A Morte Das Areias do Saara

113 A Rainha Que Virou Faraó


Notas iniciais
olá! bem vindos a mais um capítulo! ♥ na imagem de hoje: plantações com silos, estruturas altas e cônicas usadas para estocar grãos *** UM POUQUINHO DA VIAGEM *** GENTE! FALAFEL! Eu comi um falável que NOOOOOOOOOOOOOSSA! maravilhoso! uma das meninas do grupo de viagem disse q comia muito falafel na cidade dela, mas q aquele falafel do Egito era tão melhor que o que ela comia na cidade dela que parecia uma comida diferente. Eu andei dando uma olhada no iFood, e tal como essa menina disse, os falafels daqui são tudo de grão de bico, mas o do Egito não era. Mas ngm conseguiu traduzir de q grão era kkk mas enfim, muito gostoso.

Hórus: Poderoso dos espíritos; Duas Senhoras: Prósperas de anos;

Horus Dourado: Divino da aparência; O rei do Alto e Baixo Egito: Maatkare;

imagem sagrada de Amon, ela que ele queria que estivesse em seu trono.

Ele confiou a ela a herança das Duas Terras, a realeza do Alto e do Baixo Egito

Ele deu a ela o que o sol gira em torno e o que Geb e Nut cercam.

~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”

Meses se passaram e, entre cerimônias e mais cerimônias, as várias etapas da coroação aconteciam, até que chegou a última cerimônia que separava Hatshepsut do trono de faraó. Dentre sumo-sacerdotes, grandes generais, nobres e o que restava de sua própria família, Hatshepsut andava pelo salão principal do palácio. Seu vestido, do mais puro branco, se arrastava pelo chão e era um belo contraste com as enormes pilastras e paredes ricamente decoradas com todas as cores possíveis.

Na longa caminhada entre a altíssima porta de entrada e o trono banhado em ouro, Hatshepsut sentia-se mais orgulhosa do que nervosa. Contudo, não conseguia ouvir os cochichos que começaram a surgir na multidão questionando se aquilo era mesmo a coroação de um faraó ou só uma cerimônia mais elaborada para uma rainha. Hatshepsut podia se declarar faraó, mas era difícil ver um faraó ali nas roupas elegantes de mulher, nos cabelos longos trançados delicadamente em dezenas de finas tranças e enfeitados com acessórios femininos de ouro, no rosto feminino e nos seios emoldurados pelo vestido de linho de alta qualidade.

De longe, Senenmut admirava maravilhado a beleza daquela mulher que exalava poder e inteligência, mas era difícil ignorar os cochichos que ouvia perto de si. O arquiteto, por vezes, encarava irritado particularmente dois homens barrigudos que riam baixinho entre si enquanto questionavam como Hatshepsut faria as cerimônias do festival anual de Min, que envolviam o faraó se masturbar nas margens do Nilo.

O cheiro doce do incenso chegava no nariz de Hatshepsut e as pessoas se ajoelharam e se curvaram até o chão quando ela passava. Ela não podia ouvir os cochichos sobre si, o que com certeza era melhor no momento, mas sentia as dezenas de presenças ilustres divinas que se espalhavam, invisíveis, em vários pontos do salão para acompanhar o momento que ela tanto esperava. Mas, mesmo com a presença dos deuses de verdade, ao redor do trono ainda estavam um sumo-sacerdote e uma sumo-sacerdotisa, prontos para recebê-la.

Hatshepsut chegou diante de seu trono dourado e então se virou para ver a multidão reverenciando-a, em completo silêncio, ajoelhados e curvados com os braços estendidos, até os rostos quase tocarem o chão. Os sacerdotes apenas se ajoelharam e fitaram o chão em humildade enquanto, cada um, segurava nas mãos um símbolo e estendia alto na direção de Hatshepsut. O sumo-sacerdote se ergueu e então se ajoelhou novamente mas, dessa vez, exatamente na frente da rainha ao invés de ao lado.

— Hórus, filho de Ísis, venho a ti. — disse o homem estendendo na direção de Hatshepsut um pequeno cajado de bronze coberto, com a ponta encurvada como um círculo que quase se fechava e faixas alternadas de vidro azul, obsidiana e ouro — Apresento o cajado do grande Lorde Osíris, Senhor da eternidade, cujos nomes são múltiplos, cujas formas são sagradas, diante da filha de Rá, Hórus Dourada.

Em seguida, Hatshepsut pegou o cajado delicadamente com sua mão sentindo-se até ficar arrepiada ao tocar no bronze do cajado. Ela levou o cajado para perto do seu peito enquanto o sumo-sacerdote voltava a ficar ao seu lado e seu lugar era substituído pela sumo-sacerdotiza que fez o mesmo que o colega. A diferença, no entanto, foi que a mulher exibiu para a soberana um mangual, uma haste de bronze do mesmo tamanho e cores do cajado, só que, na ponta, estavam presas dezenas de contas de ouro.

— Ísis, filha de Geb, venho a ti. — disse a sumo-sacerdotisa estendendo o mangual para Hatshepsut — Apresento o mangual do grande Lorde Osíris, Senhor da eternidade, cujos nomes são múltiplos, cujas formas são sagradas, diante da filha de Rá, Hórus Dourada.

Tal como antes, Hatshepsut levou o mangual até perto do peito exibindo-o logo ao lado do cajado. Os dois sacerdotes, ambos de pé ao lado da soberana, indicaram teatralmente ao mesmo tempo o trono dourado logo atrás de Hatshepsut e ela sentou-se lentamente. Com a nova faraó sentada, a multidão no salão finalmente se ergueu.

Apressadamente então, o sumo-sacerdote foi até um baú dourado estendido para ele respeitosamente por um serviçal e de lá tirou a coroa branca e cónica do Alto Egito. O sumo-sacerdote exibiu para todos os presentes a sagrada coroa.

— Com a coroa do Alto Egito em mãos, pelas bênçãos dos deuses concedidas a mim, apresento a escolhida por Amon! — anunciou o sumo-sacerdote pairando a coroa sobre a cabeça de Hatshepsut — Rei do Alto Egito, Hatshepsut.

O povo presente comemorou, dentre as quais, as vozes mais altas foram de Senenmut e Neferure, cujos peitos explodiram de orgulho. Os gritos, no entanto, rapidamente se encolheram quando o sumo-sacerdote retirou a coroa branca do Alto Egito e a sumo-sacerdotisa repetiu os gestos feitos pelo colega, só que utilizando a coroa vermelha e chata do Baixo Egito.

— Com a coroa do Baixo Egito em mãos, pelas bênçãos dos deuses concedidas a mim, apresento a escolhida por Amon! — anunciou o sumo-sacerdote pairando a coroa sobre a cabeça de Hatshepsut — Rei do Baixo Egito, Hatshepsut.

Novamente o povo gritou alegre, dessa vez, por mais tempo, pois os dois sacerdotes precisaram de alguns minutos para encaixar as coroas branca e vermelha uma na outra, passando a coroa branca pelo topo aberto da coroa vermelha formando assim, a coroa do Alto e Baixo Egito. Quando os dois sacerdotes seguraram, juntos, a coroa sobre a cabeça de Hatshepsut, o povo silenciou-se novamente deixando um clima de tensão e expectativa se espalhar pelo ar.

— Grande Amon, temos aqui a coroa do Alto e Baixo Egito. — disse o sumo-sacerdote — É com grande humildade que aceitamos a tarefa de coroar a filha de Rá escolhida por ti. Hórus: Poderoso dos espíritos; Duas Senhoras: Prósperas de anos; Horus Dourado: Divino da aparência; O rei do Alto e Baixo Egito: Maatkare; imagem sagrada de Amon.

— Ela que ele, o Grande Amon, queria que estivesse em seu trono. Ele confiou a ela a herança das Duas Terras, a realeza do Alto e do Baixo Egito. Ele deu a ela o que o sol gira em torno e o que Geb e Nut cercam. O céu e todas as terras estrangeiras criadas pelos deuses são completamente subservientes a ela. — continuou a sumo-sacerdotisa enquanto eles abaixaram a coroa lentamente. — Amon-Rá é seu pai, e ele coloca medo de ti nos Nove Arcos, os inimigos do Egito.

— Hatshepsut! — exclamaram os sacerdotes em uníssono pousando a coroa combinada na cabeça de Hatshepsut — Você é o rei que tomou posse das Duas Terras, Hatshepsut, Filha de Tutmósis I e do grande Amon-Rá! Senhora das Duas Terras, Filha do Rei, Irmã do Rei, Esposa do Deus, Grande Esposa Real, Hatshepsut, que ela viva e perdure como Rá, para sempre, Faraó Hatshepsut.

A vontade de sorrir coçava no rosto de Hatshepsut enquanto ela sentia, orgulhosa e poderosa, o peso da coroa em sua cabeça. O povo, por sua vez, se curvou novamente em frente a sua nova Faraó, apesar das opiniões diversas que se espalhavam rapidamente pelo Egito. Cochicho e fofocas ficariam para depois, agora era hora de celebrar.

Hatshepsut sentia-se vitoriosa, Senenmut e Neferure estavam orgulhosos dela e as deusas mal podiam acreditar no que viam diante dos seus olhos. Com certeza as deusas começariam uma festa que duraria por vários dias mais. Afinal, ali, naquele dia, com Hatshepsut sentada no trono dourado do Egito, pela primeira vez que se tem registro em toda história mundial, uma mulher se tornava líder de Estado.

Foi só uma questão de minutos depois disso para tudo transformar-se em duas festas, uma no palácio e outra no Salão do Julgamento. Pouquíssimas coroações haviam sido tão celebradas pelos deuses. Algumas nem celebradas eram. Talvez a festa estivesse tão animada, pois a maioria dos presentes eram deusas. Ísis, Hathor, Néftis, Anput, Serqet, Tawaret, Heqet, Nekhbet, Tefnut, Sodpet, Seshat e mais dezenas de deusas das mais diversas aparências e personalidades estavam presentes. Algumas ali podiam não se dar tão bem assim com os outros deuses, nem serem tão importantes assim, mas todas estavam de certa forma em paz e felizes à sua própria maneira com os resultados do dia.

Os deuses se dividiam entre dançar, conversar, comer e acertar os prêmios e pagamentos da aposta que fizeram. Anput estava em um dos grupos que conversava alegremente, Anúbis estava na concentração de deuses, majoritariamente homens, acertando a aposta.

— É ridículo! — resmungava Shu jogando na pilha ao chão de jóias e ouro no centro da roda de deuses, uma miniatura dele mesmo banhada em ouro, seu pagamento da aposta — Uma festa assim só por causa de uma mulher que não vai durar muito tempo assim no trono.

— Ridículo é você pagando sua parte da aposta com uma miniatura sua! — reclamou Serqet — Quem vai querer isso?

— É estranho… — confirmou Bes.

— Se fosse uma estatueta do Min já seria mais interessante.... — comentou Nefertem levianamente para si próprio, esquecendo que todos ouviram, inclusive Min.

O pobre Min ficou vermelho e começou a tossir falsamente, expressando seu constrangimento. Nefertem também ficou vermelho por expor o outro assim, mas a maioria dos demais simplesmente caiu na gargalhada.

— Oh sim.. pois Min está sempre… animado… em tudo que os mortais fazem dele. — perguntou Heka.

— Gente… — resmungou Min suspirando constrangido enquanto Shu resmungava algo irritado e ia embora.

— Se as representações suas têm metade da verdade, não tem nada com o que ficar envergonhado, Min. — disse Bes dando de ombros.

— Homens… — resmungou Serqet revirando o olhar sem paciência.

— Essa é minha parte e de Khonsu. — disse Khnum colocando no centro um belo baú de madeira adornado com pedras preciosas e banhado a ouro, a qual ele abriu a tampa e revelou as jóias e pedras preciosas — Ele não quis vir.

— Uhh.. que lindo… — murmurou Nefertem agachado estendendo a mão para a caixa focando seu olhar, maravilhado, num colar em seu interior.

— Hey. Nefertem! — reclamou a deusa Rerenet com doçura na voz — Você não apostou. Desculpa. Não é justo.

— Tsc. Fiquei com medo de perder. Eu gosto das minhas jóias… — resmungou Nefertem com um suspiro pesado.

— Acho que entendo porque Khonsu gosta de apostar tão alto em suas apostas… — disse a deusa Rerenet, pensativa — Apostar ouro, prata e jóias pode parecer muito para os mortais mas.. certamente parece meio vazio para nós. Mas apostar na alma tão pouco me parece uma boa ideia.

Anúbis tinha ficado quieto até então apenas vendo os deuses discutirem entre si. Afinal, não via sentido em entrar na conversa. Na verdade, nem tinha chegado a considerar interagir com os demais. Tantos deuses falando ao mesmo tempo dificilmente parecia um cenário onde ele conseguia falar algo sem que acidentalmente o cortassem. Então, porquê tentar?

Estavam todos tão entretidos na conversa, que poucos notaram Anúbis se agachando e percorrendo os olhos pela pilha de ouro, prata e jóias. Um dos deuses que notou foi Nefertem. Os dois trocaram um olhar de um milésimo de segundo que terminou com Nefertem cabisbaixo, triste e constrangido ainda pela briga de anos atrás e Anúbis sério e impassível, escondendo que, lá no fundo, estava desconfortável pelo mesmo motivo.

Ignorando o deus dos perfumes, Anúbis percorreu o olhar pelas jóias ali e acabou pegando um belo e robusto colar com seis fileiras de pequenas peças de ouro no formato de flores de lótus vistas de lado. As flores da fileira mais perto do pescoço eram menores e as nas fileiras seguintes sutilmente aumentavam de tamanho sem perder a beleza. Não era o mesmo que Nefertem tinha admirado antes, mas isso não significava que Nefertem não tirou uns segundos para admirar aquele colar também.

— Não é banhado a ouro. É ouro puro. — disse Bes em voz baixa, um dos poucos que notou Anúbis ali — Ainda vai pegar outra coisa? Os outros vão reclamar se notarem já que isso parece bem caro.

— Só isso mesmo. É para minha parte e a de Anput do prêmio. — explicou Anúbis.

Deixando os outros discutindo, Anúbis pegou o colar de ouro e foi até onde Anput e Seshat conversavam animadamente, cada uma com uma taça de vinho na mão. Contudo, no meio do caminho, passou por Hapi que, claramente aliviado, conversava com Hórus.

— Dessa vez você deu sorte. — falava Hórus suspirando pesadamente e botando a mão no ombro do filho — Mas tome mais cuidado da próxima vez com o que Khonsu disser.

— Eu sei… desculpe… — resmungava Hapi que logo notou Anúbis por perto prestando atenção na conversa e aproveitou a chance para mudar de assunto — Tio Anúbis!

— De novo com essa história de “tio”? — resmungou Anúbis revirando os olhos enquanto Hórus também ficou devidamente desconfortável com o chamamento.

— De onde vem isso de “tio”, Hapi? — questionou Hórus — Já é irritante o suficiente sermos primos.

— Ah… — disse Hapi dando de ombros — Podem não ser irmãos de sangue mas, a Vó Lady Ísis criou os dois então… meio que são irmãos né?

— Minha mãe nunca oficializou adoção nenhuma dele. — rebateu Hórus sem saber o quanto aquele fato incomodava Anúbis, que desviou o olhar para o chão como se repentinamente achasse os próprios pés algo muito interessante para se analisar.

— Ah… bem… é mais uma formalidade, não? — perguntou Hapi.

— Amanhã… — disse Anúbis repentinamente ansioso por trocar o assunto — Hatshepsut provavelmente fará a visita aos templos tal como todos os outros faraós.

— Sim… estou ciente disso. — respondeu Hórus.

— Você vai… governar com ela? Digo, possuindo ela. — perguntou Anúbis — Geralmente o faz com os seus faraós favoritos ou com potencial.

— Eu não sei. — admitiu Hórus suspirando pesadamente — Ela tem de fato potencial o suficiente para eu fazer isso mas… será que não fica estranho por ela ser mulher? Talvez Ísis é quem vá. Ainda estamos discutindo e também depende de Hatshepsut.

Hórus cruzou os braços, pensativo, e ficou em silêncio por alguns segundos enquanto Hapi e Anúbis se entreolharam e Hapi deu de ombros. Sem ter mais o que fazer ali, Anúbis seguiu seu caminho em direção a Anput. Assim como acontecia com as outras deusas, dava para sentir a alegria e orgulho que Anput exalava.

— Será que isso vai mudar alguma coisa pra gente também? — perguntava Seshat quando Anúbis chegou perto das duas escondendo o colar dourado atrás de si.

— Hórus continuará sendo faraó… — respondeu Anput.

— É, mas me refiro a outros lugares e situações. — explicou Seshat — Lady Ísis, por exemplo, sempre foi importante e tudo mais, mas ultimamente tenho a sensação de que está ficando mais importante ainda dentre os mortais. Estão adorando-a cada vez mais.

— Hórus e Lady Ísis estão considerando talvez ser ela quem governará com Hatshepsut. — disse Anúbis.

— Não deixa de fazer sentido… — opinou Anput pensando um pouco — Mas por algum motivo não acho que combina tanto. Ou talvez sim…? Não sei.

— Seshat! — gritou Thoth de repente chamando a filha.

Apesar de apenas Seshat ter sido a chamada, Anúbis e Anput também olharam na direção onde Thoth agora estava chamando a filha com a mão enquanto conversava com Osíris e Ísis.

— Tenho que ir. Deve ser importante. — disse Seshat apressadamente deixando Anput e Anúbis a sós.

Anput então se virou para Anúbis exibindo um simples e doce sorriso que por um segundo fez ele esquecer de todo o resto. Felizmente ela logo falou algo, puxando ele de volta para a realidade.

— Então? — disse ela — Pegou nossa parte do prêmio da aposta de se Hatshepsut viraria faraó ou não?

Ele abriu um sorriso bem parecido com o dela e revelou então o colar de ouro que havia pegado. Imediatamente os olhos dela brilharam diante da beleza e brilho do colar e seu sorriso se abriu mais ainda. Ela então prontamente virou-se de costas para ele, puxando seu longo cabelo trançado para o lado, dando-lhe total acesso ao pescoço numa clara indicação para ele colocar o colar no pescoço dela.

Com cuidado, ele passou o elegante colar ao redor do pescoço dela. Seu dedão roçou gentilmente e sem necessidade pela curva da base do pescoço dela sentindo a delicadeza da pele dela. Juntando seu foco novamente, depois de admirar o pescoço dela, ele voltou a tarefa de botar o colar amarrando as duas metades de uma pequena cordinha que fechava a peça.

Os braços dele então lentamente envolveram a cintura dela puxando-a para mais perto enquanto ele também enterrava o nariz na dobra do pescoço dela, sentindo, com olhos fechados, o doce cheiro de Anput. O rubor subiu rapidamente pelo rosto de Anput motivando-a a puxar ele lentamente para um dos vários sofás que foram postos no Salão para que os deuses pudessem aproveitar a festa mais confortavelmente.

Com os dedos entrelaçados nos dele em uma mão e a taça de vinho na outra, ela puxou-o para o sofá e então os dois sentaram-se bem perto um do outro. Ela pousou a mão livre na coxa dele e estendeu a taça de vinho para ele.

— Quer o restinho do vinho? Não quero mais. — disse ela.

Ele pegou a taça dela e bebeu o restinho facilmente em dois goles enquanto ela deitava a cabeça em seu ombro com um sorriso no rosto.

— Hoje foi um dia bom. — disse ela.

— Você realmente parece bem feliz e satisfeita. Parece até que foi você que virou faraó. — disse ele deixando a taça vazia de lado.

— Eu sinto isso também. — respondeu ela rindo — Acho que as outras também e imagino que seja por isso que tão rapidamente isso virou uma festa tão animada. Não deve fazer ideia de como esse dia foi gostoso. Bem, com certeza gostou também, afinal Hatshepsut é sua amiga. Mas não sabe como é sentir que tem direito a menos e menos respeito só por ter nascido mulher. Então… sim, é bem especial ver a Hatshepsut se tornando a pessoa mais poderosa de todo o Egito e ainda mais quando o Egito é indiscutivelmente o mais poderoso desse lado do Mar Vermelho e até onde os mortais conseguem ir para dentro do deserto.

— E do outro lado do Mar Vermelho? Ou até do Mediterrâneo? — perguntou Anúbis — Não deixe Hórus ouvir que dúvida do poder do Egito para esses lados.

— Ah, não duvido. — respondeu Anput — Mas as coisas entre os Mitanni e os Hititas estão complicadas e acho que não vai demorar muito para algum deles ser um problema muito grande para resolvermos. Quanto ao Mar Mediterrâneo, bem, sabemos que tem muita terra lá que não é deserto e até onde sabemos o Egito é mais poderoso do que o que conhecemos mas… e a parte que não conhecemos? Sem falar que os Micênicos estão indo bem, pelo o que ouvi.

— Então… mais poderoso de ambos os lados do Mar Vermelho e do Mediterrâneo ao menos por enquanto e até onde sabemos? — perguntou ele fazendo Anput rir.

— É, acho que é uma descrição boa. — concordou Anput — O que deixa tudo mais alegre. É uma mulher no trono, num dos ápices de poder do Egito! Merece uma festa. Mas, deve ser irritante para você, não? Tantas festas acontecerem aqui pelo simples motivo que todos querem que Lorde Osíris esteja nas festas também.

— As vezes é. — explicou ele — Essa não. Estou feliz também. Ela merecia.

— E ela com certeza está aproveitando bem o dia. — disse Anput — Aliás, adorei o colar. Escolheu bem.

— Acho que a essa altura posso dizer que conheço o gosto da minha esposa. — respondeu ele.

— De fato. — disse ela lenta e docemente.

Ela levantou lentamente a cabeça do ombro dele. Ele olhou para ela e ela para ele. Os dedos negros dela acariciaram gentilmente a bochecha alva dele enquanto os olhos dela lentamente desciam percorrendo todo o caminho desde os olhos castanhos dele, até os lábios. Foi instintivo de ambas as partes, no segundo seguinte estavam se beijando.

Nenhum deus ao redor olhou duas vezes, afinal não eram o único casal trocando carícias. Mas quando a mão de Anúbis foi para a cintura dela puxando ela para mais perto e as mãos dela lenta e delicadamente tocaram o peito nu dele, eles tiveram a certeza de que não poderiam ficar ali por muito mais tempo. O calor subia pelos corpos, os toques e o beijo se tornavam mais urgentes. O corpo de Anput já estava se inclinando para deitar no sofá quando os dois sumiram dali tendo a certeza que também não foram o único casal a fugir da festa em busca de algo mais privado.

Notas finais
*************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Vamos tentar entender melhor o motivo da estranheza da galera com a Hatshepsut. A palavra “faraó” hoje em dia é considerada neutra, mas provavelmente por causa dela e da Cleópatra. Mas é sinônimo de “rei” mesmo. Hatshepsut acaba de se declarar “rei” e foda-se kkk afinal o Rei é mais poderoso que a Rainha e a Hat quer todo o poder. Sobre a Hat, linda, perfeita, maravilhosa. Tem-se teorias que algumas outras civilizações mais antigas (tipo, pouco depois da idade da pedra kk) eram matriarcais e enfim, tem toda uma teoria e estudo sobre civilizações antigas matriarcais. Mas a Hatshepsut foi a primeira mulher que se tem o nome e que se sabe com toda certeza na história MUNDIAL que foi a líder política suprema de um Estado (Muito patroa né?). O faraó usava adereços, roupas, passava por cerimônias e etc, que, apesar de tudo, eram fortemente vistas como masculinas. Pra gente é um pouco difícil imaginar pq todo mundo usa saia kkk mas tem um tipo de saia que só homem usa e uma versão dela que só o faraó usa. É equivalente a Idade Média Européia de “só homem usa calça” kk. O que já deu um empecilho pra Hat pq a galera tinha dificuldade em ver ela como um faraó, afinal ela não se vestia como um. E ainda tem uma cerimônia que o faraó faz que… erm… envolve o Nilo e uns pênis… ENFIM… o cargo do faraó era muito de macho e a galera não conseguia encaixar a Hat nele. No começo ela se vestia como sempre se vestiu e tentava encaixar os adereços do faraó (como a coroa), mas ainda não foi o suficiente. E mais reviravoltas no próx cap pra não dar spoiler kkk **** REFERÊNCIAS **** Tradução Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut - https://mjn.host.cs.st-andrews.ac.uk/egyptian/texts/corpus/pdf/HatshepsutPunt.pdf Coroação - https://www.google.com/search?q=ancient+egypt+coronation+Appearance+of+the+king&rlz=1C1GCEA_enBR965BR965&sxsrf=APq-WBuwBBUB-QG7_14M4_BvdDYT9qpe0w:1644404895202&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwirl5TNvfL1AhXFq5UCHXPBBY4Q_AUoAXoECAEQAw#imgrc=IambVOPIbzQ3AM Símbolos - https://www.luxorandaswan.com/en/Egypt/wiki/egyptian-symbols Colar - https://www.pinterest.es/pin/292100725814006928/