A Morte Das Areias do Saara
118 A Faraó que Quase Foi Apagada
Notas iniciais

Eu lhe dei Punt em sua totalidade, incluindo as terras dos deuses,
a Terra de Deus que não foi penetrada, e os terraços de mirra desconhecidos para os egípcios.
Foi aprendido por boatos, a partir das histórias dos ancestrais. Trouxeram-se mercadorias exóticas, e estas foram trazidas de lá para seus pais, os reis do Baixo Egito, de um para outro desde a época dos ancestrais, para os reis que foram antes, em troca de muitos pagamentos.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
O sol já deixava de arder forte no Vale dos Reis e começava a se pôr atrás de um pico, chamado ali de Ta Dehent, que traduzia simplesmente para “O Pico”. Uma criatividade de nome muito parecida com a usada no antigo nome do Nilo, Iteru, que significava simplesmente “Rio”. O Pico tinha um formato criado pela natureza quase perfeitamente piramidal e era o ponto mais alto dentre os morros de pedra que cercavam o Vale dos Reis. Era o Pico um dos responsáveis pela escolha daquele vale para sepultar os faraós, pois ele parecia proteger todas as tumbas ali como uma pirâmide, tal como as pirâmides de Gizé.
Uma das tumbas ali, identificada posteriormente para evitar confusões como KV-20, havia sido reaberta e recebeu reformas depois de ter sido selada após receber seu primeiro residente. Naquele dia que se encerrava, um grupo de pessoas colocava ali dentro o sarcófago do segundo residente da tumba, a faraó recém falecida. Ali era o local do descanso final de Hatshepsut e seu pai, Tutmósis I.
Com um suspiro cansado, o grupo de pessoas olhou por uns segundos para o trabalho feito. Não havia sido nada fácil descer o sarcófago pelas várias curvas e descidas que juntas somavam 210 metros de caminhada.
— Descer é fácil, quero ver subir… — comentou uma das pessoas.
— Descer com um sarcófago com uma pessoa dentro é fácil? — questionou uma segunda pessoa — Pelo menos agora não temos que carregar muito peso!
— Shiu… Não fale assim. — reclamou uma terceira pessoa olhando ao redor e se curvando para os dois sarcófagos guardados pela tumba — É um local sagrado e a tumba de dois faraós.
A terceira pessoa não sabia bem porquê os pelos da nuca estavam arrepiados e ficou extremamente aliviada por poder deixar a tumba para trás. Ele podia chutar vários motivos para justificar a estranha sensação de que havia alguém mais ali, e provavelmente um dos chutes estava certo. Acompanhando cada etapa desde do início da mumificação da amiga, estava Anúbis.
Não havia sido muito confortável ver a parte da mumificação de Hatshepsut dado a quão invasivo e um tanto grotesco o processo era, mas ter Anput ao seu lado realmente ajudou. E agora, com o sarcófago ali já engolido pela escuridão, Anúbis sentia que a última vez que veria a faraó estava a um passo de distância.
— Te vejo lá embaixo… — disse Anúbis soltando um pesado suspiro e pousando a mão sobre o sarcófago de Hatshepsut.
A veria logo no submundo, tinha certeza. Não achava que a alma dela iria se perder no caminho e tentaria se certificar disso. Mas, por alguns segundos, ficou lá, ao lado do sarcófago e pensando em como ela ficaria feliz em saber que várias deusas acompanharam de perto a procissão fúnebre da faraó, mesmo que agora estivesse só ele ali.
Infelizmente, não podia ficar muito tempo ali. Já havia acompanhado a procissão inteira, afinal de contas, e essas coisas não eram rápidas. Assim, Anúbis voltou para o Salão do Julgamento para cumprir seus afazeres e a cada alma que julgava, ele ficava ansioso para Hatshepsut ser a próxima. Até que alguns dos deuses ali presentes, Anúbis incluso, sentiram que estava perto da vez de Hatshepsut. A informação se espalhou rapidamente com a rapidez de uma fofoca quente. Várias deusas queriam ver os últimos momentos da alma da faraó.
Sem dores e parecendo estar em plena saúde, Hatshepsut entrou no Salão da Pesagem do Coração pronta para a última parte do julgamento de sua alma. A falecida faraó olhou primeiro para o amigo e um sorriso preencheu seu rosto. Ninguém notou, mas ela escondeu o alívio que tinha por realmente ver Anúbis ali, como se tivesse outro deus que fizesse a pesagem do coração. Contudo, aquele sentimento não era uma esperança de um tratamento especial, sabia que ele seria imparcial.
Hatshepsut estava elegante e bela, como no dia em que tinha se declarado faraó. A beleza chamava atenção enquanto ela percorria o olhar pelos deuses espectadores. Ela então notou, com um sorriso, a presença de Hathor, que afirmou com a cabeça em conhecimento. Havia muitos rostos que Hatshepsut não conhecia ali, mas a maioria parecia exibir um misto de admiração e orgulho, mesmo os intimidadores Osíris e Hórus. Sentiu falta de Amon-Rá, mas logo descartou a preocupação, afinal ele com certeza era alguém extremamente ocupado.
Vendo Anúbis com seu cetro ao lado da famosa balança, Hatshepsut decidiu que ali não parecia o lugar nem a hora para ser informal ou se render às lágrimas e à vontade de abraçar algumas pessoas queridas por ali. Então Hatshepsut se ajoelhou diante dos deuses, de forma humilde e de cabeça baixa.
— Está tudo bem. — disse Anúbis — Pode se levantar… e relaxar… quase ninguém consegue ficar tão formal quando chega aqui.
Indecisa, Hatshepsut olhou para Anúbis por um segundo e então seu olhar foi para os outros deuses. Sem encontrar olhares julgadores ou negativos, a faraó se ergueu. Ao sentir os olhos se encherem de lágrimas, ela limpou-os rapidamente.
— Achei que a essa altura estaria mais confortável com a ideia de que tudo acabou. — disse Hatshepsut respirando fundo.
— Talvez não tenha que acabar. — disse Anúbis indicando com a cabeça a entrada do Aaru.
— Uma parte de mim tem medo de o meu destino final ser o estômago de Ammit. — admitiu Hatshepsut encarando a demônio devoradora com o canto do olho — De certa forma, não tomei o trono de Tutmósis III?
— Pode até ser. — disse Anput dando de ombros — Mas não consigo pensar em nenhum outro reinado que tenha seguido mais as normas de justiça e harmonia de Ma’at.
— Anput, não interfira no que a alma pensa sobre suas ações passadas. — pediu Hórus calmamente.
Anput revirou os olhos disfarçadamente, o que fez Hatshepsut abrir um sorriso discreto e delicado. Ela então olhou para Anúbis, cujos olhos já pareciam antecipar a saudade. E na troca de olhar, ele conseguiu ler uma pergunta silenciosa.
— Quando estiver pronta. — respondeu ele.
Por um segundo, Hatshepsut se perguntou se ele dava alguns segundos para se preparar para todo mundo que chegava até ali. Lembrando de quando, muitos anos atrás, ele comentou que às vezes tinha que usar a cabeça de chacal ali para intimidar, ela teve a certeza que ao menos um tipo de alma não deveria ter o luxo de alguns segundos para respirar fundo.
A faraó respirou fundo e afirmou com a cabeça. Por um segundo fechou os olhos, mas logo os abriu decidida a testemunhar cada detalhe daquela experiência final.
— Meu coração pelo qual eu nasci! Não se oponha a mim no meu julgamento, que não haja oposição a mim na presença dos chefes. Que não parta de mim na presença daquele que guarda a Balança! — proferiu Hatshepsut no discurso devidamente decorado do Livro dos Mortos — Tu és meu Ka, que habita em meu corpo; O Deus Khnemu que une e fortalece meus membros. Que vá para o lugar de felicidade para onde vamos. Que os oficiais de Sheniu, que fazem as condições da vida dos homens, não façam com que meu nome cheire mal, e que nenhuma mentira seja pronunciada contra mim na presença do Deus. Preste bem atenção, ó justo Juiz da Balança, para apoiar o testemunho de meu coração.
Sob o olhar atento e confiante de Hatshepsut, Anúbis se aproximou com a mão de seu peito mas, antes de sequer tocá-la, ele retraiu a mão puxando o coração dela para fora. O coração semi-transparente pousou na mão do deus confortavelmente, para a surpresa de Hatshepsut.
O deus andou calmamente até a balança, havia feito aquele mesmo processo centenas de milhares de vezes, seu corpo praticamente se movia sozinho. Diante da balança, Anubis ergueu a mão vazia e dela magicamente surgiu, brilhando como um pequeno sol, a bela pena da verdade. Hatshepsut respirou fundo mais uma vez quando o amigo colocou de um lado da brilhante balança, a pena e do outro o coração.
Lentamente a luz dourada que irradiava da balança se apagava e os pratos começavam a se mexer ao pesar os dois lados. Gradualmente, a balança foi pendendo mais para um lado do que para o outro. Para todos verem, a pena se mostrava mais pesada. Hatshepsut suspirou aliviada e tinha certeza que não faltou muito para perder a força nas pernas ali mesmo.
— Veja este julgamento. — disse Anúbis, como um roteiro, olhando para Osíris — O coração de Hatshepsut foi verdadeiramente pesado, e sua alma-coração deu testemunho em seu favor; seu coração foi achado correto pela prova na Grande Balança.
Osíris afirmou com a cabeça e um sorriso no rosto e lentamente Anput e Hathor se aproximaram de Hatshepsut, sorrindo saudosamente. A faraó esfregou inconscientemente o peito, estranhando a sensação do coração ser tirado de si, e olhou para as duas deusas que se aproximavam, não deixando de notar que, mesmo distante e cuidando da balança, Anúbis parecia pensar num jeito de falar com ela.
— Você vai fazer muita falta. — disse Anput estendendo os braços.
Falar com os deuses normalmente era uma coisa. Abraça-los era um outro nível. Mas Hatshepsut não resistiu. Era seus últimos segundos ali, interagindo com pessoas que com certeza nunca morreriam e teriam a chance de ir para o Aaru. Assim, a faraó abraçou Anput cujo peito doía não só pela perda de uma amiga, mas também pela perda de uma mulher poderosa, uma líder, que dificilmente conseguiriam se igualar.
Quando se soltou do abraço, Hatshepsut foi recebida por Hathor, mas não num abraço, mas sim num rosto gentil de mãe acompanhado de uma carícia na bochecha.
— Você fez bem mais do que qualquer um aqui achava que conseguiria fazer. — disse Hathor — Mesmo os mais otimistas. Entre no Aaru de cabeça erguida sabendo que representou mais do que pode imaginar.
A prova da última frase de Hathor, foi que uma pequena fila havia se formado atrás dela. Uma fila de deusas que queriam dizer alguma coisa para aquela que foi a primeira a subir acima de todos e foi mais longe do que qualquer mulher mortal havia ido. Hatmehit, Heqet, Renenutet, Sopdet, Seshat, Hedetet, Mafdet, Tawaret, Meskhenet e por último, até mesmo Ísis disse algumas palavras para Hatshepsut.
— Hathor já disse as palavras que eu poderia encontrar. — disse Ísis — Acho que pôde notar agora que tinha uma boa torcida aqui para você. Aproveite o pós vida, pois o mereceu com muito louvor, Hatshepsut, rei do Alto e Baixo Egito: Maatkare, imagem sagrada de Amon.
Anúbis continuou em silêncio no lugar dele ao lado da balança, só esperando a sua vez. Teria mesmo que levar a faraó até dentro do Aaru. Seria o último dali de fora que ela veria. A vez dele chegou quando, ao final de sua fala, Ísis deu alguns passos para o lado e estendeu levemente o braço indicando Anúbis para Hatshepsut.
Lado a lado, os dois foram para o portal dourado brilhante do Aaru e então, de repente, Hatshepsut foi recebida por um infinito campo de juncos dourados e uma intensa paz que lhe preencheu o coração.
— O Aaru. — disse Hatshepsut.
— O Aaru… — disse Anúbis, sério, não gostando de como cada segundo final se passava.
— Neferure está por aqui, certo? — perguntou Hatshepsut — Como irei encontrá-la?
— Não deve ser complicado. Vocês vão acabar se encontrando naturalmente sem que faça muito esforço. — disse Anúbis soltando um pesado suspiro — O próprio Aaru se certificará disso.
— O verei novamente? — perguntou a faraó notando como ele estava cabisbaixo.
Ele ergueu o olhar por um segundo e, ao ver o olhar preocupado dela, suspirou novamente e baixou o olhar.
— Não. — respondeu ele — Tento não ir até onde as almas do Aaru moram. É complicado. Aqui é um lugar para não se preocuparem com nada. Ao me verem podem querer saber o que acontece lá fora ou o que aconteceu com alguém e a resposta nem sempre é muito boa. É melhor assim.
— Entendo… — disse Hatshepsut ficando cabisbaixa também.
Eles ficaram em silêncio. O único ruído vinha dos juncos sendo atingidos por um leve vento. A primeira a quebrar o silêncio foi a própria Hatshepsut.
— Imagino que seja demais pedir para que algo dure para sempre. — disse ela — Afinal essa é a ordem natural das coisas.
— Algo eterno não existe. — disse Anúbis.
— Você é imortal. — lembrou Hatshepsut.
— Deuses vêm e vão. — justificou Anúbis dando de ombros — Não sei se em 100 anos, ou 1000 ou até mais, mas uma hora também vai chegar minha hora.
— O que acontece nessa hora? — perguntou Hatshepsut — Vocês têm seu próprio Aaru?
— Não sei. — admitiu Anúbis — Provavelmente não. Vocês são pessoas, de carne e osso, que nascem, crescem, vivem, morrem. Somos só crenças. Provavelmente só sumimos, como uma memória esquecida.
— Bem, se é assim… — disse Hatshepsut tentando ignorar o quão triste e pesada a conversa havia ficado — Espero que tenha pela frente vários séculos, milênios até, de uma boa e feliz vida. Que faça amigos e ache um lugar que sinta se encaixar. Vou sentir muito a falta do meu melhor amigo.
— Também vou sentir falta da minha melhor amiga. — disse Anúbis tentando abrir um sorriso, foi difícil.
A tentativa de sorriso de Anúbis não teve que durar muito, pois logo ele estava sendo abraçado por uma chorosa Hatshepsut. Uma fungada dele logo provou que ele não estava tão diferente. Mas assim como nada dura para sempre, eles não podiam ficar ali para sempre. Depois de algum tempo, o abraço se desfez. Os dois se olharam e, sentindo que tudo havia sido dito por ambas as partes, Hatshepsut se afastou chorando.
Por três vezes Hatshepsut olhou para trás antes de decidir que era melhor seguir em frente. Anúbis ficou ali mais uns minutos mesmo após ver Hatshepsut sumir no horizonte, sozinho, até que viu uma pequena matilha se aproximando. Foi só bater o olho que viu Neby no meio da matilha. O velho amigo chacal acelerou o passo chegando antes que todos os outros e se erguendo nas duas patas para receber Anúbis.
— Olá. Estava me perguntando se iria vir. — disse Anúbis já acostumado com Neby indo até ali quando passava tempo demais deixando alguma alma.
Neby balançava o rabo animado com a língua pendurada para fora e balançou o rabo ainda mais rápido quando Anúbis começou a fazer carinho atrás de suas orelhas. Nesses meros segundos, Anúbis percorreu o olho pela estranha matilha formada por cachorros, lobos e chacais. Só no Aaru mesmo uma matilha misturada daquele jeito poderia existir.
— Você bem que podia me ensinar como faz para ter tantos amigos… — comentou Anúbis percorrendo o olhar pelos outros animais, todos querendo um pouco de carinho também.
Mas Anúbis não podia simplesmente ficar eternamente ali. Depois de algum tempo e várias carícias atrás de orelhas, ele deixou o Aaru. Quando ele cruzou o portal, nem parou para notar que o Salão do Julgamento estava praticamente vazio. Sem ele dizer nada, todos pareciam saber que não teria mais nenhum julgamento naquele dia. E estavam certos, Anúbis foi direto para a sala das múmias sem notar que Anput e Osíris o seguiam com o olhar.
— Deixe ele. — disse Osíris quando Anput, logo ao seu lado, deu um passo na intenção de ir até Anúbis — Acho que ele quer de um tempo a sós agora.
Claro que Osíris estava certo. Eram raras as vezes que não estava. Anúbis entrou na escuridão da sala das múmias e deitou sob uma das mesas de pedra vazias. Por alguns minutos encarou o teto tentando deixar ir tudo que tinha acontecido não só agora, mas em todos os mais de 20 anos que teve Hatshepsut como amiga, o que não acontecia sem lágrimas.
Sem um motivo específico, ele olhou para a mesa de pedra do lado, onde um corpo seco ainda não enfaixado, esperava deitado o resto do próprio processo de mumificação.
— Sou decididamente estranho… — disse ele dando uma fungada.
Não conhecia muitos por aí que achariam normal alguém tentar organizar os sentimentos em tumbas escuras ou perto de corpos semi-mumificados, ou que achava mumificar corpos um passatempo válido e interessante. Não sabia quanto isso tinha de peso em nem muitos deuses falarem com ele, ele também não conseguia fazer um trabalho tão bom em falar com eles de toda forma.
Pelo resto da noite e do dia, Anúbis ficou ali na total escuridão da Sala de Múmias. Quando trabalhava nelas, obviamente acendia algumas tochas. Mas, no momento, a escuridão parecia mais confortável.
Enquanto isso, dentre os mortais, Tutmósis III se tornava o único e poderoso faraó. Com o jovem no poder, as coisas começaram a mudar, não necessariamente sempre para melhor.
Tutmósis III, tal como o avô, gostava de guerra. E assim como o avô, ele era um bom estrategista e general. Com o passar dos dias e dos anos, Tutmósis III organizou 17 campanhas militares e conquistou terras na Síria e mais partes da Núbia, criando assim o maior império que o Egito já viu até os dias atuais. Também foi durante seu reinado, e dizem que sob o seu olhar, que os egípcios notaram como as galinhas eram interessantes, conseguindo produzir tantos ovos, que serviam de alimento e para criar novas galinhas.
Decididos a potencializar isso, pela primeira vez, o ser humano desenvolveu formas de incubar ovos, aumentando a produção destes e, consequentemente, difundido-os como um item comum de alimentação pelo Egito e, com o passar dos anos, posteriormente para várias outras civilizações. O ovo se tornava um alimento comum pela primeira vez.
Mas, se teve algo que marcou o reinado de Tutmósis III foi que, quando seu filho, Amenhotep II, começou a governar ao lado do pai, algum dos dois não gostava nem um pouco da falecida Hatshepsut. Uns dizem que para Tutmósis III, outros dizem que para Amenhotep II, Hatshepsut era uma usurpadora, uma mulher que se meteu no que não devia.
Assim, foi feita uma tentativa de remover Hatshepsut da história. Os registros do nome dela e suas imagens foram danificadas, deixando lacunas muito óbvias que séculos depois, mesmo sem nome, identificariam como aquela obra sendo uma de Hatshepsut mesmo com as tentativas de Amenhotep II colocar seu nome sobre o dela.
No templo tão meticulosamente criado por ela e Senenmut, quando o arquiteto já tinha partido para o outro mundo para juntar-se com sua amada, as numerosas estátuas de Hatshepsut foram derrubadas, esmagadas e desfiguradas antes de serem enterradas em um poço. Em Karnak, houve até uma tentativa de emparedar seus enormes obeliscos. Qualquer outra obra identificada como de Senenmut foi igualmente desfigurada também. Não só isso, mas com medo de outros golpes femininos pelo trono, Amenhotep II diminuiu a importância e a representação das mulheres da família real.
Entre Tutmósis III e seu filho Amenhotep II, um dos dois se empenhou em destruir qualquer rastro de Hatshepsut, algo que não era fácil, considerando que ela havia construído muitas coisas por todo o Egito. Algo que também era muito complicado considerando que, vira e mexe, relatavam um jovem de cabelos pretos atrapalhando as tentativas de apagamento da imagem de Hatshepsut.
Mas Anúbis era só um e ainda tinha muitos deveres para exercer e, considerando a volta do Egito à guerra, esses deveres também ficavam mais frequentes. Mas a gota d’água para o jovem deus, foi quando invadiram o túmulo tão meticulosamente reformado para Hatshepsut, arrancaram seu sarcófago de lá, roubaram todas as suas coisas e largaram o corpo da faraó numa pequena tumba, sem pinturas, sem detalhes.
Suados e cansados pelo esforço, o grupo de seis homens largava o sárcofago da faraó na pequena tumba. Tão pequena que um pouco da luz exterior ainda chegava na sala onde eles deixaram a falecida faraó.
— Ei, essa tumba já tem dono. — falou um deles olhando para o sarcófago logo ao lado.
— Que diferença faz? — perguntou um segundo — O faraó mandou, a gente faz.
— Ei… gente… — disse um terceiro olhando para o portal de entrada, onde agora uma pessoa estava de pé, de braços cruzados, contra o sol — Estávamos só em seis né?
— Sim. Porquê? — perguntou o primeiro.
— Tem alguém ali na porta… — explicou o terceiro.
— É o cara que não deixou a gente subir as escadas do templo da Hatshepsut? — perguntou temerosamente um quarto, num mero sussurro, se escondendo contra a parede.
— O sol não deixa ver direito, mas… — disse o terceiro dando um passo hesitante para trás que se seguiu por um segundo mais certeiro quando viu uma névoa surgir ao redor da silhueta da pessoa — É QUE SIM!
Os homens pararam tudo que faziam e entraram num frenesi atrás de um lugar para se esconderem ou uma forma de escaparem. Mas era inútil. A tumba tinha apenas uma única saída, a mesma onde estava a pessoa que eles não queriam encontrar. A névoa negra entrou apressada na tumba e preencheu cada centímetro dela, com exceção dos dois sarcófagos pousados ali. Ao entrar em contato com os homens, eles gritaram de dor e viram, com seus próprios olhos, os corpos definharem, as extremidades enegreceram.
A dor era agonizante, mas num piscar de olhos, a tumba estava vazia e silenciosa, e os homens mortos. Só então Anúbis entrou na pequena tumba e foi em direção ao sárcofago da amiga.
— Desculpa a demora. — disse ele olhando para o sárcofago, então para as paredes nuas da tumba e o sárcofago do ocupante original — Você não merece uma tumba como essa… por mais que a companhia não seja de todo ruim. Pelo menos tenho certeza que está curtindo o Aaru com Neferure e Senenmut.
Ele sentou-se ao lado do sárcofago da amiga e suspirou fundo.
— Demorei pois Nekhbet veio falar comigo. — justificou Anúbis, sabia que Hatshepsut não ouvia, mas precisava daquela conversa, mesmo que unilateral, tanto era a falta que sentia da amiga — Eu não… gosto muito dela. É uma velha chata na maioria dos séculos. Mas ela protege os faraós que acha dignos, teste que você passou aos olhos dela, e… bem, não acho que tenha alguma deusa que não goste de você. Nekhbet às vezes consegue acertar umas coisas do futuro e… ela disse que você vai ficar mais segura aqui do que na sua tumba original. Não acho que ela esteja mentindo. Então… é… vou deixar você aqui, por mais sem graça que a tumba seja. Mas acho que está tudo bem, afinal é impossível ir para Tebas sem ver o grande e belo templo que você e Senenmut fizeram. Ele sofreu um pouco, é verdade, mas ainda está lindo. Não vai ser tão fácil te apagarem quanto acreditam.
Em seguida, ele deixou a tumba para trás tomando o cuidado de sela-la. Mas as fofocas logo se espalharam entre os mortais e os deuses sobre quem tinha acabado com aqueles que trocaram o corpo da faraó de lugar, mas apenas os deuses acertaram as fofocas. Bem, os deuses, e o mandante da atrocidade, pois era bem sabido dentro do palácio pelos mais próximos de Hatshepsut, que ela tinha uma amizade muito peculiar. E o mandante da atrocidade, seja ele Tutmósis III ou Amenhotep II, começou a temer por sua vida, e pelo seu pós-vida. Ele ganhou de prêmio noites mal dormidas e dias com os pelos da nuca se arrepiando quando sentia que não estava sozinho.
Mas não tinha para onde escapar. Quando chegou a hora, Ammit devorou o coração do mandante lambendo os beiços. A múmia de Hatshepsut ficou na pequena tumba sem graça, que seria saqueada com os anos que viessem. Sofreria um pouco com os arrombadores de tumbas, que não se preocupariam em desfazer as bandagens atrás de peças de ouro no corpo, mas continuaria bem o suficiente para permanecer razoavelmente intacta, e no mesmo lugar, até ser descoberta em 1903 e só retirada de seu descanso bem depois, já no século 21, saindo de lá direto para testes de DNA que as identificariam e fariam com que ela fosse colocada em caixas de vidros elegantes dentro de museus modernos ao lado dos grandes reis e rainhas do Egito, com sua história restaurada apesar das tentativas de apagá-la.
Mas, na época em que sua história tentava ser apagada, outras coisas aconteceram também. Ainda durante o reinado de Tutmósis III, aconteceu um terremoto que pouco dano fez às construções egípcias, mas derrubaram o palácio de Knossos, em Creta, marcando o começo da decadência final dos minóicos, que muito sofreram pelo desastre natural, e a ascensão dos micênicos.
Eventualmente, tal como Tutmósis III e Amenhotep II morreram, também morreu o filho de Amenhotep II, Tutmósis IV. Mas Tutmósis IV não morreu antes de restaurar os status das mulheres reais, retirados pelo pai. Tutmósis IV casou-se com Mutemwiya, uma princesa da civilização Mitanni, atual Síria. E, seguindo a tradição de deixar tudo em família, o filho dos dois, Amenhotep III, casou-se com Tiye, a sobrinha de Mutemwiya.
Com o Egito casado com a família real mitanni, e o mesmo acontecendo com outros membros da família real mitanni e outras civilizações vizinhas, a consequência foi que os babilônicos, os hititas, os mitanni e os egípcios estavam agora unidos pelo casamento. Contudo, a variação dentro dessas famílias, especialmente no Egito, ainda era bem pequena. Ambas as linhas da família real, masculina-egípcia e feminina-mitanni, estavam cheias de incesto tanto individualmente, quanto ao se misturarem. Assim, quando o filho de Amenhotep III e Tiye nasceu e cresceu, era fácil notar que ele parecia um pouco desproporcional.
Os rituais funerários finais de Amenhotep III estavam recém terminados e Amenhotep IV era um jovem de 19 anos alto, com rosto bonito e fino, lábios grossos, pele negra, alto mas de braços finos e uma barriga levemente arredondada e quadris largos que não combinavam com o corpo esguio. A coroação total de Amenhotep IV ainda precisava de algumas cerimônias, afinal era um processo demorado, mas para os deuses, até então, era só mais um faraó.
A extensão do Egito ainda era grande o suficiente para agora oficialmente fazerem fronteira com o império Mitanni, já bem perto da cidade Síria de Aleppo. E tudo estava bem pois o faraó recém falecido liderou um período de prosperidade e esplendor, levando o Egito ao auge de seu poder artístico e internacional.
Era só mais um dia, 105 anos já haviam se passado desde a morte de Hatshepsut, o que deixava Anúbis aproximadamente no meio do caminho entre 1700 e 1800 anos. Os deuses se perguntavam entre um julgamento e outro, como seria o reinado de Amenhotep IV. Tudo estava normal, até que não estava.
— Tem alguém lá fora… — disse Anúbis repentinamente assim que a alma de uma criança entrou no Aaru saltitante.
— Quem? — perguntou Osíris.
— Não sei. — respondeu Anúbis sério — Só sei que não é alguém que deveria estar lá.
Osíris afirmou com a cabeça e isso já era mensagem o suficiente para Anúbis. Ele sumiu do interior do Salão do Julgamento e reapareceu alguns metros antes de sua entrada, no caminho tenebroso do Duat que levava as almas ate ali. Sua aparição repentina, com cabeça de chacal ainda por cima, dois palmos diante de um rapaz branco, loiro, com roupas claramente estrangeiras, fez o estranho visitante, ou invasor, se sobressaltar.
O rapaz aparentava ter no máximo 20 anos, não mais do que isso. Mas Anúbis sentia que ele não era uma alma morta, nem um mortal perdido no Duat. Sentia ali mais idade do que simplesmente 20 no rapaz que agora balbuciava num idioma desconhecido por Anúbis.
— Quem é você? — perguntou Anúbis.
— A-Ah… Hm… — gaguejou o rapaz parando um segundo para respirar fundo e estender para Anúbis um papiro.
— Quem é você? — repetiu Anúbis tomando o papiro para si se perguntando se era algum emissário de algum panteão estrangeiro tentando se comunicar.
— Desculpa. — respondeu o rapaz num sotaque terrivelmente carregado — Meu egípcio não bom. Sou Hermes.
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