A Million on My Soul
14 Morte aos imprevistos previsíveis - Parte 1
Eles vieram do nada. Imprevistos previsíveis, a primeira vista sombras, com uma penumbra densa ao redor de uma silhueta. Logo depois Chasan, que tinha os alcançado.
Teve que admitir que ficou surpreso pela coragem dela — como se toda aquela admiração que crescia dentro dele não bastasse para uma humana. Ele enxergou toda a sua determinação quando ela o agarrou pelo braço e correu com ele por aquelas ruas estreitas.
A verdade é que, para ela, nada disso fazia diferença. Estava de saco cheio de Chasan. Só queria se descobrir, saber o que ela e as almas significam em paz, sem nada de perseguições, facas e uma hostilidade um tanto quanto esquisita entre Grim e o anjo caído.
Ali, na penumbra da madrugada como de praxe, foi um silêncio inquieto. Depois de se separarem para ela ganhar tempo até o cemitério, ele a encontrou desacordada. Não é nada fácil invadir um cemitério, além disso, muitas pessoas podem ver como desrespeito — mais uma tarefa que ela faz com grande facilidade.
Agora, sentado em frente à lápide de uma das almas, apoiava a cabeça dela no colo, a cobrindo com seu casaco: o mínimo que poderia fazer para deixá-la de alguma maneira confortável. Implorava baixinho, quase para si mesmo, para que a lembrança fosse curta e que ela pudesse acordar logo. Apoiou suas costas na lápide partida ao meio, enquanto segurava entre os dedos longos uma ou duas mechas do cabelo dela.
Grim compreendia o perigo que seria se algo acontecesse com ela durante as conexões. Ele manteve a respiração apertada dentro do peito. Em um dia que começara tão bem...
Um dia antes
Florença – Itália
Sky mantinha os cabelos presos. Madrugada, e com o tempo bastante quente para a atual estação do ano, não tinha planejado aquilo acontecendo.
— Está tão úmido, eu não aguento isso.
Retirou o casaco, entregando para ele.
— Você teria melhor sorte em conhecer alguém em algum lugar mais do seu estilo. Sabe, como uma loja de 99 centavos.
Deu uma olhada em si mesma: calça jeans, uma blusa larga e o casaco daquele dia.
— Ah, o desrespeito! Não está tão ruim assim!
Há 15 minutos atrás tinham saído do aeroporto. Grim explicou que não fizera reserva em nenhum hotel, mas que tem um lugar em mente. Dele, certamente ela poderia esperar tudo.
Grim realmente apreciava caminhar. Poderia andar quilômetros sem reclamar. Por outro lado, Sky não manteve o hábito, já que antes costumava dar longas caminhadas pela manhã com seus pais. Mesmo assim, não se cansava facilmente.
É a primeira vez dela visitando o país, e apesar de não ser uma visita do jeito que ela queria que fosse, ainda apreciou a cidade com ele. Logo chegaram em uma escadaria. A rua em forma de círculo se enfeitava com diversas casas e algumas lojas estilo contemporâneo, e em uma delas ele parou, batendo apenas uma vez.
A fechadura girou e não foi quem ele esperava atrás da porta. A mulher de cabelos curtos o encarou com indiferença.
— Você não vai levar ninguém hoje.
Ela foi fechando a porta, mas não antes dele colocar o pé para impedi-la.
— Desculpe — ele limpou a garganta. — Acho que começamos errado.
— E como você acha que seria o certo? — ela inclinou a cabeça do mesmo jeito que ele. — Grim...
— Eu? Grim? Nós somos do encanamento.
— Ah, sempre muito engraçado, não é?
Sky que observava tudo em silêncio teve vontade de sair correndo. Sentiu-se como uma terceira pessoa intrometida. Não tinha certeza. Na verdade, não tinha certeza de nada.
— Quem é, Venus? — uma voz em baixo tom chamou atenção. A voz de Demise.
— Você acabou de mencionar ele, tia — ela abriu a porta, dando espaço — Entrem.
Sky entrou na residência bastante desconfiada sob um olhar curioso. Ela olhou para trás e Grim estava de braços cruzados, totalmente contrariado enquanto batia os pés.
— Eu sempre esqueço dessa parte! — Venus riu. — Grim, eu te concedo a entrada nesta casa.
— Eu irei fazer um esforço pra você lembrar da próxima vez — respondeu ele.
— Querida porque você está o provocando tanto? Você nem o conhece — mencionou Demise.
— Mas você sim.
Venus deu de ombros, seguiu até a cozinha e colocou a chaleira no fogo.
Ainda de braços cruzados, Grim seguiu logo atrás de Sky, notando uma ou duas mechas de cabelo livres do penteado improvisado. Ele colocou as mãos em seus ombros na tentativa de deixá-la um pouco menos ansiosa e transmitir alguma segurança.
— Não tencione tanto os ombros.
Ela sorriu, doce e inocente.
— Você não tem que ser tão suave comigo, eu não quebro fácil.
Por um breve momento, Grim vacilou suas mãos rapidamente quando sentiu uma presença, ruborizando.
— Então é isso? Demoraram porque perderam tempo flertando? — o tom da voz foi familiar para os dois. O anjo caído os julgava sentada, de pernas cruzadas, como na primeira vez que ela e a Escolhida conversaram diretamente. Venus a serviu com chá verde.
— Ah, é apenas você... — Grim deu de ombros, retirando a bagagem das costas.
— Apenas eu? — ela retraiu as asas rapidamente, deixou algumas caírem aos pés de Sky. — Nem pense em tocar nisto aí.
— Vocês vão começar isso aqui? — Demise se intrometeu, apesar de ninguém parecer ter realmente ouvido além de Sky. Não que fizesse diferença, uma pequena questão de hábito, quando toda vez que eles estavam dividindo o mesmo espaço — Sky, tem um quarto sobrando lá em cima, pode se acomodar como quiser.
Mas suas feições chamaram-lhe a atenção.
— Talvez soe indelicado essa pergunta, mas... O que aconteceu com você?
Demise rolou os olhos, impaciente. Visto que o olhar dela acompanhava todos os seus movimentos, ainda que hesitante, retirou o roupão dos ombros.
— Bem, agora é tarde. Já está feito.
Sky acompanhou cada marca roxa na pele pálida. Como diversos borrões em uma obra de arte com a tinta ainda fresca. Isso cobria toda a extensão das costas, braços e coxas, e mais algumas nos pulsos.
— As correntes eram muito pesadas.
Com a garganta ardendo, deixou um suspiro pesado escapar.
— Grim me explicou que no submundo o tempo é diferente... Quanto?
— Talvez aproximadamente 277 anos. Fui torturada por 277 anos. Para vocês, apenas 2 dias. Acredite ou não, Chasan não encostou um dedo em mim, ele é muito bom em magia, então deixou que os seres de sua criação fizessem tudo. Tudo isso... — apontou para si mesma.
— Por todo esse tempo? — perguntou Sky, sua entonação se mantendo baixa.
Demise assentiu.
— O que ele conseguiu?
— Ele pegou parte da minha vida, da minha energia e um pouco da minha dignidade. De resto, só informações que eu queria que ele soubesse.
Não que ficasse impressionada facilmente, mas uma admiração realmente cresceu dentro dela. Com total conhecimento do que Demise, um demônio, uma mulher que até Grim não ousaria a subestimar, é capaz, lembrou o que sua família pensaria se soubesse que ficou com vontade de ovacionar um ser devoto ao caos e destruição — assim eram conhecidos. Confiava em Demise, sendo que nem Demise confiava nela mesma. Se dissesse isso em voz alta, provavelmente seria recebida com um tapa na cara.
— Agora descanse... — a mulher se encolheu junto ao roupão, dando-lhe as costas — O dia vai ser pesado, Blue.
Sky comprimiu os lábios em uma linha fina, pensando em voz alta quando deixou um palavrão deslizar pelos lábios. Apertou os punhos, totalmente rendida.
— E o que eu posso fazer?
Ao dar alguns passos de volta à sala, sentiu um calafrio gigantesco descer pela espinha. Sim, sim. Os dois sentados de frente para o outro, como sempre, querendo se matar. Mas seria possível com O Ceifador sem a foice? Soren sabia a resposta. O dia já estava pesado.
— Não irei pegar leve com você, Soren. Se quer continuar existindo facilmente, pode voltar de onde saiu. Se quer estar ao meu lado, me mostre uma determinação à altura.
— Quer devoção, Grim? — colocou a língua bifurcada para fora. — Que tal eu me ajoelhar e beijar seu sapato?
— Vejo que está bem disposta a receber um chute no meio da cara.
— Então... — Sky interrompeu, pegando sua mochila. — Vou subir e tentar dormir. Ninguém em sã consciência deveria fazer o que ela fez, mas ela nos acolheu, e agora não está muito bem como deveria estar, então tentem não quebrar toda a casa.
Grim pôde perceber a pitada de mau humor nela. Ainda é humana, e não soaria nada exagerado dizer que passar muito tempo ao seu lado fez ele se acostumar. Ela ficará exausta e mudará por conta disso.
Soren se levantou com sua xícara de chá.
— Faço vigia essa noite. Sei que você raramente dorme, mas hoje poderia.
E embora ele estivesse se sentindo cansado, fez um movimento falso para o andar de cima, então logo saiu por onde entrou.
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