Notas iniciais
bem vindos a mais um cap! desculpa a demora. caps de luta são muito difíceis e eu tive q estudar mais sobre a Lelwani kkk

Agora, Sua Majestade havia preparado sua infantaria e sua carruagem, e a captura de Sherden de Sua Majestade, a quem ele havia trazido de volta pela vitória de seu braço forte; fornecidos com todas as suas armas, e o plano de luta tendo sido dado a eles. Sua Majestade viajou para o norte, sua infantaria e sua carruagem com ele, e ele teve um bom começo na marcha no ano 5, segundo mês da temporada de verão, dia 9.

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Anúbis e Lelwani não se encararam por muito tempo, o fogo da batalha e a poeira levantada por ela não dava espaço para isso. Mas os gritos de desespero, vitória e coragem dos mortais ao redor deles logo se transformaram em susto e desespero quando a terra começou a tremer.

— TERREMOTO! — gritou alguém na confusão.

Com as palmas das mãos apontando para o chão, Lelwani abriu um pequeno sorriso, como se Anúbis precisasse de mais do que sentir o terremoto para perceber que aquilo era obra dela. Não era necessário. Ele já estava correndo na direção dela, a névoa negra o seguindo. Com a mão aberta em uma garra coberta com uma camada de névoa putrefadora, Anubis estava pronto para agarrar Lelwani pela garganta. Contudo, ela deu um grande salto para trás e o chão bem onde Anúbis estava se abriu repentinamente, rachando de uma ponta a outra com mais terremotos acompanhando.

O chão se abriu com uma rachadura seca e dolorosa que se estendeu para os lados, engolindo soldados de ambos os lados para o mar de magma que se abria no fundo. Anúbis pulou para longe no último segundo, rolando no chão ao aterrissar, sabendo que aquilo mataria ele tanto quanto mataria os soldados já que nada havia de natural ali, era pura magia divina.

Apressadamente, ainda largado no chão, ele se esticou e agarrou um soldado egípcio que caía no buraco pelo saiote. Ele sentia o linho barato e surrado pela batalha ameaçando rasgar enquanto puxava o soldado para a segurança, triste de que não havia conseguido fazer o mesmo pelos outros que caíram.

Ele puxou o soldado com o linho protestando e largou-o ao seu lado. O soldado, ofegante, olhou-o com os olhos esbugalhados e o rosto pálido como o seu próprio.

— Obrigado. — gaguejou o homem.

— Nada. — respondeu Anúbis que bem quando se arrumava para se erguer, viu a espada de um soldado morto-vivo hitita mirando na cabeça do homem que tinha acabado de salvar.

Um segundo foi tudo que Anubis precisou para invocar seu cetro e parar o ataque do morto, que nem arranhou a madeira negra de seu cetro. Ele voltou a se erguer enquanto envolvia o morto-vivo de linho e névoa negra, prendendo-o ali e logo o desintegrando até virar mera poeira.

—Sabe que tem mais desses por aí né? — perguntou Lelwani — Não vai conseguir salvar todos os soldados egípcios.

— Dois conseguem jogar esse jogo. Esqueceu? — perguntou Anúbis.

Anúbis bateu com o cetro no chão levemente. Até mesmo os mortais sentiriam, se prestassem atenção, a brisa gelada e arrepiante que se espalhou pelo campo de batalha saindo do centro do deus. No segundo seguinte, os mortos egípcios se levantavam prontos para continuar a batalha mas, dessa vez, atacando somente os mortos-vivos hititas.

Lelwani suspirou com um sorriso no rosto e deu de ombros. Contudo, no segundo seguinte corria na direção de Anúbis com a mão levantada e, ao redor desse mão, fogo e magma se acumularam. Lelwani queria queimar o rosto de Anúbis preferencialmente, mas ele desviou no último segundo, sentindo o calor que exalava da magia dela aquecer sua bochecha.

Apressadamente, ele se envolveu com névoa negra e tentou agarrar Lelwani pelo braço, que estava mais perto. Mas ela pulou para longe enquanto, repentinamente, um forte vento bateu, carregando a névoa para longe junto com a areia no chão. Um trovão soou longe, fazendo Anúbis ter certeza que aquilo não era obra de Seth, pois por mais que tempestade de areia fossem com ele mesmo, as de água já nem tanto.

— Tarhun? — perguntou para Lelwani, se referindo ao deus hitita das tempestades.

— Acertou. — disse Lelwani — Não achou que eu ia vir sem nada preparado para sua névoa.

— Achei que estávamos num não-tão-amigável mas ainda educado 1x1. — respondeu Anúbis tentando fazer sua voz ser ouvida por cima do barulho irritante do forte vento.

— Bem…. É… — disse Lelwani — Quer dizer, tirando a parte do 1x1.

— Paciência então… — disse Anúbis suspirando pesadamente — Mas uma pena saber que me subestimou assim.

— Pedir uma ajuda… admito que pedi… não seria o oposto de subestimar? — perguntou Lelwani.

— Realmente acha que com Seth sendo um constante problema eu não aprendi a lidar com tempestades e ventos fortes? — perguntou Anúbis enquanto sentia as primeiras gotas de chuva tocarem sua face — A única diferença é que a sua tempestade é mais molhada.

Claro, exigia um pouco mais de esforço não deixar o vento carregar a leve névoa para longe, mas a concentração extra era recompensada enquanto Anúbis acumulava a névoa negra ao seu redor. Lelwani fechou a cara, claramente não gostando nada daquilo. Mas logo mostrou que ela também tinha aprendido a lidar com o vento e até com a água, pois suas chamas e lava ardiam ao seu redor intensamente.

Os soldados ao redor gritavam tentando se afastar da batalha poderosa. Ambos os lados estavam com medo de ficar perto demais dos outros deuses. Era bem óbvio que aquilo não era um conflito para eles se envolverem.

Anúbis e Lelwani se olharam, silenciosamente. A chuva completamente fora de época e região caía deixando as roupas e os cabelos de todos encharcados e dificultando a visibilidade. No olhar de ambos, envolto pelos cabelos que se agitavam violentamente devido ao vento forte, mesmo com os cabelos encharcados, os dois tiveram a certeza que a brincadeira e aquecimento haviam acabado.

Lelwani foi a primeira avançar. Ela jogou sua lava toda no chão e subiu nela como se surfasse numa onda de fogo. O fogo queimava tudo que tocava. A fumaça se erguia no céu para cada árvore ou arbusto morto. Anúbis jogou toda a névoa que tinha contra ela, aproveitando cada segundo que tinha até a lava flamejante chegar até ele. O corpo e principalmente o rosto de Lelwani ardiam e escureciam num tom angustiante de roxo acinzentado onde a névoa lhe tocava.

Apressadamente, ela ergueu uma barreira de lava na frente de si, protegendo-a da névoa, mas consequentemente também fazendo com que ela perdesse a visão de Anúbis. Assim, ela não viu quando seu alvo se misturou na névoa e sumiu dali, reaparecendo então atrás de si, a alguns centímetros do chão acompanhado de dois guerreiros de pedra com cabeça de chacal.

Antes que Lelwani percebesse que ele estava ali, Anúbis bateu com a ponta do cetro na cabeça dela com toda a sua força. Ele usou tanta força que suas mãos até brilharam em dourado por um segundo quando a pancada aconteceu. E por mais divino e mágico que o cetro fosse, até achou que ele iria quebrar. Ela cambaleou fortemente, se desequilibrou e caiu. Lelwani caiu na própria lava, que não lhe causava danos, mas enegrecia os pés dos soldados de pedra de Anúbis, que prontamente se aproximaram da deusa e seguraram seus braços e pernas fortemente. Anúbis, por outro lado, pousou em cima de Lelwani, pisando em seu corpo e fazendo seu cetro sumir e apressadamente, antes que ela pudesse reagir, ele aproximou as mãos do pescoço dela. Os dedos de Anúbis se feriram com a lava no chão que engolia parte do pescoço de Lelwani quando Anúbis começou a enforcá-la com as mãos envolta em uma densa camada de névoa para enforcar Lelwani.

Lelwani gritou e a dor tomou conta do rosto de Anúbis. O pescoço da deusa ficava tão negro quanto a névoa que a atacava, quando ela invocou um outro forte terremoto. Anúbis se segurou para não perder o equilíbrio, mas o chão abaixo de Lelwani rachou e começou a engolir ambos. Anúbis tentou escapar no último segundo, mas Lelwani lhe agarrou com a mão ardendo em fogo, impedindo que ele fugisse sem levá-la junto.

Sem escolha, já que não achava que ser engolido por um buraco de chamas fosse uma opção muito interessante, com o braço ardendo pelo toque de Lelwani, Anúbis sumiu dali e reapareceu, junto com Lelwani, a alguns quilômetros do campo de batalha de Kadesh. A luta dos mortais com suas espadas não passava de um mero ruído de fundo. Os dois caíram no chão de qualquer jeito na lama formada pela chuva e Lelwani não estava nem um pouco interessada em dar para Anúbis tempo para pensar num ataque.

Tentando lidar com a dor da garganta enegrecida pelo ataque anterior de Anúbis, Lelwani tocou com as duas mãos no chão e da terra surgiram dois enormes leões de pelagem cinza e meia dúzia de pássaros feitos apenas de ossos. Anúbis invocou seu cetro novamente e as mãos queimadas arderam quando tocou na madeira dele, acompanhando a dor no antebraço extremamente queimado onde Lelwani lhe segurou. Ele então invocou rapidamente quatro chacais feitos de névoa, que partiram para cima dos leões enquanto Anúbis bateu nos pássaros, um a um, com seu cetro.

Os pássaros se quebraram ao serem atingidos, seus ossos caíram inúteis no chão, mas logo eles se montavam novamente, voltando a voar para cima de Anúbis ansiosos para bicar-lhe nos olhos e nas mãos feridas. Os chacais, por outro lado, estavam tendo mais sorte com os leões, pois os leões eram sólidos, e os chacais só eram sólidos quando lhes convinha e suas mordidas ainda por cima faziam mais do que só perfurar, também putrefazer os leões.

Simplesmente bater nos pássaros claramente não estava adiantando de muita coisa, Anúbis decidiu usar sua névoa também e quem sabe quebrar os pássaros em pedaços tão pequenos que eles não seriam capazes de se montar novamente. Teria ido lidar com Lelwani ao invés disso, mas ela estava invocando cada vez mais pássaros e logo o que era meia dúzia se tornou duas dúzias. A névoa ao redor de Anúbis se tornou tão densa, envolvendo-o como uma cúpula na esperança de que os pássaros não chegassem até ele inteiros, que ele nem conseguia ver nada do lado de fora mais, o que era certamente preocupante.

Ele deixava seus ouvidos atentos a qualquer ataque extra de Lelwani enquanto tentava lidar com uma quantidade crescente de pássaros, mas tudo o que pôde ouvir foi a briga incansável dos chacais contra os leões e os pássaros soltando gritos agudos que pareciam ter vindo das profundezas do submundo.

— L-Lembre… eu sou a deusa do submundo… — disse Lelwani com a voz seca e baixa, falando com dificuldade e soltando algumas dolorosas tosses devido ao seu pescoço machucado — Você é só o ajudante de Osíris.

Os pássaros até se desintegraram em praticamente pó quando passavam pela névoa de Anúbis, mas ainda assim eles se reergueram e logo atacavam o deus. Contudo, logo ele teve uma ideia. Quando um pássaro caiu no chão como um pequeno punhado de pó de osso e logo se formou novamente atacando Anúbis antes mesmo que estivesse completamente remontado, ele desviou no último segundo, colocando sua mão queimada no ponto onde antes era o alvo e, na mão, um vaso canopo aberto.

Sem tempo para reagir à troca súbita, o pássaro entrou com tudo dentro do vaso canopo, batendo com força em seu fundo. Ele tentou sair, mas rapidamente Anúbis colocou a tampa com o formato da cabeça de Hapi em sua forma animal, um babuíno. Um pouco de magia foi tudo o que ele precisou para selar o pássaro dentro dos vasos originalmente destinados à órgãos.

Vendo que ali tinha um caminho de sucesso, Anúbis repetiu o processo para cada pássaro que o atacava, mesmo que isso lhe fizesse perder alguns segundos preciosos que poderiam ser usados para desviar de um segundo ou terceiro pássaro. Assim, ele até colecionou alguns cortes especialmente no rosto e nas mãos, mas conseguiu prender todos os pássaros dentro de vasos canopos com as tampas adornadas com as cabeças dos quatro filhos de Hórus, tal como eram usados nos sepultamentos.

Antes que Lelwani pudesse notar o que ele havia feito dentro de seu domo de névoa, pois imaginava que ela devia estar achando que tinha conseguido uma boa vantagem e talvez estivesse até sorrindo agora, ele rapidamente transformou seu domo de névoa num chacal gigante que, carregando Anúbis consigo, pulou em cima de Lelwani com a boca escancarada, engolindo-a por completo. Ela gritou quando toda aquela névoa entrou em contato com ela, os leões se viraram preocupados, acabando por levar golpes finais dos chacais de névoa.

Como aquilo não era suficiente, Anúbis envolveu Lelwani em faixas de linho apertadas, impedindo que ela se movimentasse. Ainda assim, ele via a pele dela ficando roxa, ou cinza ou negra como a noite em vários pontos e esses pontos logo começavam a ficar mais fundos, formando buracos. Ela gritava intensamente, mas logo a dor se transformou em ódio. Sua pele brilhou levemente num tom alaranjado e repentinamente ela foi o centro de uma forte explosão que desfez o chacal gigante de névoa completamente e jogou Anúbis para longe, queimando-o também no processo e fazendo os chacais menores dele desaparecerem também.

Ambos caíram no chão. Anúbis sentia a chuva, que agora estava tão mais calma e tranquila, caía como ácido nas queimaduras que havia colecionado até então. Cansado, completamente exausto, os dois nem ousaram se sentar. Ficaram lá, largados no chão.

— Sério que vamos continuar com isso só por causa de uma batalha dos mortais? — perguntou Anúbis, cansado e doido para voltar para os braços de Anput.

— Não é… só isso… — disse Lelwani com dificuldade, sentindo a garganta arder a cada palavra — Você sabe. Também… tivemos… u-uma… profecia.

— Vou ignorar que parece estar mais bem informada do que eu gostaria se você me contar essa sua profecia. — respondeu Anúbis, aproveitando aquele momento de recuperar as forças e quem sabe resolver aquilo na conversa.

— Relaxe… não sei… qual a profecia… de vocês… — respondeu Lelwani arriscando tocar com a ponta do dedo na garganta e logo se arrependendo disso.

— Mas vai contar qual a sua? — perguntou Anúbis, sabendo que dificilmente teria essa informação tão facilmente assim.

— Só se contar qual a sua. — disse Lelwani.

— E como vou saber se sua profecia vale o preço que a minha tem? — perguntou Anúbis, com medo de botar a vida de Ramsés II em risco.

— Eu tenho a mesma falta de garantia e ainda assim estou disposta a trocar… — disse Lelwani.

— Tem mesmo? — questionou Anúbis — Já sabia que existia uma pela cara. Quem garante que não sabe mais que isso?

Foi só então que Anúbis tentou usar toda a força que ainda tinha para se sentar. Lelwani fez o mesmo. Por uns segundos, eles olharam um para o outro e para os danos que cada um sustentava.

O pescoço de Lelwani ainda estava num estado deplorável, por mais que tivesse melhorado levemente. Ela parecia estar com alguma dificuldade de respirar devido ao estado do pescoço, que ainda estava majoritariamente preto e com buracos grotescos. Buracos estes que também se espalhavam pelo corpo dela em vários pontos acompanhado de variados tons de preto, cinza e roxo, que traziam também consigo uma secura tão grande que em alguns pontos, como nas mãos dela, parecia que uma forte brisa era o suficiente para fazer as mãos se desintegrarem.

Quanto a Anúbis, ele sustentava já várias queimaduras causadas por Lelwani e cortes causados pelos pássaros. Suas mãos e braços eram os que estavam em pior estado pois, não só havia entrado em contato com a lava de Lelwani quando tentou estrangulá-la, como também ela lhe agarrou e, pra piorar, ele havia usado seus braços para proteger o rosto da explosão recente de Lelwani. Assim, seus braços estavam intensamente vermelhos, pretos até, de tão queimados que estavam. Era um estado muito parecido com o peito e pernas dele, que também havia recebido bastante da explosão de Lelwani. Os dois estavam acabados, com as roupas em farrapos. Era difícil saber quem estava pior.

— Quando foi que você começou a duvidar tanto de mim? — perguntou Lelwani.

— Quando resolveu começar uma briga até a morte, me menosprezar no meio dela e falar que o Egito já durou tempo o suficiente. — respondeu Anúbis.

— Eu disse que não tinha nada de pessoal! — rebateu Lelwani com a voz rouca.

— Seus comentários pareceram bastante pessoais. — rebateu Anúbis.

Lelwani bufou, mas a cara de dor que apareceu em seu rosto mostrou que ela se arrependeu disso. Ela levou a mão delicadamente até o pescoço, mas nem ousou tocar. Contudo, se deu alguns segundos antes de falar.

— Se é assim… fique com essa como prova de que eu sou legal. — disse Lelwani lentamente — Nos próximos anos… décadas… séculos talvez… temos que tomar cuidado.

— Com o que? — perguntou Anúbis.

— Queria eu saber. — respondeu Lelwani suspirando lentamente — Tudo o que eu sei é que grandes mudanças estão vindo e essa mudanças podem acabar com nós. Essa é a nossa profecia.

— Preocupante… pra dizer o mínimo… — disse Anúbis.

— Talvez isso seja um dos motivos porque concordamos em interferir nessa batalha. — disse Lelwani — Tememos que os resultados dela podem ser mais impactantes do que outras batalhas…

— Se quer saber minha opinião, deuses interferindo em assuntos mortais parece ser algo bem mais passível a causar estragos maiores do que uma batalha normal. — respondeu Anúbis.

— Também é um bom ponto. — respondeu Lelwani — Mas… então… vamos continuar aqui conversando ou vamos decidir quem ganha essa briga?

— Você está bem acabada. — disse Anúbis — Está pior do que os mortos vivos que levantou.

— Você também não está essas maravilhas, tá? — rebateu Lelwani — Parece um frango que assaram de qualquer jeito e ao mesmo tempo esqueceram no fogo.

Anúbis segurou uma risada e olhou para os braços e peito que sustentavam dolorosas queimaduras de terceiro grau.

— Realmente sinto como se tivesse caído naqueles vulcões… — disse Anúbis.

— Não quer me deixar ganhar essa então? — perguntou Lelwani.

— Não mesmo. — disse Anúbis se esforçando para se levantar — Pela sua cara, você também não está tão sem dor quanto tenta fazer parecer.

— Me pegou… — disse Lelwani também se levantando com muito esforço — Não podemos resolver isso de outro jeito?

— Se simplesmente deixar os mortais resolverem seus conflitos, nós também vamos embora. — disse Anúbis dando de ombros e se arrependendo disso, pois foi muito dolorido.

— Se eu tivesse a certeza que o Império Hitita não fosse cair se eu fizesse isso… — respondeu Lelwani.

— Então temos um problema… — disse Anúbis — Vamos ter que continuar.

— Que droga… — respondeu Lelwani — Não quer me deixar ganhar?

— Pra depois você voltar lá e fazer mortais lutarem contra você ou mortos-vivos? — perguntou Anúbis — Não mesmo.

— Verdade… — disse Lelwani com os ombros caídos no mesmo momento que a chuva parava, provavelmente denunciando a derrota do deus hitita das tempestades — Fazer o que né?

Os dois avançaram um contra o outro praticamente ao mesmo tempo. Lelwani invocando asas em suas costas e voando na direção de Anúbis, que envolveu a si mesmo em névoa no formato de um chacal gigante tal como antes. Quando os dois deveriam ter se encontrado no ataque, Lelwani desviou rapidamente com suas mãos pegando fogo. Contudo, o chacal de névoa mudou de forma completamente para tentar engolir Lelwani de qualquer maneira.

A névoa com mais alguns metros de faixas de linho agarraram-lhe pelas pernas, a puxando para o chão. O rosto de Lelwani se fechou de dor, mas logo todo o corpo dela estava envolto em chamas. As faixas de linho queimaram enquanto ela jogava bolas de fogo contra a densa névoa, sem conseguir ver onde Anúbis estava ali.

Entretanto, Lelwani claramente não estava acertando Anúbis, pois as faixas de linho constantemente reapareciam, tentando impedi-la de ir para muito longe enquanto a névoa subia mais, tentando engoli-la. Determinada a se livrar da situação, ela então invocou seus pássaros de ossos, que claramente tinham dado algum problema para Anubis. Todavia, assim que ela o fez, a nuvem de névoa pareceu explodir quando Anúbis surgiu de lá em seu grande avatar com cabeça de chacal, assustando os pássaros. Daquele tamanho, Anúbis não deixou um segundo escapar e prontamente agarrou Lelwani em sua mão.

Claro, ele imediatamente sentiu dor com o calor exalado pelo fogo cada vez mais quente que Lelwani soltava tentando se soltar, mas o lado bom era que apenas sua mão estava sendo queimada. Ou melhor… a mão e o braço, pois Lelwani tentava explodir m chamas novamente, acabando por pegar o braço dele também. A dor era tremenda e ele via as bolhas surgindo na pele e então estourando. Ou a pele ficando extremamente vermelha ou negra enquanto o sangue prateado tentava escorrer mas logo secava. Podia jurar que só a dor ia lhe fazer desmaiar.

Com a outra mão, ele ficava tentando afastar os pássaros irritantes. Infelizmente estava ocupado demais tentando lidar com Lelwani para prende-los em jarros como antes. Ele respirou fundo, aguentando a dor de sua mão queimando cada vez mais e dos cortes que os pássaros faziam o máximo que podia enquanto concentrava toda sua força em putrefazer o corpo de Lelwani. Ela gritava de dor e ele sentia até lágrimas rolarem pelo rosto de tanta dor que sentia na mão. A altura dos gritos de Lelwani ficavam cada vez mais altos e, quanto mais altos os gritos, menos quente o fogo ficava.

— Desculpe… — disse Anúbis sentido a força de Lelwani se acabar, e a sua própria também — Promete não voltar pro campo de batalha?

— S-Sim… — disse Lelwani com dificuldade quando seus pássaros se desfizeram sozinhos e caíram no chão inofensivos.

Aquilo era suficiente para Anúbis. Ele parou de tentar putrefazer Lelwani, que a essa altura estava num estado deplorável com partes do corpo com o osso à mostra, e deixou ela gentilmente no chão. Anúbis voltou a sua forma normal e quase caiu no chão de cansaço, cambaleando um pouco. Ele olhou para as mãos. Uma era uma massaroca de sangue prateado cheia de cortes e queimaduras depois de lidar com os pássaros. E a que seguiu Lelwani mal era identificável como uma mão mais de tão queimada que estava. Sua mão estava negra como carvão e na menor brisa se desintegrou como carvão usado.

Ele respirou fundo engolindo a dor e as lágrimas com dificuldade. Também queria descansar, estava exausto. Mas não sabia se precisavam dele no campo de batalha. Sem falar que provavelmente ainda teria que lidar com os mortos-vivos que Lelwani tinha levantado. Não tinha garantia de que ela tinha feito-os dormir novamente.

Estava cansado. Estava queimado. Sangue prateado pingava na areia molhada e só ficar de pé já era difícil. Ainda assim, ele voltou para o caos da batalha. Quando surgiu novamente no meio da confusão de egípcios e hititas lutando, o mero esforço da troca de lugar quase fez ele cair novamente. Mas não podia deixar interferências divinas passarem sem controle. Era um grande tabu e ninguém tinha muita noção de quão catastrófico tudo poderia ser. A única coisa que ele sabia era que estava exausto e com muita dor.

Ainda assim, deixou o sangue da luta dos outros lhe atingir enquanto andava pelo campo de batalha atrás de mortos vivos. Já não tinha mais ideia do quão sujo de sangue estava, nem do estado deplorável de seu corpo queimado, mas quando achava algum soldado que já deveria ter morrido, ele o agarrava por alguma parte do corpo e o fazia virar pó. Ainda assim, continuou andando e andando, sentindo onde havia mortos vivo por ali.

Às vezes algum vivo tentava lhe atacar, mas ele simplesmente ignorava e continuava andando. Quando não sentia mais nenhum morto vivo, nem dos de Lelwani, nem dos seus, ele simplesmente se afastou do campo de batalha e caiu de joelhos. Foi uma queda dolorida graças aos vários ferimentos, mas também foi bem vinda. Ele nem ouviu a trombeta que soou no campo de batalha anunciando algo que ele não se importava mais. Ficou apenas lá, largado exausto no chão, torcendo pra seus poderes curarem logo os vários ferimentos feitos por Lelwani.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Sabem pq eu coloco mto o Anúbis pra atacar indo atrás do pescoço do adversário? Pq chacal faz mto isso kkk acho que já falei bastante sobre a batalha de Kadesh nos caps anteriores. famosa pra kct. velha pra kct. **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 A batalha de Kadesh - ht umtps://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Kadesh Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810