A Morte Das Areias do Saara
115 Entrando para a História
Notas iniciais

A majestade do palácio implorou as escadas do senhor dos deuses e instruções foram ouvidas do Grande Trono, um oráculo do próprio deus:
Explore as rotas para Punt, abra as estradas para os terraços de mirra,
e lidere uma expedição na água e na terra para trazer mercadorias exóticas da Terra dos Deuses,
para este deus que criou sua beleza.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
Liderar um império, não era fácil, mas Hatshepsut certamente fazia parecer que era para aqueles que não viam sua preocupação e cansaço escondidos pelas paredes do palácio e um rosto controlado. Vestir-se de faraó, e consequentemente de homem, era uma constante lembrança para todos de que ela era o faraó, não apenas uma rainha. Mas isso não significava que ela não tinha ainda uma necessidade ainda maior de se provar do que seus antecessores.
Os anos se passaram e, agora com 40 anos, a idade no rosto de Hatshepsut se misturava com a inteligência. No passar dos anos, Hatshepsut restabeleceu as rotas comerciais que foram interrompidas durante a ocupação dos hicsos, comissionou centenas de projetos de construção em todo o Alto e Baixo Egito, mais obras do que qualquer antecessor. Encomendou tantas estátuas que, quando vários séculos se passassem e o Egito Antigo fosse apenas um fantasma em museus e ruínas, quase todos os principais museus com artefatos egípcios antigos no mundo teriam estátuas de Hatshepsut entre suas coleções.
Podiam falar o que quisessem dela, mas ninguém podia dizer que o reinado dela não havia deixado o Egito cada vez mais rico. Quanto mais riqueza chegava no Egito, menos guerra e conflitos assolavam o povo egípcio. O reinado de Hatshepsut estava sendo marcado não só por muito comércio e obras, como também por muitos anos de paz.
Se alguém quisesse reclamar que ela não tinha pênis e por isso não era digna, ela também tinha um plano em execução para isso. Sabia bem que os faraós construíram enormes obeliscos, como raios de sol tocando a terra, que muitos usavam também de referência para o próprio pênis. Pois bem, Hatshepsut encomendou um obelisco que, com 41.75 metros, seria maior que qualquer outro obelisco já feito, pesando 1090 toneladas.
Hatshepsut havia começado a construir uma tumba para si quando ela era a Grande Esposa Real de Tutmosis II. Ainda assim, a escala não era adequada para um faraó, então, quando ela subiu ao trono, começou a preparação para outro sepultamento. Ela queria ser enterrada junto ao pai, de quem tanto sentia falta e cujos ensinamentos a fizeram a grande faraó que se tornou. Assim, ela começou a ampliar a tumba de Tutmósis I, a provavelmente primeira tumba real no Vale dos Reis, com uma nova câmara funerária.
Com Hatshepsut extremamente ocupada mesmo com a companhia de Hathor, cada vez mais alguns dos deveres da rainha eram executados por Neferure. Agora Neferure era uma jovem moça de 22 anos, no meio de uma gravidez. Mas, mesmo com a barriga que crescia, era uma mulher poderosa, esperta, estudada e gentil que seguia os passos da mãe.
Num dia insuportavelmente quente, Hatshepsut estava com os pés dentro da piscina do palácio usada para banhos enquanto duas serviçais abanavam ela e seu visitante com enormes leques em formatos de semi-círculos feitos com uma grande variedade de penas de várias cores. Seu visitante, não muito surpreendentemente, era Anúbis, que também se rendeu a colocar os pés dentro da piscina.
Não estava em nenhuma cerimônia, então não tinha porquê usar todo o traje completo de faraó com coroa e barba falsa, mas ela seguia usando as roupas faraônicas, que se resumiam basicamente a uma saia curta chamativa e elegante.
— Senenmut está preocupado com o obelisco… — dizia Hatshepsut — Acha que pode ser grande demais para que consigamos tirar da pedreira.
— É grande assim? — perguntou ele surpreso — Vai colocar ele em Karnak?
— Claro. — respondeu ela — Quanto mais aumentar Karnak, melhor. Um obelisco maior do que qualquer obelisco já feito será uma adição bem chamativa.
— Faraós… sempre querendo fazer coisas cada vez maiores do que os antecessores. — comentou Anúbis fazendo a faraó rir — E a expedição para Punt? Acha que vai dar certo? Eles saem amanhã, né?
— Espero que sim. — respondeu ela — São cinco barcos bem grandes e pouco mais de 200 homens. As perdas são muito grandes caso não dê certo. Já foi até Punt?
— Anput adora viajar. — disse Hathor dentro de Hatshepsut apenas para ela — Já foram para lá sim.
— Já sim. É bem mais fácil quando não precisa pegar barcos, cavalos, mulas e afins.
— Sortudo. Como é lá? Dizem que a fauna e a flora são bem diferentes.
— Bastante. — admitiu Anúbis — Tem mais plantas e áreas verdes bem espaçosas com gramas e arbustos com árvores bem diferentes também. Os animais lá… tem leões também por exemplo mas, tem alguns que não tem por aqui, como um que… não sei… lembra um pouco um cavalo mas as pernas são bem longas e finas e o pescoço também é tão longo e tão fino que nem parece possível que o animal consiga ficar de pé já que ele fica tão alto que consegue comer as folhas do alto das árvores.
— Está inventando coisa. — disse Hatshepsut rindo.
— Não estou. Verdade. — defendeu-se Anúbis — E ele ainda é amarelo com manchas marrons e dois chifres pequenos na cabeça.
— De fato, é verdade. — completou Hathor rindo um pouco da descrença da faraó com tal absurdo animal.
Ela olhou para ele por alguns segundos tentando descobrir o quanto de verdade tinha no relato. O deus parecia estar falando sério, mas o que prendeu a atenção de Hatshepsut por mais tempo ali, na análise do rosto dele, foi o pensamento de como ela já acumulava marcas de idade no rosto, seus primeiros cabelos brancos e algumas dores que surgiam às vezes em seus pés, mas ele estava ali, sem parecer ter envelhecido um dia sequer desde quando eles se conheceram no dia em que a jovem Hatshepsut adolescente, chorava a morte do pai.
— Certo, acreditarei em você. Mas eu bem que queria ver esse animal ao vivo, sabe? — disse a faraó com uma voz sonhadora — Os lados ruins de ser da família real. Eu bem queria ir para Punt, ver as maravilhas que se tem por lá… mas uma viagem dessas é demorada, cansativa, perigosa… Não posso ficar tão longe assim de Tebas, do Egito e do trono por tanto tempo e poucos concordariam com essa ideia. O faraó sair da capital, sem ser para guerrear… isso não se faz.
As palavras da faraó, e o suspiro que veio logo depois delas, foram claramente sinceras. Talvez exatamente por isso que, lentamente, uma ideia começou a nascer na mente de Anúbis enquanto ele olhava para os pés submersos na água fresca. Ele então olhou brevemente para as duas serviçais e, ao acompanhar o olhar dele, Hatshepsut prontamente entendeu essa primeira parte do que ele pensava.
— Estamos bem, podem ir. Obrigada. — disse Hatshepsut para as serviçais.
As duas serviçais acenaram brevemente com a cabeça e foram embora levando consigo os grandes leques. Agora sem ninguém ouvindo a conversa deles, a faraó olhou para o amigo com clara curiosidade no olhar.
— Em que está pensando? — questionou ela.
Como resposta, ele simplesmente estendeu a mão para ela, o que deixou ela ainda mais confusa. Hathor, por outro lado, entendeu perfeitamente. Notando a confusão dela, ele resolveu se explicar.
— Ah não… — resmungou Hathor — É por coisas assim e outras que é claro que ele realmente está parado na juventude. Os momentos irresponsáveis e de ignorar as regras.
— Eu te mostro Punt. — disse ele fazendo ela imediatamente ficar surpresa e incrédula — Te levo até lá e antes do sol se pôr, você estará de volta. Nem notarão que saiu.
— É sério? — perguntou ela.
— Sim. — disse Anúbis dando de ombros — Só… Peço para que Hathor não conte para ninguém, especialmente Hórus.
— Ela não parece aprovar tanto a ideia… — alertou Hatshepsut.
— Vamos, Hathor… — pediu Anúbis sabendo que Hathor estaria ouvindo através da faraó — Dificilmente ela vai ter a chance de ir até lá de outra forma e essa expedição vai com certeza ser um dos maiores feito do reinado dela, que já está cheio de feitos. Fica só entre nós três. Que mal tem?
— Se até tem que ficar em segredo… Não é algo tão simples quanto faz parecer. Essa sou eu falando. — disse Hatshepsut.
— É simples. — assegurou Anúbis.
— O esforço é simples. — elaborou Hathor suspirando pesadamente.
— Porque faria isso? — questionou Hatshepsut.
— Porque você é minha amiga. — explicou Anúbis simplesmente.
— Tá… — resmungou Hathor, tocada pela frase — Só entre nós três. E não deixe ninguém vê-la.
— Só entre nós três. E Hathor disse que ninguém pode me ver. — repetiu Hatshepsut pegando na mão dele.
A faraó já estava acostumada a ver Anúbis sumindo do nada. Fazer parte do desaparecimento era uma nova experiência. Era estranho ver a névoa negra envolvendo tudo até ser engolida pela completa escuridão. Não sentia a água que até então tocava os pés, não sentia a pedra fria em que sentava, não sentia nada além da mão dele. E então, tão rapidamente como surgiu, a névoa se dissipou, um chão surgiu sob seus pés e uma paisagem completamente diferente surgiu diante dos olhos de Hatshepsut.
Os olhos de Hatshepsut se arregalaram surpresos e maravilhados. Diante de si, não estava o infinito deserto do Saara, nem as terras negras e férteis das margens do Nilo, mas sim o começo da savana africana. Para onde Hatshepsut olhava, tudo que ela via era a savana. Tudo era plano, com exceção dos morros onde eles estavam. Não muito longe dos morros, havia um lago no meio de uma parte com menos grama e arbustos. Nesse lago, um trio de girafas abaixavam-se para beber água numa cena um tanto tosca devido às suas alturas. Mas ver as girafas foi suficiente para Hatshepsut olhar surpresa por uns segundos e então olhar chocada para Anúbis, que não conseguiu evitar rir brevemente.
— O bicho estranho era real. — disse ela.
— Eu disse que era. — disse ele.
Além da girafa, um grupo de pequenos pássaros com pernas longas e negras, penugem branca no resto do corpo e penas que saltavam da cabeça como uma coroa, também aproveitavam da água cristalina. Um tipo de pássaro que Hatshepsut também nunca tinha visto.
— Vê, ali, no horizonte? — disse Anúbis apontando na direção que dizia — Ali onde parece um monte de cabana com o teto meio redondo?
Hatshepsut olhou para onde ele apontava. Sua tentativa de forçar o olhar brevemente interrompida pela surpresa de ver uma zebra. Admiraria o animal listrado depois, estava curiosa com o que é que havia no horizonte. Não demorou muito para identificar o que ele apontava. Um aglomerado de cabanas de tamanhos diferentes e com uma trilha de fumaça subindo aos céus.
— Sim. — confirmou ela — É uma cidade?
— Ali é uma das cidades que provavelmente seus homens vão chegar em uns dias. — explicou ele.
— Você viu aquele cavalo? — questionou ela apontando para a zebra — Não o com grande pescoço. O listrado! E o pássaro! E essas árvores lindas que fazem tanta sombra! Aqui é lindo!
— Também acho. — confirmou ele — Tem algumas cachoeiras lindas também e muitos outros animais que nunca vi no Egito ou que tem poucos por lá.
— Chegaram a falar com o povo? — perguntou ela.
— Costumamos evitar, então não muito. — admitiu Anúbis — Mas sei que aqui tem muito ouro, mirra e marfim. Sei que já tem o comércio de ouro com os núbios mas…
— É sempre bom ter uma segunda alternativa. — disse Hatshepsut afirmando com a cabeça — Acha que podemos chegar mais perto dos animais? Eles… são calmos?
— Podemos tentar. — disse ele.
No tempo que tinham para passear ali, Anúbis mostrou para Hatshepsut, do mais perto que dava, os animais, as plantas e a paisagem dali. Viram as zebras de longe, as girafas de perto o suficiente para acariciar uma no focinho. Os babuínos, que não eram tão novidade para Hatshepsut, viram de longe comendo frutas suculentas, mas chegaram bem perto de uma cachoeira que, com três níveis, criava lagos que atraía pássaros das mais diversas cores e um guepardo com sede, que também não era tão novidade assim mas era certamente uma visão rara, e que Hatshepsut preferiu ficar longe.
Julgando que já tinha ficado tempo demais longe do palácio, quando o sol ameaçava se por, Hatshepsut deixou-se ser levada de volta para casa com a sensação de que estava saindo de um sonho. Teria que guardar aquela memória dentro de si, afinal não queria abusar do amigo assim. Mas agora, tinha mais certeza ainda do que iria pedir para seus homens trazerem de Punt e também sabia que teria que agradecer Anúbis de algum jeito.
Eles voltaram para o palácio no mesmo lugar que partiram e Anúbis não deixou de notar o toque de tristeza no olhar de Hatshepsut.
— É tão sortudo por poder ir para onde quiser, quando quiser. — disse ela.
— Não é exatamente assim… — disse ele suspirando — Estou quase sempre ocupado e alguns lugares são mais complicados. Não quero causar conflitos com outros deuses. Essa é nossa maior preocupação sempre. Uma guerra entre os deuses só tem problemas.
— Mãe! — exclamou uma voz vinda da entrada da sala de banhos e, quando olharam para lá, viram Neferure se aproximando — Estava te procurando por todo lado.
— Encontrou-me. — respondeu Hatshepsut sorrindo docemente para filha e torcendo para ela não pedir mais detalhes sobre onde estava e tentando, com dificuldade, tirar sua mente das memórias que tinha acabado de criar em Punt.
— Oi, Anúbis! — disse Neferure quando se aproximou dos dois.
— Oi. — respondeu ele.
— Mãe… — falou Neferure olhando para a mãe e estendendo um rolo de papiro para ela — Senenmut disse que achou uma boa pedreira para fazer mais esfinges para colocar na avenida que liga Karnak e o templo de Tebas. Ele estava te procurando também mas teve que sair de novo.
— Certo. Obrigada. — respondeu Hatshepsut.
Sem mais nada para fazer ali, Neferure acenou com a cabeça e virou-se para ir embora, mas não sem antes acenar um alegre tchauzinho para Anúbis, que o correspondeu. Ao lado do deus, a faraó olhou para o rolo de papiro, ainda sem abrir, e seu rosto mostrava que ela estava com a mente longe dali.
— Acho que está na hora de voltar para meus afazeres. — declarou Hatshepsut logo erguendo o olhar para Anúbis — Você também deve estar ocupado, sempre está.
— Pessoas morrem constantemente, então… — disse Anúbis deixando a frase no ar.
— Muito obrigada pelo passeio. — disse Hatshepsut — Vai ser uma memória especial que vou guardar com carinho.
— De nada. — respondeu ele — Vou estar lá no submundo torcendo para a viagem dar certo.
— Obrigada.
Assim como sempre, Anúbis sumiu e voltou para o submundo para cumprir seus deveres como deus. O sol logo se pôs, deixando a escuridão engolir os grandes barcos que boiavam no Nilo aguardando a viagem que começaria no dia seguinte. Contudo, não se chegava em Punt pelo Nilo, se chegava pelo Mar Vermelho, e eles sabiam disso. Com toda a vida no Egito se concentrando no Nilo, incluindo os locais e logísticas de fabricação de barcos, e com a inexistência do Canal de Suez, os egípcios tiveram que ser criativos quando queriam navegar do Nilo para o Mar Vermelho.
Quando o sol nasceu no dia seguinte, a primeira coisa que fizeram foi desmontar os barcos como se fossem feitos de brinquedo. As centenas de homens, escolhidos por Hatshepsut e que guardavam no peito os pedidos feitos por ela naquela mesma manhã, praticamente uma lista de compras, carregavam os pedaços dos barcos que os transportariam como se fossem grandes pedaços de mercadorias. Carregando os barcose mercadorias para troca, eles cruzaram o fragmento de deserto que separava o Nilo do Mar Vermelho, até chegarem na pequena vila portuária de Saww. Lá, eles montaram os barcos novamente, como pedaços de Lego, e começaram sua navegação rumo ao sul, pelo Mar Vermelho.
O trajeto levou vários dias, mas o grupo de fato chegou em Punt. Lá, foram recebidos amigavelmente pelo povo, fizeram comércio, encheram os barcos desmontáveis de mercadorias, animais e plantas. Artistas registraram com os olhos e com o coração as cenas daquele belo lugar e então, sentindo-se como heróis, a grande comitiva voltou para Tebas. No caminho, já na parte onde tinham que carregar tudo por terra, enviaram na frente uma mensagem para Hatshepsut contando sobre seus feitos.
Recebendo tal feliz notícia, Hatshepsut gritou alegre, pulou nos braços de Senenmut e beijou-o longamente. A felicidade era contagiante e uma festa começou por Tebas quando as centenas de homens chegaram até a cidade carregados de ouro, marfim, ébano, incenso, resinas aromáticas, peles de animais, animais vivos, cosméticos, madeiras perfumadas e canela. A parte rica do povo já esperava ansiosa pela chegada das mercadorias ao mercado e as novas oportunidades de comércio que viriam pela frente. Afinal, aquilo não era só uma mera viagem de compras, era a comprovação da possibilidade da criação de uma rota comercial frequente entre Egito e Punt, era a promessa de mais riqueza.
Quase que imediatamente, as obras do Templo de Milhões de Anos de Hatshepsut começaram. Certo dia, ansioso por ver seu projeto nascer, Senenmut foi até o local escolhido, o paredão de pedra que escondia o Vale dos Reis da vista de Tebas. Ali, ainda não havia nada. Apenas pedras, areia, plantas nativas, alguns materiais para começar a construção e as mudas, batalhadoras e persistentes, que foram trazidas de Punt e continuavam vivas. As mudas eram a primeira preocupação de Senenmut, e por isso já havia botado dois homens para cavar os buracos delas.
No planejamento de Senenmut, as duas árvores estrangeiras, quando plantadas ali, marcando assim a primeira vez na história que uma importação de mudas de bioma diferente são forçadamente inseridas em outro com sucesso, fariam parte de um grande jardim que ele imaginava. O jardim teria a forma de um “H”, com uma avenida de esfinges levando o visitante do Nilo até as duas árvores, no centro do “H”, e até uma rampa com escadas nas laterais.
A rampa levaria o visitante para um grande terraço erguido sobre grandes e espessas colunas. Desse terraço, haveria outra rampa igual a anterior que levaria para mais um terraço onde, embaixo, do lado esquerdo seria construída uma capela para Hathor, do lado direito, uma para Anúbis. Sobre o último terraço, entrando cada vez mais na parede de pedra esculpindo o templo do próprio material dela, existiria ainda a capela para Amon-Rá. Ainda, diante de cada coluna, uma estátua de Osíris e em lugares estratégicos, estátuas e esfinges da faraó que havia encomendado a obra.
Nas paredes do último terraço, a viagem à Punt era registrada em detalhes retratando o povo de Punt e a fauna e a flora do lugar, enquanto declarava a grandeza e divindade da faraó Hatshepsut. Com o passar dos anos, a enorme construção foi tomando forma. Era o orgulho tanto de Hatshepsut, quanto de Senenmut. Afinal de contas, era um estilo totalmente diferente de qualquer estilo já visto no Egito e, mesmo assim, era incrivelmente lindo, leve e elegante. Exatamente por isso que, séculos depois, seria considerado uma obra-prima da arquitetura antiga.
— Está ficando… incrível… — disse Hatshepsut numa visita ao templo, ainda incompleto — Não sei nem o que falar.
— Está mais incrível do que eu poderia imaginar. — admitiu Senenmut sem conseguir tirar os olhos do templo — O que é certamente um alívio considerando que aquele obelisco que estava tentando fazer se quebrou antes que conseguíssemos tira-lo da pedreira.
— Sim. — concordou Hatshepsut vendo como Senenmut parecia emocionado — Mas pelo menos conseguimos fazer outro. Mesmo que um pouco menor.
Era o sonho de Senenmut nascendo diante dos olhos dele, um enorme e belo templo para rivalizar em beleza com Karnak. Rivalizar em tamanho seria muito difícil. Mas mesmo de Tebas, lá do palácio, ela conseguia ver o templo dela adornando o paredão de pedra que separava os vivos de Tebas, dos mortos do Vale dos Reis.
— É muito especial para você né? — perguntou ela.
— É um sonho de menino. — admitiu ele — Como eu podia sequer imaginar que chegaria aqui? Sou de uma família de meros plebeus, do interior ainda por cima. E aqui estou fazendo um templo incrível desse tamanho para uma das maiores faraós que o Egito já viu.
— Sei que já tivemos muitas alterações de desenho até chegar aqui mas… — disse Hatshepsut atraindo o olhar de preocupação de Senenmut para si.
— Ah não… — disse Senenmut
— Calma, você vai gostar. — garantiu Hatshepsut — Ainda temos que terminar o último andar, né? Os fundos do último andar estão incompletos… as pinturas também mas, o importante é que o fundo está incompleto.
— Sim. — confirmou o arquiteto — No que está pensando?
— Que tal… — começou ela falando lentamente como se estivesse testando o terreno primeiro — Você aproveitar a montanha ou algo do tipo, cavar mais profundamente e fazer seu túmulo aqui? Na obra de arte que é a realização do seu sonho.
— SÉRIO?! — exclamou o arquiteto, maravilhado, mal acreditando no que ouvia — Eu… Eu não mereço uma tumba tão incrível assim.
— Claro que merece. Você projetou. O templo é para mim, para manter minha memória viva, e para os deuses. — explicou ela — Mas você o projetou, se estressou, tornou-o possível. Merece ter um cantinho para você. E porquê não se for também seu cantinho final?
Senenmut por um tempo nem respondeu, apenas surpreendeu-se com os olhos enchendo-se de lágrimas. Instintivamente, como se por um segundo esquecesse toda a intimidade que os dois tinham, ele se ajoelhou bruscamente no chão, assustando a faraó. O arquiteto havia recebido muitos títulos e regalias desde que Hatshepsut tornou-se faraó, mas aquela era de longe a maior delas e a que mais havia lhe tocado o coração.
— Não faça isso! Vá machucar o joelho! — exclamou ela preocupada enquanto ele se curvava quase tocando os pés dela com as mãos e o rosto.
— Obrigado. — disse um choroso Senenmut.
Ela se ajoelhou diante dele, o que lhe causou uma pequena dor suportável no joelho, que fez questão de esconder, então, tocou-o delicadamente forçando ele a erguer o rosto. Ela acariciou a bochecha dele docemente enquanto olhava a clara felicidade chorosa em seu rosto.
— Sabe que não precisa se curvar assim… — lembrou ela — E você merece uma tumba digna, meu amor.
Senenmut pegou delicadamente o rosto dela entre as mãos e beijou-a lentamente. Por alguns segundos eles se perderam no toque dos lábios e então se separaram e ficaram se fitando, um perdido no olhar do outro. Só foram voltar a si quando, logo atrás de Senenmut, o assistente dele fez uma tosse falsa para atrair a atenção dos dois.
O casal se levantou apressado e apalpou as roupas tirando a areia. Arrumados como se nada tivesse acontecido, Hatshepsut olhou para o assistente de Senenmut.
— Algum problema? — perguntou ela gentilmente.
Tudo que o homem fez foi apontar para onde parecia haver uma comoção, na lateral do primeiro terraço. Vários trabalhadores, de maioria pintores, pareciam preocupados com algo que acontecia em uma das capelas. A maioria, inclusive, estava de joelhos, curvados tão intensamente que as testas tocavam o chão.
— Ah não… — disse Hatshepsut ao notar que aquela reação só podia ter um significado, especialmente considerando que aquela capela era a de Anúbis.
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