A Million on My Soul

7 Morte ao Convite


Sky ainda estava sonolenta quando sentiu algo firme e incomodo embaixo da cabeça. Abriu os olhos minimamente e não se deparou com o teto branco do quarto como de costume. Um azul marinho e amarelo ouro alarmante a despertou de verdade naquela manhã. Ainda estava na biblioteca, na verdade tinha dormido lá, e a respiração breve de Grim batendo no seu pescoço dizia que ele teve uma boa noite se sono, e ainda estava tendo.

— Grim, Acorda!

O balançou de leve, mas só fez com que ele virasse pro outro lado.

— Mais cinco minutos... — balbuciou.

— Não tem cinco minutos, vamos logo. Nós dormimos na biblioteca.

Ele se virou com toda calma do mundo, olhou pra ela e depois ao redor, confirmando onde estava.

— Como isso aconteceu?

— Você comeu muito açúcar ontem, ficou todo agitando enquanto falava diversas coisas ao mesmo tempo e terminou dormindo — disse enquanto guardava os livros que pegaram durante a noite anterior.

O barulho do sino na porta os assustou, inclusive Myles, que estava deitado na bancada com um livro em cima da cabeça.

— Myles, você dormiu aqui novamente? Garoto, o que eu te disse? Nem ao menos fechou a loja! — gritou Margrett, mãe de Myles e dona da livraria. Mesmo estando beirando na faixa dos cinquenta anos, continuava bonita como sempre. Longos cabelos pretos caiam como cachoeira em suas costas. Pele pálida, olhos claros que já tinham visto de tudo e marcas de idade ficando visíveis, as quais ela mesma dizia que se formou de tanto sorrir.

— Mãe, eu ia fechar, só que o café acabou e você sabe como é... E também...

Margrett conhecia bem o filho, e não foi por falta de café que ele tinha pegado no sono sem fechar a loja. Ela agarrou o livro da mão dele para atingi-lo, mas quando estava parar fazer, Sky apareceu no exato momento, salvando silenciosamente a pele do amigo.

— Oh, Sky! — disse com espanto, totalmente surpresa. Tratou de se livrar rapidamente do livro que estava para jogar na cabeça do filho.

— Como você está, querida?

— Estou muito bem, Margrett.

Em segundos, Grim saiu de trás da estante de livros, o cabelo bagunçado e a camiseta preta amarrotada formou uma imagem errada na cabeça da mulher, que apenas sorriu de lado.

— Vocês dormiram aqui.

— Sim — respondeu Sky, percebendo depois que não tinha sido uma pergunta. — Bem, nós estamos muito atrasados, então se nos der licença, Marg. E Myles, a sacola já está sem doces. Até mais.

Puxou Grim pelo braço, colocando-o na sua frente. Ela arrumou seus cabelos negros, tendo a impressão de que ele estava cansado.

— Sabe Grim, a Louise vai parecer normal esta manhã, mas na verdade ela não está, é assim que ela fica irritada.

Atravessaram a rua, o sol morno da manhã batendo na pele dos dois. Parecia que ia chover.

— Está cansado? — perguntou enquanto seguindo a rua.

— Estou, mas não é normal. Sem minha foice, não estou fazendo o que eu deveria fazer. Talvez eu não consiga mais andar.

Sky o olhou horrorizada, não pensou que era tão sério assim ficar sem seu objeto de trabalho, afinal ele sempre falou dela como se fosse um instrumento do que algo essencial para que ele existisse.

— O que poderia fazer você melhorar?

— Uma boa noite de sono — bocejou.

Sky sentiu duas coisas: uma vontade de voltar e pegar os livros de dentro da biblioteca para jogar na cabeça dele, ou se fazer de tonta e esquecer toda a preocupação que tinha surgido na cabeça dela. Escolheu optar pela segunda opção e seguiu em passos longos até chegar em casa, não dando ouvidos quando ele gritou para esperar.

Seu estômago foi atiçado no momento que sentiu o cheiro do café da manhã sendo preparado por sua prima. Grim olhou em volta, vendo de tudo na mesa.

— Então é assim que ela fica irritada? — sussurrou no ouvido dela. — Hum, podemos irritá-la mais vezes...

— Ah não. Não tente — o afastou, indo em direção à mesa e puxando uma cadeira, mas foi interrompida por Louise.

— Eu não vou perguntar onde você passou a noite, e com ele... — apontou para o ceifador de maneira acusadora — Mas você vai conseguir isso pra mim.

Uma lista de coisas que deveriam ser compradas foi colada em sua testa, coisas cotidianas e simples, até lembrar que não havia mais nenhum dinheiro sobrando a não ser aquele que tinha separado para a viagem.

Em silencio, seguiu até o banheiro, tomando um belo banho. Quando saiu, se espantou com o ceifador sentado na cama, com Floyd no colo.

— Grim, não sabe bater?

— Eu bati.

Enquanto trocava rapidamente de roupa, ele brincava e acariciava o gatinho, ergueu-o pra cima e o aconchegou em seu peito.

— Ele gosta muito de você — notou. — Porque não adota um?

— É uma ótima ideia, mas eu ceifo vidas, e não crio, e além do mais...

— Qual é. Olha só pra você... — enquanto falava, arrumava os cabelos como de costume. Ele a observava com atenção. — Você está aqui comigo agora, com um gato no colo, sentado na cama de uma humana. O que te impede de criar uma vida neste momento? Você é o ceifador, quando não está fazendo o seu trabalho, faça o que bem entender. A vida é engraçada quando você a vive.

Ele sabia que ela olhava tudo aquilo de modo diferente, e se ele pensasse um pouco, ela tinha toda razão. De certa forma, ficou surpreso, pois nunca tinha pensado em adotar um animal, nunca precisou de um. Nunca passou tanto tempo na forma humana.

Naquele momento, encheu seu interior com independência. Sky estava mais que pronta, esperando a resposta final para apoiar seu amigo na decisão correta.

— Pra começar, eu não faço ideia de como cuidar de um gato.

Ela suspirou, balançando a cabeça. Pegou o casaco e seguiu na frente.

— Espera!

— Vem, vamos logo.

Saíram de casa a caminho do supermercado mais próximo. Pegaram todos os produtos da lista, mas na hora de pagar, ele tomou a frente, mostrando sem vergonha nenhuma um cartão de crédito. Preto.

— Ah, então só agora você fala que possui um black card... — ela cruzou os braços. Não poderia negar que estava desacreditada, tinha pago quase todas as refeições dele.

Grim, que já tinha visualizado toda aquela cena na mente, sorriu de lado e passou as mãos pelos cabelos.

— Imagine a seguinte situação... — enquanto falava, carregou todas as sacolas sozinho, mesmo depois dela insistir em pegar das mãos dele. — Um dia, o ceifador tem que recolher uma alma, mas para que isso aconteça. ele deve viajar uma distância inimaginável. Não se esquecendo que ele é o ceifador, poderia simplesmente aparecer no lugar destino. Mas não, ele quer ir da maneira tradicional e está com uma mortal ao lado dele.

— Espera, eu acho que estou entendendo — o interrompeu.

— Não, eu ainda não terminei.

Uma gota de água pousou na ponta do nariz dela, onde ele apontou e retirou. Vendo que estava pra começar chover, se abrigaram na entrada de um estabelecimento. — O que eu quero dizer é: se a mortal gastar seu dinheiro antes de seguir seu destino, o que sobrará do destino?

— Uma carteira vazia?

— Isso também! E o ceifador só quer usar o black card em situações extremas, como agora, pois ele se preocupa com a vida da humana. Ele tem certeza que ela não voltaria pra casa hoje e passaria a manhã sem comer nada.

Ele estava certo. Era isso mesmo que iria fazer por que estaria muito envergonhada em voltar para casa de mãos vazias.

— Como adivinhou? — colocou um dos braços pra fora para checar se a chuva tinha cessado. Nada.

— Sabia que você nasceu com uma grande quantia de sorte por causa do carma bom das almas que reuniu? Isso é algo muito bom.

Sky não acreditava muito na sorte, ou costumava deixar tudo por conta dela, só que realmente teve sorte em diversas coisas. Todos estavam lá esse tempo todo, mas só pôde enxergar quando pensou que não tinha mais nada para ver.

— Será que isso deve ser um plano... Dele? — só depois se deu conta de que tinha pensado alto.

— De quem?

— Sabe... Deus.

— O que você acha?

— Hum, eu realmente não sei... — ela colocou o braço novamente e tinha cessado. Seguiram o caminho de volta com ela sentindo a sensação que precisava passar em mais um lugar. — Nunca fui muito religiosa. Na verdade, quando pequena, eu e outras crianças visitávamos a igreja aos domingos. — fez uma longa pausa, como se estivesse puxando a lembrança da parte mais esquecida da sua memória. Grim esperava pelo desfecho com ansiedade. — Lembro-me de um verão, tomávamos sorvete enquanto o padre tentava explicar para nós que a morte fazia parte do ciclo da vida. Um cachorro muito querido da vizinhança havia morrido, já estava muito velho e quase não andava mais. Passamos a tarde toda rezando como adultos para que Deus o trouxesse de volta. Quando o sol finalmente se alinhou com o altar, todos nós ficamos ali esperando que o criador finalmente descesse das estrelas para nos presentear com ele, e no fundo, para nos tornar inteiros. Mas Ele nunca veio. Às vezes eu rezo por costume, já que sempre fazia com minha avó. Parecia que, de certa forma, isso nos conectava. Uma conversa simples e direta.

O ceifador a encarou. Enquanto ela contava, sentiu um ligeiro arrepio. Ficou esperando por mais.

— Uau. Você é uma ótima contadora de histórias.

— Acha mesmo?

— Sim. Transmite aquela sensação de estar dentro do acontecido.

— Grim, mas você estava. O cachorro...

Certo, o cachorro. Quando se deu conta, quis esconder o rosto com as mãos, mas as compras nos braços o impediram, então apenas fechou os olhos com força. Sky gargalhou de fazer sua barriga doer.

Chegaram em casa novamente, ele entrou mas ela mal pois os pés em casa. Disse que tinha que ir em um lugar primeiro. Se despediu depressa antes que a prima desse conta e perguntasse algo que não teria resposta.

Ergueu seu pulso e o relógio marcava dez e meia da manhã. Pôs as mãos quentes nos bolsos do casaco, sem rumo. Seguiu a rua sem menor pressa, somente estava seguindo os seus pés. Virou a esquina até entrar na outra rua um pouco mais calma. As casas de arenito marrom dava um toque antigo na vizinhança. Caminhou até onde seus pés mandaram, chegando a casa de Chaim.

Totalmente inserta do que estava fazendo ali, tocou a campainha duas vezes. Na terceira, quando não obteve resposta, desceu as escadas para ir embora, parando quando ele abriu a porta atrás dela.

— Oi Sky.

— Oi Chaim.

Aparentava ter saído do banho, seu cabelo estava úmido e a pele avermelhada.

— Quer entrar? — ofereceu dando espaço para que entrasse.

Ela deu meia volta, entrando no apartamento. Sentou-se de modo despojado no sofá.

— Onde está o Grim?

— Com a Louise.

— Louise está aqui? Ela sabe de tudo?

Sky confirmou com a cabeça.

— Quase tudo, não queria preocupar ainda mais ela.

Chaim sentou ao lado, colocando os pés dela em seu colo. Não tinha mais permissão pra fazer isso, mas mesmo assim fez.

— E a Arabella?

— Teve que sair, já deve estar voltando.

Ela descansou a cabeça na mão, de modo que ficasse virada para ele.

— Eu não tinha a intenção de vir aqui, só que acabei aqui. Ainda tenho esse mal costume.

— Você sempre será bem-vinda aqui.

— Eu sei, por isso o mal costume. Eu andei pensando, e muito... Venho aqui pois ainda somos amigos. Ainda depois de toda a loucura que é saber quem você realmente é, eu ainda venho aqui. Porém uma coisa não me sai da minha cabeça. Quando eu olho pra você, parece que depois de um tempo, ainda tem algo a me dizer.

Chaim pendeu a cabeça para trás, fitando o teto. Mordeu os lábios e bateu os pés no chão, impaciente pela reposta que queria dar, mas a que não saia da garganta, já que nem ele mesmo sabia.

— Eu fui um completo idiota por não ter te dado a atenção que você precisava e merecia naquela época. Então eu acho que um pedaço dentro de mim quer compensar isso.

— Naquela época, as lágrimas que perdi quando isso aconteceu pesavam.

— Eu a fiz chorar. Como eu pude fazer isso?! — exclamou. Ele observava com atenção a íris castanha dela.

— Eu me perguntei a mesma coisa. — riu. — Mas antes disso, era realmente engraçado. Eu briguei com uma de suas amigas, a Casey, lembra?

— Oh, a Casey. Nós éramos melhores amigos, ela gostava de fazer intriga e se fazia de tímida, mas todos os meus amigos diziam que íamos acabar juntos...

— E então nós começamos a namorar. Sendo sincera, você era tão péssimo Chaim. Era o típico mais popular do colégio — loiro, bonito, forte e inteligente. As garotas me odiavam pois elas se achavam superior a mim e diziam que você merecia coisa melhor. Chegava a ser cômico. Então a Casey apareceu no banheiro, e aquela cena aconteceu.

5 anos atrás

Sky olhou o celular velho, a tela quebrada já estava dando nos nervos. No relógio marcava nove e cinquenta da manhã. Faltando apenas dez minutos pro intervalo, saiu da sala de maneira sorrateira, se escondendo no banheiro feminino. Olhou novamente o visor do celular, sua amiga Jude estava atrasada. Marcaram de se encontra antes do sinal, já que Jude insistiu que ela contasse como tinha sido no encontro com Chaim.

Procurou cigarros embaixo da pia, encontrando um baseado. Jude apareceu afoita logo em seguida.

— O que está fazendo com isso? Anda comprando com quem?

— Você sabe que eu não fumo. Ultimamente estou tendo o costume de ficar com isso entre os dedos.

— Essas coisas só podem ser do Troy... E falando em Troy, eu quero saber como foi com aquele certo amigo dele.

Jude tinha dezoito anos e era virgem. Não que tivesse escolhido esperar, mas não queria entregar uma coisa que só se perdia uma vez para qualquer pessoa.

Sky com dezenove, estava muito mais à frente, sem contar que estava se fazendo de difícil para não sair falando o que tinha acontecido em disparada.

— Bem, ele foi perfeito. Aconteceu na casa dele, e depois insistiu em me levar pra casa, mesmo que escondido.

— Meu Deus... — a amiga ficou em choque, teve que se apoiar na bancada da pia.

— Calma! — ela gargalhou. — Você vai passar mal desse jeito.

— Eu estou passando mal, você não percebe que eu estou passando mal?!?! Você está namorando com o Chaim, não tem como ficar bem.

— O colégio inteiro já sabe. Sinto cada olhar queimando nas minhas costas, principalmente das garotas.

— Sou capaz de matar cada uma delas se eu ver olhando assim pra você — Jude fechou o punho e entrou em posição de luta, fazendo as duas rirem. Ela sempre foi o alívio cômico, não existia tempo ruim para aquela garota.

Sky nunca gostou dos estereótipos do ensino médio. Ela era normal, tirava notas boas na medida do possível. Não tinha muitos amigos e as vezes se sentia solitária. Chaim estava lá pra ela, sorrindo a toda hora, a fazendo sentir bem. Isso foi suficiente, estava apaixonada.

— Você sabe daquela melhor amiga dele, a Casey? Todos diziam que eles estavam namorando e ela apesar de não espalhar, gostava dos boatos. Deve estar se mordendo de raiva agora — Jude riu.

Sky a conhecia de longe, sempre estava ao lado de Chaim pois se dizia amiga dele.

— Eu sei quem é. Ela é meio paranoica, não? Ficou o tempo todo me olhando de longe com a cara fechada. — ela decidiu que não iria se importar, nem com o falatório, e nem com nada. Não demoraria até aparecem outro casal para ser alvo dos holofotes.

Faltavam exatamente quatro minutos pro intervalo, as duas conversavam sobre o que iram fazer naquele final de semana. O tempo ensolarado pedia festa na piscina, mas primeiro Sky deveria convencer os pais.

As duas amigas iam saindo em direção a cantina. De repente, foram interrompidas por Casey. Os olhos azuis pareciam determinados.

— Sky, eu posso falar com você? — pediu com delicadeza. Carregava os livros nas mãos e uma mochila pequena nas costas. Isso dava a ela uma aparência de aluna exemplar, mas todo mundo sabia o que ela era de verdade.

Neutra, ela apenas concordou com a cabeça.

— A sóis — a loira olhou de cima abaixo para a amiga dela. Jude cruzou os braços, indignada. A vontade de bater a cabeça sem noção dela na pia era grande, mas não era problemática a esse ponto.

— Não tem problema algum. O que você pode falar pra mim, pode falar pra ela também.

Casey suspirou, colocando os livros em cima da pia.

— Todos já sabem do seu namoro o Chaim, e sendo sincera, eu não acho que você é a pessoa certa pra ele.

— Como é, garota?! — Jude agora gritou, quase avançando em cima dela. Sky a impediu rapidamente, fazendo-a ficar indignada novamente — Sky!

— E o que você acha que seria certo pra ele? Você?

— Eu não disse isso, é que...

Sky a interrompeu, se aproximando dela.

— Casey, você não tem nem coragem de mostrar quem você é de verdade. Vive escondida em uma máscara falsa para se sentir melhor e acha que isso seria o melhor pra ele? Que ótima amiga você é.

Algumas garotas que entravam no banheiro saíam rapidamente para não ser alvo de fofocas, o que sempre foi frequente entre as estudantes quais não tinham o que fazer.

Casey sentiu-se ofendida, então sem pensar duas vezes disse o que queria.

— Eu sei que já dormiu com ele. É sério Sky, eu não quero que ele se machuque.

— Com quem eu durmo não é da sua conta! — por um momento, ela elevou a voz.

— Ele é meu melhor amigo!

— Ele também é a porra de um adulto, perfeitamente capaz de tomar suas próprias decisões! Pare de ser a babá dele.

Sky só percebeu que estava quase colocando o dedo no rosto da garota quando a mesma se encolheu. Casey era muito frouxa para sair no tapa com alguém, então usava outros meios.

— Não quero mais olhar pra sua cara, Casey. Se não tiver mais nada que queira falar, adeus.

A morena passou por ela rapidamente antes que alguém da coordenação ficasse sabendo, já que alguns alunos curiosos se amontoaram na porta para ver o espetáculo. Casey estava se mordendo de raiva, fechou o punho e suspirou.

— Se quer um conselho, Casey... — começou Jude, sendo interrompida em seguida.

— Nah, ela não quer conselho nenhum, Jude. Ela sabe muito bem cuidar de si mesma, já que quer tanto cuidar dos outros.

— Oh... — foi tudo que a amiga sussurrou. Naquele momento, todos os argumentos caíram por terra.

Sky saiu do colégio pisando duro, nunca ninguém chegou até ela pra falar uma coisa absurda daquela. Jude estava logo atrás.

— Vou pra casa, não aguento mais ficar ao redor dessas pessoas. Você me cobre hoje?

— Claro. Se precisar de algo me liga okay?

Ela assentiu levemente. Não entendia muito bem do motivo de estar chateada, só entendia que estava, e precisava de um momento.

Andando mais um pouco, encontrou as orbes azuis de Chaim do outro lado do campo. Ele estava com os amigos e preferiu não atrapalhar, então seguiu seu caminho sozinha. Chaim a acompanhou de longe, observando-a sumir entre as pessoas.

Tinha a impressão de que tinha acontecido algo, se despediu dos amigos e seguiu-a, descobrindo seu esconderijo. A biblioteca perto da casa dela.

Sky entrou depressa, fazendo soar o sino em cima da porta.

— Marg, vou ficar lá nos fundos.

Margrett estava com um cliente no caixa e se ela não avisasse, teria passado despercebida.

— Aconteceu alguma coisa meu anjo?

— Esta tudo bem, só estou cansada. Sabe, o ensino médio... — deu uma risada sem graça.

Sentando-se no chão e colocando a mochila do lado, pegou a sacola de doce entre os livros e ali ficou. Sem ninguém para incomodar — apenas ela, os livros e as estrelas de ouro da decoração do teto. Ou assim pensava.

O sino da porta tocou novamente, e não era nenhuma cliente.

— Sabia que estaria aqui... — Chaim apareceu entre uma prateleira de livros. Sentou-se ao lado dela, que parou no tempo com um pirulito na boca.

— Como sabia onde eu...

— Segui você.

— Ah, então agora você segue garotas que faltam nas aulas.

— Eu não sou um serial killer!

Ela virou-se em direção a ele, apoiando o queixo na palma da mão.

— A maneira como você colocou ênfase em "serial" me deixa desconfortável...

Um silêncio correu no ar. Sky o ofereceu doce, mas ele negou.

— Parece que a Casey resolveu ser conselheira antes de se formar. Disse que eu não era a pessoa certa pra você. Na verdade, o colégio todo pensa isso.

Chaim ficou sem ter o que dizer, mas sentia as veias pegando fogo. Fechou o punho e comprimiu os lábios.

— Não acredito que ela fez isso... Sky, eu sinto muito, ela não tem direito nenhum de ir te falar isso!

— Eu sei, foi o que eu disse. Mas a Jude quase pulou em cima dela, você deveria ter visto.

Chaim a conhecia fazia tempo. Tem total conhecimento de que ela é muito tranquila, tinha perdido muito tempo se importando com coisas bobas, como a mesma dizia.

— A propósito, não se incomoda? Estão falando de nós, mas principalmente de você. Eu me sinto culpado por isso.

— Oh, as coisas são deliciosamente mais divertidas se você parar de se preocupar com reputação e status — disse, sua voz carregada de sinceridade.

Chaim tinha vontade de protegê-la, só não sabia como.

— Sim, imagino que, se eu pudesse me dar ao luxo de não me importar, seria bastante agradável.

O silêncio voltou novamente. O ambiente estava tão frio e agradável para ela que terminou colocando a cabeça no colo dele, fechando os olhos.

— Minha irmã quer te conhecer — falou enquanto acariciava seus cachos entre os dedos. — E ela insiste.

— Qual o nome dela?

— Arabella.

— Nome bonito... Okay, me convenceu, eu irei.

Chaim gargalhou alto, mas a namorada o impediu colocando o dedo entre os lábios dele.

— Shhh, aqui é uma biblioteca!

Na sala de estar, os dois estavam rindo como se fosse a piada mais engraçada do mundo.

— Nós éramos tão clichês. Argh.

— Não! Eu gostava desse clichê. Apenas desse.

— Ainda tem contato com a Casey?

— Eu terminei a amizade com ela pois não consegui mais aguentar aquela coisa toda, sabe. Ela intimidando qualquer pessoa que chegasse perto de mim, não era amizade e sim uma prisão.

— Talvez ela sabia quem você era... — uma curiosidade surgiu de repente em sua mente. — Você sempre teve essa marca, não foi? E eu não fazia ideia. — disse, se referindo a marca de Caim. Sempre esteve lá, mas ao mesmo tempo não estava.

— Sim, mas só você sabe disso.

Uma sensação repentina de liberdade veio do fundo do peito, queria contar-lhe tudo.

— Eu tenho uma também. Agora eles me chamam de "A nascida ao amanhecer." Mas eu só pude descobrir isso quando eu quase morri. De certa forma, o Grim me salvou. Ele não podia levar minha alma já que perdeu a foice. E também não era a minha hora.

Chaim ficou em choque por alguns segundos, ele conhecia bem a profecia. Só não esperava que existisse de verdade.

— Espera, você tentou suicídio?! — algumas lacunas em branco começaram a fazer sentido. — Então o gato na minha porta aquele dia... O Grim com você...

Chaim se levantou, andando de um lado para o outro. Sky passou por momentos difíceis, muito para uma pessoa sozinha lidar. Ele estava lá para qualquer coisa por ela, mas parecia que isso não tinha sido o suficiente. Colocou a mão no peito, sentindo uma angústia incômoda crescer.

— Entenda, eu quis isso. Naquele momento, eu escolhi ficar ao lado deles. Mas acabei descobrindo uma coisa melhor. As almas dentro de mim.

— Você é ela? A escolhida?

Com um enorme sorriso na face, ela concordou com a cabeça.

— E iria me falar quando? Isso é extraordinário, Sky! Você é tão especial como ninguém!

— Agora um anjo caído que está com a foice do Grim está atrás de mim. Então eu fiz um acordo com a Demise — você deve conhecê-la —, ele não pode me fazer nenhum mal.

— E está bem com isso?

Ela se levantou, ficando de frente para ele.

— Você não acha que é muito pra uma garota? Simples, querendo apenas um pouco de paz, ficar sabendo de uma coisa tão especial assim da pior maneira possível. Se eu não aceitasse tudo isso, enlouqueceria. — ela o abraçou, descansando a cabeça e seu peito. — Na verdade, talvez eu esteja louca e esse seja o ápice da minha insanidade.

Ela se afastou, sentando-se no sofá.

— Eu quero saber mais das almas dentro de mim, então eu vou até elas, mesmo com todos os perigos.

Chaim cruzou os braços, tentando digerir tudo que ela tinha falado.

— Não tem nada que eu faça pra te fazer mudar de ideia, não é?

— Você me conhece bem.

— E quando vai partir?

— Depois do meu aniversário, no ano novo.

Conhecendo Grim, ele iria com ela. Afinal, ainda estavam a procura da foice dele e ela prometeu ajudar. E o mais importante: o aniversário dela estava chegando, e o momento de ir também.

Ele pegou um cartão convite em uma gaveta e a entregou.

— Quero que você venha.

O convite era da festa de ano novo no apartamento de Blake Collins, um amigo em comum da época do colegial.

— Eu irei. Mas você sabe... O ceifador é intrometido.

— Traga ele também, e quem você quiser.

— Não esta aprontando nada, está?

Chaim riu dela, a sobrancelha arqueada e as mãos na cintura era tudo pra ele.

— Não, não estou.

Sky olhou novamente o convite, brilhava em cores douradas e azuis. Estava começando a se animar, pelo menos não passaria o ano novo em casa.

— Bem, eu tenho que ir Chaim. Até depois.

— Até depois, Blue.

Ela se virou, iria contestar pois quase ninguém a chamava de Blue, era um apelido muito mas muito especial. Os únicos que a chamavam assim eram os pais quando ela estava triste, pois o céu é azul, mas também é a cor da tristeza. Era impossível não responder, então apenas acenou pra ele.

Chegando em casa, Grim estava assistindo TV junto a Louise.

— Hum, você está toda suja de glitter azul — ele notou. — E dourado.