A Morte Das Areias do Saara

96 A escuridão da solidão


Notas iniciais
mais um capitulooooooooooooooo esse tá bem grandinho. tô querendo deixar os caps dessa fic agora com mais de 3k ao menos ao invés de mais de 2k q é a meta pra todas as minhas fics. tudo isso pra ver se fica logo mais perto do Hades aparecer kkk na foto de hoje, Tebas. cidade q vai aparecer nesse cap.

Sua Majestade ficou extremamente entristecido com as más notícias.

Sua Majestade deu ordens de trancar a criança dentro de uma casa no campo, provida de atendentes e todos os tipos de coisas boas do palácio do rei, e que a criança não deveria sair para o exterior.

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

Para a maioria dos deuses que seguia fazendo seus afazeres enquanto a filha de Tutmosis nascia, era só mais um dia. Já tinham visto muitos príncipes e princesas nascerem e, por mais que aquela fosse fruto de uma noite que incluiu Amon-Rá indiretamente, para os deuses, ficar ali esperando o bebê nascer tal como Hórus havia feito era exagero demais. Assim, os deuses até cochichavam entre si perguntando-se se o tal bebê já tinha vindo ao mundo, mas não deixava de ser um dia relativamente normal.

No entanto, Ísis, Tawaret e Hathor cumpriam suas funções apenas com atenção parcial. Elas sabiam que a filha de Tutmosis I estava vindo ao mundo e era só uma questão de tempo até Hórus descobrir que elas esconderam o mero detalhe de que a rainha esperava uma filha, não um filho. Contudo, as três deusas escondiam sua tensão muito bem.

No Salão do Julgamento, no momento não estava acontecendo nenhum julgamento. Não era como se não tivessem ninguém para julgar, afinal os mortais não paravam de morrer e o fato de Tutmósis I ter resolvido guerrear para aumentar as fronteiras certamente trazia alguns guerreiros até o submundo. Osíris havia decidido que era um bom momento para os julgamentos terem uma pausa por alguns momentos para que os deuses envolvidos nele resolvessem outros assuntos e também para a fila de mortos aumentar um pouco mais.

Enquanto para Osíris aquela pausa significava discutir assuntos com Ísis enquanto Ammit levava até ele uma longa costela para que Osíris jogasse longe como um brinquedo para Ammit buscar, para Anúbis significava, no momento, checar a situação de seus sacerdotes e embalsamadores.

Anúbis se sentava no chão no cantinho do Salão do Julgamento debruçando-se sobre um papiro que analisava, escrevia e riscava organizando as informações que tinha na mente sobre quais sacerdotes e embalsamadores teria que ir fisicamente visitar e onde cada um ficava. Atualizava sua listinha riscando o nome daqueles que morreram desde que se debruçara sobre ela a última vez, incluía nomes novos e cargos novos para nomes antigos.

Anput não estava lá, estava caminhando dentre os humanos cuidando das coisas no Nomo que, até onde Hórus sabia, ela cuidava junto com Anúbis. Mas, na verdade, desde do começo ela cuidava inteiramente sozinha, assim como ela tinha insistido, já que queria tanto fazer coisas independentemente.

Foi nesse momento tranquilo no Salão do Julgamento que Hórus chegou repentinamente em sua forma de falcão e logo trocou para sua forma humanóide numa agitação e pressa tão grande que atraiu a atenção dos poucos que estavam no Salão do Julgamento no momento.

Claramente exasperado, ele começou a andar com passos firmes e aparentemente irritados para Ísis e certamente teria ido para Hathor caso a deusa estivesse ali.

— Você sabia! — acusou Hórus — Não tem como você não saber!

— Não fale assim comigo! — ralhou Ísis imediatamente, mas sem perder a compostura enquanto Anúbis deixava sua listinha de lado e se levantava para acompanhar melhor o que parecia ser o começo de mais um novo problema — De que raios está falando?

— Sabe bem do que estou falando! — gritou Hórus perdendo a paciência — Onde estão Hathor e Tawaret?!

Os gritos de Hórus atraíram a atenção também de Thoth que surgiu primeiramente no Salão do Julgamento vindo de um corredor colocando timidamente a cabeça para dentro do ambiente primeiro. Thoth e Anúbis se entreolharam como se perguntassem um para o outro o que exatamente estava acontecendo, mas os dois apenas deram de ombros sem entender bem o que havia causado toda a raiva de Hórus.

— Hórus, por favor explique direito a situação… — pediu Osíris com um suspiro pesado enquanto Thoth se aproximava mais.

— O filho de Tutmosis I e Amon-Rá… — disse Hórus exasperado passando a mão pela cabeça careca.

— Assim parece que os dois são pais da criança…- comentou Thoth levianamente tentando não pensar nas impossibilidades daquilo.

— Apesar da bagunça com Amon-Rá, a criança ainda é primeiramente filho do Faraó Tutmósis I e da Rainha Ahmose. — disse Anubis.

— Não filho… — disse Hórus negando com a cabeça — Filha! É uma menina!

— Oh… — disse Osiris levemente surpreso.

Foi nesse momento também que, erguendo as sobrancelhas numa leve surpresa, Anúbis lembrava de como Anput mencionou que as deusas ligadas à maternidade e nascimento pareciam estar escondendo alguma coisa. Não era tão surpreendente assim ser uma menina, afinal, não era como se tivesse 100% de chances do primogênito de qualquer faraó ser menino. Sempre existia chances de ser menino, ou menina, ou sekhet.

Foi só Anúbis pensar em Anput que ela apareceu calmamente com Seshat conversando sobre como foi a inspeção do Nomo, que aparentemente haviam feito juntas. Mas logo a conversa das duas morreu quando notaram que parecia que algum problema estava começando ali.

— Hórus… você também sempre soube que isso era uma possibilidade. — lembrava Osíris enquanto Anput e Seshat chegavam perto de Anúbis silenciosamente — Não me lembro de Ísis ter mencionado que era uma menina.

— O que aconteceu? — perguntou Anput aos sussurros para o marido.

— Hórus está irritado pelo primogênito de Tutmósis I ser uma menina. — respondeu Anúbis baixinho.

— Eu perguntei para Hathor se era um menino saudável! — exclamou Hórus.

— Lembro disso… — comentou Osíris parando para pensar.

— Que eu me lembre… — disse Seshat timidamente e, a cada palavra, ficando mais atrás de Anúbis para que ele ficasse entre ela e Hórus — ela disse que era saudável, não que era um menino…

— Thoth, — disse Osíris suspirando como se estivesse tentando juntar toda a paciência que podia- Por favor, traga Hathor até aqui.

Thoth afirmou brevemente com a cabeça e no segundo seguinte sumia indo atrás da esposa de Hórus, com quem ele provavelmente não estava tão bem como antes desde que ela havia se fundido com Sekhmet. Enquanto isso, a discussão continuava.

— Qual o problema de ser uma mulher? — perguntou Anput, não na ingenuidade, mas realmente querendo saber quais palavras saíram da boca de Hórus apesar de ter boa ideia de quais seriam parte delas.

— Uma mulher não pode ter totalmente os poderes de um faraó a não ser que seja tomando conta do posto temporariamente pelo marido ou filho em situações específicas! — ralhou Hórus — Ela é a filha de Amon-Rá, era para ser um homem e portar o posto de faraó completamente!

— Talvez seja uma mudança muito bem-vinda… — disse Ísis — Homens só sabem pensar em guerra e guerra só gera mais mortes e inimigos.

— Guerra é o que fez e está fazendo novamente o Egito ser grande! — exclamou Hórus — É o que consegue boa parte do ouro que todos gostam, a segurança dentro de nossas fronteiras…

— E muitos dos mortos que chegam até aqui… — completou Anúbis dando de ombros — Pergunte para a família deles o que eles acham da ideia do pai, irmão, marido morrer em lugares cada vez mais longe e muitas vezes longes demais para recuperarem os corpos para serem mumificados.

— É uma honra lutar pelo Egito! — disse Hórus.

— Tenho certeza que muitos consideram uma honra de fato. — disse Osíris — Mas honra não apaga a dor da perda.

— Também é uma honra morrer cuidando da sua vida perto de sua casa porque um mercenário ou soldado inimigo invadiu sua vila e você estava no lugar errado na hora errada? — questionou Anput.

— Entendo que não gostam das guerras e elas realmente tem seus vários problemas… — admitiu Hórus erguendo levemente as mãos — Mas na atual situação em que estamos, precisamos de um líder forte

— E que garantia você tem que uma mulher não pode ser uma líder forte? — disse Hathor elegante e altiva entrando no Salão do Julgamento acompanhada de Thoth e segurando pela mão o pequeno Ihy, o mais novo dos filhos dela com Hórus que, apesar de já acumular alguns poucos séculos de vida, pareceu ter congelado nos 7 anos de idade.

Se Hórus tinha alguma resposta para aquela pergunta, ele pareceu ter a engolido muito profundamente. Hathor se aproximou olhando para Hórus como se estivesse o desafiando à rebater a fala dele, mas nenhuma palavra mais saiu da boca do falcão.

— E sim, — continuou Hathor — eu disse que era uma criança saudável, nunca disse se era menino ou menina. O bebê nasceu, é indiretamente ligado à Amon-Rá… não tem mais nada que você possa fazer a não ser esperar e ver o que o futuro promete para ela. Sei que você não se rebaixaria a ponto de fazer mal à criança por algo tão simples como não confiar em suas capacidades pelo simples fato de não ter um pau entre as pernas.

Anúbis pensou que aquilo parecia claramente mais Sekhmet falando, visto que Hathor era sempre tão mais gentil e amorosa. Mas não deixava de ter uma boa parte de Hathor naquela frase ainda, afinal até ela com certeza conseguia ficar de mal humor. A diferença era que, se fosse apenas Sekhmet, ela provavelmente teria elevado mais a voz, não ficado ali elegante como estava, e Hórus com certeza teria erguido a voz também e rebatido qualquer fala que fosse.

Foi então que Anúbis chegou a conclusão que provavelmente Osíris mandou chamar Hathor não para esclarecer o que tinha dito ou não dito para Hórus, mas sim para fazer o marido calar a boca.

— Certo… — disse Hórus ainda contrariado mas sem saber mais o que dizer — Vamos ver o que o futuro reserva para Hatshepsut então.

Apesar do clima estranho e tenso que nasceu ali, sem ter mais o que reclamar, a comoção foi lentamente desfeita e cada um voltou para seus afazeres enquanto conversavam sobre o ocorrido e sobre Hatshepsut. O clima havia ficado tenso demais entre Hathor e Hórus, assim, cada um foi para um lado totalmente diferente. Ficar no mesmo ambiente era desconfortável demais.

Contudo, conforme as notícias de que o tal bebê que Amon-Rá havia indiretamente sido o pai era uma menina, outros deuses insatisfeitos foram aparecendo. Deuses como Khonsu, Khnum, Shu insistiam que uma mulher não tinha o que era necessário para se tornar faraó. A discussão acabou criando uma união estranha de deusas como Ísis, Hathor, Tawaret, Anput, Seshat, Serqet e até mesmo Naunet defendendo Hatshepsut.

Mas, quer os deuses gostassem ou não da ideia de Hatshepsut como faraó, Tutmósis claramente tinha seus receios, pois não muito depois ele engravidou a segunda de suas esposas, Mutnofret. Mutnofret não era tão importante quanto Ahmose, que detinha o título de Grande Esposa Real, era, mas ela conseguiu fazer o que Ahmose não conseguiu, dar um filho para Tutmosis I. Assim, pouco depois de Hatshepsut nascer, veio ao mundo o pequeno Tutmosis II.

Com o passar dos anos, Hatshepsut e Tutmosis II cresceram amigavelmente como irmãos sem saber que, das sombras, seus pais e os demais oficiais de alto escalão do faraó diziam como era melhor que os dois se casassem no futuro. Afinal, o fato de ser filho do faraó e do sexo masculino não era suficiente para Tutmosis II ser tornar um faraó poderoso e amplamente aceito. Ele podia ser o herdeiro do sexo masculino mais velho, mas não havia vindo da Grande Esposa Real como Hatshepsut. Ahmose e Tutmosis I haviam deixado escondido dos demais que, além disso, Hatshepsut também era filha de Amon-Rá. Afinal, mesmo sem essa informação, já era unânime que os dois irmãos teriam que se casar para que Tutmosis II pudesse assegurar completamente o trono quando seu pai morresse.

Todavia, isso ainda não era uma preocupação imediata. O reinado de Tutmósis I ia muito bem. Não só o faraó era fisicamente forte apesar da idade, como também era um ótimo guerreiro e general.

Ano após ano as fronteiras do Egito cresciam sem parar graças à Tutmósis I e seu poderoso exército. Tutmósis I havia conquistado não só a Núbia, mas também muitas das terras ao redor do Nilo até alcançar o Mar Vermelho a leste ou entrar mais no deserto a oeste, toda a Península do Sinai e uma grande faixa de terra acompanhando o Mar Mediterrâneo indo desde arredores do Delta do Nilo até engolir completamente o que um dia viria à ser os Estados de Israel e do Líbano, incluindo até mesmo pequenas porções do que se tornaria a Jordânia e da Síria. Mais um pouquinho e ele chocaria fronteiras com a civilização Mitani, que ficava bem entre os egípcios e os hititas.

Nunca o império egípcio havia sido tão grande. Mas, tudo tem um fim. Assim, quando Hatshepsut e Tutmosis II eram meros adolescentes, Tutmosis I morreu. Sua múmia começou a ser meticulosamente preparada para ser sepultada num novo lugar cujo antecessor de Tutmosis I, que não era seu pai, havia construído a própria tumba num jeito diferente.

A era das pirâmides havia ficado para trás. Todos haviam chegado em consenso que elas não eram tumbas ideais. Eram caras demais e chamativas demais para ladrões que sabiam muito bem as montanhas de ouro que a tumba de um faraó guardava. Assim, ao invés de construir uma enorme tumba que poderia ser vista de longe, o antecessor de Tutmósis I, o faraó Amenhotep I, teve uma ideia. Amenhotep foi sepultado num túmulo profundamente escavado de dentro de enormes montanhas de rocha em um vale que acabou sendo batizado posteriormente de Vale dos Reis.

Longos corredores que desciam vários e vários metros, como se quisessem chegar até o submundo, levavam até enormes e luxuosas câmaras ricamente detalhadas e pintadas com trechos de vários livros mágicos que guardavam o sarcófago de um faraó. E foi assim que Tutmósis I mandou construir a própria tumba. No mesmo vale, mas numa parte diferente, descendo tão profundamente na rocha que parecia impossível chegar ao fim. Mas, no momento, a tumba profundamente escavada na pedra estava vazia esperando pelo seu morador que estava nos dias finais do demorado processo de mumificação.

Por mais que Tutmósis I tivesse sido um grande faraó, ele ainda era só mais um faraó. Assim, a atividade continuava normal no Salão do Julgamento enquanto todos sabiam bem que, quer seja infelizmente ou felizmente, Tutmosis II ia assumir o posto como faraó assim que seu pai fosse sepultado.

— Obrigada… — dizia a alma de uma mulher deixando as lágrimas de alívio escorrerem pelo rosto quando viu que a pena da verdade era mais pesada que seu coração — Obrigada Lorde Anúbis, obrigada Lorde Osíris.

— Seu coração e você fizeram todo o trabalho. — disse Osíris para a mulher sem sair de seu trono dourado.

— Mas, mesmo assim… senhor, obrigada por terem me guiado até aqui e pelo julgamento justo. — disse a mulher abaixando a cabeça solenemente.

Essa fala Osíris aceitou mais a ponto de afirmar brevemente com a cabeça com um sorriso leve no rosto. Disfarçadamente, Anúbis também sorriu. Era bom ser reconhecido depois de tanto trabalho duro afinal de contas. Mas provavelmente o sorriso dele não saiu tão fofinho quanto realmente era para a mulher, afinal ela só via ali um deus com cabeça de chacal, não o adolescente que estava ali embaixo.

— Então, de nada… — disse Anúbis querendo ao menos falar alguma coisa antes de estender a mão esquerda para o portal do Aaru — o Aaru lhe espera agora…

Com um sorriso empolgado, a mulher olhou para o portal que levava até o Aaru e o atravessou com o coração leve mas cheio de ansiedade de ver como era do outro lado e finalmente poder rever os familiares que haviam morrido tempos atrás, caso eles tenha chegado até o Aaru, claro. Depois que a mulher passou, Anúbis lentamente deixou a ilusão da cabeça de chacal sumir e olhou para Osíris que sorria satisfeito olhando para o Aaru.

— Gosto quando almas educadas e boas assim aparecem. — admitiu Osíris.

— É bem mais fácil com certeza. — disse Thoth anotando em seu papiro o destino final daquela alma e logo fazendo o papiro magicamente sumir — Bem, como não temos mais almas para julgar por enquanto, vou tratar de outros assuntos dentre os mortais.

— Ótimo… — disse Ísis gentilmente se aproximando de Osíris — Pois tenho assuntos à tratar por aqui…

— Oh, sim… — disse Osíris enquanto Thoth ia embora — Não me esqueci.

— Ahm… — disse Anúbis visivelmente ficando meio desconfortável percebendo que o assunto que Ísis queria tratar com Osíris não parecia ser exatamente “importante” — Eu vou… fazer umas múmias ali…

Apressadamente e já claramente sendo ignorado pelos dois, Anúbis sumiu dali e foi até a sala onde fazia suas múmias. Não havia tantos corpos ali no momento, na verdade, só haviam três. E, embora não estivesse necessariamente a fim de mumificar ninguém no momento, ele começou a trabalhar no primeiro corpo.

Ele foi seguindo cada etapa da mumificação que a séculos fazia em modo automático enquanto o silêncio do lugar e o pensamento de todos estarem ou fazendo outra coisa ou aproveitando a companhia de alguém, começou a deixa-lo extremamente incomodado. Apesar da sala ser devidamente iluminada, ela repentinamente pareceu-lhe escura demais, silenciosa demais, vazia demais, sufocante demais.

Sabia bem que Anput tinha ido até as praias e palácios que a civilização micênica tinha, mas não podia acompanhar ela para dentro das fronteiras de outra civilização. Com o Egito mais militar do que nunca, um deus como ele entrar assim no território dos outros sem nenhum acordo complicado prévio não teria bons resultados. Assim, ela foi junto apenas com Seshat, Sodpet, Nefertem e Qebui. Deuses que ninguém ligaria tanto assim.

Pensar nisso não só o deixava triste por não poder ver como era a civilização micênica, mas principalmente também o deixava se sentindo sozinho. Esses dois sentimentos fizeram aquela sala, anteriormente tão relaxante para ele, começar a ser sufocante, tenebrosa e desconfortável. Não tinha mais ninguém com quem falar. Os poucos deuses atualmente pelo Egito com quem falava era apenas sobre trabalho e isso não quer dizer necessariamente que se davam bem.

Com o foco rapidamente caindo, Anúbis eventualmente tirou a mão do buraco que havia feito na lateral do corpo para a retirada dos órgãos, e apoiou ambas as mãos sobre a mesa de pedra, pensativo, deixando um suspiro triste escapar os seus lábios. Nem um barulho escutava ali, nem uma goteira, nem um sopro de vento… nada. Apenas o silêncio sepulcral esperado daquela sala. Afinal, nenhuma outra alma viva estava ali com ele. Era apenas ele e os mortos.

Os únicos vivos perto seriam Ísis e Osíris que estavam lá no Salão dos Julgamentos provavelmente aproveitando a presença um do outro enquanto Ammit dormia em algum cantinho ou já caçava por um lanchinho demoníaco fora dali enquanto nenhuma outra alma chegava.

Suspirando pesadamente sentindo uma tristeza subir-lhe a garganta e aos olhos, ele olhou pro morto diante de si que, pelo o que bem sabia pelas memórias, parece ter tido uma vida animada e cheia de amigos apesar de poucas condições financeiras.

— Como se faz amigos, Bunakhtef? — perguntou Anúbis para o morto enquanto magicamente limpando suas mãos sujas de sangue seco e então sentando numa mesa de pedra vazia atrás de si.

Sabia que Bunakhtef não podia ouvir nem responder. Não ainda, pelo menos. Quem sabe quando a alma dele chegasse no Salão do Julgamento para ser julgada ele poderia repetir a pergunta. Assim, Anúbis abaixou o olhar para os pés pendurados no ar e perguntou-se o que podia fazer agora. Claramente não estava com vontade de mumificar ninguém no momento e nem conseguindo se concentrar tanto para isso. Checar seus sacerdotes? Potencialmente estressante e irritante, sem falar que não fazia tanto tempo assim que os checou pela última vez.

Sem saber o que fazer e um tanto depressivo, Anúbis deitou-se sobre a mesa de pedra e fitou o teto bege sem nenhum enfeite para atrair seu olhar. Ficou olhando o teto por vários minutos, deixando-se ser envolvido num silêncio extremamente desconfortável e depressivo.

Não parecia nada agradável ficar ali, simplesmente deitado, sem fazer nada, por horas e horas a fio só esperando os julgamentos recomeçarem. Especialmente considerando que o tempo ali passava mais devagar. Sem falar que essa ideia parecia terrivelmente deprimente apesar de certamente combinar com as emoções que ele sentia no momento.

Lembrando então que o sepultamento de Tutmosis I seria no dia seguinte, Anúbis tentou convencer-se a si mesmo que checar como os preparativos iam era uma ocupação minimamente aceitável. Assim, Anúbis deixou magicamente o submundo para trás e reapareceu dentro do palácio do faraó, em Tebas.

Ele andou pelos corredores luxuosos passando por serviçais, outros nobres e oficiais de alta patente sem que estivesse visível para ninguém. Apesar da desculpa de ver como iam os preparativos para o sepultamento de Tutmosis I, ele apenas via o movimento das pessoas e não tentava tanto assim buscar qualquer pista quanto a isso. Era um palácio normal como qualquer outro. Cheio de pessoas com acessórios de ouro puro, pinturas ricas nas paredes, muita comida, móveis banhados a ouro e um jardim incrível que desafiava a ideia de ali ser um deserto.

Contudo, o que não era comum a todo palácio, foi a menina que ele viu chorando sentada num banco do jardim. Com aparentemente cerca de 15 anos, o rosto oval, boca delicada, cabelos negros trançados delicadamente em dezenas de tranças que lhe caíam até os ombros, pele como a madeira da castanheira e um corpo que evidenciava que estava provavelmente um levemente acima do seu peso ideal, a garota chorava silenciosamente deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto até pingarem nos braços adornados por braceletes de ouro puro.

— Está tudo bem? — perguntou ele se aproximando da garota e finalmente se livrando da magia que o escondia de qualquer par de olhos mortais.

A menina levou um leve susto, mas ergueu os olhos chorosos para ele revelando um par de olhos doces mas extremamente inteligentes que se escondiam por trás das lágrimas. Se os breves segundos que ela travou olhando para ele com a boca um pouco aberta eram consequência dela notar que ele era um deus ou alguma outra coisa, ele não sabia dizer.

— Não…não está tudo bem… — respondeu a garota claramente ainda confusa e talvez até a balada com a aparição e a pergunta dele.

— Somos dois com um dia ruim então. — disse Anúbis ainda de pé olhando para as palmeiras que davam sombra para a garota.

— O seu também foi tão ruim quanto lembrar que vai enterrar seu pai amanhã? — perguntou ela.

— A véspera do enterro do meu pai seria um dia muito feliz pra falar a verdade. — admitiu Anúbis e o comentário tão diferente fez a garota soltar uma pequena risada.

— Credo… — disse ela tentando esconder a risada que julgava nada própria.

— Diz isso porque não conhece ele. — disse Anúbis dando de ombros.

— Você não é daqui do palácio né? — perguntou ela limpando delicadamente as lágrimas sem borrar o delineador que ela, assim como todos os egípcios, usavam — Nunca te vi por aqui e também nunca ninguém aqui chegaria do nada para falar comigo assim...a não ser que não saiba quem eu sou. Não que eu esteja reclamando, é bom ter alguém para conversar mas… Mais importante…o que quer por aqui?

— Não… não sou. — admitiu Anúbis — E eu sei quem é você. É a princesa Hatshepsut… Rainha a partir de amanhã. Quanto a mim… estava sem nada para fazer…

— Estava entediado e resolveu assim, do nada, invadir o palácio? — perguntou ela erguendo uma sobrancelha.

— Não é invasão. — disse Anúbis — Bem... não exatamente. Das poucas vezes que venho aqui, sempre sou bem vindo pelo faraó.

— Sabe que é o enterro dele amanhã né? — perguntou Hatshepsut julgando ele claramente como sendo alguém bem esquisito.

— Sei sim. Não era especificamente apenas de seu pai que estava falando. — explicou Anúbis.

Hatshepsut o encarou estranhando a pergunta enquanto juntava todas as informações que ele já tinha dado, seja diretamente ou nas entrelinhas de suas falas. Assim, num misto de preocupação e curiosidade, ela perguntou:

— Quem exatamente é você?

— Isso… não é uma pergunta que estou muito afim de responder no momento… — admitiu Anúbis com um suspiro — Se eu mentir, você não vai acreditar em mim. Se eu falar a verdade, ela vai causar um monte de reações que eu, sinceramente, não estou a fim de lidar com no momento.

— O que quer de mim escondendo até quem é? — perguntou ela séria.

— Apenas ter alguém pra conversar normalmente. — disse ele sem conseguir evitar um traço de tristeza passar pelo rosto.

Notas finais
REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Ihy - https://www.ancient-egypt-online.com/ihy.html Sekhet 1 -https://books.google.com.br/books?id=PeMJEAAAQBAJ&pg=PA97&lpg=PA97&dq=ancient+egypt+%22sekhet%22+gender&source=bl&ots=cuEdQ2KtPa&sig=ACfU3U3-ONI7wqJp2d44JDHFhtkN3M28FA&hl=en&sa=X&ved=2ahUKEwjeg_y22ZXwAhVVL7kGHfYYAxwQ6AEwDnoECBIQAw#v=onepage&q=ancient%20egypt%20%22sekhet%22%20gender&f=false Sekhet 2 - https://people.well.com/user/aquarius/egypt.htm Sekhet 3 - https://lgbta.wikia.org/wiki/Sekhet Sekhet 4 - https://en.wikipedia.org/wiki/Third_gender#Egypt Pirâmide Social Egípcia - https://www.ushistory.org/civ/3b.asp#:~:text=Egyptian%20society%20was%20structured%20like,Ra%2C%20Osiris%2C%20and%20Isis.&text=In%20the%20social%20pyramid%20of,some%20human%20beings%20to%20gods. Hatshepsut - https://www.britannica.com/biography/Hatshepsut Tutmosis I - https://en.wikipedia.org/wiki/Thutmose_I Tutmosis II - https://en.wikipedia.org/wiki/Thutmose_II Amenhotep I - https://en.wikipedia.org/wiki/Amenhotep_I#Burial Tumba de Tutmosis I - https://en.wikipedia.org/wiki/KV20 ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ obs : sim, os egípcios tinham 3 gêneros. não tem tradução ideal pro gênero sekhet. mas, é algo nos feeligns de andrógeno, não-binário e gênero fluido. geralmente é traduzido como eunuco mas n passa a ideia certa, então deixei como sekhet. obs 2 : entendam como quiser os breves segundos q a Hat travou olhando para ele kkk