A Million on My Soul

11 Morte à Fina Linha da Vida


De modo preguiçoso, o talher de prata ornamentado não pareceu mais convidativo assim, muito menos a torta de morango, agora no final. Tinha comida duas daquelas, assim agia quando ansiosa.

É cedo, poderia estar dormindo tranquilamente, no entanto, preferiu ajudar Joy na loja. A confeitaria contava com alguns bons clientes fiéis de costume, só que ela mais comia do que ajudava, não conseguia se concentrar, assim todo o trabalho acabou nas costas de Joy.

Cinco dias quase prolongados se passaram. Tinha aproveitado, tinha conhecido tudo, estava tão cheia de experiências, mas é chegada a hora. Se perguntava o que viria. Na verdade, não fazia ideia se iria acordar. E se ela morresse em alguma situação, ficaria presa para sempre naquele mar de memórias? Ou até mesmo vagando em um limbo? Sentiu um ligeiro arrepio subindo os braços ao pensar em tamanha tortura. Saiu do transe quando o garfo caiu sobre a porcelana.

Se retirou da loja esticado o corpo, respirando o ar fresco que a manhã ofereceu. A inquietude da ansiedade e sua mente com muito o que pensar poderiam ser sentidos ao longe. Como forma de esconder, cruzou a esquina. Mas o forte impulso da colisão de corpos fez com que quase desse de costas numa parede. Um olhar raro caiu sobre ela.

Eles são dois, um homem e uma mulher. Ninguém protestou, embora Sky tivesse ficado em alerta. A mancha vermelha por cima do suéter se espalhou como água pura, ele claramente ferido, de cabeça baixa, desacordado, apoiando-se nela.

A mulher a observou, sendo tão rápida quando uma ventania surgiu e fez somente um movimento até tocar-lhe de leve o braço.

— Isso tudo é uma lembrança? — a mulher perguntou.

Uma sensação lhe tomou no lugar onde ela tocara. Notou suas características marcantes, nunca tinha visto nada igual. Sem nenhuma explicação, não conseguia olhá-la nos olhos.

— O quanto você sabe sobre isso? — Sky retrucou com cuidado, olhando para o ferimento do homem. Começou a sentir-se mal, então se concentrou nos lábios dela.

— Isso está escrito na profecia. Apenas quem abre a fresta e seres são humanos conseguem perceber — a voz repleta de serenidade. Notou algo mais. — Você é muito bondosa, está preocupada com ele, percebo pelo seu tom de voz e quando desvia o olhar. Ele vai ficar bem.

— Essas lembranças estão na profecia? — perguntou logo após engolir seco.

— Está acontecendo agora, não está, Sky? Você está desmaiada em algum cemitério.

Claro que lembrava, só temeu por ela saber disso.

— Como sabe meu nome?

— Sabemos quase tudo sobre você, a escolhida. É um grande título que carrega.

— E quem são vocês?

A mulher limpou a garganta.

— A princípio, me perdoe pela hostilidade, mas carregá-lo é realmente cansativo. Eu sou Amanyel e ele chama-se Aithen. Somos anjos, mas não como aqueles que está acostumada. Estamos dentro dessa lembrança, e isso quer dizer que a profecia está se realizando nesse momento.

— Bem... — Sky não terminou a sentença. Piscou duas vezes, esboçando quase reação nenhuma.

— Pensei que isso te assustaria.

— Poderia ser como você esperava, se o anjo do qual eu estou acostumada não estivesse atrás de mim! — revelou.

— Quem?

— Chasan.

Ela percebeu Amanyel segurando a respiração por alguns breves segundos.

— Oh, então Chasael vive... — as sobrancelhas do anjo se tornaram curvas. A mão esquerda que passava pela cintura de Aithen o apertou.

— Chasael?

— Não falamos o nome de caído. Para nós, ele foi Chasael.

Com certeza tinha sido uma surpresa. Desejou perguntar mais sobre ele, suas motivações, porém, percebeu a agitação de Amanyel.

— Escute Sky, eu senti algo diferente, e temo que outros seres também. Agora sei que isso é isso e de alguma forma fomos atraídos para cá. A esse ponto, você sabe e tem total consciência do que existe no mundo, e isso é meramente uma pequena ponta de algo maior — Amanyel suspirou. — Acredite, nós somos bons, mas nem todo ser que encontrar dentro de cada lembrança poderá ser assim. Chasael existe aqui também, por isso tome cuidado. A partir deste momento, nossos encontros se tornará cada vez mais frequentes, mas não podemos demorar muito por perto, consequentemente outros virão. Seja forte, com certeza vamos nos encontrar novamente — um sorriso amistoso e verdadeiro tomou conta dos lábios dela. Se despediu, afastando-se em passos longos, imediatamente se misturando por entre as pessoas. Sky ainda pôde sentir seu toque na pele. E em nenhum momento conseguiu olhá-la nos olhos. Por dentro, reconheceu que não deveria.

Seu corpo estremeceu. Voltou o mais rápido possível para dentro, se encolhendo. Joy, que naquele instante procurava por ela, retirou um pequeno pedaço de papel dos bolsos. Ela observou Benjamin logo atrás, de mãos dadas com sua irmã e Ruby no colo.

— Sky, será que você poderia me ajudar? — entregou uma lista de compras, mas não reconhecia metade das coisas escritas no papel. — É bastante, Benj irá com você.

— Então vamos! — chamou apressada, saindo ainda inquieta. Benjamin acenou com dificuldade pra ela, dado que carregava duas pequenas maletas. Acompanhou seus passos logo atrás.

— Eu preciso levá-las primeiro até Carrie — avisou, mas não houve respostas.

Naquele momento, a cada passo dado, sua mente se distanciava. Tanto que não percebeu a mãozinha de Amelia segurando seu vestido, querendo atenção.

Sky.

Sky!

Vozes soaram como uma dor de cabeça.

— Sky, o caminho é esse — avisou a pequena.

Balançou a cabeça, piscando. Se desculpou duas vezes pela falta de atenção.

— Todos ficam perguntando se está bem, e eu sei como isso é tedioso, mas se não estiver, posso levá-las e ainda fazer o que a tia Joy pediu sem hesitar — sugeriu Benjamin.

— Esqueça isso — ela sorriu. — Não há problema algum.

Quis dar colo à Amelia, a qual já portava um bom tamanho, assim decidiu fazer diferente, uma coisa que seu pai costumava fazer com ela. Colocou-a sentada em cima do ombro, o que a agradou. Benjamin olhou torto.

O sol agradável apareceu, assim seguiram por uma rua com sombra, bastante calma, cheio de árvores e belas casas. Notou a brisa acolhedora movendo-se entre o vestido. Esqueceu de tudo e se sentiu-se bem.

— É alto. Nunca ninguém me colocou aqui — Amelia riu. — Poderia fazer com a Ruby também, mas ela só faz dormir.

— Mas ainda é bem cedo. Perdeu o sono?

Amelia afirmou.

— A casa da Sra. Carrie é enorme! — fez gestos com as mãos. Sky achou uma gracinha. — Mamãe diz que sempre que vou sair, fico ansiosa e não consigo dormir.

— Você me lembra de mim mesma.

— E isso é ruim? — perguntou olhando pra baixo.

— Você me conhece direito? Claro que é!

Humpf, eu não acho... — deu de ombros, apoiando seu queixo no topo de sua cabeça.

Com o balanço da caminhada, não demorou cinco minutos pra ela cair numa soneca.

— Você leva jeito com ela — começou Benjamin, e Sky notou a entonação repleta de ciúmes. — E durante esses dias até parece que ela gosta mais de você do que de mim. Parece até que se conheceram antes.

— Isso se chama responsabilidade — contornou. — Se você pelo menos se preocupa com algo, assume a responsabilidade por isso, e eu quero fazer tudo. Logo estarei indo embora.

— Pra casa?

— Quase, mas alguém importante me espera em outro lugar.

Seja o que significasse àquela resposta, Benjamin achou melhor se contentar.

Atravessaram a rua, indo até a avenida principal e não pôde deixar de admirar os carros antigos. Benjamin a conduziu até uma vila e só pelo olhar percebeu a expansividade. Se imaginou vivendo em uma delas.

Chegando a mansão, deixaram as meninas com a própria Carrie. Não necessariamente entraram, de modo que não houve demora. Antes de ir, ela deu um longo abraço nas duas.

Durante o retorno pra casa, foram entrando em algumas lojas, comprando o que mandava a lista. Ambos saíram com sacolas pesadas de massa de pão, bolo e açúcar.

Meio dia novamente, avisava o sino da catedral. E como um dia típico de festividade, as ruas começaram a ficar bem agitadas. Ouviram por alguns burburinhos que haveria grandes manifestações nas ruas, então apertaram mais os passos. Benjamin nunca tinha visto uma mulher carregar tanto peso e ainda assim andar ligeiramente — a não ser sua mãe.

— Você é muito misteriosa. Surgiu de repente em nossa porta e se apegou conosco — comentou disposto a quebrar o clima de apreensão.

Sky tem total consciência de que ele é um garoto esperto. Se soubesse das coisas que ela faz parte, ou até mesmo que a pouco tempo conversou com dois anjos... Bufou em descontentamento por não poder dar com a língua nos dentes.

— A vida é cheia de mistérios — disse. Minha mãe sempre dizia que é isso que a torna interessante. É claro que minha mãe morreu quando eu tinha acabado de completar vinte anos e se transformou em um mistério, então não sei se ela é a melhor fonte de inspiração.

Benjamin se sentiu estúpido.

— Oh, eu não sabia disso, sinto muito.

— Todo mundo perde alguém em algum momento — ela esboçou um sorriso no canto da boca. — O importante é não se perder.

Eles se encontravam quase de volta. Benjamin sentiu que poderia se abrir com ela, pelo menos um pouco.

— Minha mãe morreu logo após meu nascimento e meu pai seguiu em frente, se casando novamente, com Christie. Os dois tiveram a Amelia e ela foi a coisa mais feliz que já aconteceu. Ele se foi durante uma guerra, diante disso, Christie cuida de mim. Às vezes acho que sou um fardo pra ela.

Desde tenra idade que ela mantém o pensamento de que "todos nós precisamos de alguém pra nos apoiar." Morremos sozinhos, mas em vida não precisa ser assim, embora passou por uma fase que esteve indo por esse mesmo caminho. Ele não enxergava o que de fato acontecia, mas ela sim.

— Tenho certeza que você não é um fardo pra ninguém. Não entende? — ele negativou. — Eu posso estar aqui a pouco tempo, apesar disso, está mais que claro que Christie te ama e te vê como filho. Porque acha que ela cuidou de você esse tempo todo? Fardo? Talvez ela só não saiba como falar com você, e eu também tenho certeza que você não dá o espaço que ela precisa, dá?

A última pergunta o atingiu com força, e a resposta é não. Ele passava a maior parte do tempo com os amigos, a evitando e fazendo de tudo para ser independente, que nunca percebeu que o que faltava era um pouco de dependência.

— Ah, droga. Eu não parei pra pensar dessa forma, o que estou fazendo afinal? — ele sentiu uma certa inquietação, comprimiu os lábios.

— Quer um conselho? Fique perto de quem você ama como se fosse a última vez que você estaria vendo eles.

Benjamin só assentiu. Um bom conselho, na verdade, um ótimo conselho. Queria que alguém tivesse dito as mesmas palavras durante aquele ano. Talvez as coisas acontecessem de maneiras diferentes. Ou não, já que acreditava em destino.

Chegaram na confeitaria da Joy, empilhando tudo com cuidado na dispensa. Ela já estava fechando, junto com outras lojas e casas da rua. Soube dos boatos, explicou que seria uma daquelas noites perigosas e que teriam que manter tudo trancado.

No caminho de volta pra casa, Sky perguntou se Amelia e Ruby ficariam bem, tendo total garantia por parte de Joy que elas estavam bem protegidas. Mesmo assim, não deixou de pensar nas duas.

Olhando ao redor, todas as janelas e portas trancadas das residências de toda vizinhança fez um frio na barriga surgir. Joy chamou até Christie abrir. Seu rosto pareceu reconfortante.

✦✧✦✧

No final da tarde, os preparativos para uma pequena celebração terminavam de sair do forno, feitos por Rosalie. Christie permanecia atenta aos últimos detalhes do vestido que prometeu à Sky — cor branca e certos detalhes em creme, chegava aos pés, de mangas longas, e um decote confortável com três grandes botões. Ela criou o vestido do zero, é a melhor no que faz e não restou dúvidas, um trabalho realmente impecável. Um brilho brotou dos olhos acastanhados, contudo, seu semblante logo mudou quando lembrou que sua obra não era valorizada como deveria. Mas Christie disse uma vez e repetia: não iria discutir por isso.

Em frente à lareira da sala e entre risos e drinks, uma noite fria acompanhou-a para fora, sentando-se no balanço do jardim. A lua cheia entreteve as estrelas iluminadas e a grama alta carregava seus pés. Desejou profundamente mais momentos como aquele.

Levantou, passando por entre as roseiras, notando uma plantação incomum de flores da mesma coloração. Todas lírio-da-aranha-vermelha, sendo uma flor originária da China, muito incomum naquela época do ano e sua favorita desde pequena. Por um breve momento, toda história por trás arrancou-lhe um sorriso bobo, desacreditada na ingenuidade e no destino diante dos olhos. Destino, dado que novamente, não tinha tempo para coincidências.

Os arbustos chacoalharam, e uma leve silhueta adentrou a floresta. Deduziu ser Benjamin, o qual desapareceu pouco depois do anoitecer.

Por pura curiosidade, decidiu segui-lo. Caminhou em passos longos, um pouco afastada dele. Ainda tentando não perdê-lo de vista, acabou se perdendo. Voltar por onde veio não era mais possível pois as folhagens sempre pareciam as mesmas, algumas cobertas com finas gotículas de água, algumas secas e sem vida, e só aí sentiu frio.

No meio do silêncio, sua respiração instável se tornou audível. Mas como uma boa menina que passou bastante tempo no campo, seguiu o solo, e logo uma pequena e quase oculta trilha. Não deu para calcular quanto tempo passou tentando achar uma saída, ou uma entrada. Ao longe, uma claridade avermelhada chamou sua atenção, seguindo em meio ao desespero. Gritos soaram ao longe, e não era os seus.

Tudo isso, todo esforço, só para se dar ao meio do caos, quase no ponto central da cidade. Tinha começado. Os boatos foram verdadeiros. O terror havia caído sobre a cidade, e como obra da lembrança, ali sua presença contava.

Observou tudo atrás de uma árvore, apoiando-se nela. Sentia que poderia cair a qualquer momento e os olhos lacrimejaram, não sabendo dizer se era choro ou toda aquela fumaça, acompanhado do cheiro quase inesquecível de sangue fresco.

Há de fato manifestações na rua. Junto dos protestantes suplicando por igualdade, muitas pessoas feridas, outras no auge da sua loucura, saqueando e não se preocupando com mais nada, seguindo a anarquia.

No entanto, assim que tomou coragem para fazer qualquer movimento e ao menos tentar voltar, ou acordar, reconheceu um rosto familiar, com as mãos nos bolsos, bem ao centro da multidão. Com uma mudança extraordinária — um ar de excêntrico e muito charmoso, mais alto, com aquele olhos afiados e íris negra como azeviche, cabelos grandes como ela conhecia, um sorriso sagaz nos lábios e pela primeira vez com suas asas em seu auge — mas teve certeza que era ele. Quando quase deixou um grito sair, tapou a boca com as duas mãos.

Gostava da palavra "contemplar" e foi exatamente isso que fez, de cima a baixo. As asas bonitas, arcos dobrados firmemente contra as costas; penas fluindo igual a seda, erguidas como se fosse um animal prestes a dar o bote sobre a terra molhada de sangue. Brilham como a noite ao luar. Um terno completamente preto o moldou, sendo o único detalhe distinto a pequena corrente do broche entre os botões. Um broche com uma pequena foice, ela logo pôde reconhecer. A mesma que ele lhe presenteou aquele dia, o qual fez questão de colocá-lo em seu pescoço. Passou a mão lentamente onde o colar deveria estar.

— Você não deveria encarar as pessoas assim — a voz saiu ríspida e autoritária. Ele já estava em sua frente. — Consegue me ver?

Sky afirmou balançando a cabeça.

— Você sabe quem sou eu? — ele recolheu as asas.

— Sim — teve coragem de olhá-lo nos olhos, só sentiu as bochechas quentes. Sentiu as mãos quentes, assim como o fósforo que um homem mascarado acendeu, ateando fogo em uma casa.

Tal clamor começou a se afastar, ainda que gritos e choros estivessem altos, e nenhum dos dois disseram uma palavra. O silêncio o qual ela se acostumou, sempre quando ele se encontra por perto. Os olhos voltaram a lacrimejar. Com dificuldade pra respirar, tossiu.

— Venha — ele ofereceu o braço.

— Não, não, eu tenho que voltar — hesitou, olhando de relance sobre seus ombros, para a destruição ao seu redor.

— Ora, não tem medo de mim mas tem medo do fogo.

— Mas...

Ele ofereceu novamente o braço direito. Então ela grudou nele como se fosse sumir a qualquer momento.

— Enquanto estiver assim, em contato direto comigo, nada poderá machucá-la — avisou. — Não é todos os dias que alguém é capaz de me ver fora da... hum... data.

Enquanto andavam pra longe da multidão, ela foi capaz de ouvir o som da corrente do broche acompanhar a caminhada. Ela vestida de branco creme e ele de preto. Poderiam ser um belo casal clichê, indo ao próprio casamento durante o Ano Novo, enquanto a cidade entrava em guerra. Mas isso em outra história, a qual ninguém poderia descrever tão bem se não tivessem vivido o momento.

O silêncio foi quebrado quando ele pigarreou.

— Hum, eu esperava que você tivesse mais perguntas.

— Ah, sim, mas não pra você. Por que eu perguntaria algo quando eu sei que não vou conseguir uma resposta direta de você, afinal?

Pararam de andar brevemente, então ele deixou uma alegria adorável transparecer, e foi meio estranho vê-lo sorrindo. De fato, ele a intimidava. Apesar disso, continua o mesmo, e embora já bem tarde, prosseguiram em passos lentos, como se fossem donos de todo tempo do mundo.

— Porque você é assim? Porque está aqui? — questionou. Depois se deu conta de que a pergunta foi precipitada.

— Eu estava aqui quando a primeira luz apareceu e iluminou tudo, e eu ainda estarei aqui quando essa mesma luz piscar para fora do universo, mergulhando tudo na escuridão — Sky teve a impressão que ele pareceu levemente irritado, ainda assim, não foi capaz de ler suas emoções. — Não finjo ser outra coisa. Este sou eu, tudo isso. Talvez isso seja demais para a maioria das pessoas, mas isso não é problema meu. Mas gosto de pensar que é meu trabalho mostrar aos jovens como a vida é difícil e bela.

— Inevitável — ela murmurou.

A noite se seguiu fria, mas por onde passavam, a atmosfera gélida os acompanhavam. Uma rua sem saída mais pobre do bairro foi a deixa. Os pelos do corpo se levantaram, transformando-se em um calafrio, e se encolheu sob ele.

— A propósito, possuo vários nomes, mas me chamam de Grim.

— Sou Sky.

— É um ótimo nome. Está com frio?

— Estou, e é estranho, isso parou de acontecer por um tempo.

— Não se preocupe, já vai passar.

Grim olhou o relógio de bolso: exatamente onze da noite.

Parados em frente uma casa, a porta velha de madeira mostrou a falta de condições, embora sobre o silêncio, os pequenos estalos de uma lareira aconchegante podiam ser ouvidos.

Um homem caucasiano chegou às pressas, de alta estatura, com roupas sujas de vermelho vivo. Entrou direto na casa, batendo a porta.

— Que mal educado!

— Não, ele não nos enxergou de fato. Mas não deixa de ser desrespeitoso.

Ainda juntos, Grim bateu duas vezes. Sussurros foram ouvidos através da fina porta até ser aberta. O homem atendeu.

— Sei que estou incomodando, mas acho que deixou cair isto — ele retirou o relógio de bolso e o entregou.

— Oh! Muito obrigado! Isso realmente é muito importante — aquele sujeito suava com sua voz trêmula.

O Ceifador estendeu a mão.

— Me chamo Grim.

— Desculpe, tenho sangue nas mãos.

— Ah, eu também.

Então ele apertou com firmeza, embora o sangue já seco não fizesse diferença.

— Receio que tenha algo pra mim hoje — sua voz foi a mais serena possível, Sky logo entendeu.

— Perdão?

Grim o avaliou, olhando diretamente nos olhos, através da íris, através dele. Enxergou toda sua jornada, sua primeira fala, de quem era todo aquele sangue e considerou seu último momento, revelando-se em silêncio. O rapaz cambaleou para trás, deixando a porta abrir com força. Um grito suave escapou debaixo da cama.

— Mas... Como?

— Você não tem ideia de quem eu sou, sabe? De qualquer forma, não seria sábio para alguém como você contemplar minha verdadeira forma. O rapaz começou a chorar, negando a todo momento, retraindo-se no canto.

— Com licença, senhor, acho que houve um mal-entendido... — ele murmurou para O Ceifador, o suor pingando do rosto. — Não creio que hoje é o meu dia. Ainda tenho muito pra viver e...

— Não é que bonito, Sky? — sua animação foi evidente. — Ele me chamou de senhor!

Naquele instante, ele desfez o braço dela, tomando a postura de sempre. Ela presenciou seu amigo se tornar algo que nunca tinha visto antes. Asas compridas saltaram, quase atingindo o teto quando ele entrou bruscamente dentro da pequena residência. O homem caiu perto da cama, de onde veio o barulho.

Grim se abaixou, fitando um par de olhos verdes assustados. Uma garota aparentando ter dezesseis anos tinha sua roupa rasgada e suja. Com persuasão, ele a convenceu sair. Ainda encolhida, tentou cobrir o seio desnudo. Sky observou tudo com dó, ela ainda é filha de alguém.

Repugnância, raiva e todos os seus sinônimos por aquela pessoa que chorava no canto não faltou. Um estado miserável para um homem miserável.

Grim a cobriu com seu paletó, tendo certeza de abotoar todos os botões.

— Está frio esta noite, e eu ouvi que poderá ficar ainda mais. Não fique sozinha, vá pra casa.
A garota saiu correndo, sem olhar pra trás.

Novamente, o silêncio.

— Então... — O Ceifador suspirou. Chacoalhou as asas e uma pena planou até cair aos pés de Sky, que continuava imóvel junto à mesa. Ele buscou um cigarro do bolso e acendeu no fogo da lareira, sentando-se de pernas cruzadas.

Atordoado, o sujeito se levantou.

— Saiam da minha casa!

— Por que você me teme? Não sabe que a morte não é o fim? Sei que está mais preocupado com o lugar para onde vai — disse, dando ainda mais alusão à mente conturbada.

— Eu disse...

Não chegou a completar a frase, porque um estouro foi ouvido em claro e bom som, seguido de um zumbido nos ouvidos da garota. Paredes manchadas de carmesim, como se ainda fosse Natal, respingos quentes sobre ela.

Uma mulher surgiu em pé na entrada, acompanhada pela aglomeração de pessoas protestantes. Armada até os dentes com uma espingarda.

— Isso foi por tê-lo matado na minha frente! — gritou. Logo depois entrou, roubou o relógio de bolso, e não poderia sair sem chutá-lo — E isso é pelo resto!

Fugiu às pressas deixando a arma. Sky sentiu o estômago embrulhar.

A morte se pôs de pé, apagando o cigarro. Do bolso, retirou outro relógio.

— Bem na hora.

Retirou também uma pequena cápsula. Da cápsula, se tornou algo a qual ela teve a sensação de estar procurando ao longo de toda sua vida: a foice. Ocorre que foi a primeira vez encontrando-a — maior que ele, afiada, escuro cintilante tomada por um brilho próprio, como o sol.

Aconteceu de maneira rápida. Grim segurou com as duas mãos, e ela conseguiu ver uma pequena sombra iluminada. Assim atravessou o ar com a lâmina, cortando por fim a fina linha da vida.

Retraiu as asas quando colocou a foice de volta no bolso.

— Sua morte é apenas azar, é claro. — disse. — As ruas são tão perigosas e a violência aleatória acontece o tempo todo. Normalmente eu não faço todo esse terror psicológico, mas até tenho feito bastante, humpf.

— Eu... — a garganta ardeu quando engoliu seco. A visão pareceu turva, sentiu algo. Queria ir pra casa, acordar o mais rápido possível. — Eu... — inspirou fundo, pegando a arma do crime — Eu tenho que voltar.

— Espere — ele pediu, mas ela já tinha se misturado com a multidão. Após andar todo caminho de volta, a encontrou na entrada de uma rua com a arma em punho.

Sky não pensou em mais nada, mas lembrou da voz do pai, dizendo que quando apontasse pra valer a primeira vez, não teria volta. A verdade é que ela insistiu em aprender, e foi uma ideia boba e escondido de sua mãe.

Sendo abafado pelos gritos e som do horror, ouviu fogos ao longe, constatando meia-noite, o começo do dia seguinte. Seu aniversário, aniversário dela. Mãos úmidas devido ao nervosismo, apesar disso, em nenhum momento soltou aquela arma, com exclusivamente uma munição.

Embora a porta totalmente aberta fosse incomum, assim que entrou teve seu veredito. Olhos rápidos correram em três direções: na sala, onde um homem de costas segurava uma arma. Na cozinha, quando ouviu gritos abafados. E a sala de jantar, com uma poça de sangue se formando no tapete. Do outro lado, conseguiu ver Benjamin escondido atrás de uma pilastra, fazendo sinal para que ficasse em silêncio. Olhando para o chão, ele mordeu os lábios com força até ficarem vermelhos.

O Ceifador chegou logo atrás, mas não pôde intervir em nada, apenas ficou parado fora da casa, na rua agora deserta.

Descalça, abaixou-se, entrando sorrateiramente até próximo cômodo. Encontrou Rosalie em pé, com uma faca em punho e suja de sangue. Sangue do homem deitado de bruços. As demais com as mãos presas, machucadas. Seu estômago embrulhou novamente. Não suportaria mais.

Correu de volta até a sala, e agindo sem pensar, chamou atenção do homem.

— Saia desta casa, porra! — gritou com o fôlego que sobrara — Antes que a vítima de crime violento seja você!

Ele apontou para ela, com o dedo diretamente do gatilho se Benjamin não tivesse agido por trás. Dois tiros foram ouvidos até criminoso largar a arma, já sem vida.

À medida que prantos sobrecarregou o ambiente, Sky desabou de joelhos, sujando o que restou do impecável vestido que lhe fora dado com tanto carinho, não sabendo ao certo distinguir de quem era o sangue. Foi insuportável.

— Eu não quero vê-la — sussurrou sozinha.

Benjamin, Joy, Helen e Margaret choraram ao redor do tapete, na sala de jantar. Rosalie entristeceu na cozinha.

— Deus, isso dói — sentiu que iria apagar.

Como forma de respeito, só então Grim entrou, fazendo o que fora designado a fazer. Somente ela pôde vê-lo, chamando-o. Ele coletou as almas dos homens, e por último a de Christie. Assim que terminou, abaixou-se na frente dela, tocando-lhe com ternura as bochechas.

— O que acontece agora? — ela perguntou finalmente.

— Você acorda.

O oxigênio, preciosidade fundamental à vida, voltou aos pulmões, doendo mais que um tiro. Apertou com força a primeira pessoa que enxergou: Grim. Aquele o qual ela já sentia-se habituada, que a manteve no colo o tempo todo.

Ela não teve fôlego para pronunciar nada, mas o sol morno da manhã e o céu azul gritou na sua cara. Se passaram nada além de horas, enquanto lá foram dias. Ininterruptos dias do passado.

O coração ainda apertado e agitado fez Sky soluçar enquanto chorava. Como um sonho qualquer, podia sentir tudo, mas como um sonho incomum, podia lembrar-se de tudo.

Grim a envolveu nos braço quentes, Soren a cobriu com as asas, e mesmo assim ninguém se atreveu a dizer uma palavra.