Notas iniciais
efeitos quarentena? terminei antes do previsto kkk espero q gostem desse novo arco ♥

Ahura era a esposa de Nefer-ka-ptah, e seu filho era Merabe; esse era o nome pelo qual ele foi registrado pelos escribas na Casa da Vida.

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Progresso, ascensão, regresso e queda fazem parte da história de qualquer reino, país ou império. Enquanto ao sul do Egito, na Núbia, surgia o reino de Querma; na ilha de Creta a civilização Minóica se expandia e; na Suméria, tudo indicava que períodos turbulentos estavam por vir apesar da crescente quantidade de monumentos construídos pelos reis sumérios.

Assim, o Egito também crescia e aumentava sua influência com os vizinhos. Contudo, apesar do tamanho crescente do Império Egípcio, ele não havia demonstrado tanto interesse bélico e territorial em civilizações além do Mar Mediterrâneo. Afinal, pra quê? O Egito era o soberano inquestionável nas margens do Nilo. Sua extensão territorial era invejável. Seu comércio com os minóicos, os fenícios, os sumérios e os núbios estava mais forte do que nunca. Ouro, madeira, cobre, pedras preciosas, cultura, arte e outros eram constantemente importados e exportados.

A quantidade de barcos subindo e descendo o Nilo e o Mar Vermelho eram prova de um comércio forte e da grande riqueza do império conseguidos por astúcia, determinação e às vezes sujando as mãos de sangue. Afinal, foi com guerras e invasões que o Egito conseguiu se manter tão influente entre os povos da Núbia e na costa leste do Mar Mediterrâneo. Um poderoso leão à ser temido e que menosprezava tudo daqueles que considerava como estrangeiros. Afinal, o Egito estava em sua Era de Ouro e se achava melhor do que todos.

Os anos que se passaram desde da morte do Faraó Djoser eram prova de como o Império havia crescido e se enriquecido. Mênfis havia se tornado uma cidade rica e colorida. Os templos se acumulavam na cidade, cada um mais belo do que o outro com suas paredes brancas e interior meticulosamente pintados com cenas ricas que contavam a história dos deuses, clamavam sua proteção ou simplesmente enfeitavam o interior dos recintos com desenhos inspirados na natureza. As ruas da cidade cheiravam aos perfumes e temperos vindos de todo o território egípcio e de mais além. O porto era uma confusão de pessoas e barcos vindos de todo o mundo conhecido, as águas do Nilo entravam em pontos estratégicos da cidade criando corredores de água, pequenos rios artificiais e naturais também, que regavam às plantações e davam ao povo acesso à água.

Dentre os prédios que mais se destacavam na capital egípcia, estava sem dúvidas o palácio real, a residência oficial do faraó. Lá, residia um faraó extremamente ocupado que, por esse mesmo motivo, achou por bem ter várias residências espalhadas pelo império. Contudo, ali ainda era a principal e era exatamente por isso que o faraó havia convocado todos os seus filhos para sua casa naquele dia. Tal convocação era necessária pois apenas uma parcela dos príncipes e princesas moravam no palácio real, um deles, era Kawab.

Com meros 34 anos, Kawab já via as suas obrigações pesando cada vez mais em seus ombros. O forte rapaz, sendo o mais velho dentre 13 filhos, 8 homens e 5 mulheres, se preocupava com as grandes possibilidades de um dia se tornar faraó. Mas havia mais do que isso. Era um príncipe, mas também trabalhava como vizir para o pai. Assim como também trabalhava como sacerdote de Serqet e como oficial de Anúbis e era com esse último que estava conversando no momento.

— Em três dias sairei de Mênfis para checar as demais cidades. — dizia Kawab sentado rigidamente num elegante sofá de um cômodo que, embora igualmente elegante, mostrava-se ser um escritório com prateleiras cheias de papiros e uma grande mesa — Os embalsamadores e sacerdotes em Mênfis, embora numerosos, não apresentaram nada de espetacularmente errado. Contudo, as obras das tumbas compartilhadas pelo povo andam à passos lentos já que meu pai está tomando quase todos os trabalhadores para si.

— Com uma tumba daquele tamanho. Não é surpreendente. — disse Anúbis olhando pela tímida janela do cômodo, sem vidro, afinal não havia sido inventado ainda, que dava em direção ao jardim onde Anput caminhava ao lado de um espelho d’água e dentre as árvores enquanto conversava tranquilamente com uma mulher de gravidez avançada, Hetepheres II, esposa e meia-irmã de Kawab.

— Ele me diz que o assunto de hoje tem à ver com tumbas. — disse Kawab soltando um pesado suspiro — Entendo que as riquezas se acumulam e ele fica sem ter com o que gastar, mas acho a obra um tanto exagerada. Isso se ela ficar de pé.

— O avô de vocês precisou de algumas várias tentativas para conseguir fazer uma até o final. — disse Anúbis deixando a diminuta janela de lado e indo até a maior mesa do cômodo onde estava posto um enorme papiro com um mapa desenhado, uma invenção suméria de alguns poucos séculos atrás.

No grande papiro no qual muitos haviam se empenhado para desenhar no máximo de perfeição possível, estava nada mais e nada menos do que o Egito e seus arredores. O Nilo era uma faixa que se estendia da borda do mapa até se ramificar em vários pedaços ao chegar no Delta e então desaguar no Mar Mediterrâneo. Lá, também estavam marcadas as cidades egípcias mais importantes e populosas, assim como as cidades estrangeiras mais relevantes.

Os olhos de Anúbis percorreram o mapa prestando atenção nas cidades que lhe preocupavam mais pela falta de tumbas o suficiente para o povo comum. Havia passado uma lista delas para Kawab alguns momentos antes. Poderia simplesmente fazer as tumbas magicamente, mas Hórus insistia que os humanos tinham que andar com seus próprios pés. Todavia, quase todos os deuses eram a favor de dar aos humanos pequenas dicas e conselhos do que deveriam fazer.

— Apesar de tudo, as primeiras tentativas, apesar de um tanto cômicas, foram importantes para chegar no resultado final de meu avô. — ponderou Kawab — Desde que o famoso Imhotep morreu, poucos se aventuraram a fazer outra pirâmide tão grande quanto a que fez para o faraó Djoser.

— E nem Imhotep fez uma pirâmide com os lados completamente lisos. — disse outro príncipe entrando repentinamente no cômodo, Djedefre.

Djedefre parecia-se muito com o meio-irmão, Kawab. Era apenas 3 anos mais novo do que o herdeiro do trono e quase tão musculoso quanto. Os dois eram apenas ‘meio’ irmãos por mera sorte. O pai deles possuía duas esposas. Junto com Djedefre entrou também um casal que eram mais novos do que os dois primeiros irmãos, o rapaz tinha 21 anos e a garota, tinha 18. E, tal como era típico dos governantes de deixar tudo em família, o rapaz e a garota eram casados entre si apesar de serem irmãos.

— Djedefre, Khafre, Khamerernebty… — cumprimentou Kawab — Bem imaginei que fossem chegar antes que os demais.

Os três membros da família real, ao verem com quem Kawab estava conversando até então, prontamente se curvaram diante do deus embora fosse óbvia pela expressão amarrada de Khafre que ele havia feito isso contra seu gosto. Podiam ser príncipes e princesas, mas um deus estava acima até mesmo do faraó.

— Peço perdão. — disse Djedefre — Não sabia que estavam discutindo assuntos importantes.

— Acho que já conversamos tudo o que tínhamos que conversar. — disse Anúbis olhando para Kawab e ele discretamente concordou com a cabeça — Vão discutir algo com Khufu em alguns instantes se entendi certo.

— Sim. — disse Djedefre educadamente abaixando a cabeça — Honrará-nos com vossa presença caso queira participar de nossa breve reunião com nosso pai. Imagino que seja de vosso interesse.

— Quero mesmo ouvir o que tanto Khufu planeja com essa tumba extravagante dele. — disse Anúbis cruzando os braços, deixando a mesa com o mapa para trás e se apoiando contra a parede quando outros entraram no recinto.

Dentre os que entraram no escritório estavam Anput acompanhada de Hetepheres II e também de Nefertiabet. As três falavam sobre bebês, um assunto que surgiu pois Nefertiabet, a segunda mais velha dentre as princesas, não via a irmã mais velha à muitos meses e se surpreendeu com o tamanho de sua barriga. O assunto foi morrendo quando Anput se juntou à Anúbis no cantinho da sala e as duas irmãs se curvaram para Anúbis antes de se sentarem em algum sofá. Hetepheres II se sentou ao lado de seu meio-irmão e marido, Kawab, que passou o braço forte ao redor de seus ombros puxando a esposa mais para perto e Nefertiabet, muitas vezes chamada de a mais bela das princesas, sentou-se ao lado da irmã.

O barulho e a conversa no lugar iam só aumentando conforme os outros filhos do faraó se reuniam e se curvavam diante dos deuses presentes antes de se sentarem ou encostarem em alguma parede. Oito príncipes e cinco princesas já estavam presentes quando um elegante falcão entrou pela janela atraindo a atenção de todos. Todos os príncipes e princesas se levantaram para saudar o deus quando o falcão se transformou em Hórus e olhou para todos lentamente de cima à baixo, sem nada dizer, antes de se juntar com Anúbis e Anput.

Não importa o quanto se olhasse, era como se os três deuses não encaixassem naquele ambiente. Essa sensação sem dúvida não se devia aos vários objetos de ouro que usavam, até porque os príncipes e princesas também tinham muito ouro com eles. Era algo mais cru e poderoso. Talvez a imortalidade ou os poderes enormes, mas algo os destacava do cenário.

— Não imaginei que fosse vir também. — disse Anúbis para Hórus. Com pouco mais de um movimento de mão, a conversa dos três estava magicamente selada para que os mortais ficassem de fora dela — Sendo que essa conversa vai provavelmente girar ao redor de tumbas e demais assuntos que não lhe dizem respeito.

— Tumbas que são feitas com as reservas do Império. — rebateu Hórus — Então me diz respeito saber quais extravagâncias Khufu planeja.

— Faz um ano que ele começou as obras de sua pirâmide. — disse Anput — Os boatos das ideias que ele tem pra tumba são tão absurdos que não sei mais o que é verdade ou mentira.

— Sim. Por isso quero ver os planos com meus próprios olhos as ideias dele. — concordou Hórus — Ouvi Khnum dizer que a pirâmide vai ser banhada a ouro completamente! Isso seria ouro demais.

— Nem com todo o ouro do Egito daria pra fazer uma pirâmide completamente de ouro se os boatos do tamanho dela forem verdadeiros. — disse Anúbis.

Hórus olhou longamente para cada um dos filhos de Khufu. Treze jovens cujas idades iam dos 34 anos do Príncipe Kawab, até os 18 anos do Príncipe Baufra. Um feito que com certeza só era possível porque uma das esposas de Khufu era mais nova do que a outra. Aquela família com certeza geraria muitas ramificações na família real. Afinal, além de serem muitos, algumas princesas já eram casadas com outros homens que não os irmãos e todos os mais velhos já tinham ao menos dois filhos.

Todavia, o que incomodou Hórus naquele momento, era que, embora a maior parte deles já fossem homens e mulheres teoricamente maduros, uma discussão talvez um tanto tola e infantil havia começado a surgir ali.

— Pra você é fácil falar, Kawab! — reclamava o Príncipe Minkhaf — Afinal, quando nosso pai morrer, será faraó!

— Não pense que isso é só luxo, Minkhaf. Não faz ideia do tanto de responsabilidades que tenho. — se defendia o Príncipe Kawab.

— Que foi, Minkhaf? — perguntou o Príncipe Djedefre com voz zombateira dando uma leve risada — Queria ser faraó? Se alguém aqui nessa sala tiver alguma chance de ser faraó além de Kawab, ou é o filho que Hetepheres carrega para ele e que provavelmente será um menino tal como os outros dois filhos que ela já lhe deu ou então eu ou Khafre.

— Só por serem os mais velhos? — questionou Minkhaf — Sou quase da mesma idade que Khafre!

— Pode até ser uns meses mais novo… — disse príncipe Khafre com um olhar sério e frio que fez os cabelos de Minkhaf se arrepiarem — Mas olhe a finura de seus braços. Não sabe lutar. Não mataria um homem nem se sua vida dependesse disso. É tão ridículo que nenhuma de nossas irmãs quis casar-se com você. Não. Teve que casar e ter um filho com uma mulher qualquer.

— N-Não fale assim comigo! S-Sou vizir real tal como uns de vocês além de várias outras coisas. — rebateu o Príncipe Minkhaf sem muita firmeza fazendo Khafre revirar o olhar.

— Nosso pai só encheu-lhe de títulos para esconder que é tão o mais ridículo de nós. Que é mais insignificante até do que o bastardo dele. — disse o Príncipe Khafre com a voz fria.

— Ei! Eu tenho um nome! — rebateu o Príncipe Horbaef, o tal bastardo.

Enquanto Horbaef logo foi consolado pela mão gentil da meia-irmã, a Princesa Meresankh II, da qual estava noivo, nenhuma mão carinhosa foi consolar o orgulho ferido de Minkhaf. Khamerernebty, esposa de Khafre, abaixou a cabeça envergonhada. Queria tentar defender o meio-irmão das palavras fortes do marido, mas não tinha coragem.

Pode não ter sido acompanhada de uma mão carinhosa, mas foi a ligação de irmãos que fez Hetepheres II tentar interceder pelo irmão. Sendo a mais velha entre as princesas, talvez a voz da razão fosse mais forte na esposa de Kawab.

— Chega disso. — disse a mulher pousando a mão sobre a barriga enorme de gravidez — É assim que nos comportamos perante três deuses enquanto esperamos nosso pai, o faraó?

Os três deuses acompanharam a briguinha aparentemente interminável entre os irmãos sem muito interesse. Isso é, até Hórus soltar um pesado suspiro e cruzar os braços.

— Lembre-me de nunca ter tantos filhos. — disse Hórus bem sabendo que magias simples e práticas impediriam a família real humana de ouvir a conversa que os três deuses tinham entre si.

— Hathor concorda com essa fala? — perguntou Anput — Ela diz gostar da ideia de ter muitos filhos…

— E você já teve Hapi com Serqet… — comentou Anúbis contando com os dedos os filhos do primo — E Hathor já está grávida de você pela segunda vez… Pra quem não quer ter muitos filhos, você não está indo muito bem nisso. Já está prestes à ter o terceiro.

— Tsc. — resmungou Hórus — E vocês? Não vão ter filhos? Já não devem aguentar mais a pressão dos outros pra isso.

— Não queremos. Ao menos agora não. — disse Anput — Temos só 523 anos. Deixe a gente aproveitar um pouco.

Depois de alguns minutos, não demorou muito para o Faraó Khufu entrar acompanhado de dois soldados e mais dois homens que carregavam vários papiros. Os soldados ficaram no portal de entrada para proteger o governante e os dois homens extras respiraram fundo ao olhar para todos os pares de olhos que os encaravam.

Já com 50 anos, Khufu já havia perdido uma parte do vigor que um dia teve. Ainda era um homem forte e de músculos, mas as bochechas levemente rechonchudas denunciavam um combate silencioso entre os músculos e a gordura que até o momento os músculos pareciam ganhar ainda. Podia não ter a definição invejável dos corpos bronzeados como madeira de Kawab ou de Khafre, mas não existia nem uma barriga no torso do faraó.

O Faraó Khufu andava altivo e orgulhoso até que seus passos perderam o ritmo ao ver que tinha três espectadores extras. Todavia, o faraó logo escondeu que a presença de Anúbis, Hórus e Anput havia o desestabilizado um pouco. Parando no meio da sala, o faraó se curvou para os três deuses. Os únicos que eram capazes de receber tal gesto do humano mais poderoso de todo o território egípcio.

— Perdoem-me pela rudeza e falta de boas vindas mais apropriadas. — disse o Faraó Khufu — Não fui informado de que estariam presentes também.

— De minha parte ao menos, não foi algo que tinha intenção de comunicar-lhe. — disse Hórus de queixo erguido como se comunicar algo do tipo à um mortal estivesse muito abaixo de si.

Dessa vez Khufu estava mais preparado para o impacto causado pelas palavras de Hórus. Assim, botando uma das mãos fechada sobre o coração, o faraó abaixou a cabeça brevemente e logo se virou para Anúbis.

— De toda forma, estou honrado por vossas presenças. — disse Khufu — Imagino que estejam aqui por estarem curiosos pelas ideias que tenho para minha tumba?

— Já sabemos uma boa parte. — disse Anúbis dando de ombros — Mas o que sabemos e os boatos são tão absurdos entre si que gostaríamos de ver com nossos próprios olhos os planos que tem.

— Mas não nos chamou até aqui para falar como vai ser sua tumba. — disse Khafre de forma levemente afrontosa.

— Bem.. não… de fato… — concordou Khufu escondendo com perfeição o quão nervoso estava — Mas meu assunto com vocês pode esperar um pouco.

Com um gesto de cabeça, Khufu indicou os dois homens que o seguiam segurando vários pergaminhos. Um tanto desastrados, os dois se aproximaram dos deuses e se ajoelharam estendendo aos deuses os pergaminhos que carregavam enquanto mantinham a cabeça abaixada com medo de sequer olhar para eles.

Cada um dos deuses pegaram um dos pergaminhos expostos e abriram. Juntos, compararam o que estava em cada pergaminho que minuciosamente detalhava toda a física por trás da pirâmide inacreditável que Khufu planejava. Cada túnel escondido, cada câmera e sua função, o lugar de cada bloco de pedra para que a estrutura não cedesse devido ao próprio peso. Chegando à quase 147 metros, nunca o ser humano havia construído algo tão estupidamente grande. Era como um prédio de 44 andares.

— Usaremos incontáveis blocos de pedra para sua construção. — dizia Khufu orgulhoso de seus planos — Granito e calcário. A estrutura será revestida com pedra calcária branca altamente polida. Uma visão de tirar o fôlego. Quando estivermos terminando a sua construção… que espero que eu esteja ainda vivo para ver… iremos realizar a cerimônia para colocar a peça final, o piramídio, que será banhado à ouro. E, como podem ver, todos os pormenores necessários para garantir os requisitos de um sepultamento real estão também arranjados. Barcos serão enterrados ao seu redor, templos serão construídos, a posição da obra como um todo foi estrategicamente planejada… acho que nem todos os papiros estão aí. Posso apresentá-los ao demais depois caso assim desejem.

— Conseguirão mesmo fazer essa obra até o final? — perguntou Anúbis — É bem mais alta que a pirâmide vermelha de Snefru. No período entre a pirâmide de Snefru e a de Djoser, nenhuma pirâmide realmente deu muito certo.

— Tiveram até que trocar a inclinação de uma no meio da obra ou tudo desmoronaria. — lembrou Hórus.

— Sim. Entendo que meu pai, o Faraó Snefru, e avô, o Faraó Huni, tiveram dificuldades de construir algo remotamente perto do que o Faraó Djoser fez. — disse Khufu — Mas foram os que chegaram mais perto. Principalmente meu pai. Eu irei ainda mais longe. Farei algo que todos os faraós sentirão inveja não importa quantos séculos passem. Explique um pouco sobre as obras, Hemiunu, mas não muito…

— Sim senhor.. — disse um dos homens que ainda estava ajoelhado com mais papiros na mão perante os deuses sem coragem de erguer os olhos ou a cabeça — Existem grandes diferenças entre as obras da pirâmide da Vossa Majestade, Faraó Khufu e do falecido Faraó Djoser. O local de descanso final do corpo, por exemplo. Não ficará embaixo da pirâmide e sim dentro dela. Passamos os anos desde do começo do reinado de Vossa Majestade, Faraó Khufu, planejando detalhadamente. Foram cálculos extremamente complicados que envolvem vários detalhes como a distribuição do peso e o tamanho de cada um dos lados. Acredito ter chegado à um número que pode ser usado para ter certeza que os quatro lados estão do mesmo tamanho e alinhados… foi um tanto inspirado num círculo.

— Posso ver esses papiros também? — interrompeu Khafre que na hora ganhou um olhar irritado do pai.

— Não. — cortou Khufu — Esses documentos são para serem vistos apenas por mim, os arquitetos e os deuses. Quando não forem mais necessários, serão devidamente queimados.

Khafre remoeu a resposta mas nada mais disse apesar da tensão que nasceu no ar levemente. Seus irmãos se entreolharam preocupados. Khafre não tinha boa fama nem mesmo entre eles.

Outro que não tinha boa fama mesmo entre os membros da família era Set. O deus do deserto estava muito longe de Mênfis. Estava tão ao sul do Nilo que chegava já nos limites da fronteira do Império Egípcio. Aquela região era tão distante de todo o centro administrativo do império, que não era de se surpreender que o povo e a cultura ali se misturassem com os de outros povos, como os núbios.

Set deixou a cidade de Gebtu para trás e foi seguindo o curso do Nilo. O sol já ameaçava se pôr no horizonte e o vento forte teria balançado os cabelos de Set se ele tivesse algum.

Era necessário ao deus usar toda a sua concentração e magia para o que queria. Usava tanto sua concentração e magia de formas silenciosa e discreta que já sentia uma gota de suor escorrendo de sua têmpora. Ele olhava cada movimento do Nilo e cada sensação que o rio silencioso lhe passava. O deus torcia para que estivesse no caminho certo. Afinal, sua jornada seguindo o leito do Nilo tão minuciosamente já a meses era toda embasada num mero rumor, um mero segredo que passou de boca em boca.

Quando sua esperança já estava mais uma vez sendo perdida, ele sentiu algo no Nilo. Com um pouco de magia e um mero gesto de mão, ele puxou magicamente do fundo do Nilo uma enorme caixa de ferro. Ao abrir a caixa magicamente, ele foi surpreendido por outra caixa protegida pelos mais venenosos animais do deserto. Era impossível abrir a segunda caixa sem ter que lidar com os animais que pareciam ansiosos por uma vítima. Mas ele era um deus, era imortal. Assim, Set abriu a caixa tranquilamente sem que nenhum animal conseguisse o ferir. Set riu quando viu que dentro da segunda caixa havia uma terceira caixa igualmente protegida.

Tal sequência continuou até a última caixa, feita de ouro. Seus dedos tremiam ao sentir o poder que a última caixa guardava. A magia que estava guardada ali era tão grande que, quando ele abriu a caixa dourada, uma luz irradiou iluminando o sorriso de vitória estampado em seu rosto.

Notas finais
########################################## REFERÊNCIAS Lista faraós - https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_pharaohs O livro de Thoth -https://www.sacred-texts.com/egy/woe/woe10.htm O livro de Thoth 2 - https://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Thoth Khufu - https://egyptianmuseum.org/explore/old-kingdom-ruler-khufu Khufu 2 - https://en.wikipedia.org/wiki/Khufu Livro dos Mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Mênfis - https://en.wikipedia.org/wiki/Memphis,_Egypt#Old_Kingdom Minóicos - https://pt.wikipedia.org/wiki/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_Minoica#Minoano_Antigo Suméria - https://en.wikipedia.org/wiki/Sumer#Early_Dynastic_Period Comércio - https://www.ancient.eu/article/1079/trade-in-ancient-egypt/ Príncipe Kawab - https://ancientegyptonline.co.uk/p-kawab/ Sneferu - https://en.wikipedia.org/wiki/Sneferu Os quatro filhos de Hórus - https://en.wikipedia.org/wiki/Four_sons_of_Horus Pirâmide de Khufu - https://pt.wikipedia.org/wiki/Pir%C3%A2mide_de_Qu%C3%A9ops O Piramídio - https://www.cheops-pyramide.ch/khufu-pyramid/pyramidion.html Hemiunu - https://en.wikipedia.org/wiki/Hemiunu ps: sobre a inspiração no círculo q o arquiteto fala antes… sim, eles chegaram terrivelmente perto de descobrir o pi (π). ps 2: eu quis usar os nomes egípcios por questões de autenticidade. mas, vamos aqui aos nomes mais famosos de dois aí q tem nome grego (o resto é só esse nome complicado q foi dito mesmo). Khufu = Quéops Khafre = Quéfren Agora parecem mais familiares com os dois nomes? XD ps3: por 3800 anos a pirâmide do Khufu foi a construção mais alta do mundo