A Morte Das Areias do Saara

67 Informação escondida na escuridão


Notas iniciais
OLÁ!! MAIS UM CAPÍTULO CHEGANDO PRA VCS!! antes de mais nada, queria começar com um mero alerta... NÃO USEM DROGAS. tá legal? Pensem no proerd. drogas fazem mal destroem vidas e etc. digo isso pq uma vai aparecer nesse capítulo.

Quando o sacerdote tomou a prata, ele disse a Nefer-ka-ptah:

“O livro está em Koptos, no meio do rio. No meio do rio há uma caixa de ferro, na caixa de ferro é uma caixa de bronze, na caixa de bronze há uma caixa de madeira-cetê, na caixa de madeira-cetê, há uma caixa de marfim e ébano, na caixa de marfim e ébano está uma caixa de prata, na caixa de prata é uma caixa de ouro, na caixa de ouro está o Livro de Thoth. Em volta da grande caixa de ferro estão cobras e escorpiões e todo tipo de coisas rastejantes, e acima de tudo há uma cobra que nenhum homem pode matar. Estes estão posicionados para guardar o Livro de Thoth.

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Não seria muito complicado começar uma festa naquele mesmo dia com música, bebidas e comida. O problema era que vários outros deuses estrangeiros haviam sido convidados e isso não era uma coisa simples de se fazer diplomaticamente falando. Quem poderiam chamar seu começar o apocalipse por acidente? Ou uma guerra? Quem não deveria ser esquecido para não ficar ofendido? Era complicado arrumar festas entre seres, no geral, egocêntricos e cheios de si.

Os convites foram enviados enquanto todos notavam que Rá parecia realmente interessado em aproveitar alguns dias ali e simplesmente relaxar. Havia até mesmo deixado a organização da festa nos ombros dos filhos, o que fez Thoth ficar extremamente estressado organizando tudo, pois nada havia parado de funcionar apenas porquê Rá queria uma festa.

Considerando toda a responsabilidade que caía sobre os ombros de Rá, ninguém discordava que ele merecia tal descanso. No entanto, todos notavam preocupados como Rá parecia mais do que simplesmente cansado, ele parecia envelhecido. Por isso, não era incomum Rá ser o tema da conversa dos deuses. Independente das preocupações dos deuses egípcios, o dia da festa eventualmente chegou.

— Acha que alguma coisa aconteceu com Rá? — perguntou Anúbis para Anput enquanto ela se deliciava com um pequeno pratinho de queijos e carnes variados.

Os dois estavam largados num tapete ricamente detalhado no chão em um dos cantos do Salão do Julgamento que, por mais que não fosse digno de Salão de Festas, já que era indiscutivelmente um tanto tenebroso, era o único lugar que Osíris podia estar já que não conseguia sair de lá, e ele era outro que merecia uma distração. Não era fácil ficar eternamente preso no mesmo lugar.

O lugar onde os dois estavam era facilmente o cantinho mais escondido da festa. Anput se deliciava com as comidas caras e curtia a música enquanto tudo que Anúbis fazia era ficar deitado no tapete e almofadas se perguntando até que horas aquela festa iria durar. Não era como se pudesse fugir muito já que ela estava acontecendo no primeiro lugar para onde pensaria em fugir.

— Eu não sei… — disse Anput olhando para onde Rá estava agora — Ele parece bem ali recebendo a Ba’alat e a Hathor. Aliás, a Ba’alat parece feliz em estar aqui… imagino que não tenha festas grandes assim na Fenícia.

— Sem falar que ela mal sai de Byblos. — disse Anúbis.

— Ela é bem amiga de Hathor. — disse Anput — Ela estava me contando uma vez como vai visitar ela às vezes na Fenícia.

— Mas sobre Rá… — disse Anúbis suspirando pesadamente — Não acha que ele parece meio cansado e envelhecido?

— Vai ver é só efeito de ficar tanto tempo lutando sem parar contra Apófis. — disse Anput deixando seu pratinho de queijos e carnes de lado e começando a enrolar o dedo indicador pelas mechas negras no cabelo do marido — Sem dúvida é terrivelmente cansativo. Ele merece respirar e viver um pouquinho também.

— Espero que seja só isso mesmo. — disse Anúbis fechando os olhos sentindo a preguiça chegar com força por causa do cafuné.

Distraídos e distantes da festa, eles ficaram ali alguns minutos. Não se importavam tanto para a conversa animada que acontecia entre Hathor e Ba’alat, a deusa Fenícia de Biblos, agora que Rá tinha se afastado para receber Utu, o deus sumério do sol e Ashur, também deus do sol só que da Assíria. Também não tinham interesse na briga amigável que atraía espectadores e acontecia do lado de fora do Salão do Julgamento entre Hórus e Ninurta, o deus sumério da guerra que tanto queria lutar contra Hórus algum dia.

Cada um de seu jeito, os deuses se divertiam na festa. Hathor mostrava em seus braços para Ba’alat o pequeno deus bebê que havia nascido uns dias atrás, Qebui encarava com estranheza Nefertem que lhe mostrava como ao queimar as folhas e pétalas do Lótus Azul, ele poderia ficar relaxado de um jeito um tanto ... diferente. A diferença de aparência, roupas, costumes, sotaques e idiomas era grande, mas os que mais pareciam integrados à festa eram os deuses núbios. Um bom exemplo disso era o deus leão Apedemak que tentava cortejar Sekhmet sob o olhar invejoso e triste da deusa núbia Amesemi que ainda tinha muita esperança em conseguir conquistar o deus núbio-leão pelo simples motivo que Sekhmet não demonstrava o mínimo de interesse por ele.

O momento íntimo e relaxante de Anúbis e Anput foi interrompido quando Seshat aproximou-se timidamente dos dois levando mais alguém consigo.

— Ei, Anúbis, tem uma pessoa procurando por você. — disse Seshat.

Anúbis abriu os olhos e Anput parou de ficar só focada na expressão tranquila dele e ambos olharam para Seshat e a recém chegada. Anúbis sentou-se ao perceber, não tão surpreso assim, que a pessoa que aparentemente queria falar com ele era Ereshkigal.

A deusa suméria quase não havia mudado muito nas décadas que se passaram desde do problema que envolveu o sequestro de Imhotep. Suas asas negras pareciam poderosas como sempre e seu cabelo negro e cacheado estava bem cuidado. Seus olhos completamente negros, desprovidos do branco esperado da esclera, continuavam frios, mas havia uma tristeza ali que ela tentava esconder em seu olhar e trejeitos.

— Achei que não gostasse de festas. — disse Anúbis para Ereshkigal.

— Digo-lhe o mesmo. — respondeu ela.

— Anput… — disse Seshat — Você gosta de festas. Vamos aproveitar ela um pouco comigo? Não fique aí sentada ela inteira.

— Vamos! — disse Anput se levantando — Quero ver quem ganha entre Hórus e Ninurta.

— Torça em silêncio por Ninurta no meu lugar. — disse Anúbis e Anput, respondendo à isso, deixou escapar uma pequena risada.

— Vou sim. — garantiu ela antes de sair junto com Seshat deixando os dois deuses da morte à sós.

Ereshkigal e Anúbis se encararam por alguns segundos num silêncio incômodo até que Ereshkigal finalmente se sentou no lado oposto do tapete. Em meio a esse silêncio, Anúbis se perguntava qual a causa da tristeza que notava nos olhos dela por mais que ela tentasse disfarçar e mostrar que tudo estava tal como era antes. Mas não estava.

— Vejo que não convidaram mesmo os minóicos… — disse ela falando sobre qualquer coisa que não fosse a tristeza evidente em si, como Anúbis notou.

— Não teriam vindo mesmo se convidassemos. — respondeu ele.

— Verdade. — concordou ela — Querem se manter livre de toda e qualquer influência em sua religião conforme ela se desenvolvem, mas não querem admitir que isso é impossível.

— Mas… — disse Anúbis parando uns segundos soltando um suspiro antes de continuar — Não veio até aqui pra falar dos minóicos comigo.

— Não… não vim. — admitiu Ereshkigal sem conseguir evitar um olhar cabisbaixo rápido para o tapete — Não sei se ouviu falar, mas Inanna morreu. De vez.

— Ouvi falar… Um deus morrer… é raro. Uma fofoca dessas se espalha rapidamente. — comentou Anúbis — É por isso que está triste?

— Não. — respondeu Ereshkigal revirando o olhar diante da morte da irmã — Eu a matei, mesmo que indiretamente. Ela mereceu. Pendurei seu cadáver em um gancho no submundo para todos verem o que acontece quando tentam desafiar minha paciência.

Silenciosamente, Anúbis agradeceu por estar do lado bom da paciência dela aparentemente. Ela sem dúvida seria uma inimiga extremamente perigosa em todos os sentidos. Mas, sendo ela tão perigosa e forte, o que poderia ter deixado uma mulher como ela com aquele olhar de tristeza velada?

— Qual o problema então? — quis saber Anúbis.

— Tenho medo de ser a próxima. — admitiu Ereshkigal abaixando até mesmo o volume da voz — O poder de Nergal ultrapassou o meu. Ele controla mais o submundo do que eu. Não deve faltar muito para a ordem do submundo sumério mudar completamente. Achei que deveria saber disso já que não é estranho termos que discutir coisas sobre as almas e os submundos ao menos uma vez por século.

— Ele vai tomar de você completamente a liderança do Ur? — perguntou Anúbis incrédulo e não gostando nada da notícia. Não se dava nem um pouco bem com Nergal.

— É provável. — admitiu Ereshkigal.

Em silêncio, os dois ficaram absorvendo aquela mudança eminente com um humor bem apático e de pesar. O momento só foi interrompido quando Ereshkigal deixou um suspiro escapar de seus lábios.

— Bem, era isso. — disse ela se levantando — Caso não nos encontremos de novo… Saiba que gostei de trabalhar com você, apesar de tudo.

— O mesmo. — respondeu ele — Não deixe aquele neket iadet ganhar de você.

— Não pretendo. — concluiu ela se virando de costas e indo embora dali.

Vendo Ereshkigal se afastando, o olhar de Anúbis logo escapou da deusa suméria e começou a procurar por Anput na multidão de deuses. Encontrou-a relativamente rápido. Ela estava rindo, conversando e aparentemente se divertindo junto com Seshat e Sodpet enquanto Qebui se aproximava aparentemente reclamando de algo relacionado à Nefertem que estava largado sobre um sofá admirando o teto estrelado com olhar extremamente preguiçoso.

Anúbis olhou aquela cena entre os deuses e não se sentia encaixando nela. Essa sensação incomodou-lhe no peito um pouco e fez com que ele se sentisse ainda mais consciente de o quão distante e escondido da festa aquele cantinho estava. Ele se levantou com aquela sensação incômoda e depressiva ardendo em seu peito sem saber bem o que fazer ou para onde ir. Deixou então seus pés decidirem por conta própria e acabou indo parar no corredor que levava até a Sala de Purificação, a sala onde tão meticulosamente preparava suas múmias.

O corredor estaria completamente escuro e digno de um filme de terror se não fossem dois detalhes. O primeiro era a tocha ao seu lado que automaticamente se acendeu quando ele entrou, o segundo era que parecia ter mais alguém poucos metros à sua frente. A pessoa havia tentado ficar na escuridão, pois Anúbis notou que as tochas ao redor da pessoa haviam sido recentemente apagadas propositalmente. Contudo, essa mesma pessoa brilhava, tinha luz própria. A pessoa parecia se contorcer de dor e, de costas para Anúbis, ele só podia ver as costas musculosas brilhando. Contudo, aquele corpo brilhante e dourado era inconfundível. Era claramente Rá fugindo de sua própria festa.

O brilho de Rá, estranhamente, estava falhando e, enquanto sua mão esquerda estava na parede apoiando seu peso, a outra estava na cabeça. A posição parecia indicar que ele estava com uma terrível dor de cabeça ou algo do tipo.

Diante de tal visão, o sentimento de não pertencimento e solidão foi sumindo do peito de Anúbis e trocando para uma palpável preocupação. Aquele não era um deus qualquer com dor de cabeça, era Rá! O próprio sol!

— Senhor Rá, está tudo bem? — perguntou Anúbis andando à passos apressados até o deus.

As tochas no decorrer do corredor foram se acendendo seguindo os passos do deus até Anúbis alcançar Rá. O deus sol nem se mexeu. Apenas gaguejou uma resposta confusa.

— ...Q-Quem? — respondeu Rá por um breve segundo.

A resposta não só havia sido extremamente estranha, como logo depois dela ele pareceu se lembrar de algo e a notar a presença de Anúbis ali. Ao notar que não estava sozinho, Rá tentou esconder seu momento de dor apressadamente. Lançou um olhar de assombro para Anúbis mas logo o escondeu, tirou a mão direita da cabeça, deixou a coluna ereta apressadamente e tirou tremulamente a mão esquerda da parede.

— N-Não é nada… — respondeu Rá apressadamente fingindo que nada aconteceu — Olhe só para mim… preocupando meu trineto… Não é nada, garoto. Não precisa se preocupar. Apenas um mero cansaço depois de tantos séculos constantemente lutando contra Apófis.

— Certeza? — perguntou Anúbis não confiando muito nas palavras de Rá.

— Sim. — respondeu ele tocando-lhe firmemente o ombro — E você, porque não está na festa?

Apesar de notar a tentativa de Rá de mudar de assunto, Anúbis simplesmente desviou o olhar sem saber como responder. Sabia as palavras, mas elas não pareciam boas o suficiente e também não sentia confortável o suficiente em dizê-las para Rá. Rá podia ser importante como era, eles não eram tão próximos assim para o deus do sol ouvir algo tão particular. Notando isso no olhar do trineto, Rá o soltou e abriu um pequeno sorriso de entendimento quanto a questão de não querer se abrir.

— Tudo bem… — disse Rá — Bem, irei voltar para a festa antes que notem minha falta.

Anúbis seguiu com o olhar Rá se afastando mas a cena que tinha acabado de ver não saiu de sua cabeça. Assim, esperou Rá se afastar e eventualmente entrar num jogo de Senet contra Thoth antes de sair à passos apressados até onde Ísis bebericava um copo de vinho junto com Osíris.

— Ora, devo dar-lhe os parabéns… — disse Osíris assim que Anúbis se aproximou — Saiu de seu cantinho e veio se juntar a festa?

— Não gosta de festas? — perguntou Néftis delicadamente numa tentativa de tentar se dar bem com o filho mas ao mesmo tempo mostrando como o conhecia tão pouco.

— Bem não porque queria… — admitiu Anúbis ignorando Néftis sem perceber — Rá estava se escondendo no corredor que leva para a Sala de Purificação. Estava estranho.

— Estranho como? — perguntou Ísis.

— Sua luz estava falhando, parecia com muita dor de cabeça também. — explicou Anúbis — E quando o chamei, a resposta dele primeiro foi “Quem?”.

Ísis e Osíris se entreolharam preocupados entendendo tanto quanto Anúbis sobre o problema, quase nada. Discretamente, Ísis lançou um olhar para onde Rá estava e ele parecia normal enquanto aproveitava um jogo com o filho mais velho que à tempos não via. Quanto a Néftis, estava mais triste e incomodada ao notar que ele ainda parecia dar bem mais valor à Ísis e Osíris como pais do que a ela e.. bem… Seth. Sabia que apesar de tudo, o relacionamento dos dois ainda tinha muitos altos e baixos. A deusa esperava que estivessem saindo de um dos baixos, e ele também esperava, pois ela havia passado as últimas décadas o evitando.

— Parecendo mais velho e cansado… e agora isso… — comentou Ísis preocupada.

— Está parecendo normal no momento. — disse Néftis.

— Tem algo acontecendo e não estamos devidamente informados. — disse Osíris — Isso é certo.

Notas finais
~~ REFERÊNCIAS ~~~ O livro de Thoth - https://www.sacred-texts.com/egy/woe/woe10.htm Ashur (Assíria) - https://en.wikipedia.org/wiki/Ashur_(god) Ba’alat (Fenícia) - https://en.wikipedia.org/wiki/Ba%E2%80%98alat_Gebal Amesemi (Núbia) - https://en.wikipedia.org/wiki/Amesemi Apedemak (Núbia) - https://en.wikipedia.org/wiki/Apedemak Ereshkigal (Suméria) - https://en.wikipedia.org/wiki/Ereshkigal Festas no Antigo Egito - http://www.touregypt.net/featurestories/partytime.htm Festas no Antigo Egito 2 - http://www.utahloy.com/m6egypttech/muu2.htm Drogas no mundo antigo - https://www.sciencemag.org/news/2018/04/did-ancient-mesopotamians-get-high-near-eastern-rituals-may-have-included-opium# Lótus Azul - https://www.inverse.com/article/26125-blue-water-lily-lilies-stoned-high