A Morte Das Areias do Saara
114 A Pressão de Ser Mulher
Notas iniciais

Ela não tem inimigos entre os sulistas, ela não tem antagonistas entre os nortistas.
O céu e todas as terras estrangeiras criadas pelos deuses são completamente subservientes a ela.
Eles vêm a ela com o coração temeroso, seus chefes curvando suas cabeças, com homenagens nas costas.
Eles a apresentam com seus filhos, para que lhes seja dado o fôlego de vida, por causa da grandeza do poder de seu pai Amom, que colocou toda terra sob seus pés, a própria rei, a rei do Alto e Baixo Egito Maatkare.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
Uma energia se espalhava pelas paredes altas do templo de Karnak alguns meses depois da coroação de Hatshepsut. Uma energia de expectativa e de pureza divina que partia principalmente de uma pequena barca, banhada em ouro e ricamente enfeitada, que protegia em seu interior uma caixa alta, igualmente dourada, que protegia a imagem do deus Amon-Rá. A barca era um objeto cerimonialista e era apoiada em uma longa estrutura de madeira que permitia que duas fileiras de quatro ou cinco pessoas de cada lado, carregassem a estrutura apoiando-a sobre os ombros.
A expectativa dos sacerdotes era grande. Afinal, enquanto eles se organizavam, cada um em seu lugar, uns segurando a barca, outros segurando um incenso, outros segurando grandes e longos objetos que pareciam leques ou até mesmo instrumentos musicais, eles se preparavam para a celebração do Festival de Opet. O Festival de Opet era também o tema dos desenhos que adornavam as paredes da pequena capela que guardava a barca cerimonialista. Capela esta cuja construção tinha sido ordenada pela nova faraó e que, no futuro, se tornaria o registro mais antigo daquele festival.
Os vários sacerdotes se organizaram em duas fileiras diante de uma das saídas do templo de Karnak. O único que não estava em uma das duas fileiras, era o sacerdote que seguia na frente de todos segurando o incenso. A saída do templo era protegida por guardas, mas logo depois, estava o povo ansioso para ver Amon-Rá tão de perto.
Cantando em glória a Amon-Rá, os sacerdotes começaram a andar acompanhados pelos soldados que garantiriam que o povo não atrapalhasse o festival. A longa avenida, ladeada por esculturas de esfinges de carneiros mas tamanho de leões, ligava o templo de Karnak até o templo central de Tebas, o destino final daquela procissão, e onde um banquete esperava qualquer um, o que o povo certamente adorava.
Nas partes mais internas e escondidas do templo central de Tebas, estava Hatshepsut ansiosa andando de um lado para o outro sob o olhar atento e preocupado de Senenmut, Neferure, Anúbis e Anput.
— Vai dar tudo certo… — falava Anput tentando tranquilizar Hatshepsut.
— Vai mesmo? — questionou Hatshepsut soltando um pesado suspiro enquanto segurava firme a barba falsa de ouro que todo faraó usava em algumas cerimônias e eventos — Tenho notado cada vez mais desde da coroação alguns questionarem se eu sou mesmo o faraó só por não parecer um. Esse festival tem que dar certo.
— Vai sim, mamãe. — disse Neferure — Eu vi que tá cheio de gente lá fora esperando a barca chegar.
Dentro de Hatshepsut, outra voz tentava tranquilizar seus nervos e preocupações. Um dia Hórus havia ficado preocupado se seria ele ou Ísis a partilhar o trono com a nova faraó, mal imaginava ele que seria o nome de Hathor que Hatshepsut iria invocar. Foi então da esposa de Hórus a voz que ajudava Hatshepsut e cuja voz apenas a faraó escutava.
— Tem tudo para o festival dar certo. — lembrou Hathor — Não é um festival muito complicado, apesar da enorme importância dele de renovar a conexão entre os deuses e do faraó e enfatizar a conexão entre os deuses e o povo egípcio.
— Foi esperto fazer o Festival de Opet com melhorias e novas construções no caminho entre Karnak e aqui. — disse Anúbis — É um festival bem popular, afinal de contas.
— Mais por causa da comida provavelmente… — resmungou Senenmut — Mas chegar tão perto da figura de Amon-Rá é também bem especial para o povo. E uma oportunidade rara. Até eu estou ansioso para ver de perto.
— Agradar o povo é importante, mas me preocupo mais com os nobres, sacerdotes e militares. — admitiu a faraó — Os sacerdotes, apesar de alguns não gostarem tanto de mim, não vão se voltar contra mim graças às palavras de Amon-Rá… espero, ao menos. Isso é um apoio muito bom. O faraó pode ser o mais poderoso do Egito, mas sem o apoio do exército ou dos sacerdotes… ele não dura muito.
— O que Hathor acha? — perguntou Anúbis.
— Que tenho que encontrar um jeito de mais pessoas me verem como faraó. — disseram Hatshepsut e Hathor em uníssono — Cada falha será mais duramente criticada do que outro governante, e cada conquista conta.
— É muita pressão… — disse Anput pensando em voz alta.
— Mas não posso mostrar que estou nervosa. — lembrou Hatshepsut — Ou sequer sentindo essa pressão. Não posso perder minha confiança.
Senenmut suspirou e se aproximou lentamente de Hatshepsut. Ele pegou a mão dela, atraindo a atenção dela para si, e beijou as costas da mão dela. A atitude doce desestabilizou a ansiedade da faraó e fez um doce sorriso abrir-se no rosto dela.
— A procissão só tem que chegar até aqui. — disse Senenmut tranquilamente — Eles fazem isso todo ano e você reformou e fez novas capelas e esfinges no caminho para deixar o caminho melhor. O resto é só comida.
— E comer é bom. — acrescentou Neferure.
— Você só tem que esperar até a barca chegar. — lembrou Hathor.
— É meu primeiro Festival de Opet… — lembrou Hatshepsut — Claro, organizei outros com Tut e como rainha regente, mas… como faraó…
— É só um festival. — disse Anúbis cruzando os braços e se apoiando na parede marcada com vários escritos em alto relevo — Você já fez coisas muito mais complicadas e com possíveis consequências bem mais perigosas. Lidar com os Núbios, por exemplo.
Hatshepsut nada disse por alguns segundos, apenas deixou as palavras dos demais entrarem em seu coração e então suspirou lentamente e afirmou com a cabeça. Senenmut, ainda segurando a mão dela, olhava para ela atentamente, mesmo quando ela apertou a mão dele firmemente.
— Tem razão… — disse a faraó — Estou exagerando. Não vai ser por um festival, que tem pouco para dar errado, não ter dado tão certo que vão fazer um golpe pelo trono repentino, deixando ele todo com o Tutmósis III ou algo assim… mas também não vai ser esse festival ser perfeito que vai fazer com que me vejam como faraó.
— Tenho certeza que você vai gradualmente mostrar pra todo mundo que é você quem manda. — falou Senenmut.
— Obrigada. — agradeceu Hatshepsut realmente tocada pelo suporte.
— Eu vou ver se falta muito para a barca de Amon-Rá chegar aqui. — disse Neferure imediatamente saindo correndo para o lado de fora sob o olhar carinhoso da mãe.
— Ela cresceu bastante. — disse Senenmut sentindo o orgulho típico de um pai, mesmo que não compartilhasse uma gota de sangue com a princesa.
— Mais um pouco e ela alcança a gente… — disse Anput olhando para Anúbis — Uns três ou quatro anos…
— Vocês não acham estranho? — perguntou Hatshepsut — Ver todos ao redor envelhecerem e morrerem enquanto estão praticamente parados no tempo?
— Não… — disseram Anúbis e Anput ao mesmo tempo.
— É nosso normal… Mas também é raro ficarmos tanto assim, como com você, dentre os mortais. Então… acaba que não é algo que pensamos muito a não ser em situações como essa, quando nos aproximamos mais de alguém. E aí… é complicado… — explicou Anput olhando rapidamente com o canto do olho para ver se Anúbis iria dizer algo mas, vendo, pelo olhar dele, que ele não queria dizer em voz alta a coisa que ambos pensavam, ela continuou — Uma ou duas décadas não é muita coisa. E não é anormal ficarmos tão focados em algo que, quando a gente vai ver, meses se passaram. Então… não é tão bom assim ficar próximo demais de mortais, em comparação a ficar mais próximo dos outros deuses.
Anput olhou para Anúbis, e mesmo no silêncio, ele entendeu a crítica e o alerta que havia ali. Com certeza Anput gostava da amizade que Anúbis tinha feito com Hatshepsut, mas Anúbis tinha que lembrar que a faraó era mortal. Era só uma questão de tempo e então ele estaria, novamente, extremamente solitário. Hatshepsut e Senenmut notaram o olhar de alerta que a deusa lançava para o marido, mas não demonstraram ter entendido tudo que aquele olhar tentava transmitir.
— O que foi isso? — pensou Hatshepsut passando a pergunta apenas para Hathor.
— Com certeza um lembrete e um aviso para Anúbis. — explicou Hathor na mente de Hatshepsut — Até mesmo deuses ficam solitários e precisam de companhia. Socializar não é uma das coisas que Anúbis é tão bom assim, embora tenha de fato tentado mais recentemente. Com certeza Anput está preocupada de a amiga com quem ele passa mais tempo, você, ser uma mortal.
Pensar naquilo deixou Hatshepsut um pouco triste, não só pela própria mortalidade, mas também se perguntando que tipo de vida o amigo levava quando não estava ali com ela ou se empenhando em seus deveres de deus. Para um alerta daqueles ter vindo no meio de uma conversa normal, devia ser bem solitário. MAs, notando que uma mudança de assunto seria muito bem vinda, Hatshepsut buscou pelo primeiro assunto que conseguiu pensar.
— De toda forma, Neferure está mesmo grande… — disse a faraó — Já ouvi uns falarem de casar ela com Tutmósis III.
— Você vai deixar? — perguntou Anúbis.
— Não. Claro que não. — respondeu Hatshepsut negando com a cabeça — É tudo um plano para legitimar Tutmósis III ser o único faraó já que ela é minha filha e de Tut. Mas não só por isso que não quero deixar. Ela tem conseguido muito bem representar os títulos que tive que abandonar e passar para ela por virar faraó. Não é mais uma mera princesa. Claro, ainda está aprendendo, mas tenho grande esperança nela.
O assunto continuou a andar e alterou-se por vários minutos. Eles estavam tão no interior do templo de Tebas, que pouco conseguiam ouvir do que acontecia do lado de fora. Contudo, até aquele momento, tudo o que havia para ouvir do lado de fora era a conversa de várias pessoas que esperavam ansiosas pela chegada da barca dourada de Amon-Rá.
Eventualmente, no entanto, a música cantada aos plenos pulmões pelos sacerdotes da procissão, acompanhada pelos instrumentos tradicionais, chegava cada vez mais perto do centro de Tebas. A chegada da procissão, depois dela ter percorrido a longa avenida que ligava o templo de Tebas e o enorme templo de Karnak, fez a alegria do povo aumentar. Assim, repentinamente Neferure entrou novamente no cômodo acompanhada de um general.
— Mamãe, passaram já quase a avenida toda! — declarou Neferure.
— Minha rainha, a procissão e a imagem do deus estão chegando. — disse o general.
— Não sou sua rainha. — corrigiu Hatshepsut seriamente — Sou sua faraó.
O general simplesmente abaixou a cabeça uma vez, mostrando que tinha ouvido, mas sua expressão não parecia muito convencida do cargo da mulher diante de si. Com o recado dado, o general deu as costas deixando todos ali irritados. Neferure cruzou os braços, irritada, e Senenmut revirou os olhos tendo 100% de certeza que o general não tinha nem notado as duas companhias imortais, ou nem sabia quem eram.
— Ele pode mesmo falar com você assim? — perguntou Neferure.
— Não. Se fosse um homem a situação não aconteceria e ninguém questionaria se tomasse qualquer providência diante desse desrespeito. — respondeu Hatshepsut — Mas a situação com o exército está mais frágil do que o ideal para eu ousar irritar eles no momento. Mas eu tenho um plano para lidar com o exército… mas preciso de tempo ainda.
— Mas terá que encontrar um jeito de lidar com a situação enquanto ganha tempo também. — lembrou Hathor.
— Se a barca de Amon-Rá está chegando, é melhor irmos. — disse Anúbis olhando brevemente para Anput, que afirmou com a cabeça — O povo pode ter vindo pela comida e para ver a estátua de perto, mas Amon-Rá com certeza virá conversar com você.
— Obrigada por ter vindo me fazer companhia enquanto surtava por um simples festival. — disse a faraó.
— Não foi só por causa de um simples festival, e você sabe disso. — disse Anúbis.
A faraó já estava acostumada com os dois sumirem num piscar de olhos, então nem se surpreendeu quando isso aconteceu, apenas ficou mais alguns segundos pensando na última fala de Anúbis.
— Tenho que encontrar um jeito de lidar com toda essa pressão e falta de expectativa que alguns têm em mim por ser mulher e de não conseguirem me ver com nada além do que uma rainha que às vezes usa os adereços do faraó. — disse Hatshepsut lembrando que colocaria a barba falsa em breve, quando fosse receber a barca.
— Impressão minha, ou tem um novo plano vindo aí? — perguntou Senenmut.
— Talvez... — explicou Hatshepsut — Vamos ver o que o povo começa a dizer depois desse festival, mesmo que seja simplesmente por terem a chance de encher a barriga. Depois disso, vamos ver…
— Qual o plano que você disse que tem pro exército, mamãe? — perguntou Neferure curiosa.
— Bem, primeiro, as coisas na Núbia estão relativamente mais tranquilas, claro. — disse Hatshepsut — Mas em Canaã… problemas com os Beduínos não são novidade também, mas os Hititas e os Mitanni são péssimos vizinhos. Tanto para nós, quanto um para o outro. Mandar algumas unidades para a fronteira norte vai ser bem proveitoso tanto para a segurança do Egito, como para deixar o exército mais ocupado. Enquanto isso, seguimos fazendo comércio, encontrando novos parceiros comerciais, fazendo obras e reformas e nos preparando para a segunda parte do meu plano para lidar com o exército. É uma parte ousada e preciso de anos.
— Essa parte é muito boa. — disse Hathor, que já sabia o que a faraó planejava — Mas só esperar por ela não vai ser suficiente.
— Tenho que fazer que me aceitem o suficiente como faraó, mesmo sendo mulher, para conseguir conduzir a segunda parte. — disse Hatshepsut pensativa — Ela dando certo… nossa… isso sim vai ser grande.
— O que é a segunda parte? — perguntou Neferure quase pulando no lugar de tanta curiosidade.
— Seu professor te ensinou sobre o reino de Punt? — perguntou a faraó.
— Claro que ensinei. — defendeu-se Senenmut logo olhando para a garota com expectativa.
— O reino de Punt… — começou Neferure caçando as informações de sua memória — É um reino bem ao sul, depois da Núbia e dos Etíopes. Tem muita coisa legal lá… ou tinha… ou a gente acha que tem. Na época do faraó… erm… Khufu… fazíamos expedições até lá para fazer comércio e trazíamos muitas coisas legais. Mas é uma viagem muito difícil. Nenhuma frota comercial egípcia a repete faz séculos.
Enquanto a garota falava, Senenmut entendeu qual era o derradeiro plano de Hatshepsut e olhou para ela surpreso, orgulhoso e considerando-a um pouco louca.
— Essa é minha segunda parte. — explicou Hatshepsut toda confiante — Dê-me mais 5 ou 7 anos para preparar tudo, proteger o norte, preparar vários barcos e centenas de homens, e então, pela primeira vez desde Khufu, o construtor da maior pirâmide de todas, o Egito voltará à Punt com uma expedição entrará para a história.
— Isso é um grande plano… — disse Senenmut maravilhado.
— E tem mais! — disse Hatshepsut, radiante como uma criança, segurando uma das mãos de Senenmut com a mão livre — Vamos registrar os resultados da viagem. Mandar artistas para que vejam a fauna e a flora que tanto dizem os faraós antigos que é tão diferente daqui, e registraremos tudo! Vamos tentar trazer o máximo de coisas diferentes e outros artigos de luxo! Não vamos roubar deles. Faremos comércio com eles.
— Entendi por que precisa de tantos anos… — disse Senenmut pensativo — Não é só uma viagem simples de comércio, que por si só já seria bem complicada.
— Traremos o máximo que os barcos conseguirem carregar. — incentivou a faraó — E faremos barcos grandes!
— Um plano desse tamanho deve ser bem preparado. — lembrou Hathor — Se conseguir realizá-lo, ninguém duvidará de sua grandeza. Mas se falhar, pode levar o Egito a uma crise econômica.
— Se quer algo tão grande assim, não pode registrar esse feito nas paredes de Karnak. — disse Senenmut deixando Hatshepsut e Neferure confusas — Algo maior seria mais digno.
— Onde então? — perguntou Neferure.
— Se, com toda a dificuldade que foi chegar ao trono, considerando que você conseguiu trazer paz para o Egito até agora, sem perder território desde quando seu pai morreu, ambos grandes feitos considerando que sempre fomos um país bélico cheio de inimigos… se isso continuar assim e você ainda conseguir fazer essa expedição dos sonhos para Punt… — falou Senenmut maravilhado e sentindo-se pequeno diante de tantas conquistas e ambições — Seria mais do que digna de fazer um templo de Milhões de Anos para si colocando-se na lista dos maiores faraós que o Egito já viu. Um marco do triunfo da viagem, de seu reinado, de sua vida…
— Ele está certo… — disse Hathor — Mas deixe o realismo junto com o otimismo. Não considere simplesmente tudo como atingido.
— Eu sei. — pensou Hatshepsut.
— E um agradecimento aos deuses por tudo… — disse Hatshepsut sorrindo sonhadora, com olhos brilhando, gostando daquela ideia que parecia ainda mais longe e otimista que a ida para Punt — E você pode projetar! Um templo maravilhoso! Diferente de tudo que o Egito já viu! O templo que você sempre sonhou em fazer!
— Colocaríamos uma capela para Amon-Rá, sem dúvida. — disse Senenmut ainda mais empolgado pela ideia de fazer o templo que sempre sonhou e já sentindo as ideias surgirem — E para Hathor com certeza também.
— E para Anúbis! — disse Hatshepsut completando o conjunto com a cereja do bolo.
— Perfeito. — concordou Hathor que, Hatshepsut podia sentir, estava sorrindo.
— Será possível deixar de surpresa para ele? — perguntou Hatshepsut para Hathor.
— Não por muito tempo, com certeza. — avisou Hathor — Nós ouvimos as preces dos mortais então… qualquer deslize e chega até ele. Talvez através de um trabalhador clamando seu nome enquanto constrói o templo, ou até mesmo através você, perguntando-se sobre algo.
Sonhar é muito bom, mas é importante batalhar e planejar os passos necessários para atingir seus objetivos. Assim, embora Hatshepsut bem quisesse gastar mais dias pensando naquilo, planejando com Senenmut qual o local ideal para construir o templo, encontrando uma data para ir até Punt e ir atrás de informações sobre os animais e plantas exóticas que diziam existir por lá, ela tinha que ter certeza que teria o que era preciso para cumprir todos esses objetivos. E, por hoje, o que ela tinha que fazer era ter certeza que o Festival de Opet seria um sucesso.
Assim, ela respirou fundo e voltou para suas tarefas de Faraó. Ela colocou a barba falsa, recebeu a barca de Amon-Rá e abriu os comes e bebes para o povo. Enquanto o povo comia e bebia, ela retraiu-se para dentro do templo e teve uma longa conversa com Amon-Rá e Hathor. Não era despercebido para Amon-Rá que ela estava tendo dificuldades em fazer os outros verem-na como Faraó. A imagem de uma mulher simplesmente não parecia encaixar com o imaginário do cargo. Poderia usar as coroas, a barba falsa e todo adereço cerimonial de um faraó, o povo via ali, no máximo, uma rainha regente se passando como faraó.
Então, um dia, Hatshepsut percebeu que se o único jeito que começariam a vê-la como faraó, era se ela se ela primeiramente entrasse o máximo possível na imagem de um faraó, seguindo cada visual esperado, cada mínimo detalhe lembrando constantemente quem quer que olhasse, que era ela quem tinha o poder absoluto e o favorecimento dos deuses no Egito.
No primeiro dia depois de Hatshepsut saber qual era a primeira coisa que tinha que fazer para começarem a vê-la como faraó, ela botou seu plano em ação. O plano foi tão drástico e chamativo que todos entenderam bem o recado que ela queria passar. Isso porque, quando Hatshepsut saiu de seu quarto, ela não estava em um dos elegantes vestidos que tinha, nem adornada com jóias delicadas e femininas.
A faraó mostrou-se para todos com apenas um saiote que mal chegava até seus joelhos. O tecido branco do linho de alta qualidade era acompanhado por detalhes amarelos, marrons, verdes e azuis de uma elegante faixa faraônica amarrada na cintura. Na faixa, pequenas pedras preciosas e ouro aumentavam o luxo do visual e combinavam com os braceletes que ela levava nos pulsos e com o colar, como um grande disco, que não era nem de perto grande o suficiente para esconder os seios completamente expostos. O cabelo, sem adornos, amarrado num rabo de cavalo simples.
Era um conjunto tremendamente masculino. Podia até ser possível dizer que ela estava vestida como homem, mas, acima de tudo, ela estava vestida de faraó. A expressão séria dela, junto com o conjunto ousado que virou o foco de fofocas desesperadas que se espalharam como fogo, deixavam bem claro que ela não aceitaria ninguém mais não a considerando a única e soberana faraó.
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