A Morte Das Areias do Saara
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Notas iniciais

Aconteceu que algum tempo depois disso, a criança tornou-se como um príncipe, em todos os seus membros.
Ele enviou a seu pai, dizendo: "Por que ainda permaneço enclausurado.
Estou destinado (a morrer por uma das três mortes ...)
... Que os deuses façam tudo o que lhes agradam."
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Em silêncio, Anput puxou Anúbis até a sala solitária onde as múmias eram feitas. Com as mãos entrelaçadas, eles foram até uma das mesas de pedras usadas para a mumificação escolhendo preferencialmente uma que estava vazia e ficava mais longe dos corpos que estavam ali.
Aquele silêncio quanto ao assunto da conversa deixava Anúbis muito preocupado. Várias possibilidades já tinham passado pela cabeça dele nos poucos passos que separavam o Salão do Julgamento até a sala das múmias. Será que algo tinha acontecido em Creta? Anput estava com raiva ou triste por causa de algo que ele fez? Tinham falado para Anput algo que ela não gostou? Ela já não aguentava mais o jeito que eles não pareciam tão em sintonia ultimamente e queria terminar? As diversas perguntas estavam já deixando ele doido.
Quando Anput sentou-se sobre a mesa de pedra, Anúbis já estava temeroso por quais seriam as palavras que sairiam dos lábios dela. Ele parou bem na frente dela observando bem sua expressão mas, ao ver o olhar cabisbaixo dela sem fitar-lhe os olhos, ele, apesar do medo, mesmo assim teve que respirar fundo e perguntar:
— O que aconteceu? Está tudo bem?
— Assim que cheguei e não vi você aqui, Lorde Osíris falou que não tinham julgado muita gente nos últimos dias. — disse Anput — Que ficaram hoje o dia inteiro e ontem o dia quase inteiro sem julgar ninguém.
— Sim. Foi. — confirmou ele — Como não tinha tanta gente, todos concordaram por interrompermos momentaneamente os julgamentos. Foram resolver outras coisas e, bem…. relaxar.
— O que você ficou fazendo nesse tempo que não teve julgamentos? — perguntou ela — As múmias estão do jeito que estavam quando saí praticamente e não faz tanto tempo que você checou cada um dos sacerdotes e embalsamadores. Eu te conheço bem… não minta porque eu já tenho ideia de qual é a resposta.
— Eu… conheci a Hatshepsut… — respondeu ele.
— Ao menos para isso eu lhe dou os parabéns mas… Não tem como você ter ficado dois dias inteiro com ela, especialmente considerando que mortais precisam dormir e que hoje foi o sepultamento do pai dela então ela ficou o dia quase inteiro ocupada. Quando perguntei para Lorde Osíris onde você estava ele mal conseguiu responder. Só sabia dizer que você talvez tenha ido ver o sepultamento do Tutmosis. — falou Anput encarando ele de um jeito tão séria que ele desviou o olhar — Você ficou um bom tempo sozinho, não ficou?
Ele nada respondeu e, isso, para ela, foi uma resposta o suficiente. Assim, Anput soltou um suspiro e ergueu a mão tocando gentilmente na bochecha dele e forçando, com gentileza, que ele olhasse para ela.
— Eu sabia… — disse Anput — Já tinha notado como você estava, cada vez mais, a cada século que passava, se afastando dos demais.
— Não é bem assim. — defendeu-se ele — Não estou me afastando dos demais.
— Acha que não noto quando você prefere escapar para cá ou ficar olhando de longe eu conversando com os outros quando tem alguma festa? — perguntou ela — Como naquela vez que a Ereshkigal veio na festa que demos pro Rá séculos atrás.
— Não é tão simples assim. — insistiu ele.
— De toda forma… estou me sentindo culpada. — disse Anput com um suspiro.
A declaração de se sentir culpada fez ele olhar para ela com dúvida e curiosidade inclinando levemente a cabeça na diagonal enquanto se perguntava exatamente pelo o que ela se sentia culpada. Não era culpa dela ele se sentir deslocado dos demais, sem conseguir se encaixar no grupinho, tampouco era culpa dela que não tivessem almas o bastante para deixá-lo ocupado por tempo o suficiente enquanto ela viajava.
— Eu... não sabia que iria ter um tempo livre tão grande entre os julgamentos quando fui para Creta. — explicou fazendo uma pausa logo em seguida mas, como ela parecia ainda querer falar algo, Anúbis apenas esperou até que ela continuou sua explicação — Voltamos rapidamente apenas para passar a noite e… ver como estavam as coisas… não imaginava que ia encontrar os julgamentos passando por uma breve pausa, e uma de já quase dois dias inteiros pelo o que Lorde Osíris explicou. Se eu soubesse que você estava sozinho aqui eu não teria ido. Mas mesmo assim, eu já estava me sentindo mal porque a gente não parece estar em tanta sintonia ultimamente e… fui egoísta o suficiente ainda por cima para viajar sem levar você junto.
— Não se sinta culpada por essas coisas. — disse Anúbis — Não foi nada previamente planejado interromper os julgamentos por um tempo. Não tinha como você saber. E também, não é como se você não quisesse me levar na viagem, você sabe que não posso no momento entrar tão facilmente quanto você em Creta e nas outras ilhas dos minóicos e dos micênicos. Você não tem culpa de nada.
— Mesmo assim… — disse ela deixando a mão que estava na bochecha dele cair até o ombro dele e logo erguendo a outra mão até que as duas mãos estivessem o segurando pelo ombro — Quando voltei e você não estava e Lorde Osíris falou que não tinham julgado muita gente desde ontem…. Eu deveria ter pensado mais em você também aqui sozinho ao invés de só pensar em viajar.
— Você gosta de viajar e conhecer os outros povos. — disse ele dando de ombros — Seria injusto com você pedir para ficar presa aqui só porque não tenho tanta liberdade ou tempo livre quanto você. Eu noto como você fica frustrada ficando tanto tempo por aqui às vezes e... como se sente um tanto… deixada de lado…
Anput suspirou abaixando o olhar não negando as palavras ditas que acabaram criando um momento de silêncio ali. Eventualmente, Anúbis ficou mais pertinho dela passando as mãos ao redor de sua cintura enquanto a fitava docemente. Em resposta, ela entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele e abriu um pouco as pernas para que ele conseguisse se aproximar um pouco mais. Como Anput estava sentada sobre a mesa de pedra, ela ficava mais alta do que ele, mas, ali, abraçadinhos, eles ficaram juntos o suficiente para Anúbis encostar a testa no ombro dela.
— Eu já me conformei com isso, mas admito que antes isso me incomodava bastante. — admitiu Anput — É querer demais competir em importância com os deuses mais adorados e poderosos. Eu tenho Nomo inteiro para cuidar e gosto dele e as pessoas gostam de mim lá. Apesar de não gostar tanto de mumificar corpos, também gosto de te ajudar quando as coisas por aqui ficam muito atarefadas.
— Está mesmo bem com isso então? — perguntou Anúbis sem erguer a cabeça — Eu… não sabia, ainda não sei, o que fazer com essa insatisfação que via em você. Não é fácil achar outra coisa pra fazer que outro deus não seja responsável e que alguém não reclame que você está se metendo com o que não deve.
— Soa até ridículo falar que estou satisfeita de cuidar só disso já que você é todo ocupado mas… eu de fato estou. — garantiu ela passando os dedos carinhosamente pela nuca dele — Proteger e cuidar de um Nomo envolve muitas vidas e não é tão cheio de compromissos a ponto de me deixar sem tempo livre. Consigo ainda viajar como gosto e passar um tempo com meus amigos e com você… quando você tem tempo livre pelo menos.
Anúbis deixou um suspiro aliviado escapar pelos seus lábios, feliz em ouvir aquilo. O tom de voz dela realmente passava que aquelas palavras eram verdadeiras. Se ela estava satisfeita finalmente com as coisas, então isso provavelmente não era um dos motivos que os deixou recentemente tão sem jeito um com o outro. Mas isso contradizia algumas das falas que ela havia dito recentemente. Então provavelmente tinha algo a mais.
Ele ainda se lembrava de quando mencionou sobre como Anput, Seshat, Nefertem, Qebui e Sodpet conseguiam ir para muitos lugares sem nenhum deus do lugar criar muita confusão sobre isso e ele não e Anput rebateu com “Porquê não somos tão grandes ou importantes quanto vocês…”. Algo que ele não tinha dito, por mais que a ideia estivesse escondida por debaixo do motivo de os cinco poderem ir para lugares que Anúbis não podia mesmo se estivesse livre.
— Você é ocupado demais e todo tempo livre praticamente que temos, nós tentamos aproveitar. Então você não vê tanto como gosto de estar lá no Nomo… — continuava ela — Não cansa de ter tanta coisa para fazer constantemente?
— Às vezes cansa… todas as almas com histórias tristes pra julgar, os mortos com vidas difíceis para mumificar… — desabafou ele — as crianças pequenas demais… é bom ter esses momentos com você.
— Eu sei que gosta… — disse Anput carinhosa deixando um sorriso escapar pelos seus lábios.
Ele abraçou ela mais apertado enquanto ela falava. De olhos fechados com a testa ainda apoiado no ombro dela, ele relaxou sentindo o corpo dela perto do seu e o aroma floral de seus cabelos negros perfeitamente trançados em dezenas de trancinhas presas por pequenos anéis de ouro puro nas pontas. Aproveitando também que estava tão perto do pescoço dela, ele virou um pouco o rosto para beijar o pescoço dela.
Imediatamente Anput ficou vermelha e se encolheu enquanto deixou uma risada escapar de seus lábios. Ela sentia cócegas com o leve toque dele no pescoço que a fez rir e se encolher toda tentando fugir das cócegas.
— Para! — pediu ela rindo se contorcendo tentando fazer ele parar o que deixou de ser um beijo e passou a ser cócegas de propósito — Não vai fugir da conversa assim... desviando o assunto pra mim e fazendo cócegas!
— Não era a intenção no começo mas…- murmurou ele rapidamente antes de dar mais dois rápidos beijinhos no pescoço dela prolongando as risadas mas se afastando em seguida.
Ele admirou com um pequeno sorriso carinhoso os restos de risadas que Anput deixou escapar antes de respirar e voltar ao normal. Já sem ser atacada pela incontrolável vontade de rir, ela respirou fundo e apontou com o indicador bem na direção do rosto dele pronta para falar assuntos sérios e deixando claro que não era para ele tentar evitar o assunto mais.
— Primeiramente, te dou os parabéns por ter ido conhecer a Hatshepsut. Por mais aleatório que isso seja. — disse Anput — Não foi proposital né?
— Foi totalmente sem qualquer planejamento de isso acontecer. — admitiu Anúbis.
— E nas horas que não estava com ela, não me diga por favor que ficou só sozinho. — pediu Anput — Não tentou nem mesmo conversar com Bes? Ele é legal.
— Ele está sempre resolvendo alguma coisa no meio do deserto com as tribos nômades berbers. — explicou Anúbis dando de ombros — Eu… fiquei aqui algum tempo ontem mas… não consegui ficar muito tempo. Estava sufocante demais. Depois então fui visitar o palácio para ver como iam os preparativos para o sepultamento de hoje…
— Para gastar tempo quer dizer. — corrigiu ela e ele afirmou com a cabeça.
— Bem… de toda forma, encontrei Hatshepsut chorando pensando no pai. — continuou Anúbis — Conversamos, jogamos um pouco e fui embora pois ela parecia bem ocupada. Fui ver o pôr do sol no meio do deserto, voltei para o Salão do Julgamento e julgamos algumas almas. As almas terminaram pouco antes do sol nascer. Fiquei aqui sem fazer nada algum tempo até que fui ver o sepultamento de Tutmósis. Vi desde bem o começo até o fim e voltei depois de falar um pouco com Hatshepsut.
— Se você fosse uma pessoa que gostasse de ficar sozinho, eu nem ia me preocupar tanto. — explicou Anput — Mas eu vejo no seu olhar quando você acaba ficando distante de mim e dos demais que você não gosta de se sentir sozinho. Mas mesmo assim não tenta se aproximar, como na festa de Rá que a Ereshkigal veio. Você se afasta.
— Não é que me afasto. — defendeu-se Anúbis — Já disse. Não é simples assim.
— Me explique então. — suplicou ela segurando uma das mãos dentre entre as suas — Porquê se afasta de nós nas festas e outros momentos do tipo? Porque mesmo quando vamos para um lugar que você pode ir, você não vai junto se estiver desocupado? Porque não tenta falar com os outros deuses? Eu te amo, sabe disso, mas fico preocupada de você praticamente só conversar comigo quando se trata de falar de coisas não relacionadas à mumificações e julgamentos. Mal fala com os demais.
— Não exagere tanto assim. Eu quase sempre estou ocupado quando você viaja e eu falo às vezes com Bes ou… Seshat… ou Thoth... ou… ou… Lorde Osíris ou… Lady Ísis… — gaguejou ele e ela olhou para ele sem confiar muito em suas palavras.
— Se contarmos as vezes que fala com eles sobre qualquer coisa que não seja trabalho, vai falar uma vez a cada década com cada um deles. — disse Anput.
— Não é fácil… — admitiu Anúbis — Eu fico sem saber o que falar e com alguns o ambiente fica muito estranho e desconfortável.
— Porque não tenta mais vezes ficar junto comigo quando vou ficar com Seshat, Sopdet, Qebui e Nefertem?
— Vai dizer que ainda não notou que fazem séculos que Qebui não fala direito comigo? — perguntou ele — Só o fato de ele estar lá deixa o ambiente estranho e eu também não falo tanto com Sopdet quanto você.
— Vamos tentar mais uma vez… — pediu ela — Faz tempo que não tenta de verdade ficar com a gente. Posso combinar com eles de vermos o nascer do sol de hoje para amanhã em algum lugar que não tem ninguém para reclamar de você ir. Aqui no Egito mesmo ou Punt ou Wadi Suq… ou A'ad.
— Pode ser… — disse ele dando de ombros com um pesado suspiro aparentemente não botando muita confiança no plano.
Anúbis estava mais aceitando a ideia por causa do olhar de esperança e determinação de Anput. Mas, sinceramente, ele não sentia que ela funcionaria. Ainda queria questionar Anput a respeito da fala seca e direta dela do outro dia sobre a importância dela em comparação a outros deuses mas, vendo como ela parecia ter sido tomada por uma alegria e empolgação para fazer essa tal reunião no nascer do sol, achou melhor deixar para outro momento. Não queria apagar o sorriso dela ainda.
Enquanto Anput já ia atrás dos amigos para planejar o que fariam no nascer do sol, no palácio real em Tebas, um outro tipo de discussão saudável entre casais acontecia, mas totalmente diferente. Com a festa final de Tutmósis I já terminada e a cidade envolvida na escuridão da noite, não restava mais muito que não fosse apenas dormir. Assim, tensos e de pé encarando a única cama do quarto, estavam Hatshepsut e o meio-irmão e marido, Tutmósis II.
Os dois trocaram um olhar tenso entre si, deixando um suspiro escapar e preencher o silêncio que assombrava o quarto e o palácio conforme todos iam dormir. Ambos sabiam superficialmente o que era esperado deles naquele momento, mas nenhum dos dois estava muito confortável com a ideia ainda.
— Irmã… — disse Tutmósis II temeroso e tenso — Não se ofenda, eu gosto de você mas não desse jeito. Os sacerdotes e oficiais não pararam de me falar durante a festa inteira as coisas que eu tinha que fazer com você e… eu não quero.
— Eu digo o mesmo, Tut. — admitiu Hatshepsut abaixando o olhar rapidamente para o chão mas logo erguendo para o irmão uma vez mais.
— O que vamos fazer? — perguntou ele esperando ansiosamente pela resposta dela.
— Eu tenho uma ideia mas… Não vamos conseguir fugir disso por muito tempo. — alertou ela — Vamos eventualmente ter que dar um herdeiro para que parem de nos irritar e para segurar a próxima geração sem problemas mas…
— Mas…? — incentivou Tutmósis II.
— Mas… nem toda mulher fica imediatamente grávida depois do casamento né? — perguntou Hatshepsut — Podemos enrolar o máximo possível até que aceitemos mais a ideia. Falar que fizemos todas as coisas mas na verdade não fizemos nada, ao menos não por enquanto. Depois, quando fizermos e tivermos algum herdeiro, então podemos ser livres! … Até certo ponto pelo menos. Casados ainda, para não reclamarem de nada e não termos problemas consequentes, mas você poderá ficar com quem você quiser, eu poderei ficar com quem eu quiser depois.
— Está sugerindo então… que depois que tivermos um filho nós tenhamos casos, mas sempre tendo a aprovação do outro? — perguntou Tutmósis II rindo de leve pela ideia lhe soar levemente engraçada mas ao mesmo tempo genial — Mas irmã… Eu posso me casar com várias mulheres depois, você não pode casar com vários homens.
— Você é o faraó, eu sou a rainha. É só eu ser discreta e se você não me entregar, tudo ficará bem. Na verdade, todos podem até ver eu com outro homem, se você não reclamar, ninguém falará nada também. — reforçou ela — Eu lhe dou seu primogênito quando estivermos mais confortáveis e prontos para isso, e depois disso ficamos com quem quisermos, com quem gostamos de fato.
— Tenho que admitir que a ideia parece boa… — opinou Tutmósis II pensativo — Suas ideias geralmente são mesmo.
— Então… — disse Hatshepsut abrindo um sorriso e já mal conseguindo segurar uma risada — Aceita uma enrolação e a traição dupla e aprovada por ambos os lados?
— Aceito! — concordou Tutmósis II rindo.
Rindo da genialidade da ideia, os dois irmãos relaxaram um pouco mais, ao menos por enquanto. Era tranquilizador saber que ao menos naquela noite eles poderiam simplesmente dormir e nada mais. Não sabiam por quanto tempo iriam conseguir enrolar a geração de um herdeiro real ou fingir que haviam usado muito bem aquela cama, mas ao menos a certeza de uma noite de tranquilidade já os ajudava a dormir.
As horas que se passaram enquanto os dois dormiam foram também as horas que foram necessárias para Anput reunir Qebui, Nefertem, Sopdet e Seshat e decidirem onde iriam ver o nascer do sol. Foi assim que os cinco deuses, mais Anúbis, apareceram na escuridão das horas finais da noite no alto de um pequeno morro de pedra arenosa que, junto com vários outros, rodeava uma baía. Aqueles morros cercados de areia e rodeados pelo mar arábico formavam uma pequena península com tímidas vegetações que parecia tentar fugir do resto do continente mais ao norte e do poderoso deserto arábico que ele guardava.
Aquele pequeno pedaço de terra no qual eles agora estendeiam um tapete colorido e iluminavam com chamas mágicas flutuantes, era uma das extremidades mais ao sul possível da enorme península arábica. O mar cujas ondas ouviam bater nas pedras e nas praias rasas era o mar arábico que entrava no golfo formado pela junção da península arábica asiática com o continente africano.
Ali um dia seria a nação denominada de Iémen, e, junto com países como Arábia Saudita, Omã, Qatar, Emirados Árabes e outros, guardaria muitos dos segredos dos povos árabes. Mas, no momento, esses povos ainda vagavam em forma várias tribos nômades com vários nomes e que seriam um dia mencionadas no Alcorão. Tribos como a que eles viam a alguns quilômetros, nas margens da praia, mantendo algumas fogueiras acesa durante a noite para proteção.
— Quantas pessoas será que estão lá? — perguntou Sopdet já sentada sobre o tapete olhando para as fogueiras que, dada a distância, pareciam tão tímidas e diminutas.
— Pouco mais de uma centena.- respondeu Anúbis enquanto se sentava ao lado de Anput no tapete.
A resposta de Anúbis não veio de ele ver o tamanho acampamento e deduzir o número de pessoas. Ainda estava escuro demais para conseguirem discernir das sombras detalhadamente quantas pessoas se amontoavam em barracas montadas ou deitavam embaixo das estrelas e quais sombras eram camelos ao invés de barracas. Anúbis simplesmente sentia que ali tinha pouco mais de uma centena de vidas.
— São os A’aditas né? — perguntou Anput olhando para as fogueiras também.
— Julgando a região, provavelmente. — disse Seshat — Alguns deles ainda são nômades, mas eles tem um vilarejo um pouco mais ao nordeste, Iram. Bem… não bem o que entendemos como vilarejo parece, mas algum tipo de assentamento mais fixo pelo menos.
— Eu trouxe vinho com mel! — comemorou Nefertem chegando com Qebui carregando embaixo do braço uma grande ânfora claramente cheia do líquido.
— Sabia que podia contar com você Nefertem! — comemorou Sopdet.
Nefertem sorriu orgulhoso de trazer o vinho enquanto ele e Seshat se sentavam também. Enquanto isso, Qebui colocava a ânfora de vinho no centro do “C” que havia se formado com eles sentando-se olhando na direção onde o sol nasceria.
O clima da conversa estava até confortável apesar de Anúbis não participar muito dela pois não acompanhava o assunto. Seshat falava com Sopdet dos mapas que havia feito da região, Nefertem se juntava periodicamente para falar sobre a mirra e demais incensos interessantes que haviam por ali, Anput logo suspirava e comentava sobre como os incensos dali eram muito cheirosos e Qebui completava a conversa falando que trazer as coisas dali até o Egito era bem complicado.
Não muito surpreendentemente, Anúbis foi se sentindo cada vez mais excluído da conversa e a única que parecia notar era Anput que o olhava com preocupação. Infelizmente, ela não notou o olhar rápido e de poucos amigos que Qebui lançou para Anúbis antes de se sentar ao lado de Nefertem.
— Ah aqui também tem bastante óleo de olíbano, né? — perguntava Nefertem — Aquele óleo cheiroso e Ó-TI-MO pra pele.
— Ah sei! — exclamou Seshat — Muitas das rainhas adoram. Até assírios e os babilônicos usam pelo o que ouvi falar.
— Podemos ir na Babilônia né? — perguntou Anput — Vai ser interessante ver como as coisas estão por lá agora que eles meio que substituíram os sumérios. Talvez até possamos conseguir alguma autorização de algum deus local para Anúbis visitar também, em nome dos velhos tempos de boas relações com a Suméria.
— Nefertem, você por acaso está falando daquele seu óleo que você não deixa nem eu chegar perto? — perguntou Qebui praticamente cortando a fala de Anput — Não me diga que vem até aqui só para ele.
— Bem… não bem SÓ pra ele…- defendeu-se Nefertem — Tem muitas coisas interessantes em Punt também e Punt é praticamente aqui do lado.
— Você percebe que você é um deus e não precisa de um óleo para cuidar da pele, certo? — perguntou Qebui.
— Mas não é só por isso que eu vou deixar de cuidar da minha pele deixando ela bonita, limpinha e cheirosa! — defendeu-se Nefertem.
— Nefertem… você não é literalmente o deus dos perfumes? — questionou Sopdet — Achei que você fosse cheiroso de nascença.
— Mas eu tenho cheiro de lótus! — reclamou Nefertem — Algumas vezes eu quero inovar! Ficar com um cheirinho diferente. E não reclame Qebui, você adora quando eu uso os óleos daqui.
Durante a conversa inteira, Anúbis só seguia com o olhar quem estava falando. Até tentou abrir a boca para acrescentar algum comentário, mas logo fechou e deixou um suspiro escapar dos lábios quando a pequena brecha de alguns segundos na conversa foi logo preenchida por outra pessoa. Assim, o olhar dele acabou desviando para as montanhas e o céu atrás delas que começava a trocar de cor. Isso foi devidamente notado por Anput.
— Acho que foi Khufu não? — perguntou Anput — O último que fez uma grande expedição até aqui e Punt?
— Sim. — confirmou Seshat — E isso já faz muitos séculos.
— Séculos até demais… Já faz mais ou menos mil anos. — disse Anput virando-se para Anúbis pronta para tentar adicionar ele na conversa — Já até saquearam a tumba dele né?
— Várias vezes. — admitiu Anúbis claramente bem frustrado pelo estado da tumba de Khufu.
— Ainda tem muita coisa lá dentro? — insistiu Anput querendo mais do que duas palavras dele.
— Não deve ter mais nada lá além da múmia dele, que já tive muita dificuldade para impedir que destruíssem. — respondeu Anúbis.
— Você consegue cuidar de todas as múmias assim? — perguntou Seshat enquanto Nefertem colocava um copo de vinho para cada um deles — Você já gasta tanto tempo nos julgamentos e tudo mais.
Para responder, Anúbis simplesmente negou com a cabeça. Era impossível cuidar da tumba de centenas de múmias, todos os julgamentos, a mumificação de alguns corpos, todos os órfãos e ficar de olho em todos os sacerdotes. Eram pouquíssimas ocasiões em que, tal como nas celebrações de seu dia mais sagrado, que era também seu aniversário, que ele conseguia estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.
Apesar das dificuldades de ter muita coisa para fazer, Qebui ainda assim revirou os olhos quando Anúbis negou com a cabeça. O gesto não havia passado despercebido para Anúbis e também para Seshat, que desviou o olhar e levou o copo de vinho para os lábios já sentindo que aquele piquenique pela espera do sol não iria dar tão certo assim.
— Se quer falar algo, fale logo, Qebui. — reclamou Anúbis — Não fique só aí quieto de cara fechada me encarando e revirando os olhos.
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