A Morte Das Areias do Saara
16 Em defesa de Mênfis
Notas iniciais

O peito deste Meri-Ra é o peito de Bastet; ela vem e ascende ao céu. A barriga deste Meri-Ra é a barriga de Nut; ela vem e ascende ao céu
~ Fragmento Livro dos Mortos
As duas mulheres tentaram não se desesperar quando foram envolvidas pela névoa negra. Quando a névoa começou a encobrir elas, estavam cercadas por sua casa mas, quando a névoa se dissipou novamente, estavam claramente do lado de fora da cidade. A sombra das altas palmeiras protegiam as duas e o jovem Anúbis do sol forte do verão do Saara que, se tivessem inventado o termômetro, veriam que já alcançava os míseros 45ºC. A terra sob seus pés era um misto de areia e algumas poucas plantas que ousavam crescer aproveitando das cheias bem marcadas do Nilo. O rio corria à esquerda das mulheres, à direita de Anúbis que estava de frente para elas. Olhando adiante, para além das mulheres, Anúbis via o pequeno grupo de amigos que aparentemente já tinha se reunido mais uma vez com os parentes de Ahmen, Shadya e Iset.
Um suspiro escapou pelos lábios de Anúbis enquanto as duas olhavam ao redor e ele pensava no que fazer.
— Espera — disse ele impedindo que elas olhassem para trás.
— Anúbis, agradeço o que fez embora realmente não entenda como fez o que fez. — disse a mãe de Chenzira tentando controlar a própria preocupação — Mas, por favor, me diga onde está o meu filho.
— Eu realmente não sei como fazer isso… — disse o jovem deus suspirando e coçando a nuca — Estávamos nadando no rio e…
A voz de Anúbis morreu ali sem saber como continuar. A irmã de Chenzira, Nebetta, apertou a mão direita sobre o próprio coração enquanto a mãe do menino, já tomada pelo mais puro desespero, segurou firmemente o pulso esquerdo de Anúbis com ambas as suas mãos.
— CADÊ MEU BEBÊ?! — exclamou a mãe de Chenzira já temendo pelo pior.
O olhar de Anúbis escapou para onde o grupo se reunia à alguns metros de onde ele conversava com as mulheres. Seu olhar o traiu pois logo a mãe de Chenzira procurava para onde ele olhava e, ao notar as pessoas ali presentes, descobriu imediatamente quem faltava e quem deveria ser a pessoa que, deitava na areia, tinha o rosto e partes do corpo cobertas por roupas de linho manchadas de sangue.
— N-Não.. — gaguejou Nebetta.
A mãe de Chenzira saiu correndo para onde o filho jazia seguida por Nebetta e Anúbis. A mulher se jogou no chão tirando o pedaço de pano que cobria o rosto sem vida do filho que fitava sem ver as nuvens no céu. Um grito agudo de dor cruzou o deserto saído da boca da mulher que logo estava em planos chamando pelo filho que não poderia mais lhe responder. Nebetta caiu no chão sem forças para se levantar chorando ruidosamente deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
— É MEU FILHO! MEU FILHO! MEU CHENZIRA! — gritava a mulher a plenos pulmões acariciando o rosto sem vida do filho com suas mãos trêmulas.
— NÃO… É MENTIRA! NÃO PODE! NÃO PODE! — gritava Nebetta chorando desconsoladamente.
Shadya e Iset olhavam a cena derramando as próprias lágrimas de mãos dadas por não terem perdido uma à outra e abraçadas aos pais que também estavam aliviados por não terem perdido as gêmeas depois de terem perdido todos os irmãos mais novos delas. Ahmen também chorava sentado no chão por ordens da mãe que o abraçava, fazia carinho e chorava como um bebê aliviada por o filho ter escapado por pouco. Ao lado da mulher, um bebê de um ano fitava a cena com o dedo na boca sem nada entender sobre o que acontecia.
Anúbis se aproximou de onde Anput, Qebui e Neby estavam. Anput chorava silenciosamente e assim que o rapaz chegou perto o abraçou enterrando seu rosto marcado pelas lágrimas em seu ombro. Não havia tempo, não havia humor, não havia momento para aproveitar o abraço ou o toque dos dois corpos sem camisa, pois ali só havia pesar. Qebui estava de braços cruzados, punhos fechados com força que tremiam e desviando o olhar da cena desejando aos deuses que pudesse desviar os ouvidos dos gritos da família de Chenzira. Ele não aguentava mais ficar ali, mas também não queria ir atrás de Sobek ou quem quer que fosse. Contudo, qualquer tentativa de Qebui de fugir de um embate com outro deus foi esquecida quando Anúbis respirou fundo tentando fugir da dor e falou:
— Acho que vi Sobek na cidade — disse Anúbis num tom mais baixo para que só Anput e Qebui ouvissem.
— F-Falando nisso, a cidade está mesmo um caos. — disse Anput se soltando dele e limpando as lágrimas que manchavam seu rosto.
— O exército do Alto Egito está atacando — disse Qebui.
— Não me surpreenderia se meu pai estiver nesse ataque também — disse Anúbis.
— Se Set estiver, Lorde Osíris logo vai tentar dar um jeito na situação — disse Anput.
— Podemos só ficar aqui e esperar que isso se resolva então — disse Qebui.
— Não fazer nada?! — perguntou Anput se sobressaltando atraindo a atenção dos outros, menos da família de Chenzira que ainda estava perdida em pesar — Fomos treinados por um motivo.
— Mas não temos nenhum papel ainda nessa bagunça toda e tão pouco experiência — disse Qebui.
— Parece-me uma ótima forma de pegar experiência — disse Anúbis dando de ombros.
— Não podemos deixar os humanos morrerem assim! — disse Anput.
— Tem medo de morrer, Qebui? — disse Anúbis arqueando as sombrancelhas.
— Pff — disse Qebui dando uma leve risada nervosa — Se conseguiram inventar armas que conseguem até cortar a gente, o que mais acha que podem ter inventado! Toth não fala nada sobre suas invenções de guerra. Só conta as coisas para Lorde Osíris.
— Gente… tá aí uma conversa interessante que acho que a gente não deveria estar ouvindo… — falou Iset baixinho mas boquiaberta.
— A maioria dos que atacam são soldados normais com armas normais — disse Anúbis.
— Mas Sobek está lá! — disse Qebui indicando com o braço forte a direção da cidade.
— Ele é um. Somos três. — disse Anput.
— Ele é mais velho! — disse Qebui — E quem garante que Set não está lá também? Quem garante que ele não está atacando o palácio e por isso Lorde Osíris não pode vir?
— Mais um motivo para ajudarmos o povo de Mênfis — disse Anput séria e Anúbis afirmou com a cabeça.
— Queira você vir ou não — completou Anúbis.
Os lábios de Ahmen se formavam em uma pergunta quando Anúbis e Anput se entreolharam e nada mais precisou ser dito entre eles. O olhar que um direcionou ao outro já era o suficiente para passar a mensagem quando ambos desapareceram envoltos pela névoa tão escura quanto a noite.
Pararam no alto das torres finas e extremamente altas que marcavam a entrada do palácio que havia mais ou menos no centro da cidade. Dali, podiam ouvir os gritos e ver a fumaça que subia aos céus.
— Eu fico com esse lado e você fica com esse? — perguntou Anput apontando primeiro para a sua direita e depois para a sua esquerda.
Anúbis afirmou seriamente com a cabeça e, com os lados da cidade devidamente divididos, eles novamente desapareceram cada qual indo para um ponto de problema que viram do alto.
Ao aparecer no meio de uma das ruas da cidade, Anúbis quase foi ao chão quando uma moça desesperada passou correndo e esbarrou nele. Ela já estava machucada e arranhada, com os joelhos sangrando e a roupa fora do lugar. Ela caiu no chão arenoso ao esbarrar no jovem deus que até se aproximou para ajudá-la a se levantar, mas, assustada como estava, a aparição repentina dele não ajudou em nada a ela se acalmar e ela seguiu correndo. Nos instantes seguintes, ele pode ver que ela fugia do grupo de soldados que havia invadido uma construção razoavelmente grande de dois andares cheia de panos e tapetes de cores diversas. O sorriso dos homens e o tanto de mulheres de roupas fora do lugar ou roupa alguma que fugiam do estabelecimento, fez ele, mesmo jovem, entender que aquele era o lugar onde a profissão mais antiga do mundo era exercida.
Seguindo a confusão, ele entrou no lugar acabando com todo soldado que via pela frente. Era verdade que queria encontrar o homem que havia tentado roubar a casa de Chenzira, mas tinha certeza que ele já teria fugido à essa altura visto que, quando saiu da casa com a mãe e a irmã de Chenzira, Anúbis não pode manter a névoa negra que impedia a fuga do prisioneiro. A facilidade com a qual matava cada um dos soldados inimigos era no mínimo inquietante pois ele bem sabia que aquelas também eram vidas. A cada morte que causava com tanta facilidade, lembra-se que eles também matavam. A única dificuldade nas mortes era que, com tantos civis por perto, não poderia simplesmente sair por aí com o poder descontrolado.
Sabia bem que teria o efeito de assustar a população da cidade, mas achou bem conveniente invocar alguns mortos vivos para ajudar na defesa. Assim, soldados aliados que já estavam caídos, mais uma vez se ergueram para defender seu povo assim como soldados que haviam caído semanas, meses, anos antes daquele dia. O povo gritou assustado com a aparição dos mortos vivos que caminhavam pela cidade, mas lentamente alguns notavam que os mortos estavam do seu lado também. E o inimigo foi perdendo a força e a moral ao ver aqueles que tinham acabado de derrotar se levantando mais uma vez e agora sem sentir dor.
Além do ladrão, também se perguntava se encontraria Sobek, especialmente considerando que frequentemente encontrava crocodilos soltos pela cidade aterorisando os moradores como se os soldados já não fossem o suficiente. Estava limpando os inimigos num corredor no qual, desde antes de ele chegar, jazia o corpo de uma criança nos braços do corpo do pai, quando Sobek apareceu do outro lado do corredor. O deus crocodilo abriu um enorme sorriso exibindo seus vários dentes pontiagudos ao ver o jovem deus.
— Será que teremos aqui o embate de dois predadores, chacal? — perguntou Sobek.
— Até poderia perder meu tempo com coisa melhor se não tivesse matado meu amigo com seus lacaios — disse Anúbis e Sobek imediatamente começou à rir.
— Chama de amigo um mortal? — zombou o deus — Você é um deus garoto! Um deus! Vejo que as baboseiras de Osíris subiram à sua cabeça. Você é um ser superior, imortal e que dita as regras do certo e errado. Se humanos servem para algo, é para matar o tédio e a sede de sangue. Achei que fosse os preferir mortos assim como os outros cães sarnentos de seu tipo.
Sim, as vezes ele pensava o quão estranho era isso. Era bem claro que tinha uma forma “humana”. Tinha braços e pernas, pensava, escrevia, lia. Podia se misturar facilmente entre os mortais, prova disso foi a mentira que por tantos anos durou com Shadya, Iset, Chenzira e Ahmen. Mas, ainda assim, também tinha sua forma de chacal e também tinha características desses animais, assim como Bastet tinha características dos gatos e Sobek dos crocodilos. Se bem entendesse, podia caçar. Não com espadas e lanças, mas com garras e presas. Já vira Neby caçando e, quando o acompanhava com o olhar, sentia dentro de si qual todo o passo a passo natural de uma caça mesmo desde antes de ver Neby caçando pela primeira vez. Disfarçar o cheiro misturando o próprio cheiro com outra coisa ao esfregar o próprio corpo em algo. A aproximação leve, silenciosa, lenta. A cabeça levemente abaixada. Os olhos atentos a cada movimento da presa. O rabo na posição ideal. Os dentes prendendo o pescoço da presa. O pescoço sangrando, quebrado, esmagado.
Depois de aguardar por uma resposta e não receber nenhuma, Sobek preparou seu cajado. Para azar de Anúbis, na rua perpendicular àquela, corria uma parte da água do Nilo que Sobek controlou para implementar seu ataque. A preocupação de Anúbis não eram os crocodilos normais que impediam que qualquer mortal ousasse atrapalhar o confronto, a preocupação que tinha era com os dentes de Sobek que não seriam tão inofensivos em sua pele como os de seus crocodilos lacaios tinham sido. Anúbis precisou de toda a concentração para desviar dos ataques de Sobek. A água atrapalhava bastante e afetava a propagação de sua névoa negra que, sem encontrar nenhum mortal por perto, soltou-se livremente do jovem deus tentando ferir Sobek.
A lateral do cetro de Sobek e uma onda d’água de um metro bateram com força na lateral do corpo de Anúbis fazendo ele sentir dor, mas ele resistiu ao golpe, embora dificilmente, segurando o cetro e dando um chute certeiro bem na boca do estômago de Sobek. O chute, acompanhado de toda a névoa que ele conseguiu juntar, não só fez Sobek ficar com ânsia de vômito, como também necrosou toda a área do abdômen dele. Anúbis cuspiu a água e olhou para o cetro de Sobek por alguns segundos achando a ideia mais prática do que uma espada que geralmente parecia tão estranha em sua mão.
Não se permitiu desviar a atenção por mais tempo e logo voltou ao rápido combate de golpes e magia. Sobek até mesmo tentava morder-lhe alguma parte do corpo com sua grande boca. Quando Sobek avançou para a sua direção com a bocarra aberta, ele conseguiu desviar rolando para o lado. E mais, não soube bem como fez, mas invocou longas fitas de pano branco, linho que se enrolaram ao corpo do deus. Anúbis olhou para as faixas confuso, sentia que ele tinha as invocado mas não entendia como nem qual era o sentido delas. Parecia tão aleatório invocar faixas de linho branco.
Sobek urrou irado e de seu corpo começou a emanar uma luz verde que se moldava ao seu próprio corpo só que aumentando lentamente de tamanho mantendo a forma do deus que estava em seu centro enquanto arrebentava as faixas de linho. Anúbis sabia o que era aquilo embora pudesse contar nos dedos as poucas vezes que, em sua vida ainda curta, havia visto aquilo. Sabia que Sobek estava invocando uma poderosa magia de combate que o deixaria no centro de um avatar verde luminoso de quase 8 metros de altura. Os planos do deus crocodilo foram interrompidos quando uma figura magra, forte e esguia pulou do telhado aterrisando em cheio na cabeça de Sobek mas rodopiando para longe dele antes que ele atingisse o chão.
A figura esguia que pousou ao lado de Anúbis carregando uma lança nas mãos, foi Bastet.
— Achei que fosse precisar de uma forcinha contra ele, au-au — disse Bastet dando uma piscadela e jogando a lança para Anúbis pegar enquanto ela trocava para suas facas duplas.
— Estava indo muito bem sem sua ajuda — resmungou Anúbis.
— Até parece. Sabe que ele está só brincando com você ainda né? — perguntou Bastet dando uma leve risada.
A comprovação disso foi a risada que emanou da boca de aparência ameaçadora de Sobek.
— Poxa Bastet, eu estava me divertindo com o pirralho — disse Sobek.
— Assim como se diverte ficando ao lado de Set? — perguntou Bastet.
— Set oferece poder. Set oferece carne fresca. — disse Sobek.
— Como se você e seus lacaios tivessem algum problema em conseguir carne fresca — disse Anúbis.
— Fala como se você e seus lacaios também não tivessem sua quota de mortes, Anúbis. — disse Sobek — Matar é o que predadores fazem. Sejam eles crocodilos, chacais, hienas ou leões. Você está do lado errado. A Bastet até desconsidero já que ela só fica com os predadores manhosos que os humanos gostam de abrigar ou largar.
— Mas deve existir o equilíbrio. Ma’at. Lembra? — disse Bastet — Ou vai dizer que não está contando as dezenas de crocodilos que soltou na cidade. Eu vi no meu caminho até aqui.
Cansada de papo, Bastet avançou contra Sobek e Anúbis a acompanhou. Logo os três estavam trocando golpes. Mesmo que a arma de Sobek não tivesse nenhuma superfície “cortável” seus dentes ainda eram perigosos e os ataques de seu cetro doíam. Era claro que as habilidades dele de luta eram superiores embora Anúbis e Bastet estivessem com armas capazes de ferir um deus.
O combate intenso entre três seres divinos que usufruíam de toda a magia que podiam logo não cabia mais no estreito corredor assim como já haviam derrubado algumas paredes e afugentado os habitantes daquela parte que agora estava deserta.
Depois de ter levado uma mordida no braço, o sangue prateado de Anúbis escorria lentamente até sua mão. Mas tão pouco a dupla felino-canina tinha deixado barato pois um corte em diagonal adornava a lateral do tórax de Sobek quando uma voz atrás dele disse.
— Sobek. — disse Néftis.
Sobek olhou para trás, para a mulher que parava diante de um portal circular e abriu um sorriso.
— Acho que nossa brincadeira acabou — disse Sobek decepcionado.
— Espere! — gritou Bastet.
Sobek atravessou o portal despreocupado e Néftis o seguiu depois de trocar um olhar de alguns segundos com Anúbis. Bastet tentou correr para atravessar o portal antes que ele se fechasse, mas foi tarde demais.
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