A Morte Das Areias do Saara

97 A Princesa Que Queria Ser Faraó


Notas iniciais
oláaaaa mais um cap! desculpa a demora!

Quando a criança cresceu, subiu ao telhado da casa e viu um cachorro, que seguia uma pessoa que passava pela estrada. Ele disse ao seu assistente, que estava ao lado dele: "O que é isso (segue a pessoa) na estrada." Ele disse a ele: "Isso é um cachorro."

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

A jovem Hatshepsut encarou aquele rapaz por alguns segundos bem confusa. Não precisava de muito para julgar ele como sendo alguém esquisito. Quantas pessoas entram assim no palácio do faraó, se recusam a se apresentar com uma desculpa tão estranha e diz que só está querendo conversar? Era muito estranho.

Mas, para piorar tudo isso, embora a princesa conseguisse olhar para ele e notar o quão bonito ele era, ela também se preocupava com a própria segurança. Era óbvio que ele não carregava nenhuma arma, e isso aliviava ela enormemente. Contudo, por algum motivo, ela tinha uma sensação desconfortável, que lhe arrepiava os cabelos da nuca, que se ele quisesse feri-la ou algo do tipo, ele não precisaria de nenhuma espada, adaga ou arco e flecha.

— Olha, desculpa dizer isso, — disse Hatshepsut — Mas é meio estranho o jeito que você chega aqui, deixa de se apresentar, e diz que só quer conversar.

— Eu sei… — respondeu ele suspirando e coçando a nuca — Mas eu me apresentar e explicar direito tudo provavelmente ia deixar as coisas ainda mais estranhas… ou levar a conversa para rumos que eu não estou com paciência de explicar no momento. Mas não vim lhe fazer mal algum, notei sua expressão de desconfiada. Foi mera coincidência eu passar aqui na frente da entrada do jardim e notar você chorando.

Hatshepsut suspirou e desviou o olhar para as suas mãos pousadas sobre o seu colo, provavelmente pensando em seu pai, o motivo daquele choro de antes ter começado. Talvez ela também estivesse precisando conversar para distrair a mente com alguma coisa.

—Não posso simplesmente confiar na sua palavra de que não tem más intenções… — disse Hatshepsut tentando focar-se na conversa como se esta fosse uma bóia salva-vidas — ou ao menos eu não deveria. Alguma coisa me diz que você não está mentindo.

—Realmente não estou. — disse Anúbis de certa forma aliviado de ela ter acreditado nele, isso deixava qualquer conversa bem mais fácil.

—Mas…. Ainda acho estranha sua escolha de lugar para procurar uma conversa. — insistiu ela com uma leve risada que morreu logo em seguida pois não chegava ao coração em luto — Não seria mais comum ir buscar algum irmão ou irmã? Quem sabe algum amigo?

—Eu sou filho único. — justificou ele dando de ombros e ela ergueu a sombrancelha surpresa.

—Isso é raro. — disse ela — Amigos então?

—Estão longe… — disse ele claramente meio desconfortável abaixando a voz a cada palavra — … se é que contam ainda como amigos…

—Porque? Brigaram? — perguntou ela curiosa.

— Não… ao menos acho que não… — admitiu ele pensativo e não parecendo gostar muito dos rumos da conversa — Mas… não me sinto mais tão parte assim do grupo.

— Situação complicada pelo visto, mas acho que consigo entender um pouco. — disse ela não deixando de notar que talvez fosse melhor trocar de assunto — Senta… não parece ser muito legal ficar aí de pé.

Hatshepsut chegou um pouco mais para o canto do banco para dar mais espaço para ele mas, mesmo assim ele olhou para a metade vazia do banco em dúvida. Depois se encarar o espaço vazio com incerta por alguns poucos segundos, ele acabou por sentar-se lá mesmo.

Hatshepsut não sabia se era algo místico, ou simplesmente os hormônios da adolescência falando mais alto, mas quando ele chegou mais perto para sentar, a princesa sentiu os pelos do braço e da nuca arrepiando, seu rosto corando, e uma sensação esmagadora (e um pouco aterrorizante também) como se algo denso e inexplicável tivesse chegado perto dela.

Ela respirou fundo e tomou alguns segundos para se acalmar mas, apesar de Hatshepsut não parecer mais tão desconfiada dele, ainda ficou um clima estranho e silencioso por alguns minutos. Afinal, é uma das coisas mais prováveis de se acontecer quando se juntam uma pessoa presa na tristeza e apatia do luto e uma que não necessariamente sabia como começar conversas normais tão bem assim.

— Amanhã… seu irmão vai virar faraó né? — perguntou Anúbis eventualmente sem saber muito mais o que falar — Ninguém cogitou fazer de você faraó? Afinal, é mais velha e filha da Grande Esposa Real.

— Infelizmente não. — respondeu Hatshepsut rindo — Sou mulher então, por mais que tenha visto e aprendido muito vendo meu pai cumprindo todos os deveres de faraó, na cabeça de muitos sacerdotes e todo mundo mais, eu só sirvo para legitimar mais ainda a posse do meu irmão ao trono ao me casar com ele, já que ele é filho de uma esposa secundária. Eu não queria me casar com ele…

— Não? — perguntou Anúbis notando o quão frustrada ela parecia. Não era muito novidade irmãos se casarem dentro da realeza egípcia, mas ele nunca tinha falado assim tão intimamente com nenhum dos dois e visto aquela frustração que havia no olhar de Hatshepsut. Por um momento, lembrou-se de quando estavam preocupados com a possibilidade de Hórus nascer menina e terem que forçar Anúbis a casar… só de lembrar de como Hórus saiu, a ideia agora fazia Anúbis se arrepiar-se de pavor completamente.

— Não. — admitiu ela — Uma parte inocente e tola de mim queria ficar com alguém que eu realmente amasse, sabe? Mas, desde que meu pai morreu, tenho tentado me convencer de que casar por amor não é um luxo que existe com tanta frequência numa família real. Ainda mais sendo mulher… Afinal, se meu irmão quiser, quando ele crescer poderá ter o harém dele com diversas mulheres que ele realmente queira ficar com...

— Não me parece muito justo… — opinou Anúbis olhando para ela, que ainda estava com olhar um pouco cabisbaixo apesar de olhar para ele esporadicamente com o canto do olho mas desviando o olhar não muito depois — Mas quem sabe o que pode acontecer depois de amanhã? Muita coisa costuma acontecer com a troca de um faraó.

— Verdade… — disse ela apesar de ter soltado uma pequena risada como se não acreditasse tanto assim nele — as coisas podem até mudar, mas uma mulher faraó é mudança demais. É muito irrealista de minha parte ter o sonho tolo de realmente querer governar algum dia? Ser faraó.

— Eu não sei… — disse ele dando de ombros — Mas aposto que seria uma ótima faraó.

— Como sabe? — perguntou ela rindo verdadeiramente e finalmente olhando diretamente para ele — Só tivemos uma pequena conversa até agora, nada mais.

— Não sei… talvez seja uma sensação ou algo do tipo. — respondeu ele.

— Nossa, você é realmente bem esquisito. — insistiu ela rindo — Só fala as coisas pela metade, parece cheio de coisas que não quer contar então só me dá metade da informação. É um espião de outra nação por acaso e está se revoltando contra o local de nascença tentando deixar a futura rainha do inimigo curiosa?

— Pior que não. — admitiu ele com um sorriso fraco.

— E se fosse um espião, iria por acaso acabar com seu disfarce e admitir que foi pego assim em voz alta para mim? — questionou ela — Eu acho que não.

— É, não posso discordar desse argumento. — concordou ele — Mas realmente não sou um espião.

— Aceita jogar uma partida de cães e chacais? — perguntou ela repentinamente — Tenho um tabuleiro lá dentro.

Sem muito pensar, Anúbis afirmou logo com a cabeça já conhecendo o jogo a mais tempo do que Hatshepsut poderia imaginar. Satisfeita com a resposta, a princesa se levantou e indicou com a cabeça para que ele a acompanhasse para dentro do palácio explicando assim, sem palavras, que eles iriam jogar lá dentro. Esperando não causar nenhuma comoção, ou cruzar com qualquer um de seus sacerdotes que pudesse estar por ali resolvendo as preparações finais para o funeral de Tutmósis I, Anúbis seguiu a garota para dentro do luxuoso palácio.

Ela seguiu calma pelos corredores do que era, afinal de contas, o seu lar, enquanto Anúbis tentava chamar o mínimo de atenção possível sem fazer mágica nenhuma para não deixar ela desconfiada de novo ou revelar sua identidade. Isso, obviamente, não deu tão certo assim.

Alguns serviçais ou oficiais com os quais eles cruzavam nos corredores ou os viam de longe, começavam a lançar olhares curiosos cochichando entre si sobre quem era aquele rapaz acompanhando a princesa. Outros, pelos mais diversos motivos, tinham uma percepção melhor e o branco súbito que preencheu seus rostos dedurou que eles já tinham ao menos uma ideia parcial de quem ele era e alguns até repentinamente mudavam o caminho que seguiam de uma forma nada natural.

Como Hatshepsut era a princesa e futura rainha, não era tão surpreendente assim algumas das pessoas pararem tudo o que faziam para fazer um pequeno cumprimento respeitoso à garota. Mas, pelas expressões de medo em alguns rostos, e alguns cumprimentos mal feitos como se a pessoa não soubesse o quão exagerado era melhor abaixar-se com a mão direita sobre o coração, era possível notar que nem todos os cumprimentos eram para Hatshepsut.

Se Hatshepsut tinha ou não notado que a presença de Anúbis ali estava causando um comportamento diferenciado, Anúbis não sabia dizer. Mas, independente de qualquer olhar mais diferenciado, os dois chegaram no quarto dela onde ela prontamente pegou uma pequena caixinha que tanto guardava o jogo como era o jogo em si. Então, após irem para uma mesa com um par de cadeiras, eles começaram a jogar e distrair a mente das coisas que os entristeciam no momento.

Eles jogavam e conversavam entre e durante a partida mas, quando estavam preparando as peças para começar a terceira jogada e já se perguntando se talvez fosse mais interessante trocar de jogo, o momento foi brevemente interrompido quando um garoto entrou no cômodo aparentemente procurando por Hatshepsut. Ele era levemente parecido com ela apesar de aparentar ser talvez 1 ano mais novo. Também tinha um olhar inteligente, mas mais calmo que o da princesa, cujo olhar parecia misturar intelecto com doçura. Mas, o olhar dele estava escondido por trás de olheiras de cansaço.

— Irmã… — disse o garoto olhando para Hatshepsut mas lançando um rápido olhar de estranhamento e curiosidade para Anúbis — Estava procurando por você.

— Tut… O que foi? Está tudo bem? — perguntou ela olhando para o garoto.

Tut, um mero diminutivo para o verdadeiro nome do garoto, Tutmósis II. Filho de Tutmósis I e meio-irmão de Hatshepsut. No momento, Tutmósis II era um príncipe, mas, assim como sua irmã seria em breve rainha, ele seria em breve faraó.

— Eu… — disse Tutmósis II, aparentemente em dúvida se deveria falar o que queria, pois lançou um olhar de insegurança para Anúbis.

— Tudo bem, pode falar. — incentivou Hatshepsut.

— Estou nervoso com amanhã. — admitiu ele — Não ficam param de falar para mim “faça isso”, “faça aquilo”, “tem que agradar os deuses”, "têm que fazer tudo que seu pai merece como faraó”.... É muita coisa…

Hatshepsut se levantou e foi até o irmão colocando cada mão sobre um dos ombros dele firmemente como se tentasse passar forças para ele. Mas, apesar do olhar dela de preocupação com o irmão, por trás dessa preocupação era possível ver uma pontada de inveja.

— Vai ficar tudo bem. Eu vou estar lá ao seu lado. — lembrou Hatshepsut.

— Não toda hora. — disse Tutmósis II — Em algumas partes para a coroação não tem como.

— Você já fez algumas das etapas de coroação… — comentou Hatshepsut.

— A maioria das etapas da coroação são só várias e várias festas feitas até que você possa de fato sentar no trono com a coroa dupla do Alto e Baixo Egito, a pschent. — disse Anúbis acidentalmente lembrando os dois irmãos que ele ainda estava ali.

— Não é das festas que tenho receio…. elas são divertidas apesar da pressão de todo mundo me olhando. — disse Tutmósis II — Estou com medo do dia que, não sei bem quando, terei que me ajoelhar para os deuses e apresentar-lhes meu nome como faraó.

— Oh… — disse Anúbis com uma surpresa extremamente superficial.

— Será que se eu escolher um deus para me ajoelhar os outros não ficam com raiva? — perguntava Tutmósis II — Eu realmente queria escolher Thoth para isso, mas e se Hórus se sentir ofendido? Afinal ele é o que é tradicionalmente escolhido.

— Acho que papai também escolheu Thoth.- lembrou Hatshepsut, não deve ter problema — Já falou com algum sacerdote?

Anúbis queria muito bem dizer que sim, estava tudo bem. Hórus não esperava ser o escolhido sempre para isso. Dependendo do faraó, ele até preferiria que não fosse o escolhido inclusive. Afinal, Hórus fazia questão de “possuir” todo faraó que se ajoelhasse perante sua imagem para apresentar-lhe o nome. Mas alguns o deus realmente acabava não achando tão digno, ou inteligente, assim e acabava por abrir mão dessa pequena ajuda ao governante.

Quanto aos outros deuses, eles não faziam tanta questão desse papel de ajudar o faraó mesmo quando eram escolhidos no lugar de Hórus. Pouquíssimos haviam feito o mesmo. Osíris, por exemplo, algumas vezes era o escolhido mas, como não podia sair do Salão do Julgamento, acabava ficando por isso mesmo. Alguns outros deuses como Khnum, Thoth e até mesmo Sobek já haviam sido escolhidos. Mais do que uma vez, inclusive, apesar de Hórus ainda ser o que mais vezes era escolhido por uma grande diferença.

— E ainda tem tudo de amanhã… — continuava Tutmósis II — É o sepultamento de nosso pai. E se eu fizer alguma coisa errada que impeça que ele chegue até o julgamento diante de Osíris?

— Se quiser podemos repassar tudo… — sugeriu Hatshepsut.

— Bem, vocês estão claramente bem ocupados pelo o que resta do dia. — disse Anúbis levando-se de sua cadeira — Obrigada por toda a conversa e as partidas, princesa Hatshepsut. Mas acho que irei embora para deixar-lhe livre para resolver seus assuntos e dar a atenção que seu irmão claramente está pedindo e precisando.

— Eu que tenho que agradecer-lhe pelas conversas e o jogo. — disse Hatshepsut — Eu também estava precisando, mas não queria admitir.

— Bem, boa sorte amanhã, para ambos. — disse Anúbis indo em direção à porta.

— Obrigado…- disse Tutmósis II seguindo o deus com o olhar ainda tentando entender quem era ele.

— É… obrigada… — concordou Hatshepsut bem quando ele passava pelo portal de entrada do cômodo e então virava para a direita sumindo do campo de visão dos irmãos — Calma! Espera!

Ao lembrar-se repentinamente de que queria dizer algo mais para Anúbis, Hatshepsut gritou para que ele esperasse e correu a pouca distância que separava ela da porta. Mas, quando chegou no ponto onde Anúbis tinha deixado seu campo de visão, apesar de não ter mais nada ali além de um longo corredor, a princesa não achou o garoto.

Não tinha para onde ele ter ido. Não haviam outras portas por perto, nem nenhum lugar onde ele pudesse se esconder por algum motivo. Era como se ele tivesse simplesmente sumido no ar num piscar de olhos. O que era claramente a dica final que a garota precisava.

Deixando Tutmósis II para trás completamente confuso, Hatshepsut correu pelo palácio em busca de qualquer serviço que fosse. Não demorou muito até ela encontrar um general de meia-idade acompanhado de uma nobre que provavelmente era sua esposa.

— General Rahotep, Tameniut, vocês chegaram a ver o garoto de pele branca e cabelos pretos que entrou comigo no palácio? — perguntou Hatshepsut — Notei que muitos agiram estranhamente quando ele passou por perto.

— Sim… notamos… — confessou Tameniut, a esposa, que parecia tensa — Eu estava falando com Tasenirit sobre exatamente isso. Ela parecia bem assustada. Não estava conseguindo ficar calma o suficiente para me explicar nada direito… só ficava falando que talvez a hora dela tivesse chegado.

— A hora dela? De morrer? — perguntou Hatshepsut estranhando a afirmação e Tameniut só afirmou com a cabeça.

— O que não é surpreendente já que Tasenirit é bem idosa já mas… — comentou Rahotep — Eu tomaria cuidado com aquele rapaz, minha princesa. Não ouso dizer com todas as palavras quem acho que ele seja, mas desde quando eu era um garoto segurando nas barras de minha mãe, que trabalhou tanto para seu pai como para seu antecessor, o faraó Amenhotep I, eu me lembro daquele mesmo garoto aparecendo tanto para Amenhotep I como para Tutmósis I. Parecia que falavam sobre as tumbas dos faraós mas, o mais perturbador, é que ele não pareceu ter envelhecido um dia sequer mesmo que mais de 30 anos afastem a primeira vez que o vi e o dia de hoje.

— Rahotep não ousa falar, mas eu ouso. — disse Tameniut — Não nos enganemos pela aparência provavelmente falsa de um jovem, aquele homem é um deus sem dúvida. Osíris ou Anúbis, com certeza.

— Não fale isso… se estiver errada pode acabar ofendendo algum deus. — disse Rahotep claramente assustado com a possibilidade.

Quer Hatshepsut tivesse ou não tempo de sair por aí tentando investigar quem ele era, ainda era fato que, com o sepultamento do faraó no dia seguinte, ela tinha muito o que se preocupar. Exatamente pensando no quão ocupada ela poderia ficar naquele restinho de dia, Anúbis chegou a conclusão que realmente era melhor ter ido embora. Contudo, isso também significava que ele não sabia bem o que fazer para terminar o seu dia.

Deixando a cidade de Tebas para trás, com o sol se aproximando do horizonte no oeste, Anúbis reapareceu no meio do deserto. Não havia nada além de areia ao seu redor. Era um pequeno ponto numa imensidão de areia laranja-amarelada. Parecia uma solidão plausível que ele havia se identificado e não tão sufocante quanto o submundo tinha sido algumas horas antes. Ou talvez a sensação estava diferente por ter achado Hatshepsut para conversar.

Com o coração ainda solitário, mas mais leve, ele deixou o silêncio calmo e tranquilizador do deserto lhe envolver. Tendo apenas o sol e a areia como companhia, ele se sentou no alto de uma duna de areia e ficou apreciando sozinho o pôr do sol colorir o céu e a areia como uma linda pintura na qual as cores dançavam até o cair da noite.

Quando a noite finalmente caiu e apenas a lua e as estrelas podiam ser vistas no meio da escuridão, Anúbis voltou para o Salão do Julgamento na esperança de ter alguma coisa para fazer. Encontrou, felizmente, algumas almas que precisavam de julgamentos. Se sentiu um pouco culpado pela morte de alguém lhe causar alívio mas, como os outros deuses pareciam ter usado muito bem seu tempo livre, melhor do que Anúbis com certeza, aproveitou para tirar a mente desses pensamentos enquanto julgava aquelas almas brevemente.

Até que, enfim, depois de uma noite terrivelmente parada, a manhã chegou e com ela também chegou o enterro de Tutmósis I. O cortejo fúnebre se preparava para sair do palácio com a família do faraó diante de seu sarcófago. Travado diante de todos, vestido como um rei, apesar da ausência da pschent, o jovem Tutmósis II tentava se acostumar ao peso e a pressão que cada dia mais caía sobre seus ombros.

— Tut… — sussurrou Hatshepsut logo atrás do irmão — Ande…

Como se finalmente tivesse lembrado como se andava, Tutmósis descongelou e tentou andar o mais altivamente que conseguia. Não era fácil tentar se mostrar como um faraó poderoso com míseros 15 anos, mas a cada passo que dava Tutmósis II parecia ficar melhor nisso apesar de a irmã não parecer ter qualquer dificuldade.

Claro que ninguém ali, nem mesmo Hatshepsut, teria notado que do alto da construção de melhor visão para o cortejo fúnebre, Anúbis estava invisível para todos acompanhando o cortejo com o olhar. Era mais uma forma de gastar tempo do que ser qualquer um dos deveres dele. Mas, apesar de não ver ninguém, Hatshepsut sentia que havia alguém os observando. Era uma sensação ridícula, pensou ela, afinal toda Tebas estava de fato acompanhando o cortejo então óbvio que muitos olhos estavam os observando. Mas, uma sensação no fundo de seu peito lhe dizia que havia algo mais acompanhando o cortejo de seu pai.

Notas finais
REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Cães e chacais - https://en.wikipedia.org/wiki/Hounds_and_jackals Jogos Antigo Egito - https://www.metmuseum.org/toah/hd/anbd/hd_anbd.htm Coroação - https://en.wikipedia.org/wiki/Coronation_of_the_pharaoh Coroação 2 - https://www.jstor.org/stable/3854328?seq=1 pschent - https://en.wikipedia.org/wiki/Pschent