A Million on My Soul
12 Morte ao 232
O céu permanecia cinzento e o ar frio, mas sem uma pitada de chuva, simplesmente lavando a terra com uma solene sensação de silêncio. Nenhum pássaro cantou hoje. Não havia som de pessoas nas proximidades, somente a barista entediada atrás do balcão e um rádio tocando jazz no mínimo. Era quase como se o mundo dormisse, além dele, sentado na última mesa perto da janela. Na xícara, bebia café latte, quase no final.
A porta de entrada anunciou a chegada de mais alguém pisando duro até estar na frente dele. Ao vê-la, ele cruzou as pernas lentamente.
— Eu não acredito nisso — ela gritou.
— Soren, seja lá o que você queira falar, eu peço que fale baixo.
— Você ficou louco?! — dessa vez sussurrou, sentando-se no confortável sofá junto à mesa.
— Oh meu amor, e que loucura poderia ser essa?
Ela respirou tão fundo que seu interior doeu.
— Como que você foi perder sua...
— Posso anotar o pedido? — uma mulher baixinha com um bloco de notas apareceu.
— O mesmo que ele. — Soren o olhava nos olhos. — Um latte — forçou sotaque. Quando a atendente saiu, bateu com força na mesa.
— Isso já aconteceu outras vezes, não? Novamente na mesma situação.
— O que eu quero saber é como! Como você perde isso tão fácil?!
— É como perder as chaves de casa, você não faz por querer. Simplesmente acontece. Queria saber o motivo de estar tão irritada.
— Eu tento não estar, mas você sempre fica calmo demais, mesmo sabendo que se não encontrá-la logo, vai ficar cada vez mais fraco, até isso se tornar incompatível com você e passar para outro alguém.
— Está preocupada com as almas? — deu seu último gole no café.
— Me diga você, eu já morri uma vez, você é O Ceifador.
A atendente voltou com a bebida e se retirou. Soren pôde sentir o aroma dos grãos frescos em sua frente, mas só colocou as mãos ao redor da xícara, aquecendo-as.
Novamente, o soar do sino chamou atenção dos dois. Alguém que ambos conheciam.
— Ah, ótimo — protestou. — Amanyel...
— Ótimo dia pra você também, Soriel.
— Meu nome não é mais ess...
— Grim — atropelou sua fala, a ignorando — Porque Chasael está com sua foice?
— Chasan? Ora, nem eu poderia saber dessa.
— Espera, o que?! — o anjo caído quase deixou sua xícara vacilar.
— É, Soriel, eu não gosto disso, de verdade. Embora descobrir uma coisa assim por Mavel e Salaziel enquanto ficavam de zombaria com você, Grim, que a propósito não está sabendo de nada, tenha me chamado atenção. E ninguém consegue encontrá-lo. Ninguém.
— Mavel e Salaziel? — Grim tentou buscar os donos dos nomes no fundo da mente.
— Maverick e Salazar — Soren o ajudou. — Lembra? Todos nós andávamos juntos.
— Oh! — ele levantou o dedo indicador. — Vocês realmente deveriam parar de mudar os nomes depois que caem.
Amanyel fingiu não ter ouvido uma palavra do que ele disse. Cruzou os braços somente.
— Grim, eu te peço, tire isso das mãos dele o mais rápido possível. Pelo bem de todos nós.
Amanyel deu as costas e saiu, mas não antes de deixar uma nota pelo café que o anjo caído havia pedido. Ela deu de ombros.
— Você possui milhões e ninguém reclama disso — Soren retrucou ainda sobre o assunto anterior. Balançava os pés, apertando o punho com força, de forma que as unhas afiadas fincassem na pele. Doía, mas não tanto quanto o que ele um dia fez com ela.
Grim percebeu e pigarreou.
— Sabe, você se acostumou a se machucar e a felicidade a assusta.
— Eu não preciso da sua pena, Grim, preciso de algumas facas e o endereço certo. Isso vai se transformar em um show de merda muito rápido, e eu quero participar dele.
— Ah, Soriel... — sua voz mantinha um tom suave. — Um bom amigo não deixaria você fazer isso, mas eu sou um amigo terrível e digo que vá em frente.
— S-o-r-i-e-l — soletrou letra por letra. Soren soltou a fumaça do seu cigarro, distraída com os pés dentro da piscina.
— Hum? O que disse?
Grim negativou.
— O céu está bonito hoje — deitou o corpo no chão, ainda com os pés na água. Balançou até respingar em Soren.
— Você vai começar a ficar inspirado no começo da manhã?
— Pode apostar que sim.
Soren apagou o cigarro.
Deitado com a cabeça em cima dos braços, tentou e tentou pensar em outra coisa. Um udon, talvez? Com o caldo bem quente... Seu estômago lhe deu a resposta. Ou em como as nuvens se distanciavam rapidamente umas das outras, só pra acabar se juntando com a próxima. Mas sua mente voltava pra ela.
— Está preocupado com a Sky — disse Soren. Grim engasgou.
— Oh, por favor, saia da minha mente!
— Não preciso estar na sua mente, você faz questão de demonstrar isso.
— Sou tão transparente assim?
— Antes não era.
Antes, o quão antes? pensou.
— Faz dois dias que ela não sai daquele quarto e não come nada. Foram coisas demais pra uma humana. Seria coisa demais até pra mim. Ela foi e está sendo ótima, a venero por isso — admitiu e já não fazia questão de esconder mais.
— Todo mundo tem lembranças pra fugir. Os dela são apenas mais sérios.
— Sim, e você sabe como falar com ela.
Ele foi tomado por uma singela sensação de melancolia.
Louise surgiu pela porta de vidro, caminhando até eles.
— Eu acabei de tentar fazê-la abrir pra mim — ela negativou a cabeça, revelando sua falha.
Grim levantou, secando-se.
— Veja Louise, irei ser direto, tenho certeza que depois do que ela viu e sentiu, ela vai te pedir pra voltar.
— Eu não irei voltar! Não quando...
— E eu acho que deva — disse por fim. — Por você e por ela.
Louise fitou o chão, mordendo os lábios.
— Primeiro preciso falar com a Sky. Sabe, se é isso que ela quer. Mas não consigo de jeito nenhum entrar naquele quarto!
O Ceifador colocou a mão sobre seu ombro.
— Vai dar tudo certo.
Sorriu no intuito de passar confiança e segurança. Todos os aspectos incertos até o momento. Mas ora, ele odiava incertezas.
Seguiu até a cafeteria, recheando a bandeja com um café da manhã reforçado, com tudo o que ela gosta. Seu quarto é o 232 no segundo andar, o qual era pra estar dividindo com Louise, mas acabou tomando só para si. Iria dormir nas duas camas por acaso?
Parou em frente à porta, dando algumas batidas.
— Sou eu, Grim — anunciou.
— Não entre, estou chorando e parecendo terrível.
— Sabe que eu já presenciei coisa pior.
Mas não houve resposta.
Um fato realmente curioso — o mesmo achava isso — é por ele ser onipresente, mas sua personificação é matéria ocupando um espaço. Poderia voltar para sua origem e passar pela porta sem problema nenhum, mas não queria matá-la de susto. Só usou vinte por cento disso para retirar a cadeira da fechadura.
Escuro, um pouco frio e desconfortável, tudo o oposto do que estava lá fora. A encontrou de pé, tentando abrir as cortinas, mas acabou caindo logo em seguida.
— Ouch!
— Oi, querida. Você não deveria estar na cama?
Colocou a bandeja na mesinha, indo ajudá-la
— Enjoei dela.
Ele a colocou na cama novamente.
— Está doendo?
— As lembranças doem mais.
Grim abriu as cortinas, deixando o sol da manhã entrar.
— Por que está tão frio aqui? — alguns segundos depois ele recordou que ela não sentia mais. Encontrou o controle do ar embaixo da cama e o desligou. Sem explicação ou motivo, tocou na sua pele quente, acabando por devolver a sensação que ela tanto odiava.
Ela gemeu em descontentamento, se encolhendo debaixo das cobertas. Grim se sentou ao pé da cama, dando pra ouvir a respiração pesada dela.
— Você quer ficar sozinha, eu sei. Mas você se importaria se eu ficasse? Silenciosamente, é claro. Eu só quero estar por perto para ter certeza de que você ficará bem. Eu sinto sua falta.
— Isso é fofo, eu não te levei para o tipo sentimental. E você... — seus olhos brilharam. — Me trouxe café da manhã?
— Eu estava entediado.
Mas ele nunca tinha visto ela assim. Pálida, olheiras fundas e cabelo amarrotado, alguns fios grudando na pele por conta do suor. Quando colocou sua mão na testa, ela queimava.
— Como estou? — ela perguntou. Sua voz tão fraca, nunca tinha ficado assim. Fisicamente sentia-se enfraquecida, mal conseguiu dar alguns passos sem cair. Sentia sono, mas seu coração angustiado se recusava a dormir. Mentalmente? Queria sumir.
— Muito mal. Febre alta por dois ou três dias — ele nunca falhava em revelar diagnósticos. Deu a ela um comprimido.
— Eu nunca me senti tão péssima! Me sinto... entorpecida. Parece que vou explodir em agonia. Porque estou assim?
— Você não poderia ficar bem a algo assim, você apenas viveu isso. A sua conexão e a lembrança foram fortes demais — sua postura mudou — Agora escute. Você está assim já que foi sua primeira, e isso levou por quase completo o que chamamos de GALORE, um acrônimo para Energia da Alma, Corpo e Mente. GALORE é uma palavra de origem irlandesa, que significa abundância, ou seja, se não estiver cheia de energia, você perde quase todas suas funções por tempo indeterminado, às vezed até mesmo pra sempre. Mas não se preocupe, cada lembrança tem uma duração certa e deve seguir seu curso, com duração mínima de até dez segundos.
Ela esfregou as têmporas, sentindo a cabeça latejar. Muita informação, pouco tempo para absorver.
— Vai ser sempre assim?
— Hum, eu sei de muita coisa sobre as conexões, mas ainda há fatos desconhecidos, sem certezas. Pode acontecer de você poder acordar dentro de uma lembrança, me ver cortando a linha da vida e acordar, sem nem saber como a pessoa entrelaçada à sua alma se foi, mas acho que é bem raro. Apesar disso, eu sempre estarei lá — levou a mão ao queixo. — Vocês são ligadas pelo mesmo sangue, mas nada do que você fez aconteceu de verdade. Logo quando acordou, você me disse que falou com pessoas lá, que vivenciou e sentiu, mas não aconteceu de fato, como uma realidade alternativa. Como um sonho, você só sabe que teve um quando acorda. Na verdade isso tudo é muito Inception pra mim.
— Inception? Grim, minha cabeça está fritando! Eu peguei em uma arma, levei um tiro, eu vi você ceifar a vida de um homem, que de fato mereceu, mas... Eu... Eu... Eu praticamente carreguei minha avó falecida no colo, e só eu lembro disso! — seu tom de voz oscilou. — Ninguém disse que seria fácil, mas ninguém disse que seria tão difícil. E ainda tem outras novecentos e noventa e nove!
Os olhos arderam, sentindo que vinha uma cachoeira por aí.
— Chore se você quiser. Chorar não te deixa fraca, você se sentirá melhor — ela limpou o choro com as costas das mãos. — Sky, eu acabei de aprender que você é mais forte do que parece. Muito mais forte. Quero que saiba que tenho orgulho de você, mesmo que, e especialmente se, você pense que não merece.
Tais palavras vindas dele teve um impacto diferente. Óbvio, ninguém seria tão forte, mas logo ela?
— Eu já lhe disse como sou grata por você ser um ceifador tão legal?
— Concordo. Irei começar a ser mais impiedoso.
— Não! — ela praticamente pulou pra fora da cama.
— Agora, me diga o que está incomodando.
Sky franziu o cenho.
— O que quer dizer?
— Tem mais alguma coisa que a entristece, sei disso. É só olhar o jeito que você mexe no colar que eu dei.
O colar que antes servia de uma combinação perfeita aquela roupa detalhada.
Admitiu, ele a conhecia muito bem, e embora tenha tido hesitação em se abrir com ele novamente sobre suas tristezas e inseguranças, já tinham pulado essa parte no começo do que viria se tornar um grande vínculo.
— É o começo de mais um ano. Mais um ano sem meu pai, mais um ano sem a minha mãe — meio sem jeito, fitou as mãos. — Só ela sabia me dar aquele olhar que eu tanto temia... Se olhares pudessem matar, eu teria morrido pela vigésima vez aquele tempo. Já fui egoísta. Carregava comigo o pensamento de que era errado que a vida continuasse quando a deles terminava.
As mãos de Grim foram de encontro com as delas.
— Sky, confie em mim. Quaisquer princípio e crença que você siga, a realidade é que você não pode desafiar ou enganar a morte, e não estou fazendo referência a mim.
— Você deveria ter me dito isso no lago, quando nos conhecemos.
— Você teria ouvido?
— Provavelmente não. Eu era uma encrenqueira.
— Se os rumores que ouço são verdadeiros, temo que você ainda seja.
Boquiaberta, não levou o que ele disse a sério, acabou sendo ignorada de qualquer forma. Afundou na cama.
— Gostaria de falar sobre pinturas renascentistas?
— Mas você odeia me ouvir falar sobre pinturas renascentistas — ela semicerrou os olhos.
— Eu sei, mas você está triste e falar sobre pinturas renascentista sempre a faz feliz. Estou disposto a sentar aqui e ouvi-la divagar sobre a renascença por mais de quatro horas, se isso a fizer pelo menos sorrir.
Sua mente viajou nas caras e bocas que ele faria ouvindo-a falar mais uma vez sobre sua obsessão, sendo que na verdade ele literalmente viveu isso. Um sorrisinho brotou no canto da boca. Ela se deu por vencida.
— Agora coma. Você não pode esperar ser forte se não comer — ele colocou a bandeja na cama, petiscando um pedaço de queijo.
Sky experimentou tudo. Mesmo sendo complicado de engolir, comeu até se sentir satisfeita. Quando terminou, quis se levantar e até tentou, mas suas pernas fraquejaram novamente.
— Aonde vai?
— Eu preciso de um banho, não estou nas minhas melhores condições. Queria me sentir viva de novo e...
— Coloque os braços em volta do meu pescoço — interrompeu seu devaneio. Ela o olhou torto — Ou você prefere morrer em transpiração por mais dois dias?
— Não, não, não, eu não aguentaria isso.
Com alguma hesitação, apoiou-se nele, indo em direção ao banheiro.
— Sim, querida, eu sei. Você é muito quente, mas eu vou esfriar você.
Não esperou uma risada dela, mas ouviu.
— É brincando com as palavras que você está cuidando de mim?
— Não está tão ruim assim, está?
— Louise poderia fazer isso.
Se sentou em um banquinho enquanto a banheira se enche. Sua memória voltou literalmente no tempo e na lembrança, quando deu banho em Amelia e Ruby.
— Louise sabe a temperatura correta para se usar em uma pessoa febril? Soren muito menos.
— E como você sabe?
— Bom, conforme você tem conhecimento, a vida é frágil. Já ceifei vidas por conta de choque térmico. É bem incomum e inesperado, então a gente acaba aprendendo — conferiu a temperatura da água com os dedos. — Hum, perfeito — murmurou. — Levante os braços pra mim, querida.
— Então isso acontece mesmo... — Grim puxou sua blusa pra cima, passando-a pelos braços. Ela tirou sua roupa inferior e entrou, deixando a água cobrir até a cabeça e depois voltando pra cima. — Deve ser estranho morrer pelado.
— E agora você vai ficar pensando nisso pelo resto do dia.
Barulhos na porta foram ouvidos, acompanhado de uma voz apresentando-se como serviço de quarto. Ele saiu para ver e fechou a porta. Com um pouco de esforço, dava pra ouvir o outro lado, mas ela estranhou a quietude que veio depois.
— Grim? — chamou, sem resposta. Esperou uns cinco minutos em silêncio, mas logo começou a ficar inquieta. — Grim?! — dessa vez gritou.
— O que? — despreocupado, apareceu na porta.
Ela suspirou de alívio.
— Droga, não faz mais isso.
— Era o serviço de quarto, mandei suas roupas pra lavanderia e eu não achava o seu shampoo.
Ela suspirou de alívio, podendo agora relaxar na banheira.
— Consegue lavar os cabelos sozinha?
— Consigo, mas prefiro que você faça.
— Oh... — ele não esperava tal resposta, pois sabia que ela mantinha um cuidado extremo com cada fio — Vire-se.
Começou a massagear com cuidado. Ela acabou notando como as mãos deles ficaram maiores. Nos primeiros dias morando juntos, ele avisou com antecedência que com o tempo, sutis mudanças vão acontecendo como adaptação de si mesmo. Seu tamanho e até sua voz poderia mudar. Achava aquilo extremamente assustador.
Brincou com a água caindo da torneira, não sabendo como agir.
— Gosto do jeito que cuida de mim. É melhor que estar em um relacionamento.
Ele riu com ironia.
— Nem todo relacionamento tem que ser romântico e sexual. Você pode sim dormir na mesma cama e não fazer sexo sem que esteja em processo de divórcio escondido dos filhos.
— Por Deus, Grim! — riu genuinamente, mas seu corpo doía. Tudo doía.
— Antes... — sem rodeios, decidiu reformular a pergunta. — Você disse que pegou em uma arma, sabe usar uma?
— Ah, Grim, é uma longa história.
— Comece por onde você achar que deve.
Sky encolheu as pernas. Não soube bem exatamente onde era o começo. Seu peito estava cheio de ar para começar a falar, embora nada saia. Era assim toda vez. Ainda doía. Tudo doía.
— Alguns pais ensinam aos filhos disciplina e responsabilidade. Alguns ensinam seus filhos a serem melhores do que eram, e outros os ensinam a não serem como eles — houve uma pausa longa, dando alusão de que era apenas isso — Mas meu pai ensinou como me defender, porque que se eu fosse me aventurar no mundo dos homens, eu precisaria aprender a atirar como um homem e não passar pelas situações que eu enfrentei. Embora eu tenha negado isso a mim mesma por muitos anos. Sou e não sou como ele. Ele não está mais aqui.
— Mas você está aqui — ele pegou o pequeno chuveiro, enxaguando-a — Feche os olhos.
Ela choramingou para disfarçar.
— E estou horrível, admita.
— Eu nunca disse que você não é bonita. Se fizer esforço, poderá se lembrar quando eu disse que você me deixou nervoso.
— Você também, principalmente em 1919.
— Te intimidei? — suas bochechas arderam. — Desculpe, o meu eu do passado tinha um gênio forte.
— Você ainda pergunta? Sua presença... Parecia que você enxergava através de mim. E um inferno de atraente!
— Ah, mas eu melhorei esse aspecto — os lábios dele se moveram minimamente para o lado. — Os dois aspectos.
Quando tudo foi terminado, ele a enxugou e ajudou a se vestir. Mas deixou ela finalizar os cabelos. Com as duas camas de solteiro juntas, passaram o resto da manhã discutindo pra ver quem escolhia o canal. A febre melhorou mas ainda não conseguia ficar em pé sozinha.
— Argh, estou tão entediada aqui — suspirou pesado. Nunca desejou tanto sair.
Grim pulou da cama, vasculhando a mochila dela por inteiro até encontrar uma bolsa menor. A princípio eram só absorventes, mas ele buscou mais a fundo.
— Eu sabia que estava aqui!
— Um frasco de esmalte pela metade?
— Você não quer morrer de tédio, eu não quero morrer de tédio.
Sentou-se confortável na cama, colocando os pés dela no colo.
— Posso?
Afirmou em um aceno. Ele realmente parecia focado em pintar suas unhas dos pés. Se Soren o visse fazendo aquilo, iria dar um chilique e logo depois fingir que o surto não tinha acontecido, já que não tinha ninguém para lhe pintar os pés.
Na TV, um jornal mostrava o clima da cidade e redondezas.
— Você precisa falar com Louise — comentou ele de cabeça baixa.
— Eu irei, mas ainda estou elaborando o que vou falar, como vou falar.
Tudo ficou quieto. Não como antes, pelo menos agora se sentia estável.
— Pra onde nós vamos agora? — questionou. Tal pergunta fez Grim vislumbrar seus olhos castanhos. — Quer dizer, daqui a alguns dias?
Ele parou o pequeno pincel de cor azul, tapando-o em seguida.
— Itália. Sinto falta do melhor latte.
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