A Million on My Soul
6 Morte à Biblioteca
Notas iniciais
A noite caiu densa, em silêncio, principalmente dentro do apartamento. O relógio de parede marcava dez e meia da noite, com Louise dormindo desajeitada no sofá da sala.
Horas se passaram e a porta do único quarto ainda trancado fez com que Grim ficasse impaciente, então ele saiu e pulou silenciosamente a varanda, enxergando a silhueta dela pela mínima iluminação que entrava da rua. A encontrou deitada, mas não estava dormindo.
Abriu a porta com cuidado, pulando na cama como de costume, ouvindo resmungos baixos dela.
— Parece uma velha resmungando desse jeito.
— E quem te permitiu deitar aqui?
— Você, no primeiro dia que eu cheguei.
— Não, eu não fiz.
— Sim, você fez.
Logo depois se deu conta de que ele tinha realmente se apossado e que era inútil continuar com uma possível discussão.
— Precisa mesmo dormir? — ela perguntou. Grim negou enquanto a olhava com a íris totalmente escura. Parecia estar ficando cada vez mais sombrio quanto mais o tempo passava.
Permaneceram quietos, o tic-tac do relógio de cabeceira ecoava tão alto durante a noite, quando tinha alguém para ficar ouvindo enquanto ocorria daquela típica insônia.
A garota de repente se levantou, calçando os sapatos e mudando a roupa ali mesmo. Ele tapou os olhos com as mãos de maneira infantil, os abrindo quando a viu colocando um casaco confortável, casaco que primeiramente pertenceu a ele.
— Aonde vai?
— Você vai saber se vier comigo.
Não perdeu tempo, se levantou o mais rápido que pôde, calçou os sapatos e foi até a porta. Os dois passaram em silêncio e devagar pela sala, observando Louise ter um sono pouco confortável, provavelmente iria acordar de mal humor na manhã seguinte.
Chegaram até a porta sem imprevistos, então o ar fresco da noite os receberam. Sky, apesar de não experimentar mais a sensação de frio, sentiu o vento passar pelos cabelos cacheados. A rua se encontrava quase vazia, apenas algumas pessoas voltando de seus trabalhos, ou passeando com os cachorros. Seguiram a mesma rua como de costume, mas dessa vez atravessando para o lado esquerdo.
Sky andava à frente de Grim o guiando, contudo, um homem sentado no meio-fio da calçada o encarou assustado. Estava eufórico, aceso. Levantou os braços magrelos, como se esperasse o arrebatamento da morte.
— Me leve embora daqui! A morte é prometida pra mim. Você me prometeu! — ele gritou.
Grim franziu o cenho, totalmente intrigado, algumas pessoas estavam começando a ver sua essência, o que não era muito satisfatório quando o momento certo não estava perto de chegar.
— Veja, nunca entrego o que prometo. E a propósito, eu nunca prometi nada, você que ouve vozes.
— Algumas pessoas preferem manter sua fé em algo, Grim, até mesmo na morte, porque essa é a única certeza que temos — ela seguiu caminho, colocando as mãos nos bolsos do casaco, lembrando ligeiramente da noite em que o pegou — Aliás, você nunca me contou como se sente em relação a vida. Isso lhe incômoda?
— Na verdade não, mas prefiro deixar a vida para os vivos, sabe.
— Claro, claro — cerrou os olhos, percebendo sua fuga contra a pergunta.
Andaram mas um pouco até chegarem em uma biblioteca, sendo que Sky não tinha tanta certeza se estaria aberto, mas foi em destino à ela mesmo assim. O nome Biblioteca Debaixo do Céu em letras curvas estampava a fachada onde continha livros de diversos tipos na vitrine, a maioria usados.
O barulho do sino acima da porta ecoou pelo lugar, chamando a atenção do garoto que lia um livro preguiçosamente atrás do balcão.
— E aí, Myles, quanto tempo — ela cumprimentou com um aperto de mão, que foi transformado em vários gestos seguidos. O garoto acompanhou tudo corretamente, como se fossem amigos muito próximos.
— Tempo demais desde que você parou de vir aqui.
— Como está sua mãe? Esses dias eu a vi mas não tive tempo pra falar com ela. Sabe, vida ocupada.
— Oh, ela está bem. Reclamou de dores nas costas e eu tive que ficar aqui. Mas eu até que gosto desse lugar — respondeu.
Sky sorriu, então eram os dois.
— Seu namorado? — apontou se referindo à Grim que até agora permanecia em silêncio.
— Ele é a morte — ela avisou. Myles fez uma careta de desentendido. — É um amigo. Na verdade, um irmão.
— Tio Martin pulou a cerca?
— Na verdade foi a Sarah, aquela atrevida — o sarcasmo corria solto entre os dois. Grim sentiu uma pontada de inveja.
— Ainda tem lá nos fundos? Vamos ficar um pouco.
— Claro, como sempre, eu abasteci. Só que eu lembro de você dizer que aquele canto era especial e você jamais dividiria com alguém — recordou Myles, colocando ênfase nas palavras ninguém e jamais.
— Só que ele... — Sky colocou braço ao redor do ombro de Grim. — Não é simplesmente ninguém — sorriu, seguindo até o canto de uma prateleira.
Bem guardado entre alguns livros que ninguém tinha interesse, pegou uma sacola de doces, colocando um pirulito na boca.
— Por que você é assim? — perguntou Grim.
— Eu culpo Sarah Walker.
Sim, culpava a mãe, mas tendo a total convicção que ela teria se orgulhado da mulher que é hoje.
As prateleiras eram altas, todas ocupadas por livros antigos e contemporâneos. Por fora, a biblioteca poderia até aparecer pequena e simples, mas era por dentro que tudo acontecia.
— Me sinto como se estivesse na TARDIS — comentou.
— Como?
— Lá fora, a entrada é azul e pequena, mas aqui dentro, se eu não estivesse com você, me perderia.
— Certa vez minha mãe me contou que aquela senhorinha, mãe do Myles, quando jovem era geek demais, principalmente pelo segundo doutor. E segundo quero dizer segundo, segundo mesmo. Lá fora é pintado de azul para combinar com o nome, mas e se for realmente uma TARDIS disfarçada? Parece que nunca saberemos.
Grim soltou uma gargalhada gostosa, mas ela não achou graça, estava falando sério.
— O que tem nesses doces, Sky?
— Hein? Acha que eu estou brincando?
Ele puxou o saco de doces da mão dela, pegando uma balinha. Era sabor morango e ia se desfazendo em uma goma de mascar. Se sentaram no chão de carpete, descansando as costas na prateleira do gênero romance, Grim tirou alguns segundos para apreciar tudo.
O pequeno espaço que deu a entender que pertencia à ela era muito confortável, fica entre a sessão ficção-aventura e romance, um aquecedor logo na frente mantinha todo o local devidamente aquecido em dias frios. Inclusive notou que perto do balcão ficava uma cafeteira, chegando a bela conclusão que sim, aquele era sim o lugar perfeito. Não era espaçoso, mas cabiam os dois ali perfeitamente, e ele era o primeiro a estar ali com ela.
— Caim já esteve aqui?
Sky o olhou seriamente pela pergunta feita, tirando o pirulito da boca.
— Hã, hã. Não se sinta especial agora.
— Mas você disse que eu não era simplesmente ninguém — enquanto falava, pareceu chateado.
— Foi pra mostrar ao Myles!
Ele torceu os lábios.
— Estou brincando, para com isso. Sim eu disse, e é a verdade. Chaim e nem ninguém mais sabia desse lugarzinho. Eu costumava vir aqui depois das aulas, ou quando algo não estava indo muito bem, e acabou virando meu lugar. Comecei a trazer doces pra cá, mas o Myles que na época era um pirralho pegava tudo, inclusive começou me subornar dizendo que que iria contar pra mãe dele, a dona da biblioteca. Chegou um dia que eu mesma contei à ela, que trazia doces e que estava tomando este lugar em específico como meu. Myles, além de ficar de castigo por começar um suborno, ainda teve que comprar mais doces pra mim cada vez que a sacola ficava vazia. Vários anos se passaram desde que venho aqui. Reza a lenda que até hoje ele tem que abastecer a sacola — Sky riu tão alto que foi mais como um grito, mas lembrou que estava em uma biblioteca.
Grim estava perplexo com a reviravolta da história, olhando para Myles atrás do balcão. O garoto parecia saber exatamente que ele era o assunto em questão pois se virou na cadeira, dando as costas rapidamente.
Ela pegou um dos livros e colocou embaixo da cabeça, deitando-se. Grim fez o mesmo, observando o teto azul com espirais dourados, repleto de estrelas e cores que representava a Nebulosa de Órion.
— O que Demise fez com você?
— Foi só isso — ergueu o braço, mostrando a pequena cicatriz formada. — Mas Ethan quase viu, e Demise quase o matou por isso, dá pra acreditar?
— Demise é bastante hostil, sempre foi. Não dá pra saber o que ela vai fazer a seguir. Ela flerta comigo e faz o que quer.
— Então ela flerta com você. Hum, isso explica algumas coisas — murmurou.
— Com todos. Não chegou a notar um comportamento diferente de Ethan?
— Sim, ficou meio desorientado... Então era isso?
— Bem, ela é um demônio.
Sky deu de ombros, consertando o livro embaixo da cabeça. Grim pegou um livro ao lado e começou a folheá-lo.
— O que há com a Louise? Ela acreditou muito rápido em quem eu sou e mal falou comigo.
— Grim, você é o anjo da morte. Ela ainda quer viver, e muito — se virou de lado, dando um tapinha no ombro dele. — Saberá que ela está confortável com você se ela colocar o braço ao redor do seu ombro.
— No ombro da morte?!
— Exato. E também, nós vamos recuperar sua foice, aconteça o que acontecer. Estou fora do radar de Chasan, podemos chegar mais perto dessa vez.
— Pelo que eu sei, ele está deve estar ficando vulnerável, a foice não pertence à ele. E isso pode parecer meio tarde, mas obrigado por me deixar ficar ao seu lado, e na sua casa.
— Ora, você não é tão difícil de lidar assim. Além do mais, Floyd gosta de você, o que eu poderia fazer? — os dois riram.
Grim pegou uma barra de chocolate, saboreando, mas começou a grudar entre os dentes e sua fala ficou cômica.
— Quando vai partir? — perguntou não se importando com o incômodo do doce na boca.
— Quando você limpar isso.
Ele retirou, e a olhou com os olhos arregalados.
— Agora então?
— Não!
— Quando?
— Depois do meu aniversário, no ano novo.
— E depois?
— Depois nós chutaremos tanto a bunda daquele anjo caído que ele vai ter certeza de que está caindo novamente.
O anjo da morte gostou da ideia, estava sentindo uma sensação de entusiasmo e animação, não sabendo distinguir se era o açúcar dentro dele.
— Bem, seu nome é Sky afinal.
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