A Matemática do Prazer
3 - Numerologia das Velinhas
Notas iniciais
Assim que batemos na porta Abby, a mais antiga empregada da casa, nos lançou um sorriso terno. Sempre gostara muito de nós e cuidou de mim e minha irmã, desde que papai se separou de mamãe.
O casamento deles nunca foi dos melhores, papai, como eu, nunca ligou para o luxo da vida na alta classe e isso foi motivo de repetitivas e cada vez mais frequentes brigas, ao longo em que minha mãe passou a dar mais importância a uma foto nossa sorrindo no jornal do que felicidade real em família.
Minha mãe nunca aceitou muito bem o divórcio, mas era melhor assim.
Entramos e Abby fez questão que todos tomássemos um lanche do jardim dos fundos enquanto Joseph, seu marido, levava para os quartos as nossas tão escassas bagagens. Nunca fomos muito eficazes em negar algo para nossa querida Abby, muito menos aos cupcakes de Nutella que ela fazia. Sim, era chantagem muito da injusta com chocólatras assumidos.
Eu, Kath e Stef rimos muito enquanto brincávamos e conversávamos na varanda. Nem eu ou Kath estranhamos nossa mãe não aparecer nem para perguntar sobre o clima, o foco dela agora eram aparências – como sempre –, e a da casa era a bola da vez.
Só a vimos no almoço, silenciosamente bom. Até minha mãe começar a falar sobre os vizinhos e fofocar sobre a vida deles. Ignorei completamente, até que meu nome foi chamado. Respirei fundo, agora o alvo seria eu.
– Sim, mamãe? – Falei com toda a cordialidade que poderia.
– É feio não prestar atenção quando lhe dirigem a palavra. Sempre desatenta, desde pequena vi que não tinha futuro! Sua irmã nunca me deu esse desgosto. – ela falou dramática e Katherine corou envergonhada, seu olhar era um pedido de desculpas. Ela odiava quando mamãe se gabava dela ou a comparava a mim. Respirei fundo, era sempre assim!
– Estou prestando atenção, somente que já é conhecido o fato de que a vida de seus vizinhos não me interessa, não moro mais aqui e mesmo quando morava nunca me importei com fofocas! – falei com um tom leve, mas não evitei que a petulância manchasse um pouco minha voz. Nunca levantamos a voz com nossa mãe e sempre acatávamos o que ela falava, talvez fosse por isso que ela era assim, mas agora era tarde de mais para mudar isso.
– Me chamou de fofoqueira? – ele me olhou chocada, com a mão sobre o peito, uma típica retratação da dona de casa ofendida. Mas minha mãe não era dona de casa, só mandava e nunca arrumou sequer a própria cama, muito menos estava ofendida. Estava contrariada.
– Não falei isso! – me defendi sabendo que a bazuca estava armada agora.
– Que desrespeito, falta de classe, decoro! Onde já se viu falar assim com a mãe? – ela lamentou, Kath estava vermelha, e com razão, sua mãe fazendo uma cena daquelas na frente de seu namorado que se mantinha calado acima de tudo, era uma saia justa para ela. Para mim era somente um almoço em “família”. Ignorei o discurso de Dona Isobel com experiência.
Ela disparou a declamar um ensaiado sermão enquanto só ouvia e assentia, Katherine não conseguiu falar nada, mesmo se intervendo constantemente ao meu favor. Stefan me olhava com afinidade, não era a primeira vez mamãe fazia um show maior que o da Lady Gaga em nossas raras visitas a ela.
Após o almoço ela correu para o arvoredo próximo ao rio, onde se via a grande estrutura para comemorar ainda mais a velhice da coroa ranzinza. Sei que era cruel pensar nela desta forma, mas pensamentos eram o único local onde eu não abaixava a cabeça para o que ela dizia.
Fiquei em meu quarto jogando conversa fora com a minha irmã, uma vez que ela estava se sentindo “abandonada” só por que Stefan tinha ido visitar alguns velhos amigos na cidade da época de escola, eu estava aliviada que ele tivesse ido dar uma volta invés de ficar aqui assistindo com pipoca e brigadeiro minha mãe dar seu espetáculo de dondoca.
Quando deu o horário apropriado, Abby, sempre uma mãezona preocupada veio nos chamar para o café da tarde, onde não vimos mamãe novamente. Stefan se juntou a nós e decidimos os três tomarmos um banho na cachoeira perto da casa, só teríamos que andar um pouco, porém valia a pena.
Eu e Kath disputamos corrida até as águas, como desde pequenas fazíamos e gargalhamos quando eu ganhei – sendo uma das poucas coisas que poderia me vangloriar por ganhar –, nunca tivemos competições reais como irmãs, sempre muito apegadas e companheiras. Certamente herdamos isso de papai, mas minha mãe gostava de atribuir a amabilidade de Katherine à sua genética.
Stefan brincava com a gente e nem parecíamos sermos adultos com as brincadeiras extremamente infantis.
Sentei em uma rocha sentindo o calor ameno do pôr do sol em minha pele e admirando a cristalinidade da água sob meus pés, encantada com os peixinhos nadando pelos seixos.
Observei de longe com um sorriso no rosto Stef colocar uma planta aquática no cabelo de Kath e a mesma soltar um grito assustado pensando que era um animal, depois de muitas gargalhadas a sua custa e muitos tapas nele, eles sorriram e se beijaram amorosamente. Eles se amavam demais e eu ficava feliz por isso.
Sem querer tomar um esporro de mamãe por nos atrasar para a exibição pública pré-planejada às sete. Voltamos caminhando lentamente, eu e Kath enroladas em uma única canga que dividíamos e Stefan ao nosso lado trocando olhares acanhados e radiantes com ela.
– Que olhares são esses? – perguntei de repente e eles pareceram surpresos por eu notar.
– Nada! – disseram com um sorriso.
– Não me enganaram. – sorri para os dois vendo-os corar. – Quero saber do segredo também! – reclamei manhosa. Kath sorriu para mim reconhecendo minha manha desde moleca.
– Nana-nina-não! – ela cantarolou e eu fiz bico a fazendo gargalhar com Stefan.
– Mas que cunhada mais curiosa... – Stef apertou minhas bochechas com voz infantil.
– Vai apertar o... – não consegui manter o tom sério e caí no riso. Katherine me abraçou de lado e Tefef passou a mão por nossas costas em um meio abraço.
– Mais tarde te contamos, mana. Eu juro! Todos irão saber. – Kath me olhou sorrindo e Stefan exibia todos seus dentes.
– Ok! – falei girando os olhos. – Se não sou de confiança, eu espero! – falei brincando e ela assentiu.
– Com certeza! – rimos chegando a casa. Recebemos de imediato um olhar reprovador de Isobel que andava de um lado a outro.
– Vocês sabem que horas são? – ela perguntou. Tive vontade de perguntar se tinha cara de relógio, me contive.
– Não... – falei calmamente.
– São 18h13min! – ele gritou e eu dei de ombros. Ela torceu a boca para mim. – Vão se vestir que não quero que as pessoas as vejam assim.
Suspirei com a frivolidade daquilo e assentimos os três, subindo as escadas com indiferença e indo para nossos quartos. Minha mãe era tão antiquada e se preocupa tanto com o que irão pensar que obrigaria Katherine e Stefan a dormirem em quartos diferentes. Mesmo não reclamando, não gostaram daquilo e eu achava ridícula a falsa alusão que eles nunca tinham dormido juntos. Só minha mãe mesmo!
Nos despedimos por fim, indo nos arrumar para horas de festa cansativa.
Tomei meu banho, lavei o cabelo e os deixei secar com as ondas suaves que ele tinha, de longe menos implícitas como de minha irmã. Peguei em minha mochila o vestido que tinha separado para a festa e o vesti. Suspirei o tempo todo enquanto me arrumava pensando no motivo de tanta maquiagem e frufrus para uma simples festa, que de nada tinha de simples.
Eu preferia muito mais um churrascão na piscina, com umas cervejas, uma musiquinha relax e um bolo de chocolate, óbvio. Mas tudo tinha que ter escargot, caviar e coisas do gênero.
Ouvi batidas na porta e murmurei um “Entra!” ainda concentrada na difícil tarefa de passar delineador sem borrar ou deixar ficar grosso de mais. Kath entrou e apareceu atrás de mim no espelho usando um vestido esplêndido, seu bom gosto era evidente.
– Não puxe a pálpebra! – ele repreendeu sorrindo e eu bufei.
– Beleza! – falei e continuei puxando finalizando o traço “gatinho” no final e os repuxando para cima.
– Sempre teimosa! – riu.
– Sempre! – concordei sorrindo, – O que foi? – perguntei me virando para ela que me estendeu uma caixa totalmente embrulhada em rosa.
– Para você! – sorriu. E eu peguei a caixa e a tirei da embalagem revelando o emblema da Chanel. Abri a caixa vendo um lindo sapato de salto.
– Para mamãe não criar neura com seus pés. – Ela riu e eu também.
– Obrigada mana! – sorri.
– De nada. Hoje é um dia especial! – ela falou sonhadora.
– Claro que sim, mamãe completa cinquenta e todos anos de idade. – ri e ela assentiu divertida.
– Por isso também! – estranhei isso, mas ela logo saiu quando Stefan bateu na porta a chamando para descer. – Termine o make com batom vermelho e me encontre lá em baixo. – ela piscou e se foi.
Segui seu conselho e sai do quarto descendo as escadas respirando fundo para as horas de sorrisos falsos e total desinteresse pelos assuntos da Elite.
Como filha obediente, posei para algumas fotos com mamãe e Katherine; só minha mãe; Kath, Stefan e Eu; sozinha e etc. Senti-me uma intrusa no Red Carpet do Oscar. Rolei os olhos seguindo para o local onde a Turma do Barulho deveria estar. Eram os filhos rebeldes dos “amigos” de minha mãe do meu tempo de escola e alguns amigos, por motivos óbvios, eram o tipo de gente que eu andava no colegial.
Tomei algumas taças de champanhe, desejando a cada gole Vodka, Campari, qualquer coisa alcoólica o suficiente para poder superar a chatice que me dominava. Fiquei próxima todo o tempo de Stef, Kath e algumas poucas amigas como Caroline, Bonnie, Rebekah e Meredith, não as via com frequência, mas sempre fomos ligadas quanto mais novas.
Mesmo elas partilhando de minha aversão ao mundo falso da alta sociedade elas ainda moravam com os pais e viviam à custa deles sem ter coragem de “deixar de lado” como eu, mas elas eram boa gente, realmente divertidas e legais.
Assim minha noite menos tediosa, com a musiquinha de elevador e a comida que parecia vomitada por duendes, transcorreu. Porém me obriguei a sorrir na hora do “Parabéns”, mesmo me irritando muito, ela era e sempre seria minha mãe e eu a amava apesar de tudo.
No fim disso voltamos todos a nos espalhar, contudo minha irmã insistiu que me mantivesse na sala para algo e minha mãe também foi intimada. Stefan tinha sumido e quando ia perguntar por ele o vi pegar o microfone nas mãos e respirar fundo.
– O que...? – ia perguntar, mas desisti ao ver que ele ia começar a falar.
– Neste mesmo local, há dez anos, conheci uma menininha na sexta série. Extremamente inteligente e meiga... Viramos amigos. – sorriu. – Trocamos de escola, de ambiente e de lugar, mas sempre continuamos amigos... Até não querermos ser mais. Me apaixonei por ela, e ela por mim e começamos a namorar... Ela é incrível, em todos os aspectos, e me fez saber o que é amar e descobrir a dimensão deste sentimento cada dia mais que o outro. – Ele deu uma pausa, olhando diretamente para a menina do meu lado que eu abraçava, com o olhar vidrado de emoção, ela sorriu. Até a rocha da Dona Isobel sorria boba para o genro que conseguira silenciar a todos que prestavam atenção ao que ele dizia.
– Eu tenho tanta certeza da reciprocidade desse afeto a cada suspiro meu e gostaria de prolongar essa certeza para a eternidade. – Agora era ele que tinha os olhos brilhando. Respirou fundo e sorriu profusamente. – Ela já me aceitou como legitimo esposo. – ele riu. – Mas acho que inverti os papeis e agora gostaria, não de pedir permissão, mas sim a benção de minha cunhada... – ele me olhou com um sorriso. – E de minha sogra para que esta união seja a mais perfeita e completa em todo o mundo, com a aprovação dos familiares da minha noiva. – ele a olhou falando com emoção latente e os olhos estavam margeados. Um som mutuo e sentimental ecoou pelos presentes arrancando-lhes uma salva de palmas.
Kath já chorava e eu comecei também após ele finalizar a declaração mais linda que já havia visto na vida.
– Por mim vocês estão mais que abençoados... Estão benzidos! – brinquei e pisquei para ele que riu. Virei-me para minha mãe suplicando para ela partilhar de meu consentimento.
– Você sabe que faço mais do que gosto de lhe ter como genro. Um rapaz tão encantador e educado. – rolei os olhos, aquela era a tradução para “tão rico quanto eu”, mas eu sabia que para Kath isso era insignificante. – Vocês tem minha benção!
Ele sorriu agradecido e veio em direção a nós tomando-me Katherine e iniciando um beijo apaixonado. Nossos amigos assobiaram e soltaram gritinhos, mas o resto somente bateu palmas como antes.
Depois disso, a noite tinha ganhado ânimos para mim e não a considerei mais uma das muitas que gostaria de esquecer todo o baba-ovo comunitário.
“Kath tinha razão!” – ponderei quando já estava deitada em minha cama. – “Hoje foi um dia especial de várias maneiras...”
Deitei para um sono tranquilo para acordar totalmente descansada e até um pouco mais feliz do que de costume para o local. Estava sorrindo atoa por eles, por saber que se amam e serão felizes.
Tomei café da manhã com o casal-do-ano sorrindo para eles igual besta e Kath me mostrou, finalmente, seu anel de noivado lindamente desenhado para ela. Minha mãe não pôde perder a oportunidade de exigir que Katherine a deixe participar do planejamento de toda a cerimonia e isso me deixou um pouco apreensiva sabendo a tendência que minha mãe tinha em abusar até naquilo que já é exagerado, mas Kath aceitou querendo a participação tanto minha quanto de mamãe.
Outra oportunidade que mamãe não pôde perder foi de exibir sua filha noiva para onde quer que ela vá, para seja lá quem for, acabando com o nosso domingo permutando entre a casa de seus “amigos” para a chupação de saco costumeira. Sorrisos falsos, congratulações forçadas, um fingimento que me dava ânsia, mas Kath tinha a mania de sempre ver o melhor nas pessoas, nem que isso signifique que ela tem que inventar qualidades que as pessoas não possuam.
Antes que a madrugada de segunda nos alcançasse, nós três voltamos para New York e com mais alguns abraços, beijos e desejos de felicidade eu me despedi de Katherine e Stefan que se foram assim que terminei de pegar minha mochila e abrir o portão do edifício.
Subi para o sétimo andar com as pernas doídas pela subida de escada e cacei as chaves de meu apê ouvindo grunhidos humanos no hall. Só tinham três apartamentos por andar, e pelo o que eu sabia a Sra. Robinson não transava desde que seu marido morreu há alguns milênios, a não ser que ela fizesse sexo com seus gatos, então... Os sons só podiam vir do apartamento de Damon.
Aff! Não há um dia que eu tenha paz e silêncio sem que escutar esse filho da puta foder algumazinha? Fala sério!
Girei os olhos e entrei no loft largando tudo de qualquer maneira, só querendo minha cama para dormir sabendo que amanhã/hoje tinha serviço às oito horas da matina. Tranquei a porta e me despi me jogando sobre as roupas de cama e tentando ignorar as estrondosas batidas ritmadas vindo do apartamento de meu vizinho tarado contra a parede de meu quarto.
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