A Morte Das Areias do Saara

49 Em território estrangeiro


Notas iniciais
desculpa a demora. foi um capítulo bem difícil de ser escrito ;~; mas finalmente consegui o/ divirtam-se :) ps: a música tocada (ou ao menos a usada de inspiração) está com o link no final nas notas finais.

Então fui lançado em uma ilha por uma onda do mar.

Passei três dias sozinho,

meu coração como meu único companheiro.

Descansando no abrigo de uma árvore,

abracei a sombra.

~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”

A única coisa que se ouvia era o doce e pacífico, mas às vezes aflito, murmurinho das preces dos fiéis que ressoavam pelas paredes e pilastras brancas e ricamente desenhadas do templo de Hathor em Mênfis. O templo, quase no centro da grande cidade, havia crescido com o passar das décadas e era um dos mais populares da capital egípcia apesar de não ter tanta gente ali naquele momento, afinal, o ponto onde o sol estava anunciava que logo a noite cobriria todo o Saara.

Andando pela parte mais interna do templo, onde apenas os sacerdotes podiam entrar, estava Hathor. Andando à passos elegantes, a deusa tocou delicadamente a ponta de dois de seus dedos sobre um incenso que estava apagado e magicamente acendeu-o para que o doce cheiro do incenso Kyphi inundasse o templo. Além de usado à noite nos templos, Kyphi era o incenso mais comum do Egito mesmo competindo com o Ihmut e a mirra, ambos importados de Punt. Isso porque também era altamente usado para fins medicinais.

— O bebê de Hetephernebti? — perguntou Hathor olhando para Anput que estava logo atrás dela com um olhar preocupado.

— Sim. — disse Anput — Eles querem tanto um bebê.

— Sei disso. Ela faz suas preces várias vezes diariamente. — disse Hathor com um pesado suspiro — Mas não posso simplesmente realizar o pedido de todos ou fazer com que todos os bebês nasçam saudáveis. Não devemos interferir tanto, sabe disso. Os humanos não podem ficar acomodados ou mal acostumados.

— Mas eles já perderam tantos bebês… — implorou Anput.

— Sei disso. — disse Hathor abaixando o olhar com uma expressão de tristeza — Não foram situações muito simples também. Lembro-me de que em uma delas o bebê estava mal formado.

— E o bebê de agora? — perguntou Anput preocupada e horrorizada pela informação.

— O bebê de agora está saudável. — disse Hathor — Mesmo que eu participe do parto, não será um parto fácil. Hetephernebti já perdeu muitos bebês, já fiz minha parte em permitir que ela tenha ficado grávida dessa garotinha. Eles com certeza tentaram bastante.

— Garotinha…? É uma menina então? — perguntou Anput já maravilhada com a ideia e imaginando a fofura da menina.

— Sim. — respondeu Hathor soltando uma leve risada diante da empolgação de Anput com a informação — Ajudarei em seu nascimento, para que consiga vir ao mundo de forma saudável. Mas Hetephernebti não engravidará mais. Isso é certo. Se ela passar por uma outra gravidez, será para Anúbis e Osíris que Djoser terá que orar. Tanto pela esposa, quanto pelo filho. E, por favor, não mencione o resultado dessa conversa com nenhum mortal. Não quero sujar meu nome caso não consiga cumprir minhas falas.

Com pesar, Anput recebeu aquela informação e respirou profundamente enquanto pensava em quão frágil e passageira era a vida dos mortais. Nascer, envelhecer, morrer. Um ciclo que não deveria ser quebrado mesmo pelo mais forte e influente dos deuses.

Depois de um breve processo de aceitação e reflexão da mortalidade humana, Anput perceu outro detalhe importante quanto a gravidez de Hetephernebti.

— Espera… se é uma menina… — disse Anput — Então… o próximo Faraó…

— Sim. — disse Hathor já entendendo onde Anput queria chegar — Quando Djoser morrer, é provável que o posto de Faraó vá para seu irmão mais novo, Sekhemkhet. Se Sekhemkhet ainda estiver vivo até lá. Não acho que Djoser vá desposar outra mulher caso morra depois de Hetephernebti. Também não acho que procurará uma segunda esposa ou uma concubina para poder gerar um herdeiro. Ele parece gostar profundamente de Hetephernebti e apenas de Hetephernebti. Assim, quem será o Faraó depois de Djoser é uma grande questão no momento. E depois disso também, pois Sekhemkhet também não tem filhos ainda. Nem casado é inclusive.

Enquanto Anput suspirava pensando sobre a complicada situação e achando muito injusto uma mulher não poder ter o posto de Faraó a não ser que seja para proteger a linhagem da família enquanto o filho não tem idade para governar, passos se aproximaram do cômodo onde as duas deusas estavam. Podia muito bem ser um sacerdote qualquer, por isso Anput não prestou muita atenção. Contudo, o mesmo não podia ser dito sobre Hathor que virou calmamente o rosto na direção da porta que revelou não um de seus sacerdotes, mas Hórus.

— Chegou mais cedo do que eu imaginava… — disse Hathor.

A fala atraiu a atenção de Anput que finalmente levantou os olhos do chão para encarar Hórus com estranheza. O mesmo olhar cruzou o rosto de Hórus quando os dois deuses se encaravam.

— O que está fazendo aqui? — perguntou Hórus confuso e talvez até um pouco constrangido.

— Tentando garantir que o bebê de Hetephernebti nasça. — justificou Anput — E você?

Desviando o olhar e trocando o peso do corpo de um pé para outro, Hórus ponderava se deveria responder a pergunta de Anput ou não. Acabou resolvendo por a evitar da forma mais elegante que conseguiu arranjar.

— Coisas… — respondeu ele — Não deveria estar no barco que segue para a Suméria?

— Anúbis e Seshat estão lá. — justificou Anput — Já vou voltar. Não se preocupe.

Assim, notando que seja lá o que Hórus queria falar com Hathor, ele provavelmente não queria que ela ouvisse, Anput não enrolou muito mais achou melhor deixar Mênfis para trás mais uma vez simplesmente desaparecendo em névoa negra e reaparecendo no barco.

Com o cair da noite, o movimento do barco ia diminuindo conforme os marujos começavam um a um a descansar. Os uma dúzia de remadores começavam a descansar os remos que, felizmente, não haviam usado tanto pois a enorme vela, quase maior do que todo o barco, havia sido incrivelmente útil até então. Os remadores se espreguiçavam ou se largavam, cansados, sobre o piso de madeira. Outros homens também se preparavam para descansar. Eles, junto com Imhotep, ficavam na extremidade traseira ou frontal do barco coordenado a direção do barco e o ritmo das remadas.

Os homens se movimentavam pelo barco com liberdade só que, se sentindo um tanto intimidados, eles evitavam o pequeno pedaço do barco onde Anúbis se sentava preguiçosamente com as pernas para o lado de fora do barco simplesmente vendo o movimento das ondas. Sentada atrás dele, Seshat se debruçava sobre o papiro onde, além de registrar qualquer coisa importante que acontecia durante a viagem, também se divertia desenhando os padrões das estrelas no céu com uma pequena chama flutuando magicamente ao lado para lhe dar mais luz.

— Então, como vai a viagem? — perguntou Anput com um sorriso tranquilo se sentando ao lado de Seshat.

— Interessante. — disse Seshat — Consegui fazer um breve desenho da costa. Nada muito brilhante ou complicado, mas bom o suficiente. E agora estou me divertindo com as estrelas. Não são tão diferentes ainda em comparação com as que se dá pra ver da terra, mas é melhor do que ficar sem fazer nada.

— Entediante. — reclamou Anúbis com um suspiro.

— Entediante? — repetiu Anput com uma leve risada — Por que?

— Porque demora muito e não tem nada para fazer. — disse ele — Se fôssemos sozinhos já teríamos ido, resolvido o que tínhamos que resolver e voltado. Mas assim… levamos o resto do dia inteiro só para sair do Nilo.

A conversa dos deuses começou a ter uma música de fundo quando um dos marujos tirou uma flauta de suas coisas e começou a relaxar o resto dos ocupantes do barco tocando uma música tradicional em sua flauta. Os três pararam de conversar um pouco para ouvir a flauta por alguns minutos, assim como parte dos marujos que também paravam suas conversas para apreciar algo diferente do que se tinha naquela longa viagem da qual torciam para voltar vivos, pois encarar as ondas do Mar Mediterrâneo ainda não era nada fácil.

— Aliás — disse Anput eventualmente — Sabem o que Hórus pode estar querendo falar com Hathor?

— Hórus? — perguntou Seshat — Eu não sei de nada.

— Ele tem que resolver as mais diversas coisas com vários deuses. Pode ser qualquer coisa. — disse Anúbis dando de ombros.

— Eu não sei. Ele me pareceu meio constrangido por ter me visto lá. — ponderou Anput.

— Mas então… conseguiu interceder pelo bebê de da rainha Hetephernebti? — perguntou Seshat.

— Consegui! — comemorou Anput com um sorriso que se refletiu no rosto de Seshat — Ela até me contou que era uma menina o bebê.

Anput e Seshat comemoraram a informação sem se preocupar com ouvidos curiosos. Afinal, embora conseguissem ouvir qualquer barulho feito pelos mortais que estavam ao seu redor, os três deuses haviam se dado ao luxo de criar uma pequena barreira mágica de som que impedia que qualquer informação que eles falassem fosse ouvida por outros. Não queriam arriscar deixar os humanos saberem algo que eles não deviam.

—Seshat, — disse Anúbis — tem algum motivo porquê Thoth não quis vir no seu lugar? Ele disse estar ocupado e tudo mais, mas não é do feitio dele recusar uma oportunidade de visitar um povo com conhecimentos diferentes. Quer estivesse ocupado demais ou não.

—Você também achou estranho? — disse Seshat em sussurros apesar de não ter muito motivo pelo qual abaixar a voz — Thoth falou-me que Hórus fez a mesma pergunta. Segundo Thoth mesmo me disse, ele de fato está bem ocupado com a Casa da Vida e todos os serviços de escriba real. Mas, na questão de estudos, ele está com os focos voltados para outros povos que não são os Sumérios.

— Outros? — perguntou Anput surpresa e curiosa — Quais?

— Ele deixou de lado os povos ao sul e está se concentrado com os ao norte agora. — disse Seshat.

— Norte? — questionou Anúbis — Mas ao norte tem só…

— Sim. Água. — concordou Seshat olhando para o norte pensativa onde nada se via além da imensidão azul do Mar Mediterrâneo — Diz Thoth que tem ilhas bem mais ao norte e que elas já são habitadas à uns anos, mas agora as pequenas vilas estão começando a ficar mais interessantes. Os mortais que lá moram devem conseguir logo montar uma civilização ou um reino. Algumas ilhas estão mais interessante do que outras nesse quesito segundo ele.

Com os três deuses pensando em como talvez logo teriam novos vizinhos com os quais lidar, a viagem seguiu seu curso enquanto os três tentavam encontrar coisas para fazer, pois mais de um dia o barco levou para chegar ao destino. O lado bom, era que era muito fácil para os deuses ali presentes desaparecerem do barco e irem para qualquer outro lugar resolver seus assuntos ou simplesmente matar o tédio. A única que não fazia isso era Seshat, pelo simples prazer em tirar notas e observar o como se comportavam aquelas criaturas de vida tão passageira à seus olhos.

Eventualmente, a pequena cidade de Kebny entrou no horizonte. Uma cidade que, em séculos vindouros, seria conhecida como Biblos. Um dia, ela faria parte do Líbano, mas agora, ela fazia parte da Fenícia. Cansados, os marujos preparavam o barco para aportar no rico e movimentado porto da cidade que respirava comércio. Comércio esse que faria-a crescer ainda mais logo logo. Era fácil avistar os navios que provavelmente tinham o Egito como destino, pois eles estavam abarrotados de madeira para levar até a jóia do Nilo. Afinal, madeira era um produto raro para uma região desértica.

Embora fosse fácil ver a diferença entre os egípcios que chegavam e os fenícios que seguiam sua vida em detalhes como roupa, aparência e idioma falado, a diferença se tornava ainda maior quando se notava as duas figuras que esperavam no porto. Os dois homens conseguiam ser intimidadores no nível de fazer todos ao redor evitarem chegar muito perto deles. Apesar de igualmente intimidadores, um deles parecia ser mais civilizado que o outro.

O primeiro homem era magro, alto, tinha pele levemente bronzeada, cabelo castanho cacheado na altura das orelhas e uma longa barba que chegava até a cintura, onde também começava uma longa saia branca, vermelha e amarela de lã. Seus olhos dourados pareciam esconder uma calma e inteligência enquanto ele observava pacientemente os egípcios descerem do barco.

O outro homem, por outro lado, tinha uma aparência quase selvagem que era intensificada pelas cicatrizes que adornavam seu peitoral musculoso exposto. Seu cabelo, negro, cacheado e desgrenhado, combinava perfeitamente com sua barba que, embora volumosa, nem de longe era tão longa quando a barba do primeiro. Seus cabelos faziam o mínimo do serviço para esconderem em seu volume um par de chifres pontudos e uma orelha levemente pontuda. Apesar dos detalhes exóticos de sua aparência, ninguém ao redor parecia notar nada de diferente do homem além de seu olhar levemente irritado.

Um sorriso simples de alívio nasceu no rosto do primeiro homem enquanto o outro bufou e cruzou os braços irritados.

— Eu disse que eles iam chegar hoje. — disse o primeiro homem em sumério.

— Finalmente! Agora podemos sair desse lugar de merda e voltar para Uruk! — respondeu o segundo no mesmo idioma.

Do lado egípcio, no entanto, as reações eram as mais diversas. Os marujos de primeira viagem se tornaram óbvios dentre os experientes ao observar, boquiabertos, aquele novo lugar. Dos ocupantes do barco, cinco eram aqueles que iam mais à frente dos demais, o trio de deuses, que iam bem mais a frente, e Imhotep seguido do capitão do navio.

— É diferente vir num lugar onde não tem ninguém se curvando pra você né? — perguntou Anput baixinho para Anúbis.

— Se demorarmos muito aqui os mercadores egípcios ali daquele barco vão acabar notando a gente e fazer exatamente isso. — disse Anúbis nem um pouco ansioso com a ideia de ter a fé dos outros delatando sua presença e atraindo olhares.

— S-São chifres na cabeça daquele homem? — perguntou Imhotep surpreso aos sussurros para o capitão do barco cujo olhar de estranhamento dedurou que ele nada via de extraordinário no homem que Imhotep apontava.

— Chifres? Onde? — perguntava o capitão enquanto Anúbis, Anput e Seshat olhavam com o canto do olho para Imhotep se perguntando silenciosamente se era o sangue de Ptah correndo em suas veias que o fazia ver aquele homem por quem ele realmente era — Acho que está vendo coisas, Senhor Imhotep. Certeza que a viagem não foi muito longa para você?

As sobrancelhas de Imhotep marcaram o estranhamento que passou pela sua cabeça. Ele tinha certeza de que estava vendo chifres no topo da cabeça do homem carrancudo. A confusão fez com que ele não conseguisse evitar encarar o estranho homem que, notando o olhar do egípcio sobre si, bufou fazendo ar sair por suas grossas narinas. O gesto, um tanto selvagem e lembrando um touro, fez com que Imhotep se surpreendesse e impulsionou mais ainda a fofoca entre os marujos novatos.

— Aqueles devem ser os sumérios então… — murmurava um jovem marujo — Não tem como confundir.

— Esses cabelos e barbas enormes… — falava outro com nojo — Imagina o tanto de piolho que eles devem ter!

De fato, os cabelos eram uma das coisas que mais diferenciavam os dois grupos. Pois enquanto os dois sumérios ali presentes exibiam longas barbas e cabelos, todos os egípcios que saíam do barco tinham suas barbas perfeitamente aparadas até à não existência e cabeças adornadas com cabelos curtos ou nenhum cabelo. As únicas exceções eram Anput e Seshat com seus cabelos trançados até a cintura ou até os ombros respectivamente.

— Dada a velocidade com que chegaram, imagino que tenha sido uma viagem muito bem proveitosa. — disse o primeiro homem em sumério.

— É difícil ter a paciência necessária para todo o tempo normal da viagem. — disse Seshat também em sumério olhando com o canto do olho para Anúbis — Algumas ajudinhas mágicas com névoas no meio da noite se mostraram úteis mesmo que usada aos poucos.

— Velocidades mortais ou não, é bom que tenha tudo corrido bem no trajeto. — continuou o homem — Deixemos os mortais seguirem seu caminho então? Tenho certeza que seguirão sem problemas até o acampamento onde descansarão o resto do dia.

— Que conveniente para você, Utu. — resmungou o segundo homem — Irá nos deixar para trás e seguir com sua carruagem para Uruk.

— Muito pelo contrário, Enkidu. — disse o primeiro homem, Utu, soltando um pesado suspiro e revirando o olhar — Primeiramente, considere seu lugar ao usar esse tom de voz comigo. Além disso, apenas quero conversar com nossos convidados com tranquilidade. És o enviado de Gilgamesh, haja como tal e receba... Imhotep… esse é seu nome, certo?

— Sim. — disse Imhotep tentando não parecer surpreso em falar com quem ele apostava não ser um mero mortal ou tentando não parecer preocupado com a possibilidade de falar algo errado em sumério — Sou Imhotep. Vizir do Rei do Egito, Faraó Djoser, Doutor, Administrador do Grande Palácio, Nobre hereditário, Sumo Sacerdote de Rá, Carpinteiro-Chefe, Escultor-Chefe e Feitor-Chefe de Vasos.

— Oh, deve ser decerto complicado ser o sumo-sacerdote de um deus tão ocupado como Rá. — disse Utu — Sem falar dessa lista grande e chamativa de títulos. Talvez por isso sua fama se espalhe tanto.

— Faço o melhor que posso. — disse Imhotep abaixando levemente a cabeça e levando a mão direita ao coração em sinal de respeito. — Mas… com todo respeito, creio que esteja exagerando na dita fama.

— Viu, Enkidu? Respeito. — disse Utu — Talvez possa aprender uma coisa ou outra com ele. E não, Imhotep, não exagero em tua fama. Anúbis, Anput e Seshat poderão confirmar-lhe que, como deus da verdade e da justiça, eu não posso mentir. Por isso fui o escolhido para vir recepcioná-los, pois assim acreditarão que não estamos tentando nenhum tipo de traição. Agora, com licença.

Um simples estalar de dedos foi tudo que Utu precisou para fazer o que melhor seria descrito como uma explosão de luz que envolveu a ele, Anúbis, Anput e Seshat. Num piscar de olhos, eles não estavam mais no porto, e sim num pequeno morro onde, em seu ponto mais baixo, meia dúzia de soldados sumérios haviam montado acampamento por entre as esparsas árvores e a grama que timidamente crescia em alguns pontos do solo seco.

— Não tenho dúvidas de que seus homens estão mais do que preparados para cruzar o deserto em direção ao Rio Eufrates. No entanto, depois de dias no mar, uma noite de sono, mesmo que embaixo das estrelas, com certeza será bem vinda. — disse Utu trocando para o idioma egípcio como se quisesse mostrar que realmente havia estudado o complicado idioma — Peço perdão por não ter feito Imhotep e seus soldados se sentirem mais à vontade e bem vindos usando o egípcio. Enkidu não gosta muito de não entender o que acontece. Sem falar que certas coisas não deveriam chegar à quaisquer ouvidos.

— Não acho que os soldados se preocupem com isso. E tenho certeza que Imhotep gostou de exibir seu sumério também. — disse Seshat.

— Falando em Imhotep… as fofocas que ouvi estão certas? Descobriram quem era o pai dele? — perguntou Utu.

— Ptah. — respondeu Anúbis — Por incrível que pareça.

— Hum… achei que seria Thoth. — ponderou Utu.

— Você e todos mais. — completou Anput.

— Ele já sabe disso? Vi como ele pareceu surpreso com Enkidu. — disse Utu — Tenho certeza que Gilgamesh já está bem interessado em encontrar outro semideus. Por mais que seja um egípcio.

— Acho que não. — disse Anúbis — Não é como se Ptah fosse muito paternal a ponto de contar algo, acho. Talvez se Imhotep soubesse que era um semideus desde do começo teria sido mais fácil descobrir quem era seu pai ou até mesmo de perceber que havia nascido um semideus. Demoramos muito por algum motivo para notar isso.

— Ninsun visita Gilgamesh com frequência ou algo do tipo? — perguntou Anput.

— Mais do que apenas visita. — disse Utu com um breve sorriso — Tenho certeza de que ela passaria mais tempo com ele se ele não tivesse passado por anos nos quais era terrivelmente insuportável. Não falo muito com Ninsun para ter certeza disso, mas de uma coisa eu tenho certeza. Minha irmã pediu para lhe passar um recado, Anúbis.

— Ereshkigal ou Inanna? — perguntou Anúbis — Ereshkigal, imagino.

— Obviamente. — disse Utu — No dia que chegarmos em Uruk, obviamente terá uma festa de boas vindas. No dia seguinte, ela pediu para que já fique preparado, pois quer receber tanto você como Anput no Kur.

Com uma visita ao submundo sumério já programada na lista da viagem, Anúbis começava a pensar que talvez as preocupações de Hórus fossem infundadas e a viagem de certo seria segura e tranquila. Anúbis achava que quaisquer problemas mundanos como ladrões e o deserto, os humanos provavelmente conseguiriam lidar suficientemente bem. Logo o deus se via torcendo para que o pior fiasco da viagem fosse Imhotep descobrir mais sobre si mesmo, algo que com certeza o sumo-sacerdote merecia. Mas Anúbis também sabia que talvez pedir por tanta tranquilidade, fosse também pedir demais.

Notas finais
## REFERÊNCIAS O conto do marinheiro naufragado - https://www.ancient.eu/article/180/the-tale-of-the-shipwrecked-sailor-an-egyptian-epi/ Templo de Hathor em Memphis - https://www.ancient-egypt-online.com/memphis.html Hathor - https://www.ancient.eu/Hathor/ Incenso - https://ancientegyptonline.co.uk/incenseperfume/ Kyphi - https://ancientegyptonline.co.uk/kyphi/ barcos - https://www.dkfindout.com/us/history/ancient-egypt/ancient-egyptian-boats/ barcos 2 - http://factsanddetails.com/world/cat56/sub404/entry-6147.html música - https://en.wikipedia.org/wiki/Music_of_Egypt Byblos - https://en.wikipedia.org/wiki/Byblos Hetephernebti - https://en.wikipedia.org/wiki/Hetephernebti Inetkaes - https://en.wikipedia.org/wiki/Inetkaes Utu - https://en.wikipedia.org/wiki/Utu Gilgamesh - https://en.wikipedia.org/wiki/Gilgamesh Clay Nail - https://en.wikipedia.org/wiki/Clay_nail Shamhat - https://en.wikipedia.org/wiki/Shamhat Enkidu - https://en.wikipedia.org/wiki/Enkidu Roupas Sumérias - https://fashionhistory.fitnyc.edu/sumerian/ ~ música na flauta - https://www.youtube.com/watch?v=QxZojLOm0Sg