A Morte Das Areias do Saara
116 Um Presente
Notas iniciais

Então se agiu de acordo com tudo o que a majestade deste nobre deus havia ordenado,
como era o desejo de Sua Majestade sobre isso,
para que ela possa alcançar vida dada, estabilidade, domínio, como Re para sempre.
Palavras de Amon, senhor dos Tronos das Duas Terras:
'Seja muito bem-vinda a mim em paz, doce filha que está em meu coração,
a rei do Alto e Baixo Egito Maatkare,
que cria belos monumentos para mim,
que purifica o lugar da grande Enéade
que enche meu templo com a lembrança de seu amor.
Você é a rei que tomou posse das Duas Terras, Hatshepsut, grande de sacrifício,
farta de oferta de alimentos.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
Era impossível não sentir o clima de tensão, surpresa e admiração que irradiava de cada construtor e pintor do templo quando Hatshepsut passava por eles. Aqueles mais perto de onde estava sendo construída a capela de Anúbis tinham largado todos os instrumentos, pincéis e tintas e se curvaram intensamente. Assim como ela imaginava, lá na capela estava aquele para o qual ela era dedicada.
A pequena capela era principalmente composta por três paredes, com pinturas ainda incompletas, e três linhas de colunas. Duas delas, internas a capela, seguravam o pesado teto de pedra, a terceira, além de segurar o teto, delimitava os limites da capela atraindo o olhar de quem estivesse dentro para a imensidão do céu azul e as plantações intensamente verdes nas margens do Nilo que inundavam o horizonte com cores que contrastavam lindamente com o deserto.
Em cada uma das paredes laterais, havia um nicho retangular, ainda vazio, onde com certeza seriam colocadas uma estátua de Anúbis em cada um. Na última parede, havia um portal que levava para uma outra sala numa parte mais profunda do templo de Hatshepsut. Todas as paredes estavam cobertas com uma fina camada de gesso, sobre a qual os pintores desenharam o que seria pintado, marcando o gesso bem levemente, para que ali ficasse quando tudo secasse. Mesmo com pouco seco, os desenhos estavam todos feitos e por isso era possível ver vários desenhos diferentes de Anúbis, com cabeça de chacal, que adoravam as paredes, bem grandes, compartilhando o espaço com textos sagrados e demais desenhos que aumentavam a beleza do lugar.
Uma das poucas coisas que já havia secado o suficiente para receber as tintas, era o teto, pintado imitando um céu estrelado, e a porta de entrada para o cômodo seguinte que recebia textos sagrados e registrados com belas cores e protegidos por uma linha colorida que emoldurava os dizeres e a porta numa sequência de retângulos azuis, vermelhos, verdes e amarelos com uma linha branca intercalando cada cor. No alto da porta, um par de asas azuis e brancas estavam pela metade. Claramente o trabalho atual do pintor, que agora estava prostrado, curvado inteiramente até o chão, ao lado da porta com seu kit de pintura nas mãos e sem ousar olhar para o rapaz branco de cabelos negros na frente de si.
Hatshepsut soltou um suspiro com um sorriso ao ver o amigo e ao mesmo tempo sentiu dó pelo pobre pintor que provavelmente iria querer sair dali, se é que já não queria, mas devia estar morrendo de medo de sugerir a ideia. Era uma cena contraditória, o pintor estava suando frio com medo de talvez até ser morto por ter pintado algo errado, mas estava tão assustado, que nem tinha coragem de subir o olhar e ver que o deus parecia maravilhado mesmo considerando que a capela estava incompleta.
— Sabia que era exagerado de minha parte torcer para você só descobrir da capela quando tudo estivesse pronto. — disse Hatshepsut.
— Até que chegou bem longe. — respondeu Anúbis abaixando o olhar para o pobre amedrontado pintor — Ankhu, certo?
— S-Sim… e-esse é meu nome, grande Anúbis! — gaguejou o pintor.
— Está tudo bem. Está fazendo um belo trabalho. — garantiu Anúbis — Pode tranquilizar o coração e enchê-lo de orgulho. Estou gostando do resultado. Obrigado pela dedicação.
Por alguns segundos, o pintor nada disse. Mas era fácil ver que ele começou a tremer um pouco e logo uma fungada provando que ele havia começado a chorar.
— O-Obrigado… — disse o pintor choroso e emocionado.
— Descanse um pouco, preciso falar com sua faraó. — disse Anúbis.
O pintor afirmou com a cabeça e começou a se levantar para ir embora dali. Sempre com a cabeça baixa, o pintor se afastou resmungando vários “obrigado”s. Ele não havia ousado olhar novamente para Anúbis desde que o reconheceu no momento em que Anúbis apareceu no meio de seu dia de trabalho. Mas, sentindo que aquela seria a última chance que teria de ter contato com o deus antes de chegar ao próprio julgamento final, o pintor ousou uma última olhada. Assim como tinha percebido antes e sentiu a necessidade de confirmar, o deus parecia ter aproximadamente a mesma idade de seu irmão mais novo.
— Pra quem tem dificuldade em socializar, até que lidou bem com isso… — disse Hatshepsut quando o pintor já estava longe o suficiente.
— Isso é diferente. — respondeu ele finalmente olhando para a amiga — E também, depois de tanto tempo, acaba-se aprendendo uma coisa ou outra sobre como lidar com os mortais. Às vezes precisa intimidar e dar medo… como muitas vezes acontece no submundo e aí tenho que usar a cabeça de chacal… outras vezes os mortais só querem sentir e saber que você sabe que eles existem, os escuta e reconhece o que eles fazem de bom.
— Também foi ele que me dedurou na construção da sua capela aqui? — perguntou a faraó.
— Foi. — respondeu Anúbis fazendo Hatshepsut rir — Com uma construção tão grande e cheia de detalhes, deu sorte que eu até demorei para descobrir. Mas foi impossível depois que ouvi várias variações de “Oh, Anúbis, ofereço a ti essas artes, espero que minhas habilidades sejam suficientes para criar uma capela de vosso agrado.”.
— E está de vosso agrado? — perguntou ela.
— Está ficando lindo. — respondeu ele erguendo os olhos para o teto, completo, pintado como uma noite estrelada — E a vista que se tem daqui… é lindo. Pena que não dá para ver o Nilo. Mas talvez nas inundações do Nilo dê? Mas... achei que o templo ia ser só para Amon-Rá e Hathor.
— Até parece que eu não ia usar essa chance para fazer um agradecimento para um grande amigo meu que tanto me ajudou e até me levou até Punt. — disse Hatshepsut.
— Contrariando regras, não se esqueça desse detalhe. — lembrou Hathor.
— Ah, sim, e contrariando regras. — repetiu Hatshepsut — Não sou uma deusa, tenho limites no que posso fazer. Mas espero que isso seja suficiente.
— É sim. Obrigado. — respondeu Anúbis numa calma, contente e emotiva felicidade enquanto suspirava e olhava novamente para os detalhes de sua capela em construção.
Hatshepsut sorriu satisfeita ao ver que ele realmente parecia ter gostado mais do que suas palavras diziam. Afinal, quantas vezes ele tinha ganhado uma construção, que ao menos o mencionava, que não fosse guardada pela escuridão claustrofóbica de uma tumba abafada?
Anúbis de fato estava agradecido e tocado pela pequena capela inacabada, mas também estava pensando em como sentiria falta de Hatshepsut quando ele morresse. Já tendo passado dos 40 anos, Hatshepsut já estava acima da expectativa de vida egípcia da época. Mas certamente ganhava uns anos a mais por ter todo o luxo e conforto típicos de um faraó. E ele sabia muito bem quantos anos faltavam para ela. Foi exatamente que, pensando nisso, Anúbis de repente olhou para Hatshepsut e perguntou:
— Você está bem? Tipo, fisicamente.
— Estou… — respondeu Hatshepsut estranhando um pouco a pergunta — Assim, a idade está começando a cobrar o preço. Não sei se entende. E nossa, malditas escadas infinitas para subir até o topo do templo… Mas nada demais.
A faraó olhou longamente para o amigo tentando ler sua expressão, mas escondia qualquer informação muito bem, ao menos quanto a isso.
— Imagino não ser sábio questionar quantos anos me restam, sejam eles muito ou poucos, certo? — perguntou ela — Você disse isso uma vez.
— É melhor. — concordou ele — Não é uma informação que é muito saudável se ter com tanta certeza.
— É bem difícil lidar com a curiosidade. — admitiu Hatshepsut.
— Também é difícil para mim lidar com a informação. — admitiu Anúbis suspirando longamente.
Pensativa, Hatshepsut suspirou enquanto tentava controlar sua curiosidade. Ela não sabia quantos anos lhe restavam, podia ser 5, 10 ou quem sabe até 20. Esperar mais que isso já seria sorte demais. Sabia bem que alguns faraós tinham morrido bem idosos. Queria ser uma dessas sortudas. Especialmente depois que, com alguns meses mais investidos na finalização do templo, ele foi completado e inaugurado com uma grande festa, como era digna para a inauguração de uma obra-prima da arquitetura antiga. O templo feito para que Hatshepsut fosse lembrava por toda a eternidade estava pronto.
Os deuses que foram lembrados no templo também participaram da festa mas, para Anúbis, comemorar a conclusão do templo de milhões de anos não envolvia festas barulhentas, música alta, conversas e vinho abundante. Ele apenas sentou-se com Anput no chão de pedra da própria capela, com a noite ocupando tudo. Tranquilamente eles conversaram e, com ajuda de chamas que traziam um pouco mais de luz, eles admiraram a riqueza e os detalhes das pinturas que preenchiam as paredes.
O casal sentou-se aos pés de uma das colunas mais externas, sentindo a brisa gelada que acalmava o coração. Ficaram lá a noite inteira, conversando, rindo, jogando ou simplesmente aproveitando a companhia um do outro tranquilamente. Até que o motivo de terem esperado tanto começou, o nascer do sol. Era um espetáculo que era perfeitamente visto da entrada da capela de Anúbis. Em séculos no futuro, dezenas de turistas acordariam bem cedo todos os dias para ver aquele mesmo espetáculo do alto em balões de ar quente.
Os ainda inexistentes balões de ar quente não eram necessários para admirar a beleza que a natureza trazia quando combinada com a engenhosidade humana. O sol aparecia no horizonte, colorindo o seu e iluminando as plantações verdes das margens do Nilo. Ele então eventualmente batia no templo e no deserto pintando tudo de um belo tom de dourado e criando uma bela combinação de luz e sombra que fazia tudo parecer ser feito de ouro, inclusive o próprio sol. Era uma visão muito bela, digna de um quadro. Era como uma comprovação de que tudo estava perfeito.
Mas nada dura para sempre e as coisas não são perfeitas. Semanas depois da inauguração do templo de milhões de anos de Hatshepsut, a morte assolou o palácio. Contudo, o falecido não era alguém que se esperava que a morte estivesse perto.
O luto e tristeza inundavam o palácio como uma névoa sufocante e desconfortável. O centro de tudo era um singelo quarto com o interior com poucas pessoas, mas o corredor e a porta de entrada lotados de pessoas que não se viam no direito de entrar.
Serviçais e nobres choravam ou ficavam num silêncio cabisbaixo no corredor, o jovem Tutmosis III, ainda detentor do título de faraó apesar de seus afazeres serem mais equivalentes a de um general, estava ao lado da mãe apoiado numa das paredes, no interior do quarto.
Dentro do quarto, chorando desesperadamente ajoelhada ao lado da cama, estava Hatshepsut. A faraó soluçava, Senenmut tentava consolar a faraó com gestos e estar lá por ela, mas não sabia o que dizer. Afinal, provavelmente não devia existir coisa certa a se dizer para uma mãe que acabou de perder a única filha. Hatshepsut sentia como se tivessem arrancado o coração dela do peito do jeito mais brutal possível e a deixado com o peito vazio, oco e repleto do mais completo e desesperador nada.
Hatshepsut segurava firme a mão de Neferure, deitada na cama, e, mesmo com incontáveis lágrimas no olhar, a faraó fitava o rosto sem vida da filha. Neferure podia muito bem estar dormindo, mas a falta de reação dela com o caos ao seu redor era prova do contrário.
—M-Minha garotinha… Porquê a m-minha Neferure? — questionava a faraó retoricamente.
Hathor não tinha palavras para falar que pudessem ajudar. Nada poderia ajudar. Então ela ficou quieta, deixando a faraó lidar com a dor tentando lhe dar alguma privacidade. Hathor não conhecia Neferure tão bem quanto Anúbis, mas também era uma mãe e tinha se afeiçoado a Neferure no tempo que passou possuindo a mãe. Então, apesar de tentar se mostrar forte enquanto focava mais em ajudar Hatshepsut, Hathor também estava de luto.
A dor também assolava o coração de Senenmut, mas ele tentava ser forte por Hatshepsut. Algo muito difícil, já que sentia os olhos lacrimejantes. O arquiteto então fungou uma vez, limpou os olhos, respirou fundo e decidiu ao menos se livrar do grupo de pessoas que não eram da família, e ele se considerava da família. Afinal, o peito doía como se tivesse também perdido uma filha. Senenmut se ergueu e foi até a porta e, depois de respirar fundo, falou para os curiosos:
— Poderiam nos dar um tempo? Por favor. — pediu Senenmut com os olhos vermelhos.
Tutmósis III apenas acompanhou com o olhar o grande grupo de curiosos apressadamente ir embora deixando o cômodo apenas para aqueles realmente próximos da falecida princesa. Seja por sangue, seja por coração. Senenmut respirou fundo, tentando arrumar forças, e passou a mão pelo rosto lentamente antes de olhar novamente para a triste cena que acontecia entre mãe e filha. Soluçante e deixando as lágrimas rolarem pelo seu rosto, Hatshepsut fitava o rosto mortalmente pálido da filha e o acariciava levemente.
Neferure já era uma mulher, mas na mente de Hatshepsut viam as noites mal dormidas de quando ela era uma pequena recém-nascida pequena demais, lembrava dos primeiros passos, das risadas infantis banguelas ou com dentes faltando. Cenas completas viam a mente também, como da vez quando, já maior, Neferure corria pelos jardins e tropeçou e ralou o joelho ou quando orgulhosamente recitou um poema popular mostrando que havia aprendido a ler.
— Tão cedo… não é justo… — reclamava Hatshepsut entre as lágrimas.
— Morte raramente é. — disse Senenmut passando o braço pelas costas da faraó.
— E ela vai ser bem cuidada do outro lado, tenho certeza. — disse Hathor.
Sem dar qualquer sinal de que tinha ouvido as palavras do amado, Hatshepsut se ergueu um pouco e depositou um leve beijo na testa da filha sentindo, ao se esticar, uma pontada no joelho que reclamou de tanto tempo segurando o peso do corpo apoiado no chão duro. Ela segurou uma mão da filha firmemente e apoiou a testa contra a têmpora de Neferure, deixando também suas lágrimas escorrerem e pingarem na cama.
— Oh Anúbis… — sussurrou Hatshepsut — Neferure começou a jornada para seu reino. Seu espírito é corajoso. Sua alma é honrosa. Saiba que ela foi amada por muitos, e será lembrada por todos. Peço para que ela esteja sob sua proteção por toda a eternidade… e que quebre quaisquer regras que façam você não estar aqui e venha, como um amigo. Por favor.
Não demorou mais do que alguns segundos para Anúbis e Anput aparecerem ali, causando uma leve surpresa para Iset e Tutmósis III que, encostados silenciosamente na parede do quarto, ainda não haviam tido tanto contato com os deuses.
Anúbis e Anput não tinham ido até o palácio antes pois, com tantos séculos como deuses, já conseguiam imaginar que dificilmente deuses tão ligados com a morte eram visitas confortáveis para uma família que ainda estava nas primeiras horas de luto. Assim, apesar da dor no coração pela morte de Neferure, uma pessoa que havia visto crescer e com quem havia jogado várias partidas de vários jogos na tentativa de derrotarem a mãe dela em algum jogo, Anúbis não havia ido ainda prestar luto para Neferure.
A faraó ergueu os olhos mareados ao notar a chegada dos dois e apesar do joelho relutante devido provavelmente ao tanto de tempo que ela passou ajoelhada, ela se ergueu de uma vez e começou a andar determinada para o casal.
— VOCÊ DEVIA TER ME DITO! — esbravejou Hatshepsut apontando para Anúbis — É A NEFERURE! VOCÊ VIU ELA CRESCER! BRINCOU COM ELA! DEVIA TER DITO QUE A HORA DELA ESTAVA PERTO!
— Isso não parece “vir como um amigo”... — resmungou Anúbis.
— Hatshepsut… — disse Anput gentilmente tentando interromper o que viria a seguir — Nós também fomos pegos de surpresa…
— ELA É JOVEM! NÃO MERECIA ISSO! TRAGA ELA DE VOLTA! — gritou Hatshepsut ignorando Anput e encarando Anúbis com os 1,53m de altura dela, como se Anúbis não fosse ainda mais 30 centímetros maior que ela.
— Não peça isso! — implorou Hathor.
— Não posso. — respondeu Anúbis calmamente.
— TRAGA ELA DE VOLTA! — repetiu Hatshepsut erguendo a mão pronta para dar um tapa no rosto de Anúbis.
Chocado e surpreso com a reação dela, Anúbis segurou o antebraço dela sem grandes dificuldades. Ver Hatshepsut com o rosto marcado pelas lágrimas daquele jeito doeu muito nele, mas trazer os mortos de volta à vida era uma regra que ele não aceitava quebrar.
— Eu não posso. — repetiu ele novamente com a mesma calma.
A força sumiu de Hatshepsut de todas as formas. Ela abaixou a cabeça e começou a se ajoelhar lentamente em completa tristeza e luto ali mesmo, com Anúbis ainda segurando o antebraço dela. Ainda bem que ele estava segurando ainda, pois os joelhos dela falharam no meio do caminho e ela quase caiu com tudo com os joelhos no chão, mas ele conseguiu segurar ela meio desajeitadamente e pousá-la de joelhos no chão.
Era chocante ver a poderosa faraó tão profundamente e emocionalmente destroçada. Lá, largada no chão chorando. Anúbis suspirou pesadamente ajoelhando-se diante dela enquanto Senenmut se aproximava tentando ajudar.
— Também dói em mim, embora com certeza não tanto quanto dói em você, mas desfazer a morte é uma das piores coisas que se pode fazer. — disse Anúbis lentamente torcendo para que ela estivesse ouvindo — Não só para Ma’at, mas ainda tem chances de ser terrivelmente desconfortável para Neferure.
— É cruel, mas é a ordem da vida. — disse Anput tentando ajudar e se aproximando e ajoelhando-se junto dos dois — E ela… sempre foi uma boa garota. Gentil, inteligente, alegre, bem parecida com a mãe. As chances de ela estar no Aaru em alguns meses são muito altas.
— Lá é lindo. — acrescentou Anúbis.
Eles deram para ela alguns segundos de silêncio e então, soluçante e chorosa, Hatshepsut ergueu a cabeça e olhou para os dois enquanto digeria todas as palavras ditas desde quando o casal chegou.
— Você disse que também foram pegos de surpresa… — disse a faraó olhando para Anput — Anúbis não sabe quando todos morreremos?
— Sim e não. — respondeu Anúbis acabando por atrair o olhar da faraó para si — Eu só consigo sentir uma estimativa de vida que depende muito da saúde e do estilo de vida levado. Meio que como eu soubesse quando provavelmente a pessoa morrerá de velhice… ou doença… maldições de longo prazo também, aliás. Mas acidentes e eventos inesperados, como aconteceu com a Neferure, que levam a morte imediata ou quase imediata… Isso não consigo prever. Desculpe.
Hatshepsut ficou cabisbaixa novamente e afirmou brevemente com a cabeça. Todos olhavam para ela, preocupados. Depois de um tenso silêncio, ela suspirou, agarrou a mão de Senenmut e se ergueu apesar dos protestos das juntas. De pé, a faraó se arrastou novamente para a cama onde o corpo inerte de Neferure ainda estava deitado. A mãe se sentou ao lado da filha, admirando o belo rosto agora desprovido da vida que trazia brilho no olhar e carinho no sorriso, e num choro mais contido, a faraó recomeçou a reviver as memórias que guardava no buraco negro onde um dia esteve seu coração recém-massacrado.
Por horas a fio, deixando o dia virar noite, Hatshepsut ficou ao lado da filha falecida. Pouco notou as despedidas que os outros deram para a princesa. Do pouco que registrou, guardou a imagem da lágrima no rosto de Senenmut que escorreu para o rosto da filha quando ele beijou-lhe a testa e sussurrou:
— Obrigado por deixar eu ser seu pai.. da nossa maneira…
Anúbis não sabia bem como reagir, não dava para fingir que não iria ver a princesa mais tarde no salão do julgamento, onde ela poderia ouvir melhor qualquer mensagem que ele pudesse passar. Acabou preferindo por palavras silenciosas guardadas apenas para si, ditas para ninguém, apenas pensadas de coração enquanto fitava a princesa.
— Espero que não se perca no caminho do submundo… — pensou Anúbis — Odiaria não conseguir me despedir direito de você.
O momento todo foi interrompido por duas tosses falsas vindas de um homem que havia acabado de chegar junto com um segundo. O primeiro, era um dos conselheiros de Hatshepsut. Até então Neferure era praticamente o braço direito da mãe então, com a oportunidade subitamente surgindo, o homem havia sido rápido em seu objetivo de mostrar-se útil para a faraó. O segundo homem, era um embalsamador, um dos sumo-sacerdotes de Anúbis, que prontamente notou o deus ali e se curvou.
— Minha faraó. — disse o primeiro homem sem saber se falava com a faraó ou se curvava para o deus também e acabava por fazer metade dos dois — Trouxe o embalsamador. Quanto antes começarmos o processo de mumificação da princesa, melhor.
Hatshepsut soltou um soluço, mas respirou fundo e passou a mão pelo rosto tentando se recompor. Quando ela se virou para o homem, ainda estava com expressão de choro, mas era louvável ver o quanto ela estava tentando ser forte e mostrar que ainda era a faraó poderosa que conheciam.
— Obrigada. Podem entrar. — disse a faraó.
Os dois homens fizeram um sinal para alguém no corredor e imediatamente mais sacerdotes, de cargos menores, surgiram para ajudar o processo de tirar o corpo da princesa dali e levá-lo para a mumificação. Hatshepsut observou todo o processo como se aquele fosse o último adeus para Neferure, ou ao menos seria com a princesa tendo a aparência com a qual estava acostumada.
Depois que o corpo da princesa foi embora, ninguém ousou dizer mais nada. Até respirar alto demais parecia errado. Era fácil notar que o autocontrole que Hatshepsut estava mostrando agora, portando-se como a faraó que era, estava a um fio de quebrar. Com passos lentos e um olhar baixo, ela foi na direção de Anúbis e soltou um pesado suspiro.
— Me pareceu cruel demais pedir para você fazer a mumificação dela. — justificou Hatshepsut — Afinal, viu-a crescer e brincou com ela.
— Mumificou Osíris e ele me criou. — respondeu Anúbis.
— Não é só por ter conseguido passar por uma experiência ruim e potencialmente traumatizante que seja justificado eu submetê-lo a outra. — disse Hatshepsut — Mas, como mãe, preciso pedir para, por favor, por favor, garantir que eles estão tratando bem minha pequena Neferure.
— Claro. — respondeu Anúbis olhando para Anput que prontamente afirmou com a cabeça.
— Podemos nos revezar. — acrescentou Anput.
— Obrigada. — disse Hatshepsut com o rosto tremendo provando que logo começaria novamente a chorar.
Arrastando os pés, a faraó voltou para a cama da princesa, agora vazia, sentando-se nela novamente. Ela então pegou o delicado lençol de linho e cheirou-o, sentindo o cheiro de Neferure que lhe trazia tantas lembranças que enchiam-lhe os olhos de lágrimas. Senenmut sentou-se ao lado dela, passou o braço ao redor dela abraçando-a bem apertado e beijou a faraó no topo da cabeça, deixando a própria força sucumbir para o luto. Seja lá quem olhasse, veria ali um casal que acabara de perder a única filha e esse buraco criado no peito deles seria eterno.
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