A Morte Das Areias do Saara

50 A jóia do Nilo e a jóia do Eufrates


Notas iniciais
geeeeeeente... CINQUENTA CAPÍTULOS!! WAAAHHHH!!! que orgulho de ter chegado até aqui!! muito obrigada à todos que ainda seguem lendo a fic. espero que continuem por aqui pq ainda tem muito chão pra andar kkkk divirtam-se com o cap novo ♥

Então eu estiquei minhas pernas para saber o que eu poderia colocar na minha boca. Encontrei figos e uvas lá.

Alho-poró eram governantes lá.

Os figos do sicômoro estavam lá junto com os figos do sicômoro.

Pepinos estavam lá como se fossem cultivados.

Havia peixes junto com pássaros.

Não havia nada que não estivesse lá dentro.

~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”

Nas margens do lado leste do rio Eufrates, crescia a cidade suméria de Uruk. Enquanto o Egito vivia daquilo que o Nilo e o deserto podia lhe dar, a civilização Suméria tinha crescido entre dois rios, Tigre e Eufrates. Duas grandes e antigas civilizações que, de certa forma, travavam uma batalha silenciosa para decidir qual seria a mais antiga civilização à vencer os desafios impostos pela passagem do tempo. Ambas iriam passar por muitas reviravoltas e mudanças, mas uma ia virar a República Árabe do Egito, outro a República do Iraque.

Duas civilizações que também constavam os primeiros para certas invenções e descobertas. Os números e a escrita podiam ser conceitos mais antigos na Suméria, mas o papiro era egípcio. A revolucionária roda pode ter nascido na suméria, mas eram egípcias as técnicas mais avançadas de agricultura e irrigação do mundo até então. E embora algo tão importante para a saúde e higiene, como sabonete, fosse uma invenção primeiramente feita na Suméria, foi no Egito que nasceu a maquiagem, a pasta de dente e as primeiras cirurgias médicas, que sem dúvida deveriam ser bem dolorosas. Apesar de ser difícil definir quem foi o primeiro a definir um calendário ou criar alguma forma de marcar as horas, pode dar os parabéns aos egípcios por terem definido o ano como tendo 365 dias.

Saindo do porto de Uruk no rio Eufrates, o grupo de humanos e deuses cruzava a cidade em direção ao palácio. Chamar de palácio, contudo, era talvez um exagero pois ele não era tão mais alto do que os templos ou demais casas da cidade. Isso porque, ao contrário dos tijolos egípcios de barro ou das pedras usadas na construção da pirâmide de Djoser, os tijolos sumérios de adobe eram fracos e, além de não aguentar a construção de construções altas, também forçava os sumérios à reconstruir e reparar as construções frequentemente.

O povo, de longas barbas e pés descalços, abria caminho para os visitantes. Os visitantes, por sua vez, olhavam com curiosidade para aquele povo que eram tão diferentes de si.

— Ouvi dizer que aqueles que tem o cabelo preso com essa bolinha no topo da cabeça são todos escravos. — cochichou Anput olhando para os coques de dois homens que, sem roupas, seguiam um terceiro homem de cabeça raspada, longa barba e vestido com pele de carneiro.

— Mudar o penteado então seria um sinal de rebeldia? — comentou Anúbis pensativo.

— O que me incomoda, — disse Seshat — é que eles usam a escravidão bem mais do que a gente. Nas margens do Nilo o povo também trabalha e recebe aquilo que lhe é devido enquanto os escravos cortam as pedras para a construção da tumba de Djoser. Mas aqui… eles estão em simplesmente toda parte.

— A impressão que dá é que quase todo trabalhador é um escravo. — ponderou Anput.

Não era nada tão óbvio, como o tom da pele, que marcava a escravidão de nenhuma dessas duas antigas civilizações. A arrasadora maioria daqueles que perderam a liberdade, eram escravos de guerra. Todavia, alguns eram aqueles que haviam se vendido ou vendido seus filhos para a escravidão pois não viam outra alternativa.

Apesar dos horrores que a escravidão trazia, não dava bem para dizer que a cidade de Uruk era de todo feia. As palmeiras cresciam em suas ruas e arredores desafiando o solo quase desértico, o Eufrates a envolvia à leste e os templos e casas mais nobres eram enfeitados de cores vibrantes.

A cada passo dado, o grupo se sentia chegando cada vez mais perto do palácio quando aumentava a quantidade de tijolos que exibiam neles o nome de Gilgamesh indicando que aquela construção havia sido feita pelo lendário rei. Eventualmente, eles alcançaram o palácio e eventualmente lá entraram. Apesar de não ser alto, o palácio tinha vários quartos que serviam para vários propósitos diferentes desde salas com funções governamentais até habitacionais.

Foi com os fascínios normais de entrar em um lugar, não só diferente, mas como também que foi construído para ser a residência de um rei que o grupo entrou no palácio. Os marujos e soldados que haviam vindo no barco, por outro lado, foram levados para as instalações, mais simples, onde os soldados sumérios viviam. Assim, Anúbis, Anput, Seshat e Imhotep foram recebidos no salão principal do palácio por três pessoas.

Era difícil decidir quem era a mais chamativa dentre as três pessoas, mas provavelmente esse título deveria ir para a mulher que carregava em suas costas um parte de asas cujas cores alternavam entre o marrom e o dourado. Seus cabelos castanhos escuros estavam presos em duas tranças. Seus peitos estavam expostos e uma longa saia vermelha cobria o resto de seu corpo enquanto sua cabeça era rodeada com uma simples coroa dourada que estava provavelmente mais perto do conceito de uma tiara.

Ao seu lado, estava um homem extremamente musculoso. Em seu peito forte descansava uma longa barba levemente cacheada e um pesado colar dourado. Seus braços e tórax eram marcados por cicatrizes que serviam de prova do fato que ele havia se envolvido em muitas batalhas provavelmente mortais. E apesar do sorriso que exibia eu seu rosto para os convidados, seu olhar denunciava perigo.

O terceiro e último homem, tinha uma longa barba que passava da altura de seus mamilos. Apesar de ter uma maior barba do que o homem musculoso ao seu lado, esse último homem era bem magro. Seus olhos também não inspiravam tanta confiança, mas demonstravam o profundo respeito e temor que ele tinha pelas figuras ali presentes.

— Irmão, — disse a mulher em sumério olhando para Utu, que guiava a comitiva — chegaste dois dias antes do esperado. Fiquei surpresa pela velocidade.

— Sei disso, Inanna. — disse Utu com um pequeno sorriso — Admito que fiquei surpreso com isso também. Não só nossos convidados chegaram um pouco mais cedo que o esperado em Biblos, como também cruzamos o deserto facilmente. Acho que era de se esperar ao se viajar com um povo tão acostumado à tais travessias.

Sim, Inanna era uma das irmãs de Utu. Não era a que era responsável pela morte, mas era a querida irmã gêmea de Utu. E, felizmente, apenas irmã. Pois Utu era casado com a deusa Sherida.

Atrás de Utu, estavam Anúbis, Anput e Seshat e, atrás deles, Imhotep e Enkidu. Apesar do esforço de Utu de fazer os convidados serem bem vindos, o mesmo não podia ser dito sobre Enkidu que permaneceu nos fundos de braços cruzados e cara amarrada.

— Bem, sejam bem-vindos à Uruk. — disse Inanna abrindo um pequeno e belo sorriso — Os recebo de braços abertos na cidade na qual sou patrona.

— Obrigada. — disse Anput em sumério, afinal, provavelmente seria a língua mais usada dali em diante.

— Agradecemos o convite. — disse Seshat.

— Sim. Agradecemos à recepção. — disse Anúbis concordando — Uma parte de mim achava que iria nos separar e me encontraria apenas com Ereshkigal.

— Minha irmã com certeza quer recebê-los no submundo e queria muito vir os receber. — disse Inanna — Mas acho que sabe melhor do que qualquer um de nós que a morte dificilmente acha tempo para tais coisas, já que os mortais não param de morrer.

— Ora, e porque está quieto aí atrás? — falou com uma voz poderosa o homem musculoso olhando para Imhotep — É Imhotep, certo? O vizir de Djoser.

— Sim, sou. — disse Imhotep abaixando a cabeça levemente — Não me via no direito de interromper a conversa entre deuses… Vossa Majestade...Gilgamesh, presumo.

— E não é que soube bem dizer quem eu era? — disse Gilgamesh cruzando os braços e soltando uma forte risada — Mas também. Olha o tamanho desse sacerdote. Precisa com certeza de um pouco mais de carne nesses ossos. Aliás, esse é Shullat, sumo-sacerdote de Uruk.

— É uma honra está na presença de todos. — disse Shullat respeitosamente abaixando a cabeça também.

— É bom que reconheça a sorte que tem, mortal, de estar em nossa presença neste momento. — disse Inanna com doçura apesar da escolha de palavras um tanto seca — Se não fosse uma situação extraordinária, não estaria tendo esse privilégio.

— Não recebemos visitantes assim, ainda mais poderosos, à muito tempo. — admitiu Gilgamesh — Não sou idiota. Sei reconhecer que o Egito tem muito mais poder em comparação aos vizinhos que rodeiam à ambos de nós. Sem qualquer batalha para decidir qual de nós é o maior, Shullat recomendou-me firmar qualquer amizade ou acordo de negócios. Segundo ele ao menos, isso seria mais vantajoso para ambos.

— Majestade, tenho certeza que Imhotep deve estar cansado da longa viagem. — disse Shullat — Tenho certeza que poderão falar desses detalhes amanhã.

— Tá. Tá. Tá. — disse Gilgamesh fazendo pouco caso com a mão — Deixe-me ao menos aproveitar o momento para fazer alguns questionamentos, não é sempre que se encontra outro semideus.

A frase dita pelo rei foi entendida por todos, menos pelo pobre Imhotep, o alvo dela. Seshat e Anput trocaram olhares preocupados quanto ao desenrolar da cena enquanto Anúbis fitava Imhotep com o canto do olho tentando avaliar o quanto ele tinha entendido.

Era clara a confusão no rosto de Imhotep e isso dedurou mais detalhes da situação para Gilgamesh que arqueou as sobrancelhas surpreso.

—Você não sabia! — exclamou Gilgamesh.

—Sabia…. O quê?- perguntou Imhotep embora o quebra cabeça começasse a se juntar em sua mente.

—Gilgamesh…. — alertou Utu — Não mexa no que não lhe diz respeito.

—UÉ! Mas ele tem o direito de saber!- exclamou Gilgamesh.

—Concordo. Mas não cause um conflito diplomático. — disse Inanna virando-se então para Anúbis — Imagino que essa conversa não esteja aprovada?

—Sinceramente, acho que o estrago já foi feio o suficiente. — disse Anúbis.

— Alguém por favor pode me explicar direito essa história de "semideus"?! — pedia Imhotep.

— Nada que uma leve alteração de memória não resolva. — salientou Inanna.

—Concordo que ele tem o direito de saber mas … — disse Anúbis hesitante — Não é meu dever decidir isso.

—Mas …. Se por acaso ele simplesmente descobrisse … sem que soubéssemos a tempo o suficiente … — disse Anput fazendo Inanna dar uma leve risada.

—Gosto de como pensa. — disse Inanna com um sorriso — Vamos indo em frente então? Vamos deixar os mortais à sós para conversarem suas futilidades.

Enquanto Imhotep olhava para tudo que acontecia ao seu redor com um misto de curiosidade, estranhamento e até um pouco de medo, com um pequeno movimento de sua mão, Inanna abriu um portal dourado no meio do salão. Por ele, era possível ver árvores e raios do sol.

— Vamos então ao encontro de Enlil e os demais? — sugeriu Inanna.

— Não se preocupem. Cuidarei de Imhotep. — garantiu Utu — Mas nada posso fazer se ele, por acaso, acabar ouvindo certas verdades sobre si.

— Obrigada. — disse Seshat.

— Voltaremos mais de noite… — disse Anput — Imagino que pouco antes de uma provável festa.

— Uma baita festa com certeza! — exclamou Gilgamesh rindo ruidosamente.

Assim, deixando os outros para trás, Anúbis, Anput, Seshat e Inanna atravessaram o portal que imediatamente se fechou atrás deles. Os deuses então admiraram o ambiente completamente diferente em que estavam. Eles estavam cercados de árvores bem verdes e altas e que estavam cercadas de montanhas que, embora não tão altas, tinham altura o suficiente para ter um pouco de neve. Entre as árvores, um caminho se abria adentrando cada vez mais na floresta onde, entre as folhas e os troncos das árvores, era possível ver que provavelmente tinha um rio e algumas construções.

A fauna completamente diferente do que estavam acostumados chamou a atenção dos deuses egípcios que se viram olhando para cada detalhe de diferente que encontravam.

— Olha! É neve! — disse Anput automaticamente falando em egípcio e segurando no braço de Anúbis e apontado para o pequeno manto branco que cobria uma das montanhas que se mostravam dentre os ramos mais altos das árvores.

— Bem pouquinho… mas sim, neve. — disse Anúbis — Em Kush tinha mais neve.

— Sim… — disse Anput — Por isso que devíamos viajar mais. Já pensou na quantidade de lugares diferentes que existem por aí.

— Bem… — disse Anúbis — Fomos para Kush algumas vezes já, o mesmo vale para todo o Sinai e a Fenícia… Realmente podemos conhecer mais essa área do Eufrates e Tigre.

— Posso sugerir os tais humanos que estão se fixando nas ilhas ao norte que Thoth está curioso sobre? — perguntou Seshat.

— Gostei da ideia. — concordou Anput.

— Alguma outra civilização que esteja crescendo que Thoth ou você saibam? — perguntou Anúbis.

— Mais à leste do que aqui tem outras duas civilizações crescendo nas margens de dois outros rios. — disse Seshat — Uma mais longe que a outra. Da mais perto tem-se mais certeza e Thoth acha que seria uma ótima fonte de lápis-lazuli.

— Ah. Acho que sei de quem fala. — disse Inanna não tendo dificuldade em se juntar à conversa em egípcio — Dos Sarasva às margens do rio Indo?

— Sim! Esses mesmo! — exclamou Seshat — Mas a outra ainda está um tanto duvidosa. Talvez por ser mais longe ainda.

— Mais longe ainda? — comentou Anúbis surpreso — E Thoth não está curioso o suficiente para ir até lá?

— Ele quer acompanhar mais as perto de nós. — explicou Seshat — Afinal, elas podem nos afetar no futuro.

— Um bom motivo, admito. — disse Anúbis.

Andando seguindo a trilha, não demorou muito para as árvores ficarem mais espaçadas entre si e então surgir no horizonte uma cidade que, embora tivesse um tamanho modesto, tinha prédios de tamanhos exorbitantes seguindo a arquitetura suméria. A principal construção se erguia mais alta do que todas logo no centro exibindo em suas pinturas vários tons de vermelho, dourado e azul.

Diante do portal de entrada da principal construção, estava um deus de braços abertos, longa barba cacheada, cabelos que lhe caíam pelo pescoço, um par de brincos de ouro em formato de argolas, saia vermelha e uma espécie de coroa de ouro puro que lhe envolvia a cabeça com detalhes florais. O nome desse deus, era Enlil. Líder do panteão sumério, deus do ar, da terra e das chuvas.

— Bem vindos, bem vindos à Nippur, a cidade dos deuses! — disse Enlil, com educação, falando em sumério para o grupo que se aproximava.

— Admito que eu não imaginava que Nippur ficasse escondida no meio de uma floresta. — disse Anúbis.

— Bem… — começou a dizer Enlil mas acabou, por acidente, sendo interrompido por Inanna que acabou falando no mesmo segundo.

— Sei que na prática é uma floresta, mas preferimos chamar de jardim. — explicou Inanna.

— Não me interrompa novamente. — disse Enlil não com raiva, mas com firmeza.

Ficou claro que Inanna não gostou da reprimenda. Pois ela fechou a cara, cruzou os braços e desviou o olhar enquanto parecia se concentrar bastante em controlar a língua para não xingar ou reclamar com Enlil. O repentino clima tenso foi percebido pelos egípcios que se entreolharam rapidamente. Contudo, deixando toda a cena para trás, Enlil logo trocou de assunto.

—Deixemos de papo então. — disse ele — Queria já poder começar a festa agora. Um simples estalar de dedos e tudo estaria pronto. Mas alguns deuses estão longe daqui ou ocupados e todos gostam de uma boa festa, não?

—Ah, com certeza. — concordou Seshat.

—Acontecerá então uma festa aqui e outra no palácio de Uruk? — perguntou Anúbis não muito ansioso em ter que ir para não uma, mas duas festas.

— Sim. — concordou Enlil — mas não precisam ir para a dos mortais se não quiser. Ninguém irá questionar isso. Eu não iria, ao menos. Festas inferiores assim…

Enlil deixou um suspiro escapar seus lábios e ficou em silêncio olhando o horizonte como se pensasse em alguma coisa. Inanna revirou os olhos e então apoiou a mão na cintura.

—Vamos mostrar a cidade para eles. — sugeriu Inanna — Anput parece gostar de conhecer lugares novos.

— Era justamente o que iria sugerir. — disse Enlil juntando as mãos nas suas costas — Tanto para mostrar a cidade, como para mostrar o aposento que preparamos para vocês. Entendo que talvez possa até ser um tanto inútil já que não precisamos tanto fazer coisas como dormir e comer, mas acho que posso dizer que gostar de luxo e conforto é algo em comum entre muitos mortais e imortais.

Estendendo lentamente a mão para a direita, Enlil mostrou a direção do começo do passeio deles. Sempre com as mãos juntas nas costas, Enlil andava na frente dando breves descrições dos lugares pelos quais eles passavam.

— Pode-se dizer que estamos ao mesmo tempo na mesma camada de realidade que os mortais e, ao mesmo tempo, em outra camada. — explicava Enlil — Por isso temos proteções para que os humanos não cheguem até aqui. Acho que não preciso dizer que não posso entrar em detalhes quanto a essa proteção.

— Entendemos, obviamente. — disse Seshat educadamente.

— Ah! Aqui é o templo Eshumesha, de Ninurta. Inclusive, lá está ele. — disse Enlil.

Descendo as longas escadas do templo de altas paredes e estilo arquitetônico sumério, um templo cujo estilo era chamado de zigurate, estava um deus extremamente musculoso. Ele só não era mais musculoso que Gilgamesh. Inclusive, ele poderia muito facilmente ser o pai de Gilgamesh, mas isso não era o caso, pois o lado semideus de Gilgamesh vinha de sua mãe. O deus, era Ninurta, deus da agricultura, da caça e da guerra. Seu título de deus da guerra parecia ser enfatizado pela maça que ele carregava em cima de seu ombro.

— Olha, os visitantes chegaram então? — falou Ninurta com um sorriso — Quando vai ser a festa?

— No final do dia. — disse Enlil — Tenho certeza que informei à todos disso.

— Pff. Deve ter passado batido para mim. — disse Ninurta.

— Você não presta atenção em nada de informações importantes! É um baita preguiçoso! — falou a maça de Ninurta.

Nenhum dos deuses egípcios pareceu surpreso demais em encontrar uma maça falante, afinal, já tinham ouvido falar da maça falante de Ninurta. Contudo, aquela era a primeira vez que tinham a oportunidade de se encontrarem com ela.

— Ah! Você é o Sharur então! A maça de Ninurta! — exclamou Anput.

— Sim. Sou eu. Embora não goste de sempre essa descrição vir acompanhada de ‘a maça de Ninurta’. — reclamou Sharur.

— Você devia se sentir orgulhoso por pertencer à um deus tão importante. — disse Ninurta — Falando em deus importante… estava torcendo para Hórus vir.

— Ele estava ocupado demais para vir. — justificou Anúbis.

— Assim ouvi dizer. — disse Ninurta suspirando decepcionado — Estava querendo fazer uma batalha… amigável, claro… contra ele.

— Podemos avisar para ele e vocês marcam outro dia. — sugeriu Seshat.

— Gostei! — comemorou Ninurta levantando o punho fechado no ar.

Por mais alguns minutos o passeio pela cidade de Nippur continuou até que decidiram deixar a continuação do passeio para outro dia. Alguns motivos de deixar a continuação para outro dia o resto do passeio, eram a proximidade da festa e a preocupação quanto à como Imhotep estaria depois de revelações provavelmente bombásticas.

Assim, depois do passeio, o trio de deuses voltou para o palácio de Gilgamesh e foram recebidos por Shullat que, com muita reverência e respeito, mostrou a direção dos cômodos de Imhotep. Chegando lá, encontraram Imhotep de braços cruzados e uma expressão pensativa no rosto olhando para a paisagem que se abria pela varanda do quarto.

Um suspiro pesado escapou dos lábios de Imhotep pouco antes de ele ouvir que alguém estava entrando no quarto. Ele se virou para ver quem era e ficou sem sabia como reagir quando viu que eram os três deuses. Imhotep entrou enfiou dentro de si os sentimentos turbulentos que se digladiavam dentro de si e arrumou o corpo ficando de pé reto de forma respeitosa, botou a mão no coração e fez uma pequena reverência.

— Espero que tudo tenha dado certo com Enlil. — disse Imhotep em egípcio.

— Sim sim mas… — disse Anúbis — Você?

— Nada de relevante foi discutido com Gilgamesh até então. — disse Imhotep — Certamente ficará para o dia seguinte.

— Não é disso que estamos falando… — disse Anput gentilmente.

Imhotep suspirou e então sentou-se numa cadeira de madeira que estava perto de si. Por alguns momentos ele ficou encarando o chão deixando suas dúvidas e conflitos surgirem novamente.

— Ptah? Sério? — perguntou Imhotep.

— É… acho que a explicação foi bem completa. — ponderou Seshat.

— E sim, é bem sério. — disse Anput.

— Então… se não fosse esse detalhe, eu seria um idiota? Eles deram a entender que qualquer influência em mim que isso poderia ter seria minha inteligência. — questionou Imhotep.

— Não exatamente… — disse Seshat — Mas… bem… nunca passou pela sua cabeça que você é extremamente bem entendido de coisas demais?

— Julgava-me simplesmente sortudo. — disse Imhotep com um suspiro — E como até Gilgamesh e Utu sabiam disso e eu não?

— Semideuses são raros. — explicou Anúbis — Quando descobrimos de você, teve muita fofoca e ela claramente se espalhou.

— Entendo… — disse Imhotep — Gilgamesh também é né? E Enkidu? Vi que ele tem chifres.

Os três deuses rapidamente se entreolharam e notaram que aquela conversa estava indo para rumos que seria melhor ninguém ouvir eles falando certas palavras ali. Assim, com um simples mas amplo gesto com sua mão, Seshat fez uma magia que impedia qualquer som de sair daquele cômodo.

— Enkidu é… outra coisa mais… — disse Anúbis meio inseguro.

— Outra coisa mais? — questionou Imhotep sem entender.

— Ele não é um semideus. Isso é certo. — continuou Anúbis pensando um pouco — Mas também não é humano. Não sei bem como classificar ele.

— O mais perto talvez seria dizer ‘metade demônio’, mas isso me parece errado também. — disse Anput.

— Enkidu é Enkidu e simplesmente isso talvez. Uma mistura mágica de humano com búfalo e sabe-se lá se algo mais. — disse Seshat — Ele foi criado pelos deuses para bater de frente contra Gilgamesh. Gilgamesh sempre foi bem…. ahm… errático, violento… Precisava de um adversário à altura para extravasar essa violência.

— Eles já batalharam diversas vezes entre si. — disse Anúbis — Provavelmente vão batalha de novo várias outras vezes.

— Deuses, semideuses, seres mágicos estranhos… — disse Imhotep — Bem que Djoser parecia bem preocupado com essa viagem.

Notas finais
REFERÊNCIAS O conto do marinheiro naufragado - https://www.ancient.eu/article/180/the-tale-of-the-shipwrecked-sailor-an-egyptian-epi/ Uruk - https://en.wikipedia.org/wiki/Uruk Agricultura Egito - http://www.primaryhomeworkhelp.co.uk/egypt/farming.htm Invenções egípcias - https://discoveringegypt.com/ancient-egyptian-inventions/ Invenções suméricas - https://www.realmofhistory.com/2017/08/24/12-ancient-mesopotamian-inventions-facts/ Calendário - https://www.britannica.com/science/calendar/Ancient-and-religious-calendar-systems Arquitetura Suméria - https://quatr.us/west-asia/sumerian-architecture-mesopotamia.htm Nomes Sumérios - https://www.fantasynamegenerators.com/sumerian-names.php Escravidão Egito - https://en.wikipedia.org/wiki/Slavery_in_ancient_Egypt Escravidão Suméria - https://en.wikipedia.org/wiki/Sumer Inanna - https://en.wikipedia.org/wiki/Inanna Jardim dos deuses - https://en.wikipedia.org/wiki/Garden_of_the_gods_(Sumerian_paradise) Nippur - https://en.wikipedia.org/wiki/Nippur Comércio Egito - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_trade Indus Valley - https://en.wikipedia.org/wiki/Indus_Valley_Civilisation Iraque - https://pt.wikipedia.org/wiki/Iraque