A Morte Das Areias do Saara
119 Você é o Único
Notas iniciais

Ninguém os alcançará, exceto seus exploradores, pois deixarei sua expedição entrar depois de tê-los guiado por água e por terra,
revelando-lhes as estradas inexploradas depois de ter entrado nos terraços de mirra.
É uma região sagrada da Terra dos Deuses. É o meu lugar de prazer.
Eu o criei para alegrar meu coração com Mut, Hathor, Wereret, senhora de Punt, senhora do céu Weret-Hekau, senhora de todos os deuses.
~ Fragmento de “Expedição de Punt da Faraó Hatshepsut”
— Hermes, prazer… — repetiu Anúbis analisando o recém chegado — Eu sou Anúbis. De onde você é?
A roupa que Hermes usava era claramente estrangeira, como se o sotaque não fosse suficiente para o dedurar como estrangeiro. Anúbis logo se viu tentando definir de onde Hermes era pela aparência dele, sotaque e pela roupa, que basicamente era uma túnica branca com mangas na altura do cotovelo, aparadas, com gola com o formato de uma canoa. Era fácil retirar dos chutes de nacionalidade qualquer coisa ao sul do Egito. As chances de ser alguém do Oriente Médio eram baixas, mas não nulas, e mais para o Leste as chances eram muito remotas. Norte era mais provável, mas onde no Norte era mais complicado.
— Micenas. — respondeu Hermes depois de alguns segundos confirmando a teoria de “Norte”.
— Ah sim, o pessoal que conquistou de vez os minoicos algumas poucas décadas atrás… — disse Anúbis — Você é um deus micênico então, certo?
— Isso. — respondeu Hermes falando lentamente parcialmente aliviado por Anúbis ter entendido — Preciso pedir desculpas… em nome dos micênicos… pela conquista dos minóicos?
— Não. — disse Anúbis estranhando a pergunta, não se importavam tanto assim pelos minóicos — O que veio fazer aqui?
— Vim como mensageiro dos deuses micênicos para entregar essa mensagem… — disse Hermes apontando para o papiro timidamente — Para… O grande Osíris e o grande Hórus.
Anúbis pensou por uns segundos e afirmou com a cabeça, não era exatamente tão surpreendente mensageiros estrangeiros serem enviados, tanto entre os mortais, como entre os deuses e Hermes não parecia ameaçador demais. Então, Anúbis deu as costas para Hermes para voltar ao Salão do Julgamento, e chamou, com um gesto da mão, o pobre intimidado deus micênico para o acompanhar, afinal ele nem tinha saído do lugar.
Disfarçadamente, Hermes respirou fundo. Hermes ainda podia contar nas mãos quantas vezes ele teve contato com outros deuses e seus lugares sagrados, e o Salão do Julgamento e sua entrada estavam longe de ser os mais receptivos. O caminho era escuro, passava por almas que se alinhavam para serem julgadas e terminava na entrada do Salão do Julgamento, que era envolta por um mar de fogo revoltado e ameaçador.
Foi necessária toda a concentração de Hermes para não ficar boquiaberto para a entrada imponente do Salão do Julgamento. Afinal, tal como todas as obras egípcias, tudo era absurdamente enorme, grande o suficiente para comportar gigantes e, apesar do tamanho, tudo era meticulosamente detalhado. Para completar a intimidação, não estava na lista de coisas normais para Hermes entrar num lugar e a primeira coisa que ver ser deuses com cores tão diversas como azul e verde, e até mesmo cabeça de hipopótamo ou crocodilo.
— Ora, temos um visitante? — perguntou Osíris levemente surpreso.
— Hermes. — disse Anúbis enquanto Hermes, tenso, resistia a tentação de olhar tudo ao redor e focava seu olhar no caminho a sua frente — Mensageiro pelos deuses de Micenas.
— Resolveram sociabilizar finalmente? — perguntou Hórus com os olhos levemente arregalados.
— Acho que isso significa que novos tempos estão diante de nós. — disse Ísis — Aquele terremoto foi certamente muito pesado para os minóicos.
— Sim. — disse Hermes timidamente mas gradualmente conseguindo mais coragem — Agora que… controlamos e estamos organizamos as ilhas que eram dos minóicos, principalmente Creta, decidimos que era hora de… como é a frase?.. Estabelecer relações com os panteões próximos finalmente. Um novo começo.
Enquanto Hermes falava, Anúbis levou o rolo de papiro que havia pegado do deus até Osíris. Osíris então o desenrolou e logo percebeu que eram duas folhas enroladas juntas mas contendo aparentemente o mesmo texto em egípcio. A única diferença era que um estava endereçado para Osíris e outro para Hórus.
— Vejo que veio bem preparado. — disse Osíris com um leve sorriso — Cartas escritas e um discurso preparado.
— Meu egípcio ainda não muito bom. — respondeu Hermes com um sorriso sem graça — Mas treinei sim senhor.
— Quem escreveu o papiro então? — perguntou Hórus correndo os olhos pelo texto e notando um egípcio quase perfeito — Não foi você, imagino. O líder de vocês é fluente em egípcio? Quem era mesmo… Zeus ou Poseidon?
— Os mortais, no momento preferem, colocar Poseidon em cima, mas a verdade é que Zeus é mais líder nosso. — respondeu Hermes — Mas não, quem escreveu na verdade foi outra deusa.
Como era o braço direito de Osíris, não havia nada de estranho em Anúbis ficar ao lado dele, assim como Ísis estava. Todavia, não era muito elegante ele se inclinar de leve e tentar ler o que o documento dizia. Mas Osíris não se importava, e Anúbis sabia disso. Inclusive, Osíris disfarçadamente posicionava o papiro para que Anúbis conseguisse ler seu conteúdo. Um pequeno teatro que passou tão despercebido para Hermes quanto às tentativas dos deuses egípcios de colherem mais informações sobre o panteão estrangeiro ao disfarçar cada pergunta como uma conversa informal.
— Já estou interessada em conhece-la. — disse Ísis.
— Eu também. — acrescentou Thoth se juntando a conversa — Bem quero adicionar outro idioma em meu repertório.
— Inclusive, é justamente isso que o papiro enviado sugere. — disse Osíris entregando o papiro para Ísis, que estava bem menos ansiosa para ler seu conteúdo do que Anúbis — De certa forma pelo menos. Propõe um encontro em solo micênico e então em solo egípcio ou em território neutro, entre eu e Hórus e Zeus e… um deus chamado Hades. Não lembro de ter ouvido falar do segundo.
— Nem eu. — admitia Ísis enquanto percorria o olhar pelo mesmo texto lido pelo marido.
— Ah sim. — respondeu Hermes parando uns segundos aparentando estar desconfortável, ou quem sabe encontrando as palavras certas — Hades não… ahm… não sei a palavra… não muito… falado?
— Conhecido? — sugeriu Anúbis.
— O que significa “conhecido”? — perguntou Hermes sofrendo com a tradução.
— Que muitas pessoas sabem quem é. — respondeu Anúbis.
— É! Isso! — comemorou Hermes que, apesar de tudo, estava orgulhoso de ter conseguido administrar tanto as palavras novas visto que fazia pouquíssimo tempo que tinha começado a estudar egípcio — Ele não muito conhecido entre os mortais ainda. Uma grande preocupação. Poseidon cuidou do… do mundo dos mortos um pouco… vai dar agora para Hades. Talvez ficar não mais não muito conhecido.
— O único problema de imediato nessa proposta, é que infelizmente eu não posso sair desse salão. — explicou Osíris com um triste sorriso e indicando o Salão do Julgamento com um dos braços — Se estiver tudo bem, Anúbis pode ir no meu lugar. Ele geralmente o faz em situações do tipo.
Osíris olhou para Anúbis como se silenciosamente questionasse se ele estava de acordo com esse plano, e o jovem deus afirmou com a cabeça enquanto pensava em como Anput ficaria ansiosa para ouvir sobre isso e com certeza se ofereceria para ir junto. Contudo, dada a falta de quantidade de informações entre ambos os lados, provavelmente seria apenas Anúbis e Hórus indo. Afinal, com certeza nenhum dos lados queria se expor demais para deuses demais sem ter certeza das intenções do outro lado.
Foi nesse momento que Ísis passou o papiro para Anúbis, apesar de que ele já tinha lido tudo. Mesmo sem nenhuma novidade para encontrar nas palavras escritas, ele percorreu os olhos pela proposta. Uma reunião entre os quatro deuses mencionados em locais, tal como explicados por Osíris, que também seriam definidos por ambas as partes para que ninguém se sentisse prejudicado ou em perigo. Havia também uma proposta de gastarem alguns meses no planejamento do encontro, caso necessário, o que criaria também a oportunidade de aperfeiçoamentos do idioma.
Considerando que a tal deusa que escreveu o texto não tinha egípcio como primeira língua, o conteúdo do papiro estava muito bem escrito. O que era algo surpreendente considerando que egípcio estava bem longe de ser um idioma com escrita fácil.
— Creio não ter problema. — disse Hermes olhando para Anúbis — Mas preciso conferir.
— Redigirei um papiro explicando esse detalhe da situação e… Hórus, o que me diz? — perguntou Osíris olhando para o filho.
— Acho que podemos fazer essa tal reunião acontecer, sim. — respondeu o deus — Vamos discutir os detalhes entre nós mas, por enquanto vamos responder concordando com a ideia e explicando a situação de meu pai.
Uma resposta começou a ser redigida imediatamente usando a maior quantidade de dotes diplomáticos que os deuses possuíam. Enquanto escreviam, estavam divididos entre a curiosidade por finalmente conhecer mais de perto lugares que eram tão fechados para demais deuses e o normal receio de os deuses micênicos terem segundas intenções. Era um grande erro subestimar qualquer deus que fosse, e isso era um detalhe que não devia ser esquecido mesmo considerando que o Egito era uma civilização muito mais antiga e, consequentemente, com deuses mais acostumados a lidar com outros panteões do que os micênicos. Tanto que o texto do papiro micênico deixava clara a necessidade de troca de conhecimentos de forma pacífica.
Entretanto, os deuses egípcios ainda não sabiam, mas suas maiores preocupações no momento não deveriam ser os deuses micênicos e a existência ou não de segundas intenções por parte deles. Em Tebas, as coisas estavam normais, ao menos quando vistas de longe. Sacerdotes e sacerdotisas rezavam aos deuses que representavam; soldados de meia idade treinavam com os filhos em batalhas, que quase pareciam danças, usando longuíssimas varas de madeira alheios que um dia, séculos depois, incluíram a prática sob o nome pomposo de um grupo chamado “Patrimônio Imaterial Cultural”; crianças se agarravam às barras da saia da mãe em buscas de histórias de ninar conforme o sol ia se pondo, era apenas mais um dia terminando.
Mas, no palácio real em Tebas, algo diferente estava prestes a acontecer. Uma bela mulher se protegia, com um manto de pele, do frio que a noite trazia. Ela se preparava para dormir tranquilamente perguntando-se quando a gravidez descoberta na semana anterior a deixaria com dores nas costas devido ao peso e também muito mais propensa a dormir mais cedo e até tarde.
Apesar das expectativas do crescimento da barriga, a mulher em questão ainda estava bem magra. Seu rosto era elegante e definido, seus olhos profundos, gentis e sábios. Seus lábios, orelhas e olhos eram tão delicados e belos que pareciam ter sido desenhados por um grande artista. Por todas essas características juntas, ela era conhecida como sendo uma das mulheres mais belas do Egito e, quem a deixava no pedestal de mais bela de todas, era seu marido, o futuro faraó, Amenhotep IV.
O futuro faraó, um jovem de 19 anos, entrou no quarto onde sua Grande Esposa Real, se preparava para dormir. Tinha a plena certeza que era extremamente sortudo por ter tão beldade como esposa, sendo ele mesmo um tanto estranho e desproporcional, apesar do belo rosto. Assim, não faltava carinho nos gestos e palavras que o faraó dirigia para a esposa, especialmente agora que ela estava finalmente grávida do primeiro filho deles.
Um sorriso cruzou a face do faraó por um segundo quando ela notou que ele havia entrado no quarto. Ela imitou o sorriso e olhou, por um segundo, curiosa para o objeto não identificado que ele tinha nas mãos, algo longo, com cerca de um palmo de altura, coberto por um pedaço de pano.
— Achei que passaria a noite sem vê-lo novamente. — admitiu a rainha.
— Prometi que ontem seria a última vez, e aqui estou eu. — disse o príncipe — Não ousaria deixar a bela Nefertiti passar mais uma noite fria sozinha.
— Conseguiu terminar então? — perguntou ela curiosa sentando-se na cama e olhando para o objeto escondido pelo plano — Deixe-me ver.
— Sim. Não é tão bonito quanto qualquer trabalho do escultor real… mas dei meu melhor. — respondeu ele justificando-se enquanto sentava-se ao seu lado com receio de mostrar o que o pano escondia.
— Tenho certeza que deu seu melhor. — motivou ela — Não é como se pudesse ter pedido para o escultor real.
— Quando for faraó, encomendarei a mais bela escultura de todas da mais bela das rainhas. — disse Amenhotep IV acariciando levemente o rosto de Nefertiti.
— Não duvido. — respondeu ela de forma sedutora — Mas deixe de me enrolar e mostre logo.
— Certo… certo… — disse o príncipe enchendo-se de determinação.
Amenhotep IV esperou uns segundos, ouviu se tinha alguém perto do quarto deles e, escutando apenas o silêncio, retirou o pano que cobria o objeto que despertava a curiosidade de Nefertiti. O que o pano escondia era uma estatueta de madeira, não tão habilidosamente feita, mas que claramente o escultor havia dado tudo de si.
Era uma estátua simples, um homem de pé e os braços grudados ao corpo, mas alguns detalhes se sobressaiam mesmo com a falta de habilidade do escultor, um deles, a barriga avantajada que não combinava com o resto do corpo e os braços finos, outro era o grande e longo chapéu que usava na cabeça. Contudo, o detalhe mais importante de todos, estava escondido sob a base. Era um conjunto de quatro hieróglifos, um parecido com uma faca de manteiga e, ao lado dele, os demais três estavam empilhados um sobre o outro: um semicírculo com a base para baixo, uma linha horizontal em zigue-zague e um círculo com um círculo menor no meio.
— Ficou ótimo. — disse Nefertiti.
— Ficou deplorável. — respondeu Amenhotep IV.
— Não ficou não. — respondeu ela levantando-se da cama e então indo até um baú, de onde tirou um pouco de incenso — Vamos inaugurar que deixará de pensar nisso. Finalmente conseguirá fazer decentemente.
Akhenaton apoiou a pequena e humilde estatueta no chão e logo a esposa arrumou e acendeu um pouco de incenso de cada lado dela. Os dois se ajoelharam diante da estátua, se curvaram com as mãos no chão até os narizes quase tocarem o piso gelado de pedra.
— Você se eleva em perfeição no horizonte do céu… — proferiu em voz baixa, Amenhotep IV — Aten vivo, que começou a vida. Sempre que você se eleva no horizonte oriental, você preenche todas as terras com sua perfeição. Você está no meu coração, não há outro que te conheça, aqueles na Terra vêm de sua mão como você os fez.
Nefertiti não sabia as palavras. Elas não estavam escritas em nenhum lugar para que a futura rainha pudesse lê-las e decorá-las, e também, muitas vezes o príncipe improvisava, ou trocava uma palavra ou outra de lugar, mas a mensagem no final era sempre a mesma.
— Você fez um céu distante no qual se ergue para observar tudo o que você fez. — continuava Amenhotep IV — Ainda assim, você está sozinho.
De volta ao submundo, Hermes já se preparava para ir embora carregando com sigo o papiro que continha a resposta dos deuses. Diante do portal de entrada do Salão do Julgamento, Anúbis e Hórus viram o deus estrangeiro se afastar enquanto pensavam nas mais diversas coisas relacionadas a tal visita.
— O que acha que eles realmente querem? — perguntou Anúbis para o primo.
— Difícil ser briga ou qualquer outra segunda intenção ruim. — admitiu Hórus — Ou melhor, acho que eles de fato tem a intenção de conseguirem entender como funciona os relacionamentos entre os panteões e vão aproveitar isso para se atualizarem. Não deve ser fácil quase simplesmente surgir depois de conquistar um povo inteiro.
— Parece que eles ainda tem muito para organizar e firmarem. — disse Anúbis — A organização deles não parece estar combinando muito com como os mortais acham que eles se organizam.
— E é melhor eles arrumarem isso logo, ou então não vão demorar muito para sumir. — concluiu Hórus com um grande suspiro.
A conversa dos dois primos foi interrompida momentaneamente quando o mar de fogo ao redor da ilha que guardava o Salão do Julgamento expeliu pequenas explosões. O mar parecia mais revoltado que o normal, agitado como uma panela de pressão ou a superfície do sol. O fogo havia aumentado tanto que Anúbis e Hórus sentiam seu calor de onde estavam e tiveram que fechar um pouco os olhos devido ao aumento da intensidade de luz.
— O que está acontecendo? — perguntou Anúbis apesar de já imaginar a resposta do primo.
— Não sei. — respondeu Hórus virando-se para o Salão do Julgamento — Cadê Amon-Rá? Tem algo estranho acontecendo aqui!
Aqueles que ouviram ao chamado questionaram de várias formas diferentes sobre o que estaria acontecendo de errado. Quase todos, Osíris uma triste exceção, deixaram o Salão do Julgamento para trás e foram movidos pela curiosidade de saber o que estava acontecendo. Foram recebidos então pela estranha visão do fogo revoltado.
— Nunca vi o mar de fogo se comportar assim… — disse Ísis preocupada e pensativa.
— Isso não deve ser um bom sinal. — concluiu Sobek.
— Eu vou atrás de Amon-Rá… — disse Thoth de olhos arregalados e imediatamente se transformando num ibis e saindo voando.
— Também vou. — disse Hórus imitando o outro deus ao se transformar num falcão e seguir voo atrás de Amon-Rá.
— Será que Set aprontou algo? — sugeriu Tawaret sussurrando para Ísis.
— Ele está muito bem preso ainda pelo meu feitiço. — respondeu ela — Não pode fazer nada que contrarie Osíris. Amon-Rá entende mais esse mar de fogo do que qualquer um de nós. Ele é nossa maior esperança de descobrir o que está acontecendo.
Nos minutos que se passaram até Thoth e Hórus conseguirem trazer Amon-Rá até ali, quase todos os outros deuses haviam se reunido diante do revoltado mar de fogo. As fofocas haviam se espalhado rápido e enquanto o estranho comportamento do fogo era preocupante para uns, para outros era apenas um detalhe que finalmente podia trazer um pouco de ação no meio de tanto tédio.
Anput foi uma das deusas que foi até lá depois de ouvir as fofocas, que no caso, atrapalharam sua sessão de massagem com óleos aromáticos junto com as amigas deusas. Ela havia deixado as amigas para trás e agora sentava no chão junto com Anúbis esperando a chegada de Amon-Rá e compartilhando as últimas novidades.
— Onde será em Micenas que você vai? — perguntava Anput curiosa.
— Pode nem ser em Micenas, pode ser num território neutro. — lembrou Anúbis — Hórus e Lorde Osíris vão decidir nos próximos dias.
— Seja lá onde for, se tudo der certo e for um lugar que pode voltar depois, me acompanharia até lá? — perguntou ela.
— Claro. — disse Anúbis dando de ombros.
— Se conseguirem entrar no território micênico, tente descobrir como está o palácio de Knossos. — pediu ela — Ouvi falar que sofreu muito no terremoto. Era tão bonito. Fiquei com receio de voltar lá depois que os micênicos controlaram tudo.
— Acha que eles podem ter reconstruído? — perguntou Anúbis.
— Não sei… — admitiu Anput suspirando tristemente e apoiando a cabeça no ombro dele.
Segundos depois, uma luz forte inundou o submundo por um momento e lentamente diminuiu vinda do lado oposto do mar de fogo. Os deuses olharam na direção de onde a luz veio, e se depararam com Thoth, Hórus e Amon-Rá se aproximando. Os três pareciam extremamente sérios e, de certa forma, foi algo que trouxe uma pequena pitada de alívio para os deuses visto que, a cada século que se passava, mais Amon-Rá tinha um olhar de perdido em pensamentos.
Thoth e Hórus pararam a alguns metros do mar de fogo, mas Amon-Rá continuou e esticou a mão para tocar as chamas revoltadas como se estivesse testando a temperatura de uma piscina. Depois, calmamente, ele andou e foi engolido pelo mar de fogo.
Nenhum deus ousava dizer nada. Estava um total silêncio enquanto todos esperavam pela volta do poderoso deus com respostas pelo estranho comportamento do fogo. Alguns minutos depois, Amon-Rá voltou ileso. Preocupantemente, o rosto dele ainda estava sério enquanto ele percorria o olhar pelos olhares dos outros deuses e falou:
— Tem algo tentando nascer aqui.
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