A Morte Das Areias do Saara

95 Dias de luta, dias de glória


Notas iniciais
olá! primeiramente, sei que eu deveria ter atualizado já a Os Deuses da Mitologia. é que eu não tenho estado tão bem, um misto de tristeza e ansiedade, e por causa disso eu não estava conseguindo me tranquilizar o suficiente para escrever a Os Deuses da Mitologia pq é um cap de luta. essa fic, no entanto, me relaxa. por isso vcs estão vendo mais dela ultimamente. mas relaxa, o cap de Os Deuses da Mitologia já tá mais ou menos na metade. desculpe pela demora e enfim, bom cap :3

Quando as Hathors Pareae vieram saudá-lo em seu nascimento,

elas disseram que ele morreria ou por um crocodilo, uma serpente ou por um cachorro.

Quando as pessoas que estavam perto da criança ouviram isso,

foram e contaram essas coisas a Sua Majestade.

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

Ter se livrado de Apófis não significava que os problemas do Egito tivessem acabado. Seus deuses e seu povo ainda tinham que lidar com uma seca cruel que ceifava a vida daqueles que não tinham mais comida suficiente para se alimentar Além disso, a guerra que acontecia entre os poderes do Baixo e Alto Egito não ajudava em nada a situação.

Consequentemente, o submundo ainda estava abarrotado de almas para julgar e os mortais rezavam por uma cheia, por muita chuva ou pelo fim das guerras, totalmente ignorantes da batalha contra Apófis que havia acontecido. Felizmente, os pedidos por água poderiam ser solucionados em breve, pois alguns poucos meses depois do confronto contra Apófis, Sobek voltou e logo em seguida Hapi também. Podia ter sido um ano terrível, mas ao menos a cheia do ano seguinte estava garantida desde que problemas grandes não acontecessem novamente.

Agora com Rá com menos funções numa quase aposentadoria, mais problemas era algo que nem mesmo Set queria. Ele podia até gostar de criar caos e estresse para os outros deuses, mas se tinha alguém ao qual ele era leal, esse alguém era Rá. Seja Rá ou Amon-Rá, Set pretendia continuar seguindo o deus do sol.

— Sabe o que a gente merece depois que tudo ficar mais calmo? — perguntou Sekhmet certo dia entrando no Salão do Julgamento irritada — Férias.

— Infelizmente… eu vou ter que concordar… — respondeu Thoth com um suspiro — Mas isso não é tão fácil assim para nós.

— E você, garoto… — disse ela apontando para Anúbis que estava cuidando da vida dele, alheio ao ataque de estresse da deusa, preparando a balança para mais um julgamento — A seca pode ter acabado, mas ainda temos uma guerra civil e os vizinhos não vão deixar a gente em paz. Ainda vai ter muito morto vindo. Se eu fosse você, deixava que os mortais mumificassem todos os corpos mesmo… ou os deixassem largados na areia.

— Não vou fazer isso… — respondeu Anúbis já cansado dos outros deuses falando isso — A pessoa não vai conseguir chegar aqui.

— Mesmo em situações ideais, sem tantos problemas, — dizia Sekhmet — os pobres não conseguem pagar uma mumificação e enterro decente em nenhum lugar, não faz tanta diferença assim, está só se ocupando mais ainda. Se você conseguisse mumificar toooooooodo mundo, faria até mais sentido.

— Dia após dia o nível da água do Nilo sobe mais… — respondeu Anúbis — Logo será ano novo e a fome deixará de ser um problema tão grande.

— Quem será que mata mais? A fome ou a guerra? — perguntou Sekhmet zombeteira — Cada vez é uma que ganha da outra.

— Não duvido da capacidade sanguinária das suas guerras… — respondeu Anúbis dando de ombros — Só estou falando que é um problema a menos.

E assim, quando o ano novo chegou e, embora o povo não tivesse muitos recursos para fazer festas muito grandes para receber a volta das cheias do Nilo, a alegria do povo foi enorme. Afinal, Ano novo significava cheia do Nilo e cheia do Nilo significava a volta das plantações.

Com o problema da água resolvido, a maior preocupação tornou-se o império dividido, apesar de alguns problemas constantes com os vizinhos. Preocupados, alguns deuses já apostavam, sem muita esperança, qual seria o governante capaz de unir o Egito novamente. Alguns diziam que era uma aposta cruel, outros que era uma aposta simplória que tentava manter o fio de esperança de que alguém seria de fato capaz de unificar o Egito novamente, tal como Narmer havia feito já mais de mil anos atrás.

E então, já vários anos depois da queda de Apófis, um mero adolescente subiu ao trono do Alto Egito, na cidade de Tebas, Mentuhotep II. Enquanto isso, no Baixo Egito, na cidade de Het-Nesut, que havia tomado o lugar de Mênfis como capital do Baixo Egito, um outro faraó surgia para competir com Mentuhotep II. Mas foi Mentuhotep que foi capaz de fazer aquilo que vários faraós tentavam e não conseguiram, ele reunificou o império.

Mentuhotep II não só conseguiu reunificar o império, como também imediatamente se empenhou em lidar com os problemas estrangeiros e começar construções de templos para agradar os deuses. Um dos templos que ele aumentou foi Karnak, na cidade de Tebas, um complexo de templos, ainda tímido, que a cada faraó que subia ao trono queria deixar sua marca registrada.

O sucesso de Mentuhotep deixou os deuses aliviados. Parecia que o Egito ia sim passar por aquele momento tenso em sua história ao invés de imitar o caos complicado que estava onde antes era a Suméria, na grande região chamada de Babilônia. Ano a ano as coisas iam tentando serem arrumadas no Egito por mais que cada ano também trouxesse mais areia para cobrir a esfinge, já que nem todos os faraós estavam tão interessados assim em tirar a areia.

Ano a ano as coisas também mudavam no mundo. Ao norte, em Creta, os minóicos construíram um novo palácio em Knossos; ao leste, na Mesopotâmia, um líder chamado Hamurabi mandou erguer um enorme obelisco de basalto com 282 artigos de lei para serem seguidos por todos; também na Mesopotâmia, mas em séculos diferentes, surgia a Babilônia; onde um dia seria a Turquia, um novo povo chegou vindo do Leste Europeu e lá se assentaram e prosperaram sobre o nome de Hititas enquanto, devido ao espaço de poder que nasceu na Síria, ia surgindo a civilização Mitanni.

Mas, quando tudo parecia estar melhorando no Egito, tudo piorou novamente. Irritado com os humanos, Rá soltou Sekhmet para criar um caos no Egito, algo que nem todos os deuses concordaram. Um dos que discordaram, foi Hathor e inclusive foi ela que praticamente sozinha resolveu o problema que, teve como consequência Hathor se fundindo com Sekhmet. A deusa leoa e a deusa bovina se uniram em uma e, logo depois disso, como se o Egito não tivesse visto problemas o suficiente ainda, ele foi invadido ao norte pelos Hicsos e logo depois, ao sul pelos Núbios.

Apesar de continuarem sendo um problema, os Núbios não eram novidade nenhuma, mas os Hicsos eram. Os Hicsos, aparentemente inicialmente formados por estrangeiros que viviam dentro do Egito, avançavam cada vez mais de Norte à Sul causando destruição e assassinando ou escravizando egípcios, mas também trazendo novidades para a língua, o exército, a cultura e a tecnologia do Egito.

Com cavalos e carruagens, novidades para os egípcios, eles fizeram um estrago tão grande que o Egito ficou reduzido ao Alto Egito apenas, pois eles haviam devorado todo o Delta do Nilo e um pouco mais.

Mas então veio o faraó Sekenenré Taa, musculoso e alto para os padrões da época, o faraó era a imagem que se teria de um guerreiro ou até mesmo um herói mitológico. Não tinha nada de mitológico ou divino em seu sangue, mas ele com certeza lutava como se tivesse. Ele e seu exército deram a vida para liberar o Egito num ato tão heróico que ele foi chamado durante as gerações seguintes de “Taa, o bravo” e seus feitos foram imortalizados séculos depois como uma história heróica de um jovem faraó que dava sua vida pelo seu povo.

Era o herói que todos precisavam mas, infelizmente, havia morrido e estava agora devidamente mumificado e sepultado com sua múmia mostrando bem os vários ferimentos que tinham lhe tomado a vida.

Os Hicsos foram adversários difíceis, mas deram ao Egito os cavalos e as carruagens… e, como uma civilização bélica, ele os usou bem, bem até demais. Especialmente quando subiu no trono um faraó que deu um novo sentido à guerra, Tutmósis I.

— A profecia de Nekhbet… Deve ser ele… — comentou Hórus um dia.

— Ou melhor… o filho dele que nascer… — corrigiu Osíris — A profecia é sobre o filho semideus do faraó com sucesso no extrangeiro que carregar o nome do deus.

— Ele não tem herdeiros ainda, né? — perguntou Néftis e Hórus negou com a cabeça.

— Nenhum herdeiro e o nome dele significa "Thoth nasce". — disse Hórus empolgado — tem o nome de um deus nele e… nossa… ele está empurrando as fronteiras para limites que nunca chegamos.

— Muitos faraós tem o nome de algum de nós em parte do nome. — lembrou Ísis — Khufu era Khnum, Mentuhotep era Montu, Djedefptah era Ptah… Não é nada tão extraordinário assim.

— Eu sei mas… — continuou Hórus pensativo — Devia ver como é as coisas na cabeça dele. Eu fico possuindo ele o dia inteiro, então eu sei. Ele é brilhante, um líder militar nato. Até o próximo ano ele vai ter conseguido anexar a Núbia provavelmente inteira ao império, nunca chegamos tão longe e ele quer ir mais longe ainda!

— Quão longe? — perguntou Anúbis curioso.

— O Sinai! O Levante! — exclamou Hórus claramente empolgado, se o falcão tinha um faraó favorito até agora, provavelmente era Tutmósis I — E continuar subindo pelo Mar Mediterrâneo até chegar nos Mitanni e nos Hititas.

— Guerra… é complicada… — disse Hathor na estranha combinação que ela agora tinha com Sekhmet — Quanto mais aumentamos a fronteira, mais inimigos teremos. Chegar assim tão longe deixará muitos com mais raiva de nós, os Mitanni, os Hititas e os Assírios para listar alguns.

— Independente de se for ele ou não o tal faraó da profecia… O que pretende fazer? — perguntou Osíris que, pelo tom de voz, era claro que achava a ideia simplesmente ridícula — Simplesmente mandar Amon-Rá para engravidar a rainha? Tem noção do tanto de problemas nessa ideia?

— Tenho plena noção dos problemas que isso implica… — admitiu Hórus — Por isso que andei pensando e conversando com Thoth…

Mencionar o deus da sabedoria fez com que todos os outros deuses presentes naquela reunião extra-oficial que havia começado ao redor do trono dourado de Osíris encarassem Thoth com uma expressão fácil de ler. Estavam julgando Thoth por botar mais lenha na fogueira em Hórus numa ideia que eles ainda não concordavam tanto assim.

— Nekhbet disse que tinha que ser filho de Amon-Rá, mas não ficou meio implícito que também ainda é filho do faraó? — perguntou Hórus.

— Onde quer chegar? — perguntou Osíris realmente não entendendo a ligação, Rá podia muito bem criar novos deuses do nada sem necessidade de uma parceira, tanto que os filhos de Rá haviam nascido assim, mas não estava entendendo onde Hórus queria chegar.

— O que aconteceria se Amon-Rá estivesse possuindo o corpo de Tutmósis enquanto deita-se com a rainha? — perguntou Hórus incentivando os outros a pensarem nisso.

— Ainda acho meio… problemático… — admitiu Anúbis — Sem falar de esquisito.

— Além de esquisito… — disse Ísis — Quem garante que você vai conseguir fazer todos os envolvidos aceitarem essa ideia? Seria extremamente injusto enganar Tutmósis e a rainha Ahmose desse jeito.

— Isso se Amon-Rá aceitar pra começo de conversa. — lembrou Hathor.

— Mas provavelmente resolvemos o problema de criar um semideus poderoso demais ou que chame atenção demais… — disse Thoth — Não temos garantia alguma de que passará algum poder sequer mas… indiretamente, ainda seria filho de Amon-Rá e de Tutmósis também. Nunca fizemos algo do tipo... Não custa nada tentar. Especialmente considerando que, pela previsão, esse tal filho de Amon-Rá vai ser muito bom para o Egito como nenhum outro faraó jamais foi. Se Tutmósis já está sendo incrível em deixar o Egito forte e temível novamente, imagina o que o filho não poderia fazer?

— Se errarem e não for Tutmósis à quem a profecia se refere? — perguntou Osíris.

— E se tivermos alguma consequência nada boa dessa ideia toda? — adicionou Ísis.

— Tentaremos com outro faraó que se encaixe mais na descrição e resolveremos o problema tal como lidamos com Apófis. — disse Hórus.

Os deuses suspiraram e se entreolharam sem ter mais argumentos para mostrar o quanto não conseguiam digerir aquela ideia. Ainda estavam meio inseguros quanto a ela, mas cedo ou tarde teriam que apostar na profecia de Nekhbet. Não havia como fugir tanto tempo assim dela.

— Se Amon-Rá concordar… — disse Osíris — Qualquer palavra final terá que vir primeiro dele, afinal de contas. E mesmo se ele aceitar, Tutmósis e Ahmose também precisam.

Não era bem o que Hórus queria ouvir, mas foi o suficiente. Inseguro, ele foi conversar com Amon-Rá. Desde do ataque dos Hicsos, Amon-Rá tinha ganhado uma importância tão evidente que nunca mais os deuses haviam visto o deus em sua forma de Rá. Mas, como já faziam aproximadamente 600 anos desde que Apófis tinha sido selada junto com Bastet, não era de se surpreender que aquela versão do deus do sol havia se firmado. Mas, isso não significava que ele parecia bem.

Hórus encontrou Amon-Rá quando este estava entrando no submundo novamente depois de passar o dia iluminando o mundo cruzando os céus de um lado ao outro. Hórus sabia que o olhar de cansaço e as olheiras embaixo dos olhos de Amon-Rá não eram apenas um truque das sombras do submundo. Também foi mais ou menos nesse momento que Anput chegou com Seshat, Sodpet, Nefertem e Qebui de um passeio pela capital da Babilônia.

Era claro para Anúbis pelo brilho nos olhos de Anput quando ela entrou na sala das múmias de Anúbis que ela havia gostado muito do passeio.

— Pela sua expressão, diria que foi muito bom lá… — disse Anúbis com um sorriso que não chegava aos olhos.

— Sim! Devia ter visto! — contava Anput empolgada se sentando em uma das mesas vazias enquanto Anúbis enfaixava o corpo de uma jovem mulher — Achei que ia ver muito de como era a Suméria já que fica bem ao norte deles mas tem mais mesmo é rastros da Acádia. O tal Hammurabi fez mesmo eles crescerem bastante.

— A cidade era bonita? — perguntou ele sem muita emoção continuando a mumificação enquanto tentava esconder o que estava pensando no momento ou o sentimento de exclusão.

— Acho Tebas bem mais bonita. Mas não era de todo feia. — admitiu Anput.

— É uma comparação injusta… — respondeu ele.

— Devia ir da próxima vez… — pediu ela.

— Queria… mas não dá, sabe disso. — respondeu ele suspirando cansado — O mundo não é mais o mesmo, os impérios estão crescendo, Tutmósis não para de ganhar território também. Se eu for, nunca vão achar que estou indo apenas para admirar, especialmente com todos pensando em guerra como estão atualmente. Vocês cinco passam despercebidos pelos deuses dos lugares…

— Porquê não somos tão grandes ou importantes quanto vocês... — resmungou ela.

— Eu não disse isso. — defendeu-se Anúbis suspirando e deixando de lado as bandagens para olhar para ela.

— Tudo bem… — respondeu ela pulando da mesa para o chão — É verdade mesmo…E de toda forma, você tá sempre todo ocupado porque as pessoas não param de morrer.

Anúbis suspirou no mesmo momento que ela se virou para ir embora. Teria ido atrás dela para resolver isso se não fosse o fato de que desentendimentos assim haviam ficado mais frequentes desde Merti, cuja boneca estava apoiada na estante logo atrás dele. Não era como se estivessem um com raiva do outro, e ambos sabiam disso, era mais como se o estilo de vida de ambos não estivesse mais encaixando tanto assim.

Sem saber o que fazer, Anúbis deu-se alguns segundos para pensar em como solucionar aquela distância que havia nascido entre ele e Anput, mas logo sua mente mudou de foco quando escutou Hórus gritar pelo salão “Amon-Rá aceitou a ideia!”.

O deus da morte suspirou já preocupado com quais consequências isso teria. Tudo parecia tão mais simples anos atrás, quando só precisava se preocupar em dar comida para Neby. Inclusive, Anúbis nem sabia mais quantos anos atrás havia sido isso exatamente. Tinha uma noção que havia sido entre 1500 e 1700 anos atrás provavelmente, mas não tinha mais uma ideia exata de quantos, consequentemente, também havia perdido a conta da própria idade.

Havia sido bem difícil continuar acompanhando quando o tempo no submundo passava tão mais devagar e quando o calendário egípcio usava a contagem dos anos do reinado de cada faraó para marcar o ano. E instabilidade fazendo com que os faraós não durem muito tempo e a guerra civil anterior que deixou dois faraós no poder ao mesmo tempo certamente complicam qualquer matemática. Assim, chegou à conclusão que independente de quantos anos tinha na zona que ia de 1500 a 1700, não fazia tanta diferença assim descobrir o valor exato.

No dia seguinte, os deuses foram falar com Tutmósis e sua esposa que, incrivelmente aceitaram a ideia num misto de alegria, medo, honra e orgulho. Na mesma noite o plano foi colocado em ação sem ninguém impedir, por mais que nem todos necessariamente gostassem dele. E então, o óbvio aconteceu, a rainha Ahmose ficou grávida.

A maioria dos deuses seguiam seus afazeres como se nada tivesse acontecido, mas Hórus estava empolgado. As fronteiras do Egito não paravam de crescer como nunca e ele estava claramente ansioso por aquele bebê que, na visão dele, ajudaria o Egito, já um avô dentre as nações, se firmar como sendo um poderoso leão que ninguém ousaria desafiar.

— O bebê de Tutmósis, é um menino saudável né, Hathor? — perguntou Hórus um dia depois do rápido julgamento de um bebê de 2 anos e meio.

— É saudável sim… — garantiu a deusa desviando o olhar já não aguentando mais as empolgações do marido quanto a isso e, o revirar de olhos que Anúbis deu era prova que ele também não aguentava mais.

— Já tá bom desse bebê nascer logo pro Hórus se acalmar… — sussurrou Anúbis para Anput.

— Talvez isso seja até pior… — sussurrou Anput de volta encarando Hathor longamente — Ele vai ter a criança para jogar em cima dela suas expectativas. Mas… você também acha que Hathor está evitando Hórus ultimamente?

— Não sei… — respondeu Anúbis olhando para a deusa minuciosamente — Ela está bem diferente desde que se fundiu com Sekhmet. Já tentou conversar com ela?

— Já… — garantiu Anput — Mas ela só fica trocando de assunto. Acho que tem algo errado com o bebê de Tutmósis que ela está tentando esconder.

— Tawaret ou Lady Ísis talvez saibam então. — sugeriu Anúbis e Anput negou com a cabeça.

— Também não me contaram nada. — respondeu Anput suspirando enquanto passava a mão na juba de Ammit.

— A próxima alma é do pai da criança que acabamos de julgar… — anunciou Thoth lendo seu rolo de papiro alheio aos cochichos — Melhor se prepararem… ou vai ser um estressante ou um divertido. Ele parece ser bem ignorante…

— Relaxe então, vamos descobrir quando o bebê nascer. Ahmose já está no último mês de gravidez. — respondeu Anúbis rapidamente dando um beijo rápido na bochecha de Anput enquanto voltava à seus deveres para julgar o pai.

De fato, apesar das preocupações de Anput, tudo que ela conseguiu fazer foi esperar, pois nenhuma das deusas que continham poderes sobre a gravidez e, consequentemente, informações sobre o herdeiro de Tutmósis, pareciam querer sequer admitir que estavam escondendo alguma coisa. E Hórus também não notava que nada estava sendo escondido de suas costas.

Mas, quando a rainha entrou em trabalho de parto ao final do 9º mês de gravidez e o bebê nasceu, não demorou muito para Hórus chegar apressadamente no Salão do Julgamento completamente exasperado e preocupado.

Hórus havia ficado mais cedo, curioso, voando sobre o palácio, dando algum espaço para a mãe, até ouvir o choro da criança. Não se aguentando mais, foi até a varanda do quarto da rainha e pousou na amurada da varanda bem no momento em que um feliz Tutmósis abraçava a criança no colo. Ahmose estava com o rosto manchado pelas lágrimas que denunciavam a alegria da chegada do bebê, e a dor do parto. Estava tudo bem, aparentemente, Tutmósis segurava o bebê enrolado nos mantos com um olhar que misturava confusão mas ainda assim orgulho.

Foram, na verdade, a primeira das duas palavras que assustou Hórus e fez ele ir o mais rápido possível para o Salão do Julgamento para anunciar à todos que algo tinha dado extremamente errado e que aquele bebê NUNCA seria o faraó que ele imaginou, até porquê nunca seria faraó… porque as palavras carinhosas que saíram da boca de Tutmósis direcionadas ao bebê foram:

— Princesa Hatshepsut.

Notas finais
já disse na outra fic mas vou dizer de novo pq nem todo mundo lê as duas, no desfile das múmias que teve no Egito, uma das músicas foi em egípcio antigo ♥ foi uma oração à Isis e usou até alguns instrumentos da epoca. vou deixar o link do youtube pra vcs verem (legendas em inglês e egipcio do próprio youtube) https://www.youtube.com/watch?v=pk8_FlxDsfY&ab_channel=Mohammedfawzi ALÉM DISSO... alguns faraós mencionados nesse cap estavam no desfile o/ (nenhum dos outros mencionados até então na fic estavam kkk pq era mto antigo kkk estamos entrando numa época conhecida como Novo Império que produziu a maioria dos faraós mais famosos da história egípcia) REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Mentuhotep - https://en.wikipedia.org/wiki/Mentuhotep_II Hammurabi - https://pt.wikipedia.org/wiki/Hamurabi Taa - https://en.wikipedia.org/wiki/Seqenenre_Tao Tutmosés I - https://en.wikipedia.org/wiki/Thutmose_I Hititas - https://en.wikipedia.org/wiki/Hittites#Origins Mitanni - https://en.wikipedia.org/wiki/Mitanni Babilônia - https://en.wikipedia.org/wiki/Babylonia Ahmose - https://en.wikipedia.org/wiki/Ahmose_(queen) Extra : site que eu uso pra ver como era o mapa em cada século - http://geacron.com/home-en/