A Million on My Soul

15 Morte aos imprevistos previsíveis - Parte 2


"Você não deveria ser tão dura consigo mesma." Em suas lembranças, sua mãe sempre ficava parada junto à varanda, coberta com um fino casaco, o ar da manhã turvo. "Muito pode ser perdido pela atenção exagerada a um momento ruim. Muito pode ser aprendido se você abrir os olhos. As pessoas são uma infinidade de motivações e paixões."

Se levantou de modo preguiçoso, após tatear o lugar ao seu lado, ainda frio. Tinha descansado bem, mas esse é um hábito que surgiu após ele fazermorada em sua casa, quando seu cheiro permanecia no travesseiro, junto com o aroma do café fresco que vinha da porta do quarto entreaberta. Nesse momento, o quarto não é dela, não há qualquer cheiro, a porta está fechada e a cama fria. Não que houvesse algo para fazer sobre isso, exatamente por o conhecer — totalmente imprevisível.

Então após fazer sua higiene e tirar alguns pensamentos conflituosos da cabeça, desceu em direção à cozinha. Estavam quase todos na mesa, com exceção de Venus.

— Falando no diabo... — Soren tossiu em fingimento.

— Não me faça elogios tão cedo assim.

Ela sentou-se ao lado de Grim e se serviu. Fez uma rápida observação em Demise, que parecia melhor. Ela sorriu de lado para Sky. Seu batom carmesim chamava atenção.

— O que estavam falando? — ela perguntou.

— Sobre porte de armas — Grim respondeu.

— Sério?

Soren colocou dois revólveres apontados para ela em cima da mesa, fazendo Sky se engasgar com o próprio café. Demise permaneceu quieta, quase não dando para notar sua presença no ambiente.

— Grim disse que você sabe usar.

— Não é uma coisa a qual todos devem ficar sabendo — ela deu um empurrão em Grim, analisando-as — Conseguiram essas com quem, Chaim?

— Chaim possuía armas?! — perguntou Soren com espanto. — Na verdade, eu não deveria estar surpresa desse jeito.

— Ele tinha uma igual.

— E você já atirou em alguém? — Soren insistiu. Desejou ver se Sky vacilava nas palavras, queria ver até onde ela seria capaz de ir. Houveram alguns segundos de silêncio.

— Não. Eu não conseguia — engoliu seco. — Mas ameacei uma vez.

Soren arregalou os olhos, imaginando a cena.

— Se for ficar deduzindo coisas assim, saia da mesa, são nove da manhã e ninguém está no clima — reclamou Grim.

De fato, todos naquela mesa pareciam meio incertos. Só que ninguém sabia que esse era o jeito de Soren mudar as coisas. Estalou os lábios quando acabou por desistir.

— Está muito politicamente correto de repente — se retirou da mesa, dando a volta por ele.

Após terminar a refeição, Grim foi o próximo a sair em silêncio, pegando seu isqueiro. Demise foi a única que restou, mudando de acento.

— Está acontecendo algo aqui? — perguntou Sky, debruçando sobre a mesa.

— Até o Ceifador conhece a terrível sensação de apreensão — apontou Demise. — Não percebeu como tudo está quieto aqui, agora? Acredite quando eu digo sobre Chasan, algo vai acontecer em breve, nós já vimos esse lado da história.

— Não tenho medo dele!

— Admirável, mas também tolo. Você deveria ter medo dele — ela tomou um gole do café ainda quente. — O medo não é a falta de coragem.

— A verdade é que... — suspirou pesadamente. — Penso que deveria tentar fazer as coisas sozinhas. Soren tem poderes, Grim tem poderes, e eu...

— Você deve ter uma compreensão do que você é e o que você não é. — Demise bateu as longas unhas contra a mesa de mármore.

— Eu sei o que eu sou.

— Você não é um exército, minha querida. Você não pode lutar contra todo mal sob o sol sozinha. Você é uma pessoa. Brilhante e poderosa, mas apenas uma pessoa. Apenas faça o que está fazendo agora.

— E o que é?

— Ora, me responda você.

Demise se levantou, começando a recolher todos os pratos. Sky lhe ajudou com a louça, observando sua aparência ter melhorado bastante comparado a noite anterior. Um simples vestido longo e preto era tudo que vestia, deixando algumas de suas tatuagens à mostra. Nenhuma marca havia restado.

Depois de terminar, ouviu um burburinho que vinha de fora. Do outro lado da rua, Grim estava sentado atrás do balcão na lojinha de Venus. De pernas cruzadas sobre o balcão, Soren estendia suas longas asas ao banho de sol.

— Suas asas parecem melhores, Soren — Grim notou. Muitas vezes as asas de um anjo podem variar conforme sua origem, saúde, humor e outros tantos fatores. Asas melhores significavam que ela tinha melhorado, ainda que um pouco.

— Acha mesmo? — ela as chacoalhou. — Você parece mais alto.

— Quando o vi pela primeira vez, ele era britânico com uma barba longa.

— Ah! — O anjo exclamou quando as lembranças rodeavam sua mente. — Eu lembro dessa, acredite, ele era extremamente antipático e detestável.

Grim virou-se para Venus, de modo a desconsiderar os comentários vindo da amiga.

— Apesar da minha longa memória, não lembro de ter te conhecido, Venus.

— E não deveria. Eu era uma garotinha nova demais para conhecer a morte.

— E um demônio está de bom tamanho pra você? — a pergunta de Soren veio de modo sincero apesar de não soar como deveria.

— Não é como se eu tivesse tido escolha. Há muita confusão em torno da minha concepção e nascimento, tanto que não tenho certeza de quem é realmente meu pai.

— Como?

— Minha mãe era uma prostituta e estava vivendo sua melhor vida. Eu, pelo menos, estou orgulhosa dela.

— E qual é a parte que você descobre que Demise é um demônio?

— Na verdade eu sempre soube — sua voz oscilou rapidamente. — Não pense que sou inocente só porque não ajo com tanta força quanto você. Vi e fiz algumas coisas por algum tempo. Demise me criou como sua filha desde quando minha mãe teve que me entregar após fazer um pacto com ela. Foi o preço que teve que pagar por ser gananciosa, assim como você, Soren.

— Bem... — ela retraiu as asas abruptamente, tentando não mostrar que aquele assunto ainda a afetava, sem sucesso. — Eu tive meus motivos, você sabe, Ele, você, ninguém nunca irá entender.

— Ah, o daddy issues... — começou Grim, mas cortou o que iria falar. — Você entende que sinto muito por isso.

— Eu sei — pulou do balcão, arrumando a roupa. — Às vezes queria que não.

Soren sumiu entre um piscar de olhos, deixou uma pena para trás.

— Acho que Sky já deve ter terminado o café da manhã — ele disse olhando o relógio na vitrine.

— Você tem a paciência de um santo lidando com ela do jeito que você faz.

— Com quem, Sky? — seu tom de voz ficou doce e denso. — Não dá pra ficar aborrecido com ela por muito tempo.

— Me referi a Soren.

Agora havia franzido o cenho.

— Você percebe que ela teve uma vida incrivelmente traumática e tem um motivo para cada vez que ela ataca assim, certo? Ela não está fazendo isso apenas para rir — ele se debruçou sobre o balcão a fim de ver se dava para ver Sky. — Eu não "lido com ela", eu me importo com ela. Há uma diferença.

Na verdade, Venus meio que entendia o conceito, afinal se aplica com a relação entre ela e sua guardiã. Mesmo assim, não retrucou, vasculhou uma caixa decorada e surgiu com um deck de cartas tarô.

— Quer que eu leia suas cartas?

Ele se animou.

— Se você tirar A Morte para mim, eu vou embora daqui.

✦✧✦✧

Meia noite, assim avisava o grande relógio antigo de Demise. Nada muito especial nisso; Sky e Venus dormiam, Soren preparava a jaqueta e a própria Demise acompanhava os passos silenciosos de Grim. Ela sabia que eles sairiam hoje, ao destino para a próxima alma.

Ele subiu as escadas, entrando no quarto. Era de costume dela dormir coberta dos pés a cabeça, mas deu pra ver algumas mechas de seu cabelo cacheado.

— Ei — a acordou devagar. — Temos que ir agora.

— Porque está aqui tão tarde? — ela piscou duas vezes, observando algumas mechas de seu cabelo preto ligeiramente bagunçado. Ele pareceu ainda mais esbelto com aquele sobretudo preto até os joelhos. A camiseta branca com os três botões abertos sem preocupações deixou sua marca na clavícula à mostra, seus olhos correram diretamente nessa direção.

— Uau, com apenas três horas de sono, ninguém pode ser tão mal-intencionada quanto você — seu rosto foi tomado por um tom vermelho amável. — Cemitério, almas... lembra?

Sky levantou preguiçosamente, jogou água no rosto e trocou de roupa.

— Lembro... Às vezes desejo que tudo não passe de um sonho.

Os três deixaram a casa de Demise quando a lua atingiu o topo, no mais profundo silêncio, apesar de terem sentido Venus os observando da janela com o seu mau costume de dormir tão tarde. Sky ficou pensando no grande privilégio que ela estava desperdiçando, mais meia hora de sono seria perfeito, quase como se fosse adicionar mais dez anos de vida à ela. De ombros para baixo, sentiu-se cansada.

— Quais foram as cartas que Venus tirou pra você? — perguntou Soren que seguia na frente.

— Hm, não lembro — mentiu. — Mas tenho certeza que veio A Torre.

— Eu falo sério!

— Não pensei que estaria tão interessada.

Soren franziu o cenho, dando de ombros.

— Aquela garota tem algo... eu não sei exatamente o que é.

Grim deduziu que esse seria um daqueles momentos em que ela soltaria algum comentário devasso fora de contexto, o que não ocorreu. Ao longo do percurso a pé, a noite seguiu fria, de poucas palavras, não ouviam apenas um som de passos se quer. Ainda sonolenta, sua mente foi até seu apartamento, seu gatinho, os rostos familiares. Acabou por soltar um riso fraco, parecia que tinha sido ontem que quase tinha perdido a vida, não sendo a primeira vez.

— E se eu não achei ainda? — Murmurou entre os lábios cheios.

— Hm? Disse alguma coisa? — perguntou Soren, olhando-a de canto.

— Não, nada.

Ultimamente estava caindo em devaneios vívidos, e se pegava falando consigo mesma. A penumbra da noite serena os conduziam pelas ruas desertas, acompanhado da luz pálida da lua refletindo sombras atrás deles. À medida que andavam, elas iam mudando de lugar, para o lado e depois na frente, seguindo seus passos.

Sky começou a sentir seu nariz irritado. Olhou para cima, pensando ser a umidade anunciando chuva, o céu agora com nuvens pesadas cobriam tudo.

Dois segundos se passaram quando percebeu, sentindo seu corpo quente e a temperatura a gelar, como se estivesse com resquícios de uma longa e dura febre. Ela parou, a sombra também.

— Grim... — sua voz soou fraca. Ele parou de andar, voltando-se para ela. — Tem algo errado. Essas sombras não são nossas, o céu se fechou, olha... Tem algo errado.

Soren rolou os olhos, suspirando.

— Ah, não...

— "Ah, não" O que? — ele ainda não entendia muito bem.

Soren se virou para Sky, sua íris tão escuras quando retirou o casaco dela de modo agressivo, revelando seu pescoço nu.

— Você retirou o colar, não foi? Queria tanto fazer alguma coisa e mesmo assim não fez! — Soren elevou a voz.

— Ei! — Grim gritou.

— Não explicou a ela?

— Eu expliquei, Soren, e foi um presente. Enquanto estiver sendo usado, ele esconderá a maior parte de nossa presença.

— Mas eu não... Eu não lembro de ter tirado, eu nunca tiraria...

— Não, Grim, eu deveria ter tido noção de que isso iria acabar acontecendo. — ela a ignorou completamente. — É ele, e ninguém se esconde dele.

Nomes não foram ditos, mas Sky sentiu um arrepio que cresceu na espinha, tomando seu corpo inteiro que agora pesava uma tonelada.

Sua cabeça girava, ela não entendia o que estava acontecendo. Como pôde vacilar tanto!

Grim apoiou ela em seu ombro.

— Temos que correr, e agora!

Ele sabia exatamente o caminho e não estava muito distante do destino final. Se afastaram da cidade, infelizmente não a tempo o bastante. Uma das sombras ganhou vida assim que a lua apareceu novamente, uma figura humanoide, alta e esguia, sua composição parecia apenas fumaça. Fumaça do submundo pensou Grim. Sua ficha na mesma hora, Chasan estava usando as almas do submundo, com a foice, ele tem poder suficiente para controlá-los. Quem sabe o que ele tinha em mente.

Sky tirou forças de onde não tinha, com a tremenda sensação de que iria cair de tão fraca. Se esgueirou rapidamente entre os becos estreitos. Ela foi para o lado direito enquanto ele correu para o lado oposto. Se encontraram novamente em uma bifurcação no próximo. Deu uma rápida olhada para trás, conseguindo despistá-los. Se esconderam atrás de uma pilastra.

— Grim! — gritou ofegante. — Já chega — um pingo de suor já começava a descer em sua testa.

— O que você tem?

— Uma faca.

— Muito engraçado, Sky. Mas sério. O que é isso?

Ela tirou a lâmina do sapato, brandindo sua lâmina ao ar livre.

— Eu realmente quis dizer isso.

Ela rapidamente brandiu sua pequena faca quando as figuras desceram o beco em sua direção. Não tinha certeza se sobreviveria, não tinha certeza de nada, mas iria matar o maior número de filhos da puta possível.

Grim perguntou a si mesmo como ela conseguia segurar uma faca militar dobrável de bolso, e em como conseguiu uma. Sua mente logo focou em Venus naquela manhã, quando tirou as cartas da caixa, pôde ver várias coisas de cunho duvidoso. Isso estava lá.

Juntos, conseguiram pegar seis de sete, o último sumiu quando ouviram um barulho alto vindo de atrás.

— Soren... — sussurrou ela.

Voltaram um pouco, vendo Soren parada, suas asas abertas pro alto em alerta, quase alcançando o céu negro.

— Grim, ele está aqui — ela se virou, seu rosto pálido e os olhos também escuros.

Pela primeira vez desde que se conheceram, Sky viu algo quando olhou para o anjo caído, e ela conhecia bem aquele sentimento, de medo.

— Grim... Eu vou ter que ir na frente — disse Sky, totalmente decidida.

— Eu não vou deixar você ir sozinha. Somos mais fortes juntos, lembra?

Ela agarrou seus braços com a força que lhe restara.

— Tenho que fazer isso, foi pra isso que vim, de um jeito ou de outro.

Quando se virou, não ousou olhar para trás, apesar de tanto querer. Era sua luta também. Na verdade, ela é o motivo de tudo, era o motivo de estarem metidos nessa situação. Negativou a cabeça com força, ainda com sua pequena arma na mão, apertando com toda força quando começou a correr em direção ao cemitério.

Quando chegou, ficou surpresa por tantas lápides. Essa era a parte mais difícil, encontrar qual é a que procura. A luz do luar ajudava, em contrapartida da névoa que havia se formado, agora cobrindo grande parte dos nomes. Ao longe, pode ver alguns clarões.

Começou a procurar, se misturando entre tantos nomes, datas, flores e névoa. Já se encontrava ao meio do local, ou pelo menos parecia que era. Quanto mais procurava, menos achava.

O tempo estava passando e ela podia sentir sua respiração vindo tanto mais rápido do que queria como seu coração martelando a mil batidas por minuto. Uma camada fina de suor lhe cobriu a testa e seu corpo começou a formigar. Se encolheu no canto, encostando-se à uma lápide o mais próximo possível.

Meça sua respiração, querida, só você poderá fazer isso.

A memória das palavras dele ecoou em sua mente.

Inspire por sete segundos, segure por quatro, expire por sete.

Estendeu a mão em uma das lápides frias para se apoiar, quando desmaiou na escuridão.

Soren permaneceu de braços cruzados, quase vacilando as pernas quando sentiu uma sensação de queimor. O Ceifador se encontrava logo ao seu lado. Chasan agora logo a frente.

— Chasael... — a voz de Soren soou ríspida até mesmo para os ouvidos de Grim. O anjo caído permaneceu firme, com um leve sorriso nos lábios.

— Eu não matei você antes?

— Eu melhorei.

Chasan retirou as mãos dos bolsos para abrir os botões do terno caríssimo, expondo seus anéis — três dos que pertenciam a membros do Alto Corvo.

— Sabe que eu não me chamo mais assim, você mais do que ninguém deveria saber, Soriel. Mas que gentileza sua lembrar depois de milênios — suas pálpebras vacilaram em piscares, finalmente se dando conta.

— Grim! — ele sorria de orelha a orelha, como se estivesse reencontrando um velho amigo, mas estava ali o tempo todo. — Você mudou muito desde a última vez que nos vimos...

— Estranho, Chasan, porque você parece ser o mesmo.

— Demorou tanto tempo para chegar aqui, para vê-lo novamente, e você me cumprimenta com trocadilhos. Não estou surpreso, mas certamente estou decepcionado.

Seus passos eram leves e lentos. As longas asas planando ao alto, arqueadas para cima e unidas como se fosse levantar voo. Manteve os passos em direção a Grim, quando foi impedido por Soren, que se pôs na frente.

— Nem mais um passo.

— Querida, o que está fazendo? — seus olhos brilharam, parecia estar se divertindo. Particularmente adorava dialogar, conversas sarcásticas onde ele era o culpado, onde podia ver o rosto de desgosto na face de outra pessoa — a qual para ele não fazia diferença —, mas ainda assim isso deixava seu sangue fervendo, acompanhando por um sorriso de canto. — Ainda guarda mágoas daquela vez? Olha, eu admito, foi estúpido da minha parte pensar que você morreria ao ato de roubar suas asas. Não imagino como essa merda deve doer! — balbuciou para si mesmo. — Se serve de consolo, suas asas foram de bom uso, lhe garanto, cem por cento.

Soren franziu o cenho.

— Já acabou com o diálogo? Você não vai passar.

— Temos o mesmo objetivo aqui. Porque você está tentando me impedir? Vai dizer que Grim não sabe que você também tem interesse nas almas da Escolhida?

— O nome dela é Sky!

— Claro, claro.

Soren fechou os olhos, sentindo o gosto ferroso quando pressionou com força seus dentes nos lábios internos. Sentiu suas mãos suarem quando o peso do olhar de Grim atrás dela se pôs sobre ela.

Grim não proferiu uma palavra ou deu um suspiro sequer.

— Nosso objetivo um dia foi o mesmo, agora eu sei qual é o preço que se paga por querer algo tão grande assim. E acredite, eu experimentei parte disso quando ela me mostrou cada uma das almas, está tudo gravado aqui — ela apontou para sua cabeça, girando a unha afiada na pele pálida da testa. — Mas o jeito que você deseja alcançá-lo vai contra tudo o que eu acredito.

— Estou buscando resultados, minha amiga.

— Eu quero poder dormir à noite.

— Agora isso é um pouco egoísta. Você é tão insana quanto eu.

O ar se tornou tão abafado e denso que eles podiam sentir passar em cada centímetro. Embora em desvantagem e ainda sem sua foice, Grim pretendia lutar. Apesar de ter ouvido coisas naquela noite a qual o deixou desapontado mas não tão surpreso por experiência própria, e também por conhecer sua amiga a tanto tempo, deduziu que ela também estava disposta, pois o odiava tanto quanto ele.

Chasan acendeu um cigarro e as deduções e estratégias de Grim foram por água abaixo quando observou ela andar em direção a ele. Suas unhas agora eram garras e os cabelos negros arrastavam no chão. O ar continuou denso e entrou quente nos pulmões do Ceifador, que tentou-a impedir de fazer o que viria a seguir, tentou agarrá-la para que fugisse junto a ele. A voz dela soou mais alto e as asas abriram, se chocando contra as asas de Chasan.

— Vá Grim. Vá, agora!

Ele hesitou o máximo que pôde antes de dar o primeiro passo para trás e o que se tornaria uma corrida até Sky, mas deixando ela para trás.

Ainda não sentia nada, estava tão entorpecido que não sentia absolutamente nada, já fazia alguns meses que isso não acontecia, desde o lago. Olhou para o céu nublado, sabendo que não choveria por alguns dias, mas não ousou a olhar para trás. Correu até sentir-se ofegante e mesmo assim não parou.

Chegou ao cemitério e andou em passos longos procurando por ela, até encontrá-la desacordada na frente de uma lápide.

Sentou-se em frente à lápide, apoiando a cabeça dela no colo. Retirou seu suéter preto e a cobriu.

Sentiu a respiração leve dela, como se estivesse em sono profundo. Não podia fazer nada, era uma conexão e tinha que deixar ela tomar seu rumo, seja qual for.

Inquieto, desejou que a lembrança fosse curta e que ela pudesse acordar logo. Apoiou suas costas na lápide partida ao meio, enquanto segurava entre os dedos longos uma ou duas mechas do cabelo cacheado dela.

✦✧✦✧

Sky estava se acostumando com aquilo, aqueles sonhos tão vívidos. Nem os beliscões que Grim dava estava fazendo-a acordar.

Sentados no banco de uma grande praça, ela esperava pacientemente a tragédia iminente.

— Dá pra parar com isso? Alguém vai morrer daqui a pouco!

— Mas como eu poderia quando eu, de alguma forma, sei que isso é uma lembrança. Uau!

— Você sabe quando vai acontecer, e eu tenho que acordar. O você fora daqui precisa de mim...

— Sou mais forte do que pensa.

Sky cruzou os braços, dando tapinhas na mão dele quando ele tentava beliscá-la.

Ela o observou de canto. Deduziu que estava em meados dos anos setenta em algum lugar de Londres. Aquela versão dele mantinha os cabelos grandes, como ela conhecia, e uma barba rasa a qual ainda não estava familiarizada. Vestia um sobretudo marrom-escuro, acompanhado com camiseta branca e calça preta. O broche da foice agora era visto perto do bolso da camiseta, ao lado dos botões abertos de maneira discreta, se pudesse fazer um esforço, poderia ver mais algumas coisas. Lembrou que mais cedo tinha notado como ele gostava de deixar os botões abertos. Se odiou por cair na armadilha toda vez.

— Não tem nada pra ver aqui, Sky! — ele colocou as mãos no peito, sentindo-os. — Realmente, não há nada aqui.

Ao invés de suas bochechas corarem, sentiu todo seu corpo esquentar de vergonha.

— Por Deus, eu te odeio.

— Sério?

Ela não respondeu, fez beicinho e cruzou as pernas, afundando no banco, tentando relaxar.

— Se tem alguma coisa que te assusta, o que é? — ela perguntou.

— Você — ele respondeu depressa.

— O que? Por que? — franziu o cenho.

— Não tenho certeza se você entende quanto poder você tem sobre mim — ele se virou para ela. — Você sabe porque está aqui? Viva?

— E se eu não tiver uma resposta? Você quer que eu invente uma?

A forma como ele sorriu antes de olhar o relógio de bolso lentamente foi presunçoso. Sky suspirou.

— Porque você perdeu sua foice.

— Eu fiz o que?! — sua face mudou totalmente, apavorado ela diria.

— Hum, atualmente você não parece tão preocupado assim.

— Oh, Sky, acredite, eu estou sim. Não posso ceifar sem ela, assim eu não estou exercendo o meu dever, e assim eu irei definhar.

— Eu não entendo, você é a morte, você tem que existir para a vida continuar, não é isso?

— O ele... Quero dizer, eu, não lhe contei? Se eu não fizer o que tenho que fazer aqui, a foice vai para outro ser que tenha um tipo de energia compatível com a minha. E acredite, isso já aconteceu uma vez por um curto período de tempo. Assim, a função de ceifador não dependeria exclusivamente de mim. O manto de ceifador passaria. Você sabe quem foi que roubou minha foice?

— Chasan.

— Chasan?! — ele arregalou os olhos. — Aquele anjo caído depravado!

— Então você é imortal, mas sua personificação é igual a qualquer outro ser humano. Você não morre, mas perde os poderes?

— E paro de existir. Não me pergunte como isso acontece, eu não quero testar para descobrir. — Grim se pôs de pé. — Dizem que só se vive uma vez mas não acredito nisso.

Ele retirou sua foice, e não era como se ela tivesse vendo pela primeira vez, mas ter seu vislumbre novamente fez seu coração disparar.

Ela não chegou a ver como aconteceu, mas percebeu uma movimentação estranha do outro lado da rua. Houve um acidente, uma mulher que aparentava ter trinta anos, e só então ela processou tudo, como no primeiro dia. Do mesmo modo, como um trabalho corriqueiro, ele levou a fina linha da vida com paciência e calma. Algumas pessoas se aglomeravam para ver. Era tão jovem... Suas suspeitas se confirmaram ali, as almas são realmente de pessoas aleatórias, seja qual ela tenha ligação ou não.

Grim guardou sua foice como alguém fecha um guarda-chuva e se pôs na frente dela.

— Sabe o que acontece agora, não é?

— Eu acordo.

✦✧✦✧

Todas às vezes a sensação era como acordar de um sono profundo, após ter sonhos que só o subconsciente poderia reproduzir. Ainda sentia seu corpo pesado e quente. O coração disparou no peito que subia e descia com rapidez, fazendo-a levantar bruscamente. Sentou e sentiu a grama fria na pele. Olhou para trás e Grim estava lá, parado. Seus olhos escuros sobre ela.

— Grim?

Ele pareceu voltar a si quando elevou seu olhar para ela. Sky dirigiu suas mãos até o rosto dele, segurando seu rosto com ambas, como se fosse uma moldura.

— Inspire por sete segundos — ela disse. — Segure por quatro, expire por sete.

A mistura de sentimentos instalando-se em seu intestino era difícil de identificar. A dor era como um aperto de músculos, mas ele não estava tenso, não mais, não quando tinha Sky ali com ele. Quando levou a própria mão fria ao rosto, descobriu que estava molhado.

— Eu sempre me esqueço de quem eu sou — ele sussurrou. Sky não entendeu, nunca tinha o visto daquele jeito, parecia distante.

— Onde está Soren?

Mas ele negativou com a cabeça. Demorou um pouco até juntar as palavras.

— Foi a escolha dela. Ela sabia que eu faria tudo pra pegar de volta o que é meu. Ela também sabe que se ele conseguir chegar até você, está tudo acabado.

— Mas como?! Grim, onde está Soren?

— Não entende? Nós dois contra ele deixaria você sozinha. Você é a missão importante aqui. Ela preferiu nos dar tempo.

Sky se levantou, andando de um lado para o outro. Podia sentir o ar seco da manhã rasgando até seus pulmões, o sol morno já se levantando, as mãos trêmulas. E era exatamente por esse motivo que se sentia inútil.

— Ela... — cada sílaba relutou em sair dos seus lábios. — Morreu?

— Eu não sei... Ela é forte, mas a foice pode ser usada para ferir seres fortes como ela. — ele se levantou, engolindo seco. — Nós temos que continuar.

— E que escolha temos? É estupidez estar atrás de duas coisas ao mesmo tempo, sendo que uma delas quer me matar mas também é aonde queremos chegar. Isso é loucura, até você sabe disso.

Já tinha passado pela sua cabeça a possibilidade dos dois irem por caminhos separados, quebrando a promessa que fez. Ele atrás de Chasan e ela pela sua missão, mas descartou qualquer possibilidade que não incluísse ele. E sim, seria egoísta a esse ponto.

— E que escolha nós temos, Sky? — ele repetiu sua frase. Deu um sorriso fraco que não pareceu realmente um sorriso. — Como chamamos isso, mesmo?

— De imprevistos previsíveis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.