A Morte Das Areias do Saara

98 A Rainha Que Queria Ser Faraó


Notas iniciais
antes de começar, eu queria esclarecer umas coisas caso alguém tenha ficado confuso mas é algo q já tentei passar a várias vezes através do texto durante toda a história. Os faraós eram polígamos, eles podiam ter várias esposas se quisessem. Dentre essas várias esposas, uma era a chamada Grande Esposa Real e, consequentemente, a rainha. Preferencialmente, o herdeiro do trono tinha q não só ser filho do faraó, como tbm da Grande Esposa Real. O Tutmosis II não é filho da Grande Esposa Real e, sim de uma esposa secundária. Por isso, pra toda a galera chata com poder ou q gosta de tretar aceitar ele no trono, preferencialmente, ele tem q casar com a Hatshepsut, pq ela é filha da Grande Esposa Real. Quem casar com a Hatshepsut tem certo poder em se declarar faraó, mesmo se n for o Tut. Por isso o Tutmosis II tem q casar com ela pra evitar brigas. A Hatshepsut pode ser rainha, mas ela n pode ser faraó. Contudo, as rainhas não são meros enfeites como em outras civilizações. elas são mto poderosas apesar de ainda perderem em poder do faraó. Quando o faraó está longe na guerra ou é jovem demais, as rainhas podem exercer um papel semelhante ao faraó. Elas podem fazer tudo q o faraó faz caso ele não esteja disponível para governar, mas tudo é feito no nome do faraó em questão. Então... meio q elas podem mandar e desmandar se o faraó n puder, mas mesmo assim tudo tem q tá com o nome do faraó assinado. Consequentemente, quando os faraós vão pra guerra (pq eta galera pra gostar de guerra) as rainhas geralmente acabam responsáveis por todo o resto das coisas. mas ainda assinando tudo no nome do faraó. enfim, bom cap :3 SOBRE A IMAGEM DO CAP: ela é da (até então) entrada do templo de Karnak. bem nas ultima das duas fachadas construídas por Tutmósis I que são mencionadas nesse capítulo :3

A criança disse-lhe: "Seja-me trazido um como este." O atendente foi e repetiu essas coisas a Sua Majestade.

Sua Majestade disse: "Que seja conseguido para ele um cão caçador de javalis, para correr em sua frente."

Então eles conseguiram para ele um cachorro.

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”



Falar que o templo de Karnak era só mais um templo era diminuir muito sua importância. Logo ao lado da cidade de Tebas, na margem leste do Nilo, Karnak era um complexo de templos que nascia num grande espaço vazio e rapidamente ia adquirindo um tamanho simplesmente absurdo, tanto para cima como para os lados. Afinal, cada faraó que governava fazia questão de adicionar qualquer coisa, por menor que fosse, à beleza que era Karnak.

Parte das adições feitas à Karnak foram inclusive feitas pelo falecido Tutmósis I, que construiu duas enormes novas fachadas de pedra para o templo ampliando-o de tamanho, além de um novo muro. Tanto nas fachadas, como no muro, foram feitas cenas ricas e coloridamente detalhadas das vitórias do faraó e de momentos de sua vida que ele queria que fossem lembrados na posterioridade. As fachadas criadas por Tutmósis I eram tão grandes que até mesmo no portal de entrada bem no meio quatro andares de figuras humanas conseguiam ser pintadas maiores do que a altura de uma pessoa normal.

Mas as duas fachadas não foram suficientes para o faraó. Ele também acrescentou frontalmente dois obeliscos na frente da nova fachada do templo. Todo esse conjunto de adições era de uma altura tão impressionante que dava jus à expressão de ‘obras faraônicas’.

Qualquer pessoa que entrasse em Karnak, mesmo Anúbis, que agora o fazia andando calmamente dentre os sacerdotes, que se afastaram e se curvaram com sua aproximação, facilmente se sentiria como uma mera formiga num universo de gigantes.

Como um complexo de templos e não um único templo, vários deuses eram adorados em Karnak. Contudo, a parte central e maior de Karnak era para um deus, Amon-Rá. Exatamente por isso, Anúbis não achou que era uma boa ideia simplesmente aparecer no meio do templo depois de ter deixado o cortejo fúnebre de Tutmósis I para trás. Não só pela importância de Amon-Rá, mas também porque, em alguns momentos aleatórios, ele ainda não parecia tão bem e parecia ser mais profundo do que simplesmente se confundir entre ser Rá ou Amon-Rá.

Ninguém interrompeu o caminho de Anúbis até as partes mais profundas do templo, onde apenas os sacerdotes e o faraó poderiam entrar. Assim, não houve qualquer impedimento quando ele cruzou as duas enormes fachadas de Tutmosis I, entrou no jardim interno do templo e então deixou a parte aberta do templo e entrou num salão fechado e com as paredes enfeitadas onde, dentre objetos, oferendas, e uma grande estátua de Amon-Rá, estava Amon-Rá em pessoa lendo o texto nas paredes.

— Já li os textos nas paredes de Karnak várias vezes… — disse repentinamente Amon-Rá aparentemente notando, mesmo sem ver por estar de costas para Anúbis, que alguém havia entrado na sala onde até então ele estava sozinho — …essa parte tem um cunho mais religioso mas… os relatos das histórias de vida dos faraós nas outras paredes… eu sempre me divirto em ler. É engraçado como eles gostam de aumentar os feitos e esconderem os erros ou deturpá-los até que pareçam um acerto.

— É fácil mudar uma história ao seu favor quando você é o único a contá-la. — disse Anúbis.

— Os textos mais antigos, que não tem mais ninguém vivo para testemunhar seus acontecimentos, quer sejam mentirosos ou não, serão tomados como verdade a não ser que algo prove o contrário por algum outro meio. — disse Amon-Rá — Mas, mesmo assim, em qual versão confiar de algo que você não presenciou? E quanto pode-se confiar?

— Talvez na versão que tiver mais provas? Se tiver algo do tipo… — sugeriu Anúbis — Mas… no quanto… é difícil ter total certeza de algo assim.

— De fato. — concordou Amon-Rá finalmente se virando para Anúbis — Mas você não veio até aqui para ouvir os pensamentos de um velho. O que quer, Anúbis?

— Não tenho certeza se eu deveria ter vindo até aqui ainda, pra falar a verdade… — admitiu Anúbis desviando o olhar rapidamente.

Paciente, Amon-Rá apenas observou Anúbis enquanto esperava calmamente o jovem deus decidir se tinha algo a resolver com ele ou não. Anúbis pensou por mais alguns segundos, seus olhos percorrendo as paredes pintadas com escritas complicadas demais para serem lidas por muito mais da metade do povo que a tinha aquele idioma como nativo, e então tomou o primeiro passo para a sua decisão final.

— O sepultamento de Tutmósis I está quase no fim…- disse Anúbis um tanto inseguro — Estão colocando o sarcófago em sua tumba.

— Sei disso. — disse Amon-Rá calmamente esperando onde Anúbis queria chegar.

Por breves segundos, Anúbis se lembrou de como, durante a procissão fúnebre de Tutmósis I, Hatshepsut parecia não só lembrar Tutmósis II de algumas coisas que ele deveria fazer, como também parecia procurar por algo. O jovem deus notou como a princesa, em breve rainha, olhava ao redor discretamente e várias vezes olhava para onde ele estava. Não havia como ela ver ele, mas Anúbis notou que, embora ela não pudesse ver, parecia saber que havia algo ali onde ele estava.

— Tutmósis II… ele… não parece de todo ruim mas… — continuou Anúbis — Seria tão ruim assim Hatshepsut ser faraó? Ela parece ser muito inteligente e perspicaz.

— Tutmósis II também é inteligente… — disse Amon-Rá — Mas não, não teria problema em Hatshepsut ser faraó. Ao menos não há nenhum problema lógico. Apenas as reclamações e complicações de quem não a aceitaria no poder por motivos que creio não precisar dizer.

— Então…- disse Anúbis — porquê n-

— Não. — respondeu Amon-Rá prontamente interrompendo Anúbis, mas ainda sem perder a calma — Não irei interferir na sucessão do trono e nem você deveria. Não só seus assuntos são com os mortos, não com os vivos, como também devemos deixar os mortais criarem sua própria história. Tal como as paredes desse templo, mas com palavras mais verdadeiras e de efeitos mais certeiros e rápidos. Entendo que muitas vezes seja frustrante não ver a história percorrendo os rumos que prefere, mas uma intervenção direta nossa é potencialmente catastrófica. Imagine o estado do mundo se todo deus resolver influenciar diretamente o rumo de sua civilização. Num piscar de olhos estávamos travando enormes guerras divinas com potenciais de aniquilar todos.

— Não estou falando para matarmos Tutmósis II e ameaçarmos os comandantes, sacerdotes e conselheiros para que aceitem Hatshepsut no poder. — explicou Anúbis — Mas talvez pelo menos dizer para ela que ela é sua filha…

— Um segredo desses não ficará escondido por muito tempo, não importa se todos nós combinamos de não deixar ela saber. — disse Amon-Rá — Mas, ele será revelado na hora certa. Muito cedo será mais prejudicial que útil. Tarde demais, será... bem… tarde demais. Mas, na hora certa o passo final dependerá apenas dela. A pergunta é se ela fará o necessário…

Enquanto isso, na margem oposta do Nilo, no Vale dos Reis, o vento soprava sereno, mas levantando alguns grãos de areia branquinha mesmo dentre os pés das poucas pessoas que estavam paradas diante de uma abertura escavada na face de um dos morros do vale. A abertura era grande o suficiente para uma pessoa passar… e até mesmo um sarcófago. Era também inclinada e ia tão profundamente na terra que a escuridão engolia seu interior rapidamente.

O escuro corredor cortado na pedra serpenteia por mais de 213 metros, descendo e descendo até chegar à câmara de sepultamento a cerca de 97 metros abaixo da superfície do vale. Foi nessa câmara tão profunda que o sarcófago de Tutmósis I foi depositado diante do olhar enlutado de seus filhos, demais familiares e alguns generais proeminentes que agora viam a entrada ser selada com uma pesada pedra.

A poeira criada pela areia levantou brevemente quando a pedra foi colocada em seu lugar e a cena pareceu, para Tutmósis II e Hatshepsut, como uma conclusão para o capítulo que foi a vida do pai deles. Ali, diante da tumba do pai, os dois fizeram pedidos bem parecidos mentalmente.

“Oh Anúbis, protetor e juiz dos mortos” pensava Tutmósis II “Por favor, proteja o corpo de meu pai para que ele não se vá e guie-o para diante de Osíris.”

“Oh Anúbis… “ pensava Hatshepsut “Por favor, não deixe que o corpo de meu pai se perca, ajude-o a chegar diante de Osíris para um julgamento justo e final e… quando estiver precisando de companhia pode vir jogar e conversar comigo novamente.”

Doía ver no peito dos dois irmãos ver a família partindo. Muitos anos atrás, antes de os deuses decidirem tentar dar à Tutmósis I uma ajudinha para conseguir Hatshepsut como filha, ele havia tido outros filhos. Dois garotos. Mas ambos morreram ainda muito jovens, antes de Hatshepsut estar sequer nos planos dos deuses e foi por isso o faraó ficou tanto tempo sem ter um herdeiro e partiu tão cedo na vida de Hatshepsut e Tutmósis II. Além disso, quando Hatshepsut eram menores, chegaram a ganhar uma irmãzinha. Esta também não aguentou e morreu ainda muito jovem. De cinco filhos tidos por Tutmósis I, apenas dois sobraram para continuar seu legado.

— Majestades… — disse o general Rahotep — Podemos voltar para o palácio?

Os dois jovens se entreolharam preocupados. Sabiam bem o que os esperava quando voltassem para o palácio. Não só uma festa, que era normal fazerem depois de sepultar o morto, como também o casamento deles e mais uma das partes necessárias para a coroação de Tutmósis I. Com o faraó enterrado, Tutmósis I praticamente já poderia se chamar de faraó embora ele ainda fosse, no dia seguinte bem cedo, apresentar aos deuses seu nome como novo governante do Egito.

Assim, com os dois jovens preocupados pelos próximos momentos, todas aquelas pessoas voltaram para o palácio real, onde a festa de despedida de Tutmósis I estava já preparada, só esperando. Depois que chegaram na festa, apesar da fome que incomodava as barrigas depois de tanto tempo participando da procissão e ritos fúnebres de Tutmósis I, Tutmósis II e Hatshepsut tiveram que esperar para comer. Era necessário conversar com algumas pessoas e darem boas vindas à outras, mesmo que nenhum dos dois quisesse estar ali. Mas, pensaram, era melhor estar ali do que onde estariam com o cair da noite.

Depois de algum tempo de festa, com um copo de vinho nas mãos, Hatshepsut escapou da concentração de pessoas por uma porta que levou-a para um corredor mal iluminado. A festa não estava tão agitada assim, afinal o motivo central dela ainda era o sepultamento de Tutmósis I, mas ela ainda sentia que precisava de um pouco de ar fresco ao pensar que no final daquela noite teria que se deitar com seu irmão.

Fugindo da multidão, ela logo se viu na sacada do próprio quarto. Ou melhor, do ex-quarto, já que todos esperavam que ela se mudasse para o maior quarto do palácio, o quarto do faraó, o quarto de seu pai. Ela se sentou no pequeno muro da sacada com o copo de vinho nas mãos e olhou para a lua bela e calma que brilhava no céu e era refletida nas águas do Nilo logo além.

O momento de calma de Hatshepsut foi interrompido quando ela ouviu uma voz vinda da entrada de sua sacada com uma bela vista para Tebas.

— Acho que já posso te chamar de rainha Hatshepsut…

A garota se virou e, não muito surpreendentemente, notou que quem havia tão facil e imperceptivelmente entrado em sua sacada, havia sido Anúbis.

— Não me sinto tão rainha no momento.- admitiu ela com um sorriso fraco soltando um suspiro logo em seguida e então voltando a olhar para a cidade — Talvez amanhã eu me sinta mais rainha. Vim aqui em cima e notei como dá para ver boa parte da cidade e… comecei a pensar como todas essas pessoas, e aquelas também que estão longe demais para que meus olhos alcancem, agora dependem de mim e meu irmão para protegê-las e guiá-las. Imagino que deva saber como é ter tantas pessoas contando com você…

— Bem, sim. Embora de um jeito bem diferente. — respondeu ele.

— Eu deveria estar sentindo um medo da pressão e responsabilidade que isso é? — perguntou ela — Não nego que é uma enorme responsabilidade mas, também sinto como uma honra e um dever. Eu quero guiar essas pessoas, dar um Egito calmo e pacífico para elas morarem… mas como rainha tem um limite do que posso fazer.

— Acho que você vai ficar bem. — disse ele — Vai conseguir ser uma ótima rainha.

— Espero que sim. — disse ela.

— Seu irmão pretende ir para a guerra como seu pai? — perguntou ele.

— Provavelmente. — confirmou ela — Por um lado isso é ruim. Guerra causa mortes. Mas, por outro lado, se ele ficar focado demais na guerra, eu posso cuidar das outras coisas em seu lugar, tal como minha mãe fazia como meu pai, tal como as rainhas sempre fazem. Mas é ganância demais de minha parte querer ter uma opinião na guerra também? Para poder acabar com ela, caso isso seja sequer possível.

Anúbis se aproximou cruzando os braços e apoiando-os sobre o pequeno muro da sacada enquanto pensava. Não pensava na resposta para o questionamento de Hatshepsut, mas sim na conversa que teve com Amon-Rá. Embora o poderoso deus não tivesse lhe dito exatamente quando era o momento certo para revelar para Hatshepsut que ela era filha de Amon-Rá, Anúbis sabia que a hora não era aquela. No entanto, a informação coçava em sua língua enquanto ele pensava que Hatshepsut provavelmente teria o que seria necessário para, na hora certa, pegar o trono para si.

— Não acho que seja ganância demais. — disse Anúbis eventualmente depois de alguns segundos de silêncio enquanto tomava cuidado para não acabar falando demais — É filha do faraó e da Grande Esposa Real, é a mais velha… num cenário um pouco diferente, seria você que estaria indo dormir hoje com o título de faraó sobre si.

— Diz se eu tivesse nascido homem… — disse Hatshepsut sem rodeios.

— Bem… sim… — admitiu ele.

Nada surpresa, Hatshepsut levou o copo de vinho até os lábios e bebeu um pouco enquanto fitava a cidade de Tebas. Depois de alguns segundos de silêncio, o olhar da rainha lentamente escapou para fitar o garoto ao seu lado. Mas, com medo que ele notasse ou algo do tipo, ela voltava a olhar para a cidade.

— Você… — disse Hatshepsut sem saber como falar o que queria — … o que eu disse… ou melhor, pensei, hoje mais cedo…

— Se eu ouvi? — perguntou Anúbis soltando uma leve risada — Eu sabia que não ia demorar muito para você descobrir quem eu era mas, admito que foi mais rápida do que imaginava.

Menos tensa, Hatshepsut soltou uma risada. Tinha ficado com um pouco de medo de que sua conclusão estivesse errada ou que tivesse ofendido ele de alguma forma. Mas, considerando que ele não parecia estar com raiva e que parecia ter de fato escutado sua prece silenciosa, então tudo parecia estar bem.

E, de fato, assim como Anúbis disse, ele sabia que era uma mera questão de tempo até Hatshepsut descobrir que aquele jovem estranho com quem ela havia conversado e que havia se recusado a se apresentar, era Anúbis. Mas ele não esperava que, quando estava lá diante de Amon-Rá conversando, ele fosse escutar, dentre várias outras preces, a prece de Hatshepsut provando que já havia descoberto quem ele era e, ainda assim, conseguindo ser simpática e informal o suficiente para chamá-lo para jogar e conversar.

— Bem… — disse Hatshepsut — admito que aquela hora que te chamei pra jogar Cães e Chacais ontem foi também uma desculpa para fazer você entrar no palácio comigo. Você havia dito que era bem vindo lá então era provável que tivesse alguém que soubesse qualquer coisa que fosse sobre você. Então eu queria que os outros te vissem e talvez falassem com você. Sinceramente não esperei ver algumas pessoas fugindo de medo ou se curvando aparentemente para você, não para mim.

— Isso… foi esperto… — admitiu ele olhando para ela claramente surpreso, não tinha passado pela cabeça dele que o convite para jogar dentro do palácio tivesse outras intenções por trás.

— Obrigada. — disse ela — Pois bem, depois foi só eu questionar as pessoas que tinham te visto. Depois de falar com o general Rahotep e sua esposa Tameniut, cheguei a conclusão que você ou era Osíris, ou era Anúbis. Rahotep falou que você já tinha vindo falar com meu pai sobre a construção da tumba dele, então tudo o que precisei depois disso foi encontrar o arquiteto da tumba de meu pai e pronto. Ele não tinha te visto entrando comigo no palácio mas, sua descrição foi facilmente identificável.

— Vejo que claramente te subestimei. — disse ele surpreso.

Hatshepsut sorriu confirmando com aquela conversa toda outra de suas conclusões, mas essa, ela não diria em voz alta. O motivo de Anúbis não ter se apresentado antes, nem ter tido nenhum comportamento diferente do dia anterior agora que ela sabia quem ele era, e ainda por cima ter aparecido ali tão informalmente depois de sua prece, que também havia sido muito informal, havia confirmado para Hatshepsut que ele queria ter alguma conversa normal. Nada da distância criada pelo fato de ele ser um deus, nada do medo ou referência exagerados que alguns poderiam mostrar.

De fato, quando Anúbis havia aparecido ali na sacada dela, ele estava um pouco apreensivo com como a rainha iria lhe tratar. Mas, agora que ela estava tratando ele tal como havia tratado no outro dia, como um novo amigo, o coração de Anúbis ficou mais aliviado, embora não totalmente.

Anúbis sabia muito bem o que fazer amizades com mortais significava no longo prazo e, exatamente por causa disso, de certa forma odiava que estava começando a ver a garota como uma amiga. Contudo, era confortável conversar com ela. Assim, ele só torcia para que não se arrependesse daquela aproximação quando Hatshepsut eventualmente morresse.

— Mas, devo dizer, quando imaginava como seria o grande Anúbis, eu não imaginava alguém que parecesse ter quase a minha idade. — admitiu ela — Porque usa esse disfarce?

— Por não ser um disfarce… — admitiu ele — Esse é realmente eu.

— Oh! — exclamou Hatshepsut com os olhos arregalados claramente surpresa — Isso… é inesperado… e a tal cabeça de chacal?

— Costumo usar quando vou julgar as almas apenas. — admitiu ele — É meio difícil se impor sobre algumas pessoas quando você parece ter a idade do filho ou do neto delas.

— Ideia interessante e que parecesse funcionar inclusive. — admitiu ela — Espero que minha ideia para hoje a primeira noite desse casamento forçado também funcione.

— Boa sorte… — disse ele — Imagino um pouco seu desespero. Antes de sabermos se Hórus ia ser homem ou mulher, estavam falando de me casarem com ele se fosse mulher.

— Sério? — perguntou ela rindo e ele se conteve em afirmar com a cabeça — Realmente não consigo imaginar a cena.

— Eu prefiro nem tentar imaginar. — admitiu Anúbis olhando brevemente para ela — Eu… na verdade só havia saído do submundo para ver o cortejo fúnebre de seu pai. Já me demorei demais por aqui. Acho melhor eu voltar.

— Eu também não deveria ficar tanto tempo longe da festa. — disse Hatshepsut — Mas… o convite mais cedo, não foi brincadeira. Você viria aqui mais vezes conversar e jogar algo?

— Nem sempre tenho tempo mas… tentarei. — prometeu Anúbis com um pequeno sorriso que foi refletido por Hatshepsut.

— E é provavelmente agora que você some do nada que nem fez da outra vez? — perguntou ela rindo.

— É sim. — confirmou ele com um sorriso segundos antes de sumir como se tivesse repentinamente se transformado numa névoa negra que logo se dispersou até sumir por completo.

Enquanto a festa no palácio continuava, no Salão do Julgamento as coisas iam bem mais calmas. A conversa fluía entre Osíris, Thoth, Anput e Seshat. Aparentemente, o pequeno grupo de Anput havia acabado de chegar das terras minóicas, algo que era inesperado para Anúbis, que olhou para as duas garotas com surpresa no olhar.

— Achei que só voltaria depois de amanhã… — disse Anúbis assim que viu Anput.

— Nefertem e Qebui ficaram por lá. — explicou Anput — Eu, Seshat e Sodpet resolvemos voltar por enquanto. Amanhã iremos de novo pra lá.

— Lá é tão bom assim? — perguntou Anúbis.

— Elas estavam nos contando agora mesmo sobre a maravilha que é o palácio de Knossos — explicou Osíris.

— Ah sim, o palácio é lindo! — disse Anput — Ele sofreu um pouco por causa de uma erupção anos atrás, mas ainda está lá. Tem uns desenhos, paredes e pilastras pintados num tom tão belo e chamativo de vermelho e azul que combina muito com o verde da ilha.

— Quero muito ver esse palácio… se os deuses minóicos pararem com essa frescura de não quererem se misturar. — reclamou Thoth.

— Ah não só o palácio. — disse Seshat — As praias de algumas ilhas são simplesmente lindas.

— Sim! — concordou Anput — Ficamos algum tempo tentando achar alguma ilha que não tivesse ninguém, porque assim eu talvez poderia te levar lá sem nenhum dos deuses minóicos reclamar mas…

— Sem sucesso até agora, imagino. — chutou Anúbis e Anput suspirou pesadamente confirmando com a cabeça.

— Mas não vamos parar de tentar. — prometeu ela segurando a mão dele e entrelaçando seus dedos com os dele — Sinto falta de viajarmos juntos, e me sinto mal em te deixar aqui sozinho.

— Se não acharmos uma ilha assim, eventualmente os deuses minóicos vão aceitar interagir com outros e poderemos tentar visitar sem ser escondido. — sugeriu Anúbis segurando firme a mão de Anput que estava entrelaçada na sua e então levando até seus lábios para dar-lhe um beijo nas costas da mão.

— Sim. — concordou Anput — Aliás, o que esteve fazendo enquanto estive fora? Parece que ficaram algumas horas sem julgar ninguém.

— Hoje foi o sepultamento de Tutmósis I. — explicou Anúbis — Aproveitei que o Salão do Julgamento estava parado para ir assistir e conversar um pouco com a Hatshepsut.

— A filha dele? — perguntou Anput surpresa.

— Não contou que ela é filha de Amon-Rá não, né? — perguntou Osíris.

— Não. — garantiu Anúbis — Nem tocamos no nome de Amon-Rá.

— Mesmo assim, cuidado para não acabar falando demais. — alertou Osíris.

— Uma preocupação válida, ela é bem inteligente.- disse Anúbis — Não me surpreenderia se ela descobrisse por conta própria sem ninguém lhe contar nada.

— Deixando a Hatshepsut de lado, — disse Thoth olhando para Seshat — trouxe-me algum texto de lá?

— Oh sim… — disse Seshat fazendo aparecer em sua mão um rolo de papiro e entregando para Thoth — Passei a limpo um dos textos que vi escrito numa parede. Espero ter copiado corretamente.

Ignorando a empolgação de Thoth com o que era um pedaço novo de conhecimento, Anput olhou para Anúbis com uma expressão triste e preocupada. Como estavam ainda de mãos dadas, ela puxou-o levemente para longe dali, em direção à sala de mumificações.

— O que foi? Está tudo bem? — perguntou ele.

— Acho que precisamos conversar. — disse ela.

Notas finais
REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Sepultamento - https://www.worldhistory.org/Egyptian_Burial/ KV 20 (a tumba do Tutmósis I ) - http://www.touregypt.net/egypt-info/featurestories-kv20.htm Karnak - https://www.britannica.com/place/Karnak Karnak 2 - https://discoveringegypt.com/karnak-temple/karnak-temple-first-pylon/#:~:text=The%20north%20tower%20is%20about,to%20131%20feet%20(40m). Karnak 3 - https://www.planetware.com/i/map/EGY/karnak-great-temple-of-amun-map.jpg Knossos - https://www.livescience.com/27955-knossos-palace-of-the-minoans.html Knossos 2 - http://travelingclassroom.org/?p=112