Notas iniciais
olá! bem vindos a mais um cap! na imagem de hj, a entrada de um templo, que na verdade é com água com um barco entrando e plantas e árvores ao redor.

Agora sua majestade era um senhor jovem, ativo e sem igual; seus braços poderosos, seu coração robusto, sua força como Montu em seu momento; de boa forma como Amon, a pessoa se regozija ao ver sua beleza; grande vitória sobre todos os países estrangeiros, não se sabe quando ele começará a lutar; um forte muro ao redor de seu exército, seu escudo no dia da luta; um arqueiro sem igual; ele é mais corajoso do que centenas de milhares juntos; indo em frente e entrando no meio das multidões, seu coração confiando em sua força; poderoso de coração na hora do combate corpo a corpo; como um abeto na hora de consumir; coração firme como um touro pronto para o campo de batalha; ele não se importa com todas as terras combinadas; mil homens são incapazes de permanecer firmes diante dele; centenas de milhares ficam desconcertados ao vê-lo; inspirando medo; alto de rugidos nos corações de todas as terras; grande em majestade e poderoso em renome como Set; ... no coração dos estrangeiros; como um leão selvagem no vale dos animais do deserto; avançando bravamente e voltando apenas quando triunfou face a face; não falando com orgulho; eficaz de conselho e bem de plano; encontra-se o que se precisa na primeira resposta; salvando seu exército no dia da luta; [grande protetor de] sua carruagem; trazendo para casa seus seguidores e o Rei do Alto e Baixo Egito Usermare-setepnere, o Filho de Rá, Ramsés, que ganhou vida.

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Ramsés II liderava o caminho entre uma de suas divisões até a outra que estava sendo atacada pelo exército hitita, que era muito maior. O faraó via centenas de bigas hititas cortando caminho para o centro de seu próprio exército ou mais além, se perdendo de vista.

Não era uma situação nada boa. Com metade de seu exército apenas ali, significava que os hititas, ao menos nas estimativas de Ramsés II, deveriam estar com aproximadamente o dobro dos homens já que, atrás do morro que eles vinham, mais e mais iam surgindo fazendo a estimativa do faraó apenas aumentar. Ainda assim, ele não vacilava, ele não podia vacilar. Um segundo de hesitação dele seria a perda da força de vontade de seu exército, o qual seria o escudo, ao invés do contrário, por isso se botava a frente de todos. Eram seu povo, e ele deveria protegê-los.

De longe e em movimento, Ramsés II atirava flechas certeiras que atingiam a jugular, o peito ou o rosto de seus inimigos. Não havia lugar para dó ou hesitação. Não havia tempo para pensar na família daqueles que abatia, pois sabia que não pensariam na família de seus homens também. Na divisão de seu exército que havia recebido o ataque surpresa, homens fugiam em direção ao exército liderado pelo faraó com o rabo entre as pernas.

— Se recomponham e lutem! Não fujam! — gritava Ramsés II tentando incentivar seus homens sem parar de atacar quando podia — Sabem bem contra quem os hititas vão marchar se nós derrotarem, contra nossas famílias!

Alguns voltavam para lutar, aqueles que seguiam o faraó desde do começo gritaram juntando energia e coragem, enquanto os ataques do faraó fizeram com que os hititas notassem que um grande problema se aproximasse, assim, um pequeno grupo foi em sua direção. Ramsés II segurou uma risada, eles tinham mordido a isca. Para ele, melhor que ele morresse do que seus homens. Por isso ia tão a frente assim. Era o escudo e o muro de seu exército, liderando-o como uma tocha luminosa conforme o sol escaldante refletia em seus cabelos ruivos.

Confiante, atirou mais um par de flechas no grupo que se aproximava, mas este fez o mesmo. Os homens nas bigas inimigas claramente não tinham a mira de Ramsés II, que facilmente se protegeu com seu escudo. Mas a habilidade do faraó era tanta que ele conseguia alternar facilmente entre arco e flecha e escudo. Assim, atingir aqueles que comandam as vigas não foi tão complicado assim, eles caíram, mortos.

As bigas que lideravam o grupo que ia em sua direção corriam desgovernadas sem ninguém para controlar. Seus pilotos mortos, e o faraó ainda ileso. Mas logo o grupo realmente alcançou Ramsés II e assim, mais cedo do que queria, Ramsés II adentrou o caos sanguinário da guerra. Como os hititas haviam ido para cima dele, não teve que se preocupar em distinguir entre egípcios e hititas, e nem seu leão. Com sua lança, Ramsés II cruzou o grupo de hititas cortando pescoços enquanto Antam-nekt pulava em seus inimigos com as enormes presas e garras escancaradas e os cavalos da biga pisotearam quem ficava no caminho, fazendo exatamente aquilo que Ramsés tinha lhe treinado para fazer, matar.

Ramsés II em sua biga com seu leão ao lado eram uma dupla sanguinária que deixavam o chão árido cheio de sangue e corpos. Tudo que o pequeno grupo de hititas pôde fazer foi um mero arranhão de uma flecha que passou raspando pelo braço musculoso do faraó e uma flecha já alojada na armadura de um de seus valentes cavalos.

— Lembre. — disse Ramsés II para seu fiel leão — Cuidado com quem ataca. Ninguém de kajal, ninguém que se vista parecido comigo.

Não sabia outra forma de fazer o leão entender quem eram os egípcios na confusão de hititas e egípcios que se aproximava. Mas em nenhum dos outros conflitos que havia levado Antam-nekt o leão havia decepcionado. Assim, ambos foram para o centro da confusão. Ramsés, seu leão e seus cavalos foram recebidos por ataques de todos os lados. Era fácil para os hititas saberem quem do grupo que se aproximava da confusão era o faraó, afinal, se sua biga e armadura mais elaboradas e robustas não fossem prova suficiente, seus cabelos ruivos eram.

Ramsés II tentava desviar dos ataques que via chegando, ficando preocupado principalmente com seus cavalos que, apesar de estarem com armaduras, eram alvos enormes. Contudo, o tamanho dos animais também tinha lados bons, era extremamente fácil para os cavalos atropelarem os soldados que estivessem no meio do caminho, pisoteando-os facilmente.

Continuamente Ramsés II ataca tudo que estivesse ao seu alcance, confiando em Antam-nekt para acabar com aqueles que estivessem mais longe. Podia não terminar com alguns dos inimigos num golpe só, mas o sangramento resultante certamente havia colocado um tempo limite bem curto no rival, ou ao menos o enfraquecido o suficiente para algum soldado egípcio terminar o serviço com grande facilidade.

Eventualmente, uma lança poderosa vinda de longe, de fora do campo de visão de Ramsés II, atingiu um de seus cavalos. O pesado animal caiu dolorosamente, deixando a biga de Ramsés II completamente desgovernada com um cavalo vivo e outro morto e o faraó sem tempo de se concentrar na surpresa do poder daquele golpe. O faraó freou o melhor que podia, uma flecha passou voando na frente de seu rosto, o cavalo vivo se debatia, confuso com o que acontecia. Tentaram atacar Ramsés II por trás, mas Antam-nekt pulou com a boca ameaçadora na garganta daquele que o fazia, a biga sacolejou uma última vez quando passou por cima de um corpo largado no chão e finalmente parou.

Apressadamente, Ramsés II pulou de sua biga carregando suas armas nas mãos, nas costas e na cintura, e logo teve que atingir a lateral da cabeça de um hitita com sua espada no processo, foi então até o cavalo que seguia vivo, cortou a corda que o prendia à biga, chutou na barriga outro hitita que se aproximava e este logo foi pisoteado acidentalmente por uma biga egípcia que passou ao lado. Ramsés II subiu em seu cavalo e continuou a carnificina, matando todos aqueles que chegassem no alcance de sua lança com Antam-nekt ajudando no serviço.

Ramsés II abria espaço entre a confusão de hititas e egípcios, ajudando todo egípcio que conseguia chegar perto o suficiente para tal, e gritava palavras de incentivo para seus homens. Seu cavalo ofegava, o faraó suava, as presas e os lábios de Antam-nekt estavam ensopados de sangue, assim como as vestes do faraó, mas majoritariamente de sangue que não era dele.

Cortando caminho entre o exército hitita, dentre os gritos que explodiam na confusão e os corpos caídos no chão, ele reconhecia as vezes, ou as palavras ou até os idiomas e sotaques para identificar que ali não havia apenas hititas. Acrescentou na lista dele os troianos e os mitanni, aumentando ainda mais as preocupações do faraó para quais seriam os resultados daquele conflito com metade do seu exército longe demais e a outra metade pêga de surpresa.

Ramsés II movimentava sua lança rápida e agilmente, acertando inimigos tanto à esquerda como à direita, até que um de seus generais se aproximou, acompanhado de Amunherkhepeshef, seu primogênito. Ambos pareciam bem preocupados.

— Senhor! — disse o general ao se aproximar.

— O que aconteceu? — perguntou Ramsés II.

— O exército hitita conseguiu perfurar o nosso. — explicou o general — Estão prontos para nos atacar dos dois lados ou seguir em direção ao acampamento.

— Setne ainda está lá, né? — perguntou Amunherkhepeshef, pálido de medo — Ou ele fugiu com aqueles soldados?

O coração de Ramsés II se apertou. O primeiro pensamento de Ramsés II foi no filho, Setne, deixado para trás, mas sabia que outros ainda estavam no acampamento, sem falar de suas provisões.

— Onde eles cortaram o exército? — perguntou Ramsés II.

— Ali… — apontou o general — Vê uma área que eles parecem correr como um rio? E parece ter um soldado maior que os demais impedindo que alguém se aproxime.

— Vejo… — respondeu Ramsés II — Lidere um grupo em direção aos hititas que vão para o acampamento. Me juntarei em breve.

— Sim, senhor. — disseram o general e Amunherkhepeshef ao mesmo tempo.

Assim, Ramsés II começou a abrir caminho para o centro de tudo, onde os hititas pareciam fatiar os egípcios como manteiga sem deixar nada para trás além de gritos e corpos, em direção ao homem alto, que cruzava os dedos para ser Muwatalli II, o líder hitita. Não tinha uma boa sensação do que acontecia ali. Como se para confirmar suas impressões, quanto mais perto chegava, mas as coisas pioraram para o faraó. Ele foi recebido por um conjunto de flechas e lanças jogadas com miras muito mais certeiras do que as que havia encontrado anteriormente, fazendo-o se lembrar da lança que havia matado seu cavalo.

Ramsés II se encolheu das flechas, tentando defender-se com seu escudo, mas algumas atingiram sua armadura e seu braço antes que conseguisse levantar o escudo. Seu cavalo estava protegido com a armadura, que funcionava muito bem para flechas, mas uma lança pesada atingiu o cavalo de Ramsés II mortalmente no rosto, quebrando as armaduras do animal por completo e matando-o facilmente. O cavalo caiu, com o faraó em cima, que capotou dolorosamente com o cavalo.

Caído no chão, Ramsés II segurou um choro de dor ao ter certeza que devia ter quebrado alguma coisa no ombro e costela, ou quem sabe no corpo todo se julgasse simplesmente pelo o que doía. Ele segurou o próprio ombro com dor, alguns egípcios se aproximaram para ajudar e os hititas para atacar, mas Antam-nekt rugiu ameaçadoramente impedindo qualquer um de chegar perto de seu dono e parceiro. O leão não tirou os olhos de ninguém, exibindo suas presas enormes e sujas de sangue, enquanto Ramsés II, tirando a mão do ombro dolorido para fingir que aquela queda não tinha lhe afetado tanto quanto realmente tinha, se levantou. Não havia espaço para hesitação ou dor.

Ramsés II colocou a mão na juba de seu fiel escudeiro carnívoro, e olhou para o homem que havia lançado a lança. Não sabia quem era. Mas o homem alto, forte e barbudo se exibia de forma pomposa, orgulhosa e poderosa. Adicionalmente, parecia que ninguém tinha coragem de chegar perto dele. Seja egípcio ou hitita.

— Amon-Rá me ajude… — pensou Ramsés, mas foi recebido apenas pelo silêncio apesar de sentir que o deus ainda estava lá.

Aquele homem lhe dava uma péssima sensação. Não duvida que tinha sido ele que lançou as lanças que haviam acabado com seus cavalos.

— Vai ficar aí só encarando? — perguntou o homem num egípcio perfeito, mas com um toque de sotaque, outro sinal de que não era qualquer um. Um soldado qualquer de família não tão importante não aprenderia egípcio. Muito menos naquele nível. — Ou vai vir brigar?

— Se está com pressa de morrer… — disse Ramsés, preparando sua kopesh.

— Não sabe mesmo com quem está falando… — disse o homem começando a rir.

— Deveria? — perguntou Ramsés II enquanto os demais acompanhavam tudo como uma cena de um filme — Você não é Muwatalli II, então não me importo com quem é.

— Deveria, sim. — respondeu o homem.

Podia parecer uma conversa comum de troca de afrontas, mas cada um estava de olho em cada pequeno movimento feito pelo adversário. As espadas de ambos refletiam o sol e poucos conseguiram continuar como espectadores quando o caos ao redor dos dois engoliu aqueles que tentavam acompanhar o confronto.

Exalando confiança, o homem avançou contra Ramsés II e no primeiro golpe que o faraó segurou com sua khopesh, ele pôde sentir a força e o poder de seu adversário que chegaram a fazer seus ossos tremerem. Contudo, Ramsés II não deixou qualquer emoção quanto a isso escapar de seu rosto, apenas contra-atacou velozmente, mostrando que também era uma força a ser temida. A luta era feroz e implacável, com faíscas voando a cada golpe e o chão sendo marcado pelas pisadas pesadas dos guerreiros.

Antam-Nekt não dava espaço para o homem respirar ou dar um passo em falso. O leão atacava também em perfeita sincronia com o faraó, que usava cada grama de sua concentração para não perder nenhum dos golpes de seu adversário. O homem barbudo parecia ficar irritado, mas não deixava também sua concentração escapar pelos seus dedos. Contudo, por mais que Ramsés II e Antam-Nekt fossem uma excelente dupla, um terceiro homem, de corpo corpulento, barba mais rala e cabelos encaracolados, surgiu do meio da multidão que lutava ao redor, e com uma facilidade ilógica, puxou Antam-Nekt pela sua juba, puxando-o para longe e jogando-o contra o chão.

— Antam-Nekt! — exclamou Ramsés II, ofegante.

— Dois contra um não é justo. — disse o homem de cabelos encaracolados.

— Não toque nele! — exclamou Ramsés II, querendo partir para atacar o recém chegado mas sendo impedido por ataques de seu adversário original.

— Não vou matá-lo… ainda. — disse o recém-chegado, contendo Antam-Nekt com facilidade — Quero ver quem ganha.

— Está duvidando de mim?! — reclamou o adversário de Ramsés II.

— Um pouco, sim. — admitiu o recém-chegado — Ele já fez muito estrago até chegar aqui.

— Obrigado. — disse Ramsés II.

— Está esquecendo de quem está falando. — disse o homem barbudo.

O adversário original de Ramsés II soltou uma pequena risada, e atacou o faraó, que prontamente desviou, mas foi por pouco. Ele sentiu e viu o sangue jorrando de sua bochecha quando a espada do homem cortou-a, fazendo o primeiro sangue daquele confronto. Mas ele não deixou barato, rapidamente foi atrás de sua chance para contra-atacar. Usava todo movimento que havia aprendido, atacando de todas as direções enquanto o sangue jorrava de sua bochecha e pingava na areia, mas não conseguia chegar a cortar o homem.

Por vezes, Ramsés II sentia que havia chegado perto o suficiente, sentia até a espada tocando algo que podia ser pele, mas nenhum corte era feito e o homem só lhe sorria de forma zombeteira. Atrás do faraó, Antam-Nekt se debatia contra o homem de cabelos encaracolados que não parecia ter o menor problema ou medo de segurar um leão com as mãos vazias, mas felizmente também não parecia interessado em matar a fera, ao menos até o momento.

Antam-Nekt estava em perigo, e o acampamento também, trouxe um senso de urgência à Ramsés II. Exausto, com suor se misturando na areia com sangue, ele tentou de tudo para acertar um golpe que fosse no homem, nem precisava ser mortal, mas seu adversário continuava estranhamente ileso, enquanto Ramsés II começava a acumular cortes e cansaço. Desesperado, e sentindo múltiplos olhos sobre si, Ramsés II chamava por Amon-Rá, mas só o silêncio o respondia.

— Qual é o problema, oh meu pai Amon? — pensou Ramsés II enquanto continuava a lutar contra seu adversário, mesmo sentindo cada vez mais a balança pender em desfavorecimento a si mesmo — Um pai já se esqueceu de seu filho, ou essas coisas que estou fazendo são algo separado de ti?

No meio do confronto contra o homem, este lhe acertou fortemente na barriga com um chute poderoso. Cansado, Ramsés II tropeçou vários passos para trás cuspindo sangue, fincou a espada no chão por um momento para ter algum equilíbrio extra, mas se recusou a cair de vez no chão, o que deixou seu adversário irritado.

— Não fui e fiquei sob o teu comando? Nem transgredi o plano que ordenaste, nem me desviei dos teus planos. — continuava Ramsés II a pensar, clamando por Amon-Rá, se erguendo pronto para continuar a batalha, para desgosto total de seu adversário — Grande demais é o grande senhor do Egito para permitir que os estrangeiros em seu caminho se aproximem! O que é tu, ó Amon, para esses asiáticos, os miseráveis, desconhecidos do deus?

— Tenho que te dar algum mérito… — disse seu adversário — Não achei que ia durar tanto, por ser mortal.

— “Mortal”... — repetiu Ramsés II em voz baixa, pensativo — Entendi…

— Sabe quem eu sou agora então? — perguntou o homem, inflando o peito.

— Ainda não me importo. — disse Ramsés II — Só sei que tenho que me livrar de você.

O homem fechou a cara com raiva, e Ramsés II tinha que admitir que não estava se sentindo tão bravo e corajoso assim naquele momento. Tentando puxar o máximo de determinação que tinha no coração, Ramsés II avançou com a espada firmemente na mão.

O combate continuou de forma voraz. Ramsés II tinha plena ciência do quão ferrado estava. Agora fazia sentido porque sua espada não parecia conseguir perfurar seu adversário. As suspeitas de Ramsés II eram que ele era um deus hitita. Qual não era importante. A situação já era impossível só de saber que ele era um deus.

Assim, a única esperança que Ramsés II tinha era aguentar o máximo possível enquanto tentava chamar pela ajuda de qualquer deus que fosse. Se ao menos um ouvisse suas preces, já seria o bastante. Logo, enquanto seu adversário ficava fisicamente irritado por estar tendo dificuldade em acertar e acabar com Ramsés II, o faraó clamava por Hórus, Bastet, Sekhmet, Montu, Sobek, Seth, Khonsu, Anúbis, Osíris, qualquer um. Qualquer um que lhe ajudasse ou, na pior das hipóteses, cuidasse dele no pós-vida. E ainda assim, tentava continuar pedindo por Amon-Rá, que ainda sentia dentro de si.

— Eu não faço para ti muitos monumentos e encho teus templos com meus cativos?- pensava Ramsés II — Estou construindo para ti minha casa de milhões de anos; Eu dou para ti todos os meus bens como móveis.

Ramsés II sentia a força de seu braço falhando, o suor escorria como cachoeira pelo seu corpo misturando-se a sangue. O faraó estava exausto, e o deus nem perto disso. Mas o deus estava irritado com o faraó que não caía, que não desistia, que não se intimidava com aqueles que acompanhavam o conflito com bocas abertas em surpresa e incredulidade. Isso é, até uma flecha cortar o campo de batalha perseguida por uma fraca luz dourada até acertar a espada do rival de Ramsés II com tanta força que quase a espada escapou das mãos do homem.

Ambos Ramsés e seu adversário, e também quem acompanhava a luta, viraram o olhar para a origem da flecha. As reações foram completamente diferentes ao verem um homem musculoso de cabelo raspado e olhos heterocromáticos, um prata e outro dourado.

— Hórus… — disse Ramsés II, aliviado.

— Não acha que está numa luta injusta, Zababa? — perguntou Hórus para o adversário de Ramsés II — Ele ainda é mortal apesar de tudo e você imortal.

— Hórus… — reclamou Zababa entredentes.

Ao mesmo tempo, uma leoa maior que o normal pulou no homem que segurava Antam-Nekt com a boca escancarada, visando sua garganta. O homem largou o leão de Ramsés II e desviou apressadamente da leoa enquanto Antam-Nekt logo se arrumou e ficou pronto para pular no homem também, mas um mero olhar da leoa o impediu de fazer isso.

— Não o faça, criança. — disse a leoa, Sekhmet — Esse não é alguém que conseguirá lidar.

— Não imaginei que até você viria salvar o leão. — disse o homem.

— Claramente não me conhece, Sandas. — disse Sekhmet, voltando a sua forma normal com cabeça de leoa.

— Vá lutar com os mortais e organizar seu exército. — disse Hórus para Ramsés II — Nós cuidamos deles e dos outros deuses que tem por aí.

— Outros? — perguntou Ramsés II.

— É… tem outros deuses hititas por aí… — disse Hórus, encarando Zababa de cima a baixo — Burlando leis que dizem que não podemos interferir tão diretamente com os assuntos mortais. Mas não se preocupe, também viemos em mais de dois.

— Parabéns por aguentar Zababa por tanto tempo. — completou Sekhmet.

— Eu nem estava indo com tudo. — reclamou Zababa.

— Então porque parecia tão irritado? — perguntou Hórus, com um sorriso desafiador no rosto.

Deixando para trás as discussões dos deuses, Ramsés II correu até Antam-Nekt e se ajoelhou ao lado da fera. O faraó percorreu os olhos pelo animal, certificando-se que estava tudo bem, e logo o leão lambeu-lhe o rosto. O que não foi uma sensação muito boa, considerando o tanto de sangue que Antam-Nekt tinha na boca.

— Eca. — resmungou Ramsés II tentando limpar o rosto como dava, mas ele mesmo não tinha tantas partes do corpo assim que estivessem limpas de sangue — Vamos ajudar o pessoal?

Ramsés II se ergueu, respirou fundo engolindo toda a dor que sentia, e correu com Antam-Nekt ao seu encalço dando uma breve olhada para trás, vendo os quatro deuses começando a lutar entre si. Queria ter a honra de acompanhar o conflito, mas tinha um exército a liderar. Contudo, logo Ramsés II estava cortando caminho entre a guerra, o que era muito mais difícil sem um cavalo, mesmo considerando a companhia de Antam-Nekt.

Cansado, ofegante e suado, Ramsés II cortava caminho entre os soldados, matando quem aparecia em seu caminho liderado por pura adrenalina. Isso é, até que diante dele apareceu um soldado hitita que não fazia o menor sentido ainda estar de pé. Ele tinha um olhar vidrado, que nem piscava, um dos braços era uma maçaroca de sangue e carne nojenta com o osso despontando que qualquer um já teria morrido pelo sangramento causado pelo ferimento a essa altura, ou no mínimo caído no chão. Seu abdômen estava amassado, como se tivesse sido pisoteado por algum dos vários cavalos presentes. A visão era tão estranha que tanto Ramsés II quanto Antam-Nekt pararam por uns segundos para olharem em choque para o homem, tentando entender o que acontecia ali.

Então, repentinamente, uma faixa de linho se agarrou ao pescoço do estranho homem e o puxou fortemente, derrubando-o no chão, mas continuando a puxá-lo mesmo assim e, diante dos seus olhos, o homem ia ficando sexo, murchando como uma uva passa, a pele e a carne se desfazendo, e então os ossos também, até não passar de pó se misturando com a areia do chão, que a faixa de linho deixou para trás e voltou para seu dono. Ramsés II acompanhou a faixa de linho com o olhar, e na outra ponta dela, encontrou Anúbis.

— Esse é comigo. — respondeu Anúbis, que não parecia de bom humor — Tenho contas a acertar com Lelwani por ter me tirado do meu encontro.

— Esse cara… já estava morto, né? — perguntou Ramsés II.

— Lelwani decidiu levantar alguns mortos para aumentar o exército hitita. — reclamou Anúbis revirando o olhar — Vá lutar com os vivos, preferencialmente, certo? Eu cuido dos mortos.

— Certo… — disse Ramsés II tentando processar tudo que havia acontecido nos últimos minutos.

Enquanto Ramsés II tentava processar tudo, um soldado qualquer chegou por trás de Anúbis e tentou lhe cortar nas costas com sua espada. Claro, a espada não fez o menor efeito e o homem ficou em choque ao notar isso. Mas o pobre homem só fez perder toda a cor do rosto quando o deus se virou para ele, facilmente pegou sua espada e a quebrou ao meio com as mãos como se fosse um palito de dente, que logo deixou cair no chão inofensivamente.

— É agora que você corre. — sugeriu Anúbis e o homem fez exatamente isso.

— Não vai lutar com as pessoas? — perguntou Ramsés II.

— Não. — respondeu Anúbis — Só vou encontrar Lelwani e seus mortos nessa confusão e qualquer outro deus que aparecer. Não podemos interferir, eles já estão interferindo então… melhor não deixar tudo pior do que já está.

— PAI! — gritou repentinamente o segundo filho de Ramsés II, Ramsés filho, no meio da confusão se aproximando montado num cavalo.

— Ah bom! Você ainda tem seu cavalo. — disse Ramsés II lembrando-se do que tinha que fazer e indo até Ramsés filho — Vamos até Amunherkhepeshef. Cadê o general que estava com você?

— Morreu me protegendo… — disse Ramsés filho cabisbaixo, com olhos logo enchendo-se de lágrimas, enquanto ele e o pai se arrumam para ambos caberem no cavalo.

— Faremos honras à ele depois. — prometeu Ramsés II segurando as rédeas enquanto o filho sentava atrás dele, cabisbaixo e sentindo-se criança novamente, tal como era já que tinha 13 anos apenas, enquanto se segurava na cintura do pai para não cair do cavalo — Não faça o sacrifício dele ser em vão.

— Não vou. — respondeu Ramsés filho sentindo a coragem voltar para si.

— Viu Pareherwenemef por aí? — perguntou Ramsés II, preocupado com o terceiro filho.

— Não. — admitiu Ramsés filho — Será que ele está bem.

— Vamos torcer para que esteja. — disse Ramsés II.

— Não está preocupado? — perguntou Ramsés filho.

— Estou… — admitiu Ramsés II — Mas guerra é assim mesmo…

— Boa sorte. — desejou Anúbis quando Ramsés II estava prestes a partir dali.

Ramsés II afirmou com a cabeça e rapidamente começou a galopar em meio a confusão de gritos, brigas, sangue e corpos que era a guerra em direção ao ponto que precisava estar. Em seu caminho, silenciosamente se permitiu fazer uma pequena prece para Amon-Rá, continuando as palavras de antes.

— Eu conduzo a ti, todas as terras juntas para fornecer comida para tuas oferendas; — sussurrava Ramsés II, atraindo o olhar de seu filho — E eu ofereço a ti o sacrifício de miríades de gado, com todas as ervas de cheiro doce. Não deixo nada de bom para trás, não feito em tua corte, pois construo para ti grandes pilares de pedra, eu mesmo ergo seus mastros de bandeira e trago para ti obeliscos de Elefantina. Sou eu que busco para ti os produtos de países estrangeiros. Que uma sorte minguante recaia sobre aquele que derrota teu plano, enquanto o bem é feito para aquele que te leva em conta! Oh, que alguém possa agir por ti com coração amoroso.

Quanto a Anúbis, ele viu o faraó partir até que ouviu alguém batendo palmas lentamente atrás dele. Ao se virar, não ficou nada surpreso ao ver Lelwani.

— Que cena linda… — disse Lelwani, fingindo um choro e passando a mão nos olhos para limpar uma lágrima imaginária.

— Vocês não podiam ter simplesmente deixado a batalha acontecer e pronto? — perguntou Anúbis.

— Não sou eu que tomo as decisões. — respondeu Lelwani.

— Ainda assim, está aqui. — respondeu Anúbis — Desobedecer não é tão difícil. Ou também cansou de perder?

— Acho que as coisas deveriam mudar por aqui. — admitiu Lelwani — O Egito já durou tempo demais, com poder demais. Está na hora de outros brilharem.

— “Outros” ou os hititas? — perguntou Anúbis.

— Creio que notou que não tem só hititas nesse exército. — disse Lelwani.

— Mas a maioria é hitita ainda assim. — respondeu Anúbis — Ou realmente quer me fazer acreditar que se ganharem vão dividir tudo que conquistarem igualmente como bons meninos?

Lelwani deu de ombros e suspirou em seguida.

— Podemos começar então? Nada pessoal? — perguntou Lelwani enquanto suas pulseiras começaram a emitir uma luz estranha, negra e roxa.

— “Nada pessoal” enquanto tentamos nos matar? — perguntou Anúbis pensando um pouco.

— Sabe que não vamos realmente morrer mesmo se nos matarmos. — respondeu Lelwani.

— Pode ser então. — disse Anúbis dando de ombros.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Na Batalha de Kadesh, Ramsés II levou seus 4 filhos mais velhos e seu leão. O exército dele estava dividido em 4, das quais apenas 1 já tinha chegado de fato em Kadesh e a segunda estava perto, e foi atacada de surpresa pelos hititas. os hititas conseguiram perfurar a parte do exército egípcio, ficando em uma posição ótima para ataca-los dos dois lados ou destruir o acampamento montado pela 1ª parte. O exército hitita tinha entre 23 mil e 50 mil homens. O de Ramsés II tinha entre 20 mil e 53 mil homens, dos quais apenas metade estavam no local. Ramsés II liderou seus homens sozinho. Até então, nenhum sinal do líder hitita, Muwatalli II. **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 A batalha de Kadesh - ht umtps://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Kadesh Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 Ramsés II - https://www.worldhistory.org/Ramesses_II/ Filhos de Ramsés II - https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_children_of_Ramesses_II