A Morte Das Areias do Saara
69 Uma mãe se vai
Notas iniciais

Ele contou ao rei tudo o que havia aprendido e disse: "Dê-me a barca real, ó meu pai, para que eu possa ir para a terra do sul com minha esposa Ahura e meu filho Merab. Pois o livro de Thoth eu preciso e terei."
Então o rei deu ordens e a barca real foi preparada, e nela Nefer-ka-ptah, Ahura e Merab navegaram rio acima até a terra do sul, até Koptos. Quando chegaram a Koptos, o sumo sacerdote e todos os sacerdotes de Ísis de Koptos desceram ao rio para dar as boas-vindas a Nefer-ka-ptah, sacrificaram um boi e um ganso e serviram uma libação de vinho a Ísis de Koptos e seu filho Harpócrates. Depois disso, os sacerdotes de Ísis e suas esposas fizeram um grande banquete por quatro dias em homenagem a Nefer-ka-ptah e Ahura.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
O Palácio real em Mênfis mal tinha começado a receber as luzes do sol da manhã. Ali, a manhã havia começado mais do que simplesmente preguiçosa, havia começado triste, pesada e cinza. Dentre os serviçais, pouco era dito e esse pouco era dito com vozes hesitantes, baixas, tristes e amedrontadas. Tudo isso porquê o dia havia começado diferente de qualquer outro.
Tal como todos os outros dias, com as primeiras luzes do sol que havia chegado alguns minutos antes, o médico real cruzou os corredores em direção ao quarto da mãe de Khufu. Pendurada no ombro do homem estava uma bolsa simples de couro com papiros com feitiços de proteção, amuletos, um pequeno kit de incensos, uma romã que seria seu lanche para quando saísse dali em direção ao próximo enfermo e alguns objetos mas para exercer seu trabalho. No olhar do médico, no entanto, estava o cansaço. Sentia-se a cada dia perdendo a batalha contra os demônios e maldições que afetavam a saúde da Rainha-Mãe. Não queria perder a vida dela, era uma de seus pacientes afinal de contas, e não gostava de os perder. Mas também temia que o que Khufu poderia fazer caso deixa-se a mãe dele morrer.
Assim como em todos os outros dias, o médico cumprimentou brevemente o soldado postado diante do quarto da rainha. As olheiras nos olhos do soldado mostravam bem como ele tinha passado a noite. Felizmente, logo o turno do soldado acabaria.
Quando o médico entrou no quarto, como todos os outros dias, a Rainha-Mãe parecia estar dormindo confortavelmente em sua cama. O problema foi que quando ele chegou mais perto para analisar a saúde de sua paciente, ele perdeu toda a cor do rosto ao perceber que ela só “parecia” estar dormindo. Ele notou com assombro como o peito da mulher não parecia subir e descer seguindo a respiração.
— Minha rainha? — perguntou ele desesperado cobrindo a distância até a Rainha-Mãe praticamente correndo e logo começando a checar se a paciente estava mesmo dormindo ou pior.
Desesperado e rezando para todos os deuses que conseguiu lembrar do nome naquele momento, ele a tocou sem obter resposta alguma e logo começou a procurar desesperadamente pelo pulso dela. Lembrava bem da frase que havia lido tantos anos antes num papiro quando estava estudando ainda para ser médico, “o coração fala por todos os membros”.
— Temos um problema! — exclamou o médico para o soldado quando seu coração pareceu despencar de um abismo ao não acha pulso nenhum.
E foi assim que todo o movimento do palácio mudou naquele dia. Não demorou muito para o médico confirmar que não podia mais fazer nada por ela. Também não demorou muito para quase todos os descendentes da falecida rainha estarem em seu quarto criando todo o momento de luto.
Sentado numa cadeira que estava já naquele quarto, Khufu era o que estava mais perto da mãe. Suas mãos pareciam tão maiores segurando carinhosamente a mão frágil e esquelética da mãe. Até mesmo o poderoso faraó do Egito tinha um lado sensível, pois era com carinho que ele levava a mão da mãe até os lábios e depositava um beijo em seu torno enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto.
Logo ao lado dele, botando uma mão carinhosamente na coxa do faraó mas também chorando copiosamente com a cabeça deitada no ombro dele, estava a princesa Hetepheres, um nome um tanto comum naquela família pois era em homenagem àquela mulher falecida que estava deitada na cama. Todavia, essa princesa Hetepheres não era a princesa Hetepheres II, filha de Khufu. A princesa que chorava no ombro de Khufu era sua irmã, totalmente sua irmã, não sua meia-irmã como suas duas esposas. Khufu também não era casado com ela. Assim, Hetepheres chorava junto com o irmão pela perda da mãe.
Logo atrás dos dois irmãos em luto, estavam alguns de seus filhos. Sim, apenas alguns, pois alguns dos filhos de Khufu haviam deixado Mênfis em dias anteriores e Minkhaf ainda não havia voltado.
A terceira Hetepheres, filha de Khufu, chorava silenciosamente com os pés doendo em meio a gravidez avançada. Pensava em como sua avó não iria segurar aquele bisneto que nasceria a qualquer momento tal como ela havia feito com o anterior. Tentando consolar a irmã e esposa, estava Kawab. O mais velho dos filhos de Khufu era o que mais tinha memórias da avó. Lembrava de como ela contava com uma voz doce sobre como o deus Geb e a deusa Nut se apaixonaram e foram eventualmente separados um do outro por toda a eternidade.
Outros ocupantes também estavam no quarto, como as duas esposas de Khufu que viam na falecida rainha como uma madrasta já que ela foi uma das esposas que o falecido faraó Snefru tinha simultâneamente. Do lado delas estava o príncipe Djedefre ao lado da princesa Khamerernebty, ambos deixavam lágrimas tímidas escorreram pelo rosto enquanto, atrás deles, encostado displicentemente no portal de entrada, estava o príncipe Khafre com, marido de Khamerernebty, com uma expressão difícil de ler.
— Eu pedi aos deuses… todos os dias… várias vezes por dia… para salvar a vida dela… — disse Khufu entre as lágrimas — Os amuletos e o tratamento não foram o suficiente?
— Usei os melhores amuletos e incensos. — disse o médico tentando esconder o medo que ardia dentro de si, Khufu não tinha fama de misericordioso com aqueles que falhavam ou desobedeciam regras — Também administrei as melhores ervas e orei para o deus Heka, mas aparentemente não foi o suficiente dada a avançada idade da rainha, me perdoe meu faraó.
Khufu se levantou de sua cadeira. Um movimento tão simples mas que logo fez o médico grudar suas costas contra a parede ricamente adornada do quarto da rainha. Contudo, o faraó nada fez. Apenas se afastou da mãe e ficou a olhando com o olhar de pesar enquanto sua irmã aproveitava a chance para ficar mais perto da mãe.Todavia, o medo era talvez justificado. Parecia haver um ódio e rancor escondidos por debaixo do olhar de pesar de Khufu. Notando isso, Kawab se aproximou e botou uma mão de forma tranquilizadora sobre o ombro do pai.
— A hora dela havia chegado , meu pai. — disse Kawab — Tenho certeza também que ela sentia muita falta de nosso avô. Agora poderá descansar no Aaru e rezaremos para Osíris e Anúbis para que ela chegue lá.
— Hunf — resmungou Khufu com desprezo — Como se rezar para os deuses adiantasse de algo.
Estando num lugar onde a religião era algo tão entrelaçada com o cotidiano e a cultura, além de algo tão certeiro e obrigatório que nem era preciso converter ninguém, a fala de Khufu assombrou os presentes que conseguiram sair de seu luto por tempo o suficiente para ouvi-la. A mão de Kawab no ombro do pai se retraiu enquanto as duas filhas de Khufu, Khamerernebty e Hetepheres olhavam para o pai com assombro enquanto se questionavam se tinham mesmo ouvido aquilo direito.
Em silêncio, Khufu ficou no cantinho com a raiva em seu rosto apenas aumentando enquanto os demais presentes se despediam da Rainha-Mãe. Eventualmente outras pessoas chegaram conforme os bisnetos dela, ainda tão pequenos, chegavam para dar o último adeus à bisavó ainda sem entender direito o que era a morte.
O sol já ardia forte no ponto mais alto do céu anunciando a chegada do meio dia quando um dos sacerdotes de Anúbis chegou no Palácio. Nesse ponto, Khufu não estava mais no quarto da mãe, estava sentado em seu trono com o queixo apoiado na mão e uma expressão pensativa e raivosa.
— Pode ter certeza, meu faraó, de que daremos os melhores cuidados pós-vida para a Rainha-Mãe. — dizia o faraó — Em cerca de dois meses seu corpo estará pronto para o sepultamento.
— Sacerdote… — disse Khufu soltando um suspiro — Você lida com assuntos divinos várias vezes no decorrer de seu dia. No entanto, religiosamente falando, eu ainda estou acima de você. Ninguém em todo o Egito está mais perto dos deuses do que eu, certo?
— Ahm.. sim… — respondeu o sacerdote sem entender porquê Khufu falava de coisas que todos, inclusive ele, já sabiam muito bem.
— Sendo o líder político e religioso de nosso grandioso império, levei as bordas egípcias para o Sinai e mantive a presença de nosso exército por lá e também na Núbia. — disse Khufu — Achei ser uma benção dos deuses para mim não termos nenhuma ameaça militar real ou o fato de termos recursos e tempo para explorar turquesa em Wadi Maghara, diorito na Núbia e granito vermelho perto de Aswan.
Sem saber bem o que o faraó queria que ele respondesse, o pobre sacerdote ficou apenas ali, de pé diante do poderoso regente e sentindo-se extremamente desconfortável. Entre o faraó e o sacerdote, o escriba real sentado no chão com seu papiro e apoio de madeira para este, olhava de um para o outro sentindo o clima tenso que estava nascendo ali.
— Mas… — continuava Khufu — Quando mais precisei deles, os deuses nos abandonam e não atendem ao meu singelo pedido pela minha mãe.
Qualquer palavra parecia ser errada para ser dita ao faraó naquele momento, então o sacerdote e o escriba ficaram em silêncio e trocaram olhares amedrontados entre si. Até que Khufu se ergueu de se trono com o queixo erguido, o olhar duro e olhou para o escriba-real que com certeza teria molhado as calças se não fosse o fato de já trabalhar ali com ele à vários anos.
— Envie à todos os templos, de norte à sul do reino…Sejam eles templos à Hórus, Khnum ou Khonsu. Quero todos os templos do reino fechados! Não mais orações, não mais sacrifícios… — disse Khufu se virando para ir embora dali — Tenho que pensar…
— M-Meu faraó… — gaguejou o escriba sem entender o motivo de tal pedido.
— Você ouviu! — esbravejou Khufu virando-se para o homem — Quero TODOS os templos fechados. É uma ordem!
Com passos pesados, o faraó deixou para trás o lugar sabendo que tinha deixado ali uma ordem que tinha o poder de mudar tudo. Engolindo em seco, o escriba real não tinha alternativa além de escrever a ordem que foi dada pelo governante supremo e providenciar que ela fosse espalhada por todos no reino.
Mas ali naquele palácio não estava só o faraó, o sacerdote e o escriba. Outras pessoas moravam e trabalhavam ali. Assim, não demorou muito para que uma fofoca começasse a se espalhar por Mênfis, o faraó fecharia todos os templos. Dentre aqueles que ouviram a fofoca se espalhando, estava um falcão que voava pelos céus exuberantemente e com olhar inteligente e orgulhoso.
Foi esse mesmo falcão que, não muito depois, chegava no Salão do Julgamento e diante de todos os deuses se transformava numa forma mais fácil de discutir o problema que tinham pela frente. Aquele falcão era claramente Hórus que não havia gostado nem um pouco das fofocas que havia ouvido pela capital egípcia.
— Fechar os templos! — reclamava Hórus com os outros deuses — Era só o que me faltava.
— Não ouviu errado, Hórus? — perguntou Khnum.
— Não! Não ouvi errado! — rebateu Hórus — Vai tentar defender Khufu, Khnum? Só porquê ele se curva para ti do que para qualquer um de nós? Sei o que ouvi!
— Não estou dizendo que ouviu errado… — disse Anúbis — Mas será que não é só uma fofoca infundada? Porquê fechar todos os templos… isso é loucura.
— Será que não são só ‘alguns’ templos e não todos? — perguntou Isis — Não podemos nos basear por meras fofocas do povo.
— Lembrando também que fofocas nem sempre são verdadeiras… — lembrou Néftis — Lembram-se que uma vez chegaram a dizer que o faraó Huni estava construindo um templo para os Núbios mas no final ele estava apenas construindo uma fortaleza para proteger as fronteiras contra os Núbios.
— É diferente agora… — disse Hórus — Na época de Huni essa fofoca era muito fraca. Um mero fruto de pessoas com muita criatividade na mente. Dessa vez ouvi até mesmo serviçais do palácio contando isso no mercado de Mênfis.
— Porquê não trás mais detalhes então? — perguntou Ísis — Quais templos? Todos é impensável. Nenhum faraó faria isso. O que acontece se alguém desobedecer? Mensageiros foram enviados para alertar isso ao povo e aos sacerdotes? Mumificações não são especificamente feitas em templos, a Rainha-Mãe acabou de morrer, isso será afetado? E as festas, as celebrações, as oferendas?
— Tem muitas perguntas ainda por trás disso tudo, isso é verdade. — disse Osíris com expressão pensativa — Precisamos de mais respostas.
— Está tão assustado com uma mera fofoca, — disse Khnum — que nem deixou todos os outros deuses ouvirem essa conversa.
— Queria incluir só os realmente poderosos e importantes, — disse Hórus — mas infelizmente tive que estender o convite à você, Khnum, já que Khufu é seu protegido e ele está tomando decisões altamente questionáveis!
— Optou por não incluir Thoth então? — lembrou Tefnut docemente — Até Set convidou!
E, de fato, em seu cantinho de braços cruzados sem interagir com ninguém nem nada, estava Set que nesse momento trocava um olhar de raiva com Shu que havia acabado de o encarar.
— Thoth seria muito bom para opinar no problema. — concordou Anúbis tentando ignorar a presença do pai ali.
— Na verdade, não achei Thoth — defendeu-se Hórus — Chamaria Rá também mas ele está ocupado no momento.
— Acho que Thoth falaria que primeiro temos que confirmar a veracidade dos boatos. — opinou Ísis — Não devemos tomar decisões drásticas baseadas em boatos que podem muito bem ser falsos.
Concordando com esse ponto de vista de Ísis, Anúbis simplesmente deixou o Salão do Julgamento para trás num piscar de olhos e alguma fumaça. Já convivendo com ele à alguns séculos, os outros deuses sabiam bem o que ele deveria ter ido fazer dado o rumo que a conversa havia tomado.
Depois de deixar o Salão do Julgamento para trás, Anúbis ressurgiu em Mênfis em sua forma de chacal perto do porto da cidade. Com seus olhos e ouvidos prestou atenção ao movimento de barcos e pessoas e logo não demorou muito para achar o barco de aparência importante que parecia se preparar para zarpar. Um pequeno grupo de homens colocavam provisões dentro do barco mas a verdadeira “carga” do barco pareciam ser dois homens e suas bolsas. Pela conversa entre os dois, Anúbis tinha certeza que eram mensageiros.
— Não acha que o faraó está tomando uma decisão perigosa? — perguntou o primeiro homem — Podemos irritar os deuses desse jeito.
— Vai sugerir que não entreguemos a mensagem? — perguntou o segundo — O faraó nos mataria.
— Antes o faraó do que os deuses. — retrucou o primeiro — Podemos pagar além até de nossa morte se irritarmos os deuses! E fazer todo o Egito pagar!
— O faraó deve saber o que está fazendo… — disse o segundo embora não houvesse muita confiança em sua voz.
A conversa foi repentinamente interrompida quando Anúbis simplesmente apareceu no barco em sua forma mais humanóide. Contudo, ninguém prestou atenção em como ele simplesmente brotou do nada ali e pegou um dos papiros em busca da ordem de Khufu.
— Hey! Você aí! Não deveria estar aqui! — gritou um dos soldados que protegiam os mensageiros ao notar Anúbis no barco.
— Tá. Tá… — respondeu Anúbis apaticamente fechando o papiro em suas mãos por não ser o que ele procurava e logo abrindo outro.
Irritado, o soldado andou até o deus enquanto um soldado mais velho ao lado dele olhava para Anúbis com olhar assustado e começava a se ajoelhar no chão tremulamente. Os dois mensageiros notaram que algo ali não parecia nada normal e um deles tentou impedir o soldado de se aproximar precipitadamente.
— Calma… espere! — pediu um dos mensageiros tentando segurar no antebraço do soldado que facilmente se soltou.
— Ei, garoto! — exclamou o soldado estendendo a mão forte para agarrar o braço de Anúbis bruscamente. Contudo, sua mão apenas atravessou o braço dele como se ele fosse feito apenas de fumaça.
A expressão do soldado mudou para assombro e ele deu dois passos trêmulos para trás enquanto Anúbis, com uma expressão fechada, encarava o papiro que estava em suas mãos.
— Isso é muito ruim… para Khufu… — disse Anúbis antes de sumir novamente.
Fale com o autor