.

— Mesma coisa… — admitiu Ísis, suspirando profundamente, tentando parecer mais calma do que realmente estava — O frio causado pela erupção do vulcão ainda é um problema… Ramsés III está tomando medidas desesperadas. Infelizmente, nenhuma novidade para melhor.

— Ao menos não tem nenhuma para pior pela cara. — disse Tawaret.

— Talvez só não chegou em meus ouvidos ainda pelo ritmo que as coisas estão. — disse Ísis.

Foi nesse momento, que do corredor parcialmente iluminado que levava para o quarto onde Rá descansava, elas ouviram um resmungo alto e doloroso. Tawaret foi a primeira a se sobressaltar e virar para o corredor, já que Ísis se deu um mero segundo para esperar a reação dela. De toda forma, logo estavam as duas correndo pelos corredores até o quarto de Rá. O encontraram ofegante, suado, tendo jogado para longe os caros lençois de linho branco que lhe cobriam.

— O que ele tem?! — exclamou Tawaret, rapidamente pegando a mão de Rá de forma acolhedora — O que está sentindo, Lorde Rá?

Rá se contorcia, febril e em aparente dor. Recheado de culpa, o coração de Ísis se apertava enquanto ela dizia para si mesma que era algo necessário para o Egito sobreviver. Sendo a deusa sábia, e profissional em cura, que era, rapidamente ela tomou o lugar de Tawaret, se portando como uma médica que tentava descobrir o que afligia o paciente… como se ela já não soubesse.

— Está muito febril… — disse Ísis, tomada de uma preocupação que não era de todo falsa, só a parte verdadeira que tinha outros motivos.

— Um deus doente? Pode mesmo isso ser possível? — perguntou Tawaret, desesperada, se aproximando para ter sua vez de tocar na testa quente do deus também.

— Com tudo que tem acontecido com Rá, não duvidaria de mais nada! — disse Ísis, fingindo estar tão desesperada quanto a amiga, tentando entender o que afligia o deus.

— O que? O que? O que? — repetia Rá, sem se comportar o suficiente para que as duas entendessem se estava em consciência ou novamente com a mente perdida e anuviada.

— Quer que eu chame alguém? — perguntava Tawaret, mal conseguindo ficar quieta — Thoth deve poder ajudar a entender o que acontece!

— Não! Não precisa… — disse Ísis, mal conseguindo controlar o próprio desespero ao responder que não enquanto, passando sobre o corpo de Rá a mão que brilhava, fingia tentar o diagnosticar — Acho que sei o que fazer. É como se ele estivesse envenenado. Não sei se está realmente envenenado, mas a sensação que me passa é parecida com essa. Mas também com magia no meio.

— Serqet então? — perguntou Tawaret — Ela entende de veneno. Pode nos ajudar.

— Não precisa. Sei uma magia que talvez ajude. — respondeu Ísis olhando para Tawaret com uma expressão enigmática no rosto — Não precisamos, até o momento ao menos, deixar os demais mais preocupados ainda. Estão todos à beira de um ataque nervoso com tudo que tem acontecido.

— Faz sentido. Faz sentido. — resmungava Tawaret enquanto Rá se contorcia e gritava de do.

— Só que tem um porém. — disse Ísis, colocando a mão nos ombros de Rá e olhando para ele intensamente, torcendo para que ele lhe devolvesse o olhar e ali ela encontrasse a verdadeira essência do deus — Esse feitiço precisa do nome secreto de Rá.

— O QUÊ? — exclamou Tawaret — Isso é perigoso… ele não… nenhum de nós… compartilha nosso nome secreto desse jeito. Já está no título… é SECRETO.

— Não tem outro jeito. — disse Ísis, falando com Tawaret mas implorando para Rá em busca da sanidade que ainda poderia haver dentro dele — O nosso nome secreto é nosso nome verdadeiro, é a natureza de nossa alma.

— Mas é perigoso… — respondeu Tawaret, apreensiva.

— Ninguém mais irá saber nem o nome e nem que isso aconteceu se você também não contar. Sabe que ele só pode ser compartilhado pelo dono ou aquele mais próximo de seu coração… — respondeu Ísis — Só nós duas estamos aqui. Não somos aquelas que são donas do coração de Rá, então não podemos espalhar para ninguém o nome secreto dele.

— Pode até ser verdade. Mas eu não quero nem saber! — exclamou Tawaret — Não tem outro jeito?

— Não… — respondeu Ísis, tendo que se afastar um pouco de Rá, que se debatia demais — Sabe-se lá o que pode acontecer com Rá juntando isso com toda a situação em que ele já estava e que o Egito está.

— Ele pode desaparecer! — exclamou Tawaret, surpresa — Oh não. Oh não. Rá pode está debilitado, mas ainda precisamos muito dele. Não podemos arriscar que ele tenha o mesmo destino dos hititas.

— Vê? Não tenho outra escolha e nem tenho muito tempo também. — insistiu Ísis tentando deixar Tawaret desesperada o suficiente para que conseguisse fazer o que queria sem muitos julgamentos — Tenho que fazer isso, e logo! Ele está muito febril e com muita dor! Seu corpo pode estar necrosando por dentro se o veneno estiver tendo o mesmo efeito que teria em mortais, o que eu acredito que esteja.

— Tá! Tá! Tá! Mas me deixe fora disso. Eu não quero nem saber! — exclamou Tawaret, correndo para fora do cômodo com as mãos nos ouvidos.

Sozinha com Rá, Ísis olhou para ele, para o fundo dos olhos, implorando silenciosamente para o próprio deus que ele a reconhecesse, que uma centelha de sua sabedoria ainda estivesse ali, mas não plena o suficiente para perceber sua armadilha.

— Eu lhe imploro, rei dos céus, me dê a honra de possuir seu nome secreto. — implorava Ísis, sentindo a culpa lhe corroer os ossos e as lágrimas se acumularem em seu rosto — Sei do peso do meu pedido… compreendo a audácia do que peço, mas lhe garanto que é com a melhor das intenções.

— Eu.. Eu… — gaguejava Rá, confuso, com os olhos passeando pelo cômodo sme qualquer direção ou foco.

— Sei que o senhor ainda está aí. Por favor, me ajude. — implorou.

— E-Eu sou o criador do céu e da terra, o aglutinador das montanhas, o criador de tudo o que existe sobre elas. — disse Rá, com os olhos focados no teto da sala, como em um transe — Eu sou o criador da água, para que o grande oceano tome forma, o criador do touro para a vaca, para que seu movimento secular ocorra, o criador do céu secreto do horizonte, aquele que colocou as almas dos deuses dentro dele. Eu sou aquele que abre os olhos e há luz, que fecha os olhos e há escuridão, aquele a cujo comando a enchente do Nilo atinge, cujo nome os deuses não podem saber. Eu sou o criador das horas, para que o dia exista, eu sou o cutelo do ano, que cria as estações. Eu sou o criador do fogo da vida, para permitir que o trabalho da casa aconteça. Eu sou Khepri pela manhã, Rá ao meio-dia, Atum que está no crepúsculo.

— Esses são seus títulos, ó poderoso Rá… — disse Ísis, sentindo esperança em seu plano — Preciso de seu nome secreto.

E então, da boca fraca de Rá, num mero sussurro, saiu uma palavra que ninguém nunca ouvira e nunca mais ouviria. Ela tentou segurar a vontade de sorrir, mas falhou. E, para disfarçar isso, logo ela começou a pronunciar palavras e fazer a magia de cura que, na verdade, nunca precisou do nome secreto de Rá.

Com Rá, sem febre, relaxando em sua cama agora encharcada de suor, Isis usou o nome secreto que não seria ouvido por nenhuma outra pessoa, mortal ou não. E então pediu:

— Levante-se de sua cama, grande Rá, sob o controle que carrego por seu nome, erga-se, brilhe no Egito, esquente a terra para que as plantações cresçam, esquente a terra para que o povo coma. — ordenou Ísis — Mande embora o frio do vulcão. Em posse de seu nome, eu lhe ordeno. E não compartilhe com ninguém esse meu pedido.

Como se controlado por uma força invisível, Rá se ergueu da cama rapidamente. Ainda assim, não parecia ele. Mas também não parecia o velho fraco e confuso que estava sendo nos últimos dias. Com medo de interferir na magia em curso, Ísis abriu o caminho para ele, mas também o acompanhou enquanto ele, passo após passo, saía do quarto em direção ao hall de entrada onde Tawaret esperava.

— Deu certo? — perguntou Tawaret ansiosa ao ouvir passos se aproximando, mas logo parando, chocada, ao notar Rá andando acompanhado de Ísis.

— A-Acho que sim… — respondeu Ísis — Melhorou por um segundo… pareceu até meio que voltar à si, mas logo se levantou e… bem, você está vendo. Ficou assim. Estranho.

— Para onde ele está indo? Nós paramos ele? — perguntou Tawaret.

— N-Não sei… acho melhor ver o que ele quer fazer… — disse Ísis, tensa.

Rá olhou para a entrada, confuso, como se esperasse o caminho para os céus surgir diante de si por conta própria. Por um segundo, pareceu se lembrar que não era bem assim e então sumiu, deixando Ísis e Tawaret para trás, confusas e se entreolhando preocupadas.

— AGORA dá pra chamar os outros? — perguntou Tawaret.

— A-Acho que sim. — respondeu Ísis, sem ter nenhum motivo plausível para recusar a ideia.

Tawaret logo sumiu dali, sem dúvida em busca dos demais. Ísis também, mas sabia bem para onde Rá poderia ter ido. Assim, ela simplesmente foi para a superfície do mundo mortal. De pé no telhado de um de seus templos, com a vida da cidade de Mênfis borbulhando ao seu redor, Ísis olhou para o sol. Primeiro o sol estava lá, fraco, tímido, como se o sufocasse por trás de uma camada de poeira. E então, lentamente ele começou à brilhar mais forte, poderoso, quente e, não muito depois, empurrada por um vento invisível, a poeira que tentava o cobrir se dispersou. Ísis sorriu em vitória consciente de que o caos com os demais logo começaria quando notassem.

E lá o sol ficou, brilhando, quente. Passando várias horas, Isis começou a se perguntar quanto tempo Rá ficaria lá. Para o sol fazer efeito nas plantações, ele tinha que voltar aos céus quente daquele jeito por vários dias. Não vendo sinais de que Rá iria sair de lá tão cedo, quando o sol estava prestes a começar a ser por, ela foi para o Salão do Julgamento, sabendo que lá era onde o caos iria estar. E, obviamente, encontrou todos confusos e Tawaret, acanhada, tentando explicar.

— Não entendemos bem o que aconteceu… já disse… — dizia Tawaret, parecendo que teve que repetir aquela frase dezenas de vezes nos últimos minutos.

— Mas como isso aconteceu? — questionou Thoth.

— Eu não sei! — respondeu Tawaret, não aguentando mais aquele dia.

— Mãe! — exclamou Hórus ao ver Ísis aparecendo — Tawaret contou que vocês duas estavam conversando e que Rá estava mal antes de repentinamente decidir brilhar forte desse jeito.

— Sim… Estava com os mesmos sintomas de um envenenamento qualquer caso fosse um mortal. — respondeu ela, suspirando com uma atriz mas que lá no fundo se perguntava o tanto que Tawaret tinha contado para os demais — Assim que consegui curá-lo, ele se levantou repentinamente e saiu andando e… bem… está vendo o que ele fez.

— O sol brilhar tanto desse jeito não seria o normal para a situação atual. Vão notar. — respondeu Shu.

— Não pense que eu não notei que você tirou um pouco da fuligem de cima do Egito aproveitando a situação. — disse Hórus, apontando para Shu.

— Eu notei o que Rá está tentando fazer e quis ajudá-lo! — rebateu Shu — Ele ainda é o mais importante dentre nós apesar de tudo.

— Entendemos que a situação é inesperada mas… — disse Osíris, parando para pensar um pouco — O que podemos fazer? Shu tem razão, Rá é de extrema importância.

— Sua mente pode não estar mais como um dia foi, mas ele ainda está lá no fundo. — disse Ísis, aproveitando a deixa e achando um bom sinal que ninguém mencionou seu roubo do nome secreto de Rá ainda apesar da gravidade do ato, o que indicava que talvez Tawaret não havia contato — Talvez ele tenha algo em mente.

— Minha preocupação é quando eu for encontrar os outros deuses! — rebateu Hórus — Temos coisas acordadas, fluxos de natureza à seguir… Como vou explicar que Rá simplesmente decidiu que tudo deveria ficar um pouco mais quente de novo apesar do vulcão e, pra completar, Shu ajudou esse calor à chegar no Egito.

— Eles não precisam saber essa outra metade… — sugeriu Shu.

— O resto você pode convencê-los de que era algo que todos precisamos. — respondeu Ìsis — E todos sabem já que a mente de Rá já não funciona como antes. Podemos dizer que foi uma decisão unicamente dele, tal como é a verdade.

— Qual o motivo da confusão agora? — perguntou Anúbis, saindo do corredor sombrio que levava para sua sala de múmias, sem realmente parecer interessado na discussão — Acham que vão resolver antes da próxima ronda de julgamentos?

— Rá decidiu brilhar forte no céu, deixando tudo mais quente… — resumiu Osíris — E… não sei dizer quanto tempo mais discutiremos.

— Hmm…Dependendo de quem é, interferir nas coisas tá tudo bem então mesmo... — disse Anúbis, apesar de não ter parado de andar em direção ao seu destino que era, no caso, a grande porta de entrada do Salão do Julgamento.

— Ainda com raiva das tumbas? — perguntou Hórus.

— Óbvio. — respondeu Anúbis, seguindo seu caminho ignorando os demais.

— Eu te aviso quando pudermos começar os julgamentos! — avisou Thoth apressadamente antes de Anúbis sair dali — Vamos tentar não atrasar!

Deixando o caos, que não lhe interessava, para trás, Anúbis abriu o grande e luxuoso portal do Salão do Julgamento, passou por ele e o fechou novamente atrás de si. De um lado, a fila de almas de mortos prontas para a serem julgadas nos próximos minutos se acumulava. Do outro lado, o lago de fogo vizinho do Salão do Julgamento queimava como sempre, com a adição de uma pequena alma de um garoto de aproximadamente 7 anos que se aproximava do lago, movido pela curiosidade. O fato de Anúbis ter saído do Salão do Julgamento logo atraiu a atenção das almas e comentários ansiosos para a chegada do julgamento, ou para fugir do julgamento.

— Isso não é lugar pra você ficar… — disse Anúbis segurando rapidamente o braço curioso do garoto, que estava prestes a testar se fogo queimava seu corpo fantasmagórico, e logo suspirando aliviado por ter chegado a tempo.

— Ainda queima? — perguntou o garoto.

— Sim, ainda te queima. — respondeu Anúbis procurando com o olhar o lugar do garoto na fila, logo a frente, na sessão das crianças — Por isso, tome cuidado.

— Desculpe… acho que ele acabou escapando de mim quando fui organizar os idosos… — disse Néftis, que ia até ele com a alma de um bebê no colo que ainda fungava tristemente se recuperando de seu último choro — Estão brigando lá dentro de novo né? Eu ouvi a gritaria daqui.

— Sim… — respondeu Anúbis, suspirando e seguindo com o olhar o trajeto da fila enquanto colocava o garoto travesso de volta em seu lugar.

— O que foi dessa vez? — perguntou Néftis.

— Rá resolveu sair por aí e deixar o sol mais quente e brilhoso. — resumiu Anúbis, não tão desconfortável com a tentativa da mãe de puxar assunto, mas também não querendo conversar demais.

— Rá? Tem certeza? — perguntou Néftis, surpresa.

— Ao menos foi o que eles falaram. — respondeu Anúbis, preocupado com o tamanho da fila de almas para julgar que, com todos os problemas em cultivar comida, ficava ainda maior e, lá do fundo da fila, ele viu Kebechet se aproximando — Só espero que eles se acalmem logo para começarmos os julgamentos de uma vez.

— Terminei lá o fundo! — exclamou Kebechet, chegando saltitante — Tava tendo uma briga lá atrás mas arrumei.

— Muito bem. Obrigado. — disse Anúbis, pousando a mão na cabeça de Kebechet, que sorria triunfante.

Eles ficaram por alguns minutos ali, ajudando a deixar a fila calma, mas torcendo para Thoth aparecer logo. No meio da espera, um clarão apareceu e se apagou, atraindo a atenção de todo mundo. De onde surgiu o clarão, surgiu Rá, se aproximando sonolento num barco voador, sobre o qual parecia a beira de cair no sono, com olhos bem pesados e sonolentos.

— Parece que o sol se pôs… — disse Néftis ao chegar nessa conclusão.

Sob o olhar surpreso e questionador dos ali presentes, o barco voador de Rá parou sobre o lago de fogo e, sem mais nem menos, Rá se jogou dentro do lago voraz. Simplesmente se jogou, como um corpo mole feito de amoeba que cai na água de qualquer jeito como se não tivesse um osso em seu corpo. O barco onde antes ele estava ficou lá, parado suspenso sobre o lago, como se nada tivesse acontecido.

— Ahmm…. E-Eu vou chamar os outros… — disse Anúbis, indo em direção à grande porta novamente.

— Ele está bem? — perguntou Kebechet — Ele não parece bem…

— Não mesmo… — concluiu Néftis.

— Rá está aqui… e não está muito normal… — disse Anúbis, ao abrir uma pequena fresta na porta do Salão do Julgamento, apenas o suficiente para colocar a cabeça para dentro.

— QUÊ?! — exclamou Hórus.

Hórus, Tawaret, Ísis, Thoth e Shu saíram correndo para fora do Salão do Julgamento. Praticamente empurraram Anúbis para fora do caminho e, quando chegaram do lado de fora, viram Rá engatinhando para fora do lago de fogo, e logo deitando nas suas margens, com metade do corpo ainda dentro das chamas e da lava.

— Lorde Rá… — disse Hórus, delicadamente, chegando perto do deus.

— Sol sol. Planta planta. Faz crescer. Fogo booooom…. — resmungava Rá, sem qualquer nexo.

— Ele realmente não parece estar muito… são… no momento… — comentou Thoth.

— Ao menos tem algum nexo… Sol, planta, faz crescer… — disse Ísis — Era o que ele estava fazendo à pouco.

— Vai querer fazer o sol brilhar quente amanhã de novo? — perguntou Tawaret delicadamente, como se falasse com uma criança.

— Sim. Sim. Esquenta terra. Nome. Céu e terra, terra e céu. Brilha. Brilha. — disse Rá, fechando os olhos e abrindo um pequeno sorriso como se prestes a tirar a soneca mais gostosa do mundo — Bom. Bom. Audácia. Melhor das intenções. Posse. Nome. Bom. Bom.

— Não aguento mais essa conversa sem nada que faça sentido. — disse Shu enquanto Rá simplesmente começava à roncar.

— Tinha um pouco de sentido… Só um tiquinho… — disse Kebechet.

— Acho que ao menos tirar disso que ele tem a intenção de brilhar forte amanhã de novo. — concluiu Tawaret.

— Ele disse mais um monte de coisa depois do “sim”. — respondeu Anúbis — Quão confiável é o “sim” dele?

— Podemos ver o que acontece amanhã… se ele se lembrar de quaisquer planos que fez hoje até lá… — disse Ísis, suspirando pesadamente, torcendo para que seu plano continuasse dando certo mais um pouco.

— Néftis, pode ficar de olho nele também enquanto fazemos os julgamentos? Vemos o que fazer quando acabar. — perguntou Hórus e Anúbis comemorou silenciosamente que finalmente poderia diminuir um pouco aquela fila infinita de almas para julgar.

— Claro. — garantiu Néftis.

— Também ficarei aqui… — disse Tawaret.

Os demais deuses entraram de volta no Salão do Julgamento enquanto Néftis e Tawaret, preocupadas, fitavam Rá, que parecia lutar contra o próprio sono. Kebechet também ficou para trás. Ela se ajoelhou ao lado de Rá e fez surgir magicamente uma ânfora pequena cheia de água, que delicadamente deixou ao lado do deus, para quando ele estivesse com sede.

Com o tempo que levou para os julgamentos acabarem, Rá não só caiu no sono, como todos concordaram que era melhor devolver ele para os seus aposentos. Essa tarefa ficou à cargo de Tawaret e Néftis e Ísis, vendo que o assunto dos sintomas de envenenamento de Rá não vieram à tona novamente, respirou mais aliviada quando aquele dia terminou. O assunto do envenenamento de Rá voltou um pouco na noite que se passou enquanto o poderoso deus dormia feito um bebê, apesar de vários questionamentos surgirem quanto ao o que ele faria no dia seguinte. Vizinhos perguntavam o que acontecia e a explicação era que tudo não passava da mente confusa de Rá.

Quando o novo dia nasceu, a conclusão unânime era de que era mais um dos sintomas da mente e corpo confusos de Rá. E assim, quando o sol raiou sobre o Egito, mais uma vez Rá saiu de seus aposentos como se compelido por uma força mágica, e foi esquentar a terra o suficiente para as plantações crescerem.

Secretamente, era claro que a transgressão de Rá era algo que todos queriam. E como era muito mais fácil colocar a culpa num velho caduco, ninguém fez nada. E assim dias se passaram, as colheitas começaram à crescer e então, eventualmente, Rá não mais saiu de sua cama. Desse dia em diante ele continuou lá, tal como antes, com falas confusas e comportamentos de um velho sem suas memórias e sem seu verdadeiro ser. Poucas vezes Tawaret, Ísis, Thoth, Hórus e Néftis, que constantemente iam ver como ele estava, viam uma centelha por trás do olhar do deus que indicava que o poderoso Rá ainda estava ali.

Apesar da colheita finalmente dar mais comida para alimentar o povo, isso estava longe de ser toda a conclusão que o Egito e seus vizinhos precisavam. A situação ainda não era boa. Os povos que invadiam as terras para todo lado começavam a morar nas novas terras que ocupavam, e os impérios antigos continuavam tentando proteger suas fronteiras de invasores, refugiados e pragas.

Mas como se o rumo da história ainda precisasse de uma chave final ser virada, algo aconteceu na corte real nos arredores de Tebas. A comoção era grande na cidade, já que apesar da situação complicada que o Egito estava, o faraó ainda tentava continuar com os festivais e, dessa vez, era dia da Festa do Belo Vale, uma celebração colorida de vários dias para os mortos. A estátua de Amon-Rá já estava pronta num barco para cruzar o Nilo da margem oriental, das margens da cidade de Tebas, para as margens ocidentais, rumo ao Vale dos Reis e dezenas de cemitérios das mais diversas classes sociais.

Pelas várias tumbas pelas quais Anúbis andava, familiares já acumulavam as mais belas flores. Eles se sentavam, diante das tumbas, com as bebidas que suas condições financeiras permitiam, como se estivessem em um bar qualquer se reencontrando com os entes queridos que partiram. Era um misto de lágrimas, alegria e muita saudade. Mas o foco do destino não era ali, era na corte real de Ramsés III no templo de Medinet Habu. Compelido por uma vontade inexplicável de ver se o faraó estava perto ou não de fazer a sua parte do festival, Anúbis foi até onde o faraó estava.

A construção do templo de Medinet Habu era grande, mas não demorou tanto assim para Anúbis encontrar Ramsés III, numa torre de três andares num canto esquecido do grande terreno do templo. Invisível, ninguém via Anúbis ali, nem mesmo os poucos serviçais que andavam por ali; nem Ramsés III, aparentemente cansado e irritado, que começava a sair da escuridão da torre; nem mesmo Setne, que bisbilhotava de uma janela fora do campo de visão de Anúbis; nem mesmo os homens que, na escuridão atrás de Ramsés III, agarraram o faraó e lhe cortaram profundamente a garganta.

Anúbis arregalou os olhos diante do choque do que acontecia diante de si, mas o faraó arregalou muito mais enquanto engasgava com o próprio sangue. Ao longe, uma serviçal gritou e um dos assassinos xingou em resposta à uma testemunha para algo que deveria ser secreto. Ramsés III, o último grande faraó do Egito, caiu no chão, morto, levando com ele o modelo de realeza autoconfiante e seguro. O Egito jamais recuperaria novamente sua antiga glória.


Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Tem de fato uma história de Íris roubando o nome de Rá. Alguns trechos aqui são dela. Mas não foi bem exatamente assim. Foi uma releitura. Ramsés III, também conhecido como o último grande faraó do Egito, morreu num golpe de estado que ficou conhecido como A Conspiração do Harém, que aconteceu no templo de Medinet Habu, em Tebas, hoje em dia Luxor, nos dias da comemoração do Festa do Belo Vale. A corte real mencionada é geralmente traduzida para harém, mas o uso de “harém” é completamente diferente hoje em dia, então não usei. Não, não era basicamente onde o faraó ia pra fazer sexo com suas esposas. Mas enfim, teremos mais da conspiração no cap seguinte mas, basicamente é isso, conspiraram contra o faraó e o mataram. O texto que ficou de registro dá a entender que ele morreu algum tempo depois da ferida, o suficiente para mandar ordens sobre o que fazer com os envolvidos. Contudo, análises da múmia dele indicam que o ferimento era grave demais e com certeza levaria à morte instantânea já que ele tem o pescoço cortado até o osso. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Ra e Isis - https://www.ucl.ac.uk/museums-static/digitalegypt/literature/isisandra.html Fome e a primeira greve - https://libcom.org/article/records-strike-egypt-under-ramses-iii-c1157bce a primeira greve - https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1089/a-primeira-greve-de-trabalhadores-da-historia/ Fim da Era do Bronze - https: