A Morte Das Areias do Saara
68 Duas preocupações diferentes
Notas iniciais

Quando o sacerdote terminou de falar, Nefer-ka-ptah saiu correndo do templo, pois sua alegria era tão grande que ele não sabia onde estava. Ele correu rapidamente para Ahura para contar a ela sobre o livro e que iria a Koptos e o encontraria.
Ahura, porém, ficou muito triste e disse: "Não vá nesta jornada, pois problemas e tristezas esperam por você na terra do sul".
Ela pôs a mão sobre Nefer-ka-ptah como se o retivesse da tristeza que o esperava. Mas ele não seria contido, e se separou dela e foi ao rei, seu pai.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
A noite caía poderosa e escura sobre o céu do Egito banhando-o de estrelas que atraiam o olhar atento e preocupado de Ahura. Já faziam dois dias que ela, seu filho e seu marido tinham terminado a longa jornada até quase o extremo o sul das terras governadas por Khufu. Na cama simples, tão diferente das luxuosas camas banhadas em ouro do palácio, o pequeno Merab dormia deixando uma mancha de baba no fino tecido de linho enquanto sua mãe mirava as estrelas preocupada com a segurança do marido. Toda a festa que havia sido feita em Koptos pela chegada de um dos filhos de Khufu ao local não havia sido suficiente para acalmar as preocupações da mulher.
Ahura queria rezar para os deuses, para que cuidassem de seu marido em sua jornada extremamente perigosa, mas sabia que pedir a ajuda dos deuses só poderia piorar a situação deles. Era exatamente por isso que não gostava dos planos de Minkhaf. Contrair a ira dos deuses nunca parecia uma coisa sábia a se fazer. Podia causar muitos sofrimentos tanto em vida quanto em morte. Ahura se estremecia toda só de pensar na possibilidade de acabar nas mandíbulas de Ammit quando o momento de sua morte finalmente chegasse.
Toda a tensão resultante do fato de Minkhaf estar numa empreitada para roubar o Livro de Thoth fez com que Ahura levasse um susto quando ouviu um barulho embaixo da sacada por onde estava. Seu coração ansioso e preocupado já achava que era uma punição dos deuses vindo sorrateiramente, mas foram apenas dois soldados que, em meio a risadas, matavam o tédio da noite tranquila enquanto guardavam os cômodos que, emprestados pelo vizir da região, agora guardava ela e Merab.
Seu susto e o barulho das vozes que quebravam o silêncio da noite haviam acordado o pequeno Merab. A criança desceu com um pouco de dificuldade da cama e foi andando até a mãe que só foi notar sua presença quando ele pegou na barra de sua saia. O toque causou em Ahura outro susto, mas ela logo abriu um doce sorriso, tão típico de mães, quando viu que era apenas seu pequenino.
— O que foi? Te acordei? — perguntou Ahura pegando Merab no colo notando seus olhos cansados de sono.
— Só um pouquinho… — resmungou a criança abraçando a mãe pelo pescoço e deixando sua cabeça sobre o seu ombro.
— Desculpe… — disse Ahura dando-lhe um beijo no topo da cabeça.
— Mamãe… — disse Merab soltando logo em seguida um bocejo — Cadê o papai?
— Ele… foi procurar um presente pro vovô… — mentiu Ahura.
— Ele volta logo né? — perguntou o pequeno.
— Volta sim. Volta sim. — garantiu Ahura.
Enquanto isso, já tinha algum tempo que a festa de boas vindas à Rá havia acabado e o Salão do Julgamento havia voltado à sua normal funcionalidade. Diante da balança da verdade, um humano de aparência idosa estava de pé e com o queixo erguido em pleno orgulho.
— Verás que para mim será o Aaru! — exclamou o homem batendo no peito — Fui poderoso e a pessoa mais rica e influente de meu vilarejo. Não havia um só homem ou mulher do vilarejo que não tenha usufruído de minha riqueza de minha ajuda direta ou indiretamente.
— Isso não é uma competição de quem é mais rico… — rebateu Anúbis já ficando irritado com a petulância do homem mas suspirando fundo ao lembrar que tinha que ser imparcial mas que, ao mesmo tempo, o homem estava em julgamento.
— Verás também que meu coração é puro e verdadeiro! — exclamou o homem que não parecia saber falar normalmente.
— Não é você quem tem que dizer isso. — disse Anúbis cansando daquela tagarelice toda, vira e mexe aparecia um que queria falar mais do que o necessário.
Determinado a passar logo para a próxima alma, Anúbis foi até o homem com passos decididos. Não pode deixar de notar como o homem deu dois passos para trás quando ele se aproximou. Não era todo dia que um deus com cabeça de chacal e olhar assustador se aproximava repentinamente de você. Com certeza o homem não teria ficado tão assustado assim se soubesse que o verdadeiro rosto por debaixo daquela magia ilusória que simplesmente queria amedrontar e intimidar, estava alguém de aparência um pouco mais velha que o próprio neto.
Engolindo em seco, o homem encarou os olhos vermelhos e ameaçadores sem conseguir enxergar que ali embaixo estavam olhos castanhos achocolatados que seriam até gentis se não fosse o serviço cujo dono estava exercendo no momento. Anúbis ergueu então a mão na direção do peito do homem sem o tocar de fato e de lá puxou magicamente seu coração mesmo que o homem fosse apenas uma alma, não um corpo de carne e osso. O coração parado, morto, pousou em sua mão enquanto o frio se espalhava pelo homem deixando-o também com uma expressão pálida de assombro e medo.
— Meu coração pelo qual eu nasci! — começou o homem a dizer apressadamente como se as palavras fossem conseguir salva-lo de qualquer resultado ruim de seu julgamento final — Não se oponha a mim no meu julgamento, que não haja oposição a mim na presença dos Chefes Tchatcha.
Anúbis segurava o coração com a mão direita enquanto sua mão esquerda invocou com facilidade a pena da verdade. Sua luz branca e pura deu nova vida ao recinto tal como fazia em cada um dos julgamentos que ele fazia. Contudo, esse julgamento tinha algo de diferente, tal como o olhar de Anúbis provou. Seu olhar desviou-se de seu trabalho por uns segundos e pousou em Osíris. Sentado em seu trono de onde deveria ver o julgamento e dar o parecer final sobre as almas que conseguissem provar a pureza de seu coração, Osíris claramente ignorava o julgamento. Sua mente parecia perdida em outros assuntos enquanto apoiava o queixo com a mão.
— Que não parta de mim na presença daquele que guarda a balança! — continuava o homem apressadamente a recitar a prece — Tu és meu Ka, que habita em meu corpo; O Deus Khnemu que une e fortalece meus membros. Que vá para o lugar de felicidade para onde vamos. Que os oficiais de Sheniu, que fazem as condições da vida dos homens, não façam com que meu nome cheire mal, e que nenhuma mentira seja pronunciada contra mim na presença do deus. Preste bem atenção, ó justo Juiz da Balança, para apoiar o testemunho de meu coração.
Já conhecendo bem aquelas falas que eram ditas em cada julgamento, com pouquíssimas exceções que não costumavam ter um final feliz, Anúbis botou o coração e a pena cada um do seu lado da balança. O homem com certeza estaria com o coração pulsando de nervosismo se não fosse o mero detalhe do órgão vital estar inerte na balança. A balança mágica analisou a pena por alguns milésimos de segundos por mais que isso não fizesse sentido para o comportamento esperado de uma balança. Eram segundos de tensão enquanto o homem esperava ansioso pela resposta de qual seria seu destino e Anúbis apenas se perguntava sobre o que Osíris estava pensando tão profundamente, embora já tivesse um chute.
Quando a balança começou a pesar mais para o lado do coração, era possível sentir o desespero que se instaurou no homem, assim como era possível sentir a felicidade que preencheu o coração de Ammit ao notar que teria mais um lanchinho aquela noite. A boca do homem se escancarou num grito mudo quando Anúbis virou-se para ele mais uma vez.
— Não! Por favor! Isso está errado! — gritava o homem — Não foi imparcial.
— Não finja que não sei que toda a fortuna que se orgulha foi ganha enganando seus vizinhos à ficarem lhe devendo muito, mais do que faz sentido, por qualquer coisa. Os enganava sem peso na consciência. — disse Anúbis enquanto pegava o coração do homem e via Ammit se aproximando fingindo ser um monstro feroz e sem piedade — Ou que traiu sua esposa diversas vezes.
Desesperado sem ver saída de seu destino, o homem se virou para sair correndo para longe dali como se isso fosse adiantar de algo. Anúbis nem se dignou a prestar atenção nele, apenas jogou o coração do homem para Ammit que o abocanhou ainda no ar num poderosa mordida de sua boca de crocodilo. Foi necessário apenas a mordida poderosa de Ammit se apossar do coração do homem para o homem congelar no lugar em que estava de pé.
Sem poder mexer um músculo, o homem sentiu o desespero de notar que seus últimos momentos haviam chegado. Ammit se deliciava com seu coração como petisco e logo ia andando até o homem enquanto Anúbis guardava a pena da verdade novamente.
A carnificina acontecia sem ninguém prestar muita atenção de tão rotineira que havia se tornado. Osíris continuava distraído mesmo quando Anúbis foi andando até diante de seu trono.
— Não é de seu feitio não prestar atenção nos julgamentos… — disse Anúbis para Osíris que logo saiu de seu transe e deixou escapar um pesado suspiro.
— Estava pensando em Rá. — admitiu Osíris — Ele não quer falar o que está acontecendo para nós.
— Questionaram ele sobre aquilo que aconteceu na festa? — perguntou Anúbis.
— Ísis bem tentou… — respondeu Osíris — Mas não adiantou de nada.
— Quero acreditar que Rá só precise de um tempo. — disse Thoth se juntando a conversa enquanto terminava de escrever no papiro o destino da alma do homem — Está lutando contra Apófis à séculos. Não deve ser uma situação nada confortável.
— Acredita mesmo nisso ou só está dizendo isso para ficar menos preocupado? — perguntou Anúbis e Thoth desviou olhar silenciosamente admitindo que era o segundo caso. — É de Rá que estamos falando…
— Acham que Apófis pode ter feito algo? — perguntou Osíris.
— Não é uma opção que pode ser descartada, mas acho difícil. — admitiu Thoth — Talvez Set…
— Não… — disse Osíris erguendo a mão e parando Thoth ali mesmo — Entendo que meu irmão gosta de causar confusões para nós. Mas à Rá ele é extremamente leal e obediente. Disso eu sei.
— Confia mesmo nisso? — perguntou Anúbis não acreditando muito naquelas palavras.
— Por incrível que pareça, sim. — disse Osíris com um fraco sorriso mostrando que entendia bem o que Anúbis estava pensando naquele momento.
Se Osíris acreditava, não tinha muito que Anúbis pudesse fazer. Assim, quando Thoth já foi reclamando que haviam gastado tempo demais naquela conversa, Anúbis deu as costas para Osíris e foi até Ammit. O demônio faminto lambia os beiços depois de sua refeição e sorriu feliz para Anúbis quando ele se aproximou. Era como se perguntasse se o deus estava orgulhoso da carnificina que havia acabado de fazer. Carinhosamente Anúbis fez carinho na barriga de Ammit que começou a bater uma das patas traseiras repetidamente no chão aproveitando o momento alheia a todas as preocupações que rodeavam os deuses no momento.
— Sei que gosta de comer, mas eu bem estava torcendo para a próxima alma não ter que ir parar no seu estômago. — disse Anúbis para Ammit que soltou um rosnado de resmungo não gostando da ideia.
— Não está com um conjunto de almas muito bom por hoje? — perguntou Anput do nada surgindo ali enquanto carregava consigo uma caixa do tamanho da sua cabeça com enfeites simples mas belos.
— Não. — respondeu Anúbis — Como foi o passeio com Seshat e Bes?
— Foi bem legal. — disse Anput sorrindo satisfeita — Comprei alguns jóias novas lá. Eles tem alguns estilos diferentes, os berberes.
— Anput… — interrompeu Thoth — Desculpe, sei que quer contar suas aventuras pelo Saara, mas temos que ir para a próxima alma já.
— Ah certo, desculpe. — disse Anput já guardando dentro de si a empolgação para mostrar o que aprendera e vira com os povos nômades do deserto.
— Só mais umas três e terminamos por hoje. — disse Anúbis segurando rapida e levemente o cotovelo dela antes que ela fosse embora — Todos querem deixar tudo organizado já que Rá está por aqui.
— Tudo bem, eu entendo. De verdade. — garantiu Anput fazendo a caixa em suas mãos desaparecer enquanto magicamente a guardava e então segurando a mão dele firmemente — Te vejo mais tarde?
— Sim. — prometeu ele fazendo ela abrir um sorriso antes de dar-lhe um selinho apressado e desaparecer indo aproveitar o que restava do dia em outro lugar.
— É verdade que todos querem mostrar serviço para Rá mas… — disse Thoth num mero sussurro seguido de um suspiro — Ele bem que podia confiar mais na gente e contar o que está acontecendo com ele.
— Vamos ter que descobrir de algum jeito. — disse Anúbis e Thoth concordou com a cabeça.
— Conhecendo meu pai, não vai ser da boca dele que ouviremos uma explicação. — disse Thoth.
Todos estavam preocupados com a situação com Rá, isso era fato. Sendo preocupação a emoção que parecia reinar naquela noite, Ahura não conseguia controlar seu coração preocupado com seu marido. Depois de botar o pequeno Merab de volta à cama, a mulher foi silenciosamente até a porta do quarto e ali notou um guarda cuidando da segurança dos dois, o mesmo que havia ajudado eles na jornada de Mênfis até Koptos então já tinha uma boa parcela de sua confiança.
— Poderia ficar de olho em Merab um pouco por favor? — perguntou Ahura.
— Sim senhora. — disse o soldado.
Não era muita novidade aquelas escapadas que Ahura dava várias vezes durante o dia e a noite. O soldado já sabia disso embora ficasse preocupado com o que pudesse acontecer com a mulher. Desde que haviam chegado ela várias vezes saía e ia até a margem do rio onde se sentava, observando e aguardando, pois sabia que a tristeza deveria advir dessa jornada para o sul.
Quanto à Minkhaf, por três noites e três dias ao longo do rio ele e a tripulação que havia arranjado para si viajaram. Até que, eventualmente, Minkhaf sabia que ele havia chegado onde o Livro estava escondido. Minkhaf respirou fundo se preparando para os perigos que teria que enfrentar enquanto agradecia silenciosamente por ter trago toda uma tripulação consigo para ajudá-lo em seja lá quais proteções mágicas ou não mágicas guardavam o livro de Thoth, estava pronto para encará-las.
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