Ele diz: "Ó senhor do poder! Criador de deuses e homens! Khnum, senhor da Catarata, Satet e Anuket, senhora(s) de Elefantina! Regozijo-me em teus nomes, louvo tua beleza. Sou livre de negligência em fazer o que desejas; preencho meu coração contigo em cada desígnio que realizo. Que meu ka seja lembrado por tudo o que fiz em tua casa. ~ Fragmento do papiro “Inscrição de Nesuhor”

Caos foi o que se seguiu entre os deuses, mas principalmente entre os mortais. A notícia do assassinato do faraó tinha se espalhado rápido pelo local do crime e entre os deuses, não só devido a Anúbis, mas também pelos berros da mortal que virou uma testemunha perigosa para os assassinos. Guardas já corriam e berravam para todo lado, parados ao lado do corpo esquecido do faraó, quando Hórus chegou em formato de águia e pousou ao lado de Anúbis.

— Isso não é bom… — disse Hórus — A situação já tava ruim, e agora isso? Esses mortais são burros?

— Sabe que essa geralmente é uma característica muito marcante deles. — disse Anúbis.

— Diria mais do que só “geralmente”. — disse Hórus — Viu quem foi que matou Ramsés III?

— Eram três homens… E um deles era esse… — disse Anúbis apontando para um homem que entrava debruçado sobre o corpo do faraó, chorando copiosamente, com as mãos sujas de sangue, e segurando o horrendo corte no pescoço como se ainda tivesse tempo de fazer algo, num total desespero irracional, mas encenado.

— O chefe dos aposentos do faraó? Desgraçado! Ainda se finge de chocado com a morte, é isso? — exclamou Hórus, surpreso — Isso veio muito de dentro. Mas, assassinatos assim geralmente são em de dentro. Até porquê o motivo para matar um governante costuma ser o mesmo.

— O trono. — deduziu Anúbis e Hórus concordou — Mas…

Ainda havia algo que não se encaixava muito bem e ele pensava nisso, olhando para a moça, cujo berro havia noticiado tudo, enquanto ela entrava naquele espaço aberto escondida atrás de guardas enormes. Anúbis pensava na vez que Setne havia tentado matar cada um de seus irmãos antes de matar o faraó. Estaria o primogênito de Ramsés III com tanta pressa assim de ser faraó? Não fazia muito sentido. Ramsés III já não era tão novo.

— O que aconteceu, Pebekkamen? — questionou o guarda que parecia o mais importante entre os demais presentes.

— E-Eu… e-eu não sei bem… — chorava-se o chefe dos aposentos — T-Três… homens surgiram das sombras e… e… atacaram o faraó! Eu estava longe, não pude fazer nada! Corri para tentar segurar o… sangramento mas…. mas… oh! Deuses!

— Engraçado… — disse o guarda lentamente — porquê essa moça aqui disse que um dos três que atacaram o faraó, era você.

— O QUÊ?! — exclamou Pebekkamen, apesar de ter ficado mais pálido — VÃO ACREDITAR NA PALAVRA DELA AO INVÉS DE MIM? EU SOU RESPONSÁVEL PELOS APOSENTOS DO FARAÓ!

— Exatamente por isso que estranhei… — disse o guarda, cruzando os braços — Você teria acessos muito mais discretos para matar o faraó ao invés de um espaço aberto desses.

— Exato! — concordou Pebekkamen, fungando o nariz e voltando à sua atuação — Estive com o faraó em seus momentos de descanso, de descontração com os filhos… e também em suas últimas palavras… por mais difíceis que elas tenham sido…

— E quais seriam? — perguntou o guarda.

— Dê… trono Pentawaret. Cuidado. Amenherk… — narrou Pebekkamen tentando reproduzir a dificuldade que o faraó teoricamente estaria sentindo em falar — Ele não conseguiu terminar de falar, mas creio que podemos dizer com certeza que queria dizer Amenherkhepshef… seu herdeiro e primogênito… quem mais teria pressa em matar o faraó? E uma pessoa assassinada deve com certeza sentir necessidade de revelar seu assassino.

— Ah… entendi o plano… — disse Hórus — Falar que Ramsés III deu o trono para Pentawaret e colocar o assassinato como culpa do outro. Com certeza Pentawaret está envolvido então.

— Quão coincidência acha que é duas pessoas diferentes terem a ideia de matar pelo trono e colocarem a culpa em outro? É algo até comum, né? — perguntou Anúbis, como se quisesse, precisasse, ser convencido.

— Bem… creio que sim… — disse Hórus, estranhando um pouco a pergunta — Afinal, uma parte importante dos assassinatos para o assassino é sair ileso. E jogar a culpa em outro ajuda muito isso. Tá que não é como fosse tão comum golpes assim, mas… a situação ruim do momento pode impulsionar isso. Porquê?

— Me fez lembrar de Setne. — admitiu Anúbis enquanto a cena ao redor do corpo do faraó continuava a se desenrolar embora ignorada por ambos os deuses.

— Normal, foi a última tentativa de assassinato de um faraó relevante que chegou tão longe… — opinou Hórus — Mas nem Setne conseguiu matar Ramsés II.

— Duvido que algum mortal conseguiria matar Ramsés II… — disse Anúbis — Nem as outras coisas tinham facilidade nisso também.

— Tanto que precisou ele passar dos 90 para morrer… é até fácil esquecer que os mortais conseguem durar tanto assim. — lembrou Hórus — Mas, de toda forma, Setne está preso. Pode ir lá para ter certeza ou ao menos para incomodar ele um pouco mais para matar o tédio. Com testemunhos diferentes, logo vão começar a investigar o caso e os culpados vão ser mortos e então você terá a história completa, se até lá ainda for do seu interesse.

Não tão interessado assim no desenrolar do assssinato de Ramsés III no momento, Anúbis saiu de lá e foi direto para o submundo particular de Setne. No loop infinito que deveria torturar Setne, Anúbis foi recebido pela imensidão do deserto escaldante. Com o corpo parcialmente mumificado de joelhos na areia quente, estava quem Anúbis, até então, julgava ser Setne. O corpo quase completamente envolto em faixas de linho dificultava o deus à ver se era Setne ou não, mas quando se aproximou mais, e a imagem falsa de Ramsés II apareceu, pronta para torturar o filho, Anúbis notou que havia algo muito errado ali.

Com um simples aceno de mão, toda a cena artificial se desfez. O deserto, o faraó, as faixas, tudo se foi. Ficaram apenas Anúbis e a alma torturada no meio da escuridão densa e infinita. O pobre homem, completamente fora de si e com os mais diversos machucados horrendos à mostra, apenas tremia em posição fetal enquanto resmungava coisas completamente sem sentido. O corpo fantasmagórico do homem podia estar inteiro com a regeneração causada pela tortura mágica, mas, por dentro, sua alma estava em fragalhos.

— Você não é Setne. — disse Anúbis, chocado ao constatar o óbvio.

O coração de Anúbis palpitava em completo desespero, não só pela raiva do desaparecimento de Setne, mas também pelo o que aquela pobre alma havia sofrido no lugar do traiçoeiro príncipe. Anúbis se sentiu culpado, seu coração pesou e se congelou em meio ao desespero, raiva e culpa. E foi com essa culpa doendo em seu coração que ele se ajoelhou ao lado do homem de olhos vidrados no nada, completamente traumatizado. Mas além de culpa, Anúbis também tinha várias perguntas, e a plena certeza que aquele pobre homem era incapaz de responder qualquer uma delas no estado em que estava.

Fazendo uma nota mental de que falaria com todos os deuses necessários para ajudar o pobre homem a sair daquele trauma de vários anos de intensa tortura, Anúbis usou a mesma magia que criava aquele inferno pessoal, para fazer um paraíso de tentativa de recuperação pessoal. Um refúgio de cura.

A escuridão ao redor dos dois sumiu e foi substituída por uma bela e serena praia de belas águas azuis cristalinas. Coqueiros altos se inclinavam levemente, suas folhas balançando ao som de uma brisa fresca que carregava o perfume salgado do mar misturado a um leve toque adocicado de flores invisíveis. O canto distante de pássaros invisíveis preenchia o ar com uma melodia calma, tão suave que parecia massagear a própria alma. As ondas quebravam gentilmente na areia infinita onde agora o homem repousava protegido por uma combinação grande e espaçosa de tenda, tapete e almofadas de estilo beduíno com padrões sutis que lembravam estrelas e dunas..

— Sei que isso não corrige nada… — disse Anúbis para o homem que nem sequer dava sinais de entendê-lo — Mas acho que ao menos te dá um tempo de respirar enquanto descubro meios de te ajudar.

Anúbis então deixou um suspiro cansado escapar de seus lábios enquanto se erguia e se perguntava por quantos anos mais teria que se estressar com Setne e consequências secundárias do Livro de Thoth. Sentindo a cabeça pesar com o tanto de problemas que começavam à se acumular, Anúbis voltou para onde estava antes com uma certeza bem clara, Setne devia estar por ali.

— Já voltou? — perguntou Hórus enquanto a gritaria ao redor do corpo de Ramsés III se tornava cada vez mais caótica com os guardas tentando prender Pebekkamen.

— Setne escapou. — disse Anúbis, jogando a informação sem rodeios para Hórus.

— O QUÊ?! COMO?! — gritou Hórus.

— Não sei! Alguém deve ter ajudado! Ou ele conseguiu descobrir uma falha! Não sei! — exclamou Anúbis em resposta — Só sei que ele deve estar por aqui, se isso tudo tiver mesmo um plano dele por trás.

— Não sabia que aquele lugar era “escapável”! — exclamou Hórus.

— Nem eu. — admitiu Anúbis — Por mais incrível em magia que Setne seja para os padrões humanos, não acho que isso seja algo do alcance dele. Especialmente considerando a situação em que estava. Deve ter alguém mais envolvido. E não deve ser qualquer um.

Hórus bufou, e mandou aos céus os mais diversos xingamentos ao sentir sua lista de problemas aumentar e pesar cada vez mais. O faraó dos deuses mal se deu tempo de pensar, antes de falar:

— Vou procurar Setne por aqui. Chame Thoth, Neith e Sekhmet para ajudarem também.

— Não quer que eu ajude? — perguntou Anúbis.

— Até seria bom mas, me preocupo com as intenções de quem soltou Setne. Setne ainda está morto afinal de contas né? Ou está me dizendo que ele ressuscitou?

— Não que eu saiba ao menos. — falou Anúbis — Acho que notaríamos se fosse o caso. Ele deve ainda ser só uma alma.

— Então use a pena da verdade em quaisquer lista de suspeitos de ter soltado Setne que você tiver enquanto isso. — sugeriu Hórus — Depois que procuramos por Setne vou pensar com calma em uma lista também caso você não ache o culpado até lá. Seja prudente também.

E foi exatamente o que Anúbis fez. Depois de alertar Thoth, Sekhmet e Neith de que a ajuda deles era necessária, Anúbis se preparou para lidar com a sua lista de suspeitos e, enquanto a montava, sua mente se lembrou do caso que aconteceu com Ísis anos atrás, do corte estranho de seu braço. E assim, a mente de Anúbis confirmou mais ainda que queria falar com o mesmo suspeito da outra vez.

Encontrar Seth não se provou ser uma dificuldade muito grande. Depois de uma busca de alguns minutos, Anúbis encontrou-o sentado à sombra das enormes formações rochosas em formato de cogumelo do Deserto Branco. Seth se debruçava sobre um papiro, o qual lia e escrevia com muita preguiça.

Ao ver Anúbis se aproximando, Seth levantou o olhar sem muito interesse. De forma bem breve, Seth olhou para Anubis e então de volta para seu papiro, onde parecia listar algo.

— Thoth me pediu ontem uma lista das tempestades de areia recentes. — explicou Seth embora ninguém houvesse perguntado nada — Sabe… pra ter certeza que não estamos exagerando levando em conta todas as tentativas de invasão dos últimos anos.

Sem falar nada, Anubis estendeu a mão na direção de Seth e, sobre ela, apareceu o forte e puro brilho da Pena da Verdade, que passou a flutuar na mão do deus. Seth, por sua vez, encarou a pena de volta, já sabendo que isso não terminaria nada bem.

— A que devo ter a pena da verdade enfiada na minha cara assim? — perguntou Seth.

— Tem algo a temer? — perguntou Anúbis.

— Sabe, por pior que seja a educação que meus irmãos tenham dado à você por minhas costas… — disse Seth, erguendo-se do chão em meio ao seu draminha — Existe uma coisa chamada “privacidade”.

— Me poupe de seu drama. — reclamou Anúbis, revirando os olhos — Nunca teve interesse por mim. E não mude de assunto tão pouco. Segure a pena!

— Não. — respondeu Seth imediatamente — O que é isso? Aconteceu algo? É a história do corte de Ísis novamente? Já disse para Hórus e repito novamente! Sou um deus tão importante quanto Ísis e Osíris! Vocês tem que parar de me colocar como culpado de tudo que acontece! É uma total falta de respeito!

— Se não tem nada a ocultar, só segurar a pena. — disse Anúbis, dando de ombros.

— Já disse que existe uma coisa chamada privacidade. — rebateu Seth.

— Garanto que não perguntarei nada que possa ferir a sua, aparentemente tão importante, privacidade. — respondeu Anúbis — Apenas o que é pertinente para a investigação do momento.

— E nós concordamos sobre que coisas se enquadram em cada um dos dois? — questionou Seth — Ainda nem me contou sobre o que é essa tal investigação que está fazendo.

— Pois bem… — disse Anúbis, lentamente, prestando atenção em cada músculo do rosto de Seth em busca de uma reação que fosse dedurar sua participação — O que sabe sobre a fuga de Setne do submundo?

Em questão de segundos, os mais diversos pensamentos e cenários passaram pela mente de Seth. Com uma olhada de meros segundos para a Pena da Verdade, que ainda flutuava, pura e ameaçadora, na mão de Anúbis, Seth decidiu o que fazer. Repentinamente, ele jogou um grande jato de areia contra Anúbis, que o atingiu como uma parede. Anúbis sentiu o corpo ser empurrado para trás, a areia entrar dolorosamente em seus olhos e pinicar sua pele. Anúbis só se permitiu tempo de guardar a pena da verdade.

Mesmo com os olhos ardendo e ficando vermelhos, Anúbis forçou-se a olhar para Seth. Não tinha certeza do que viu, mas lhe pareceu que Seth tentava escapar e, exatamente por isso, lançou uma faixa de linho para se segurar ao deus. Com os olhos ardendo dolorosamente, e a tempestade de areia aumentando cada vez mais, a única certeza que Anúbis tinha de que havia conseguido fazer a faixa de linho se agarrar em Seth, foi a tensão na faixa confirmando que ela havia se agarrado à algo firme.

Aquilo não era bom. Podia muito bem ter se agarrado ao cogumelo gigante em pedra, e pra piorar, estava no meio do deserto, um lugar que dava forças à mais para Seth, o deus dos desertos. Anúbis se lembrava bem que foi numa situação exatamente como aquela que havia lutado com Seth pra valer uma vez, e a solução naquela época foi carregar Seth para qualquer necrópole. Ainda por cima, daquela outra vez, teve ajuda de Hórus e Ísis. Mas também não era como Ańúbis não tivesse se preparado.

A areia que voava chicoteando todas as direções logo ficou preenchida de névoa negra, tanta névoa que logo a tempestade parecia mais preta do que branco-amarelada. Agora a areia não só machucava Anúbis, ela também machucava à Seth, arrancando pele e músculo por onde tocava. Seth resmungou de dor e, quando Anúbis concentrou a mesma névoa necrosadora na faixa de linho, e ouviu Seth gritando de dor, ele teve a certeza de que o que estava na outra ponta não era apenas uma grande e imóvel rocha qualquer.

Aquela confirmação era tudo que ele precisava. A areia podia lhe cegar o quanto fosse, mas se soubesse onde Seth estava, já era uma boa parte do problema resolvido. Assim, ele simplesmente puxou-os dali, magicamente os levando para outro lugar. Os dois caíram no Nilo, e o rio logo tratou de tentar limpar a areia que cobria os corpos de ambos e os olhos de Anúbis. Mas Seth não ia deixar isso barato. Com as faixas de linho de Anúbis presas ao seu braço esquerdo, Seth logo tratou de começar a invocar seu avatar gigante focando primeiramente em seu braço direito, que cresceu de tamanho o suficiente para, mesmo embaixo d’água, agarrar Anúbis forte o suficiente para o deus se sentir esmagado.

Com os olhos limpos, Anúbis não estava nem um pouco interessado em dar para Seth o tempo que precisava para invocar o avatar dele. Assim, mesmo sufocado, Anúbis os tirou rapidamente dali mais uma vez. Encharcados, eles caíram na areia do deserto novamente e, ao ver o deserto, Seth se distraiu por um segundo e riu, julgando e menosprezando a escolha de Anúbis.

— Esqueceu que eu sou o deus do deserto em meio ao desespero de tentar aguentar a luta contra mim? — perguntou Seth, já totalmente sem pressa de invocar seu avatar enquanto se divertia em esmagar Anúbis com sua mão gigante brilhante do avatar parcialmente invocado.

O que Seth não havia notado, era que havia algo mais além da imensidão do deserto naquele lugar. Ossos de baleias pré-históricas se aglomeravam, parcialmente ou totalmente encobertas pela areia. Um deserto, sim, mas também um cemitério. E aqueles ossos de areia, grandes e pontiagudos, tremiam ao serem controlados pelo único deus ali com domínio sobre a morte. Os ossos tremiam, se mexiam e levitavam como se por conta própria. Logo estavam envoltos na névoa negra, ansiosa por ferir Seth, e foi exatamente esse o objetivo das grandes e finas costelas quando elas saíram voando como uma flecha em direção à Seth.

Com ajuda da névoa negra de Anúbis, as costelas foram capazes de perfurar um deus. Sangue escapou pelos lábios de Seth e pelas 9 perfurações que as costelas de baleia fizeram em seu corpo. O impacto das enormes costelas empurraram Seth para longe de Anúbis, que ficou aliviado ao sentir que não era mais esmagado pela mão gigante de Seth.

Encharcado e meio cambaleante, Anúbis se ergueu, segurando firmemente a pobre faixa de linho que agora mal se segurava à Seth. Anúbis se aproximou com pressa e logo tratou de não só arrumar a faixa de linho que matinha Seth preso, mas também embrulhar completamente o corpo do deus em faixas repletas de névoa negra, praticamente o mumificando, deixando para fora apenas a boca.

— PORQUE VOCÊ SOLTOU SETNE? — gritou Anúbis, e Seth só começou à rir.

— Você deveria cuidar melhor de seus mortos. — zombou Seth enquanto as faixas de linho se manchavam de seu sangue que vazava pelas costelas de baleia.

— O que você pode estar tramando para julgar uma boa ideia soltar Setne? — questionou Anúbis.

— Estava entediado… — respondeu Seth, rindo.

— Nem você é tão idiota e inconsequente. — rebateu Anúbis — Osíris ordena que você responda porquê soltou Setne!

A declaração só fez Seth rir ainda mais alto e descontroladamente. Foi nesse momento que Seth explodiu em areia, forçando as faixas de linho ao limite, com a areia gritando por liberdade. Anúbis tentou deixar as faixas mais fortes, mais resistentes. Era um cabo de guerra mágico.

No meio de tudo aquilo, atrás de Anúbis, os montes de areia começaram a silenciosamente se aglomerar e criar uma forma de uma cobra gigante, tudo sob o comando de Seth. A cobra, muito maior do que uma pessoa, no minuto em que Anúbis virou o rosto ao sentir que havia algo atrás de si, pulou na direção de Anúbis, engolindo-o por completo. Como a cobra não passava de areia, Anúbis foi atingido por toneladas de areia, que não só o desnortearam um pouco, como também o soterraram.

Sem pensar duas vezes, Anúbis invocou o próprio avatar, o que fez a areia explodir para todo lado. Mas mal teve tempo de ver o céu pois, assim que conseguiu, Seth caiu dolorosamente de cotovelo em seu pescoço usando também seu próprio avatar. As costelas de baleia jaziam no chão, ensanguentadas em sangue prateado, e Anúbis engasgava enquanto era esganado pelo próprio pai de sangue.

— Sim, eu soltei Setne. — disse Seth entredentes — Mas o que ele faz a partir de agora eu não tenho nada a ver, nem tenho algum conhecimento. Nem pretendo trazer mais problemas para nossa lista já gigante de problemas. Já tenho o que queria.

O mais rápido que pôde, Anúbis escureceu tudo com sua névoa negra, desfez seu avatar, o que fez Seth perder o suporte no qual forçava seu cotovelo. Anúbis enquanto isso sumiu e reapareceu num lugar mais estratégico para prender Seth com faixas de linho enroladas bem apertadas no pescoço, tentando esganar Seth tal como ele tentou antes. O avatar de Seth se desfez enquanto o pescoço dele sob a faixa de linho ficava preto, necrosado, e nojento.

A tempestade de areia explodiu nesse instante.Forçada e sobrenatural como uma explosão contínua com uma mesma origem, Seth. O vento com grãos cortantes que atingia Anúbis era tão forte que ele sentia seus pés perdendo o suporte na areia ao ser empurrado para trás. Mas numa outra mudança de localidade, Anúbis conseguiu levar os dois para o meio do Salão do Julgamento.

A tempestade de areia repentinamente perdeu sua força ao se ver sem areia para usar de matéria prima. E antes que Seth resolvesse criar sua própria areia, faixas mágicas brilhantes se prenderam por todo o corpo de Seth. E quem as produziu, não foi Anúbis, foi Ísis, que altiva, se aproximava de Seth seguida de Osíris. As faixas mágicas de Ísis, lindas e douradas, eram muito mais fortes que qualquer uma que Anúbis pudesse criar. Assim, Anubis tirou sua faixa de linho do pescoço de Seth, deixando para trás apenas o ferimento horrendo que a faixa fez na pele do deus.

— Vejo que a suspeita que você tinha se confirmou. — disse Ísis.

— Sim. — respondeu Anúbis — Ele confirmou ter liberado Setne. Não disse o motivo, mas tenho uma suspeita. Ele não pareceu seguir a ideia que deu de dizer que Lorde Osíris ordenou algo.

— Tsc… — resmungou Seth — Covarde. Não vai continuar a luta? Teve que correr para as saias de Ísis e de Osíris?

— Não foi uma luta por vingança ou raiva por ter se metido no que não é domínio seu. — respondeu Anúbis — Era uma tentativa de captura de suspeito para ser interrogado e punido por Lady Isis e Lorde Osíris... Ao menos na maior parte...

— Explique-se. — ordenou Osíris de forma altiva — Recomendo isso ao invés de aguentar as consequências.

— Tudo isso por soltar um mortal morto no mundo? — perguntou Seth.

— Sabe bem que não é tão simples. — disse Ísis — Setne é traiçoeiro e vocês têm isso em comum. E apesar de eu odiar admitir, Setne é muito bom em magia. E nossa situação está delicada o suficiente sem vocês dois trazendo mais confusão e matando faraós!

— Matando faraós?! — exclamou Seth, lutando contra as amarras de Ísis — Quando foi que me interessei pelas vidas de mortais à esse ponto?! É isso que Setne está aprontando agora? Ele tentou matar Ramsés III?

— E conseguiu. — disse Osíris.

— Ele bem disse que não sabia o que Setne anda fazendo… — disse Anúbis, dando de ombros — Claro, pode sempre ser mentira.

— O que eu poderia querer me envolvendo com faraós mortais? — perguntou Seth, tentando controlar a própria raiva e vontade de gritar — Já falei para pararem de me acusar de coisas sem sentido! Matar Ramsés III agora, na situação em que estamos, quando finalmente temos um faraó que não é um completo incompetente, é loucura! Podem ter claramente dificuldade em acreditar nisso, mas tenho tanto interesse quanto vocês que o Egito continue por mais vários séculos e milênios.

— E ainda assim soltou Setne? — perguntou Ísis, elevando a voz quase à um grito agudo.

— A situação não estava tão ruim assim na época! Sim, Tifão nos atacava… — admitiu Seth, revirando o olhar — Mas deixei Setne preso ainda por um bom tempo. Tentando me livrar do feitiço que VOCÊ, Ísis, colocou em mim. Me fez um escravo! Um mero escravo! Eu que sou um deus! Tão importante quanto vocês dois! Foi mais do que humilhante e irritante, foi uma punição exagerada e sem prazo de fim! Chega! Não vou ser um escravo pela eternidade! E se isso significava soltar Setne em troca da ajuda dele, então que seja! E nem pense em fazer qualquer coisa, outra punição idiota ou o que for! Já não acha que paguei o suficiente? Me deixaram decepado por toda a eternidade! Me fizeram de escravo do meu próprio irmão por décadas! Séculos! Sem falar das lutas que, apesar de tudo, os ferimentos ainda doem! Protegi o Egito ao lado de vocês várias vezes! E a situação está instável o suficiente para vocês arriscarem ficar sem minha ajuda!

Ísis, Osíris e Anúbis se entreolharam longamente. Havia certa verdade nas palavras de Seth. Nunca haviam estado numa situação tão frágil. E com os hititas tendo desaparecido, os micênicos ameaçando ir pelo mesmo caminho, e a situação também bem ruim entre os povos Assírios, a ameaça de eles serem os próximos era bem palpável. Nenhuma civilização durava para sempre, e eles, a essa altura, já haviam durado bastante tempo. Muito mais do que os hititas, por exemplo. Só como Egito unificado eles já lentamente caminhavam para os 2000 anos de existência.

— De toda forma, não podemos deixar isso que fez sem a devida punição. — disse Osíris — Você se envolveu no que não é de sua conta e deixou um morto perigoso solto no mundo mortal.

— Ma..- começou a dizer Seth, mas logo Osíris ergueu a mão para que Seth parasse.

— Mas… concordo que talvez a escravidão eterna tenha sido exagerada. — disse Osíris — Não vamos repetir isso. Mas, alguma coisa deve ser feita e por um tempo pré-determinado que não seja a eternidade. Assim parece bom?

— Obviamente não me parece bom porque ainda teria que receber alguma punição. — disse Seth.

— É o melhor que posso lhe oferecer no momento. — disse Osíris.

— E o que exatamente seria a punição? — perguntou Seth.

— Ísis, acha que pode deixar ele assim preso por algum tempo? — perguntou Osíris — Digamos… 1 ano?

— UM ANO? — gritou Seth — EU NÃO CONSIGO MOVER UM MÚSCULO DIREITO E QUER ME DEIXAR ASSIM POR UM ANO!

— Irmão… eu conheço seus dramas falsos. — disse Osíris — Um ano é muito para mortais, para nós é um piscar de olhos. Acho que deveria aproveitar a oferta.

— Posso revezar com Hathor para manter o feitiço durante 1 ano. — respondeu Ísis.

— Anúbis, você que teve o morto roubado, a punição está boa para você? — perguntou Osíris.

— Está. — respondeu Anúbis.

— Bem, está decidido. — disse Osíris — Vamos deixá-lo num lugar que não atrapalhe os julgamentos e não possa escapar. Tenho certeza que esse ano passará rápido. Agora torcemos para Hórus encontrar Setne.

Ísis foi logo providenciar o isolamento de Seth enquanto Anúbis decidiu ir se juntar às buscas por Setne. Contudo, logo ficou claro que Setne tinha um plano de escape na eventualidade daquele cenário, pois o sol se pôs e ainda não tinham o encontrado. Seu estado de alma dificultava ainda mais. Nem todo mortal conseguia ver o fantasma que Setne era, o que dificultava os interrogatórios. Ele também não deixava traços na areia, nem cheiros por onde passava, dificultando o uso de habilidades que dependiam disso.

Procurar pela alma por si só, pela mera sensação de uma alma morta, não era de tudo fácil também. O povo não costumava ter dinheiro para mumificar seus mortos, então toda cidade estava repleta de almas mortas em diferentes estados de animação, memória e alerta. Com o passar das horas e dos dias, conseguiram pistas que indicavam que Setne poderia ter ido para o norte e saído dos domínios egípcios. E com a situação atual, deuses invadir territórios de outros deuses não era algo facilmente justificável.

Com os desenrolares do assassinato de Ramsés III, o interesse em encontrar Setne diminuiu muito. Outras coisas se tornaram mais importantes conforme o Egito fraquejava e os culpados de tramarem o assassinato de Ramsés III eram identificados e executados, incluindo Pentawaret, um dos filhos de Ramsés IIi, e Tiye, a mãe de Pentawaret. E assim, em meio ao caos, Ramsés IV subiu ao trono muito longe em glória do que qualquer um que carregou aquele nome.

Numa tentativa de continuar existindo como civilização, e pagar todas as importações e exércitos que precisava pagar, o Egito continuou a abrir as tumbas dos antigos faraós e retirar delas todo o ouro ali guardado. Numa tentativa de ao menos preservar os corpos dos donos das tumbas, e quem sabe reformar as tumbas para um dia devolver seus ocupantes à elas, as múmias dos faraós foram retirados de seus lugares de descanso eterno e jogadas todas numa mesma tumba. Nem mesmo rainhas e demais membros da família real saíam ilesos disso. Dezenas de reis e rainhas tiveram suas tumbas abertas, roubadas e seus corpos jogados numa tumba sem a devida importância que desejaram em vida.

Desde nomes não muito famosos, como a rainha Ahmose-Inhapi ou o príncipe Ahmose-Sipair, como nomes grandes como Seqenenre Tao, que libertou o Egito dos Hicsos, e até mesmo Tutmósis II, Tutmósis III, Ramsès I, Seti II e até o grande Ramsés II, foram tirados de suas tumbas. Nomes dentre os maiores faraós do Egito jogados numa tumba qualquer onde permaneceram até 1881.

A prova da situação desesperadora que o Egito estava era o acúmulo de corpos de pessoas grandes e famosas naquele pequeno buraco perto do Vale dos Reis e das Rainhas. O território egípcio diminuía, a glória não passava de uma lembrança cada vez mais esquecida, e às décadas passavam. Mas o mundo não parava. Lentamente, mais lentamente do que o Egito queria, as coisas pareciam voltar aos eixos, mas mais para seus vizinhos do que para eles.

Ramsés IV foi seguido dos igualmente esquecíveis Ramsés V, Ramsés VI, Ramsés VII, Ramsés VIII, Ramsés IX e Ramsés X. Os fenícios, libertos da dominação egípcia, se tornavam um grande poder marítimo no mediterrâneo, com as mudanças de poder, a capital do Egito mudou para Tânis, uma cidade no delta do Nilo. E, mais ao norte, depois de grandes mudanças, uma fofoca começou à se espalhar.

O ano era 1050 a.C, enquanto o Oriente Médio se via na sua própria Era das Trevas, a fofoca que havia se espalhado levou Anúbis, Anput e Kebechet mais uma vez para o submundo de Hades. Ao chegarem lá, diante da mansão de Hades, onde Cérberos, semi-transparente, ainda dormia profundamente, eles encontraram Ereshkigal acompanhada de um dos filhos, Ninazu.

— Ouviu também as aparentes notícias, pelo visto. — disse Ereshkigal ao ver o trio se aproximando.

— De que Zeus acordou, sim. — disse Anput — Ouviu alguma outra mais?

— Só essa — respondeu Ereshkigal — Vim aqui com base na esperança, imagino que vocês também.

— Sim. — respondeu Anúbis.

— Então pra que ficar esperando aqui? — perguntou Kebechet, imediatamente saindo correndo em direção à porta da casa.

Os demais apressaram o passo atrás dela, e logo a caminhada quase se transformou em corrida quando perceberam Kebechet parada na porta, imóvel como uma estátua, os olhos arregalados como se vissem um milagre. Ao alcançarem a entrada e finalmente adentrarem o primeiro cômodo, o mundo pareceu suspender-se por um instante. O silêncio se impôs, quebrado apenas pelo som lento e irregular dos passos que ecoavam da escada.

Hades descia, apoiando-se no corrimão, cada degrau vencido com esforço. O cabelo desgrenhado, o olhar perdido e o corpo visivelmente exausto mostravam a fragilidade de quem acabara de despertar de algo maior do que um simples sono. Ainda assim, estava ali. Vivo. Acordado. Talvez pronto para passar mais vários séculos assim.

Um soluço contido escapou de Anput, que imediatamente levou a mão à boca, tentando disfarçar. Ninazu desviou o rosto, como se aquilo o ajudasse a esconder a lágrima que insistia em brilhar. Anúbis respirou fundo, tentando manter uma reputação com a presença de Ereshkigal e Hades. Mas era inútil: todos estavam à beira do mesmo abismo de emoção.

Ninguém chorou abertamente, mas os olhos marejados, os sorrisos vacilantes e os peitos arfando diziam mais que qualquer lágrima. A alegria que atravessava aquele cômodo era silenciosa, mas esmagadora, mesmo considerando que Hades ainda parecia sonolento e perdido com tudo que havia acontecido. Era o reencontro que todos haviam esperado, e por um instante, parecia que o próprio peso do mundo havia se tornado mais leve.

— Ah… são vocês… — disse ele, com a mão na cabeça com uma leve cara de dor — Minha cabeça está me matando. Quanto tempo dormi? Sinto que foi muito.

— Uns 100 anos. — respondeu Anúbis, sorrindo com um alívio enorme no peito.

— Já estamos no Ramsés X… — completou Anput.

— Droga… — reclamou Hades, massageando as têmporas — Perséfone e as meninas ainda dormem. Mas ainda estão aqui ao menos… e Cerberus? Sabem dele?

— Dormindo também. — respondeu Kebechet.

— Porquê eu não desapareci? — perguntou Hades — Os micênicos conseguiram se reerguer?

— Não exatamente… — respondeu Ereshkigal — Com tudo que aconteceram, os micênicos realmente pereceram, de certa forma. A população caiu muito, o controle ficou completamente instável... o de sempre e o que você já sabe. Mas algumas ilhas resistiram e Atenas… Por isso você ficou muito tempo dormindo, sem realmente sumir.

— Atenas? — perguntou Hades, parecendo ter um pouco de dificuldade de acompanhar tudo com a cabeça latejando irritantemente com o que ele sentia ser uma onda de conhecimento tentando lhe atualizar magicamente sobre seu próprio povo, mas chegando rápido demais para ele fazer algum sentido sobre qualquer coisa.

— É… muitos micênicos imigraram… e o que restou também recebeu vários outros imigrantes… A situação não estava nem um pouco boa mas, foi se organizando lentamente. — continuou Anúbis — Ainda estão se organizando mas, a situação já está bem melhor e, por isso que vocês devem ter começado a acordar. Apesar de muito ter mudado, esse novo povo que se organizou ainda idolatra muitos de vocês.

— Novo povo? — perguntou Hades — Então de minóicos, que virou micênicos, agora tem mais um? Não foi tão estressante assim a troca dos minóicos para os micênicos. Certeza que tenho essa informação na minha cabeça em algum lugar, mas ela está com muita coisa no momento.

— Sim… — respondeu Ereshkigal — Começamos a pouco tempo a chamar de “gregos’.

— Gregos… — repetiu Hades, e algo pareceu fazer sentido para ele — Ah, sim… sinto que isso está certo. Minha cabeça não faz muito sentido no momento, mas isso parece certo. E a situação de vocês ainda está... ruim?

— Bem ruim. — disse Kebechet afirmando com a cabeça.

— Mas estamos aguentando. — completou Anput.

A conversa foi interrompida por mais passos vindo do alto da escada. O som, mesmo tão leve e singelo, soou quase como um trovão. Todos, incluindo principalmente Hades, pararam completamente para ver quem descia. Mas nenhum olhar se arregalou mais que o de Hades ao ver Perséfone. Hades se esqueceu de tudo, da visita, das dores de cabeça, dos problemas, de respirar… nada mais importava. Ele simplesmente correu os poucos degraus que separavam ele de Perséfone, e mesmo com ela perdida e descabelada como ele, imediatamente pegou elas nos braços e a beijou ardentemente. Foi como se um pedaço do mundo de Hades tivesse se encaixado de volta no lugar. Ele a beijou com a urgência de quem teme perdê-la e lágrimas de puro alívio escorreram pelo seu rosto.


Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Um monte de múmias de reis, rainhas, princesas e príncipes foram tiradas de suas tumbas e jogadas nessa tumba pequena, onde eventualmente foram encontradas no século 17. As tumbas originais dessa galera toda foi roubada, muitas pelos próprios sacerdotes, governantes e afins, como meios de conseguir o ouro que o Egito precisava para lidar com todos os problemas que ameaçavam sua existência. Nesse meio tempo, o povo micênico, que havia entrado numa Era das Trevas, terminou por cair, salvo algumas ilhas e Atenas. Ele foi inundado de imigrantes e, eventualmente, começou a se erguer a civilização grega com ainda muita coisa em comum. **** REFERÊNCIAS **** Vale das baleias - https://en.wikipedia.org/wiki/Wadi_al_Hitan Fim da Era do Bronze - https://en.wikipedia.org/wiki/Late_Bronze_Age_collapse A tumba que guardou dezenas de reis e rainhas - https://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Cache A conspiração do Harem - https://www.nationalgeographic.com/history/article/ramesses-iii-murder-mystery